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quinta-feira, 20 de abril de 2017

O otimista de toda hora


            Na aldeia do Morocó o ponto mais apropriado para fornecer e captar informações e presumidas novidades era o do bar do seu Zé Bigode. Além dos jogos de sinuca e de baralho, era também o ponto ideal para colocar as fofocas em dia. Quem nunca faltava neste círculo de cruzamento de informações, era o Pacheco, conhecido pela repetição de sua expressão costumeira. Toda vez que alguém falava de algo sinistro ou de alguma ocorrência grave, Pacheco respondia:
- Podia ter sido pior!
            De tanto ouvir Pacheco dar a mesma resposta e uma justificativa nem sempre convincente, os amigos dele resolveram fazer uma aposta.
            O senhor Benedito Cruz apostou, com os demais, que ele iria contar uma história e que o Pacheco não iria repetir sua costumeira frase de que “podia ter sido pior!”. Tudo foi combinado e com os valores em cachaça a serem pagos, bem como o dia marcado para a aposta. No horário combinado, todos já aguardavam a chegada do Pacheco, curiosos a respeito do que ele iria responder diante da história que Benedito Cruz iria dramatizar.
            Mal o Pacheco chegou ao grupo, e Benedito Cruz com a fisionomia aparentemente transtornada e, sob um exagero na expressão do seu nervosismo dissimulado, começou a falar:
- Gente, o que vou contar para vocês, eu nunca poderia esperar da vida. Acabei de matar meu melhor amigo! Já estava desconfiando um pouco da minha esposa, mas, há pouco, quando voltei daqui do bar e cheguei à minha casa, me pareceu que tinha gente estranha. Entrei pela porta e já agarrei uma ripa de um metro e meio usada para trancar a porta. Fui entrando quieto no rumo do quarto e, assim que entrei, vi meu amigo Pedro, em intimidade com minha esposa.
- Com voz trêmula, Benedito Cruz falou: Dei duas pauladas certeiras na cabeça e o deixei morto, lá na cama! Benedito Cruz, encenando um choro desesperado, solicitou ajuda.
            Foi o momento em que Pacheco já soltou sua costumeira frase:
- Poderia ter sido pior!
- Alguém logo retrucou: mas como? Benedito matou seu amigo, como é possível você ainda dizer que poderia ter sido pior?
            Pacheco, sem maiores rodeios, forneceu sua explicação hermenêutica:
- Pois é! Se tivesse sido ontem, o morto seria eu!
            Episódio mais ou menos similar vem se repetindo num outro círculo, o da imensidão de governantes corruptos em nosso país, que também produzem encenações, dramatizações sobre o que poderia ter sido pior, mas, em meio aos disfarces, surgem incontáveis “Pachecos” que acabam revelando suas traições ao povo brasileiro, através de hermenêuticas repetidas à exaustão, e que, no entanto, além de não convencer, ainda revelam os meandros da sua perversidade.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

As três corocas do capeta



Um dos conceitos mais ambíguos da nossa língua é o que envolve diabo, capeta, demônio ou chifrudo, e que alguns delineiam como “inimigo” a ser destroçado e vencido.
 Sem as fontes seguras e diretas do maligno, valho-me do conceito de que demônio, (capeta, diabo, chifrudo, e outros sinônimos), é tudo quanto divide, separa e desintegra. Com este significado, olho para três corocas. Uma mais piedosa e puritana do que a outra, mas, as três também disputam entre si a precedência e parecem encontrar-se empatadas na extraordinária capacidade de inventar fofocas, intrigas e futricas. São católicas que presumem ser muito mais santas que o papa ou qualquer dos inúmeros santos e santas proclamados nos altares.
Nas ruas da cidade de Morocó, a disputa pelas eventuais ovelhas a serem protegidas e salvas, leva doze distintas entidades religiosas a machucar o ouvido pela intensidade dos sons acima do tolerável à audição, e com insinuantes promessas de sessões especiais de curas, milagres, libertações e alcance de tudo quanto possa ser desejado para a plenitude da felicidade e do bolso recheado de dinheiro. Insinuam especialmente os poderes contra o maligno, advindos e mediados por pastor afamado de outra cidade do país e chegado para a manifestação dos poderes de Deus, através de poderes secretos que somente ele domina.
 Ao lado desta manifestação diabólica que separa, divide e logra muita gente, um pouco mais contida e acuada, encontra-se uma comunidade católica, que também quer constituir-se instrumento e sacramento de salvação, segundo o projeto de Jesus Cristo.
À parte das disputas de lugares e de mediações por onde a suposta força divina encontra secretos fluídos e poderes exotéricos e hegemônicos sobre satanás, trava-se no interior da comunidade católica uma disputa ferrenha em torno de honra e de precedência das três corocas. Longos anos ofereceram-lhes uma fantástica capacidade de dividir, de separar e de arrumar confusão em torno de minudências.
 Uma, constituiu-se dona dos panos, das toalhas, das flores e dos objetos do altar. E ai se alguém mexer na ordem de algum destes objetos! É assunto para exaltação da voz e muitos resmungos.
 A outra descobriu os poderes secretos de se constituir dona dos comentários e da escolha de quem pode e de quem não pode proclamar uma leitura. Eventual leitor de outro partido político é visto como capeta que jamais pode requerer tal serviço à comunidade. Também é dona dos cantos: podem ser cantados somente os cantos lentos e lamuriosos da renovação carismática que ela entoa. Eventual ousadia de sugestão para outro canto menos intimista, recebe rechaço com imediata censura verbal.
 A terceira coroca descobriu outro patamar de status que faltava para completar a manifestação viva do capeta: é dona do serviço de coroinha e ministra da eucaristia. O enorme terço enrolado nas mãos atrapalha o serviço do altar, mas a dona coroinha, não arreda o pé da sua instância de poder, que, na verdade, não soma e nem acrescenta coisíssima nenhuma à qualidade de fé da referida comunidade.

Possivelmente a única forma de combater a prepotência do poder das três corocas, vai ser a de chamar, um dia, todos os pastores milagreiros e libertadores através de curas divinas, para ver se, juntos, conseguem potencializar a milhares de Megawats de fé, um “Show Satanás” e mandar esta força do capeta para longe das três corocas. Aí sim, poderia o fruto do milagre transluzir algo de agregador nestas beatas das muitas formalidades e aparências exteriores: poderia a humilde consciência fazê-las perceber que funções nos rituais litúrgicos devem ser efetuadas como serviço e não como um poder tirânico e despótico.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Um caso afetivo pra lá de virtual



            Diz-se que, nas últimas décadas, aumentou consideravelmente o cultivo do sexo virtual. Alguns até alegam que é satisfatório, barato e sem risco de contrair Aids ou alguma outra doença venérea.
            Maria das Dores já deixou obsoleto este assunto. Ela se diz dotada de poderes para-normais e que, estes, são tão fortes, a ponto de ela interagir, todos os dias, com o padre Fabão, que mora longe daqui, e, - o que pode ser considerado uma novidade para os nossos tempos – com quem mantêm relações sexuais altamente satisfatórias, não pela relação física concreta e nem através de estimulação virtual, mas, simplesmente, através da sua extraordinária capacidade telepática, que é capaz de interagir com ele de corpo e alma.
            Para se ter uma noção da estranha capacidade, isto é assunto que Maria das Dores não fala em ambiente reservado, mas nas rodas de conversa antes de celebrações litúrgicas.
            Os poderes telepáticos e para-normais de Maria das Dores, aparentemente, parecem revelar que ela, na verdade, está com alguns parafusos mal apertados no seu psiquismo e não movida pela presumida para-normalidade.
 Conta ela que desde os dezessete anos começou a prostituir-se, mas sentia extraordinário peso de consciência, porque não vencia a arrasadora compulsão que a induzia a dormir com homens.        
Para tentar acertar-se com Deus e aliviar o sentimento de transgressão, amarrava barbantes cheios de nós nas pernas e na barriga e os apertava para que produzissem dores, pois, com isso, pretendia reparar a culpa pelo que tinha feito fora das prescrições divinas.
            Um dia Maria das Dores veio apavorada, pedindo que um padre fosse até sua casa jogar uma água benta, porque tinha visualizado o capeta, bem na hora em que iria deitar-se ao lado de mais um homem amante. O pânico foi tão intenso que ela tremia e se retorcia como folhas balançadas ao vento, só para explicar com gestos e detalhes o quanto o capeta era horripilante e feio.
            Junto com a aspersão, a oração de um Pai Nosso e a recomendação de pensar coisas melhores para o futuro de sua vida por parte do padre, ela rapidamente se valeu da presumida força para-normal e já foi agraciada, ao lado de mais duas pequenas meninas da vizinha, no dia seguinte, pela aparição de Nossa Senhora Aparecida.
 Agora, sim, estava ela, a pecadora Maria das Dores, literalmente recompensada por tudo quanto de menos edificante havia feito na sua vida. A visão a tornou tão eufórica que queria passar o dia inteiro rezando o terço e que as famílias da comunidade fizessem rodízio e revezamento para acompanhá-la, a fim de poderem desfrutar de bênçãos e graças na hora que fosse voltar a aparecer-lhe novamente.
 Como a comunidade não se mostrou muito entusiasmada com o assunto, entrou em depressão e teve que ficar uns dias internada no Hospital. Parece que a medicação ajudou a baixar a potencialidade telepática, e, Maria das Dores, voltou a um nível razoável de convivência.
            Precisamente quando tudo parecia dentro da normalidade, ela aproveitou o momento da comunidade reunida para fazer a justificativa de sua conduta afetiva. Soubera que estava sendo questionada por atuar na comunidade cristã e que não estava levando vida muito digna para tais atividades, porque, a cada três ou quatro semanas, apresentava outro marido.
Declarou de forma enfática que seu orientador espiritual a tinha liberado para este tipo de relacionamentos, a fim de compensar tudo quanto já sofrera no passado e porque estava sem familiares e, além de tudo mais, porque nunca soubera quem eram seus pais biológicos.
Como toda a assembléia olhou para o padre, este ficou vermelho igual a um pimentão, pois tudo parecia indicar que ele estava sendo este orientador espiritual a liberar tão estranho procedimento.
            O modo de olhar de Maria das Dores constituía o indicador das suas oscilações emocionais. Certamente por isso não chegou, apesar de todos os maridos que já teve, a gerar filhos. Assim, procura preencher esta lacuna atraindo parceiros.
 O porquê eles não agu7entam ficar mais tempo com ela, continua a ser o principal mistério intrigante! Teria ela, porventura, a chamada “doença do sexo” e que, em pouco tempo se revela uma sutil ameaça de matá-los por absoluta insaciabilidade?
            Pelo menos uma pequena suspeita pode indicar outro rumo dos motivos: como gosta e fala muito bem da cachaça e da cerveja Loirinha, que combina bem com sua cor preta, Maria das Dores, quando está fortalecida e acompanhada de perto pela loira, certamente não revela limites para nada.
Pode, entretanto, toda esta debandada dos homens que não a suportam por mais tempo, constituir uma expressa manifestação de ciúme, pois, se ela lhes fala do sucesso das relações telepáticas com o presumido padre Fabão, sabe-se lá de onde, tal como faz na comunidade religiosa, eles, provavelmente se dão conta de sua incipiente capacidade de satisfazê-la, da sua impotência de entrar no nível para-normal e, por isso, vão procurar outras que ainda possam ficar satisfeitas com as formas tradicionais, bem menos exigentes.











