Ocorre algum choro de alegria,
Que com muita energia irradia,
Paz e a cordialidade benfazeja,
Que deixa o coração na sobeja.
Outro choro, de dor e tristeza,
Atinge a emoção na inteireza,
E a dobra para uma empatia,
Com quem é vítima de arrelia.
Outro choro ecoa no universo,
O efeito do humano perverso,
Que domina, agride e explora,
De maneira desleal e caipora.
É choro da terra ferida e arada,
Pelos humanos desrespeitada,
Num triste grito pela existência,
Geme ferida, e, sem assistência.
Índice
Apresentação...
1 – Corcunda Terra...
2 - Gemido da Terra...
3 – Gemido estranho...
4 – Economia do cuidado...
5 – Crise climática...
6 - Desvelo pela mãe Terra...
7 – Ecologia da mente...
8 – Fartura de pão...
9 – Frutos humanitários...
10 – Lugares e condições ignoradas...
11 – Movimento das águas...
12 – Na era da virosfera...
13 – O bem comum...
14 – Perigo iminente...
15 – Poluição do ar...
16 – Praxes habituais ...
17 – Sumiço da saúde...
18 – Tempo dos medos...
19 – Terra exausta...
20 – Terra santa...
21 – Torpor ofuscante...
22 – Varredor de folhas caídas...
23 – Veneno...
24 – Viandantes exploradores...
25 – Viver bem...
26 – A preciosa amabilidade...
27 – Agroecologia...
28 – Água...
29 – Árvore do bem e do mal...
30 – Arvoredo...
31 – As bioinvasões...
32 – Brilho de uma estrela...
33 – Cegueiras ambientais...
34 – Chuva...
35 – Cuidado solícito...
36 – Despojamento...
37 – Frugalidade...
Palavras finais: Intuições
visionárias...
APRESENTAÇÃO
A Terra não chora de exultação,
Acolhendo a visita de animação,
E nem está na alegria irradiante,
Diante do humanóide demente.
Chora, porque gravemente ferida,
Se encontra no limiar da sua vida,
E o agressor, frívolo e ambicioso,
Agride, cada dia mais presunçoso.
O gemido da dor, já não sensibiliza,
Nem aponta o rumo e nova baliza,
Para interação respeitosa e fruitiva,
Com convivência menos destrutiva.
O procedimento do dragão humano,
Comendo seu rabo no lídimo engano,
Segue cego, destrutivo e muito cioso,
E degrada sem ver seu fim tenebroso.
Mais despojamento com frugalidade,
Abre rumos para mais solidariedade,
E tal referência da intuição
visionária,
Aponta a relação menos mercenária.
1
CORCUNDA TERRA
Dobrada sobre o peso dos anos,
Vetusta e ferida por desenganos,
Anda desequilibrada e insegura,
Com a sua filharada em diabrura.
Os anos lhe roubaram a beleza,
E apesar de toda a sua inteireza,
Seus filhos mimosos já ingratos,
A agridem de modos insensatos.
A corcunda, torta de sofrimentos,
Vive só com minguados alentos,
Na resistência do amor maternal,
Apesar de filhos em ação infernal.
Cansada pelos desaforamentos,
Dos ambiciosos procedimentos,
Dos filhos ingratos e agressivos,
Já definha com os atos abusivos.
Tanto fez para que cuidassem,
E, entre si, muito se amassem,
Mas eles, no ar autossuficiente,
Destruíram jardim tão decente.
Sem colaborar com sua expansão,
Produziram o fogo da destruição,
E matam as plantas tão apreciadas,
E suas condições vitais e sagradas.
Resolveram buscar mais felicidade,
Na acumulação para sua saciedade,
Sem dó e, sem a ética de respeito,
Mas causaram relação de despeito.
Esta obsessão doentia por acúmulo,
Faz com que fogo os leve ao túmulo,
E o superaquecimento mate a Terra,
Mãe que não os gestou para guerra.
Na falsa felicidade da acumulação,
O frenético avanço pela ambição,
Produziu tantos pobres relegados,
A inalar ares fétidos e acalorados.
Sem olhar para a velha corcunda,
Sequer refrescam a sua cacunda,
E não encontram um hidratante,
Nos gemidos do calor sufocante.
Cegos ante alterações climáticas,
Fazem guerras em ações erráticas,
E espalham tanto veneno mortal,
Que acaba com toda inalação vital.
Ainda resta meio de ajudar a Terra,
Com zelo pela rica vida que encerra,
Para que a saúde e alegria de viver,
Ensejem festa da criação a antever.
Não pode seguir a inércia de ação,
Diante desta fragorosa destruição,
Que produz as vítimas injustiçadas,
Em ambientes e vidas já colapsadas.
2
GEMIDO DA TERRA
Uma cruel e perversa ideologia,
Enche nossa cabeça noite e dia:
A felicidade vem da economia,
A desenvolver-se na isonomia.
Olhar fito sobre bens da Terra,
Desperta a ambição que berra,
Para ampliar saque à natureza,
E cumular-se de farta riqueza.
Humano feito veneno danoso,
Metido a destruidor perigoso,
Atenta contra a própria vida,
E desrespeita a Terra querida.
Faz-se dono, sendo parte dela,
E mata mundos sob falsa trela,
Que atingem o seu organismo,
Ferindo-o com sádico cinismo.
Esquece que é parte da terra,
E mera condição que encerra,
A sagrada condição simbiótica,
Na vasta macro e micro-biótica.
Não capta o mundo circundante,
E nem se sente dele participante,
Pois alienado do que o deixa vivo,
Mata-se no procedimento reativo.
No direito de propriedade privada,
Faz com ela o que bem lhe agrada,
E esquece que ao matar sistemas,
Cria para si incontáveis problemas.
Estimulado para o economicismo,
Deste desenfreado destrutivismo,
Atenta contra a sagrada condição,
De fazer parte de vasta interação.
Se não é dono, mas apenas parte,
Deve alargar com desvelo e arte,
Uma convivência multisistêmica,
Para evitar propensão endêmica.
3
GEMIDO ESTRANHO
Não vem de pessoas na intimidade,
Nem das exultações de felicidade;
Tampouco das ocasiões de parto,
Ou de secretas brigas em quarto.
É gemido angustiado e profundo,
Que fervilha com ronco iracundo,
Advindo do rico húmus da terra,
A clamar contra absurda guerra:
Não somente a das armas letais,
E de arrogâncias contra vegetais,
Mas a da obsessão pelos fósseis,
E fome de devastadores mísseis.
