Índice
Apresentação...
1 – A complicada cegueira de fé...
2 – A demonização da adversidade...
3 – A difícil arte de apear...
4 – A dura lida com as calúnias...
5 – A estulta...
6 – A fé e risco da farsa do transcendente espiritual...
7 – A fé no Deus das vantagens...
8 – A fé poderosa da dona Benta...
9 – A fé que abre caminhos...
10 – A fidelidade por um fio...
11 – A Lei para a vida ou a vida para a Lei...
12 – A ligação dos ouvidos com a boca...
13 – A memória diante das expectativas frustradas...
14 – A meritocracia das recompensas...
15 – A polarização dos desejos humanos...
16 – A privatização dos dons de Deus...
17 – A segurança de um “TU”...
18 – A técnica de perseguir...
19 – Animais laborantes...
20 – Anseios profundos...
21 – Aplicação das virtualidades pessoais...
22 – Apropriação do sagrado...
23 – As vítimas de expiação...
24 – Até quando uma lei é boa...
25 – Autoridade e compaixão...
26 – Babel e Pentecostes...
27 – Batismo e Magia...
28 – Capacidade de apascentar...
29 – Cegos de nascença...
30 – Contenda entre Deus e o “Divino Pai eterno”...
31 – Dilemas do cotidiano...
32 – Discursos sobre questões de fé...
33 – Do controle remoto ao controle fotográfico...
34 – Dois caminhos no discipulado...
35 – Em tempo de Homo Consumens...
36 – Endireitar caminhos...
37 – Entre o bem e o mal...
38 – Entre o trono e o altar...
39 – Entre ver e crer...
40 – Entusiasmo passageiro...
41 – Fanatismos religiosos...
42 – Fé – mais que controle e ousadia...
43 – Fé desprovida de caridade...
44 – Fé e multiplicação de dogmas...
45 – Fé e tentação de mandar...
46 – Fé em torno do imediato...
47 – Nos difíceis rumos da vida...
48 – Obsessão por resultados imediatos...
49 – Pequenez humana e atrevimento...
50 – Preço do seguimento de Jesus...
51 – Quando as talhas estão vazias...
52 – Quando César não é digno de imposto...
53 – Quando o coração se fecha...
54 – Remadores da galera...
55 – Sinal da melhor recordação...
56 – Um testamento diferente...
57 – Um toque a favor da vida...
58 – Palavras finais: Vozes incômodas...
APRESENTAÇÃO
A fé cristã,
não se constitui apenas num objeto de conquista e desejo pessoal. É também
graça, mediada por gestos, testemunhos, e sinais dos tempos. Tampouco é
acumulativa e continuamente progressiva.
A fé pode crescer,
diminuir e desaparecer e foge do âmbito do controle rígido porque passa por
experiências vividas e por pequenos avanços decorrentes de tateios em que se
busca ampliar o horizonte de coerência em torno de quem seguimos, Jesus Cristo,
nosso Senhor.
A ampliação
da capacidade de aproximação do jeito bom de Jesus Cristo pode advir de
múltiplas interpelações, quer de gestos humanos, quer de sinais da natureza, ou
até de textos aleatórios, que podem despertar algum estalo motivacional no
caminho do discipulado de Jesus Cristo.
Possam estes
textos que seguem, remeter a ponderações capazes de alargar algumas razões da
fé.
1
A complicada cegueira
de fé
O desejo do alcance de níveis mais elevados e mais profundos de fé não
está livre e nem isento de fáceis auto-enganos. Ao mesmo tempo, constitui
tentação a busca de maior solidez de fé, sem os necessários percursos e os
importantes processos de auto-análise e reinterpretação do passado para real
crescimento na fé.
No campo da
fé, com certeza, número muito elevado de cristãos vive uma cegueira congênita,
isto é, foi feito cego na fé pelo seu ambiente de criação e de convivência. A
forma de socialização faz com que muitas pessoas não passem de cegos de
nascença.
Estas pessoas foram educadas para a submissão,
para a dependência e o entorno do meio-ambiente as acostumou a se pensarem como
seres fadados a pedir esmola, não de comida, mas, especialmente, de atenção, de
afeto e de complacência por parte das outras pessoas.
É uma sutil disfunção que torna estas
pessoas dependentes e incapazes de sair da situação existencial, porque o
próprio ambiente se acostumou a aplicar-lhes este rótulo de que são assim mesmo
e elas fizeram introjeção desta imagem. Sob um olhar fixo, o ambiente leva-as
ao conformismo.
A questão
que se coloca é como tais pessoas dependentes possam vir a dar-se conta de que
são dependentes? A consciência do limite pressupõe um importante meio para se
chegar ao alcance de mais fé. Entretanto, como é grande a busca de caminhos
rápidos e fáceis para o alcance de muita fé! Muitas pessoas ainda se movem pela
dedução de que, com o aumento de fé, alcançam espaço social de superioridade
para interferir sobre outras pessoas.
Nas
primeiras comunidades cristãs muitas pessoas encontraram reais e efetivas
dificuldades para crescer no seguimento de Jesus Cristo. Até mesmo a pressão
social do grupo de envolvimento dos que queriam enxergar mais e melhor, abafava
iniciativas pessoais e forçava pessoas dependentes a ficarem mais ou menos no
mesmo patamar.
O
evangelista João ao refletir teologicamente sobre este duplo significado do
“ser cego” e da possibilidade “de ver”, relatou um episódio muito interessante
em torno de um cego de nascença. O cego quis enxergar e Jesus também quis
ajudá-lo, mas, as pessoas ao seu redor tiveram mil resistências para admitir
que esta pessoa, sem fé, tivesse trabalhado sua cegueira e enxergasse, ou seja,
que passou a ver o seguimento de Cristo sob outros olhares: não mais da
mendicância, mas do anúncio da boa novidade que salva.
O ato
humanitário de Jesus Cristo não foi de magia fácil e sensacionalista. Valeu-se
da terapêutica vigente na época, passou barro com saliva nos olhos, e, o que é
mais importante, mandou o cego procurar o enviado. Neste processo, o cego
passou a “enxergar”. Não se tratava, por conseguinte, de uma cegueira de olhos,
mas, com certeza, de uma cegueira de fé.
A mudança do
modo de ser do cego gerou uma porção de contendas. Cada um queria saber melhor
do que o outro porque ele era cego, e, por quais mediações estava enxergando.
Como ele passou a “enxergar”, os presumidos clarividentes da fé é que se viram
situados como os verdadeiros cegos. Estavam extremamente preocupados em torno
do saber por que o antigo e conhecido cego, deixou de ser cego, mas, se mostraram
pouco afoitos para adotar a mediação e o seu itinerário de fé.
Numa das respostas de Cristo aos invocados com
a mudança do cego, estava uma afirmação bem contundente: que os verdadeiros
cegos eram precisamente aqueles que presumiam enxergar tudo.
Uma das
penosas dificuldades em nossas comunidades cristãs circula em torno desta mesma
questão: pessoas verdadeiramente cegas de fé querem com alguns ritos, rezas,
novenas e salamaleques, ocupar a onipotência de Deus e forçar outras pessoas à
submissão.
Há muitos verdadeiros cegos ocupando
espaços importantes de paróquias, de pastorais e de movimentos que se revelam
bem mais cegos do que aquelas pessoas do tempo de Cristo. Estão mais inquietas
com o deslocamento que foca somente possíveis causas secundárias de um cego de
fé que, em Cristo, encontrou a luz que precisava para “enxergar”. Também
resistem a admitir que outros cegos deixem de ocupar a função de mendicância
diante de pessoas controladoras que se acham insubstituíveis e inalcançáveis
nos seus patamares de fé. Trata-se, muitas vezes, de uma fé de meros costumes
medíocres.
2
A DEMONIZAÇÃO DA
ADVERSIDADE
Quando se
foi preparado para um tipo de atividade, seja profissional ou religiosa, e, ao
aparecer uma interpelação para deixar este modo de proceder e iniciar-se em
outro diametralmente distinto, aparece, de imediato, a auto-defesa capaz de
repelir a interpelação feita e de demonizar quem a emitiu.
Assim
podemos entender críticas ao nosso Papa Francisco, por amplos setores de padres
e leigos, e podemos entender porque Jesus começou a receber ameaças dos
escribas e até dos seus parentes: simplesmente não admitiam que lhes apontasse
um caminho messiânico diferente daquele que estavam acostumados a pensar e a
pregar. Como Jesus foi condenado por estar possesso pelo demônio por apontar
possibilidades de vida para além daqueles hábitos oficializados, o Papa
Francisco vem sendo duramente atacado porque convida a romper com o quadro
estabelecido de um imagético religioso mais próximo da ornamentação principesca
do que da missionariedade apontada por Jesus Cristo.
O empenho do
Papa para trazer periferias humanas, tanto de pessoas, de grupos, quanto de
países, para o centro das grandes preocupações, leva muita gente a defender
seus privilégios corporativistas e a esquece literalmente o evangelho, para
efetuar um acirrado combate com a inevitável demonização do Papa ou de quem
tenta aproximar-se do Evangelho. Sustentam que é preciso evadir-se da perversa
ação diabólica (que separa, divide e afasta) tudo o que possa questionar um
status estabelecido.
Tudo bem que
a interpelação do novo assusta. No entanto, não justifica qualificar quem é
coerente com o Evangelho a ponto de exorcizá-lo como sendo um agente do
demônio.
O quadro religioso do tempo de Cristo
havia classificado anjos e demônios e estabelecera que demônios eram anjos
decaídos. Sentia-se, com tal atribuição, no direito de desclassificar os gestos
e procedimentos de Jesus Cristo, através da afirmação de que estavam sendo
feitos em nome do pior demônio. No entanto, como aparece no Evangelho de Mc
(3,20-35), Jesus fez os escribas perceber que o procedimento deles é que, na
verdade, se constituía nesta perversa ação diabólica.
Jesus manifestou misericórdia, mas,
disse que não seria perdoável a maldade de perseguir a quem estava implantando
a bondade entre os que se orientavam no jeito de Jesus: tal perseguição, sim,
era literalmente diabólica! Vemos, pois, que muita demonização feita em tantas
pregações religiosas pode estar ocultando uma efetiva e eficaz ação demoníaca
de quem defende suas vantagens conquistadas ou suas presumidas funções na
segurança estabelecida, mas, que divide, confunde e desintegra.
3
A DIFÍCIL ARTE DE APEAR
Pouca gente
ainda se envolve com montarias que requerem apeadas. Se algo similar a apeadas
de cavalos ou muares ainda faz parte do cotidiano, está certamente relacionado
ao subir e descer escadarias, ainda que rolantes, arriar ou aterrissar em voos
de avião, nada, porém tão difícil quanto apear de patamares de honra, de poder
e de precedência, quando as ascendências foram longamente perseguidas e
conquistadas com muito esforço.
Parece que a milenar arte das cavalgadas não
entrou muito nos arquétipos culturais para predispor os seres humanos dos
tempos modernos a procederem com mais leveza e graça a “arte de apear” de
muitos lugares reais ou imaginários.
Apear para uma pousada passageira de
viagens ou para descansos ainda nos envolve em certa praxe de costumes. No
entanto, quem ainda pode nos mover a apear para acessos que permitam revelar o
estado de alma e descer às pousadas na aconchegante interioridade dos nossos
sentimentos? Quem ainda oferece espaço para permitir desvelar a intimidade e,
na gratuidade da partilha, ajudá-la a não se sobrecarregar com máscaras e
atribuições impróprias, capazes de tirar a auto-estima e o gosto de estar de
bem com outras pessoas?
No evangelho de Lucas aparece uma
interessantíssima cena através da antecipação de um convite. Trata-se do
episódio que se refere a Zaqueu. Ao saber que Jesus, no caminho já próximo de
Jerusalém, passaria pelo povoado de Jericó, e já consciente de que seu nome não
desfrutava de boa simpatia e nem de boa reputação, pois, vinha sendo
referenciado como ladrão, pela forma como usurpava dinheiro dos outros a partir
de cobranças excessivas de impostos, correu na frente para poder enxergar
Jesus. Uma multidão obstruía o acesso. A intuição de Zaqueu foi a de
adiantar-se e subir num arbusto.
Ao ser interpelado pelo nome e não
pelas atribuições que o ambiente cultural lhe impusera ao considerá-lo ladrão,
o homem ficou altamente sensibilizado, mas uma proposta surpreendente de Jesus o
levou a descer de imediato. Jesus falou que pretendia fazer uma refeição com
ele, em sua casa. Nisto Jesus revelou uma estratégia inusitada: pois poderia
simplesmente ter passado adiante e ter ignorado seus insistentes gritos devido
à sua reputação negativa. No entanto, fazer-lhe proposta para ir à sua casa,
revelou algo muito mais significativo: acolhida do seu universo, de seu mundo,
da sua consciência e dos seus desenganos.
Ao dizer que pretendia devolver quatro vezes o
que roubara, Zaqueu estava mostrando que já havia se convertido, simplesmente a
partir do que devia ter ouvido falar de Jesus Cristo. Por conseguinte, a
interpelação para descer da árvore, na qual subira para ver Jesus, implicava
numa tarefa mais profunda: ir para a casa. Hoje também muita gente sobe a
santuários, Igrejas e tantos outros lugares para “ver” Jesus, sobretudo, em
milagres rápidos e fáceis; mas, o simples ato de “ver” ainda não é o suficiente
para integrar a vida: requer-se algo mais importante que é o “descer da
árvore”.
Árvore pode significar a elevada articulação
de galhos das pretensões exacerbadas, das seguranças intimistas, das
auto-suficiências, dos orgulhos e das instâncias de honra que pessoas se
atribuem. Desfazer-se de todos estes presumidos bens, freneticamente buscados,
e que, do alto das análises levam a visualizar com clareza, não isenta da
interpelação de outro passo pedagógico fundamental para rever a vida e
encontrar formas capazes de propiciar mais satisfação no existir.
Corremos o risco de “subir” e de “ver”
muito e muitas coisas, mas, sem adquirir a importante capacidade de “descer”
para, “em casa”, revelar-nos e apear dos ilusórios mecanismos de afirmação
sobre os outros. O difícil, no entanto, é perceber do que apear, a fim de
encontrar formas mais agradáveis e satisfatórias de convivência.
4
A DURA LIDA COM AS
CALÚNIAS
Tanto a
história bíblica quanto a história geral das relações humanas demonstram
exaustivamente o quanto pessoas tem dificuldade de lidar com calúnias. Bem
sabemos no que termina a vingança. No entanto, como administrar os sentimentos
feridos pela maldade alheia, que, ao denegrir nosso nome e nos ferir em nossos
símbolos vitais, machuca mais do que se nos batessem fisicamente?
Muitos
textos do primeiro testamento da Bíblia mostram que a experiência religiosa
daquele povo diante da agressividade, quer de povos vizinhos ou daquela que os
profetas experimentavam no meio de suas comunidades, os levava a delegar a
vingança a Deus. E muitas vezes rezavam, com insistente fervor, para que a vingança
divina fosse um pouco maior do que a humilhação que eles tinham sofrido.
Diante do
que Jesus Cristo manifestou em palavras e gestos não fica nenhuma evidência de
que Deus se presta como justiceiro para vingar as situações humanas
injustiçadas.
Com certeza,
a condição humana, ao delegar a Deus a esperada ação vingativa, é melhor do que
revidar porque tenderá a diminuir o ciclo vicioso da violência revidada que
gera outra violência. Mesmo assim, como
integrar subjetivamente os sentimentos desta demorada espera de ação divina? A
tendência natural é a de que os sentimentos de raiva ou de vingança passem a
ocupar a centralidade do que se pensa e que acaba tirando toda a motivação para
um agir positivo.
Podemos
recordar que os procedimentos de Jesus Cristo diante das múltiplas formas de
agressividade, de calúnias, difamações e de perseguições, apontaram o perdão e
a reconciliação como caminho mais plausível para romper a natural vontade de
vingança, e, também da desistência de continuidade nos bons procedimentos e no
anúncio da Boa Nova. É, sem dúvida, um caminho nada fácil e que exige intenso
cultivo de fé! Ainda mais, porque nestas situações emergem de imediato, fortes
propensões para desistir, aquietar-se e refugiar-se no anonimato.
Jesus orientava seus seguidores a
lidar com esta tentação: insistia muito para que os discípulos não tivessem
medo! Que eles, apesar das adversidades, não escondessem as preciosidades do
Evangelho. Tampouco deveriam sucumbir diante do medo. Ainda que o sofrimento
das adversidades fosse desanimador, convidava-os ao anúncio do Evangelho, e
lhes assegurava que todo o bom procedimento no meio da maldade, seria levado em
conta por Deus.
Como os
primeiros cristãos, que souberam realimentar-se da palavra de Cristo para não
entrar no círculo vicioso da vingança, nós, também podemos, como ele, tornar
viva e eficaz a importante exortação de não cultivar o mecanismo da vingança,
ainda que o necessário perdão demore, poderá encher-nos de confiança e de
certeza de que tal procedimento, de fato, é o melhor que poderia ter efetuado.
5
A ESTULTA
Dona
Jandira, como é possível que você se entregue a uma vida tão estulta e fica se
martirizando em função dos desejos, das fantasias, sobretudo, quando envolvem o
campo afetivo-sexual e se submete a um estulto sacerdote carismático que te
controla com atribuições categóricas a respeito do que Deus faz contigo quando
você se vê acometida por tais sentimentos.
Será que
existe, dona Jandira, uma capacidade absoluta de evitar sentimentos e fantasias
sexuais? O clássico Karl Jung há muito tempo já concluiu e, a partir de longos
e intensos estudos, que o nosso psiquismo produz imagens e fantasias que não
dependem da nossa vontade. É o chamado campo das “Sombras”. Se estas imagens
ocorrem e se Deus desencadeou a existência humana desta forma, será que Ele
seria tão estúpido de querer mal a você, de castigá-la e de assegurar
categoricamente que você vai parar no inferno? Oh dó! Desconfia um pouco. Quem
merece ir para o inferno é quem te controla de uma forma tão cruel, vil e
sorrateira, e te prende aos mil sentimentos de culpa e de profunda dívida,
impossível de ser quitada no itinerário dos dias de vida humana que lhe restam.
Fico
indignado ao constatar que você sofre profundamente e que faz esforços imensuráveis
para negar e abafar os sentimentos que lhe ocorrem, e, por isso, os amplia no
seu inconsciente e os faz aparecer com intensidade ainda maior e mais
torturante. Trata-se de uma bola de neve que na medida em que rola aumenta seu
volume. Rezar para evitar uma tentação é fazer um importante exercício de
ativação desta tentação porque no psiquismo, tudo quanto você quer negar ou
abafar, está, na verdade, afirmando e despertando para maior manifestação.
Onde e
quando Deus disse que uma pessoa cristã não pode sentir alguma fantasia sexual?
Parece que toda a mensagem de Jesus Cristo não incrimina alguém pelo fato de
sentir fantasias. Agora, cultivá-las excessivamente pode significar um alerta
sobre problemas afetivos não resolvidos. De onde o dito pregador carismático
tira a certeza divina do castigo? Não poderia você, dona Jandira, desconfiar
que ele, na verdade, deve estar pretendendo constituir-se no guia de sua vida e
que nada está a ajudá-la para você se tornar uma pessoa mais livre, genuína e
original. Queira, por favor, desconfiar vinte vezes desta conversa moralizante
e moralizadora de quem se coloca no lugar de Deus e se sente na plenitude dos
poderes para afirmar categoricamente o que alguém pode ou não pode sentir.
Dona
Jandira, um procedimento terapêutico: diminua a assistência dos programas
televisivos que em nome da Renovação Carismática Católica fazem mais mal do que
bem; e que, na concepção fundamentalista e essencialista, estão deslocados no
tempo e no espaço. Olhe mais para a vida real das pessoas.
6
A FÉ E O RISCO DA FARSA
DE
TRANSCENDÊNCIA ESPIRITUAL
A tendência natural à rigidez
provocada pela sociedade moderna parece que afetou muitos bispos e lhes
suprimiu a capacidade de refletir sobre a ordem dos espaços diocesanos sem ladainhas
de normatividades. Evidentemente que regras são necessárias, mas, a excessiva
tendência de subordinar tudo ao controle, coloniza e mapeia o cotidiano das
pessoas. Uma das formas de manter este controle consiste na cobrança desta
colonização, em nome de Deus, e, de suas ordens. Já não é mais um projeto de
construção que exige inovação e mudanças, mas a extrema rigidez do controle que
passa a ser vista como capaz de gerar liberdade. As algemas usadas em nome da
ação de Deus podem não levar aos desejados avanços da qualidade e da liberdade
humana.
Enquanto o discurso liberal e
econômico inova diante da quebra das algemas com controle do sistema social e
passa a falar muito em fluidez, flexibilização, liberalização, nos âmbitos
eclesiásticos tende a predominar o inverso, ou seja, uma superprodução de
normatividades. Da sociedade emergem cobranças sociais que envolvem aspirações
de menos peso de impostos e de cobranças. Já na Igreja, o percurso parece ser
inverso: mais normas, mais regras e mais rigidez para o enquadramento de certas
posturas. Quando uns, sob muitas formas querem ver-se livres do aprisionamento
das gaiolas, outros parecem gastar toda a energia para forçar os cristãos a
entrar em gaiolas duma aparente segurança, estabelecidas como paradigmas de
salvação. Precisamente nesta argumentação, pode o discurso religioso
constituir-se numa perversa mediação para submeter pessoas numa típica forma
patriarcal.
“As conversações patriarcais negam a solidariedade, fazendo dela algo
especial, uma virtude que surge como expressão do mais elevado espírito humano,
ou como uma farsa de transcendência espiritual”. (Humberto R. Maturana. In: RIANE EISLER. O Cálice e a Espada. São Paulo: Palas Atena, 2007, p. 20).
Pode, segundo Riane Eisler,
constituir-se em fundamento de uma cultura não alienada pela cultura
patriarcal, e pode constituir-se num fundamento humano para viver. (idem,
ibidem).
Longe da pretensão de propor forma
anárquica na organização da diocese, queremos insinuar que formas religiosas de
ver o mundo implicam tanto em regras jurídicas quanto religiosas para melhor
adequar a conduta das pessoas da comunidade religiosa a uma forma condizente
com a entidade. Todavia, uma sutil forma de interpretar o que é oportuno e
correto para a vida de uma comunidade religiosa pode ser feita sob estereótipos
não correspondentes ao quadro religioso. A regulamentação do que um sujeito
considera certo e de direito, precisa confrontar-se com o comportamento, pois,
nem todo entendimento é necessariamente adequado ao comportamento.