terça-feira, 5 de novembro de 2013

A mulher com a doença do sexo



            Numa visita à casa de Pedro Nantes, o assunto da conversa, desde a acolhida, estava estranho ao modo convencional.
            Na chegada, depois da calorosa recepção, parecia que algo de inquietante estava no ar. Pedro e sua esposa Maria se cruzavam os olhares a todo instante, enquanto se desenvolveram os prelúdios da conversa mais informal. Ela parecia apresentar maior volume de líquido lacrimejante nos olhos do que de costume. De repente falou: Paulo, nós apenas estávamos falando de um problema que aconteceu com nosso filho Marcos.
- Aé! Com o Marcos? – indagou Paulo. Sim, disse ela, ele está nos causando um duplo constrangimento e nos deixa muito aborrecidos: um, porque largou a esposa e os filhos, quando achávamos que eles viviam muito bem e muito felizes; outro, porque foi se juntar com a mulher chamada Marciana. Você conhece a Belarmina, lá da Fazenda! Pois é, a Marciana é irmã dela. O pior mesmo é saber que Marcos se juntou com a Marciana, logo esta mulher doida da vida e, - o que todo mundo sabe, - ela está com a doença do sexo.
- Uai! Ela é aidética, perguntou Paulo.
- Não, ela tem a doença do sexo!
- Ah, respondeu Paulo, ao perceber que tinha errado o alvo interpretativo, está com alguma doença venérea?!
 - Não Paulo! Respondeu Maria, com o rosto ruborizado. É que ela não se sacia sexualmente! Mata qualquer homem no cansaço.
- Iche! Exclamou ele, já entendi!
            Maria prosseguiu no assunto. A Belarmina é uma mulher muito direita, e nunca se ouviu falar nada dela. É muito querida e agradável nas conversas, mas esta Marciana, para você ter uma idéia, já teve mais de dez maridos. E ela termina com eles, em muito pouco tempo. Ela não dá sossego para homem e quer fazer sexo vinte e quatro horas por dia. Como pode que o nosso filho tenha entrado numa fria dessas! Não dá para entender. Nós mesmos nos perguntamos, onde que erramos na educação?
            Pedro, que se manteve calado, mas, tenso e mais nervoso que de costume, entrou na conversa de Maria. A gente se pergunta como um homem, com filhos já adultos, abandona a família e cai nas garras de uma onça dessas. Maria logo interceptou a conversa de Pedro e prosseguiu:
            - Se ela já fez sair mais de dez homens como cachorrinhos magros, o que dá para esperar do Marcos? Além de terminar com sua natureza de homem, ela ainda vai passar mão no dinheiro dele. Ah! Isto é muito cruel.
            O que poderia Paulo responder ou explicar? Debandou para o desvio do assunto através de algumas possíveis conseqüências do estranho sinistro. De forma um pouco xistosa, passou a ironizar a desgraça alheia. Falou, então: Já pensaram se esta doença é contagiosa? Até que descobrem uma vacina, estas “mulheres do sexo” poderão acabar com todo este mundo de machões, de puladores de cerca e dos traidores de suas esposas.
 O pior mesmo vai ser cruzar com eles na rua e, vendo-os caminhar como cachorros vira-latas, de rabo encolhido, o que a gente vai perguntar? Oh! Marcão: a dona Marciana te exauriu mesmo a virilidade? Ela escafedeu tua natureza de homem?
 Não, se falar assim, vai bater na hora! Por outro lado, e se esta doença acalmar mesmo os homens metidos a valentes, já pensaram o que estas mulheres com a doença do sexo não vão aprontar?
 Pelas barbas de Morfeu, que potencial de uma guerra de gênero!




A pergunta inadequada



            Na sala, como de costume, estavam todos os alunos adequados ao código do disfarce a fim de fazer de conta que estavam atentos e meditando profundamente sobre a fala do padre, que impostado sobre o estrado da sala e sob as rigorosas linhas da batina preta, explicava as verdades absolutas e eternas do céu e do inferno.
O contágio coletivo fez toda a classe assumir uma postura habitual de inclinar-se sobre a escrivaninha para demonstrar que todos estavam ávidos para captar a mensagem da monótona tergiversação do padre.
            Um assunto que seguidamente voltava aos argumentos daquele momento de enlevação espiritual, pelo menos aparente, era o da virgindade de Nossa Senhora, tema abordado não pela sua rica dimensão simbólica e mítica da cultura dos povos semitas, mas, através da mera leitura literal e essencialista da redação neotestamentária.
            Como a argumentação não convencia em nada o grupo dos alunos da classe, Francisco, captando a osmose dos demais, levantou o dedo e perguntou ao orientador dos assuntos divinos:
- Padre, eu não entendo este assunto do virgem antes, durante e depois!
- Numa ruborização facial instantânea, o padre retrucou: O que? O que você, pica-pau verde da vida, seu fedelho, andou perguntando? Quem é você para perguntar sobre este assunto? Você não está nem seco debaixo do nariz, e já se mete a perguntar a respeito de uma coisa desta natureza? Isto é um dogma de fé e simplesmente não se pergunta sobre isso!
            Francisco se debruçou ainda mais encolhido sobre a carteira e nem ousou levantar o olhar, ainda mais que na vociferação veio uma ameaça de que o assunto era mais do que suficiente para que ele fosse imediatamente expulso da casa. Ninguém da classe teve coragem de explicitar qualquer defesa em favor do colega.
            Como a dita meditação, que de praxe durava meia hora, acabou, em decorrência da pergunta, se estendendo por mais de uma hora, implicou até em atraso do almoço. Nesta hora e tanto, palavrões e xingamentos foram fartos e abundantes para justificar a indevida ousadia do “pica-pau verde da vida” de perguntar a respeito da virgindade de Nossa Senhora.
            Passada a saraivada de xingamentos não convincentes, muito discretamente, na saída da sala, um ia falando para o outro: afinal, como foi mesmo este negócio de virgindade antes, durante e depois?
            Dias depois, Francisco contou que teve um sonho de que tinha morrido. Ao passar pela vistoria da entrada lá no céu, São Pedro, apontando o dedo no rumo do seu membro viril, perguntou a Francisco:
- O que você fez com esta torneirinha?
            Francisco respondeu imediatamente: urinei! Pedro teria então respondido: bem que você poderia ter desconfiado! Esta torneirinha também foi feita para outra finalidade! Pela burrice, vai para o inferno!

            Ao acordar, pensou sobre o sonho, partilhou-o aos colegas e resolveu desistir da perspectiva sacerdotal e foi embora para ir à procura de uma índia a fim de se casar com ela.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O sujeito lambisgóia



Michel, quando ainda era menino pequeno, recebeu pelo menos uma dúzia de apelidos. De vez em quando as pessoas mais próximas, até demonstravam dó, pois sabiam que Michel era fruto de um ambiente familiar, no qual se mentia e se exagerava ao máximo em tudo quanto era narrado. Nada era pequeno e nada era insignificante.
Na boca do parentesco de Michel, um fato banal e rotineiro adquiria ar de algo extraordinário. Esta ancestralidade propiciou a Michel uma rara inteligência para fazer fatos comuns adquirir empolgação. Era colheita fora do comum, era chuva de proporções diluvianas, era briga de correr sangue por oito dias e era prejuízo que implicava em milhões, quando os valores, na verdade, não passavam de alguns reais.
Como sabia tudo um pouco melhor e com mais detalhes do que os outros, os colegas passaram a considerar Michel um presunçoso, que facilmente diminuía os colegas, pois, sempre sabia algo mais do que eles a respeito de alguns detalhes de fatos dos quais sequer havia participado.
Um dia, um colega seu, o Marcos, não se sabe de onde e como chegou ao termo, aplicou mais um apelido ao Michel: Lambisgóia. Quando foram bater no Dicionário para saber o que o termo significava, perceberam que o termo realmente conferia com os traços mais proeminentes e explícitos da vida de Michel: pretensioso, intrometido e mexerico da vida alheia.
No estudo, Michel deixava todo mundo para trás, pois, assim como sabia mentir, assim também sabia assimilar conteúdos e sempre se saía muito bem nas provas. No jogo de futebol, sabia falar, encenar, mandar, orientar, mas não passava de um legítimo perna-de-pau. Era péssimo tanto para chutar, quanto para driblar e dar passes. Em compensação, sabia comentar, como ninguém, todos os lances.
Próximo da formatura na Faculdade, a turma de Michel resolveu fazer uma reserva de dinheiro para passar alguns dias na praia. Tudo se encaminhou conforme o planejado e ao chegarem à beira do mar, todos encantados com a imensidão das borbulhantes e ruidosas águas do mar, Michel já se pôs a frente dos demais para explicar como se tinha que lidar com as ondas do mar. Como se fosse um velho marinheiro, acostumado aos segredos do Oceano Atlântico, foi dando exemplos de como agir na hora que viesse uma onda, mas, ao dar o exemplo, veio uma onda e o levou de roldão. Nas águas rasas, os demais, apavorados com o repentino sumiço de Michel, viram logo as pernas brancas fazerem um giro pelo ar, noutro instante apareceu o dorso avermelhado e por fim, o pum-pum branco de quem havia perdido a sunga. Logo mais, meio cambaleante, a tosse o fez expirar água salgada pelo nariz, pela boca e, na impressão, até pelos olhos, ele, conseguiu finalmente firmar-se de pé e aos gritos pedia ajuda para procurar a “hapa” (Sequer consegui pronunciar “chapa” (a dentadura) que se esvaíra na cruel esfrega que levou das ondas do mar. Ao ver que ninguém o socorria, meteu a mão para esconder os documentos genitais, e, todo desajeitado saiu em disparada rumo à hospedagem, que por sorte ficava a 50 metros de distância. Enquanto corria, podia perceber-se que as costas, os joelhos e os cotovelos estavam ensangüentados devido aos esfregões que levou no turbilhão das ondas e da areia. Desta vez, ninguém conseguiu gozá-lo, pois, ao chegarem à hospedagem, ele havia se vestido, ajuntado seus apetrechos e, muito rapidamente, se esvaído daquele ambiente. Dias depois, no retorno, encontraram Michel cheio de grau, com nova prótese dentária, como se nada lhe tivesse acontecido. Nem então perdeu a característica de lambisgóia, pois não evidenciou qualquer sinal de se ter afetado por algo menos grandioso do que suas interpretações sobre as coisas e os fatos.


