sexta-feira, 6 de novembro de 2026

PONDERAÇÕES FORTUITAS

 

SUMÁRIO

Apresentação

1 – Cada tempo com seu Conde Drácula

2 – A demora

3- A eterna vítima

4 – Abandono

5 – Ação da cloroquina

6 – Acepções estranhas

7 – Acordar com a aurora

8 – Ações noctívagas

9 – Amigos opressores

10 – Anjinhos sem asas

11 – Arma de brinquedo e guerra

12 – Arrufos banais

13 – Atávica fraqueza humana

14 – Banquetes egolátricos

15 – Brilho de uma estrela

16 – Calamidade e fé

17 – Canções e falas moralizantes

18 – Cantiga nostálgica

19 – Cavalo da fantasia

20 – Cloroquina e sua sina

21 – Competição e boa convivência

22 – Contágio psíquico do pânico

23 – Corona

24 – Corrupticida

25 – Cortejos de alegria

26 – Cuidado solícito

27 – Declaração de dignidade

28 – Deus das coisas e loisas

29 – Deus das prateleiras

30 – Disforia

31 – Disponibilidade encantadora

32 – Disputa por deuses

33 – Enfaramento

34 – Enfermidade

35 – Era dos zapeadores

36 – Esperanças antigas

37 – Esperanças sorongas

38 – Estranhos mediadores

39 – Fagulhas de esperança

40 – Falta de assunto

41 – Fanáticos e fundamentalistas

42 – Feição de antojo

43 – Milagrinhos da covid-19

44 – Na égide da “paz e bem”

45 – Negação suicida

46 – Nome de batismo

47 – O falado Covid

48 – Penduricalhos da fé

49 – Presunção

50 – Quietude da poderosa

51 – Rotinas anódinas

52 – Tchutchucas e putinhas

53 – Visibilidade hegemônica

54 – Tempo de espanto

 

APRESENTAÇÃO

 

Como tantas nuvens passageiras,

Algumas belas e outras altaneiras,

Os fatos corriqueiros e cotidianos,

Portam ricos pendores obsidianos.

 

Uns firmam vontade e a emoção,

Outros encantam nosso coração,

E tantos outros mais interpelam,

Nas figuras e nos gestos apelam.

 

Assim, nas coisas mais aleatórias,

Entre tantas captações meritórias,

Umas enternecem os sentimentos,

E, outras exigem inovados alentos.

 

Possa você ler para encantar-se,

E através dos textos espantar-se,

Para sentir fortuitas virtualidades,

Que gestam alegrias e amizades.

1

CADA TEMPO COM

SEU CONDE DRÁCULA

 

No imaginário dos tempos,

Diante dos contratempos,

O fascínio pelos vampiros,

Provoca arfadas e suspiros.

 

Vetusta condição humana,

Do medo de morto irmana,

Ante sugadores de sangue,

Em pavoroso bumerangue.

 

Raiz do vampiro moderno,

Evoca coração sempiterno,

Com muito sangue e morte,

E do transcendente aporte.

 

A cristalização dos desejos,

De obsessões e remelejos,

Sempre encontra um vilão,

Com um grotesco aguilhão.

 

O perigoso, tirano e brutal,

Ameaça sob forma fulcral,

O bem-estar conquistado,

E a hegemonia do Estado.

 

Na alteridade detestada,

Ativa-se defesa devotada,

Contra a ação estrangeira,

Que ameaça paz fagueira.

 

Sem um sinal de simpatia,

Em sua diabólica ousadia,

Revela-se intruso inimigo,

E de todos, arqui-inimigo.

 

Tanto no medo comunista,

Quanto ação expansionista,

É o imperialismo satânico,

Que causa evidente pânico.

 

É o carisma incontestável,

De mandante não amável,

Que escolhe o que agrada,

E não se importa com nada.

 

Com ar perverso e sedutor,

De herói rigoroso e indutor,

Lida com tática persistente,

Insensível e todo renitente.

 

Ocupa um vasto imaginário,

Pelo procrastinar temerário,

Que representa na maldade,

O que mata ordeira lealdade.

 

É a máscara tão assustadora,

Do avesso da ação redentora,

Sonhada pela ação da política,

E da religião de moral acrítica.

