Tanta cobrança por juventude jovial,
A mostrar o vigor físico excepcional,
E, sob a beleza encantadora juvenil,
Constitui belo ideal do reino
varonil.
A incorporação do ideal introjetado,
Produz um teatral mundo simulado:
Pinturas, preenchimentos e roupas,
Para atrair como gostosas garoupas.
Individualismo produtivo do sistema,
Traz a idoso um vivo e crucial
dilema:
Disfarçar ou negar a idade real
vivida,
Ou fruí-la com sabedoria enternecida.
A carência de mostrar-se mais jovem,
Amargo preço que requer que provem,
Que ainda não são cabalmente inúteis,
Revela um sistema de consumos fúteis.
Descartados como meros objetos de
lixo,
Nada eleva seu valor todo o falar
prolixo,
De entidades que os bajulam na
fartura,
Para que consumam com passiva doçura.
Valem só pelo que compram como úteis,
Mas, rotulados como os que são
inúteis,
Já não contam para a qualidade
cultural,
Nem para inusitada produção
industrial.
Tensão ante supervalorização
psíquica,
E a exigência de rapidez
metapsíquica,
Relegam toda sua provecta sabedoria,
Como as migalhas de estranha alegria.
Diante da adoração da produtividade,
Eles refletem a pequenez da sua
idade,
Mas, nas migalhas, a vida se
intensifica,
E revelam o que na vida mesmo
edifica.
Efusão de alegria com pequenas
coisas,
Não perceptíveis nas ambiciosas
loisas,
É haurida da capacidade
contemplativa,
Muito além da acumulação hiper-ativa.
Ficam felizes, quando captam matizes,
Destes olhares translúcidos e
motrizes,
De crianças não desvirtuadas por
farsas,
Das sociais máscaras com feições
falsas.
Nesta idade, a produção menos
intensa,
Que capitalista transformação
pretensa,
Produz, contudo, a perspicácia de
vida,
Muito distinta da vida social
denegrida.
Por isso, sem necessidade de
senectude,
Não precisa o idoso esconder sua
virtude,
Fazer de conta que prossegue bem
jovem,
Deixar de enriquecer a condição
humana,
E viver o belo simulacro da vida
doidivana.
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