É o gemido dos sistemas de vida,
Objetos da felicidade prometida,
Para a acumulação devastadora,
Insensível a mudança inovadora.
Qual monstro a engolir seu rabo,
E morrer no seu próprio estrabo,
Neo-feudais do tempo hodierno,
Fazem da vida humana o inferno.
Colocaram-se no lugar do Criador,
E perversos no plano agenciador,
Querem submeter vasto mundo,
A mórbido desejo nauseabundo.
Seu poder movido pelos desejos,
Desprovido dos éticos lampejos,
Forja-os em mortais predadores,
Sem captar a vastidão das dores.
Insensíveis a sofrimento humano,
Revelam à natureza o pífio plano,
De tudo transformar e escravizar,
Para seu psicótico estado realizar.
Vivem do subsolo e da rica mata,
E deles sugam na maldade pirata,
Até o necessário para sobreviver,
Sem aprender, com eles conviver.
4
ECONOMIA DO CUIDADO
Traída na economia de mercado,
Virou assunto de ex abalaustrado,
A quem não se dá nenhum valor,
E, apenas referência de despudor.
A ecologia, vitimada por má fama,
Sequer flui na voz que se proclama,
Porque endeusamento consumista,
Quer o acúmulo de lucro financista.
Obsessão pelo crescimento infinito,
Quer competitividade de alto grito,
Para que coisa nenhuma atrapalhe,
E não se avente o ecológico detalhe.
Mesmo sendo economia de morte,
Enamorou-se de parceira consorte,
Da santa teologia da prosperidade,
Como enlace de elevada felicidade.
Acumulação como bênção de Deus,
Com herança liberal dos europeus,
Venera mão invisível do mercado,
Como ação divina de etéreo agrado.
Assim, avareza é a virtude suprema,
Contra a qual se nega estratagema,
Do mundo roubado na rapinagem,
Que deixa pobreza sem mensagem.
Fundamentalismo de aborofobia,
Odeia pobre espoliado com fobia,
Como culpado pela sua condição,
E relegável à sua procrastinação.
Justiça social virou assunto vazio,
Que causa tédio e amuado fastio,
Pois, crescimento na farta posse,
Permite comprar na sobreposse.
Com evidência de ecologia finita,
Ela não cabe na vontade infinita,
Do ardiloso desenvolvimentismo,
Socado qoela abaixo com cinismo.
5
CRISE CLIMÁTICA
Assunto irrelevante para o agro,
A crescer sem resultado magro,
Não perturba mente ambiciosa,
Nem provoca reação polvorosa.
O êxito da ambiciosa economia,
Requer uma particular isonomia,
Favorável ao largo crescimento,
Para um espantoso rendimento.
Farta riqueza para alguns poucos,
Produz levas mudas de amoucos,
Que sonham com sorte dos ricos,
E fruem pobres efeitos entéricos.
A falsa hipótese de um equilíbrio,
Move uma economia de opróbrio,
E fere mortalmente o nosso clima,
Com a degradação da auto-estima.
Avanço do agro requer fogo na mata,
E sem se importar com a tática pirata,
Sequer admite postura dum respeito,
Ao eco-sistema em seu sereno preito.
O desenvolvimentismo não vê bioma,
Mas só o que se enquadra na redoma,
Das colheitas ampliadas e mui fartas,
Mesmo provocando ecologias mortas.
Os recordes de temperaturas elevadas,
E efeitos das áreas de terra sublevadas,
Permitem inalar apenas fumaça tóxica,
Causada por insensibilidade sarcástica.
6
DESVELO PELA MÃE TERRA
Nem ação de gratas sentinelas,
E sem vanguardas de tramelas,
Desvelo pela mãe Terra sumiu,
E ela, toda machucada, fremiu:
Contorcionismo das suas dores,
Regurgita entranhas de pavores,
Nem assim consegue convencer,
E a ambição humana enternecer.
Com seu forte e explícito clamor,
Direcionado ao humano torpor,
Não sensibiliza o elã petrificado,
Do vil ‘Homo Sapiens’ obcecado.
No jogo voraz sobre os espólios,
Querem Terra para monopólios,
Mas ela, já machucada e ferida,
Alerta que está sendo abatida:
Já não controla secas violentas,
Nem as chuvas com tormentas,
Ou furacões fortes e tornados,
Sequer calor e dias escaldados.
Os ventos todo desequilibrados,
Estragam para quaisquer lados,
E cidades à beira dos belos rios,
Sofrem enchentes com arrepios.
Elevação do nível dos oceanos,
Apavora desbravadores ufanos,
E na acidificação de suas águas,
Deixa muitas condições árduas.
Nos golpes de desmatamentos,
Rareiam necessários proventos,
Da produção agrícola saudável,
E um equilíbrio biodegradável.
Secam os fluxos de rios aéreos,
Crescem ambientes deletérios;
Sem fruir os ricos ecossistemas,
Morre Mãe Terra dos sistemas.
7
ECOLOGIA DA MENTE
Em natureza degradada,
Duramente vilipendiada,
Fluem fanatizadas ideias,
Sobre humanas odisseias.
A dissonância da mente,
Com ecologia padecente,
Revela larga ideia cultural,
De disparate conjuntural.
Separa-se sentido da vida,
Com o da Terra denegrida,
Com noções inapropriadas,
Coletivamente sustentadas.
No pensamento defeituoso,
De um ambiente delituoso,
Flui desrespeito ecológico,
E o triste efeito patológico.
A estranha doença coletiva,
De uma teimosa aleivosiva,
Reproduz ideia inadequada,
E cega rixidez inapropriada.
Quando tantos psicodélicos,
Estimulam eventos bélicos,
Falta uma mudança religiosa,
Para superar ideologia raivosa.
Tantos caminhos redentores,
Propagam atos interventores,
Mesclados na decisão política,
Para fanática posição acrítica.
Quando a mente está poluída,
Não se vê a ecologia agredida,
Pois a ambição descontrolada,
Dispensa toda noção inovada.
Com pensamento defeituoso,
Aflora vasto senso impetuoso,
De ideologizar ideia superada,
Que visa ganância famigerada.
8
FARTURA DE PÃO
Velho sonho de povos semitas,
Perpetua frustrações malditas,
Em tempos de larga produção,
Tidos como o auge da evolução.
Como entender tanto alimento,
E seu agudo sumiço no sustento,
Do lar de 50 milhões de pessoas,
Latinoamericanas de lidas boas?