Há situações reais que nos interpelam
a há mundos de vontades que nos interpelam. Por isto, falar de Deus é distinto
do constituir-se em porta voz fiel de Deus.
7
A FÉ NO DEUS DAS
VANTAGENS
Como nas
muitas descrições bíblicas em torno dos sofrimentos causados a outras pessoas
devido a concepções interesseiras de Deus, também nosso tempo está permeado por
imagens de Deus, muito divulgadas e vendidas pelos seus benefícios. Tanto na
Igreja católica, como em outras, parece prevalecer uma ideia do sistema
capitalista do que Deus é constituído em algo similar a uma empresa ou a um
objeto valioso que propicia vantagens a alguém que resolve negociar ou
apropriar-se Dele.
As
incontáveis orações de promessas e de novenas oferecem bela ilustração do quanto
se veicula a noção de que algumas formas de oração negociada são mais
poderosas, eficazes ou mágicas do que outras para o alcance de determinados
objetivos pessoais. No jogo dos interesses, até mesmo a ambição do céu entra em
questão. Uma eventual novena ou oração para pedir a graça de ser melhor, de ser
mais respeitoso, de ser mais paciente e atencioso com as pessoas, com certeza,
não alcançará boa divulgação e nem bons efeitos do retorno da publicidade.
A
desconfortável tarefa de perceber e de evidenciar sofrimentos e dificuldades no
caminho da vida, com o consequente comprometimento para diminuí-los ou
superá-los, possivelmente não desperta nem entusiasmo e nem ação efetiva. A
narrativa bíblica do profeta Jeremias (Jr 20,7-9) revela esta contingência muito
forte de quem quer viver as interpelações de Deus diante de grupos humanos que
em nome deste Deus, oprimem, massacram, debocham e gozam.
Pessoa
sensível como nós, Jeremias encontrava diante de si um quadro realmente
desanimador pela gravidade dos abusos sociais e também religiosos, que
manipulavam descaradamente as pessoas. Tudo indicava derrocada até dos valores
religiosos que deveriam elevar a convivência, tanto pela justiça das regras
sociais quanto dos valores religiosos. No entanto, era precisamente deste campo
religioso da vida que vinham as maiores decepções. Jeremias chegou a ter
momentos de revolta e de indignação profunda, mas, ao colocar diante de Deus
estes sentimentos, apresentando-lhe seu estado de alma, e, particularmente seu
desencanto até mesmo com Deus encontrava, todavia, - mesmo neste estado de
decepção e de desencanto, - que este mesmo Deus lhe dava forças para continuar
sendo um sinal profético no meio daquela sociedade desregrada e que manipulava
atributos de Deus.
Em nossos dias,
enquanto alguns se encontram tão seguros, categóricos e convencidos de sua
superioridade dominadora a partir de formas de negociar orações, de cantar
louvores fictícios e de celebrar de formas triunfalistas, outras pessoas
sentem-se com vontade de abandonar até mesmo a busca de Deus.
Talvez, como Jeremias, convém descobrir que a
capacidade de rezar aquilo que realmente se passa na vida, mesmo com revoltas
interiores contra Deus, poderá reconduzir com mais eficácia à experiência
profunda de que Ele continua a ser um Deus de amor.
8
A FÉ PODEROSA DA DONA
BENTA
Com o código genético recheado de
primariedade espanhola, dona Benta prendada por extraordinário volume corporal
e ciosa do seu patamar espiritual, é, no entanto, bem mais ágil do que a cobra
“Bico de Jaca” para erguer a cabeça e, do alto dos seus exotéricos poderes
espirituais, saltar para desferir um bote certeiro de condenação de tudo quanto
considera inferior às divinas leis espirituais.
A língua da dona Benta, muito mais
versátil que a da perigosa peçonhenta, consegue prender, na rapidez dos
movimentos, o olhar das vítimas e hipnotizá-las para uma imobilidade de apenas
acatar as ditas “verdades verdadeiras”.
Distante da memória do homônimo São
Bento, que ficara conhecido e muito lembrado pela expressão “Ora et Labora”
(Reza e trabalha), dona Benta preenche seus dias com devoções. O nome que lhe
fora auferido no batismo, certamente representou a melhor adequação do que seus
pais desejaram a seu respeito. Na vida real e efetiva, entretanto, dona Benta
pendeu para outro caminho de piedade diverso da tradição. Trata-se de uma
piedade sem espiritualidade, e, ineficaz para movê-la na vida como discípula de
Jesus Cristo, porque enveredou para uma espiritualidade balofa, exterior,
mágica e arrogante, donde dispensa as mediações apontadas por Cristo.
O nome da dona, por outro lado,
combina perfeitamente com seus rituais cotidianos de muitos gestos, de
genuflexões, de inclinações, benzeduras e de outros múltiplos malabarismos
rituais diante do televisor, a fim de captar toda a riqueza da bênção que o
padre Robson emite em suas verborragias televisivas e, com aquele ar de
resignado e parcimonioso servidor, humildemente solícito e pronto para fazer o
que o divino pai eterno lhe pede: abençoar a água que os devotos colocaram
sobre os televisores, a fim de que eles possam sorver aos ínfimos e pausados
goles aquele precioso néctar divino, e assim, captar toda a plenitude das
forças dos mais escondidos segredos dos altos céus, contidos nesta generosa
dádiva da oferenda divina.
Junto com os rituais de ambíguas apelações
religiosas, sempre vêm discretamente explicitado o que o divino pai eterno
espera em troca do seu gratuito e espontâneo procedimento milagroso: que os
fiéis agraciados com a água abençoada façam generosas doações, tanto quanto
lhes é possível, em favor da construção da sua nova e futura residência, logo
ali, no santuário de Trindade. Porventura, não estaria ele, o divino pai
eterno, sendo merecedor da melhor residência deste paradisíaco “berço esplêndido”
que é o Brasil?
Em troca da benfazeja oferta em favor
da merecida e suntuosa residência, ele, o divino, já adianta algum sinal de
cortesia, - o que já deve ter aprendido com políticos brasileiros – e deixa
escorrer meloso como o mel sobre as barbas do novo profeta, a prateada água que
faz borbulhar milagres de dar inveja aos outros que não sorvem estes preciosos
goles impregnados de virtualidades espirituais, mas, fortes como torrentes de
águas caudalosas. Tudo isto, contido num copo de água, deixado sobre o
televisor.
Afinal, não mereceria tal
benemerência divina também uma proporcional fartura de rituais, de piedosas
inclinações, de genuflexões e malabarismos de gestos, a fim de solenizar a
degustação prazerosa desta essência exotérica de milagres e graças?
A torrente de irradiação dos
estupendos poderes divinos e milagrosos, que atalham os outros penosos caminhos
da fé daqueles que, no discipulado de Jesus Cristo desejam encontrar alento,
motivações e as mínimas forças para ainda apostar num mundo melhor, promove
dona Benta a tão fácil e fictício poder superior.
Por presumir-se privilegiada neste
caminho emotivo, fácil e intimista, dona Benta se constituiu a si mesma no
patamar hegemônico da espiritualidade da comunidade católica. É, no entanto, uma
espiritualidade que a torna vaidosa, cheia de si mesma e gulosa, a ponto de
propiciar um estranho visual, uma vez que seus óculos se parecem a uma
pequenina fresta na parede e salientam sobre os avermelhados pômulos faciais, a
aparente fissura, por onde dona Benta visualiza tudo o que se passa no
derredor. Este olhar escondido indica, todavia, uma analogia dos antolhos que
limitam sua visão, porquanto enxerga tudo pela frincha fixa que propicia,
apenas e inevitavelmente, a mesma visão parcial: tudo o que é novo e diferente
do que pensa, está errado!
Sob a aparente, santa e piedosa
enlevação divina, dona Benta desperta nas pessoas mais sentimentos de
consternação do que de encantamento pela leveza do seu coração. Afinal, poderia
viver mais feliz, dar-se bem com os filhos e com a vizinhança. Nas suspeitas
sobre dona Benta persiste uma dúvida: será que ainda chegará um dia a
persuadir-se de que pode trilhar um modo de vida bem mais simples e bem mais
humana, capaz de transluzir a premonição de “um novo céu e de uma nova terra” e
não apenas o cego obstinado poder?
9
A FÉ QUE ABRE CAMINHOS
De antigo
memorial da Bíblia lembra-se muito um importante ancestral de uma das tribos
constituintes do pacto da Aliança: Abraão, homem que ficou lembrado como pai do
povo, porque sua fé em Deus o levou a migrar rumo a novas condições de vida em
vista de futuro melhor.
Em nossos
dias, milhões de pessoas migram forçados a deixar familiares, amigos de
infância e ambientes culturais que lhes deram satisfação de pertença, mas, geralmente
são forçados e procurar, em outros lugares, as básicas e mínimas condições de
sobrevivência. Ali a necessidade e o mecanismo de não sucumbir, diante das
tiranias de governantes, tende a falar mais alto do que a fé.
Nos tempos
de predominância nômade de tribos de Israel, Abraão, por não aceitar submissão
à tirania de um prepotente e despótico governo, deixou tudo e partiu. A
liberdade para organizar a sua vida representava, certamente, valor mais
significativo para seu porvir, do ser mero súdito explorado. A terra, dom de
Deus, representava a presença deste Deus, que fazia caminho com os andantes
nômades.
No belo
texto de Mt 17,1-9 transparece outro jeito e motivo para deslocar-se e outro
caminho para a fé: Pedro e seus colegas sobem ao monte, atrás de Jesus, porque
querem como ele, fazer uma experiência de intimidade com Deus. Impregnados dos
valores da tradição religiosa antiga, constatam, contudo, que estes valores
obsoletos não preenchem suficientemente seus anseios. Simultaneamente captaram
algo novo e muito distinto do que estavam acostumados a auscultar em relação
aos sinais de Deus. Desejavam encontrar em Jesus Cristo algo parecido com os
tempos antigos. As imagens antigas da presença e da ação de Deus, não se
coadunavam com as de Jesus Cristo, ali, neste momento de oração. Era alguém
muito distinto dos grandes líderes religiosos do passado. Não era nem como
Moisés, nem como Elias ou como outros profetas.
O momento de
escuta levou a uma nova profissão de fé. Pedro e seus colegas se deram conta de
que Jesus não constituía um líder político, nem populista, nem libertador
mágico, mas alguém que, pelo modo de assumir a cruz da dura lida, mostrava algo
totalmente inusitada ao normal da condição humana: buscava forças na intimidade
com o Pai. Mais que um simpático líder carismático, mostrava-se um
“servo-sofredor” que convidava a assumir e a carregar a pesada cruz da vida
para segui-lo.
A surpresa
de constatar em Jesus um rosto totalmente transfigurado constituiu, sem dúvida,
muito mais uma projeção do que aconteceu com Pedro e seus amigos, porquanto o
novo que constataram em Jesus Cristo os fez descer da montanha com outra
perspectiva de vida. Propiciou-lhes uma extraordinária força de ação e uma
inaudita capacidade, gradualmente amadurecida, para uma aproximação dos traços
fundamentais de quem lhes irradiava, na intimidade com o Pai, o verdadeiro
significado da sua presença.
As primeiras
comunidades cristãs amadureceram na dura e sôfrega lida cotidiana para também
transfigurarem seus olhares nos olhos transfigurados da pessoa de Cristo, e
provavelmente, sentiram-se também interpeladas a deixar para trás a mescla das
antigas explicações categóricas relativas ao que Deus fazia e como fazia.
Nossos dias
de ansiosas e sedentas buscas de Deus, de forma geral, em buscas nada próximas
do modo de ser de Jesus Cristo, requerem, de forma similar, importante
discernimento de algum outro itinerário de fé, como o do subir a montanha,
símbolo da oração e intimidade com Deus, para descer, não com inauditas e mágicas
curas e explicações categóricas e cerceadoras para intimidar segundo critérios
subjetivistas, mas, com olhar fascinado e seguro para além dos problemas que
afligem a vida, porque o caminho a ser andado é totalmente outro.
10
A FIDELIDADE POR UM FIO
Os efeitos da hiper-realidade de nossos dias exaltam ao auge das
sugestivas motivações a produção de heróis triunfantes, que, mesmo sem nos
envolver em reais elevações triunfais, nos amarram aos delírios e sonhos
produzidos em torno daqueles que são proclamados heróis ou heroínas. Beleza
física e capacidade esportiva tendem a ocupar os lugares de destaque, ao lado
das ascendências governamentais.
As entradas dos presumidos
triunfantes são geralmente exploradas à exaustão, com fogos, luzes,
incalculáveis fotografias, e volumes de som acima do permitido por lei, para
gerar delírio.
No conformismo distante de atos
heróicos, projeta-se, sobre o outro herói ou heroína, o sonho acalentado, mas,
em nada efetivado.
Posses de reis, de governantes e até
de subalternos mandantes costumam envolver a apoteose triunfalista de quem
assume um cargo eminente. Do primeiro testamento da Bíblia, lembra-se uma
figura típica de quem foi, no imaginário coletivo de muitos séculos, o rei das
excelsas grandezas humanas.
Sua entrada e também sua posse na
capital de Jerusalém foram estabelecidos como sinônimos deste clímax, embora
lhe atribuíssem os mais humildes e bons propósitos para o bem-estar do povo.
Rápido como os ventos, volatizaram-se
os propósitos e o famoso rei começou a pensar mais em si e nas suas muitas
amantes. Pouco sobrou para a gestão governamental em favor do povo.
Os redatores dos evangelhos de Jesus
Cristo animaram as primeiras comunidades cristãs com uma releitura do
“triunfalismo davídico” pelo avesso. A entrada de Jesus, em Jerusalém e seu
senhorio, não foram os de um comandante vencedor de acirrada disputa de
guerras. Basta lembrar que Jesus entrou montado num jegue: desarmado e ciente
do que o caminho redentor tinha outro percurso.
Para os cristãos, Jesus passou a ser
identificado não ao rei imponente, mas, ao “servo sofredor”, lembrado em quatro
poemas de Isaías, que destacam certos sofrimentos como caminho que impregna
redenção e salvação.
O alcance do sofrimento consciente e
integrado com vistas a alguma mudança ou superação é sempre um sofrimento que
gera vida. Nas propostas de Jesus Cristo a grandeza da capacidade de sofrer por
uma razão maior, se constitui estratégia não ao triunfalismo, mas, ao triunfo.
Assim como os que acolhiam Jesus,
jogando ramos verdes sobre o chão por onde passaria na entrada de Jerusalém,
rapidamente foram envolvidos a se isentar do gesto e gritar contra ele, também
Judas, um dos discípulos mais próximos, o traiu e o relegou por alguns poucos
trocados.
Em nossos dias, como estes primeiros
discípulos, muitos cristãos relegam o seguimento a Jesus Cristo por muito menos
do que algumas moedas e ramos verdes de acolhida. Basta uma pequena mágoa
contra alguém da comunidade ou um pequeno traço de antipatia contra o padre ou,
minudências ainda mais insignificantes, para se fecharem no seu mundinho
pessoal de vida, sem ação, sem causa de ação, e, mais ainda, sem nenhuma
motivação para incorporar algum grau, - por pequeno que seja – de sofrimento ou
esforço por uma causa justa e edificante.
11
A LEI PARA A VIDA OU A
VIDA PARA A LEI?
Questões
bíblicas sobre a relação entre marido e esposa, já se manifestaram há muitos
séculos antes de Cristo, e voltam a estabelecer-se com novas problemáticas em
nossos dias atuais. Uma delas é a que envolve direitos do marido e da esposa.
A Bíblia parte do pressuposto de que Deus fez
homens e mulheres para uma relação de complementariedade e que, o melhor fator
deste processo, é o do amor recíproco.
Ao
aparecerem dificuldades de convivência entre marido e esposa no antigo Israel,
depois de ponderações sobre os casos, estabeleceu-se uma regra que permitia
anular uma relação estabelecida. Da antiga legislação do tempo de Moisés
abria-se um caminho de separação de uma união matrimonial; nesta, o marido levava
ampla vantagem sobre a mulher. Os direitos eram desiguais. O homem, por razão
qualquer, podia dispensar sua companheira. Eventual interesse por outra mulher
mais simpática, ou, suposta como mais capaz de gerar muitos filhos, já se
tornava razão suficiente para que a esposa fosse despedida e outra fosse
adotada. Bastava que o marido desejasse a separação, que a mulher ficava sem
direitos a nada.
Criava-se,
então, um problema novo para as mulheres rejeitadas. Na fase deuteronomista,
posterior à mosaica, chegou-se a novo consenso que visava favorecer as mulheres
rejeitadas em seu prejuízo. Poderiam, segundo a Lei, receber uma carta de
divórcio. Isto, pelo menos, lhes daria uma chance de contrair outro enlace.
Como vítimas de uma situação cultural, as mulheres sempre saíam em desvantagem.
Mesmo assim, no tempo de Cristo, tal legislação ainda estava em vigor.
Uma elite
legisladora foi interpelar Jesus Cristo, para saber da sua posição em relação à
antiga lei estabelecida. Ao mostrar que a lei devia estar a serviço da vida e
não o inverso, em que a condição da mulher estava na dependência do homem,
Jesus também relativizou o peso desta antiga lei: a dureza do coração masculino
é que estabeleceu aquela forma favorável ao homem, altamente prejudicial à mulher.
Na
contrapartida da condição de vida justa, Jesus mostrou aos fariseus que seu
fundamentalismo rigorista e injusto estava sendo inadequado. Porque tanta
regalia para o homem e nenhum direito para a mulher? Assim, Jesus remeteu os
fariseus ao que já fora deduzido no livro do Gênesis: que nem o homem e nem a
mulher foram feitos para serem inferiores e coisificados como objetos. Por
conseguinte, não caberia ao homem tanta regalia de vantagens sobre a mulher.
Constituídos da mesma dignidade e da mesma liberdade, não caberia ao homem o
direito de dispensar sua esposa por interesse fútil, sem que ela tivesse o
mesmo direito em relação ao seu marido.
Em nossos
dias, as dificuldades para o entendimento entre maridos e suas esposas dependem
de uma porção de outros fatores culturais diferentes; mas, tampouco justificam
que uma pessoa venha a ser mantida como mero objeto descartável de outra pessoa
e, pior ainda, que seja mantida somente enquanto propiciar vantagens de
desfrute.
12
A LIGAÇÃO DOS OUVIDOS
COM A BOCA
À parte das
deficiências auditivas, a capacidade de ouvir ou de não ouvir pessoas, sem
estas deficiências, molda muito o assunto que se emite pela boca. Apreciações
boas e informações agradáveis permitem que ecoem da boca conversas benfazejas,
revelando a capacidade de ver as coisas com esportividade e otimismo.
Existe uma
condição surda-muda, que se manifesta com funcionamento orgânico normal dos
ouvidos, sobretudo a que envolve humilhações, torturas físicas e psicológicas,
adversidades sistemáticas, perseguições e agressões injustas.
A surdez
forçada pode ser pessoal, grupal ou coletiva. Uma ilustração de surdez coletiva
foi experimentada pelo povo da bíblia, quando estava exilado na Babilônia. Além
da condição escrava, pesava a consciência do fracasso como povo, pois, o que
fora conquistado com enormes dificuldades, se esvaiu com a memória da perda de
unidade em torno da aliança dos 10 Mandamentos: tudo isto e mais sentimentos de
culpa e de desencanto, silenciavam aquele povo disperso.
Uma voz profética, atribuída a
Isaías, apontava àquele povo disperso, a capacidade de ouvir e de falar,
porque, com a ação de Deus, poderia ocorrer o retorno da justiça! Nas
comparações que vão além dos ouvidos e da boca (surdos, voltar a ouvir, mudos,
voltar a falar...) os aleijados também teriam a capacidade de saltar. Até a
natureza poderia voltar à condição de constituir-se novamente num paraíso. No
alento e na esperança do profeta estava uma certeza: a de que o povo poderia
restaurar-se e renovar-se.
Nossa experiência atual, como povo,
vem passando por uma experiência que também faz muita gente calar-se diante da
corrupção, dos desmandos e das injustiças. Perde-se gradualmente o horizonte
das esperanças cristãs, some a perspectiva de que existimos no meio de um imenso
paraíso, e bloqueia-se a capacidade da fala espontânea, e, quando esta ocorre,
vem carregada de mágoas, raivas incontidas e ódios estranhos.
Antever dias melhores, não é nada
fácil para quem se situa num mundo “cego, surdo, mudo e paralítico”, que gera
perda da integridade social, grupal e pessoal.
Como Jesus Cristo, em momento de extraordinária prepotência, soube
apontar o caminho de Deus para além do desencontro humano, também nos indica a
perspectiva do olhar da fé para além do que silencia e emudece. A antevisão de
um sentido e de uma relação mais justa com as pessoas e com a natureza,
certamente nos aponta, como em outros momentos da história, que este planeta
Terra ainda possa ser considerado como o paraíso que nos envolve.
13
A MEMÓRIA DIANTE DAS
EXPECTATIVAS FRUSTRADAS
Com maior ou menor intensidade de
sofrimento, temos que lidar, de vez em quando com as tristezas e com as
desilusões provenientes da simples frustração de sonhos ou de expectativas.
O sofrimento se aguça ainda mais
quando cultivamos e acalentamos sonhos que não nos levam ao alcance de
situações desejadas. Como, então, continuar a achar graça da vida e procurar
outras motivações para ajeitar-nos conosco mesmos e com os outros?
O evangelho de Lucas (24,13-35)
apresenta um relato que pode facilitar a lida com os desencantos da existência.
Um primeiro aspecto indica que os protagonistas caminhavam decepcionados por
causa de um grande sonho frustrado: esperavam um rei poderoso, forte,
imponente, mas, o que encontraram em Jesus Cristo foi apenas um servidor
humilde que convocava as pessoas a se envolver na construção de um reino novo,
o reino de Deus. Por outro lado, em vez da ostentação de glórias, foi morto
como subversivo, para os romanos, e, como deturpador da religião, para os
judeus.