 

Representa a nossa condição,

Do que desejamos da direção,

E do que deveríamos desejar,

Ante as conquistas a ensejar.

 

Reflete nosso medo e terror,

Ante o empedernido horror,

Que ameaça as conquistas,

Pela submissão aos lobistas.

 

Se a China configura ameaça,

A poder dominador que crassa,

Leva o rótulo de ação vampira,

Pelo sangue de quem já delira.

2

 A DEMORA

 

Já não se suporta o dia e a hora,

Se um anseio produzido demora,

Mais que o ritmo da informação,

Pois esperar produz a apreensão.

 

Antiga noção da espera fecunda,

Desencadeia satisfação profunda,

Na certeza que no humus da terra,

Vitaliza o que a semente encerra.

 

Tantas esperas se tornam valiosas,

Muito mais que pedras preciosas,

Quando uma vida se complexifica,

E confirma o melhor que significa.

 

Uma espera que aguça a acolhida,

Acelera preparação enternecida,

Para fruir a riqueza tão desejada,

Com a presença muito almejada.

 

Esta espera dinâmica e prazerosa,

Põe a sensibilidade em polvorosa,

Para ajustar bom clima acolhedor,

A quem vem com seu rico pendor.

 

A bondade da presença solidária,

Recria de maneira extraordinária,

A certeza de que a rica presença,

Renova e inova toda boa crença.

 

A antevisão de futuro mais feliz,

Desperta premonição que prediz,

Que bem querer na vida humana,

Alarga a razão de ser que irmana.

 

3

 A ETERNA VÍTIMA

 

Foco da eterna vítima

Sonhada e desejada,

Cada dia, mais visada,

A divina paz anelada,

Fica sempre relegada.

 

Briga-se para obtê-la,

E a luta para contê-la,

Trucida todos os dias,

Nas formas sombrias.

 

Os bodes expiatórios,

De vastos repertórios,

Rotulados e execrados,

Ornam ritos sagrados.

 

Mimetismo de ordem,

Distante da desordem,

Elimina para reiniciar,

Plena paz a proliferar.

 

Na escolha da vítima,

A morte feita legítima,

Justifica novo começo,

Sob a paz sem tropeço.

 

Muito unido na defesa,

Todos apoiam a alteza,

Que esvazia vasto ódio,

Deixado com o episódio.

 

Faz-se então grande festa,

Sobre sangue sem aresta,

Que escorre em não ditos,

Atribuídos a atos malditos.

 

Da violenta morte da paz,

Quer-se redenção que faz,

Uma mimese para guerra,

Que reinaugure outra era.

 

4

 ABANDONO

 

No endeusamento da ciência,

O valor da alta competência,

Pelo mito frankensteiniano,

Gera o legado social insano.

 

Quer-se o perfeito à imagem,

De semelhança e roupagem,

Dos científicos aventureiros,

Que não gestam herdeiros.

 

Relegam seus filhos gestados,

Ao abandono dos degradados,

Pois o que criaram na ciência,

Afigura-se filho de demência.

 

Abandonado na própria sorte,

Sem empático olhar de aporte,

Não aprendeu a ser cuidadoso,

Nem sujeito sensível e bondoso.

 

Relegado na condição indefesa,

A criatura cresceu sem inteireza,

Porque abandonada pelo criador,

Não adquiriu humano pundonor.

 

Sem o valor de si e da auto-estima,

Encontrou na solidão a subestima,

Da vida toda fracassada e trágica,

Monstrenga e na fantasia mágica.

 

O orgulho da conquista científica,

Que abandona sua cria magnífica,

Gera monstros que ficam isolados,

Anti-sociais com perigosos legados.

 

A anomalia atenta contra o criador,

Do deus positivista e conquistador,

Ávido por domínio, poder e saber,

Mas, sem a ação de se enternecer.

 

Nesta tragicidade do nosso tempo,

Com este inesperado contratempo,

Todo ódio da criatura pelo criador,

Perpetra-se em desumano torpor.

 

5

AÇÃO DA CLOROQUINA

 

Anelada contra a pandemia,

Revela-se com forte anemia,

Mas recria cor de esperança,

Eficiente para outra andança.