Ajudam a produzir o alimento,
Que sacia em quinze por cento,
O consumo de todo o planeta,
Sem obter refeição completa.
Reféns do oligopólio lucrativo,
Veem sumir o sonho paliativo,
Da dignidade do seu trabalho,
Sem a condição de frangalho.
Suas moedas valem tão pouco,
Ante processo frenético e louco,
Por lucros espantosos e visíveis,
De impérios ricos e insensíveis.
Ao venderem oitenta por cento,
Do suado fruto do seu provento,
Só podem continuar esfaimados,
E seus sonhos de pão, dizimados.
Desiguais no alimento produzido,
Com inflação do salário adquirido,
Veem corroído o desejo de fartura,
E sobra apenas ignóbil desventura.
O dinheiro para armas de morte,
Daria comida farta de toda sorte,
Para todos os viventes do planeta,
Sem denegrida súplica de gorjeta.
A desigualdade social justificada,
Nada pensa em ficar desarmada,
Para larga acumulação e defesa,
Explorando a multidão indefesa.
9
FRUTOS HUMANITÁRIOS
Tão longa ancestralidade humana,
Não superou a ambição doidivana,
De desejos infindos e fanatizados,
E com vítimas para todos os lados.
Sem recordar as pífias crueldades,
Com as monstruosas atrocidades,
Montes de cadáveres sob a terra,
Adubam obstinações pela guerra.
Velho mito de combater inimigo,
Reduz o sofrimento a choramigo,
E insensibiliza ante a dor alheia,
Um mero choro de barriga cheia.
Traumas, perdas e desamparos,
Sob atos indiferentes e preclaros,
Evidenciam a perda de memória,
Do fracasso humano na história.
Nas tantas e horrendas guerras,
Movidos por domínios e terras,
Psicopatas loucos e insensíveis,
Criam vítimas por culpas risíveis.
Indiferentes às hediondas mortes,
Veem só o alcance de seus aportes,
Da sua primazia para a subjugação,
E da real legitimidade da sua ação.
Com tantos prepotentes humanos,
A gerar seguidos genocídios insanos,
O tão grandioso empenho pela paz,
Esmorece ante ódio que nada apraz.
A hedionda e tão abominável guerra,
Com certeza, não se evadirá da Terra,
Enquanto ocorrer a aposta nas armas,
E, educação para desumanas carmas.
10
LUGARES E CONDIÇÕES IGNORADAS
Velho tem que ir para a eira,
E ser considerado na rabeira,
Pois o seu passado não conta,
E para nenhum rumo aponta.
Tanto adorador do presente,
Se fecha ao futuro diferente,
Uma vez que quer perpetuar,
E só este presente prorrogar.
Protegidos nos condomínios,
Alargam seus vastos domínios,
E frequentam ambiente seleto,
Nada modesto e nada discreto.
Não querem mudança em nada,
Nem na população consternada,
Pois importa salvar o seu status,
Com as regalias do seu habitus.
Cristãos odeiam Igreja em saída,
E não toleram nenhuma medida,
Que possa requerer uma partilha,
Ou que ameace a segura cartilha.
Quaisquer mudanças das regras,
Vistas como perigosas desregras,
Negam um futuro pela repetição,
Do presente vivido na exaustão.
Largas saturações informativas,
Repetidas em falazes invectivas,
Fazem ignorar todo o passado,
E fecham eventual novo legado.
O excesso deste “aqui e agora”,
Realimenta medos de outrora,
Sobre a ação comunista cruel,
Que configura regra nada fiel.
Eterno presente absolutizado,
Cria o status quo privilegiado,
Para quem, todo enriquecido,
Quer fruir mundo guarnecido.
11
MOVIMENTO DAS ÁGUAS
Ao revelarem suas forças inéditas,
Silenciam falsas vozes intrépidas,
E escancaram as portas do futuro,
Com um recado severo e obscuro:
Fecha-se o futuro do planeta Terra,
Na ambição humana que emperra,
A sabedoria da natureza adoentada,
Por humanos na ação desorientada.
Falsa promessa de ampla felicidade,
Da agressão à Terra na cumplicidade,
Sustentou atos político-econômicos,
Para formas de vida bem anômicos.
A teimosia ante processos naturais,
Agora vítima de águas torrenciais,
Sequer pensa mudar sua obsessão,
Para continuar em doentia tradição.
Pensada além da força da natureza,
A condição humana com esperteza,
Sucumbe na catástrofe reveladora,
Da sua ação nefasta e exploradora.
Apesar de dores e da solidariedade,
O estalo de alertas à humanidade,
Aponta-a culpada pela catástrofe
E impõe lei com ordem limítrofe.
Nosso capitalismo cego e obstinado,
De desenvolvimentismo fanatizado,
Apontou para a exploração infinita,
E desequilibrou a natureza bendita.
Sob os eventos climáticos extremos,
Em quaisquer lugares que estaremos,
Vamos, impreterivelmente inseguros,
Viver os constantes e inéditos
apuros.
As grandes cidades e suas emissões,
Produzem gases e naturais agressões,
E se configuram nas primeiras
vítimas,
Diante da justiça ecológica de
lástimas.
12
NA ERA DA VIROSFERA
Sob os humanos tão valentes,
Em seus domínios polivalentes,
O apogeu superior e mais forte,
Depende de virose e seu aporte.
Quase invisível ao olho humano,
Espalha com um efeito inumano,
O domínio sobre sonhos e planos,
E mira os campos trans-humanos.
Impõe ao planeta a sua economia,
Altera rotas comerciais de anomia,
E quebra fixos esquemas culturais,
Freando negociações conjunturais.
Ignorada pela voracidade humana,
A virose lhe mostra a ação insana,
Do mórbido desrespeito à ecologia,
E do diagnóstico da sua patologia.
A virosfera em seu universo maior,
Aponta o que ambição fez de pior,
E sentencia de morte o vencedor,
Vingando-se do humano fazedor.
Neste hiper-proclamado vencedor,
Espalha fagos para moer seu ardor,
E freá-lo na loucura de suas
ambições,
De lucrar com impróprias suposições.
O não reconhecimento das simbioses,
E o trato hospitaleiro das ricas
bioses,
Predispõe nos anfitriões
parasitários,
Fúria voraz a hospedeiros
arbitrários.
Na bajulação da “condição humana”,
Revela-se a traição da vida humana,
Que requer muitas espécies de vida,
Até para a proteção na cotidiana
lida.