O Joãozão do revólver



Além do seu porte proeminente e de uma barrigona do tamanho de um trem, seu “Joãozão” ficou conhecido como jogador de baralho, beberrão e por arrumar muitas encrencas. Até ali tudo normal para um cidadão comum, como tantos outros sujeitos que realizam façanhas similares. A diferença estava em que seu “Joãozão” era um padre.
Nos seus auto-elogios, o “Joãozão” alegava que sempre foi o notável dos estudantes, pois sempre teve as melhores notas e sempre priorizou estudar as coisas mais difíceis a fim de poder discutir com os professores de deixá-los em apuros. Na verdade, tratava-se do oposto, pois suas médias finais geralmente giravam em torno da nota 5,0 e em muitas disciplinas deve ter recebido esta nota por mera complacência de professores, já que estava estudando para ser padre.
Tinha um vozeirão excepcional, talvez porque, como jovem, aprendeu a tocar trombone e, com isso, tenha reforçado sua capacidade respiratória com extraordinário fôlego para falar alto. Nos arroubos patéticos dos sermões persuadia os ouvintes a seguir fielmente suas indicações.
No seu “Joãozão”, como no seu tamanho tudo era superlativo e sua fala sempre estava no grau aumentativo. Dali certamente decorreu o apelido pelo qual era conhecido. Se alguém falasse qualquer coisa, ele sempre sabia arrematar com outro assunto mais bombástico no qual ele se impunha como herói. Os mais maldosos costumavam dizer que tudo isso era fruto do protuberante volume dos instrumentos genitais. Soube-se mais tarde que tal volume era decorrente de uma enorme hérnia escrotal. Ao submeter-se a uma cirurgia reparadora, deve ter enchido o espaço esvaziado com mais disfarces ousados da sua onipotência. Encurtando as tergiversações sobre os aludidos efeitos da cirurgia, ele, na verdade, deve ter tido também alguma protuberância resultante de alguns parafusos frouxos no psiquismo. Ele realmente apresentava sinais evidentes de morbidez mental, pois, sob o complexo messiânico e a mania de grandeza, escondia-se uma pessoa perturbada, frágil e muito limitada. Tinha, todavia a capacidade de persuasão capaz de transformar fatos corriqueiros através de extraordinária ampliação fantasiosa, a ponto de impressionar e induzir as pessoas a aceitar como verídicas as coisas que falava. Pelo menos dava a entender que acreditava nas mentiras que ia contando, o que tornava difícil saber se algo do que falava tinha algum fundamento real. Ouvi-lo falar costumava despertar muitos risos, mesmo um tanto disfarçados e dissuadidos, pois, ficava evidente a sua visível megalomania.
Como padre, seu “Joãozão” parecia refletir um profundo recalque sexual, que era extravasado em obras faraônicas, como Igrejas e Salões, que sempre tinham que ser maiores do que a capacidade da população e a necessidade da comunidade.
Andando no “Opalão” Comodoro que, segundo dizia, resultou das vitórias de uma noite de jogo de baralho, ele se impunha não somente pelo seu carrão vistoso, mas também porque fazia questão de exibir o revólver calibre 38, exposto de formas a se tornar visível na cintura.
Um dia seu “Joãozão”, ao andar a 160 km por hora no seu Opala Comodoro, foi surpreendido e abordado por Agentes da Polícia Rodoviária Federal e conseguiu ser mais rápido do que os agentes para sacar seu revólver e os fez correr sob a mira da sua arma. Não calculou, contudo, que os agentes fossem avisar o próximo posto e ali um pelotão o esperou com metralhadoras e armamento pesado. Aí teve que amargar uma humilhante prisão, totalmente contrária aos poderes da megalomania. Mas, até este tropeço de suas manias de grandeza foi de duração curta porque pode contar com a intervenção do bispo a seu favor, uma vez que este intermediou sua soltura, mediante fiança e sob a alegação de bons antecedentes na vida de padre. Desta vez, perdeu o “38” e ficou acuado por alguns dias. Entretanto, duas semanas depois já estava com outro revólver “38”, novinho e lustrado, que segundo alegou, teria resultado das vitórias de uma noite de jogo de baralho.
Seu “Joãozão” costumava proclamar-se doutor psicólogo, e, por onde andava, quer em celebrações ou outros espaços, falava das curas e da evidente inveja que causava nos médicos, psiquiatras e psicólogos, que, por sua vez, ficavam simplesmente sem serviço e, por esta razão, o perseguiam sistematicamente. Tal argumento sempre acabava convencendo algumas pessoas para ir procurá-lo com a expectativa de livrar-se de algumas moléstias e doenças.
Muita gente humilde e ingênua, de fato não percebia as artimanhas de seu curandeirismo e da charlatanice que se escondia nos seus procedimentos de consulta, pois mandava as pessoas apertar firmemente as mãos, para formar um punho cerrado e, ao mandar abrir os dedos, interpretava as manchas avermelhadas que ficavam registradas na palma da mão com o aperto dos dedos. Assustava cada cliente com uma doença grave, geralmente câncer, e imediatamente a acalmava mostrando o remédio homeopático que curaria especificamente esta doença em alguns dias. Ao voltarem, os assustados eram surpreendidos com a revisão do aperto dos dedos e a simpática informação de que os sintomas da doença estavam completamente desaparecidos. Além de eufóricas, as pessoas presumidamente curadas, já aproveitavam a ocasião para dar-lhe alguma gorjeta e para comprar mais alguns outros remédios, pois seu “Joãozão” tinha uma prateleira cheia de vidrinhos de remédio para todas as doenças possíveis e imagináveis e, com preços devidamente correspondentes às potencialidades de cura de cada vidrinho.
Num dia seu “Joãozão”, apesar de todo seu ar messiânico e superior ao do comum dos mortais, se deu mal com o resultado de uma consulta: tratava-se de uma mulher que há poucos dias tivera gêmeos, mas estava sem leite para amamentá-los. Foi consultar o padre “Joãozão”.
O “doutorzão” mandou que ela tirasse a blusa e o sutiã, deu umas balançadas nos seis de cima para baixo e vice-versa com o dorso de uma das mãos e disse que poderia ir para casa, pois assim que chegasse lá, já teria o leite suficiente para amamentar os gêmeos.
A mulher, ao regressar da dita consulta, contou logo ao marido o que sucedera nos procedimentos efetuados e descreveu os detalhes da consulta feita pelo seu “Joãozão”. O marido foi ficando paulatinamente mais tenso e, um vermelhão foi aumentando a rigidez do seu rosto. Nem a deixou concluir o relato da consulta e já agarrou um facão que estava próximo, e entrando no carro, disparou furioso rumo à casa paroquial onde seu “Joãozão” estava atendendo outra cliente. Ao chegar lá, entrou, sem pedir licença, e já foi batendo o facão para todo o lado e, aos berros, prometendo picar seu “Joãozão” em pedaços. Desta vez, o grandalhão, conseguiu flexionar sua enorme barriga antes mesmo de sacar o revólver 38, e, muito rapidamente saltou pela janela que se encontrava aberta atrás da escrivaninha, e, qual anta no meio do mato, foi causando estalo em folhas secas e folhagens do jardim para evadir-se do ambiente. Desta vez, a megalomania fraquejou, o “Joãozão” esqueceu o revólver e desapareceu definitivamente. Foi refugiar-se em outra cidade próxima e, como já estava enfrentando processos por charlatanismo, acabou também sendo destituído das funções de padre e resolveu aquietar-se na periferia de uma cidade grande.