O aspecto interessante é que, apesar
das tristezas e das dúvidas, a fé fragilizada dos jovens Emaús, ainda
continuaram a caminhar. Dali decorreu o fato inusitado: reconheceram Jesus, ao
fazerem recordação dos caminhos percorridos e dos percalços encontrados. Ao
efetuarem a síntese, redescobriram razões para continuar caminhando.
Partilharam a ousadia dos sonhos acalantados, mas, ao reconsiderar os fatos da
forma amiga de Jesus Cristo, recuperaram especial fonte de alegria e
serenidade.
A releitura do passado tornou-se,
portanto, uma experiência que alargou a “razão fundante da fé”. Esta força
renovadora fez com que continuassem andando, mas, com uma característica
totalmente nova e distinta: passaram a ser alegres anunciadores da Boa Nova.
Os saudosismos estéreis e paralizantes
ficaram para trás e eles encontraram motivações novas e redobradas forças para
viver e partilhar uma mensagem de alegria.
Na fração do pão, símbolo da
Eucaristia, os discípulos de Emaús aprofundaram sua fé.
Nós vivemos um discipulado parecido.
Certos sonhos ideologizados frustram e machucam nossos sentimentos afetivos
básicos. Todavia, quando “caminhamos” ao encontro de pessoas e reinterpretamos
com elas os desencantos, facilmente ocorrem rápidas intuições de síntese que
nos levam a continuar andando, e, com a peculiaridade da alegria no lugar das
amarguras do coração.
Bom seria se nossa participação em
encontros eucarísticos também pudesse despertar, ao lado da memória de Jesus
Cristo, a memória dos nossos aparentes ou reais fracassos, e, ainda assim,
facilitar a necessária síntese para que o núcleo da fé continue a mover-nos
para além de alguns sonhos induzidos que decepcionaram. O que importa é a
recuperação da alegria!
14
A MERITOCRACIA DAS
RECOMPENSAS
Desde muito
cedo somos induzidos, pelos ambientes sociais do nosso entorno, a pressupor que
tudo possa ser negociável: qualquer feito, serviço, ou gesto, deve corresponder
a um poder de barganha com vistas a obter algum benefício ou alguma vantagem.
Até mesmo nas relações afetivas do ambiente doméstico, o jogo implica em
expectativas de recompensa por qualquer préstimo ou favor que venha a ser
feito.
Este
cotidiano do “tudo comercializável” facilmente interfere nos modos de vivência
na comunidade cristã. Assim, qualquer ajuda ou colaboração em favor da
comunidade implica em alguma perspectiva de retorno. Para muitos, até mesmo a
exposição mais notável em celebrações os leva a esperar recompensa, se não de
elogios e benemerências, pelo menos, muitos votos para cargos políticos.
Como o
dia-a-dia é de comercialização, não custa passar ao atributo de que Deus esteja
envolvido no mesmo jogo. Suplica-se, pede-se, implora-se, mas sempre em favor
de uma intercessão, vista como merecida. E ai de Deus se não for muito rápido
na concessão do que lhe fora pedido! E quanta conversa de gente a se lamentar
contra a ineficiência de Deus!
Numa
historinha contada por Jesus transparece o jeito de Deus totalmente distinto no
modo de agir (Mt 20,1-16): os contratados para trabalhar na vinha foram recebendo
o salário combinado, e, mesmo os últimos, que trabalharam apenas um pouquinho,
receberam pagamento similar ao daqueles que foram pagos por terem trabalhado
muitas horas antes, e, a mais.
A
meritocracia presente nas comunidades em torno dos eventuais serviços em favor
do bem comum chega a ser notável em nossos dias. Em primeiro lugar, já são
muito reduzidos os membros de uma comunidade que ainda se dispõem a efetuar
algum serviço gratuito. E quando o aceitam, geralmente, por curto espaço de
tempo, costumam declarar com um ar de superioridade moral: eu fiz minha parte!
Agora é a vez de outros também mostrarem gratuidade e suar um pouco pela
comunidade.
A historinha
contada por Jesus Cristo certamente visava membros de do seu discipulado, que
gestaram as comunidades cristãs, porque já manifestavam traços desta conduta de
espera de retribuição por eventuais ações em favor do bem comum. Parece que
Jesus Cristo lhes deu a entender que se deve trabalhar sempre, e por puro dom
numa comunidade. Assim, os novos membros que a ela se agregam, mesmo tendo
feito pouco ou nada, são levados em conta por Deus da mesma forma como são
levados em conta os que já atuam há muitos anos ou décadas.
Por
conseguinte, os méritos de quaisquer atos ou gestos em favor da comunidade não
devem visar recompensas e nem mesmo a espera de especiais vantagens da parte de
Deus. Devem ser feitos, por gratuidade, como resposta ao amor de Deus.
15
A POLARIZAÇÃO DOS
DESEJOS HUMANOS
O passado da
nossa história humana, ao lado dos valores humanitários, dos inventos e da rica
complexificação da cultura, nos legou um modo peculiar de lidar com as coisas e
com os acontecimentos: é a tendência de interpretar fatos e pessoas a partir de
polarizações, tais como “Alma-corpo”, “Bom-ruim”, “Bonito-feio”,
“Amigo-inimigo”, “Caos-cósmos”, “Material-espiritual”, “Sagrado-profano” e
muitas outras.
De acordo
com o que desejamos, pode algo muito significativo e valioso ser visto como
ruim, feio, contrário e merecedor de eliminação.
No campo
religioso esta polarização também leva a muitas dificuldades porque em nome de
Deus se deseja muito mal e se maldiz tanta coisa das outras pessoas, vistas
como opostas, como inimigas ou como adversas ao que é bom.
Quando bate
a vontade de estabelecer vingança, apela-se com facilidade à intervenção de
Deus para que Ele execute uma vingança maior do que aquela que seríamos capazes
de imputar. Fica a impressão de que nem Deus é bom, porque Ele se presta para
nossas baixarias de ódios e desejos de vingança.
Pelo menos uma
constatação muito evidente é a de que Deus nunca se mostra rápido para nos
socorrer frente a desejos vingativos ou de ação prejudicial a outras pessoas.
Da herança bíblica vem a rica noção de que Deus é extremamente paciente, e, com
isto, nos ajuda a adequar melhor nossas propensões à violência.
Muitas
pessoas até titubeiam diante de Deus e deduzem que Ele está muito lerdo ou
inativo no que lhe suplicam. Esta demora ajuda a constatar que Deus, com
certeza, não se interessa pelo nosso mundo de vinganças, mas deseja muito mais
que sua misericórdia nos salve diante dos atos e fatos pecaminosos. Ele é o
Deus que espera a fim de que aconteça a nossa redenção.
Na
convivência familiar e comunitária nada melhor do que a paciência como
mediadora para nos ajudar a lidar com as compulsividades e os desejos de
afastar ou eliminar os que nos parecem adversos. Jesus alertou seus discípulos
a não executar rapidamente os intentos de excluir membros que não pareceram
bons aos olhos de outros discípulos. De maneira muito sutil, ensinou através de
uma historinha sobre lavoura de trigo infestada de inço. Remeteu a separação ao
momento da colheita.
Ao não
pactuar com os desejos de exclusão Jesus ainda remeteu ao significado de outra
comparação, a do fermento misturado na farinha. Nos bons gestos pode fermentar
algo que transforma muito mais o meio-ambiente do que as naturais propensões a
perseguir, ameaçar, excluir e atentar contra a vida.
Se muitos
sinais e gestos parecem constituir-se em joio que sufoca o trigo, é a paciência
que vai permitir que no momento certo aconteça a separação. Em outras palavras,
não cabe a nós, impacientes, esta tarefa, e, o discipulado no seguimento de
Cristo pode tornar-nos fermento bom a levedar a massa dos nossos ambientes
familiares e comunitários.
16
A PRIVATIZAÇÃO DOS DONS
DE DEUS
Antiga como
a experiência religiosa, é a tentação de centralizar a ação de Deus para o
engrandecimento pessoal, e, de afirmação sobre os outros. Das mais arcaicas
experiências bíblicas, lemos que o pretendente a ser substituto de Moisés,
Josué, ao saber que duas pessoas estavam exercendo a profecia sem terem passado
sob o crivo dos setenta anciãos que ponderavam a respeito do que Moisés deveria
fazer para sentir os influxos da ação divina em favor do bem do povo, quis que
Moisés os demitisse da tarefa. Moisés, por sua vez, interpretou a cobrança de
Josué como impregnada de ciúme, e, sem proibir seus concorrentes de profetizar,
ainda manifestou a Josué, que, também eles, poderiam constituir manifestação
dos dons de Deus.
No Evangelho
de Marcos (9,38-48) consta uma descrição de um episódio parecido com o de
Josué: discípulos interesseiros de Jesus Cristo não queriam admitir que alguém,
não pertencente ao seu grupo, pudesse fazer o bem e pregar o evangelho.
Mostraram-se aborrecidos e entenderam que Jesus deveria tomar uma providencia
proibitiva, a fim de deixar somente discípulos na exclusividade de tal tarefa.
O bom-senso
de Jesus Cristo surpreendeu os discípulos: mostrou-lhes que também pessoas não
pertencentes ao seu grupo fechado poderiam contribuir eficazmente na construção
do reino de Deus. Nem Deus e nem a religião deveriam prestar-se para a
satisfação de interesses pessoais, especialmente as do poder.
Trata-se de
uma palavra dura, como a de Moisés para seu ambicioso sucessor Josué. O
procedimento de Cristo, no entanto, também nos interpela em meio a tantos
grupos fechados, com tendências proselitistas, nos quais os pretendentes ao
poder se acham no direito da exclusividade de manifestarem os dons do Espírito.
Querem muitos discípulos, sabem dar ordens sobre os mínimos detalhes da vida,
mas, o que mais fazem, é alastrar seu campo de influência e de poder.
Jesus
Cristo, ao orientar os discípulos contra a tentação da exclusividade, pediu que
cortassem este mal pela raiz. Ademais, os dons do Espírito, não constituem bens
privativos, conquistados para a satisfação pessoal, mas, devem levar ao serviço
em favor dos outros. Importa que outras pessoas possam alargar o dom da sua
vida através da generosidade, da retidão e de uma postura ética de querer bem.
Na perspectiva da grande mãe Terra, os bens que ela gera certamente se destinam
a todos os seres e não somente a alguns ambiciosos.
17
A SEGURANÇA DE UM “TU”
Pode-se observar e constatar, em
muita gente, que carece fundamentalmente da presença de um “TU”: pode ser Deus,
alguém, ou alguma coisa. Parece ser praxe normal da nossa condição de vida,
buscar um elo que nos liga à unidade com algo para além do vazio da existência.
Nas variadas
buscas de plenitude para a vida, muitas pessoas a encontram em Deus; algumas
outras colocam esta referência última numa pessoa; e, outras ainda, colocam
este vínculo absoluto nos bens materiais ou nas conquistas de valores
simbólicos. Por isso nos damos conta da realidade de contingência em que
vivemos, isto é, não nos preenchemos por conta própria. Carecemos muito de algo
que nos dê as razões últimas para viver, para suportar sofrimentos,
adversidades e para desejar comunhão profunda com alguém ou com algo.
A oração, -
não aquela de dobrar Deus sobre nós, mas, aquela de acolher o mistério maior
que nos envolve, - permite constatar que, na capacidade do silêncio, nos
aproximamos de uma grandeza de amor. Este amor, - de alguém incomparavelmente
maior que nós, - torna-se explícito na circularidade de um bom envolvimento.
Assim o silêncio de Deus pode dizer-nos coisas muito variadas para este bom
sentimento filial que nos dá amparo e segurança.
O anseio que
certamente lateja em cada coração humano é o de sentir que, nas buscas para
além dos limites impostos e vivenciados, o amparo de alguém muito amoroso nos
preenche de segurança, de amparo e de sentido.
Os motivos
que nos remetem à busca desta unidade com alguém maior do que o nosso mundo
limitado, podem advir de tragédias, de perdas, de doenças, bem como, de
momentos festivos, serenos, orantes e de auscultamento do que Deus possa
esperar como o melhor de nós para nós. As interpelações deste Deus podem falar
de incontáveis perspectivas de comunhão: podem ser de paciência, de calma, de
serenidade, como de extraordinária força para não ficar atrelado aos traumas e
ameaças, sobretudo, aquelas que emergem em sintomas de doenças graves ou
fatais.
Bom seria se
pudéssemos, como Moisés, pedir que Deus se manifeste misericordioso com os pecados
do povo, mas, que simultaneamente não deixe de andar com este povo (Ex 34,
8-9). Mesmo com tantas “cabeças duras”, que Ele nos livre dos desencontros e
nos envolva no seu bem-querer.
18
A TÉCNICA DE PERSEGUIR
O simples
fato de pertencermos ao mundo animal nos qualifica por traços de um legado
comum próprio dos outros animais, que é o da perseguição de vítimas, justas ou
injustas.
Alguns
animais se sobressaem pelas suas formas ostensivamente violentas, como onças,
leões e tubarões: mas, outros, aparentemente amáveis e dóceis, como uma pequena
Coruíra, também ataca sem clemência ínfimos seres vivos que certamente desejam,
como nós, prosperar em longa e ditosa velhice. Afinal, até pessoas nada
agressivas, e, supostamente pacatas e ordeiras, quando se tornam alvo de
injustiça ou vítimas de alguma maldade, podem até não revidar na mesma medida,
mas, normalmente, externalizam desejos de que a justiça os vingue; e, as
pessoas até muito religiosas, costumam incumbir a Deus a tarefa de executar uma
vingança mais que merecida.
O profeta
Jeremias (20, 10-13), se viu seduzido por Deus para ser seu profeta, mas, ao
ter sentido a extrema maldade dos adversários que o perseguiram e o difamaram,
invocou a ajuda de Deus para que salvasse sua honra pessoal, e pediu
insistentemente a Deus para que fizesse uma vingança com intensas sequelas de
sofrimento aos maldosos que o perseguiram.
Mesmo ao
fazer segura experiência de amparo por parte de Deus, pois não deixou os
adversários consumar seus planos perversos de eliminar o profeta, a fim de não
se sentirem questionados em suas ambições, Jeremias revelou, mesmo de forma
mimetizada, sua gana de vingança.
Nós
certamente não somos nada diferentes de Jeremias e conseguimos constatar este
mecanismo tão forte da vingança diante de uma simples fofoca ou de banal
acusação de algo que não fizemos.
Pela vida de
Jesus Cristo, no entanto, somos interpelados a uma postura inovadora: uma
perseguição pode ser bem-aventurada, quando envolve questões pertinentes à
construção do Reino de Deus, sobretudo, quando amplia gradualmente a capacidade
de suportar dificuldades, e, sem esmorecer e nem desanimar na causa
fundamental.
Mergulhados
na fragilidade do mundo em que vivemos, somos, contudo, convidados a fermentar
uma condição que supera os mecanismos de vingança. Bem sabemos o quanto custa
uma reconciliação, e a capacidade de aceitar fatos que diminuíram nosso nome,
e, injustamente, nos fizeram sofrer intensa contrariedade.
Quando
percebemos pessoas, que até se consideram exemplares na retidão da boa conduta,
são verdadeiramente diabólicas e perversas no grau de maldade para perseguir,
denegrir e humilhar, a memória de Cristo ainda aponta um caminho distinto ao da
vingança!
19
ANIMAIS LABORANTES
Nos últimos
séculos, a sociedade cada dia mais técnica e industrializada, apresenta uma
tendência natural de estimular farta e especializada demanda de mão-de-obra
para operar na produção. Massificada, esta demanda, aceita condições submissas,
solitárias, e sem poder, e, paradoxalmente, suporta esta condição e se distrai
com sonhos e devaneios das grandezas de quem os espolia no trabalho.
A
banalização deste contexto vai gestando um contexto ético-político de
assimilação passiva de experiências e ações cada vez mais totalitárias, levando
pessoas a tolerarem a miséria e as múltiplas tiranias como fenômenos totalmente
normais da convivência. O pior, no entanto, é que a maioria da sociedade se
deixa capturar pelo critério de legitimidade governamental que a transforma em
meros seres naturais como outras viroses e bactérias, sem quaisquer
peculiaridades culturais e genuínas de convivência. Então, fica normal a
prática de atos atrozes porque quem os pratica não sente nem remorso, nem culpa
e nem responsabilidade.
A grande
pandemia social que banaliza o mal fica imiscuída dos ódios alimentados, porque
os constituintes da sociedade aceitam que governantes os estimulem para tais
atos execráveis. Como engrenagem de uma grande máquina, o indivíduo apenas
cultiva o sentimento de que deve cumprir o seu dever naquela função. E se a
função é difamar, provocar, ameaçar, intimidar ou matar, executa friamente a
função, sem o menor senso de culpabilidade. Como mero “animal laborante”, não
pensa nas consequências e, menos ainda, inquieta–se com os efeitos dos atos que
pratica. É apenas um animal tecnificado, burocratizado, que executa os comandos
superiores e no lugar da capacidade de inquirir sobre os acontecimentos,
sente-se bem ao ter cumprido ordens. Por isso, não pensa, não julga e tampouco
admite que possa mudar suas práticas rotineiras.
Diante deste
assustador retorno dos sintomas de governantes totalitários, encaixa-se
maravilhosamente bem o discurso religioso em torno do que o demônio é capaz de
fazer com as pessoas.
Apelações
religiosas largamente apregoadas e, muito alinhadas com posturas governamentais
totalitárias, oferecem aquele lenitivo agradável de que todos os males que se
manifestam na frágil dependência social dependem da ação do demônio e da
fraqueza pessoal de quem se submete a estas forças para incidir em atos maus.
Todavia, a maldade, muito mais do que de consciência pecadora, depende da
racionalidade da contingência humana e das características da interação humana.
O mal decorre precipuamente da instrumentalização de pessoas, deslocando-as do
foco de se constituírem fim, para restringi-las a serem meros meios.
Assim, a violência banalizada e
sistemática contra setores da população apresenta sempre o valoroso apelo da
eliminação do inimigo. Ele não tem nome, nem função e nem gênero. É
simplesmente um “elemento” dispensável e que não conta no corpo social. A
simples declaração de que, um partido, um sindicado ou qualquer outra
agremiação age, como inimiga do bem comum, permite o ousado direito de
torturar, perseguir e extinguir qualquer outro grupo ou semelhante. Desta
forma, a legitimação dos atos mais absurdos e irracionais, é extraída da mágica
inversão de que tais atos são altamente racionais e necessários. Basta declarar
o objeto da violência como inimigo, adversário, terrorista, marginal ou
delinquente que sua eliminação já fica justificada. E se afirmar que o sujeito
é “mau elemento” já conta com apreciação favorável para o imediato
desaparecimento, seja físico ou moral.
O que
assusta sobremaneira é como nossos noticiários estão impregnados de informações
sobre procedimentos totalitários com explícitos fanatismos ideológicos, e que
já não admitem pluralidade política, mas, sentem orgulho de poder afugentar,
perseguir e até torturar física e psiquicamente em nome da ordem sustentada, e,
mesmo demonstrando procedimento visivelmente mórbido, estão de consciência
tranquila porque fizeram o melhor do que tinham que fazer. Como pobres amoucos
(sem valor de si mesmos, brigam e matam pela ideia ou ordem de outro que, por
sua vez, não lhes dá simplesmente nada a não ser o orgulho de terem agido em
nome dele) defendem um engravatado bem produzido por multimídia.
20
ANSEIOS PROFUNDOS
Grande parte dos fatos históricos, especialmente de guerras, revela uma
humanidade ansiosa por posses, seguranças, reservas e bem-estar cotidiano. O
desejo de fartura não se direciona apenas ao campo da comida, do conforto e das
seguranças monetárias, mas, também se direciona para interações de satisfação,
através de envolvimento com pessoas e, até mesmo, com o próprio mundo interior.
Nem sempre
as expectativas acalantadas são motivos de satisfação. Por vezes preconizam
dor, sofrimento, dificuldades e até sentimentos de incapacidade.
A busca de
segurança pode acontecer apenas numa dimensão pessoal e subjetiva. Da herança
bíblica, porém, haurimos uma rica imagem de como o povo, em diversas
circunstâncias encontrou na partilha de pouquíssima alimentação, a renovação do
sonho de fartura. Tanto os fugitivos do Egito quanto os retirantes do exílio da
Babilônia encontravam, nos sonhos de um futuro de abundância de alimentos, a
grande motivação para vencer adversidades. O profeta Isaías soube expressar
isso de forma poética: que os sedentos, os sem dinheiro se apressem para obter
vinho e leite. A solidariedade permitiria a todos viver com fartura, mesmo sem
dinheiro.
Boa e farta
alimentação constituía também o sonho de multidões que procuravam em Jesus
Cristo, uma solução rápida e compadecida, pois haviam sido espoliadas deste
direito. Mais do que dar atenção Jesus revelou-se compassivo, isto é, agiu para
que não fossem mandadas embora com fome. Ele não se recusou, mas, curiosamente,
ordenou que os discípulos partilhassem o pão, o pouco que eles tinham. Ao
abençoá-lo e mandar distribuí-lo, viu que todos ficaram satisfeitos...
Em nossos dias, com tanta produção,
largamente ampliada pelos avanços técnicos-genéticos da produção de alimentos,
multidões perambulam com profundos desejos de fartar-se, muitos sem dinheiro e
sem acesso ao pão de cada dia. Como muita gente no tempo de Cristo quis
mandá-las adiante, algo similar se repete em nossos dias.
Tanta gente fechada sobre si mesma, já perdeu
a capacidade de ter compaixão e, para proteger-se em torno do acumulado, vai
despedindo e mandando embora sem nada. No entanto, grande número de discípulos
de Cristo ainda continua se sentindo interpelada a partilhar do pouco que tem –
bens, tempo, serviços, esperanças, consolo – para não deixar pessoas sem rumo e
com fome que mata.
Ao partilhar serviços humanitários
estes discípulos hodiernos desfrutam de uma experiência milagrosa que
transforma sua vida a partir da pequenez dos seus gestos de solidariedade
prestada, e percebem que seu cesto se enche: não de um milagre mágico e
sensacionalista, mas, de sentido e de sensação de que sua vida se alargou. Este
sinal do “vinho e leite” e do “pão repartido”, plenifica a vida e lhes confere
a exuberância concreta do que deve ser o anseio de Deus: que as multidões
fiquem satisfeitas e que nenhum ser humano passe fome ao lado de outro que
ajunta em excesso.