13
O BEM COMUM
Expressão simpática e sentimental,
Perfeita para discurso sensacional,
Some de fininha na vida concreta,
E parece a cereja no bolo da meta.
Verbalizada nas lindas idealizações,
Comove até os sensíveis corações,
Mas, não fica no topo do estrado,
Ante o particular foco do mercado.
Ali governa o interesse particular,
Para competir de forma singular,
Sob uma concepção individualista,
Que olha tudo pelo viés utilitarista.
Até as políticas sociais
prestigiadas,
Ignoram as pessoas desprivilegiadas,
E se servem das forças de barganha,
Para locupletar membros na manha.
Esquecem que indivíduos dependem,
De fatores sociais e neles ascendem,
E o todo da sociedade é mais valioso,
Que particular indivíduo ganancioso.
A relação social também é anterior,
Ao indivíduo todo metido a superior,
E bem comum requer dom partilhado,
E não o sujeito solitário
ensimesmado.
Na providência de condições sociais,
O bem-estar alarga ambientes gerais,
Com a essencialidade da vida cordial,
E com o efetivo amparo institucional.
14
PERIGO IMINENTE
A tão venerada tecnologia,
Vive crise na sua apologia,
Porque surrupiou o poder,
E briga para não o perder.
No avanço das invenções,
Impõe-se sobre as nações,
Com barganhas de guerra,
E no largo lucro se aferra.
Nada importa governança,
Nem democrática bonança,
Mas um domínio na venda,
Da sua programada agenda.
Bem obcecada pela guerra,
Não liga para quem se ferra,
Mas oferece armas mortais,
Para ajuntar lucros integrais.
Enquanto rivais se eliminam,
Os controles se disseminam,
Reconfiguram foco de poder,
Sem sinal de se compadecer.
Desequilíbrio da sociedade,
É promulgado sem piedade,
E visível desastre climático,
É ignorado com ar apático.
Nas supostas democracias,
Eivadas de largas piratarias,
As governanças populistas,
Criam ares sensacionalistas.
Organismos internacionais,
Perderam seus referenciais,
E feitas vozes sem audição,
Vão morrendo de inanição.
As tão horrendas guerras,
Mais do que luta de feras,
Criam ideologias do ódio,
Para um lado do repúdio.
Assim, grandes empresas,
Oferecem fartas surpresas,
E primam por rivalidades,
No clima de animosidades.
15
POLUIÇÃO DO AR
A saudade do ar oxigenado,
Cede lugar a clima ominado,
Que obriga a vasta natureza,
A respirar o ar da impureza.
Agente causador da poluição,
É anônimo poder de ambição,
Que não vê efeito do carbono,
E alastra a morte como abono.
O incêndio criminoso se amplia,
Espalha ar poluído sem cortesia,
E aufere à Amazônia a titulação,
De campeã mundial da poluição.
Foco pervertido da monocultura,
Exulta com eucalipto de bravura,
Para suprir caldeiras siderúrgicas,
Que abasteçam as metalúrgicas.
Conhecido como vampiro da água,
O eucalipto tão adorado deságua,
Na desertificação das ricas terras,
E expropria para cantar de serras.
Doença febril por larga mineração,
Depreda biomas e a sua condição,
Sem legislação capaz de obstruir,
E sem mobilização para abstruir.
Aprender dos povos originários,
Ajudaria aos agentes arbitrários,
A viver no respeito com a mata,
Para cuidá-la de forma sensata.
Preservação do meio-ambiente,
Permitirá um caminho decente,
Para que o ar oxigene o pulmão,
E conduza vitalidade ao coração.
16
PRAXES HABITUAIS
Múltiplos hábitos fazem bem à vida,
Oferecem-lhe amparo com guarida,
E dão o doce sabor da estabilidade,
Para se fruir a genuína identidade.
Sentado todo dia no mesmo lugar,
Diante da paisagem sem subjugar,
Contemplo o capricho da natureza,
Na sua demonstração de inteireza.
Sentar-se no mesmo lugar da mesa,
Servir-se com objetos de singeleza,
Lembram gestos simples e valiosos,
Dos doadores e apreços atenciosos.
Assim, café gostoso na velha xícara,
Remete a afeição sem falsa máscara,
E que na sintonia gera ritual
festivo,
Que faz valioso o ato comemorativo.
Rituais diários advindos dos hábitos,
Sempre voltam a reativar os débitos,
De sentimentos gratos e bons gestos,
Para viver sem intrigas, nem doestos.
Sob a doença capitalista da produção,
Reina lida escrava da superprodução,
Que aumenta voracidade hiper-real,
E mata a dimensão simbólica ritual.
Sem ritualizações com simbologias,
Prevalecem as fanáticas apologias,
A focar poder e a sua precedência,
Venenos para a razão da existência.
Produzir muito para consumir mais,
Torna dias e eventos festivos iguais,
Na rotina obcecada pela felicidade,
De comprar e consumir à saciedade.
Hábito cotidiano e variados rituais,
Regam sentido da vida com sinais,
Para elevar na grandeza humana,
Preciosa cordialidade que irmana.
17
SUMIÇO DA SAÚDE
Enquanto glifosato impera,
Saúde piora e vira quimera,
E grandes anseios de saúde,
Desmoronam na vicissitude.
Sob a lógica que rege a vida,
Na dureza da cotidiana lida,
Já exacerbada por trabalho,
A saúde vira um frangalho.
Lenitivos para evitar a dor,
Viram outro maléfico feitor,
Para contornar o cotidiano,
Com analgésico draconiano.
Vasta indústria do remendo,
Produz remédio estupendo,
Para consumo dependente,
Mas sem o efeito emoliente.
Assim, consumo de remédio,
Produz um deplorável tédio,
Para dependência alienante,
Que assegura dor lancinante.
Quando sonho de lar e filhos,
Força todos em rígidos trilhos,
Com sobrecarga de atividades,
Somem sonhos de felicidades.
Entre saudosismo do desejado,
E um cotidiano todo prensado,
O remédio para suportar a dor,
Vai apagando até o pundonor.
Sobra a vida de pais sofridos,
Com os filhos nada queridos,
Nem acalantados pela oferta,
Que insinua a aquisição certa.
Sufoco no acúmulo supérfluo,
Envenena o quadro venífluo,
E adoece sistemas do corpo,
Sem imunologia de anticorpo.
18
TEMPO DOS MEDOS
Bloqueadores das paixões,
E freios das interconexões,
Os medos isolam iniciativas,
E relegam ações prestativas.