 

Refutada a eficácia antiviral,

E sua função antirretroviral,

Tornou-se ícone de anseios,

Para uns políticos aperreios.

 

Indicada para a opção direita,

Que a linha esquerda enjeita,

Sua fase de experimentação,

Poderá enfim firmar sua ação.

 

A eficácia na política esquerda,

Submetendo-a a rigorosa perda,

Lhe daria, enfim, excelsa glória,

De inequívoca e rotunda vitória.

 

Agiria no limiar do bem e do mal,

Para cuidar aliados contra o rival,

O inimigo ferrenho da submissão,

Fautor de mazelas contra a nação.

 

Dispararia bem mais que as Bolsas,

Para encher muitos navios e balsas,

E assegurar o controle sobre rivais,

Enfraquecendo as suas forças vitais.

 

Permitiria, enfim, à direita ilibada,

Agir e ampliar sua ação reputada,

Para o bem-estar geral da nação,

Sem esquerdista procrastinação.

 

6

 ACEPÇÕES ESTRANHAS

 

Com tantas raças e culturas,

E suas incontáveis diabruras,

Teria Deus cometido engano,

Para deixar tanto ser insano?

 

Nas afinidades interesseiras,

Veiculam-se pelas maneiras,

Sob as formas tão sensatas,

As bem ajustadas bravatas.

 

No simbolismo das palavras,

Com as bajulações macabras,

Transparece metalinguagem,

Que revela a malandragem.

 

O não dito é o que mais fala,

E com a rapidez se propala,

Para difundir a falsa notícia,

Que revela uma fina malícia.

 

Nos circunlóquios do olhar,

Percebe-se algo a antolhar,

Para que não se constate,

A veiculação do disparate.

 

Saber que somos diferentes,

Possibilita deixar contentes,

Todos quantos na empatia,

Falam mais que a simpatia.

 

Revelam mundos possíveis,

E intuições novas incríveis,

Para sonhar com bondade,

Que ajuste a humanidade.

 

7

 ACORDAR COM A AURORA

 

É contagiante o cantar da passarada,

Que nas madrugadas está acordada,

Para produzir uma orquestra sonora,

A partir da magnífica riqueza canora.

 

A beleza das cantarias multiformes,

Remete a tantas intuições informes,

Que precisam ser bem organizadas,

Para animar motivações desandadas.

 

O entorno contagiante do ambiente,

Repassa e insinua um clima contente,

Que ajuda a tarefa de organizar o dia,

Com a variada e exuberante melodia.

 

Acordar-se com vibrante motivação,

Enleva bons sentimentos do coração,

Para que ele fale mais do que o grito,

A revelar mágoas advindas de atrito.

 

Com a aurora difunde-se uma alegria,

Que contorna com moderada euforia,

Entusiasmos balofos e sem firmeza,

Para povoar a vida na boa inteireza.

 

A antevisão de agir com a liberdade,

Que me torna responsável na idade,

Alarga a fruição de bons sentimentos,

Para brincar com os reais desalentos.

 

No embalo do canto que tanto inebria,

E na atividade da memória que recria,

Produz-se resistente e vital capacidade

Que impede efeito nocivo da maldade.

 

8

 AÇÕES NOCTÍVAGAS

 

Dos tempos imemoriais de medos noturnos,

Interpelados por riscos e processos soturnos,

Nossos ancestrais diminuíram efetivos riscos,

Valendo-se do controle do fogo nos apriscos.

 

As tramas programadas para supinos saques,

E o fator de surpresa para desferir os ataques,

Roubaram a tranquilidade do sono restaurador,

E deixaram legados de morte e de violenta dor.

 

A vida urbana moderna ilumina a cotidiana lida,

E estende os dias pelas noites da secreta guarida,

Mas nelas apaga os lampiões dos lugares ermos,

Para que ali se extravasem psiquismos enfermos.

 

Enquanto muitos dormem numa pequena morte,

Outros tramam golpes para sua derradeira sorte,

E mais do que corujas noctívagas, caçam vorazes,

Corpos, cópulas, acertos e pedidos dos sequazes.

 

Os mais perigosos são dos das noitadas festivas,

Que nas ambições imensuráveis e intempestivas,

Burilam leis para privilegiar suas traiçoeiras greis,

E garantir seus privilégios assegurados pelas leis.