21
APLICAÇÃO DAS
VIRTUALIDADES PESSOAIS
Em parte, a
predisposição genética, mas, em parcela muito maior, o ambiente e as condições
de desenvolvimento despertam em nós capacidades originais e peculiares. A
pergunta evidente que logo decorre é: podem estes dotes da vida, ou capacidades
pessoais, ajudar alguma coisa para que o futuro da vida humana seja melhor?
Muitas
pessoas, particularmente, as bem dotadas de capacidades especiais, transformam
sua vida num ritmo que abafa todas estas virtualidades. Ainda ontem uma mãe,
toda chateada com seu filho dizia: meu filho era de uma alegria exuberante, era
o encanto que me dava a maior segurança deste mundo, mas, de alguns anos para
cá, ele é um piano que toca somente uma tecla: trabalho. Não tem domingo, nem
feriado, nem festa, nem tempo para acolher visitas. Parece que sua única
motivação é trabalhar.
O
evangelista Mateus deve ter encontrado nas comunidades do seu alcance uma
postura de excessiva despreocupação com o futuro da vida. Ao lembrar-lhes uma
parábola de Jesus Cristo (Mt 25,14-30), certamente quis conscientizá-los sobre
a importância da vida pessoal de cada membro da comunidade a fim de que
produzissem algo positivo para o bem comum. Deve ter havido muita manifestação
de acomodação e de indiferença pelo bem-estar da comunidade.
Na parábola
de um homem que delegou três outros homens para administrarem valores muito
elevados, está uma interpelação muito insinuante. O texto fala em talentos, e,
facilmente engana pela associação de que alguém foi mais ou menos privilegiados
com capacidades. De fato, certos ambientes não facilitaram o pleno
desenvolvimento das virtualidades latentes de cada pessoa: ou foram muito
autoritários, ou coercitivos ou até omissos. Mesmo assim, nunca é tarde demais
para começar a aprender. Aparentemente quem recebeu apenas um talento – medida
de ouro, que equivalia a 34 quilos – percebe-se que até quem recebeu menos,
recebeu, na verdade, um valor muito expressivo. Indiretamente também nós podemos
perguntar-nos: como estou aplicando o dom da vida que recebi gratuitamente de
Deus?
É possível
que muitas pessoas escolham o caminho da acomodação e da indiferença, e acabam
enterrando o grande bem que receberam para administrar: sua própria vida e sua história.
Também hoje vivemos tempos difíceis e o que vemos é muita gente se fechando
sobre si mesmo e sobre seus bens materiais, com progressiva perda da
responsabilidade de fazer com que sua vida produza algo bom e melhor para os
outros do seu entorno, numa aproximação das características de Jesus Cristo.
O risco do
fechamento também envolve uma presumida segurança em certas piedades ou
formalismos religiosos que acomodam e inviabilizam a percepção das injustiças,
e dos sofrimentos decorrentes destes atos. Basta pensar no que significam os
mais de três bilhões de reais que, segundo os noticiários, foram desviados por
apenas algumas pessoas de uma empresa estatal brasileira.
Sobretudo no
campo religioso pode-se observar expressiva resistência a quaisquer reflexões
que possam implicar em partilha, solidariedade ou ação humanitária. Preferem
fechar-se em seus bens ou em seus modos de rezar e, com eles, tornam-se cada
dia mais reacionários e rígidos, enquanto suas ricas virtualidades vão ficando
enterradas e sem produzir nada para o bem-comum.
22
APROPRIAÇÃO DO SAGRADO
Quando
Rudolph Otto desviou período de muitos séculos de discursos sobre Deus, sobre
seus poderes e seus atributos, desviou as atenções sobre outro foco, o das
hierofanias, ou seja, estudou os modos como as pessoas experimentam o sagrado
ou o divino. Constatou que a experiência do sagrado, que também é denominada de
manifestação do campo numinoso, pode acontecer com qualquer objeto, em ambiente
e nas mais variadas situações, e, pode levar as pessoas que fazem esta
experiência a algo totalmente inédito e que muda profundamente a sua vida.
Quando uma pessoa faz uma experiência
hierofânica, normalmente deseja apropriar-se desta experiência, porque, ao
mesmo tempo, que apavora, atrai com muita intensidade. Ela sequer consegue
explicá-la com palavras e gestos. As palavras são literalmente insuficientes
para explicá-la. Dali decorre uma peculiaridade bastante comum das pessoas que
experimentam o sagrado: o desejo profundo de haurir poderes superiores e, com
isso, ascender sobre as demais pessoas e induzi-las a seguir seus conselhos e
suas orientações.
Um fato bíblico, narrado no livro de
Samuel e relido sob muitos aspectos ao longo de muitos séculos do primeiro
testamento da Bíblia, mostra como este humilde guerrilheiro mudou radicalmente
com a conquista do poder: deixou de comparar-se ao bom pastor que presta o
melhor serviço em favor de justiça e paz segundo o anseio de Deus, e passou a
apropriar-se de bens e aplicá-los em seu proveito pessoal.
Ao tornar-se rei de Israel, Davi
esqueceu todo o legado e seu empenho de lutas, sob a imagem religiosa do bom
pastor que cuida das ovelhas, para ser apenas bom pastor em favor de si mesmo.
Apostou no luxo e ao sentir-se muito poderoso resolveu construir um templo para
Deus, a fim de que Ele tivesse ali a sua morada. Em outras palavras quis
apropriar-se até mesmo de Deus – ou ocupar seu lugar - e deixá-lo como súdito
dos planos mirabolantes que alimentava, sem, contudo, pensar no mínimo
bem-estar do povo.
A memória do povo sentia-se ferida
com a ambição do rei. Lembrava as pessoas, que nos tempos de constituição
daquele país, Deus tinha acompanhado a vida e a lida em tendas nas migrações de
conquista da terra. O pretensioso Davi desejava engaiolá-lo para melhor
confirmar seus próprios interesses.
Como Davi, foi se esquecendo gradual
e progressivamente dos seus propósitos do passado humilde, e passou a apostar
decididamente nos projetos megalomanícos, com vistas a impor a grandeza do seu
poder, o povo humilde e espoliado, ao contrário, continuava a sonhar com os
antigos anseios: o de que fosse ajudado por um governante que não pensasse
apenas em si mesmo.
Nossos dias parecem repetir muitas
experiências pessoais, familiares e sociais bem similares ao percurso do rei
Davi. Muitos, assim que enriquecem, acham-se no mais justo direito de construir
mansões suntuosas e, afrontosas, às condições gerais do povo, e, o que é ainda
pior, no pressuposto de que tudo constitua pura graça e bênção de Deus, sem a
menor consciência da hipoteca social das fortunas acumuladas. E não poucas
pessoas, como Davi, constroem espaços para agradecer a Deus e alargar o olho
com vistas a mais bens e a patamares mais elevados nas instâncias do poder.
A proximidade do Natal nos aviva
outra memória, a de Jesus Cristo, que ainda hoje questiona um tipo de governo
monárquico em todos os níveis sociais que propicia muita grandeza pessoal e
esnobação de carros e edificações, mas, absolutamente insensível aos mínimos
sentimentos de partilha destes bens amealhados.
23
AS VÍTIMAS DE EXPIAÇÃO
As pessoas que se criaram em ambientes
rurais sabem o quanto naqueles ambientes se descarregam raivas e tensões sobre
animais, especialmente, cavalos, vacas leiteiras e bois de arado. Estes levam
muitas chicotadas por conta do deslocamento dos sintomas de quem lida com eles.
Da memória bíblica sabemos que, desde
muitos séculos antes de Cristo, vitimavam-se animais para servirem de reparação
pelos pecados humanos, ou, de mediação para obtenção dos especiais favores de
Deus. Ainda no tempo de Cristo era praxe normal sacrificar animais como meio de
estabelecer sintonia e diálogo com Deus.
Embora profetas já se exaurissem de tanto
falar que, para Deus, interessaria muito mais uma penitência do coração com
perspectivas de mudanças para ser melhor, ao invés de penitências exteriores e
sacrifícios vitimatórios, nem mesmo a morte de Jesus Cristo, esmoreceu a antiga
tradição. Sua morte serviu como referencial para que, finalmente, se parasse de
uma vez por todas com o sacrificialismo expiatório, isto é, o ato de sacrificar
outras vítimas que nada tinham a ver com os pecados humanos.
Sem muita demora, o próprio Jesus
Cristo foi transformado em vítima expiatória, e, ainda em nossos dias, Ele
continua sendo assimilado como aquele que morre diuturnamente pelos nossos
pecados e, até mesmo, nos memoriais da Eucaristia. Trata-se de uma associação
complicada, pois, pode induzir ao passivismo fatalista: ao se pecar, Jesus já
morre mais uma vez como perene moribundo, a fim de expiar o pecado cometido.
Neste círculo vicioso, e, nitidamente
mágico, não se considera nada da memória do que Jesus falou antes de ser
transformado em vítima expiatória de um momento histórico concreto. Seu modo de
vida e, de lida com as pessoas, mostrou que estava movido pelo evidente fim do
vitimalismo expiatório, ou seja, a histórica prática que requer que outra
pessoa ou animal pague pelo que alguém fez de mal ou de errado.
Talvez já esteja mais do que na hora
de mudar a linguagem religiosa que tanto repete o termo “sacrifício”,
sobretudo, nas celebrações eucarísticas. A palavra “sacrifício” presta-se muito
para ratificar o antigo conceito de vítima expiatória e, muito pouco para o
rico contexto da celebração memorial dos grandes sinais de Deus revelados em
Jesus Cristo e que nos interpelam para uma agir similar.
24
ATÉ QUANDO UMA LEI É
BOA?
É comum
ouvir-se que “lei é lei, e que existe para ser cumprida”! No entanto, cabe uma
inquirição: quem faz a lei e para favorecer a quem? À parte dos interesses, uma
lei tende a ser implantada sobre uma experiência anterior ou alheia, que provou
certa eficácia. Neste contexto, pode uma lei ser promulgada quando já se
encontra caduca diante da inovação das relações ou dos acontecimentos. Assim, o
assunto não enseja nem uma exagerada absolutização das regras vigentes, mas,
tampouco uma absoluta desvalorização.
O que
constatamos no dia-a-dia é que precisamos de regras para nos organizar
adequadamente diante do que desejamos. Quer sejam estabelecidas como leis,
princípios, decretos, pareceres ou normas, nós carecemos, até no nível pessoal,
de balizas para nos organizar adequadamente, desde programa de sono, limites na
alimentação, regras de bons tratos, pois, sem a dimensão normativa, a vida se
torna literalmente desorganizada e inviável.
Embora não
tenhamos a liberdade de participar e de aprovar todas as leis que regem a
sociedade, temos uma fagulha de liberdade para nos situar diante das regras
oficialmente estabelecidas. É evidente que muitas constituem interesses
favoráveis a elites privilegiadas. Outras são impostas de forma autoritária e outras
são inócuas diante dos problemas existentes. O difícil é perceber quando uma
lei se torna prejudicial para setores ou categorias da sociedade.
Podemos,
pois, aprender dos ensinamentos de Jesus Cristo, segundo Mt 5,17-37, que a lei,
tende a se direcionar para o formalismo (observâncias exteriores e de fachada),
e, neste caso, uma lei pode revelar-se altamente prejudicial à organização
humana. Portanto, mais do que insinuar abolição, ou estímulo à observância da
lei, Jesus deu a entender que a lei deve perpassar o âmago das pessoas, a fim
de constituir-se em verdadeira fonte amorosa, e não uma prática exterior para
encobrir corrupções e falcatruas de toda natureza, e, nem com a maldade de se
isentar através de hermenêuticas de interpretação ou das entrelinhas do não
estabelecido.
Deste modo,
pode uma pessoa ser rigorosa observadora de leis e, com elas, tornar-se
altamente injusta. Jesus falava da observância do espírito da lei, pois, a
simples e cega observância da lei pela lei, pode constituir-se num deplorável
instrumento de exploração injusta.
Nas regras
religiosas vemos algo deplorável alastrar-se através do fundamentalismo que vem
atingindo vastos setores da Igreja católica e as leva à observância rígida e
minuciosa de regras suplantadas pelo tempo, e tendem a criar um verdadeiro
inferno para a vida dos que desejam submeter através de seus discursos
legalistas e moralizantes.
Ao lado das
muitas outras dimensões da vida, a lei deve abrir luzes para acertos e
entendimentos, a fim de que o bem de Deus possa estabelecer-se, sem a esclerose
que faz das regras estabelecidas uma fonte de barganha para dominar, submeter e
humilhar outras pessoas.
25
AUTORIDADE E COMPAIXÃO
Um assunto
que certamente mobiliza a conversa de muitos milhões de brasileiros está sendo
o da indignação diante da forma como pessoas lidam com os bens públicos, e,
como governantes, em nome da democracia, roubam não somente os bens, mas também
a honra do povo, literalmente insensíveis aos seus problemas.
A
insensibilidade produzida pela ambição é, sem dúvida, uma manifestação
nitidamente diabólica, pois divide e marginaliza pessoas, mesmo que cultivem
belos e bons sonhos, ou sentimentos humanitários para a vida. Na verdade,
acabam relegadas e ainda deixadas em níveis de desprezo, jogadas à própria
sorte.
Da Bíblia
podemos lembrar duas situações em que uma lida humanitária transformou a
experiência de pessoas. Uma, é narrada em 2Rs 5, 9-14; e, a outra, em Mc 1,
40-45.
O primeiro
texto descreve a atenção do profeta Eliseu ao estrangeiro, rico e poderoso,
chamado Namaã. A doença levara este homem ao desespero e, ao ser informado de
que em Israel, um profeta de Deus despertava transformação na vida das pessoas,
foi procurá-lo, com muitos presentes, para demonstrar o status da recompensa de
uma eventual cura.
Em nossos dias, quem tem muito
dinheiro também alcança melhores tratamentos de doenças do que os espoliados.
Embora o rico Namaã considerasse a terapêutica de banhar-se no rio Jordão
(simbólico pela capacidade de regeneração através do batismo como sinal de
discipulado) muito banal para sua doença, aceitou a tarefa mediante insistência
dos servos e acabou curado da sua doença de pele. Para aquele homem rico, um
grave problema de pele, poderia, além de ferir a auto-estima, desbancar a
honra, o status, e relativizar a ostentação da riqueza.
Do agir de Jesus Cristo o evangelista
Marcos salientou um gesto de outra perspectiva: não foi ao encontro dos que
poderiam dar fama e muita fartura de recompensa econômica (precípua da ótica
teológica da prosperidade, em que o enriquecer-se é interpretado como bênção!),
mas foi ao encontro dos que estavam marginalizados. No meio destes
marginalizados, ele, como o profeta Eliseu, viu-se diante de um leproso, com um
traço muito marcante: pobre e excluído!
Também este excluído desejou a
inserção social. Jesus manifestou compaixão, venceu o tabu do distanciamento
prescrito diante de leprosos, e revelou autoridade no jeito de Deus: mesmo
contra a Lei oficial, valorizou o caminho e viabilizou o desejo do pobre, que
era o de evadir-se da doença que o deixara à margem da sociedade.
Em nossos dias, grupo considerável de
ricos, similares a Naamã, empina o nariz da auto-suficiência e busca comprar o
que deseja. Descer à condição humilde de acolher um procedimento mais
humanitário e de efetiva partilha, certamente os levaria a veementes
resistências. No entanto, do caminho da compaixão, revelado num dia comum de
Jesus Cristo, além do indicativo eficaz para a socialização, emergiu a clara
interpelação que pode fazer muito bem para os quase incontáveis excluídos e
relegados da sociedade. Dar-lhes atenção seria um passo, não uma sociedade de
discursos democráticos, mas de ações efetivas em favor do bem-estar de todo seu
povo!
26
BABEL E PENTECOSTES
A inovação tecnológica de utilizar
tijolos cozidos no fogo, no lugar de pedras e betume, fez a antiga capital da
Babilônia, Babel, perceber a virtualidade de construir um projeto fantástico:
uma cidade mais bonita, e, um templo religioso em forma de uma grande torre (porta
para Deus). Tais edificações não poderiam ser pensadas sob a tecnologia
anterior, porque, nos moldes tradicionais, nem mesmo uma muralha seria
suficientemente forte para propiciar segurança aos moradores daquela cidade.
Nada mais natural para a intuição da
cidade encantada pelo seu salto tecnológico, do que o desejo de captar ainda
outros alcances e descobertas; mas, tamanha ousadia acabou, por alguma razão de
logística, ruindo por terra, porque os construtores não chegaram ao consenso
elementar a respeito de como edificar a reestruturação da cidade.
A não construção do ousado projeto
tornou-se conhecida no tempo helenístico e um intérprete religioso bíblico
certamente soube antropomorfizar o fato, para lhe atribuir o porquê do
fracasso: Deus teria freado aquela ambição ousada, porque estaria preferindo
aldeias e agrupamentos nômades, próprios das tribos de Israel. Deus, para
evitar o projeto de Babel, teria provocado confusão na capacidade de consenso a
respeito dos meios de execução da obra, com a decorrente dispersão migratória
para outras cidades e a posterior decadência de Babel.
Se a antiga cidade Babel, por alguma
razão, perdeu a unidade de entendimento, o autor religioso interpretava tal
memória para fazer um alerta: que as pessoas optassem por gostar mais das
aldeias do que das grandes cidades. Tratava-se possivelmente de uma dedução que
ajudava a justificar, ao autor do Gênesis, um alerta preventivo contra a
formação de grandes aglomerados urbanos, e, manifestando seu apreço às pequenas
aldeias agrícolas. Também pode ter sido uma apologia da vida nômade das tribos
de Israel.
Deus certamente não se meteria em
mesquinharias de prazer sádico para atrapalhar o sonho de construção de uma
cidade bonita. De qualquer forma, a antiga memória babilônica passou a ser
associada, pelos primeiros cristãos, à decadente cidade de Roma. O quadro
social de não entendimento humano, apesar de falarem a mesma língua, tornava
aquela cidade parecida à de Babel e despertava uma inquietação: porque tanta
diferenciação mesmo nas linguagens específicas de grupos humanos, incapazes de
se entenderem com outros da mesma língua e da mesma cultura?
A memória do Pentecostes propiciou
uma constatação grata e muito distinta: a força do Cristo ressuscitado lhes
propiciava sintonia de entendimento. Os que se moveram no seguimento de Cristo
perceberam que seu modo de bem-querer, ao invés de dispersão, propiciava
aproximação solidária e cordial. Em outras palavras, mais importante do que a
tradução da mensagem de Jesus Cristo para outras línguas, estava o ato de
testemunhá-lo, pois, constituía a linguagem do amor que todos entendiam, e esta
comunicação passava muito mais pela expressão não-verbal do que pelo
entendimento dos signos linguísticos das línguas faladas pelos povos vizinhos.
Pena que tanta fervorosa
pressuposição de rituais religiosos de falar em línguas, nos dias atuais,
novamente se preste mais para mediações mágicas e de busca de precedência
pessoal, do que de consenso, entendimento, aproximação, pertença e inclusão
ativa e edificante no meio de um grupo, seja familiar, comunitário ou
social!
27
BATISMO E MAGIA
A expansão
das primeiras comunidades cristãs caracterizava-se por estreita relação com o
batismo e unção de crisma. A imposição das mãos aos batizados que aceitavam o
itinerário de seguimento de Jesus Cristo, dava-lhes a certeza da atuação do
Espírito Santo, porque junto com a memória do significado da ressurreição de
Jesus Cristo, vinha a certeza da ação do Pentecostes, ou seja, a manifestação
do Espírito de Deus.
Em nossos
dias, tanto o batismo quanto o Espírito Santo costumam ser interpretados numa
perspectiva mágica. De uma longa herança da ancestralidade brasileira, o
batismo passou a ser considerado ato literalmente mágico: o gesto da unção de
água sobre a cabeça do batizando auferia-lhe, imediatamente, três condições:
membro da Igreja, Filho de Deus e a garantia da vida eterna. Sob estes
pressupostos, - praticamente de compra do Sagrado, - a comunidade, bem como
crescimento na fé, através do um progressivo aumento de vivência dos traços
básicos de Jesus Cristo, ficavam relegados.
O sacramento
da Crisma, celebrado como confirmação dos batizados na fé, através de um rito
de unção e imposição das mãos sobre a cabeça, também passou por um processo de
esvaziamento a ponto de ser buscado como mero rito de passagem, ou, como uma
espécie de pequena formatura de um cursinho de crisma. Ao lado desta busca
imediata e mágica da ação do Espírito de Deus, passou também a ser dispensado
todo o dinamismo de crescimento para melhor ajudar a construir o reino de Deus.
Ao lado do
significado mágico da crisma, vivenciamos também, em nossos dias, um mapeamento
do cotidiano em nome do Espírito Santo, como se Ele fosse um Deus acima de
outros para acessos exotéricos de poderes e forças especiais. O pior é que
geralmente a presumida vantagem secreta de acesso ao Espírito Santo é usada
muito mais para subir no status de poder pessoal e da precedência do que de um
humilde peregrinar para a construção do projeto de Jesus Cristo.
Deste pressuposto
de acessos exclusivos e especiais, ao contrário do que nas primeiras
comunidades se acreditava, delimita-se o lugar e a forma de rezar para acesso
ao Espírito Santo. Antigamente se sustentava a inabitação do Espírito Santo. Em
outras palavras, era a crença de que Ele não é “engaiolável” e restrito a
certas pessoas e lugares. Ele poderia manifestar-se em qualquer ambiente e em
qualquer situação.
Por
conseguinte, tanto uma celebração do batismo, quanto da crisma, não requerem um
conjunto de cerimônias e de rituais sensacionalistas, mas, constituem
celebrações de iniciação na árdua tarefa de continuar a missão de Jesus Cristo.
O Espírito prometido por Jesus Cristo
é, certamente, para animar as pessoas que desejam envolver-se mais intensa e
profundamente nesta missão. Ele, com muita probabilidade vai se manifestar onde
ocorre uma mística, ou seja, uma busca sincera de maior intimidade com Deus, e,
com implicações éticas diante de formas tão injustas e desiguais na organização
da vida em sociedade.
28
CAPACIDADE DE
APASCENTAR
É notável e preocupante como muitas
pessoas desenvolvem fenomenal capacidade de apascentar coisas, objetos,
imóveis, mas, na perspectiva de submeter outras pessoas, visando que estas
dependam de seus interesses e se tornem acolhedoras passivas de seus ditamos.