Imobilizam os movimentos,
E desanimam bons intentos,
E congestionam bons fluxos,
Para soltar amargos refluxos.
Grudados à perda de alguém,
Tratam outros com desdém,
E atrapalham encantamentos,
Por possíveis e novos alentos.
Atrapalham na vida diuturna,
A aceitação de perda soturna,
E freiam o suave deslizamento,
Da existência por bom alento.
Atrapalham a rica criatividade,
E cegam a vista à diversidade,
Para apego a algo encantador,
Com o elã novo e arrebatador.
Movem para os falsos apegos,
Sem esquecer os frios arregos,
Dum passado pouco edificante,
E de pouco processo aderente.
Prendem às situações mortas,
Com as reforçadas comportas,
Para repetir a monótona vida,
Da mesmice vazia e repetida.
Falseiam base do chão da vida,
E a consideram bem preterida,
Para soltar afetos desvairados,
E apegos a sofrimentos irados.
19
TERRA EXAUSTA
Pisando nas ruínas do lixo,
Com tanto doente bicho,
Relegado ao léu da sorte,
Anula-se todo bom aporte:
O crescimento estimulado,
Para tirar do solo o legado,
De uma riqueza acumulada,
Está numa ruína desandada.
Exaurir terra como religião,
Tornou-se a maior adoração,
Da raça humana decadente,
Deslumbrada por excedente.
O desastre sócio-econômico,
De acúmulo nada encômico,
Aumenta e explora a Terra,
E a envenena com a guerra.
Doente ambição de acúmulo,
Torna-se um central estímulo,
Para extorquir em toda Terra,
A vasta riqueza que encerra.
Aumento de pobres e famintos,
Acuados em precários recintos,
Escancara a tragédia humana,
E de modo ingente desengana.
As autoridades interesseiras,
Em suas explícitas baboseiras,
Facilitam às elites insensíveis,
Juntar de modos inadmissíveis.
Nas queimadas pelo latifúndio,
A terra sofre com o vilipêndio,
E, ante genocídios indefesos,
Os eco-sistemas morrem tesos.
Na estúpida fala progressista,
Obsoleta na busca narcisista,
Eucalipto vale mais que gente,
Que relegada, some indigente.
Os seres caçulas da mãe Terra,
Seduzem-na com dura guerra,
E ela já exausta e semimorta,
Os ingere sem bens, sem horta.
20
TERRA SANTA
Proclamada como paraíso terrestre,
Não acatou qualquer lição de mestre,
E segue tenaz na velha sina adâmica,
De disputa da riqueza mesopotâmica.
Solidificada no lugar da árvore da
vida,
Perdeu a sua capacidade enternecida,
E entusiasmou-se na função de oleira,
Para agir como onipotente guerreira.
A bela e rica imagem de povo santo,
Co-criador com o Deus sacrossanto,
Subsumiu ante o deus dos exércitos,
E ruiu noção de gestos beneplácitos.
Milenar rotina de sangrentas guerras,
Engoliu preciosas noções
anti-guerras,
E entronizou fé nas sofisticadas
armas,
Para ser a razão última de suas
karmas.
Constantes conluios com os poderosos,
Propiciaram-lhe os percalços
tortuosos,
De vertiginosos fracassos com
derrotas,
E subumanas lidas com as bancarrotas.
Velha tentação adâmica persiste
tenaz,
E foco no fascínio por sangue que
apraz,
Realimenta ciclos do ódio e da
violência,
Sem compaixão, nem sinal de
clemência.
Prevalece DNA fenício do deus do
sangue,
De matar com um esportivo bumerangue,
Pois Molloch, feliz com o sangue
humano,
Exige guerra e morticínio
super-humano.
Assim, esperança de jardim
paradisíaco,
Sucumbe no processo humano maníaco,
Do incrível detrimento ao viver
humano,
Com a teimosa guerra por desejo
insano.
Berço e mãe gestora de modo
inusitado,
Daquele que apresentou precioso
legado,
Foi vitimado na consagração da
violência,
E até usado para justificar a
maledicência.
Na dor das incontáveis vítimas
inocentes,
Não consolam esperanças benemerentes,
E nada repõe a diabólica ação nesta
terra,
Para tão sufocada vida, que clama e
berra.
Se pessoas valem menos do que
minérios,
Ante paranoia de pensamentos
venéreos,
A contagiar sua loucura através de
armas,
Não sobra espaço para interações
calmas.
21
TORPOR OFUSCANTE
Cada dia mais anestesiados,
Pelos ideologizados dados,
Que aos poderes interessa,
Cresce a sensação opressa.
Abusadores do seu poder,
Chefes levam a escafeder,
Não apenas vida humana,
Mas, donde ela promana.
Se louco poder mundial,
Tudo aposta contra rival,
E faz sofisticada guerra,
Toda a vida se emperra.
Se as secas e enxurradas,
E as friagens extremadas,
Nada afetam mandantes,
Ficam ruínas abundantes.
Nos bilhões de humanos,
Diante dos riscos insanos,
Da obsessão por guerras,
Só aumentam quimeras.
Inquieta situação do clima,
A cada dia mais desanima,
Porque a sede por guerras,
Não muda políticas esferas.
Ante torpores sonolentos,
Inférteis de bons alentos,
Aumenta o mito da guerra,
E todo planeta desespera.
Vastos aparatos militares,
Longe dos ares salutares,
Levam morte e destruição,
E salvam política obsessão.
Expõem vida à intempérie,
Seguem absurda barbárie,
Em nome de guerra justa,
E no planeta, só desajusta.
Implicam em larga matança,
Para assegurar boa finança,
De ampliações imperialistas,
Para as adoradas conquistas.
Ofuscam e travam os sonhos,
Com procedimentos bisonhos,
A atentar contra bom senso,
Da humana graça de ascenso.
22
VARREDOR DE FOLHAS CAÍDAS
O despontar das folhas verdes,
Para apontar flores alviverdes,
Das serenidades esperançosas,
Desvia a atenção das buliçosas.
Inquietação por algo diferente,
Relega tudo que já foi atraente,
E persuade a ignorar o outono,
Como a miragem de um sono.
As folhas amareladas que caem,
Mortas sob as que sobressaem,
Não encontram compensações,
Nem energias de improvisações.
Com a varredura desta dispersão,
Amontoa-se a disfarçada aversão,
De quem não interessa para nada,
Na doideira desta vida disparada.