O Jacó do Frederico



            O Jacó era um moço extrovertido, sempre tinha assunto para muitas horas de conversa. Gostava de vir, acompanhado de seu irmão Celso, fazer visitas à nossa casa.
            Geralmente vinha de pés descalços. Com o passar de alguns anos, fora agraciado por um corpo alto, robusto e forte, beirando um metro e noventa centímetros de altura e, aqueles pés de calçar sapatos com número 45 para mais, constituíam o maior foco dos desvios de atenção.
            Ao se retribuir a visita à casa de Jacó, já não eram aqueles pés enormes que prendiam a atenção, mas a cabeça e o rosto do seu Frederico, pai do Jacó. Formavam um conjunto luminoso diante dos raios dos pequenos lampiões movidos a querozene, refletidos pelo vermelho intenso do rosto inchado de tanto tomar cachaça e da cabeça careca, que parecia fazer parte do mesmo círculo de irradiação da cor avermelhada.
            Quando não andava bêbado demais, o seu Frederico era muito divertido, porque sua conversa, intercalada por tosse intensa, e as constantes cusparadas de catarro, geralmente era hilariante.
            Alcoólatra inveterado desde muitos anos, Frederico não produzia, com seu trabalho nas lidas agrícolas, mais do que o necessário para matar a sede de cachaça. A esposa e os filhos, mesmo sem maiores recursos, asseguravam o suprimento alimentar e se apresentavam no nível social da comunidade.
            Embora Frederico tivesse morrido cedo, pensava-se que seus filhos jamais iriam enveredar pelo caminho do pai, mas, foi ledo engano. Poucos anos depois de casados, Jacó e Celso imitaram o itinerário da dependência alcoólica do pai.
             Celso, diante de cirrose hepática aguda, conseguiu depois de muita lida médica abandonar o vício e, ainda hoje, continua a ser um homem discreto e bom, mas Jacó, o especial amigo, continua alegre e divertido como nos tempos de menino, mas herdou, com as terras do pai, o mesmo defeito de gostar demais da pinga. Pelo menos num traço superou largamente o pai: trabalha ainda menos e, de fato, se não tivesse a esposa trabalhando numa função pública, já estaria morto, de fome e sede, há muito tempo.
            Numa outra peculiaridade Jacó também superou seu pai, pois, Frederico somente bebia às escondidas na casa. Jacó tem um ritual diário e muito especial. Bebe nos bares e nas festas e, em todos os dias, leva uma garrafa para casa. Faz rodízio nos bares da cidade e vai a cada dia num outro bar comprar a dita garrafa de cachaça para disfarçar seu consumo. Assim que chega ao bar, animado e conversador, vai falando para o bodegueiro e os demais que ali se encontram:
- Pois é! O pessoal me avisou que vai fazer uma visita lá em casa, hoje de noite, e, o melhor e mais fácil e mais barato para expressar-lhes um sinal de acolhida, é oferecer-lhes uma caipirinha!
            Ele já tem uns bolsos tão grandes nas calças que neles esconde a garrafa e sai andando sem despertar suspeitas nos transeuntes que eventualmente o olham de alto a baixo. Embora Jacó receba visitas só de vez em quando, ele se encarrega de secar a garrafa de pinga todos os dias, porque ela poderia azedar de um dia para outro e vir a fazer mal à saúde.
            Sem considerar o capítulo da preguiça do Jacó, ele pode sofrer, mas não se queixa para ninguém. Da estrada até a casa onde Jacó mora, existe mato e inço de todo tipo imaginável. O que mais tem é Guanchuma. Volta e meia, alguns rapazes vão lá e amarram dois pés de Guanchuma, puxando um de cada lado, sobre o trilho, e o Jacó, que não costuma olhar para o chão quando caminha, enrosca nesta arapuca, cai feio como uma árvore serrada no pé do tronco, se retorce, mas, não emite xingamentos contra ninguém e nem reclama da vida. Nem mesmo quando vão especular sobre os tais tombos para saberem se a garrafa de cachaça foi salva ou não, ele não se atrapalha: tem sempre uma explicação bem humorada para explicar o dito sinistro.
            A cabeça do Jacó já se encontra careca igual à do seu falecido pai Frederico. O rosto já se encontra redondo e inchado como era o do seu pai, mas num aspecto Jacó ainda leva vantagem: não está ainda com tosse brônquica aguda, nem com cirrose hepática avançada e ainda não cospe catarro como seu pai Frederico.
            Seria fatalidade da vida que a história de um pai se repete na vida de um filho? Seria uma predisposição genética ou uma labilidade psíquica, ou uma indução do ambiente cultural?
O bom companheiro Jacó, desde os tempos de infância, continua a ser o bom e alegre homem que não perde nenhum evento social da comunidade e sempre está de boa lua com a vida. Presume-se que a malvada cachaça, deve preencher, pelo menos no desejo, o suprimento de uma série de labilidades subjetivas ou de frustração afetiva.
 Por outro lado, representa também a dimensão contraditória da produção deste líquido estimulante, pois o excessivo bombardeio das propagandas sobre os benefícios do consumo desta malvada pinga, visa somente o lucro do vendedor. Neste caso, o bom Jacó do consumo diário é mais uma pobre vítima de um sistema perverso que alardeia o vício e mata antes do tempo normal da duração da vida.

















O boi Alegre e o Sereno



No tempo em que Morocó ainda se constituía numa comunidade rural de aproximadamente 100 famílias, todos os moradores dependiam das lidas agrícolas e todos possuíam pelo menos uma junta de bois para as lidas cotidianas.
Seu Breno, não muito afoito para as lidas da lavoura, mostrava propensão mais acentuada para ficar sentado na sombra e tomar muito chimarrão ao longo do dia e se alguém o visitava, era rico em lamúrias sobre os tempos difíceis e as fatalidades da vida. No comentário dos outros, mesmo vendo como os outros lavravam e gritavam com tudo quanto o pulmão lhes permitisse, tanto o nome dos bois quanto palavrões com vistas a admoestar os bois a fim de que andassem na linha, e evitassem que os vergalhões ficassem desproporcionais e mal alinhados, seu Breno não despertava sua desconfiança para empreender algo similar.
Os gritos com os bois constituíam uma disputa parecida com a dos galos nos terreiros e cada um queria impressionar mais e melhor os demais a respeito de sua dedicação e de seu rendimento no serviço. Os bois acabavam, então, como bodes expiatórios de muitos xingamentos e impropérios, mas a finalidade deste tratamento ríspido era a de que andassem bem alinhados e em ritmo acelerado. Por isso, ocorria verdadeira disputa para começar a despertar a aurora em pleno serviço de aração e continuar gritando até na escuridão da noite para demonstrar resistência física e ambição por produzir mais do que os outros.
 A dedicação pelo êxito e superação dos demais costumava fazer ribombar pela planície a expressão mais comum usada no xingamento dos bois: “Seu filho da puta!” Provavelmente também constituía catarse para extravasar todas as outras raivas retidas e reprimidas diante da esposa e dos filhos. Até os bois se acostumaram à expressão coletiva e ao ouvi-la, aceleravam, pelo menos por alguns metros, o ritmo dos passos. Os lavradores, por sua vez, primavam para que os bois andassem no ritmo mais acelerado possível por muitas horas a fio. Queriam que a sulcagem rendesse o máximo ao longo de um dia. Tal disputa rendia assuntos de conversa nos domingos, sobretudo antes e depois das celebrações religiosas.
Na casa de Breno, o cavalo, os porcos, as galinhas, os bois e as vacas sempre sofriam de deficiências alimentares. As galinhas não botavam ovos, os porcos adoeciam a toda hora, as vacas não davam leite e os bois sofriam de fraqueza generalizada e não agüentavam puxar o arado durante o dia todo. Eles, além de sofrerem de DNA, pois sua data de nascimento era muito antiga, andavam bem adequados para certos conceitos e gostos de estética. Eram esqueléticos como algumas modelos que desfilam nas passarelas, e, mesmo que os nomes fossem simpáticos, pois um era chamado de Alegre e o outro de Sereno, não significava que a vida deles era fácil. O Sereno teve o azar de ver seu nome substituído, porque a vinda de um novo vizinho tinha o mesmo nome. Se chegasse ao conhecimento de que um boi do vizinho mais próximo fosse chamado pelo nome de Sereno, com certeza, interpretaria o caso como ofensa grave.
Se o Sereno já era vagaroso, fraco e de pouco pique de arrancada, agora, teve que conformar-se com um segundo batismo que lhe auferiu o nome de Brazino. O procedimento deve ter mexido na auto-estima do velho boi e, no dia seguinte, em pleno serviço de aração, ele caiu e morreu. Mas logo este boi! Ele não apresentava barriga proeminente como indicativo de doenças cardiovasculares, nem sofria com problemas de colesterol, nem com excesso de açúcar no sangue e nem mesmo com elevado índice de triglicerídeos e de creatinina. Tudo indicava que tinha definhado por pelo menos dois outros fatores relacionados: subnutrição e velhice. Se o fato entristeceu seu velho parceiro de infortúnio, o boi Alegre, o episódio prestou-se, contudo, para inúmeros e debochados comentários da vizinhança a respeito do azar que este boi teve ao longo da sua vida, uma vez que teve que viver tantos anos sob regime de intensa privação alimentar.
Por uma aparente e triste sina, o boi Alegre perdeu suas referências e, poucas semanas depois, também foi encontrado morto próximo do estábulo. A gozação tornou-se ainda mais difundida e todo mundo comentava o trágico desfecho da vida dos bois do seu Breno. Alguns foram mais diretos e explícitos e lhe falaram que boi também come pasto. Mesmo sem levar muito a sério os conselhos que recebia, seu Breno teve que comprar outra junta de bois.
O azar do seu Breno foi o de que era época de aração e ele não encontrava boi manso para tais lidas. Andou por diversos dias à procura de bois e, por fim, teve que conformar-se com a aquisição de bois pequenos, ainda fracos para o arrocho de dias inteiros de aração, mas, pelo menos eram compatíveis com o pouco dinheiro que seu Breno dispunha para adquiri-los. Se os bois mortos eram lerdos, estes novos, não obedeciam nenhum comando e se mostravam literalmente anárquicos diante das ordens dadas por Breno.
Inconformado com a péssima qualidade dos bois, Breno voltou a quem os vendera, a fim de reclamar das graves limitações dos bois e pensando em devolvê-los. Ao explicar as características da conduta dos dois desobedientes, ficou pelo menos elucidado que se tratava de um problema da falta de tradutor. Segundo o ex-dono, os boizinhos haviam sido amansados sob comandos em língua alemã e que não entendiam nada e nenhum comando dado em língua portuguesa. Seu Breno voltou para casa, um tanto desconfiado, e, no dia seguinte começou a falar em alemão com eles. Foi então que teve a grata surpresa de constatar que os boizinhos eram dóceis e obedientes. Mesmo assim, a nova dupla teria pela frente uma evidência de tempos muito difíceis de serem vividos. Teriam que tornar-se fortes com pouco trato. Sem demora, pareciam apresentar mais chifre que cabeça e era fácil contar os vales entre as costelas. Para continuar o deboche, os vizinhos difundiram que aqueles bois do Breno enganavam a torcida porque apresentavam suas gorduras escondidas debaixo das costelas.