A crise econômica e a política aguçam
ainda mais o clima de insatisfação em torno do que deva ser feito para que as
pessoas já constituídas vítimas de um sistema espoliador, mesmo que
teoricamente chamadas de cidadãs, não sejam simplesmente ignoradas, mas que
recebam os cuidados básicos e vejam assegurados seus direitos elementares.
Neste contexto, tanto lideranças
políticas quanto religiosas facilmente se debruçam sobre discursos teóricos
que, na verdade, não ajudam em nada as pessoas necessitadas de melhoria da
qualidade de vida e que andam sedentas por uma vida mais digna e respeitada.
Como o povo bíblico costumava usar
imagens das lidas cotidianas e aplicá-la à realidade de fé do seu tempo,
tornava-se frequente a comparação de pastor, que cuida ou que deixa de cuidar
das ovelhas, com os evidentes efeitos de segurança ou de desamparo.
Até mesmo o termo “pastor”, em nossos
dias, pode conotar significados muito diversos, mas, da antiga comparação
rural, algo ainda permanece valioso: é preciso ser bom pastor! E nada melhor do
que lembrar como Jesus Cristo reuniu os seus discípulos, depois de enviados,
para avaliar os primeiros resultados (Mc 6, 30-34) e reconsiderar a necessidade
de agregar pessoas que andavam dispersas pela vida e que migravam movidos por
uma carência profunda. Ele mesmo as interpretou como ovelhas sem pastor, porque
a religião estabelecida há mais tempo, as ignorava.
Como nos dias de Cristo, ao lado da
fome de comida vem se manifestando em nossos dias, outra bem mais profunda:
fome e sede de sentido para a existência humana. Se em Cristo as multidões
encontraram sentido, os seus seguidores, especialmente os mais próximos que
eram os apóstolos e discípulos, pois, deveriam ajudá-las com desvelo de boa
orientação para o alcance do sentido, tão desejado pelas pessoas com quem se
encontravam.
Os discípulos e discípulas de hoje,
mais do que pautar sua conversa em torno de muitas obrigações, dos muitos
requisitos e exigências extenuantes são, como os apóstolos, convidados a
anunciar por palavras e gestos outro modo de relações do que o do desfrute, o
do controle e o da submissão. Cabe-lhes a importante ajuda para que as pessoas
se emancipem do que as aprisiona em situações de dependência e de abandono. Por
outro lado, convém que encontrem nos cristãos, constituídos em pastores ou
pastoras, não o moralismo separador, nem a destruição de seu legado religioso
e, muito menos, a exploração de suas esperanças. Mais do que ritos mecânicos ou
meramente rubricistas e formalistas, compete aos cristãos facilitar o acesso ao
Cristo Ressuscitado, que não recomendou nenhum fardo pesado e enfadonho a ser
exigido dos que estão à busca de sentido.
29
CEGOS DE NASCENÇA
Nosso
momento histórico faz emergir uma inquietação profunda diante dos abusos
cometidos pelos que se proclamavam probos e bons homens, capazes de resolver
velhos e candentes problemas do país. De conversas e mentiras repetidas à
exaustão, ensejaram concluir que a maior parte da população é cega e nem terá
condição de enxergar o que eles, os mandantes sabiam fazer sob as aparências do
interesse público e coletivo.
Na
multiplicidade dos significados da cegueira, vemos que o da incapacidade visual
está bem relacionado a pessoas que tem visão normal e que conseguem ler e
interpretar o que visualizam, mas, não percebem a cegueira da sua tática de
controlar as pessoas pela condição da mendicância.
Os
proclamados condutores da grande massa cega, os governantes, falam e discursam
que captam com perspicácia o que o povo mais precisa, mas, pelo que
efetivamente fazem, conduzem seus passos e os atrelam aos seus interesses. Sua
cegueira é a de não saírem de sua maldade: enxergam somente algumas coisas para
seus interesses pessoais. Ao mesmo tempo, recusam-se a iluminar a vida sofrida
a fim de lhe propiciar direitos básicos. Querem que continuem mendigos. Aquilo
que enxergam no povo, torna-se, na verdade, o motivo de sua condenação.
O texto do
Evangelho de São João trata, no capítulo 9, como Jesus levou um cego a perceber
sua cegueira (não de vista) e aceitar uma luz para agir do jeito de Jesus
Cristo. No diálogo em torno da cegueira, quer-se saber do culpado do homem que
não enxerga. Jesus despistou esta conversa e mandou o cego lavar-se na piscina
de Siloé (que significa Enviado).
Socializado
para ser um mero mendigo, o cego causou reações e murmúrios quando retornou da
piscina e dizia que estava enxergando. Os que eram mesmo os cegos efetivos
(fariseus) quiseram, então, se interessar pelo causador da visão e simplesmente
não estavam dispostos a admitir que aquele vivente tivesse passado da condição
de cegueira para a de enxergar. Inconformados, os fariseus ameaçaram expulsar
da cidade quem declarasse Jesus como autor da mudança na vida naquele cego.
Pior ainda,
começaram a denegrir a imagem de Jesus. No entanto, não queriam que o cego
enxergasse e passaram a acusá-lo de que de que era seguidor de Jesus Cristo,
mas, na prática, o cego revelou mais bom-senso e perspicácia do que os
fariseus, que presumiam enxergar bem para conduzir os cegos “mendigos”.
Afinal, se muitos cegos de nascença viessem a
manifestar a mesma mudança daquele que começou a enxergar, eles, os fariseus, é
que teriam que reconhecer sua cegueira. Optaram pelo mais fácil: ao constatarem
que aquele antigo cego fez um ato de fé em Jesus (“Eu creio Senhor”)
mandaram-no embora.
Alguns
fariseus, pelo menos, se inquietaram e se perguntaram se eles, afinal, também
estariam cegos! Jesus lhes replicou que por acharem que enxergavam bem é que
estavam permanecendo no pecado.
Transparece,
no episódio, uma interessante pedagogia usada por Jesus Cristo: de uma cegueira
de fé, que culminou numa importante proclamação de fé! O processo da cura
aconteceu no confronto com a adversidade, criada pelos que presumiam enxergar
mais e melhor do que os outros da sociedade.
O episódio certamente constitui um indicativo
metodológico para indicar como se pode passar de uma situação meramente
materialista e humana, para uma fé em torno do modo como Jesus iluminava a
vida. Tal processo de passagem requer confrontação que amadurece
paulatinamente; e, é muito diferente dos milagres instantâneos, que, na verdade
apenas atrelam a formalismos de quem deseja manter muitos “cegos” sob seu
controle.
30
CONTENDA ENTRE DEUS E O
“DIVINO PAI ETERNO”
Em meio aos
devaneios próximos da morbidez de uma madrugada escura, vi-me envolvido por um
ato alucinatório em que apareceu uma anjinha, muito mais linda do que as das
imagens, irradiante e formosa, e que veio cochichar no ouvido esquerdo, de modos
que o ar da sua fala sibilava suavemente nas reentrâncias da orelha:
- Sabes de uma coisa, - falou ela, com aquele jeitinho um
tanto fofoqueiro, mas sedutor e atraente! - Eu acabo de presenciar uma
discussão ferrenha entre Deus e o “Divino Pai Eterno”. O assunto era sério, e,
até desconfiei que chegassem a medir forças no braço!
- Uai! Qual poderia ter sido motivo tão grave para eles
revelarem traços precípuos, peculiares e cotidianos dos seres daqui da Terra?
Não parece tal procedimento ser pouco lisonjeiro para a circularidade do amor
trinitário?
- Pelo que eu pude constatar – disse a anjinha - Deus não
está nada satisfeito com os procedimentos do “Divino Pai Eterno”. Acontece que
o “Divino Pai Eterno” se envolveu na tentação da alma humana de colocar-se
acima de Deus! Anda pretensioso e ambicioso demais. Já está muito pior do que
Baal que minou, com quatrocentos sacerdotes, a religião do judaísmo num momento
da sua história. Aquele santuário “Divino Pai Eterno” lá no sertão de Goiás,
que um pretenso séquito de sacerdotes redentores está levando à frente, parece
que não combina nada com tudo quanto fora proposto e testemunhado por Jesus
Cristo. Deus disse que o pior é que exploram a piedade popular e nas suas
melífluas conversas, mescladas de alguns ritos mágicos, submetem ricos e pobres
de todo o Brasil. Através de apelação insistente à dadivosa contribuição mensal
para a residência oficial do “Divino Pai Eterno” no Brasil, praticam algo
parecido com extorsão, e, desviam a pertença das pessoas da sua comunidade
concreta e real, para fazê-las vincular-se, apenas virtualmente, àquela
suntuosa residência. Num escândalo aparentemente tão ignóbil quanto o do
santuário da antiga Betel, só se fala em grandes ações divinas; mas,
sorrateiramente, transforma-se a religião em comércio banal e lucrativo, e, que
aliena as pessoas de fé dos seus elementos básicos da articulação solidária em
comunidade.
- Jesus amado, até isso?
- Sim, disse a anjinha: ouvi Deus falar que lá na Terra estão
soltando conversa de que o “Divino Pai Eterno” já se encontra bem acima Dele e
que os agraciados do “Divino Pai Eterno” exploram através de aviltantes
pedágios os poucos acessos de impregnação do divino que ainda não foram
amealhados pela esperteza de alguns pastores, bem conhecidos lá no Brasil.
- Mas, linda anjinha de Deus! Quer dizer que Ele deu uma
esfriada nos ânimos do “Divino Pai Eterno”?
- Pelo que observei, sim!
- Ainda bem, porque eu ando meio desconfiado de que certo
jeitinho bem brasileiro detém a virtualidade de incorporar o céu e a terra sob
a égide do “Divino Pai Eterno”. Oh, maravilha, pois, fico um tanto mais
sossegado. Sobra, então, pelo menos uma tênue esperança de que um dia ainda se
adorará Deus em “espírito e verdade” e não na subserviência das disputas dos
que querem, sob o suposto poder hegemônico do “Divino Pai Eterno” ou de outras
fontes de milagre apossar-se das almas para salvar seus parcos soldos, a fim de
completar a residência oficial do presumido todo-poderoso, bem no coração de
Goiás.
- Quando fui abrir a boca para pedir se a anjinha tinha mais
alguma novidade interessante lá das egrégias beatitudes dos céus, acordei
supinamente, e perdi de vista aquela criatura fulgurante. Oh dó!
31
DILEMAS DO COTIDIANO
Uma das contingências da nossa
condição humana – a de ter que fazer opções - envolve também outra
característica: por mais que façamos escolhas, não podemos escolher tudo e nem
todas as coisas. Isto indica uma evidência de que existe alguém muito mais
amplo e mais capaz do que nós, de quem intuímos sinais a partir da
sensibilização diante das grandezas que se misturam na fragilidade da nossa
condição humana.
Na linguagem religiosa dizemos que
são interpelações de um amor maior de Deus. Na vida diária, porém, relegamos
facilmente esta dimensão: afinal, seguimos preceitos religiosos ou os de
organismos meramente políticos?
A simples condição de escolha da
autoridade presidencial do país já nos situa entre duas perspectivas
antagônicas sob o aspecto dos projetos: opta-se por uma governança,
presumidamente, para o bem do povo, ou o dos banqueiros e grupos de grande
poder de barganha, insaciáveis na busca de ampliação dos seus bens? De acordo
com o foco do olhar dos interesses, muda a escolha. Mas, a própria e inevitável
escolha tem consequências: a quais ordens nos submetemos?
A maldade que se esconde, e, que
permeia muitas escolhas desperta dilemas muito difíceis, além de dificultar as
opções. Podemos imaginar a situação descrita por Mateus 22,15-21, na qual Jesus
se viu na fatalidade de posicionar-se e escolher entre duas alternativas, mas,
qualquer uma delas o levaria à morte. A pergunta aparentemente ingênua, mas, -
muito maldosa, - que lhe foi dirigida a respeito da validade de pagar tributo a
César, se coloca de maneira bastante similar às pessoas de fé: a que domínio de
ordens nos sujeitamos na organização da vida?
Os judeus estavam sob o domínio do
imperador César Augusto (augusto significa aquele que está acima dos deuses)
que lhes exigia pagar pesados impostos a Roma. Dizer algo contra o tal imposto,
constituiria insubmissão, sujeita a prisão e morte. Por outro lado, as raízes
históricas e religiosas do povo de Israel indicavam que Deus deveria reger a
vida do povo e não um arrogante e pretensioso imperador. Na verdade, Jesus
remeteu os interlocutores para uma questão mais profunda: pode uma autoridade
política usurpar o lugar de Deus?
Em última instância, o que estava
representando a cega submissão ao imperador romano? Nada mais do que idolatria
a alguém que se colocou no lugar de Deus. César chegou a exigir alteração do
calendário anual a fim de que um mês – agosto (Augusto) que ainda hoje persiste
- reverenciasse a sua condição divina.
Ao responder que convinha dar a Deus
o que é de Deus, Jesus não estava insinuando que também convinha dar pelo menos
uma esmolinha para Deus, já que o pagamento do imposto ia para César. Em outras
palavras, quando damos a Deus o que é de Deus, não precisamos submeter-nos a
vis idolatrias dos que dizem salvar como se fossem deuses, mas, que agem apenas
em função de seus interesses pessoais.
Nossos dias deixam-nos no mesmo
dilema e numa dúvida crucial: o poder político é mesmo um serviço para o bem
comum, de modos que a rica dádiva da natureza não seja usurpada por alguns
poucos, em detrimento da maioria das pessoas humanas, bem como dos múltiplos
sistemas e dos incontáveis outros modos de vida?
A indicação de dar a Deus o que é de
Deus certamente nos ajuda a relativizar muitas idolatrias, estabelecidas no
lugar de Deus, e que realmente não agem para o bem-estar de todos os cidadãos
do país, e, muito menos do planeta.
32
DISCUSSÕES SOBRE
QUESTÕES DE FÉ
Como nos
tempos de Jesus Cristo, persistem, em nossos dias, muitas questões polêmicas a
respeito do que esperamos a partir da nossa fé. E quando o assunto envolve
realidades que vão para além da morte, o antagonismo pode não só referir-se a
outros credos, ou a credos cristãos diferentes, mas, também separa em posturas
opostas a visão de movimentos e pastorais no interior de uma comunidade cristã.
Em muitos destas agremiações os desencontros
começam a decorrer, já a partir de uma concepção teológica, quer tradicional,
mais fundamentalista, essencialista ou aberta aos novos tempos, quer
hermenêutica ou de perspectiva da teologia evangélica norte-americana a ocupar
espaços amplos no interior da Igreja Católica.
Um caso
ilustrativo, do tempo de Cristo, foi a da tradição dos saduceus. Eles queriam
ser literalmente fiéis a costumes do Pentateuco, em vigência há muitos séculos.
Em razão da crença, eles valorizavam apenas a ressurreição biológica como
prolongamento da vida, isto é, que a vida de uma pessoa prosseguiria na geração
dos filhos e se ampliaria para a descendência. Por isso, eram rígidos na
observação de gerar filhos e, caso alguma mulher ficasse viúva antes de gerar
filhos, ela deveria ser assumida por um cunhado e ter muitos filhos com ele.
Jesus
apresentou uma perspectiva totalmente inusitada e nada atrelada às questões
biológicas, nem tampouco as relativas a recompensas por terem gerado muitos
filhos e assim repousar em paz, mas, reforçou uma crença que se desenvolveu
algumas décadas antes a partir da violenta perseguição dos selêucidas feita aos
judeus e que matou muitos jovens que ainda não tinham gestado filhos. Neste
caso, Deus seria injusto por permitir que sua vida não se expandisse numa
descendência. Os macabeus sobreviventes da perseguição selêucida deduziram que
todas as pessoas iriam ressuscitar depois da morte, porém, nem todas para a
vida mais plena, pois, se a vida daqui da Terra tivesse sido maldosa, iriam
para a condenação eterna.
Como Jesus justificou esta perspectiva, abriu
polêmicas para além dos fariseus, uma vez que, também a aristocracia sacerdotal
se fundamentava no conceito antigo do Pentateuco, porque este lhes oferecia uma
série de vantagens. Na polemização, Jesus mostrou que a concepção de
ressurreição dos saduceus e sacerdotes estava desfocada, uma vez que não se
trata de reativação da vida que se levava aqui na Terra, mas, uma realidade de
radical transformação da vida. É como uma semente plantada. Aparentemente, ela
apodrece, mas a vida desta semente se transforma profundamente com
possibilidade de gerar muitas sementes...
Oxalá que em
nossos dias os interesses não se sobreponham às virtualidades de transformações
profundas para experiências de fé mais elevadas e respeitosas e dignas de uma
esperança na qual se possa apostar a razão última da vida!
33
DO CONTROLE REMOTO
AO CONTROLE FOTOGRÁFICO
Nem é
necessário lembrar o quanto a invenção do controle remoto facilitou a
diminuição de movimentos físicos nos deslocamentos do sofá até os aparelhos
para trocar o canal ou de faixa de sintonia de rádio ou televisor, de
toca-fitas, de CD ou de outros aparelhos de som, e, o quanto passou a
economizar nas demoradas idas e vindas para abrir e fechar portões com
demorados instantes quando tal tarefa tinha que ser executada sob chuva, frio
ou sol causticante.
Ao
aparecerem equipamentos eletro-eletrônicos com os ditos controles remotos,
tornava-se comum ouvir que se tratava de um péssimo recurso, porque implicava
em diminuição de movimentos físicos e, por isto mesmo, em gradual aumento do
acúmulo de calorias, com as consequentes e indesejadas gorduras e suas
atinentes e nefastas sequelas para a saúde.
Independente
dos prognósticos negativos, os controles acabaram modificando as impressões e
até os pessimistas se renderam ao conforto de sua utilização e passaram a
adotá-los como meio de facilitar a vida cotidiana. Provavelmente ninguém se deu
ao trabalho de verificar se os controles remotos realmente implicavam em algum
efeito nocivo à saúde.
O uso do
controle remoto conferiu poder e rapidez para acionar ou desativar o
funcionamento de uma enormidade de objetos. Desta fenomenal engenhoca
ampliou-se, rapidamente, a capacidade de controlar também as pessoas, através
das Tecnologias da Informação e da Comunicação. O grande poder de ação sobre um
aparelho tornou-se insignificante diante do poder de máquinas digitais,
filmadoras e sofisticados meios de espionagem e controle de ações humanas. Ou
pelos dados da íris dos olhos, ou pela imagem fotográfica do rosto ou pela
impressão digital, acabamos, nós mesmos, virando objetos do controle de outras
pessoas. Até o celular tornou-se mediação de extraordinária facilidade de
controle, seja pelo que se falou e com quem se falou, ou, pelo registro da
imagem de situações inéditas ou presumidamente escondidas.
Como por
longo tempo controlamos objetos através de poderes quase onipresentes dos
controles remotos sobre equipamentos de som e de imagem à distância, e tivemos
o poder de abrir e fechar portas e portões sem sequer levantar da cadeira ou da
cama, outros, passaram a controlar gradual e progressivamente nossos passos,
nossas ações, nossos olhares e nossos procedimentos. Nesta “panóptica” parecida
com um olho mágico, que nos controla em toda parte e em tudo quanto fazemos,
não somente nos tornamos reféns desnudados de todos os subterfúgios utilizados
para encobrir e esconder, mas, até nossa nudez é registrada sob as vestes e nos
tornamos objetos controlados em quaisquer variados espaços em que nos movemos.
De tanta
preocupação em torno da ordem, do controle e da segurança, estamos, com tudo o
que nos rodeia, sendo rigorosamente controlados em nome da própria ordem. Até
os que ensinam nas escolas e academias, ensinam somente o que pode ser pensado
para não fugir da ordem e do controle.
Certamente, uma das possibilidades deste processo humano é a de que
alguns, os poderosos, os mandantes e os donos, boicotem toda a capacidade humana
dos demais para subjugá-la numa seqüência de passos lineares muito parecidos
com o percurso da vida dos carneiros e das abelhas: produzir muito, consumir
mais ainda e, depois, morrer.
Talvez se
faça necessário recuperar novamente certo nível de desordem a fim de que a vida
humana possa permitir algo espontâneo e prazeroso decorrente de gestos
cordiais, afetuosos, solidários e imprevisíveis, de modos que, algo do
transbordamento e da exuberância humana possa preencher de gosto e sentido a
existência e mostrar perspectivas para além do mero controle para produzir,
consumir e morrer.
34
DOIS CAMINHOS NO
DISCIPULADO
No caminho da fé podem ser escolhidos
distintos modos de proceder: o da humildade e da justiça, por um lado, e o da
maldade e impiedade, por outro são duas perspectivas bastante comuns. Em muitas
pessoas estes caminhos se misturam e se confundem.
Do memorial de Cristo temos um modelo
destacado de quem pautou sua vida pela humildade e pela justiça. Mas, em tempos
anteriores a Jesus Cristo, na experiência de judeus expatriados já surgiram
observações a respeito de pessoas que são agressivas, despóticas e insensíveis
e tudo fazem para alcançar seus interesses egoísticos. Ofendem, caluniam,
perseguem e desrespeitam literalmente a condição alheia; e, no frio calculismo
de satisfazer sua própria glória e suas vantagens, debocham dos que são retos e
honestos.
O surgimento de tensões, motivadas
por causa de diferenças de etnia, de modos de falar, ou de distintas
características regionais ou religiosas, também revela que existem pessoas que
extrapolam o elementar respeito aos demais, e, além de se aproveitarem delas,
zombam dos seus procedimentos e de suas expectativas religiosas.
Se para estas pessoas não é comum
admitir que possam mudar de mentalidade, também não é fácil aos que se pensam
bons, mas ficam presos a determinados modos de pensar a retidão e a justiça.
No evangelho de Marcos (9,30-37)
narra-se que até mesmo os discípulos, que já tinham aprendido muitas lições de
vida no acompanhamento de Jesus Cristo, sentiam enorme dificuldade para
entender a orientação de Jesus Cristo a respeito da humildade e da justiça.
Sentiam-se propensos para a ambição e a presunção por cargos de boa renda e de
muita fama. Muitos deles parecem ter estado obcecados por poder e se sentiam
muito relutantes na aceitação de que o caminho da humildade e retidão
implicasse até mesmo na capacidade de assimilar sofrimentos.