Nesta vulnerabilidade aquilatada,
Emerge a dura sentença imputada,
Da árdua tarefa por reciprocidade,
Que retribua motivo de utilidade.
O húmus advindo de folhas caídas,
De muitas vontades não atingidas,
Pode energetizar a decrepitude,
Contra a inconstante vicissitude.
Andejar após dúzias de derrotas,
E repleto de rótulos sem janotas,
Revela incompletude sem alarde,
E recomeço sem espírito covarde.
23
VENENO
Desde tempo em que era pequeno,
Alertava-se contra ação do veneno,
Para evitar o contato e sua inalação,
A fim de não morrer pela sua ação.
Enquanto a mesma conversa segue,
Aposta humana doentia prossegue,
Envenenando solo, água e animais,
Plantas e micro-organismos vitais.
O desejo ambicioso fora do normal,
Do agronegócio lucrativo e triunfal,
Parece lagarto comendo seu rabo,
E se matando a si no ilusório gabo.
As colheitas adoradas pela renda,
Para acumular poder de oferenda,
Sempre mais fartas de intoxicantes,
Devoram vida em atos causticantes.
Enchem veias e o corpo de toxinas,
E perpetram horrendas carnificinas,
Com o cádmio, arsênio e antimônio,
Ou chumbo, mercúrio e o plutônio.
Tantas toxinas, ricinas e
estricninas,
Letais como a poluição de gasolinas,
Acabam afetando biomas e sistemas,
Com nefastos e mortais estratagemas.
Importa produzir muito e vender mais,
Sem regra ética sobre efeitos
colaterais,
Mesmo com as intoxicações
perniciosas,
A ceifar vidas e suas condições
preciosas.
Somem até milenares festas de
colheita,
Com a alegria da gratuidade
escorreita,
De bom-senso comunitário de partilha,
A unir e irmanar no que se
compartilha.
Secantes, com inseticidas e
fungicidas,
Junto de tanta variedade de
pesticidas,
Matam o mundo dos micro-organismos,
E proliferam os humanos anacronismos.
Sem a simbiose de vida do ambiente,
Aniquila-se a ampla vida interagente,
E veneno sendo absorvido e ingerido,
Deixa o belo rol humano desfalecido.
24
VIANDANTES EXPLORADORES
Visão obcecada pelo chamativo,
Move largo senso acumulativo,
Para adquirir o bonito e valioso,
Em razão de acúmulo pomposo.
Viandantes agitados se cruzam,
E em todos os espaços abusam,
Encantados pelo mercantilismo,
E afoitos pelo patrimonialismo.
Supõem-se acima da natureza,
Livres para violá-la com crueza,
E pior, um país explora outros,
Irresponsável ante os sinistros.
Relação doente com a natureza,
Força seres humanos à pobreza,
Para aumentar larga ostentação,
Insensível na perversa destruição.
Subestimam os abusivos estragos,
Cegados e cheios de rótulos vagos,
Para não enxergar riscos no futuro,
Nem repartir algo do seu monturo.
Já não veem a árvore encantadora,
Mas a chance mercantil adoradora,
Para empanturrar-se com festança,
E esnobar ostentação na lambança.
Acham-se dominadores do mundo,
E não anteveem o futuro iracundo,
Porque metas do sono da política,
Subsumiram vazias na Lei acrítica.
Não aprenderam a ler nos sinais,
Efeitos das suas fichas criminais,
E lavam as mãos como inocentes,
Ante os ecossistemas padecentes.
25
VIVER BEM
Com as tantas teorias já caducas,
Explicações fanáticas e malucas,
Arvoram-se no poder de mandar,
O que todos precisam demandar.
Nos detalhes para o caminho feliz,
O tapete macio dos segredos sutis,
Alardeia a prosperidade financeira,
Dádiva divina da bênção altaneira.
Não lembra aquela arte tão rara,
Tida como cega estupidez ignara,
De colher frutos da experiência,
Ante uma tão absurda evidência.
No vasto sofrimento denunciado,
Nada sensibiliza humano legado,
Para um humanismo sem guerra,
E duma interação que não ferra.
Na astúcia do variado “jeitinho”
Sempre pinta inusitado caminho,
Para os desejos mais audaciosos,
Com roubos mais inescrupulosos.
Muitas retribuições asseguradas,
Já não focam famílias agregadas,
Mas apontam um indivíduo feliz,
Empanturrado em bens que quis.
Somem emocionadas memórias,
Com histórias de lutas inglórias,
Ante pestes tão vorazes e letais,
E guerras doidas e hiper-mortais.
Raros sinais e gestos de empatia,
Ainda reavivam força da simpatia,
Para acreditar que senso humano,
Pode efetuar mais que desengano.
26
A PRECIOSA AMABILIDADE
Perceptível de longe e de perto,
Anda radiosa, de espírito aberto,
E se delineia no rumo contrário,
De tanto mecanismo temerário.
Sem arma de mecanismos cruéis,
É respeitosa mais que os vergéis,
E se orna com preciosa gentileza,
Para redimir a humana inteireza.
Objeto de primeira necessidade,
Afugenta a larga agressividade,
E dissuade o azedo mau humor,
Para espalhar lídimo pundonor.
Dilui docemente a razão de ser,
Porquanto leva a se enternecer,
E delega sabor vital à existência,
Para enchê-la de benemerência.
Como professora muito especial,
Repassa de forma tão imparcial,
Um modo de cuidado e de trato,
Que eleva o gesto com aparato.
Alivia incontáveis pesos alheios,
Com seus discretos saracoteios,
E gesta o milagre do belo sorriso,
Transformador do olhar indeciso.
Deixa estupefata a indiferença,
E remove a obnubilada crença,
Com o ânimo de palavra amiga,
Que contorna qualquer intriga.
Como a virtude de excelência,
Sabe dosar a nobre prudência,
Para espalhar rica integridade,
Na pífia ordem da iniquidade.
27
AGROECOLOGIA
Depois que o grande jardim,
Perdeu sua razão de festim,
Parece tempo fútil sonhar,
Agroecologia de enfronhar.
Movimentação pela comida,
Gera uma aposta destemida,
Da indústria agrícola esperta,
Para vender sedutora oferta.
Os gigantes agroalimentares,
Trilham inusitados patamares,
Sob uma inteligência artificial,
Para lucratividade sensacional.
As megaoperações biodigitais,
Apossam-se de bens naturais;
Acuam pequenos agricultores,
A periféricos locais estertores.