O despautério de Dona Clotilde




            Clotilde emigrou da região norte do Estado do Rio Grande do Sul para a capital, Porto Alegre. Na bagagem dos poucos pertences veio também a marca cultural da influência dos índios kaigangues que não usam a consoante “l” e a substituem por “r”. Desta forma, dona Clotilde costumava apresentar-se pelo nome de “Crotirde” Souza. Assim também falava em “probrema” e tantos outros termos com “r” gutural acentuado, o que tornava sua fala muito peculiar e interessante.
            Dona Clotilde era uma mulher franzina, sempre bem arrumada, mas, seu olhar parecia transluzir algo mais melancólico e que apontava para algum sofrimento mais velado e que ela não conseguia esconder-se totalmente através da dedicação e das dádivas que levava às pessoas. Sempre arranjava algum motivo para chegar à casa de alguém, nem que fosse para lhes dar dois a três chuchus colhidos antes do tempo de maturação. Partilhava um pouco de tudo. Tratava-se de uma vovó que visitava muito as pessoas da vila onde residia. Também o “Zé”, seu marido era muito social e amável nas conversas. Parecia uma dupla extremamente feliz. Eles estavam economicamente estáveis e seguros, com os filhos todos casados e ajeitando sua vida.
            Clotilde e “Zé” eram muito estimados porque estavam constituídos em referência de muita alegria nas conversas. Do olhar de dona Clotilde, todavia, emergia um ar mais tristonho e sofrido. Alguém poderia logo inquirir a respeito desta contradição, pois, se ela era uma mulher alegre, animada e conversadeira sobre tudo quanto era assunto, não poderia expressar um olhar triste. Ela, no entanto, sofria com uma obsessão: não queria vivenciar a fraqueza de sentir fantasias sexuais. Ninguém fez pesquisa arqueológica para saber se tal sintoma era fruto de uma educação religiosa puritana e escrupulosa ou se era problema afetivo que a levou a desenvolver, desde os primórdios da sua existência, alguns sentimentos de culpa, ou se constituía remorso por excessivas fantasias libidinosas.
            O sofrimento de dona Clotilde, de fato, vinha das profundezas de um sentimento mal orientado. Aprendeu ou assimilou que era importante rezar o terço a fim evadir-se das tentações que envolvessem atrações masculinas. Sem dar-se conta, ao pretender rezar para não sentir tentações, já mexia no baú do inconsciente e de lá fervilhavam muitas e variadas fantasias. Sua conclusão lógica era a de que não rezava com suficiente piedade e concentração, ou que, precisamente nesta hora, o capeta estivesse se aproveitando da ocasião para seduzi-la para o seu lado, com muitas fantasias nada recomendáveis para uma vovozinha de bem com a vida.
            Como os resultados se mostrassem literalmente ineficientes para vencer as tentações demoníacas, a opção de Clotilde foi a de intensificar as rezas de terço. Sem dar-se conta de que ao simples desejo de rezar para não ter tentações, elas já começavam a fluir e a vagar soltamente pelas vastas planuras do seu psiquismo. O processo chegou a tal ponto que Clotilde entrou num processo de culpa profunda diante de Deus. Na medida em que mais se empenhava para não ter tentações, mais elas lhe apareciam na mente. Isso, diante de Deus, significava um fracasso e uma evidência de que Ele já devia ter desistido de apostar na salvação do Clotilde e já a devia ter descontado entre as possíveis ovelhas do seu rebanho. Este sentimento de já estar condenada criava um tormento subjetivo na vida de Clotilde, de tal forma que, mesmo disfarçando alegria e bem-estar com tudo na vida, ostentava um olhar soturno.
            O auge da culpa apareceu num momento de oração, quando em meio ao exercício do mantra da repetição das ave-marias, ao invés de entrar num nível alfa de consciência para encher-se de forças superiores às tentações, visualizou Jesus e sua mãe em atos e gestos obscenos. O fato despertou uma culpa profunda e certamente nociva como um câncer de cérebro, pois fez desmoronar toda a alegria e a vontade de encontrar-se com as pessoas. Como não partilhasse isso nem para seu esposo, foi se fechando em seu quarto e não queria mais conversar com ninguém. No entanto, como visitava costumeiramente muitas famílias, e era amiga do padre, este, ao sentir sua ausência, foi até sua casa para saber o que estava acontecendo com dona Clotilde.
            Com muita dificuldade e relutância, dona Clotilde conseguiu, enfim exteriorizar a razão do seu despautério. Em meio a um choro compulsivo, regado com lágrimas que não conseguiam transportar para fora todo o sentimento de culpa, dona Clotilde conseguiu, pelo menos encontrar espaço para contar o sofrimento, sem sentir-se ainda mais condenada. O padre lhe mostrou, a partir dos estudos de Karl Yung, de que este assunto se situava no campo psíquico das “sombras”, termo criado pelo afamado psicólogo e usado para expressar que não existe total controle sobre o campo das fantasias. Elas aparecem independentemente da religião e da boa vontade, mas, quando se quer não tê-las, então elas são despertas no psiquismo com carga ainda mais intensa. Em outras palavras, tudo o que se quer negar no psiquismo, acaba enchendo ainda mais o próprio psiquismo. Portanto, o campo das fantasias não estaria situado no campo moral da culpa e do pecado, mas, das “sombras”, sobre as quais não se possui controle absoluto. Restaria, por conseguinte, admitir que em qualquer momento do dia e da noite, acordado ou sonhando, rezando ou fazendo gracejos, qualquer pessoa normal vive a contingência de sentir-se focada em fantasias sexuais. Deus nos fez ser assim. O ato de aceitar estas “sombras” faz com que, elas rapidamente se dispersam em razão de outros focos de atenção, e, como as nuvens, se volatilizam e se evadem para deixar espaço para outras emoções. Por isso, se lhe aparecessem quaisquer imagens, mesmo na hora da oração, o fundamental seria aceitá-las e rezar para Deus que está sentindo exatamente isso como manifestação do seu psiquismo.

            Poucos dias depois, dona Clotilde voltou ao seu itinerário de visitas e, com uma diferença no olhar: o cultivo da soturna culpa deu margem e espaço para a aceitação das fantasias e Clotilde voltou a ser ainda mais irradiante e entusiasmada pela vida do que era antes deste momento de crise.

domingo, 13 de outubro de 2013

O canelinha

Nascido na beira do rio Uruguai, Canelinha, apelido de Pedro Vargas, deve ter aprendido a lidar com pesca e caça desde o tempo da gestação. Foi educado e especializado para lidar com canoa, pesca e caça que era muito farta na beirada do Rio Uruguai, nos tempos em que toda a região do oeste catarinense era envolvida pelos mistérios das vastas, onduladas e cerradas florestas. Filho de pais muito pobres, Canelinha, como todos os que moravam na beira do rio Uruguai, aprendeu cedo a lidar com os imprevistos da caça e da pesca. Nem sempre o suprimento de carne era suficiente para o consumo e para a venda regular. O apelido “Canelinha” poderia referir-se a pernas finas, ainda mais, as de quem sempre andava sobre canoas e as sapecava no sol, todos os dias, além das decorrências de quem nem sempre fazia fartas e regulares refeições. A razão do apelido, no entanto, nasceu de uma viagem às ruínas de São Miguel, na região missioneira do Rio Grande do Sul. Na época em que as sepulturas dos indígenas, ali enterrados, vinham sendo violadas com a suspeita de que poderiam estar ladeadas com muito ouro e outras preciosidades, estas sepulturas feitas de pedra sobre o solo, deixavam os restos mortais expostos ao tempo e ao vento. Pedro impressionou-se com a espessura de alguns ossos e resolveu recolher um fêmur de índio, possivelmente de um troncudo índio guarani, pensando em utilizá-lo para o feitio de um especial cabo de facão, ou “fincão” segundo a linguagem mineira. Se o intento era dos mais nobres, o resultado foi dos mais deprimentes. Ao chegar à casa dos pais com o dito osso de índio para ser utilizado como cabo de facão, além de uma saraivada de xingamentos, teve que levar o osso de volta ao lugar onde fora tirado. Embora o osso tenha dado a impressão de ser uma “canelona”, o fato de Pedro o classificar de “canelinha”, rendeu-lhe o apelido e que acabou ocupando o espaço do seu nome registrado no cartório. Tudo indica que Pedro absorveu bem o apelido e se valeu dele para ampliar sua característica de mentir espantosamente, sobretudo, quando os assuntos envolviam caças, pescas e lidas com fatos misteriosos da mata. Canelinha desenvolveu, aos poucos, uma habilidade de fazer rapaduras com muito amendoim e que ele denominava de “xororoca”. Muita gente ia à sua casa para comer “xororoca” e ficar ouvindo, durante longas horas, histórias e mentiras adaptadas por Canelinha. Mais do que algum presumido potencial do amendoim, os assuntos é que causavam efeitos afrodisíacos na fantasia dos mistérios de águas e matas e potencializavam o imaginário das coisas misteriosas descritas nos menores detalhes. E quando alguém suspeitava do exagero, Canelinha repetia, impreterivelmente, a mesma expressão: Mas moço! Estou te falando! Volta e meia pegava alguém num trocadilho pitoresco. Numa ocasião falava de uma caçada, frustrante, pois, andando o dia todo à procura de algum animal silvestre, nada encontrou. Não apareceu sequer uma pomba para ser abatida. Voltava todo desluzido para casa e, já próximo da residência, percebeu um movimento numa touceira de capim no meio de brejo. Viu que poderia ser até mesmo uma pessoa. Certificou-se bem para ver se o movimento não era de gente e detonou o tiro de espingarda, daquelas chamadas “espera um pouco”, pois, tinha que ser recarregada através de cano, o que sempre implicava em razoável demora. Ao verificar o efeito do tiro, disse que juntou noventa e nove preás mortos só com aquela disparada de chumbo. Então José, espantado, o interpelou: Porque não arredonda o número para cem? A resposta veio séria e imediata: Moço, eu estou lhe falando! Você acha que eu iria sujar minha consciência por causa de um preá? Estou lhe falando! Ninguém perdia o humor porque todos já sabiam que as horas de “xororoca” envolviam muitas mentiras e adaptação de causos imaginados. Todos já estavam tão acostumados com as mentiras do Canelinha, que num dia um bom grupo, acabou entrando na onda da sua mentira. Estavam reunidos cerca de vinte homens numa roda na frente da Igreja, esperando a chegada do padre para a celebração da Missa e, em conversa animada. Quando Canelinha vinha chegando para se inserir na roda da conversa, alguém se antecipou e já pediu: - Canelinha, conte uma mentira para nós? Ele, na sua tradicional pose altaneira de aparente seriedade, imediatamente respondeu: Não. Hoje não posso. Aconteceu uma coisa muito triste, pois acabou de morrer nosso amigo José, que morava a cerca de quinhentos metros de distância, homem muito conhecido e estimado na comunidade. Sem dar maiores explicações, Canelinha falou que já estava indo para lá. Tudo lhe ajudou para que a mentira desse certo. Ao lado da Igreja havia uma área de mato que escondia o rumo da casa de José. Foi andando sério naquela direção, mas contornou o mato, pegou outra estrada, para voltar ao pátio da Igreja. Enquanto isso, a roda de conversa foi imediatamente desfeita e, num clima de espanto e pavor, todos se deslocaram no rumo da casa de José. Ao chegar ali, nenhum ambiente de choro e, nem de velório, mas viram que Mariana estava aparando os bigodes de José para deixá-lo mais elegante e aprumado, pois estavam prestes a sair para a celebração religiosa. Foi então que, muito destrambelhados, perceberam que Canelinha, de fato, lhes aplicara mais uma mentira.