Como alguns dos discípulos de Cristo,
vemos em nossos dias, procedimentos muito similares de interesseiros por fama e
poder. E quanto ódio e sofrimento são imputados a outras pessoas, através de
procedimentos arrogantes em nossas comunidades católicas.
Nossas comunidades querem
constituir-se num bom caminho de sacramentalidade da aproximação ao modo de ser
de Jesus Cristo. Na prática, porém, muitos estão ali obcecados por ascensão e
poder e acham muito desconfortável o apelo de Cristo de que o caminho é o do
serviço aos fracos e marginalizados. O fascínio para ser o maior e o melhor
parece realmente estranho ao caminho do serviço. Por isso, como os “cabeças-duras”
do tempo de Cristo, muitos não apreciam a proposta de Cristo em nossos dias.
35
EM TEMPO DE “HOMO
CONSUMENS”
A forte marca cultural do consumismo
de nossos dias exerce uma força extraordinária para persuadir cada vez mais
pessoas a aumentarem seu potencial de compradoras de produtos. É uma pressão
mundial de um modelo de economia, construído sob a condição de que se consuma
mais, para gerar lucros e renda. Este pressuposto requer duas condições; que
não se diminua o consumo obcecado; e que o produto adquirido dure pouco.
A simples suposição de algo muito
forte, durável e resistente, levaria a consumir menos. Por isso, junto com o
consumo, também estão envolvidas duas outras situações: a de ficar feliz com o
que se adquire; e a de mudar constantemente para conseguir alcançar mais
felicidade. Nesta maleabilidade, que Zygmund Baumann chama de “sociedade
líquida”, o central da vida passa a ser o provisório e a constante adaptação à
moda e à publicidade. Ao lado desta força, há uma ocultação dos problemas reais
decorrentes das diferenciações sociais, econômicas e culturais, porque todos
são considerados iguais para obter felicidade: basta que aumentem o consumo!
A lógica do que se faz, com os
produtos a serem adquiridos e consumidos, acaba afetando, do mesmo modo, as
relações humanas e familiares. Quer-se demonstração do que o produto faz e do
que produz em termos de felicidade e de praticidade de uso. Assim, além da
provisoriedade do “ficar”, motivado pela condição de propiciar felicidade, a
não produção da aludida felicidade, leva à descartabilidade.
Basta que alguém declare amar uma
pessoa, que a outra, já exige provas e experimentação. A prometida felicidade,
no entanto, parece se deslocar imediatamente para um novo foco de consumo.
Assim, desmoronam os tradicionais valores da estabilidade, da lealdade e da
fidelidade para longos prazos. Na condição de que qualquer objeto deva ser
usado e rapidamente descartado, algo similar já se efetua nas relações humanas
e de fé religiosa. Nada escapa deste determinismo cruel.
Seja na oração, ou nas mil
modalidades de súplica, aumenta, de forma assustadora, o número de crentes que estabelecem
uma condição até mesmo para Deus: que Ele dê demonstração de sinais do que é
capaz de fazer. Deste modo, o que Jesus falou e fez, bem como o que sugeriu
para uma efetiva felicidade num projeto de construção positiva da vida, já não
é mais levado em conta. No migracionismo constante entre formas e modos
religiosos, mais do que em outros momentos históricos, vive-se a dificuldade da
segunda geração dos seguidores de Jesus Cristo: como Tomé, até se promete crer,
mas, desde que Deus apresente primeiro as convincentes provas de felicidade.
Acolher sua Palavra com vistas a vivenciá-la, e, - alargar os níveis de
felicidade, - parece demorar demais. Já não cabe na provisoriedade do “ficar”,
até com Ele.
36
ENDIREITAR CAMINHOS
A antiga imagem bíblica e poética
de Isaías oferece uma atualidade muito especial para nos ajudar em situações
humanas muito parecidas às daquela época. Um povo dilacerado, em parte vivendo
no exílio, outros sem se entender e sem capacidade de se organizar diante da
espoliação praticada por países imperialistas e dominadores, levaram Isaías a
olhar para frente dos problemas.
Dirigindo-se aos exilados da
Babilônia, quando soube da possibilidade de novamente regressarem à sua terra,
valeu-se de uma imagem muito elucidativa: que Deus ajudaria a nivelar o caminho
no meio do deserto para que montanhas fossem abaixadas, precipícios preenchidos
e curvas endireitadas.
Na consideração, quem teria causado
estes desencontros do nível da terra? Efeito da má e perversa administração dos
governantes, mais preocupados com os conluios de guerras do que com a segurança
e o bem-estar do povo. Ao lado da profunda injustiça social, nem mesmo os
pobres escravizados na Babilônia se entendiam entre si. Por isso, para voltar,
Deus teria que ajudar a nivelar os caminhos. Mais do que os caminhos sinuosos
da terra, ocorria desnível de todo jeito entre os exilados.
O profeta não esperava evidentemente
uma mágica ação de Deus, mas esperava que os exilados se entendessem melhor, a
fim de que o regresso e a reorganização da vida do país pudessem acontecer sob
os auspícios da antiga aliança: entendimento, justiça e lealdade.
Nossa preparação em torno da festa de
Natal enfrenta como a dos exilados da Babilônia, muitos fatores de desencontro
humano, desde diálogo, à posse de bens e exercício de poder. Figurativamente
ocorrem muitos desníveis na compreensão do que é ser cristão, do que é ser
ético, do que é ser reto e honesto e do que é serviço humanitário.
A dificuldade de alinhar esta estrada no meio
dos desertos de nossos dias requer uma luz interior de fé, de boa vontade e de
colaboração para que nosso ambiente humano seja melhor. Os desníveis são
realmente complicados: basta lembrar as notícias sobre corrupção, desvios de
verbas, compra de votos e tantas outras brigas ideológicas que ferem o
bom-senso humano.
A intuição de Isaías é importante
para nós: para pensar num entendimento mais harmonioso, temos que aprender a
olhar para além dos problemas, das mágoas, e dos sentimentos de vingança. Há
muito coração pobre no meio de montanhas de grãos e de fortunas, há muito
coração ferido por humilhações e desencontros, e nem é fácil anunciar um tempo
da graça do Senhor. A tentação é mais insinuante para comer e farrear e beber
muito a fim de esquecer que a vida não está fácil.
37
ENTRE O BEM E O MAL
A história
humana vive impregnada de polarizações estabelecidas entre o que é considerado
como bom e o que é assimilado como ruim. Ainda que se queira apenas o que é
bom, um ato maldoso ou agressivo tende a despertar naturalmente para o revide.
Neste processo, a violência se prolonga, muitas vezes para além da morte, pois,
outras pessoas assumem a causa da vingança desejada.
De uma forma
geral, apenas duas instâncias conseguem brecar os processos de violência: uma
instância judicial mais elevada ou a delegação religiosa para que Deus resolva
a questão em conflito, o que leva uma das partes, mesmo sentindo-se
prejudicada, a aceitar que perdeu. Até mesmo este perdão costuma demorar bem
mais do que o desejado.
Como o
mecanismo da vingança tende a prolongar no tempo a maldade implantada, restam
de fato duas alternativas: ou apelar a uma instância jurídica maior e com o
risco de ser derrotada no julgamento; ou acolher a orientação religiosa de
perdoar e delegar a Deus o discernimento sobre os fatos. Infelizmente o quadro
religioso não está isento dos processos violentos que resultam de leituras
contrárias ou antagônicas a respeito do que é considerado bom ou ruim.
A
experiência bíblica antiga já salientava que as pessoas deveriam saber colocar
diante de si as duas polarizações do bem e do mal e escolher o que se encaixa
no lado do bem. Assim, como em Lt 17 a 25, aparecem contraposições e convites
para uma escolha que se aproxime da santidade de Deus e que, necessariamente,
implica em perdoar. Este apelo moral tinha também um pressuposto para as
relações com países vizinhos de Israel: em vez de guerras, conflitos e
vinganças, boa acolhida aos estrangeiros. Certamente os colecionadores das
frases de sabedoria já tinham percebido que o fim da vingança nunca é bom, e,
num certo momento, obriga a resignar-se diante da violência ocorrida.
Quando a
educação insinua às crianças, desde muito cedo, a serem espertas e levar
vantagem sobre outras da sua faixa etária, geralmente se reforça a noção de que
não devem levar desaforo para casa. Das orientações dadas por Jesus Cristo
(como em Mt 5, 38-48) e que, aparentemente, parecem absurdas, decorre algo mais
profundo do que simplesmente resignar-se à aceitação – normalmente demorada -,
mas visa o fim do processo da violência pela realimentação dos ódios. Basta
observar como pequenas coisas de dissidência afetiva no ambiente doméstico
conseguem, a partir de fofocas, gerar um clima de ódio intenso até entre irmãos
de sangue. Jesus Cristo apontou um meio de quebrar o ciclo natural de qualquer
ato de violência. Pela vingança, o processo nunca vai ter fim.
Por
conseguinte, a capacidade de perdoar e de rezar pelos inimigos, constitui uma
mediação capaz de facilitar e de favorecer a ruptura do ciclo da vingança; e,
com uma vantagem evidente: com menos sofrimento e muito menor desgaste, quer
afetivo, psíquico ou econômico. Neste sentido, é mais sensato integrar uma
humilhação do que ter que lidar com as consequências intempestivas de revides
praticados diante do que foi interpretado como um mal.
38
ENTRE O TRONO E O ALTAR
Alguns
momentos históricos da cultura ocidental dos últimos séculos registraram
estreita relação entre religião e política. Esta relação, como a da conquista
ibérica na América Latina, mostrou acentuada afinidade entre espada e cruz, ou
explicitado de outra forma, a conquista foi efetuada sob o signo da cruz
católica. Embora a maioria dos atuais países latino-americanos ainda tenha
presente em suas constituições alguma referência explícita ao catolicismo, a
relação tende a tornar-se mais heterogênea e, pelo menos oficialmente, vem se
estabelecendo uma relação de separação entre Estado e Religião.
Apesar da
grande divergência de opiniões sobre esta relação entre Estado e Igreja, e
mesmo que no caso brasileiro tenha-se estabelecido uma definida separação,
permanecem um tanto duvidosas as formas desta autonomia. Seriam meras forças
paralelas e rivais? Caberia à religião indicar rumos à política do Estado, ou,
competiria ao Estado o direito de
ingerências sobre o âmbito religioso?
Deixando de
lado as muitas polêmicas mais antigas, parece que a proximidade entre as duas
forças sociais se cruza e se inverte, de vez em quando, nas competências. É
sobre este pequeno aspecto que tencionamos ponderar brevemente. O paradoxo se
estabelece da seguinte forma: se a religião pode interferir nos procedimentos
do Estado e se, de outro lado, o Estado pode expressar suas políticas através
de formas religiosas.
Na prática,
observamos que, em muitas situações, grupos religiosos de diversas denominações
apelam a todos os recursos possíveis para atuar sobre o Estado, a fim de
favorecer seus interesses religiosos. Observamos, igualmente, que muitos
políticos lidam de formas similares às dos religiosos para agir sobre grupos
humanos, e, com muitos discursos religiosos. Em alguns casos, as mesmas pessoas
agregam tanto funções religiosas quanto políticas.
Temos a
impressão de que, tanto a rivalidade das competências quanto o exercício das
distintas funções, pode mover-se por um mesmo foco: o de dirigir e controlar o
comportamento dos outros. Certamente os dois campos de atuação se arvoram o
direito e a necessária missão desta atividade, mas, ambos correm os mesmos
riscos de agir sob bases fundamentalistas e, desta forma, produzem múltiplos
tipos de medo a fim de poder controlar as pessoas.
A produção de medos leva políticos a
muitas apelações religiosas e leva crentes de entidades religiosas a explícitas
interferências nas atividades políticas. Neste aparente avanço de um campo
sobre o que, em tese, pertence ao outro, revela-se, na verdade, que os dois
campos perdem a relevância do que pretendem constituir para o bem dos seres
humanos. Quando a política pressupõe a religião como serviço auxiliar para
melhor organizar a vida coletiva, incorre na mesma situação da religião que
interfere nos rumos políticos com a justificação de que tal atividade constitua
a essência da sua missão. Assim, os dois movimentos procuram criar e apontar
medos, a fim de poderem agir sobre os amedrontados e levá-los à resignação dos
seus propósitos.
Será que alguém ainda daria peso ao
Estado, se este não cultivasse bem orquestrada e harmônica forma de produzir
medos? Sem os medos, simplesmente se daria conta de que o Estado pode ser
perfeitamente dispensável. O mesmo se poderia aplicar à Religião. Portanto,
mais do proclamar o fim destas forças sociais e socializantes, convêm que ambas
se movam por outros parâmetros do que os do cultivo de medos.
39
ENTRE VER E CRER
A imagem de
Tomé é talvez a que mais se aproxima da identificação do nosso momento
religioso. Assim como a comunidade primitiva do cristianismo, especialmente da
segunda geração de cristãos, desejamos conhecer o ressuscitado. Prendemos o
foco naquele que pode salvar, mas, não se repara o testemunho Dele, que é dado
pelas pessoas de fé e prática religiosa que estão ao nosso redor.
Nem sempre
os sinais são os melhores naquilo que as outras pessoas de fé nos irradiam, no
entanto, tendemos a esperar que elas deem primeiramente provas convincentes,
para depois, e com cautela, seguirmos seus passos ou exemplos.
Um dos dados
mais evidentes da Páscoa de Jesus Cristo é o de que Ele não deveria ser
procurado onde não se encontra: no meio dos mortos! É na comunidade de fé que
Ele assegurou presença salvadora, em muitas ocasiões antes de ser crucificado.
Como Tomé, manifestamos nossa incredulidade diante do que se explicita nas
pessoas que fazem acontecer uma comunidade cristã. Assim, demoramos muito tempo
para admitir que o ressuscitado possa estar vivo, e, facilmente o procuramos
onde nunca será encontrado. Esperamos provas, e que sejam muito persuasivas e
convincentes.
Tomé
representa um itinerário bonito de quem participa das celebrações eucarísticas,
pois, se num momento esperava provas do ressuscitado, em outro, revela seu
amadurecimento na fé e faz uma profunda profissão de fé. Sinal de que as
celebrações amadureceram sua capacidade de crer no Cristo ressuscitado. Se o
evangelista São João salientou este aspecto importante em sua reflexão teológica,
certamente desejava animar a vida das comunidades a quem escreveu seu evangelho
(Jo 20,19-31). Da mesma forma, pode ajudar-nos, em nossos dias, a nos dar conta
de que na participação das celebrações eucarísticas o processo pessoal de Tomé
passa do nível de fé de exigir provas, para a experiência que decorre do quanto
Jesus fez e falou antes de ser morto.
Por
conseguinte, já não se requer como primeira condição a prova para depois crer.
É crendo na palavra que se chega a experimentar que ele é “meu Senhor”, ou
seja, aquele que redime. Tal experiência provavelmente não ocorre nas formas
intimistas, meramente devocionais e de fanatizada busca de milagres. Na
participação da comunidade podem alargar-se os grandes sinais da profissão de
fé, que amadurecem para uma definição pessoal como a de Tomé.
40
ENTUSIASMO PASSAGEIRO
O humor é
afetado por muitas e imprevisíveis situações. Ora é surpreendido por
desagrados, ora por agradáveis surpresas. Em alguns momentos desperta o melhor
dos entusiasmos; já em outros, aponta melancólico desfecho de algo que parecia
importante e valioso.
O entusiasmo
por algo novo, estável, melhor e mais duradouro, marca grandes momentos
existenciais, geralmente celebrados com ritos de passagem e com as melhores
promessas. Mesmo assim, certos momentos marcantes fenecem rapidamente porque
aparecem outros horizontes e possibilidades totalmente inéditas; ainda outros
grandes pactos se fragilizam com o tempo por falta de atualização. Mesmo
aqueles que queremos tornar inesquecíveis, precisam ser reativados para
continuar a nos encantar.
O entusiasmo
muito mais do que, da vontade própria, é intensamente afetado por ambientes
sociais e coletivos e, facilmente leva-nos de uma perspectiva a outra: Vai-se
ao encontro de alguém para expressar alegria e amizade e volta-se frustrado;
quer-se fazer um protesto pacífico e acaba-se em atos de violência; quer-se
honrar a palavra dita, prometida e confirmada e, rapidamente, faz-se o avesso.
A
proximidade da celebração da Páscoa, culminada na grande passagem de Jesus, nos
ativa a memória de como foi curto o entusiasmo dos que receberam Jesus na
entrada de Jerusalém. Num momento, acolheram-no com os mais expressivos
símbolos da alegria e do contentamento e, poucos dias depois, já se posicionam
do outro lado, e toleraram a eliminação através de morte, pregado numa cruz. Os
textos evangélicos salientam que, ao lado da efusiva acolhida, Jesus entrou na
cidade montado num jumento.
Trata-se de um símbolo muito
importante: reis, nobres, guerreiros e invasores entravam nas cidades montados
em cavalos amestrados e velozes. Jamais alguém ousaria confrontar-se montado
num jumento para guerrear contra alguém sobre um cavalo e, tampouco, alguém
ousaria fazer guerra utilizando-se da montaria de jumentos, pois, são animais
lerdos, embora fortes pelo seu tamanho.
A recordação deste episódio da semana
que antecedeu a morte de Jesus Cristo, desperta a constatação de quão
facilmente também nós esquecemos propósitos, pactos, promessas e solenes
celebrações de procedimentos para o resto da vida, mas que, por razões as mais
variadas, esfriaram, perderam ela e, de repente, passaram a ser vistos como um
jugo insuportável ou como situações sem nenhum sentido e, por isso mesmo,
passaram a ser deixados de lado.
Possa a nossa motivação em torno da memória da
Páscoa reavivar o entusiasmo pelos bons sentimentos de passagem para mais
qualidade do nosso mundo de oscilações de humor e tornar mais estáveis os
entusiasmos por causas profundamente humanizadoras.
41
FANATISMOS RELIGIOSOS
É próprio da
condição humana o desejo de descobrir algo melhor e mais apropriado para as
condições de convivência. No desejo de propiciar o melhor, surge,
simultaneamente, o fenômeno sectário, isto é, considera-se o novo intuído ou
descoberto, como absolutamente melhor quanto o que vem sendo feito sob outras
motivações.
Um dos
componentes de persuasão para convencer os outros é o do apelo exagerado para
assegurar que a novidade inventada ou assumida é radicalmente superior e muito
melhor do que tudo quanto está sendo feito. Neste processo, tende-se a cair com
facilidade no campo do fanatismo. Exagera-se na argumentação e se quer apressar
a adesão de outras pessoas.
O campo
religioso não está isento do risco de fanatismos. O apóstolo São Paulo constatou
este fenômeno de exageros por parte da comunidade de Tessalônica. Duas
tendências afastavam a comunidade do que era essencial no seguimento de Cristo.
Uma, sustentava que Jesus não retornaria à condição humana; e outra, assegurava
que esta volta estaria na iminência de acontecer a qualquer instante e sem
demora. Se um fanatismo relativizava qualquer inquietação diante do jeito que
vivia, o outro apavorava por medos. Este levava a tal pânico que muitos
cristãos já nem se preocupavam nem com os trabalhos cotidianos, nem com a vida
a ser alargada e nem mesmo com a construção de um reino segundo Jesus Cristo.
Esperavam passivamente que Jesus já viria condecora-los com o melhor prêmio nos
céus.
Os dois
fanatismos da comunidade de Tessalônica não estavam vinculados à boa notícia de
Jesus Cristo que convocava a agir positivamente no meio das dificuldades de
organização da vida.
A real
missão decorrente do anúncio de Jesus Cristo, ao ficar relegada, levava à perda
das características peculiares da comunidade de Tessalônica. Este fato, tão
antigo, nos mostra a necessidade de amadurecimento da fé em nossos dias, pois,
muitos fanatismos em torno de aspectos irrelevantes e muito distantes do reino
anunciado por Jesus Cristo, são colocados como essenciais à vivência da fé. E
como tem gente sendo conduzido por um cabresto de fanatismos em movimentos e
pastorais das comunidades cristãs!
Por isso, é
bom lembrar um texto muito interessante do evangelho de Lucas (19,9-10).
Enquanto muitos foram levados por outros a chegar perto de Jesus, Zaqueu,
consciente de seus erros, sobretudo, o de cobrar mais do que lhe era permitido,
ao encantar-se com o que ouvia falar de Jesus Cristo, e, ao saber que ele
passaria numa estrada, quis ser visto por Jesus e, por isso, subiu numa árvore
da beira do caminho para lhe partilhar seus limites e o bom desejo de
alinhar-se ao trabalho de Jesus Cristo. Deste apelo resultou um jantar muito
importante: o do pecador que se sente agraciado e perdoado pelo amor de Deus e
se transforma radicalmente para ser melhor do que tinha sido até aquele
momento.
Muito mais
valioso do que o atrelamento passivo e dependente de fanáticos, o processo de
conversão de Zaqueu abriu-lhe a perspectiva de ser mais reto, mais honesto, e
mais humanitário. Este novo modo de ser foi radicalmente diferente do que um
atrelamento a fanáticos, mais interessados pelos seus planos do que nos planos
do amor de Deus.
42
FÉ – MAIS QUE CONTROLE
E OUSADIA
A
comemoração da tradicional Festa de São Pedro e São Paulo sempre nos enseja a atualização
da riquíssima memória dos dois homens que, por caminhos muito distintos, se
aproximaram notavelmente do jeito de Jesus Cristo.
A tendência
ao controle e à sistematização tende a predominar em algumas pessoas, enquanto
que a capacidade de inovar e de partir para algo novo, é marca mais saliente de
outras. Muitas vezes, estas duas tendências da vida geram conflitos e tensões,
tanto em casais quanto em comunidades cristãs.
Por vezes o excessivo zelo por uma ou outra
destas características pessoais, gera sofrimentos e desencontros graves que
acabam em rupturas, mas, por outro lado, quando estas forças são cultivadas na
fé, podem constituir-se em valiosa capacidade de síntese e que faz muito bem à
vida.
Tanto a
ausência de ordem quanto o excesso de mudança e de inovação tendem a não fazer
muito bem à nossa vida. Por isso, lembrar o itinerário de crescimento da vida
pessoal de São Paulo e de São Pedro nos remete a um desafio animador. Com
histórias de vida muito diferentes, Pedro e Paulo foram mudando gradualmente e
se aproximando do essencial da Boa Nova de Jesus Cristo, a ponto de se tornarem
capazes de suportar o mesmo martírio pela causa do Reino de Deus.