Não importam belas paisagens,
Mas boas áreas para vantagens,
De produção com muito retorno,
E ultraprocessagem de estorno.
Sem barreiras para as ambições,
Surgem as grandes corporações,
Atreladas ao sistema financeiro,
Sob barganha de lucro trapaceiro.
Com os potentes tratores robóticos,
E os drones pulverizantes exóticos,
A disponível alimentação saudável,
Cede lugar para comida formidável.
Nas belas embalagens hiper-reais,
Produtos ultraprocessados banais,
Enchem mesas de ricos e pobres,
Como se fossem alimentos nobres.
28
Água
Preciosa como o ouro adorado,
De brilho superior ao dourado,
Encanta pela azulada coloração,
E mexe na essência do coração.
Enriquecida por ricos minerais,
Alimenta os ares e mananciais,
E, na a riqueza tão exuberante,
Vitaliza com esmerado talante.
Da nobre função de alimentar,
E de acalmar a sede elementar,
Mereceria mais que a ambição,
Cultuada na humana condição.
A sua coloração argenta e bela,
Fornece mais que toda a trela,
Das humanas procrastinações,
Enrustidos em perversas ações.
Essencial à condição humana,
Apesar da ingratidão sacana,
É merecedora de veneração,
Mas recebe ignóbil agressão.
Maculada por tantos dejetos,
Retorna aos humanos abjetos,
Para ostentar a sina da morte,
E indicar o rumo da sua sorte.
29
ÁRVORE DO BEM E DO MAL
Vetusta interpretação religiosa,
Inquietada pela ação maldosa,
Da ganância humana perversa,
Ilustra nossa maldade dispersa.
Desejo de ocupar lugar superior,
Com a gana de roubar o inferior,
E no desrespeito à vida humana,
Denigre a natureza e a profana.
Descaso diante dos eco-sistemas,
Tira a vida e causa os problemas,
Da argila já sem o hálito de vida,
Que deixa nossa condição ferida.
Cultivo do solo sem ar de jardim,
Rouba todo perfume do jasmim,
E aflige a vida familiar e coletiva,
E a deixa em guerra tão reativa.
Teria Deus planejado a ganância,
Como traço de subida elegância,
Para o mando e desmando geral,
Fazendo de cada ser um general?
A sorte humana longe do Éden,
Lembra as ambições que fedem,
Sob conhecimento da maldade,
Com desencontros à saciedade.
Imagem do Éden mesopotâmico,
Ante o ambicioso perfil adâmico,
É revivido pelo homem moderno,
De ganancioso anseio sempiterno.
30
Arvoredo
Tão encantador pelo conjunto,
Torna-se um peculiar assunto,
No epicentro dos sentimentos,
Onde desperta encantamentos.
A beleza esconde duras labutas,
De avanços e ferrenhas disputas,
Para o alcance de maior espaço,
Do oxigênio para o belo regaço.
Sob a terra, seivas exuberantes,
Sofrem uma guerra beligerante,
Das raízes em lutas interesseiras,
Para ostentar copas alvissareiras.
Na silenciosa trama de avanços,
Guerra interminável com ranços,
Leva a avançar sobre os espaços,
Sem o respeito para os rechaços.
Como tantos sorrisos acolhedores,
Escondem os seus reais pendores,
Pois, tramam, enleiam e sufocam,
E apenas sobre avanços se focam.
A humana lida de tantos encantos,
Repete algo parecido em recantos,
Nada visíveis ao estado consciente,
Sufocador de imensidão padecente.
31
AS BIOINVASÕES
O contra-ataque aos nossos ataques,
De um pequeno vírus sem destaques,
Feriu a inaudita prepotência humana,
E detonou tática da guerra doidivana.
Enleou toda a sofisticada espionagem,
E cruzou os detectores da parolagem,
Para travar o ar de altivos guerreiros,
E até de inocentes e pobres obreiros.
Acertou o alvo econômico-financeiro,
Com o militaresco tão vil e arruaceiro,
E salientou a eficiência da sua tática,
Contra a tecnologia humana errática.
Hedionda guerra humana à natureza,
Finalmente delineou toda sua dureza,
Para receber ultimato e ordem radical,
E desnudar a sua atividade nada legal.
Obcecada pela felicidade do consumo,
Deteriorou a natureza como insumo,
E desrespeitou a rica biodiversidade,
Denegrindo-a com doida voracidade.
Assim o vírus confina a humanidade,
E lhe aponta premente necessidade,
De tornar-se mais humilde e cordata,
E agir na natureza de forma sensata.
A bioinvasão evidencia colapsologia,
Em que toda atrocidade sem elegia,
Encontra outra que reage ressentida,
Ante a ação predatória e desmedida.
Contra vetustas e barbaras invasões,
Uma destas procrastinadas tradições,
Humanos terão que haurir respeito,
Para não estragar seu excelso preito.
32
BONDADE
Na elevação dos bons sentimentos,
Erguem-se e flutuam novos alentos,
Em torno da solidariedade possível,
E de futuro humano mais indizível.
Se o desvelo da atenção solidária,
Gesta a vitalidade extraordinária,
De criar esperanças promissoras,
Também alenta forças inovadoras.
Neste milagre sutil e contagiante,
A mente elevada no ar extasiante,
Inebria o entorno de bons odores,
E catalisa elã dos gratos pendores.
Diluem-se as mágoas tão dolorosas,
E somem com memórias escabrosas,
Que armaram cerco na consciência,
Para arruinar a valiosa consistência.
Na recuperação da energia cativante,
Que perpetra o sentimento extasiante,
Renasce a certeza do poder humano,
Superar o vil momento de desengano.
Ao lado da farta bondade constatada,
No desvelo de atenção tão recatada,
Ratifica-se a certeza de um apanágio,
Mais fulgurante que o mau presságio.
32
BRILHO DE UMA ESTRELA
Apesar das estrelas a brilhar no céu,
Antigos profetas não queriam o léu,
Mas viver na cidade a irradiar paz,
Do bem viver que a todos compraz.
Na ânsia de um bom entendimento,
Estava latente um esperado alento,
Do fim das guerras étnicas e raciais,
Para fruírem de direitos mais iguais.
O ardente sonho demorou a chegar,
Para o respeito humano prosperar,
Mas, quando, veio a se manifestar,
Encontrou os renitentes a protestar.
Esperavam um redentor da nobreza,
Com ar de pompa e muita grandeza,
De objetivação rica e força
guerreira,
Para reinar sob uma paz derradeira.