O Fritz malandro

Na escola Fritz aguentou até a terceira série do curso fundamental. Era bom aluno somente nos intervalos e nas idas e vindas da casa até a escola. Não tinha jeito de aprender algo do programa de aulas, pois ficava se distraindo, o tempo todo, olhando para as meninas e comentando a respeito de qual delas poderia ser sua melhor futura esposa. Fritz tinha antecedentes para ser daquele jeito, pois Adalbert, seu pai, era conhecido como mentiroso e velhaco. Era um antigo empresário de transportes, nos tempos em que uma carrocinha puxada por dois burros se constituía no mais fácil meio de exportação da banha de porco para os lados do Rio Grande do Sul. O avanço tecnológico de boas estradas e de caminhões ainda não tinha chegado naquelas paragens do oeste catarinense. Como sempre andava na estrada, fazendo transportes na pequena carrocinha de tração animal, Adalbert costumava levar banha de porco e trazer fretes da cidade de Irai, no Rio Grande do Sul, especialmente de café, de açúcar e de sal. Como era estradeiro, não sobrava a Adalbert o tempo necessário para plantar milho e pasto a fim de alimentar bem os burros. Por isso, costumava parar na beira da estrada e colher espigas de milho que os outros plantavam. Assim também fazia com pasto e com cana. Quando alguém o flagrava no roubo, conseguia deixá-lo ingenuamente embaraçado porque alegava que não poderia deixar seus burros morrer de fome. E já puxava outra conversa animada para desviar possíveis cobranças ou xingamentos. O Fritz, filho do Adalbert, era um tipo cômico por natureza. Sabia, desde menino pequeno, modular a voz como se fosse homem adulto e também não se atrapalhava para falar com ninguém. O lugar onde era mais versátil era na beira do campo de futebol fazendo apreciações do jogo, das jogadas, dos jogadores e da torcida que o rodeava. Provocava risos a toda hora. Como não era sério, em campo, em vez de empenhar-se em torno da bola, ocupava-se nas gracinhas com os adversários. Se na escola Fritz era literalmente nulo para aprender qualquer coisa, era, entretanto, fora da escola, um menino travesso e se mostrava extraordinariamente versátil nas idéias e besteiras que sabia falar. No trabalho Fritz não rendia nem para custear o sal do feijão que comia. A ausência do pai não o fez aprender a ser regular no serviço da lavoura. Casou muito cedo, pois, o que mais pensava, desde menino pequeno, era isso mesmo. Depois de casado, sem demora, começaram a correr os boatos relativos à preguiça do Fritz e às falcatruas que fazia nos negócios. Um destes processos fraudulentos envolveu sua única porca de criação de suínos. Como estava num aperto econômico, resolveu engordá-la. Ao atingir cerca de trezentos quilos, foi a um comerciante para vendê-la e pediu o dinheiro adiantado, alegando necessidade urgente para quitar uma dívida hospitalar envolvendo sua esposa. Como o negócio deu certo, foi logo procurar outro comerciante comprador de porcos e lá repetiu a lamúria e saiu com o dinheiro adiantado. Satisfeito com o êxito, foi a um terceiro comprador de porcos e alegando as mesmas razões, conseguiu vender a porca para ser retirada dentro de alguns dias, na sua casa, e recebeu o dinheiro adiantado. Ao chegar à sua residência, comentou que de qualquer forma os três iriam procurá-lo para receber ou o dinheiro ou a porca. Para evitar problema com pelo menos dois que ficariam logrados, resolveu gastar rapidamente o dinheiro e matou a porca para fazer lingüiça, boa reserva de carne e ainda um churrasco, para o qual convidou os vizinhos. Não demorou muitos dias e o caso do Fritz foi parar na polícia. Aberto um inquérito policial, Fritz teve que providenciar um advogado para defender-se. O advogado orientou-o a se fazer de abobado mental. Ele gostou da proposta, pois, isto ele sabia fazer como poucos neste mundo. No dia da audiência, o Fritz deixou todo mundo atrapalhado: ia andando de um lugar para outro como se viajasse no rumo do dedo indicador em riste, e, como um menino pequeno faz seu auto de brinquedo andar por todo lado, tanto parede acima quanto abaixo, o Fritz ia passando de um lado para outro, passava o dedo no nariz dos três comerciantes logrados e, quando o juiz o interpelou, não deu nenhuma resposta e foi continuando a passar o dedo sobre o seu nariz, seguindo a fazer o mesmo nos advogados e desconcertando o ambiente. O juiz irritado mandou-o embora. Ele fez de conta que nada ouviu e persistiu nos seus movimentos ondulatórios com o dedo indicador, ora fazendo-o subir pela parede, ora passando-o na mesa da audiência, ora no bolso das pessoas e ora sobre a cabeça deles. Como fora considerado louco varrido, a sessão foi encerrada sem nenhum encaminhamento. O advogado de defesa, então, levou-o até na sua residência, passando por uma estrada de péssimas condições de trânsito. Quando Fritz já ia descendo do carro, o advogado o interpelou a respeito da cobrança do seu serviço de advocacia, da despesa de transporte, e, neste momento, Fritz fez o desfecho solene da sua encenação: começou a passar o dedo no nariz do advogado, no carro, no ar, e foi andando, rindo e debochando do advogado em alta voz, como se de fato tivesse sérios transtornos mentais. Tudo não passava de mais uma malandragem. Foi aí que o advogado percebeu que a orientação dada, fora eficaz para evitar a condenação do Fritz, mas, fora também um golpe no qual ele saiu tão logrado quanto os três comerciantes.