Mais do que
o zelo e a força de vontade na vida dos dois apóstolos, predominou neles o
crescimento dinâmico da fé. A fé foi quem os levou a um paulatino processo que
os tornou radicalmente melhores do que eram.
As múltiplas
tensões geradas na vida doméstica e comunitária tendem a revelar que, estas,
normalmente se manifestam mais pelas naturais propensões pessoais, ou de
controle ou de mudança e inovação do que por motivações de fé. Foi, certamente,
a fé de Pedro que o tornou merecedor das “chaves” para ligar e desligar. Em
outras palavras, não foi questão de poder, de fama ou condecoração da precedência,
mas seu dinamismo de fé foi capaz de torná-lo progressivamente mais apto a
aproximar as pessoas em comunidade para a realização do projeto de Jesus
Cristo. A “chave” levou Pedro a extraordinária dedicação e serviço.
Também nós,
na medida em que cultivamos mais e melhor nossa fé, podemos experimentar o que
realmente gesta e gera transformação de vida, capaz de torná-la mais plena de
sentido. Como Pedro e Paulo, somos dotados de riquezas pessoais que podem ser
buriladas e nos levar a testemunhar, especialmente por obras e gestos, o
crescimento no humilde e progressivo caminho de integração daquelas forças
vivas que tornaram os dois apóstolos verdadeiros esteios de Igreja.
43
FÉ DESPROVIDA DE
CARIDADE
A crueldade
com que muitas pessoas destratam outras pessoas da comunidade, quando percebem
que seus interesses são contrariados, revela uma contradição escancarada de fé
apenas ostensiva e aparente. Ódios profundos por pequenas ninharias refletem
que a fé de muitas pessoas não pode ser medida pelas suas piedades, nem pelos
seus zelos exagerados, e, muito menos ainda, pelos seus formalismos. Os frutos
desta fé somente resultam em mágoa, ressentimento e calúnia sobre outras
pessoas da comunidade.
Volta sempre
de novo uma pergunta inquietante: como vivenciar uma religião que seja
realmente redentora, e não cultivo de ódios e de procedimentos que se aproximam
dos atos hediondos que atentam contra a vida?
O apóstolo
Tiago, quando constatou esta dificuldade nas primeiras comunidades cristãs,
ponderou sobre os modos de agir de Cristo, e deduziu que a fé sem caridade é
morta. Significa, pois, que não produz nada de bom e de positivo. Ele mesmo se
reportou à observação de um caso ilustrativo: não basta desejar paz para alguém
sem facilitar ou melhorar as condições que facilitem processos de paz e, os
tornem, realmente, mais abrangentes e mais profundos na convivência humana.
Tiago
observava que no caminho do discipulado, que implicava na cruz, não poderia a
adoração do ego sobrepor-se aos outros, e tampouco deveria fazer parte do
itinerário dos cristãos. Com isso, o apóstolo do senso prático, passou a
orientar as comunidades a fim de que não se movessem por meras noções
intelectuais.
Hoje, parece que predomina uma
tentação de fé nem muito intelectual, mas, eminentemente devocional e movida
pela autorreferencialidade. Assim, pessoas que se proclamam religiosas,
transformam a fé em mera mediação para o favorecimento de sim mesmas, e, se
mostram pouco capazes de dar ouvido para algo que é maior do que o mundo do seu
ego.
A fé, para
poder constituir-se em força, requer algo mais do que simples religiosidade,
baseada simplesmente em hábitos, tradições e execução de pequenos detalhes
exteriores. Pela capacidade de caridade, como Tiago (2,14-18) insistia, é que
se demonstra a fé. Bem sabemos que caridade também é muito mais do que simples
oferta de algum pequeno donativo para algum carente. É essencialmente um modo
de lidar com as pessoas e implica em atitudes que as favoreçam.
44
FÉ E MULTIPLICAÇÃO DE
DOGMAS
Assusta constatar o quadro religioso em que hábitos, nem tão prolongados
e rotineiros, acabam transformados em procedimentos dogmáticos e levam a
discursos categóricos para exigir a impecável observância destas normas, que,
sequer são oficiais na Igreja. A impressão é a de que ter fé, significa
submeter-se a certos detalhes de ritos exteriores. Nesta condição, a proposta
de Jesus Cristo vira secundária e irrelevante como caminho redentor.
Na aparente
segurança das exterioridades, subentende-se que a ação de Deus é certa e
garantida, mas, diante de qualquer pequena dificuldade, aparece o pânico e a
automática cobrança de que a ação redentora de Cristo não está sendo eficaz.
O episódio
bíblico narrado por Marcos (4,35-41) mostra como nas andanças de Jesus de
Nazaré, apareciam reações muito variadas, sobretudo, quando pessoas encontravam
algumas dificuldades: do entusiasmo à dureza de serviz, da ironia à
incredulidade; no entanto, diante dos sinais de Jesus sobre a manifestação da
maldade, mostravam-se incrédulos e céticos.
Quando a
agitação das ondas do mar, - símbolo das dificuldades da vida no seguimento de
Cristo, - levou ao balançar do barco, seus discípulos sequer reconheceram, no
procedimento de Jesus que acalmou o ambiente, um sinal da ação de Deus, mas,
souberam apresentar-lhe um vasto conteúdo de lamúrias.
No meio do
pavor, os discípulos ousaram repreender a Jesus, por sentirem medo de
afundamento do barco, diante das ondas agitadas, e por perceberem que ele
dormia despreocupado. Para Jesus, no entanto, a fonte dos medos certamente não
representava nenhum motivo de inquietação, mas, mesmo assim acalmou o presumido
o espírito imundo da agitação dos discípulos. Eles, todavia, simplesmente se
calaram. As antigas crenças supersticiosas de que Leviatã teria capacidades
nocivas nas águas dos mares, e, por efeito de maus espíritos, levara os
discípulos a desnecessários medos. Estes, sequer aguçaram a sensibilidade de
perceber a serenidade que Cristo lhes passava a respeito destes medos.
Mesmo
andando com Cristo no barco, os discípulos não tiveram fé na sua capacidade de
manifestar algo de Deus. Se hoje as ondas não são, nas praxes de tantas
piedades religiosas, as dos mares, mas, aquelas dos valores culturais muito
diversificados e das dificuldades de travessia diante dos impasses na
convivência, os muitos dogmas de exterioridades formalistas, com certeza, mais
ajudam a facilitar pânicos e pavores do que calmarias de entendimento.
A pergunta
de Cristo aos apavorados do barco, - se ainda tinham fé, - certamente questiona
na radicalidade uma prática religiosa de muitas afirmações, e, de bem pouca
experiência de solidez. E, quando tudo parece desandar, ainda se atribui a
culpa a Jesus ou a Deus, como se fossem responsáveis pela inoperância diante
dos seus deveres obrigatórios de atenção e desvelo. A capacidade de reconhecer
em Cristo o poder de Deus, provavelmente implica mais em modos de proceder do
que em maneiras de explicar o que é e o que não é dos conteúdos dogmáticos.
45
FÉ E TENTAÇÃO DE MANDAR
Parece cada
dia mais insensato o convite de Jesus Cristo, feito aos discípulos, para um
modo de ser específico: ser servo! Se o convite intriga os interlocutores de
hoje, simultaneamente, se presta para uma constatação: falta fé para esta
estranha opção, diante de um mundo cultural que endeusa poder e a condição de
ditar a conduta dos súditos.
Um texto
muito antigo do profeta Habacuc (Hb 1,2-3; 2,2-4) revela seu perfil de fé com
pressuposto de poder: insatisfeito com a impiedade e as injustiças do povo e,
possivelmente, com a eficácia do seu trabalho, quer que Deus evite que o povo
de Judá viva de forma tão desencontrada. O retorno deste pressuposto foi uma
intuição de que Deus, ao invés de atender a súplica do profeta, apontava para
algo ainda mais grave: este povo acabaria sendo exilado para a Babilônia. Era
algo que Habacuc sequer queria imaginar, mas, ao mesmo tempo sentiu a
interpelação de Deus: não é Deus que precisa prestar conta para aquele possível
infortúnio, mas, caberia aos fiéis manter-se na fidelidade da sua fé, porquanto
este itinerário seria capaz de propiciar justiça a partir dos justos.
A mensagem
de Cristo levou os discípulos a torcerem o nariz porque certamente esperavam
alguma precedência através do discipulado, regada com honras e muitos poderes.
Ao serem convidados para se assemelharem a empregados, que cumprindo suas
tarefas, no fim do dia, ainda teriam que continuar a trabalhar, os discípulos
se deram conta de que lhes faltava fé básica para tal abnegação.
Nossos dias
ostentam uma cruel relação dos serviços com preços exorbitantes e, já se torna
raro encontrar alguém que preste algum serviço sem exigir a devida remuneração.
Sob este quadro, a lealdade ao projeto de Jesus Cristo, também encontra um
limite: falta fé! Não só os serviços gratuitos somem do panorama social, mas,
também todos aqueles que não impliquem em afirmação do poder para reger a vida
dos outros. E, como os discípulos, nos damos conta de que para perseverar na
convocação de Cristo, somente com uma humilde constatação de limites: “Senhor! Aumentai a nossa fé”.
A fé, muito
mais do que meio para obtenção de privilégios e vantagens gratificantes -
geralmente não alcançáveis por outros caminhos, - provavelmente supõe
constância na fidelidade, mais do que insistência para que Deus mude as coisas
segundo nossos interesses pessoais.
46
FÉ EM TORNO DO IMEDIATO
Na ambiguidade das buscas, a
satisfação do imediato parece, normalmente, sobrepor-se aos projetos de longo
prazo. Assim que o alcance da comida, da vantagem e da possibilidade de fazer
reserva se esvai, a conversa se transforma em lamúria e o olhar da fé remete
com facilidade para os tempos passados. Estes, então, passam a ser
estabelecidos como novo horizonte de ideal a ser buscado.
Basta ver como muita gente, em meio à
crise de nossos dias, fica insinuando, com saudosismo, a volta de formas de
governo já deixados de lado, como o da ditadura militar, e defende
ardorosamente aquelas mediações como melhor caminho de redenção para nossos
dias.
Da experiência religiosa decorrente
da fé em Deus, algo similar se repetiu em diversas ocasiões da história
bíblica. Basta lembrar o episódio da fome no meio do deserto, com murmúrios e
lamentações de que teria sido melhor continuarem escravos no Egito do que
morrer de fome naquele lugar inóspito. Bastou encontrar resina de tamareira
para matar a fome, que o assunto tomou totalmente outra dimensão. Viu-se nisto
uma intervenção de Deus e, euforicamente, apareceu o desejo de mais “pão caído
do céu”.
Dos antigos murmúrios, ao de nossos
dias, salientam-se, nestes lamentos, muitos anseios interesseiros e, numa
mágica, adapta-se a memória do passado, para fazê-la passar a ser insinuada
como isenta de sofrimentos e de contrariedades profundas. Afirma-se,
simplesmente, que aquele tempo era um tempo feliz, mesmo tendo havido muito
desrespeito e clara afronta à dignidade das pessoas.
Nas multidões que procuraram Cristo,
o desejo imediato pelo provisório, impedia perceber nos seus sinais um
itinerário de construção da vida segundo a vontade de Deus. A cegueira de fé,
daquele momento, permitia apenas enxergar o pão que ia para o estômago. Como o
povo do deserto esperava de Moisés a intervenção para mais resina de tamareira,
os que iam ao encontro de Jesus, tampouco entendiam o alcance do que pregava:
trabalhar para saciar outra fome mais profunda: o seu jeito de ser, indicava um
modo de vida para muito além da mera comida diária e das formas
sensacionalistas de obtê-la dentro de certas regras estabelecidas.
Jesus apontava, aos interesseiros, um
horizonte de plenitude: chegar a uma vida de mais qualidade! É o “pão da vida”.
47
NOS DIFÍCEIS RUMOS DA
VIDA
Nossa
condição de seres humanos, mesmo com alguma superioridade técnica, cultural e
social sobre os demais seres existentes na terra, - por mais que alcança e consegue conquistar, - não nos livra da dura
tarefa de refazer e de reconstruir o fio do sentido da existência.
Em muitas e
seguidas ocasiões este “fio da meada” é obstruído por decepções profundas; em
outras, por medos e ameaças diante do que projetamos como o melhor para o
futuro; em outras, ainda, por descrer na própria capacidade de lidar com
adversidades cotidianas, de recomeçar diante de perdas e de integrar mágoas,
raivas e tantos outros sentimentos que tiram o humor positivo da vida.
Para pessoas
de fé sempre resta o consolo do que Deus possa ajudar na lida para a superação
das dificuldades. Entretanto, como perceber a ação e as interpelações de Deus?
Basta ficar passivo, e, esperar que ele nos faça felizes e satisfeitos?
Dos
ensinamentos de Jesus Cristo podemos perceber que ele não orientava nem para o
fatalismo das desgraças e nem para mágicas divinas capazes de suprir as
limitações humanas. Orientava para a mudança de atitudes e, para a busca do
melhor caminho do que Deus interpelava, estava uma condição: a da justiça.
Bem sabemos
que a redenção, a salvação e a progressividade no sentido existencial da vida
não provêm da mera conquista pessoal. Jesus deu a entender que se trata de um
dom de Deus que precisa ser perscrutado. Este dom não equivale a uma ação
mágica capaz de livrar-nos de quaisquer sofrimentos, mas é, eminentemente, a
capacidade de mudar, de adaptar-se a situações novas e de recomeçar, sempre de
novo e muitas vezes, diante de perdas e fracassos.
Jesus usou a
imagem de uma pequena historinha para fazer seus discípulos entender este
necessário dinamismo da vida (Mt 21,28-32). Mostrou que inclusive a segurança
das coisas estáveis, imutáveis e certas, como tantos cristãos querem insinuar
com piedades e rituais exteriores, não constituem certamente o melhor caminho,
porque levam as pessoas a se fecharem diante da graça de mudar, e, porque as
torna soberbas, dominadoras e obcecadas em torno de certas exterioridades
piedosas que as enganam.
O caminho
que Deus deve estar esperando para a nossa vida, com certeza, não pode ser o do
rigorismo de alguns atos, rituais e modos formalistas de rezar, pois,
precisamente estes tornam difícil a convivência e truncam os relacionamentos
com as outras pessoas.
O humilde
itinerário é o de nos tornar capazes de inverter os muitos “nãos” que dizemos e
pensamos, para lentos e sofridos “sins” efetivos, de pequenos gestos e atos,
capazes de mudar nosso humor e o entorno da convivência.
48
OBSESSÃO POR RESULTADOS
IMEDIATOS
O tempo está marcado por uma obsessão
compulsiva por resultados e espera-se que estes sejam imediatos. O hábito da
comunicação rápida e instantânea leva ao esquecimento da milenar característica
humana de um ritmo lento e vagaroso, em que tudo requeria muito tempo para o
desfecho.
Basta lembrar os ciclos de espera em
torno do plantio de lavouras: primeiro a preparação do solo, depois a
semeadura; depois a longa espera para ver o nascimento das sementes; adiante,
mais outra longa fase de acompanhamento atencioso em torno do desabrochar e
posterior desenvolvimento das plantas, para enfim, esperar o momento oportuno
da colheita e a sua conservação com vistas a assegurar alimento para mais um
ciclo de um ano.
Esta pressa de nossos dias, talvez
permita entender a forma doentia como se procura milagre, cura, e libertação
instantânea. Na expressão do “vapt e vupt”, até de Deus se espera que seja
imediatista diante dos pedidos feitos. O não atendimento imediato já é
interpretado como recusa. Por isso, mais do que as antigas formas de rituais mágicos,
hoje se explora à exaustão a cura e libertação mágica, como se Deus estivesse
ocioso à espera dos intercessores mágicos para atendê-los no mesmo instante do
pedido. Na melhor hipótese pode-se esperar uma auto-sugestão de cunho meramente
subjetivo.
Jesus Cristo quando iniciava seus
discípulos sobre coisas acessíveis de Deus, não os iludiu com magia, mas,
através de comparações, lhes mostrou que os sinais e mistérios do reino de Deus
sempre envolvem um longo processo, tal como o dos discípulos que levaram uma
porção de anos para perceber que o seguimento de Cristo implicava numa
capacidade de assimilar sofrimentos e dificuldades.
A conhecida parábola do grão de
mostarda (Mc 4, 16-24) mostrou que algo similar ao da semeadura da mostrada,
era próprio do processo de conversão: a semente da experiência de Deus, no
início quase imperceptível, e, tão pequena como a semente de mostarda, possui,
no entanto, em si a virtualidade de desenvolver-se e de tornar-se arbusto capaz
de acolher pássaros. Por conseguinte, não depende somente do desejo, mas da
ação de Deus.
A historinha contada por Jesus servia
de alerta para que seus ouvintes não se firmassem numa ideologia de um Deus
ostensivo, poderoso, e de forças extraordinárias para mudar espalhafatosamente
o sistema de vida implantado em Israel e no mundo, mediante o zelo dos fariseus
e do formalismo legalista das orações exteriores daquele tempo.
Em outras palavras, convém a nós a
pergunta: quem estaria acionando o crescimento da semente? Com certeza, nem o
legalismo exterior, e, nem o pressuposto mágico de nossos dias, que na
multiplicação de palavreado de intercessão, busca uma visibilidade enganosa
para merecer o seguimento de presumidos discípulos. Mais do que popularidade e
grande adesão ao zelo espalhafatoso dos milagres, convém perceber que, quem faz
a semente crescer é Deus e não quem se considera milagreiro especial.
O importante certamente será um agir
para semear coisas boas e, se temos fé, Deus é quem faz este reino crescer e
produzir fruto, pois, pela evidência, o surgimento de frutos sempre demora a
aparecer.
49
PEQUENÊS HUMANA E
ATREVIMENTO
É muito
antiga a sensibilidade religiosa, mesclada com uma intuição profunda de que as
criaturas humanas, engendradas no meio do humus da Terra, não poderiam atrever-se
a ocupar o lugar e a função de quem é incomparavelmente maior e mais complexo
do que suas belas obras, dentre as quais, se destacam os seres humanos,
culturalmente desvirtuados há muito tempo e educados para a agressividade e a
luta por possessão de bens materiais e simbólicos.
O texto
bíblico que trata sobre o surgimento da condição humana valeu-se de uma rica
imagem artística: o ser humano é como um tijolo de barro diante do oleiro. A
mãe da humanidade, que é a Terra, e que, através de seu humus permite a
existência humana, indica que o risco de seres humanos pretenderem colocar-se
no lugar de Deus, gera sofrimentos, desequilíbrios nos eco-sistemas da
natureza, espoliações, guerras e mortes injustas.
A antiga
noção bíblica ajuda a entender, ainda em nossos dias, porque tantos dramas
existenciais profundos e tantas mazelas na convivência social infernizam
incontáveis seres humanos. Como um tijolo ou vaso bem moldado pela habilidade
artística do Criador, movemo-nos numa existência frágil, curta e fugaz.
Portanto, não deveríamos gastar nenhum tempo em torno de ódios, vinganças e
ambições desmedidas. Mesmo assim, nos deparamos com esta perversidade, que
parece constituir o pão de cada dia. Se nos perguntamos a respeito do por que
destes sofrimentos, encontramos uma raiz de causas muito similar à observação
bíblica de inúmeros séculos atrás.
Naquele tempo, a opressão da
monarquia causava sofrimentos incalculáveis. Como uma astuta cobra venenosa,
dava o bote por todo o âmbito do país e era capaz de tudo, desde a alienação
das pessoas para facilitar que a presumida sabedoria justificasse ainda mais e
melhor o acúmulo de riquezas. Todo o poder, aparentemente propiciado por Deus,
não passava de enganosa usurpação.
Algumas décadas depois da morte de
Jesus Cristo, comunidades de seus seguidores viam-se diante da mesma ação
diabólica, gestora de divisões internas nos indivíduos e de desencontros
sociais profundos. As vítimas sentiam-se envolvidas pela víbora peçonhenta, que
na astúcia de seus movimentos, apelava à lógica egoísta de acúmulo, insensível
ao sofrimento alheio. Viram, no entanto, que Jesus Cristo lidou de uma forma
peculiar e interpeladora diante desta forma venenosa à convivência humana: não
entrou no jogo do poder econômico, nem do status religioso e, nem se aproveitou
do espaço político para alargar seus poderes, nem tampouco centralizou a
idolatria de suas riquezas e, nem mesmo, valeu-se de privilégios auferidos pela
religião.
Para as primeiras comunidades
cristãs, este avivamento dos traços marcantes de Cristo apontava para um
caminho alternativo: na solidariedade e no respeito profundo entre os seres
humanos, age a graça de Deus, e torna as pessoas muito mais genuínas do que já
são por origem: a partir da bela e profunda transformação de elementos do húmus
da Terra, podem elevar-se à grandeza de expressar encantamento a quem contempla
sua existência.
50
PREÇO DO SEGUIMENTO DE
JESUS
A aparente
sensação prazerosa de seguir Jesus não vai muito além da fantasia. E quando uma
estimulação identifica este seguimento com curas, milagres e libertações, o
imaginário acaba esperando somente coisas boas, satisfatórias e gratificantes.
Evidentemente,
se não ocorresse alguma motivação satisfatória, muito poucas pessoas iriam
declarar-se discípulas de Jesus Cristo. Mesmo assim, pode ocorrer um processo
de ilusão em torno de fatores grandiosos e edificantes, cuja finalidade
subliminar é a de manter grupos controlados sob algumas presumidas orientações,
geralmente distantes daquelas dadas por Jesus Cristo.
Para quem
tenta andar no penoso processo de aproximar-se das características de Jesus
Cristo, sabe que cura, libertação e tantas outras boas expectativas, são
lentas, demoradas e nem sempre linearmente progressivas. E, neste processo, até
o encantamento pode ser revisto como procedimento induzido a erro.
O profeta
Jeremias tornou-se clássico com a queixa dirigida a Deus, perante o sentimento
de ter-se sentido logrado: “seduziste-me, Deus!”. Sentiu-se chamado por Deus
para fazer algo diante dos abusos religiosos que causavam um grande mal-estar e
sofrimento ao povo.