As expectativas foram bem frustradas,
Para ambições de poder desmesuradas,
De grande centro religioso
hegemônico,
Com injunções de um poder anacrônico.
Enquanto isso, andarilhos
estrangeiros,
Souberam captar os novos paradeiros,
Da estrela que brilhou em nova
direção,
Para uma humanidade de bom coração.
33
CEGUEIRAS AMBIENTAIS
Mais que da herança genética,
E da valiosa construção ética,
Dependemos do ar ambiental,
Com seu contágio sentimental.
Tanto o emocionar-se com dor,
Quanto alegrar-se com terror,
Forjam emoções tão variadas,
E blindam reações alteradas.
Basta ver o politicamente certo,
Do oportunismo pífio e esperto,
Lavando consciência da mentira,
E produzindo imagem que delira.
O ambiente das manhas e vícios,
Gesta largos tipos de estrupícios,
E legitima como hiper-corretos,
Os atos indecentes e incorretos.
Assim, a mudança de agremiações,
Não muda as cegas procrastinações,
De ideais assimilados no ambiente,
Ainda que perverso e inconveniente.
Imaginar um cachaceiro inveterado,
No ambiente de pinguço adoidado,
Significa uma realimentação do vício,
E esperar sua mudança é desperdício.
Quando esperto indutor de cegueira,
Insiste em extrair o cisco da
olheira,
Demora muito a enxergar a retidão,
E escancara sua ocultada podridão.
Manobra de poderosos alienadores,
Cega a vista dos tantos sonhadores,
E eles apenas enxergam o fanatismo,
Que os arrasta ao desumano abismo.
34
Chuva
Desces
prenhe de vida,
No
ar de compadecida,
Mas
acalantas a morte,
E
triste fracasso à sorte.
Por
vezes tão demorada,
E
até mesmo desagrada,
Quando
só faz de conta,
Jacta-se
e nada apronta.
Quando
enfim apareces,
Mesmo
sem boas preces,
E
sossegas na mansidão,
Transformas
à exaustão.
Chegas
à sede do humor,
E
acordas com pundonor,
Os
ânimos embebedados,
Pelo
porre de desagrados.
Ali
semeias encantamento,
E
renovas o brio do alento,
Que
leva a atos edificantes,
E
subleva os insignificantes.
Sua
cadência de suavidade,
Gesta
na mente a bondade,
De
perlustrar elucubração,
Para
diretrizes do coração.
35
CUIDADO SOLÍCITO
Quando os sinais de morte,
Revelam a sua cínica sorte,
A reação do clima alterado,
Dá aporte a ar envenenado.
A economia cega por lucro,
De olho fito no sobrelucro,
Gera esta enorme pobreza,
E migracionismo de tristeza.
Embora sinais de caridade,
Feitos com solidariedade,
Revelem exitoso cuidado,
Sobra um mundo olvidado.
Líderes lacaios escolhidos,
Indiferentes aos preteridos,
Esnobam a insensibilidade,
Ante a relegada sociedade.
Conluios de líderes cristãos,
Trocam os pés pelas mãos,
E se enrodilham na proeza,
De furtar com fina destreza.
Manipulam os sentimentos,
E crenças para detrimentos,
Da real cordialidade humana,
Com ódio e tensão desumana.
Sem cuidadoso olhar solícito,
O afrontoso descaso explícito,
Da degeneração da natureza,
Denigre sua magnífica beleza.
Ademais delegar urgente zelo,
Aos interesseiros sem desvelo,
Significa trair sustentabilidade,
E acelerar a morte da lealdade.
36
DESPOJAMENTO
No ideal consumista,
Não sobra uma pista,
Que evite o consumo,
De qualquer insumo.
No pensar do sistema,
Não existe problema,
Ante a fome mórbida,
Da possessão sórdida.
O aumento da miséria,
Constitui inútil matéria,
Para alargar a ambição,
E encher-se de fruição.
O termo despojamento,
Já esvaziado de intento,
Foi banido e degredado,
Para não ter significado.
O aporte do acumulado,
De um grupo obcecado,
Não vê a fome humana,
E, sequer a desengana.
Na hedionda ambição,
Livre de toda restrição,
Resulta à maior parte,
O fim do pífio descarte.
37
FRUGALIDADE
Casada com a simplicidade,
Desfruta da boa sororidade,
E leva a moderar o apetite,
Para nunca sofrer de retite.
Gesta prazer na moderação,
E inebria doce consternação,
Na gratidão com anfitriões,
Pelas suas singelas fruições.
Aguça toda a sensibilidade,
Para respeitosa afabilidade,
E capta o limite do respeito,
Para não exceder no preito.
Leva a perceber o momento,
De encerrar o festivo evento,
E retirar-se sem os disfarces,
Para não denegrir as catarses.
Sabe dosar a efusão da alegria,
Para evitar a excessiva euforia,
Que desconforta no ambiente,
E causa reação constrangente.
Controla o nível da satisfação,
Para evitar toda malversação,
E contentar-se com o pouco,
Sem produzir ouvido mouco.
Move afabilidade enternecida,
Na vasta gentileza esmaecida,
Que se irradia pelas amizades,
E amplia a ação de alteridades.
PALAVRAS FINAIS:
INTUIÇÕES VISIONÁRIAS
No cotidiano do senso comum,
Sentimento sem poder algum,
Surge espontâneo e evidente,
Com tonalidade descontente.
É demasiado gritante o abuso,
Deste procedimento abstruso,
Escancarado por mandatários,
Agindo de modos temerários.
Corrupção tornou-se aperitivo,
Dum vasto banquete abusivo,
Que esquece vítimas do povo,
E as posterga sempre de novo.
Visam acúmulos esplêndidos,
E deixam tribunais bifendidos,
Para justificar suas patranhas,
E suas desmedidas barganhas.
Melhoram salário aos amigos,
E veem pobres como inimigos,
Que atentam contra projetos,
Já pífios pelos desejos abjetos.
Na sua incompetência política,
Aliam-se sem maestria crítica,
Ao pior processo imperialista,
De imagética sensacionalista.
Nesta situação tão calamitosa,
Com ar de regência portentosa,
Veiculam com imagem soberba,
O controle da desandada turba.
Sem se importar com desalento,
Dum povo sedento por acalento,
Preconizam uma ruína iminente,
Para a governança mais decente.
Sob cargos de responsabilidade,
Não cabe promoção da vaidade,
Nem ordem de nefasta ditadura,
Ou de prepotente envergadura.