O homem que sonhou ser aranha

Nos tempos da década de 1960, que já podem ser chamados tempos de antigamente, quando o grande status era o de alguém possuir um rádio movido por carga de bateria, era comum que o dono de um receptor de ondas sonoras se tornasse prestigiado e agraciado com muitas visitas, que, à noite, vinham para escutar algumas músicas, o que constituía fato raro naquele tempo. Justamente à noite, as ondas sonoras das rádios brasileiras, que poderiam fazer espargir pelos alto-falantes do rádio algumas músicas do Teixerinha, algumas outras músicas gauchescas e sertanejas, estas sumiam do ar no meio de ruídos e chiados, como as nuvens dos céus, e, a sintonia do rádio passava a apresentar somente conversa de radialistas argentinos. De dia, até que a sintonia era boa e nítida para escutar músicas da rádio Globo ou Tupi de São Paulo, ou da Guaíba e Gaúcha de Porto Alegre ou, ainda, escutar as músicas de bandinhas da rádio Entre-Rios de Palmitos, mas, de noite, só dava conversa de “hermanos” do lado de lá do rio Peperi. Alguém tinha que ficar com a mão no sintonizador do rádio e tentar achar a sintonia fina de músicas brasileiras. No entanto, a cada pouco, conversa vinda da Argentina tomava o espaço da outra emissora sintonizada. Por mais que a função técnica de evitar a ocupação das ondas argentinas, fosse exaustiva e, metida a procedimento técnico sem muito êxito, escutava-se, a todo instante, a propaganda das pílulas Ross. Para casos de azia e problemas intestinais, o radialista recomendava enfaticamente: “Tome pílulas Ross”. Una pílula: Pim!; Dos pílulas: Pim, Pim!; Três pílulas: una “cagada” completa! PRRR; PRRR; PRRR... Como a música sumiu dos ares, pelo menos a propaganda das pílulas Ross despertou Pedro Silva a contar uma experiência em torno do árduo procedimento, após uma defecada completa. Contou que, numa noite, teve um sonho encantador de ser aranha. Lá do alto do pé de grápia, árvore altaneira sobre as demais do mato, estava ele, acima dos mistérios, dos medos e dos mecanismos mortíferos e vociferantes das disputas pela vida que aconteciam sob o verde-escudo das árvores mais baixas. Primeiramente, olhou bem para todos os lados a fim de escolher o melhor lugar para fazer sua moradia. Achou, sob um galho, lá nas alturas, uma rachadura da casca e viu que ali seria lugar seguro contra predadores e até mesmo contra as intempéries dos ventos e das chuvas. Foi fazendo teia até proteger bem seu espaço nidícola. Depois disso, pensou em assegurar o necessário suprimento alimentar. Ergueu o pum-pum para o ar, e foi soltando teia. A brisa do entardecer se encarregou de fazê-la ondular suavemente até chegar num pé de Imbúia. Ao constatar a ponte aérea, reluzindo contra os últimos raios solares, como um asfalto prateado e liso, desceu airosamente como a aterrissagem de um avião e começou a preparar uma armadilha para captar insetos. Desejoso de farta reserva alimentar, foi soltando teia a partir desta armadilha até fixar-se num cedro e, lá, preparou outra arapuca para captar bichinhos incapazes de perceber, no lusco-fusco do final do dia, as suas quase invisíveis catapultas para lograr os míopes das matas com sua sorrateira arma mais forte que aço. Cheio de realização, foi subindo, antes mesmo do escurecer para seu novo residencial no galho da grápia. Chegando lá nas alturas, viu que o sol ainda o iluminava com vagos e diluídos raios. Resolveu, então, soltar teia para vagar pelos ares, como astronauta que se encanta ao deslindar novos horizontes. Imaginando flutuar soltamente, mas, amparado pela teia que lhe abriria a segurança para o retorno ao ambiente doméstico, foi dando asas aos sonhos de prazer, de felicidade e de realização pessoal. A imensidão das distâncias visualizadas apontava todo o poder que um dia poderia alçar e sentia-se alheio a tudo quanto acontecia nas rasteiras obscuridades da mata. Ainda que este fio de teia não tivesse encontrado lugar para prender-se em algum galho, deveria baixar das nuvens. Mansamente, como o pouso de uma águia, iria aterrissar sobre a copa de alguma árvore e depois, exuberante e todo satisfeito, retornaria sobre a teia produzida pelas suas próprias entranhas. Deslizava suavemente no seu retorno, para voltar e ver se alguma presa já enroscada na teia poderia servir-lhe de fresco e saboroso jantar. Depois, iria repousar no seu seguro ambiente residencial. Antes mesmo de ver-se adormecendo, depois do bom jantar, acordou do sonho e aí veio uma constatação mais desconfortável: nada de aranha e de teia, mas estava sujo por uma evacuação de dejetos intestinais. Passou a mão por baixo e sentiu que as proporções estavam do tamanho das longas teias produzidas no sonho. Surgiu, então, outro problema: como ajeitar-se sem que as demais pessoas da casa viessem a perceber seu descontrole peristáltico? O pior foi que o produto havia passado da cueca, cruzou pelo pijama e chegara a manchar o lençol! Não restava alternativa melhor do que sair de fininho, cruzar uns cem metros de escuridão e pior, numa noite fria, para ir até o córrego e empreender uma necessária limpeza geral. O caminhar no escuro, ao lado do frio que parecia cortar suas orelhas, todavia, despertou a sensibilidade de que também as pernas iam se sujando paulatinamente. Bem, contou Paulo, prosseguindo o assunto, pensei logo num jeito para me defender: vou tirar a roupa, lavá-la e enxaguá-la bem, torcê-la ao máximo e, depois, fazer uma limpeza geral na pele para não deixar nem mau cheiro. E, para que ninguém percebesse o descalabro, ainda teria outra difícil tarefa: como limpar o lençol e como não mostrar que a roupa fora lavada? Para limpar o lençol, teria que levar um pano molhado e esfregá-lo e tirar as evidências da “defecada completa”, igual à da propaganda das pílulas Ross, e, ainda mais, teria que vestir a mesma cueca e o mesmo pijama, que, mesmo molhados, teriam que secar durante a noite sob o calor do cobertor. Ademais, precisaria levantar-se antes dos pais e dos irmãos, a fim de levar o pano sujo até o córrego e lavá-lo a ponto de não deixar vestígios que um sonho lhe deixara para amargar. Felizmente tudo deu certo, mas Paulo, ao narrar o sofrimento decorrente do sonho, assegurou que não queria jamais ser acometido por qualquer tipo de sonho envolvendo aranha e teia. Nestas alturas da narrativa de Paulo, nem a propaganda das pílulas Ross e nem as teias das suas entranhas sustentavam as ondas das tonalidades musicais do rádio, mas, para consolar-se, ele mesmo concluiu: ainda bem eu me sujei por completo com o que veio das minhas próprias entranhas! Já pensou passar por tudo isso, com os dejetos produzidos por outros?

O treinador de tourada

Nos idos tempos de infância, os domingos eram muito diferentes dos domingos atuais. Enquanto as meninas, mais contidas e sóbrias, brincavam de boneca e de outras formas perto das casas, os meninos passavam o tempo na beira de córregos, na procura de frutas silvestres, nas caçadas com estilingues, nos banhos das pequenas represas que a cada chuva forte eram desmanchadas, num joguinho de futebol com bola quase redonda, feita com panos amarrados e, algumas outras artes nem sempre liberadas pelos pais. Uma das muitas artes que dava uma sensação divina de grandeza e de poder acontecia quando algum dos colegas conseguia roubar um pedaço de fumo dos rolos de corda que seus pais fabricavam e a gente se inventava a fumar aqueles crioulos, fortes, fedidos e que de vez em quando causavam vômitos ou uma diarréia de proporções alarmantes no meio da capoeira. Nem lagarto ficava por perto com a pressão peristáltica que eclodia pelos ares e causava pânico nos pequenos animais que por ali se alojavam. Num domingo de tarde, a castração de um gato, tarefa nada fácil, mas, com a tecnologia que um colega constatou junto ao seu pai, tornou-se plenamente viável. Marcos tinha visto seu pai fazer tal procedimento e que, além do canivete para o benefício do dito machão, se valeu de uma bota. Teria metido o gato com a cabeça para baixo dentro da bota e apertado o cano desta bota entre os joelhos, de modos que o gato não conseguia nem sair e nem arranhar. Aí era fácil operar uma extração dos fragmentos seminais do dito bichinho. De posse da tecnologia, tudo foi rapidamente combinado. Um trouxe o gato e outro a bota de seu pai. Pedro, o mais metido a xerife do grupo, tinha um canivete, o que dava, naquele tempo, um extraordinário status entre os meninos. Ser portador de um canivete, preso a uma correntinha de aço, amarrada na cintura, valia mais que um computador ligado na internet, do que um vídeo-game, ou qualquer outra parafernália eletrônica como celular, DVD, I-fone, Smartphone, etc. Na hora do procedimento cirúrgico, apareceu um imprevisto: o dito canivete não tinha lâmina suficientemente afiada para perfurar o invólucro escrotal do gato. Até que uns foram esmerilhar o canivete num rebolo de arenito, o gato já estava quase asfixiado. Concluído o afiamento da lâmina do canivete, Pedro até foi rápido para encerrar a tarefa da castração do gato. E então, o que fazer? Enquanto o gato sumiu desesperadamente tonto em meio ao monte de tábuas, o próprio Pedro apresentou outra proposta: tourada com um borrego muito brabo! Contou que na semana anterior tinha ido com seu pai ao circo. Um pequeno circo e que, num dos programas artísticos, exibiu uma tourada. Um homem com um pano vermelho diante do touro e, quando o touro avançava nele, puxava o pano para o lado e o touro indo no rumo do pano não o chifrava de jeito nenhum. Todo o grupo, então, migrou para um piquete de pasto do vizinho, onde cerca de trinta carneiros pastavam. Todos sabiam que alguns dos borregos avançavam nas pessoas e não se intimidavam, pois, já demonstraram esta hostilidade fazendo todos correr do campinho de futebol e se refugiar nas árvores que ficavam do lado. Pedro, todo metido a inteligente, foi buscar uma camisa vermelha na sua casa e ainda sugeriu que iria fazer o borrego quebrar os chifres contra um toco de cedro, pois ele iria postar-se na frente do toco, e quando o borrego viesse, depois de provocado, iria cair fora e iria fazê-lo ficar ardido de dor de chifre. Depois de tudo devidamente combinado, Pedro ficou diante do toco e segurava a camisa vermelha, diante do seu corpo levemente encolhido. Os demais foram encarregados a ir provocar os borregos a fim de que viessem mais próximos e, então, Pedro iria provocá-lo para a culminância do show. Tudo correu certo, menos um detalhe. Quando o borrego veio em cima de Pedro, este afastou o pano para o lado, mas o borrego simplesmente o prensou com forte chifrada contra o toco. Até que uns criaram coragem para ir socorrê-lo, passaram-se demorados segundos e Pedro soltou muitos gritos desesperados. Enfim, quando os mais fortes se animaram a enfrentar a fúria do borrego, agarrando-o pela lã e derrubando-o no chão, outros tiveram que acudir a Pedro que chorava com largos prantos. Medo, pavor e pânico, tudo passava no grupo. E se Pedro morresse, pois gritava de intensa dor no peito? Depois de alguns minutos Pedro foi se acalmando do choro e o ânimo do grupo voltou a serenar-se para voltar a conjeturar outra façanha menos perigosa. Foi então que todo grupo resolveu ir ao córrego e tomar banho numa pequena represa feita com a formação de uma taipa com pedras tiradas da própria água.