Sensível a
este clamor que lhe exigia voz e postura firme, sentiu medo, insegurança, mas,
mesmo assim, sentiu-se também interpelado por Deus para alertar e profetizar
contra os abusos e exterioridades vazias. Imediatamente teve que lidar com perseguição,
difamação e escárnio. Na decorrente crise de desamparo, o profeta chegou a
maldizer sua própria existência.
O curioso é
que nestes momentos de vacilação e de inconformismo diante do que esperava da
parte de Deus, Jeremias recriava, a partir do silêncio de Deus, a convicção de
que Ele o amparava para continuar a falar mal de tudo quanto iludia o povo.
A recordação
deste aspecto da vida de Jeremias ativa uma dificuldade central da vivência
cristã: como ser discípulo de Jesus Cristo, sem combater tantos evidentes
abusos religiosos e sociais que, na verdade, aumentam a desgraça, a doença e o
sofrimento?
O pior de
tudo é quando supostos profetas e animadores de fé só conseguem falar coisas
genéricas, agradáveis, elogiosas e melífluas. Pior ainda mais, quando os ditos
discípulos apenas querem esta divindade falaciosa, que em nada implica na cruz,
sobretudo, a da história pessoal e do entorno, que atenta com perversas
maquinações contra a proposta de Jesus.
51
QUANDO AS TALHAS ESTÃO
VAZIAS
A palavra “talha” apresenta mais que
uma dúzia de significados diferentes. Um deles, talvez o que mais lembramos, é
o do pote de barro com grande bojo para conter água, azeite ou outro
ingrediente. Imaginar o tempo de mais de dois mil anos atrás, uma talha vazia certamente
constituía sinônimo de alguma inquietação. Não ter água, azeite ou outro
produto de alimentação básica na talha, requeria, evidentemente, algum ato de
providência.
Na expressão religiosa, talha também
possuía mais um significado importante para os judeus. Constituía um pequeno
cubículo, parecido com nossos chuveiros – pelo menos os das pessoas mais pobres
– e consistia numa escavação de aproximadamente um palmo de profundidade e que
era preenchido de água para os rituais de purificação. Diante das pequenas
faltas, desencontros ou desentendimentos a pessoa ficava parada neste cubículo,
de modos que os pés ficassem na água, a fim de fazer o ritual de purificação
daqueles deslizes, ou, como nós diríamos um momento de integração das faltas
cometidas, para sentir-se purificado e perdoado diante de Deus.
O início do Evangelho de São João
(2,1-11) destaca o primeiro grande sinal da parte de Deus, efetuado por Jesus
Cristo, que foi o de pedir para encher novamente as talhas vazias! A religião
havia se tornado tão formalista, exterior e sem força dinâmica para a vida, que
já não salvava nada! Sob este aspecto, talha vazia, além de não purificar e nem
redimir, significava religião inoperante.
A intervenção da mãe de Jesus Cristo
reflete preocupação com esta falta de qualidade da expressão religiosa. Ela, no
entanto, em vez de se prender ao ritualismo vazio, se antecipou com uma
intuição profunda de que se fazia necessário uma nova aliança: não a do
legalismo inoperante simbolizado na água, mas, a do novo do projeto de seu
filho, identificado com o vinho. Como mãe, e, também como discípula, exerceu
certa pressão pela nova aliança, capaz de encher as talhas de sentido! Longe da
magia, desejou que o rito religioso não se constituísse de mera purificação,
mas que expressasse a alegria da festa: afinal, o noivo – lembrando os antigos
enlaces de Deus com o povo – estava ali e dava razão para alegrias messiânicas.
Se a água das talhas constituíra
mediação redentora, porque substituí-la por vinho? Porque lembra a nova aliança
de Jesus Cristo, capaz de propiciar plenitude à vida. Na imagem do vinho bom,
que alegra a festa, encontra-se um significado simbólico muito rico: nas bodas
do estabelecimento de um novo pacto, a presença do noivo torna-se motivo de
alegre festa! Ele, com seu jeito e sua lida, surpreende para além do esperado.
Sua presença equivale à surpresa do vinho bom, porquanto aponta caminho que não
apenas redime de pequenas faltas cotidianas, mas preenche e substitui a longa
tradição que havia se esvaziado e desandado em casuísmos.
Nossos dias parecem repetir algo
parecido com o progressivo esvaziamento dos rituais religiosos. No entanto, o
que se vê pouco, são intuições para algo novo e para além das muitas piedades
marianas que sequer aproximam as pessoas ao projeto de Jesus Cristo, nem
tampouco das alegrias da sua presença no meio de nós. Por outro lado, o que se
vê em tantos veículos de comunicação são emocionalismos explorados nos mínimos
detalhes de uma presumida deusa poderosa, vaidosa, transformada em rainha, e
que, ornamentada de jóias e bricolagens, sempre requer as mesmas coisas
alienantes. Esta talha também está dando sinais de decrepitude e de inoperância
para os problemas reais da vida!
52
QUANDO CÉSAR NÃO É
DIGNO DE IMPOSTO
O antigo imperador romano, César,
chegou à audácia da suprema prepotência de se proclamar Augusto.
Augusto
significa que está acima dos deuses. Ao e exigir devoção e culto por
considerar-se superior aos deuses divinos, César afrontava diretamente o culto
judaico que, a partir de um antigo costume, pagava uma parcela da renda ao
templo. Uma
solução possível para os judeus seria a de pagar um pouco para César e um pouco
para o serviço religioso. Na pergunta maliciosa dirigida a Jesus esperava-se a
confirmação desta divisão de valores, o que seria uma irregularidade; ou, se
não pagassem a César, estariam cometendo uma infração grave. Por outro lado, se
deixassem de pagar o templo estariam cometendo outra irregularidade religiosa.
Ao elogiarem
Jesus pela sala sabedoria, os religiosos fanáticos e entreguistas que
interpelaram a Jesus, tinham, na verdade, uma intenção maldosa, porquanto
qualquer resposta que ele viesse a dar ofereceria razão para condená-lo. Ele,
no entanto, deu uma resposta para além do que esperavam: “daí a César o que é
de César”. Aparentemente a resposta liberaria estes judeus a pagar o imposto,
mas, o que efetivamente é de Deus e sob esta condi;
53
QUANDO O CORAÇÃO SE
FECHA
Bem sabemos
que a comparação alegórica do “coração fechado” não se refere ao órgão
propulsor do sangue, mas a um modo afetivo de se relacionar com familiares e
demais pessoas da convivência. São muito variados os fatos que levam alguém a
sentir mágoas diante de certas pessoas: podem ser agressões verbais, gestos de
desconsideração, modos de ser e de conversar, e, especialmente, os modos dos
“não ditos”, ou seja, silêncios, olhares ou desvio de olhares. Estes costumam
ferir mais o âmago dos sentimentos do que ofensas verbais.
Na sutileza
destas pequenas coisas nascem sentimentos de perda e de mágoa, capazes de
romper a comunhão, quer com pais, irmãos ou outras pessoas. Mesmo sem maior
gravidade de fatos, muitas pequenas decepções podem levar a uma autodefesa que
pode ser identificada e comparada ao “coração fechado”.
Dos
Evangelhos sabemos que Jesus Cristo teve que lidar com muita gente magoada,
ressentida, e, com rancor devido a dissonâncias na convivência. No Evangelho do
Mateus, capítulo 18, versículos quinze a vinte, por exemplo, mostra-se que
Jesus deu uma orientação importante às comunidades: o caminho do diálogo é
muito melhor e muito mais eficaz do que ficar acumulando raivas decorrentes de
desencontros ou de idéias ou de sentimentos.
A tentação
natural de reação, quando nos sentimos vítimas de variadas formas interpretadas
como agressivas, é a de romper a conversa e a comunhão com estas pessoas. Bem
sabemos que tal procedimento não resolve nada para superar o desencontro. Jesus
indicou uma tarefa que, em primeiro lugar, exige humildade: conversar. Se não
dá sozinho, sugeriu levar alguém para mediar o entendimento e, se assim mesmo
nada resolver, que se proceda pedido ajuda à comunidade.
Em nossos
dias as comunidades passam por dificuldades de agregação, mas, mesmo assim,
estão imbuídas de importante papel mediador para que seus membros se entendam e
se respeitem. Elas também estão encarregadas de reaproximar quem dela se
afastou. Tal responsabilidade precisa ser cultivada e coloca os membros de uma
comunidade na missão de levar mais pessoas a integrar-se num projeto de
comunhão. No caminho do discipulado de Cristo, o importante é ir e agir e não
ficar apenas encalusurado em si mesmo.
54
REMADORES DA GALERA
Estamos em
tempo de muita adoração da personalidade nos serviços prestados numa comunidade
de fé. Se, de um lado, a centralidade de Cristo é deslocada para a
personalidade de quem se sente diretamente privilegiado com poderes especiais e
superiores aos demais, por outro lado diminuem cada dia mais, os que estão
dispostos a “remar” junto com os outros nos serviços da comunidade.
Nos tempos
do império romano, e, possivelmente já antes dos romanos, o deslocamento de
barcos pequenos ou de navios dependia da força muscular humana. Pode-se
imaginar o que representava um confronto de guerra ou outra adversidade, e a
velocidade do navio dependia dos remadores que ficavam no porão do navio.
O que se aprendeu do consenso, já em tempos
muito antigos, foi que o ritmo cadenciado de puxar e soltar os remos se tornava
imprescindível para o êxito do processo de navegação. Se alguém não seguisse rigorosamente o ritmo
das remadas, com os demais, fazia força à toa e se cansava sem demora. Eles
falavam da palavra “upêretas”. Não cabia ficar querendo algo contrário à
uniformidade cadenciada de puxar e repuxar os remos, pois a sintonia com o
grupo se tornava essencial para o melhor rendimento.
São Paulo, -
ao constatar que na comunidade cristã de Corinto havia acirrada disputa por
precedência de algumas lideranças e formação de facções de simpatizantes em
torno de uns e de outros, - foi categórico ao lhe mostrar que todos os agentes
de evangelização da época teriam que estar sintonizados na finalidade do
“navio” e não de seus atributos pessoais. Importava o ritmo coletivo destes
agentes e a profunda sensibilidade para movimentar os remos no mesmo compasso
dos demais.
O desempenho
das funções de animação numa comunidade cristã depende fundamentalmente da
capacidade de sintonia dos animadores. Quando cada um quer alargar seu
fã-clube, acaba, evidentemente, ficando relegada a razão e a causa do
deslocamento do navio... A galera dos
agentes de sinais do amor de Deus precisa que todos se constituam em servidores
de Cristo e não em protagonistas dos gostos pessoais e interesseiros.
Paulo
certamente tinha presente o ensinamento de Jesus Cristo que (segundo Mt 6,
24-34) fala da impossibilidade de se seguir adequadamente a dois senhores.
Presume-se que estava em jogo um traço que já tinha causado grandes danos à
religião judaica: a de fazer leis para cultivar fidelidade a Deus, e, depois
ficar atrelado de forma hipócrita às exterioridades de prática destas normas.
Evidencia-se da comparação que a opção por Deus deve levar a pessoa de fé a
tornar-se capaz de tomar decisões, por vezes, radicais, porque o atrelamento a
muitas dependências inviabiliza um bom discipulado ao projeto de Jesus Cristo.
Muito mais
do que passiva resignação à prática de certas praxes de se colocar na espera da
resolução de tudo por parte de Deus, é preciso focar o que objetivamente conduz
ao reino anunciado por Jesus Cristo. Podem muitas práticas, mesmo muito
festivas, emocionantes e cheias de apelação aos milagres divinos induzir ao
outro tipo de senhorio: o de alguém que quer aparecer a todo custo e se tornar
notável pelos seus poderes espirituais, e, para a sua glorificação.
55
SINAL DA MELHOR
RECORDAÇÃO
Muitos
objetos remetem a boas recordações: são fotografias, pequenos ícones, imagens,
roupas, lembrançinhas, etc. Elas remetem a momentos do passado e despertam bons
sentimentos em relação à pessoa que se aviva com a recordação de seu gesto. Por
isto mesmo os sinais simbólicos falam com muito maior intensidade do que outros
sinais. O presente, ou o sinal deixado, remete à outra realidade. Assim
fotografias e quadros, mesmo antigos, nos avivam importantes momentos da vida.
O povo do
primeiro testamento da Bíblia lembrava e relembrava em muitos momentos da vida
um fato muito marcante: que a fome suprida com frutinhas de tamareira, no meio
do deserto, onde já estavam sem comida, significou, na sua experiência
religiosa, um presente caído do céu. Graças a estas frutas, a maior parte do
povo não pereceu. A simples recordação deste importante momento da trajetória
dos antepassados lembrava ao povo dos tempos posteriores que Deus havia agido
bondosamente e que, por isto mesmo, poderia revelar outros sinais da mesma
bondade.
Se pão e
vinho passaram a ser assimilados como sinais de avivamento do antigo gesto,
adquiriam, ao mesmo tempo, uma virtualidade de jogar as pessoas para frente e
lhes abria perspectivas de sentido diante deste amor envolvente de Deus.
Em Jesus Cristo, a tradicional
significação do pão e do vinho, adquiriu uma dimensão nova e muito
significativa. Ao perceber que na festa da Páscoa Ele seria envolvido em
passagem que acabava com sua existência, Ele se despediu dos discípulos e lhes
expressou o desejo de continuar a ser presença no meio deles. Para tal ato de
recordação e memória escolheu os sinais da antiga festa de Páscoa, a fim de
lhes permitir a atualização de sua presença.
Por isto, quando hoje celebramos a
festa do Corpo de Cristo, continuamos a memorizar o que mais marcou seus gestos
e sua presença extraordinária que transformava o rumo das pessoas. Seu corpo e
sangue, ou aquilo que Ele mais fez, podem ser resumidos e reconhecidos como o
maior gesto enternecido daquele mesmo Deus que despertara, no povo antigo, os
melhores sentimentos através das pequenas frutas de tamareira. O sentimento
grato daquela gente foi o de dizer que era pão, caído do céu!
Jesus Cristo passou a ser lembrado
como gesto ainda maior do que aquele experimentado com as frutas da tamareira.
Nele se revelaram gestos de amor muito mais amplos e significativos à condição
humana.
O evangelista São João, ao reler e
reinterpretar os grandes acontecimentos da passagem de Jesus Cristo aplicou
nova significação simbólica ao da antiga experiência com o maná, afirmando que
Jesus é o verdadeiro pão que desceu do céu.
Ao fazer esta bela recordação, ou
memória de Jesus, acabamos avivando e renovando sua presença entre nós, com a
alegre expectativa de que o dia nossa passagem desta vida, também possa
aproximar-nos mais do seu modo de ser e nos levar a fazer um itinerário
parecido como o Dele.
56
UM TESTAMENTO DIFERENTE
Parece ser pequeno o número de casos em que a morte de uma pessoa idosa
não deixa sequelas de brigas intensas entre os filhos. Se o capital a ser
repartido pode aumentar os olhares ambiciosos e invejosos entre irmãos, o pior
é que, mesmo em torno de objetos de valor meramente simbólico, criam-se murmurações
e desentendimentos.
Em muitos
velórios, enquanto umas pessoas prestam solidariedade aos familiares afetados
pela dor da perda, e rezam com fervor para apresentar a Deus as melhores
recomendações da pessoa falecida, filhos, ao lado, disputam aos berros a
divisão dos bens. E não são poucos os casos em que a briga desta hora se
estende para o resto da vida, a tal ponto de sequer retornarem a visitar o lar
onde nasceram e foram criados.
A despedida
de Jesus Cristo, segundo o evangelista Mateus, teve uma peculiaridade muito
deferente e especial que pode nos indicar uma preciosidade para as razões da
nossa esperança. Mesmo que alguns discípulos viveram a dúvida em torno do que
Jesus havia anunciado, antes de ser morto, subiram ao monte da Galiléia.
A maior
parte de todos os grandes sinais da interpelação de Deus nas narrativas
bíblicas sempre aconteceu no alto de algum monte. Se um monte elevado propicia,
por si mesmo, uma sensação de exuberância que facilita a contemplação, é também
símbolo do desejo de encontro com Deus.
Foi no alto
do monte que os discípulos passaram a entender que a despedida de Jesus Cristo
não lhes legava algum capital, ou qualquer outro valor de barganha econômica,
mas, lhes deixou um testamento inusitado: que continuassem a fazer o que ele
mais havia feito e que completassem sua obra redentora através da ampliação do
discipulado por todas as partes por onde pudessem ir.
Jesus
assegurou sua presença e seu amparo aos que viessem a ser batizados como sinal
de seguimento para, acrescentar, gradualmente, mais serviço em favor da
construção do Reino de Deus.
O batismo
sugerido por Jesus Cristo certamente não visava apenas um ritual de passagem,
mas como sinal do início de seguimento. Sua promessa de que o Espírito de Deus
os acompanharia, com certeza, visava muito mais do que um mero rótulo de ser
católico, pois seria o grande sinal de iniciação para participar na construção
da sua missão.
O grande
sensacionalismo de nossos dias em torno do Espírito Santo pode distanciar a
centralidade do testamento de Jesus Cristo. Requer, na verdade, uma mística, ou
uma força interior cultivada na fé para produzir sinais e gestos que salvam.
57
UM TOQUE A FVOR DA VIDA
Em muitos momentos da vida, o simples
gesto de um toque de mão, nos ombros ou na cabeça, fala muito mais do que
longas e grandiloquentes conversas. Ao lado do poder terapêutico, o gesto,
quando acompanhado por motivações de fé, certamente se torna mais contagiante
para uma merecida reação de confiança.
Nos muitos apelos a milagres, nem sempre
subjaz real desejo de mudança de vida. Por isso, facilmente se pede ação
imediata e mágica, mas, se rejeita qualquer possível hipótese de conversão que
possa implicar em processo de paulatina melhoria de vida e de saúde.
O discurso religioso de nossos dias
deixa evidente que muitas pessoas vinculadas à religião, não são
necessariamente pessoas de fé em Jesus Cristo. Sua falta de fé fica
especialmente notória pelo rigorismo de certos ritos e o moralismo petulante de
pretender dirigir a vida dos outros.
Nas narrativas do evangelista Marcos
(5,21-43) sobre a incredulidade dos discípulos e sua nítida falta de confiança
em Jesus, descreve-se um episódio de uma mulher, que, sofrendo de uma
hemorragia, mas, movida por efetiva confiança de que Jesus tinha poder de
curá-la, valeu-se até de um procedimento aparentemente ilícito de tocar às
escondidas na sua túnica, porquanto via nisso o suficiente para despertar um
processo de cura. Jesus, ao perceber o gesto, declarou com bondade que a fé
estava salvando esta mulher. Enquanto os discípulos preferiram justificar o
anonimato da multidão, e ignorar o gesto da mulher, que via em Cristo um
caminho de acesso a Deus, Jesus mostrou-se atencioso com esta mulher. Segue-se
logo outro episódio: um homem, chamado Jairo, também revela confiança em Jesus,
pois, mesmo na situação de uma grande perda, estava velando sua filha morta.
Estabeleceu-se, imediatamente, outro gesto marcante de Cristo, pois, a
confiança de Jairo recebe atenção, enquanto que os demais, sem confiança, nada constataram
porque eram incrédulos.
Afinal, o que seria possível de ser
feito diante de incrédulos? Jesus mandou-os para longe, pois, a revelação de
Deus, tampouco seria reconhecida por eles. Como no gesto efetuado diante da
sogra de Pedro, Jesus, através de um toque, fez a moça levantar-se. Se os
afamados homens de Deus, muito conceituados desde séculos, Elias e Eliseu,
teriam reavivado pessoas consideradas mortas através de uma série de rituais,
Jesus, na maior simplicidade e com apenas um toque de mão, mostrou eficácia
maior da parte de Deus do que os antigos profetas de Deus.
Se Deus nos interpela para a vida e
não para a morte, a confiança em Jesus certamente constitui caminho mais eficaz
do que o da incredulidade. Também o toque pode ser mais eficiente do que muitos
gritos, berros, controles autoritários e exorcismos.
58
PALAVRAS FINAIS:
VOZES INVÔMODAS
Os grandes
profetas do primeiro testamento da Bíblia, de distintas épocas, tiveram que
lidar com o desconforto de suportar duras críticas ao seu discurso. Mesmo
preocupados com o melhor, e, desejosos de ajudar o povo a manter-se coeso em
torno da fé que o unia a Deus, os profetas revelaram sofrimento intenso,
causado pela rebeldia às suas orientações. Ezequiel chegou a chamar seu povo de
“nação rebelde”.
No evangelho
de Marcos (6,1-6), revelam-se dificuldades que Jesus encontrou em sua própria
terra natal, um pequeno povoado que certamente somava de 25 a 30 famílias
pobres, morando nas cavernas de um paredão de pedra rochosa. O texto também
fornece as razões da adversidade que Jesus padeceu naquele ambiente. Aqueles
moradores sabiam do encantamento por Jesus nos lugares por onde passava. Também
eles o admiravam pelo sucesso. No entanto, tinham uma peculiaridade: não tinham
fé! Quiseram tão somente valer-se de vantagens. Esperavam uma ação
extraordinária que os promovessem a uma notável ascensão social.
Mesmo sendo
filho de um profissional conceituado daquele ambiente, pois, era filho de
carpinteiro, viu-se Jesus diante de uma incredulidade preconceituosa. No seu
imaginário religioso aquela comunidade de Nazaré, certamente, cultivava uma
imagem de um Deus parecido com o de tantos movimentos religiosos de nossos
dias: grande sensacionalismo de curas, de milagres, de libertações, enfim, uma
ação de transformação instantânea e de grandes impactos para persuadir através
de um ar triunfalista.
O olhar
focado para interesses imediatos e que propiciassem rápida auto-afirmação,
impedia aquela comunidade de acolher um messianismo de ação, de trabalho e de
envolvimento na construção de um reino melhor. Afinal, teriam que sair do
comodismo de uma vida fácil e fatalista.
Se Jesus
aparecesse de maneira similar, em tantos dos nossos espaços religiosos,
provavelmente encontraria ambiente parecido com o da sua terra natal. Ali já
não se desejava contribuir para o bem da comunidade, mas, torna-se lugar de
grande afluência para obtenção de vantagens pessoais. A recusa diante das
possibilidades de conversão torna-se também impossibilidade de perceber as
interpelações dos sinais do Reino, porque o foco da fé fica restrito somente
aos interesses particulares.
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