O padre acusado de ser mulherengo

Um dia o padre Hans, religiosamente dedicado ao serviço do atendimento de pessoas na secretaria da paróquia e, enquanto diversas pessoas o aguardavam para serem atendidas, viu passar no lado da janela, o senhor Pedro, coordenador da comunidade paroquial. Pedro, ao perceber o padre Hans, chegou ao lado da janela e lhe falou em voz bem alta: - Padre Hans! Vou ter que ver a conta de água do salão e, então, já aproveito a ida para buscar meu chapéu que, ontem de noite, eu acabei esquecendo lá no “Beira-Rio”, justamente na hora de ir embora! O dito “Beira-Rio” não se referia ao estádio do Clube Internacional de Porto Alegre, mas indicava uma casa de prostituição, edificada bem no cantinho direito da entrada do rio Chapecó no rio Uruguai. O padre Hans, que por natureza era especialista para contar piadas, mesmo que ficasse vermelho, entrava no jogo do tipo de piadas que eram contadas. Conseguia atrapalhar muita gente séria, quando se metia a contar piadas, aquelas chamadas “sujas”. Na interpelação provocativa de Pedro, padre Hans nem se deu tempo para ponderar sobre o assunto e já lhe soltou a resposta: - Bom, se você passar no “Beira-Rio”, aproveita e me trás junto o guarda-chuva que deixei lá, anteontem de noite! Foi o suficiente para que dona Gertrudes, muito escrupulosa e estreita no cumprimento dos ditames morais, saísse nervosamente da sala de espera e, imediatamente, ao atingir a calçada da rua, começasse a gritar com todas as forças que conseguia irradiar do seu pulmão, para informar, a todos quantos estavam na praça, que o padre Hans também estava freqüentando o Beira-Rio. Foi o lugar certo para que a notícia corresse por toda a redondeza em poucas horas, pois, ali estavam taxistas e aqueles desocupados que vão à praça para saber das últimas fofocas. A notícia de primeira mão chegou instantaneamente na agência central da cidade a respeito da grave contravenção do padre Hans. Pobre padre Hans, teve que contar muitas anedotas até que a comunidade voltasse a admitir que ele apenas fizera uma brincadeira para responder no mesmo nível aquela outra mentirinha do coordenador da comunidade. Numa das comunidades interioranas, todavia, Padre Hans foi interpelado sobre a gravidade do seu comportamento de freqüentar as mulheres do Beira-Rio, local não recomendado à sua condição de padre religioso e celibatário. O rosto um tanto unilateral do padre Hans dava um efeito especial às suas anedotas e apreciações dos fatos, pois tinha só um olho. O outro ficou lesado por uma faísca de raio quando ainda era jovem padeiro e viajava para uma cidade próxima a fim de fazer entrega de pão. O olho que permaneceu, em compensação, parecia um eficaz bisturi de “laser”, pois, ao encarar uma pessoa, captava imediatamente tudo o que se passava com ela. Ele dava aquela cruzada de cima até em baixo e deixava as pessoas sem muito assunto para falar. Tratava-se, na verdade, de um homem muito religioso, reto, honesto e brincalhão, mas, ao ser inquirido na referida comunidade, ele quis ilustrar, de forma brincalhona, sua suposta ida ao Beira-Rio, contando outro fato pitoresco. - Disse que, por longo tempo, foi ouvindo confissão de pecados de homens e, eles, sempre confessavam um mesmo pecado: que tinham atravessado a ponte do Rio Uruguai. E ele – padre Hans - ia respondendo, Ah! Meu filho, isso não é pecado! Vê se lembra de outras coisas para pedir perdão a Deus! Como mais homens vinham confessar este mesmo pecado, desconfiou um pouco, mas não via maldade nenhuma em cruzar a ponte do rio Uruguai e então aumentou e reforço do seu conselho. Eu também estou cruzando a toda hora a ponte de Rio Uruguai, mas, de repente, alguém foi mais explícito e retorquiu diante do conselho: - Padre, a gente fala que está atravessando a ponte do rio Uruguai, mas é para ir ao outro lado, freqüentar o “chinório das putas”. A comunidade, muito rigorosa, estreita e moralizadora, viu nisto um reforço da perversidade do padre Hans. Foi então que, mais uma vez, toda a região foi informada de que o padre Hans, além de freqüentar o “Beira-Rio” também atravessava a ponte do rio Uruguai para ir ao “chinório das putas”. Tudo quanto quisesse provar que jamais tinha ido àquele espaço do outro lado do rio Uruguai, não lhe tirou mais o preconceito. Mesmo depois que foi transferido para outra cidade distante, padre Hans ainda continuava a ser comentado pela grave contravenção, imaginária, de que teria ido ao “Beira-Rio” e que teria atravessado a ponte do rio Uruguai para visitar as “putas do chinório”.

O entendido em quiromancia

Há pessoas, normalmente psicólogos menos profissionais quanto alegam ser, que conseguem despertar verdadeira histeria em torno da regressão psíquica, não aquela difícil e demorada de muitas sessões de conversa terapêutica e que apenas lenta e gradualmente leva à maior conscientização de fatos marcantes do passado, mas, aquela imediata, que decorre de hipnose e que seduz e encanta os mentecaptos. Apesar dos cabelos derreados e da feição juvenil, Jorge Freitas, um aprazível jovem estudante de Psicologia, nunca tinha visto mulher meter-se nesta ingente atividade de hipnose, assunto encampado e tornado mais precípuo de malandros e espertos palestrantes e pastores que, em nome da Parapsicologia, passaram a fazer grotescos procedimentos de regressão. Do lado feminino, todavia, era comum encontrar-se farta representação para falar de quiromancia e de sorte, de futurologia, de cartas e de consulta da ingerência dos astros no cotidiano da vida das pessoas. Jorge Freitas descobriu que ler a sorte nas mãos das colegas sempre implicava em bom momento de gozação e diversão. Futricou em alguns livros da Biblioteca da Faculdade para saber algumas noções relativas ao que as linhas das mãos poderiam indicar em termos de afeto, inteligência e saúde e começou a exercitar-se nesta enfunada profissão de afirmar o que se passava na vida das pessoas. Descobriu logo que a primeira linha, a mais próxima do dedo polegar, seria a indicadora da afetividade e as pequenas linhas transversais indicariam recalques sexuais. Seria um achado especial. Na medida em que ia falando algumas generalidades possíveis e suscetíveis na vida de qualquer pessoa, especialmente dados de conhecimento prévio da vida destas pessoas conhecidas, elas logo se entusiasmavam, a respeito de como ele conseguia ler todos estes inúmeros detalhes e que conferiam cem por cento com o que elas viviam. Entretanto, quando falava do lado afetivo, costumava repetir sempre a mesma afirmação imaginada de que ali apareciam traços indicando intensas repressões sexuais, a resposta vinha infalivelmente confirmatória, mas, seguida de imediata indagação estupefata: - Mas como é possível que você consiga enxergar, até isso, nestas linhas? - Está tudo ali na sua mão! – costumava ser a resposta. Na verdade, ele apenas afirmava algo vago e, na medida em que lhe confirmavam algum dado do que presumidamente tinha lido nas mãos, afirmado de forma geral como o horóscopo que sempre dá certo, avançava com mais alguns dados vagos e aleatórios, especialmente dos já conhecidos daquela pessoa. Sem demora, ficou bem conhecido como especialista que sabia dizer tudo da vida das pessoas, simplesmente lendo as três linhas das mãos. Ao constatar que a charlatanice, utilizada apenas como forma de brincar com colegas, já lhe davam fama de especialista, pensou em descobrir algo mais destes exotéricos caminhos, junto a ciganas, estas que costumam ganhar dinheiro dizendo a sorte através da leitura das mãos das pessoas. No caminho da Faculdade costumavam perambular grupos de ciganas que insistiam com cada transeunte para fazer uma consulta da “Surte”, como diziam. A entrada da consulta implicava em pagamento de dez reais. Jorge aproximou-se de uma das ciganas, por sinal, mais jovem e belamente vestida, e entregou a nota para a dita consulta. A mulher já foi agarrando as suas mãos e passando rapidamente os dedos sobre elas, e falava igual a papagaio. O que Jorge estranhou foi que ela, na verdade, não lia nada. Apenas passava os dedos sobre a palma das suas mãos como gesticulação para deixá-lo hipnotizado. Enquanto passava os dedos com extraordinária destreza e olhava direto nos seus olhos, falava também com inaudita rapidez. Começou falando da mulher e dos filhos. Ele redargüiu: - Olhe eu não sou sequer casado e não tenho filhos! - Ela, no mesmo instante, só trocou o foco e falou: - Sua noiva está esperando um filho de você! - Jorge, já um tanto sádico, contradisse o assunto e falou que tampouco tinha noiva e nem mesmo namorada! A cigana nem perdeu o rebolado e iniciou a falar sobre a loira que estava no seu encalço e que poderia fazê-lo plenamente feliz. Jorge, surpreso com a perspectiva, pediu que lhe fornecesse mais dados a respeito da loira. A cigana foi categórica no retorno: - Os dez reais já foram! Para falar da loira preciso de mais vinte reais. Jorge pensou um pouco e desconfiou que tudo não passasse de mero esquema de extorsão dos seus poucos trocados. Procurou uma evasiva, enquanto ela gesticulava cada vez mais e falava de forma tão rápida e incisiva que ele já nem conseguia entender aquele emaranhado de palavras sem nexo. Ocorreu-lhe um repentino pensamento de apelação e falou: - Eu pago os vinte reais só se você primeiro adivinhar o que eu estou pensando. - Ela deu mais de uma dúzia de respostas e nenhuma sequer se aproximou do que ele realmente tinha pensado. De repente ela passou ao ataque e disse que ele negava o que lhe ocorrera no pensamento. A discussão ficou mais acirrada e ela solicitou que ele então contasse o que, na verdade, estava pensando. Ele imediatamente respondeu: - Que seria muito bom poder dormir contigo esta “noi....”! Antes mesmo de concluir a chalaça, veio uma reação muito mais ágil e certeira que sua capacidade de defesa e levou uma palmada, reforçada com cinco dedos finos e alongados, a lhe causar intenso impacto na orelha! Jorge resolveu, então, correr para o lado, a fim de não levar outros possíveis bofetes na cabeça, enquanto lhe veio na mente: - O que os outros, que me vêem nesta situação, vão achar de mim? Um homem daquele tamanho, apanhando de cigana em plena rua, fica um despautério! Ao constatar que já se encontrava a alguns metros de distância da cigana, viu-a vociferar e gesticular com as mãos. Olhou o derredor para certificar-se de alguma expressão de pessoas conhecidas que eventualmente poderiam ter observado o episódio, e, como a cabeça já estava quente e aturdida de vergonha, resolveu sair de soslaio da dita consulta. O tapa na orelha dever ter afetado tanto a área cerebral responsável pelos sonhos de quiromancia, que ele nunca mais foi visto a meter-se a interpretar as linhas das mãos de qualquer pessoa, nem mesmo das colegas mais próximas da sua amizade.

<center>FENÔMENOS CLIMÁTICOS</center>

  Cada vez mais seguidos e intensos, Causam mortes e pavores imensos, E tudo leva a crer que os culpados, São os humanos com atos er...