 

Agem na calada da noite quando outros dormem,

E ainda impedem que suas vítimas se informem,

A respeito da perfidiosa trama que imputaram,

E daqueles que na escuridão escorropicharam.

 

9

 AMIGOS OPRESSORES

 

Floresce o número dos amigos,

Que apelam a tempos antigos,

E querem manifestar lealdade,

Com a enriquecedora bondade.

 

O seu intuito aparece evidente,

Na bajulação nada convincente,

Em favor de vantagens pessoais,

Para falar mal de supostos rivais.

 

Bem distante da prestimosidade,

Transparece a vasta animosidade,

Para modificar a opinião do amigo,

Com o moralismo cretino e antigo.

 

Como os vigias sensíveis e atentos,

Querem configurar fartos alentos,

Mas, traem sua própria bondade,

Através da escancarada falsidade.

 

Se apenas revelassem os desejos,

Livres dos moralizantes lampejos,

Seriam muito menos opressores,

Do que seus efetivos precursores.

 

Larga difamação de concorrentes,

É o atestado de maus precedentes,

Que coage na pressão de amizade,

Pelo que só aumenta a inimizade.

 

Uma opressão de supostos amigos,

Revela a tática de conluios antigos,

Da mais perversa relação humana,

Que nada melhora e nada irmana.

 

10

 ANJINHOS SEM ASAS

 

Vejo tantas expressões faciais,

Com divinos traços angelicais,

Irradiando mundos indizíveis,

Sob traços humanos incríveis.

 

Simplesmente encantadoras,

Sem as palavras enganadoras,

Indicam um rumo comovente,

Através do coração contente.

 

Irradiando uma riqueza vital,

Como pontos de luz celestial

Mudam com humor e leveza,

Tanto sentimento de tristeza.

 

Como são anjinhos perfeitos,

E com tão pequenos defeitos,

Porque estas asas angelicais,

Entortariam colunas dorsais?

 

O imagético de seres celestes,

Que nega traços incontestes,

Teima naquela velha raiz persa,

Que a boa angelologia dispersa.

 

Querem anjos de outro mundo,

Para enfeitar este tão iracundo,

E esvaziar o divino tão humano,

Explicitado neste mundo insano.

 

Com menos enfeites românticos,

Poderiam sobressair os cânticos,

Desta espontânea comunicação,

Dos anjos da genuína interação.

 

Apontam os mundos possíveis,

De mensagens bem inteligíveis,

Sobre o êxito de possibilidades,

Que eclodem sobre fatalidades.

 

11

 ARMA DE BRINQUEDO E GUERRA

 

Na pervertida forma de brincar,

Uma criança é induzida a sacar,

De arma para matar e destruir,

Tudo quanto o desejo obstruir.

 

Sabe armar-se para combater,

E apropriar-se do que quer ter,

E assim como aprende a negar,

Consegue justificar e enganar.

 

Na motivação da luta e defesa,

Amplia a couraça de inteireza,

Para dissuadir sua autoridade,

E justificar sua arbitrariedade.

 

Faz da agressão ao competir,

O meio central para persuadir,

E justifica sua posse almejada,

Na procrastinação requintada.

 

A arma básica da apropriação,

Requer controle e astuta ação,

Ante a conduta alheia inimiga,

Passível de atenuar sua fadiga.

 

Assim vive a guerra como vital,

E faz de tudo uma luta frontal,

Até do argumento da negação,

Para justificar sua apropriação.

 

12

 ARRUFOS BANAIS

 

 

Mesmo com os melhores sentimentos,

Não se evitam os descontentamentos,

E muitos arrufos com pessoas amigas,

Por minúsculas e supérfluas intrigas.

 

Longe de saber arrulhar como pombas,

E de não reagir com pesadas pitombas,

Temos pela frente dura aprendizagem,

Para revidar com serena camaradagem.

 

Enquanto aves nos arrulhos de atração,

Exprimem a ternura da sua murmuração,

Nós pouco arrulhamos sinais de estima,

E reagimos bem pouco a algo que anima.

 

O bombardeio de contínuas informações,

Deixa arvoadas tantas obsessivas paixões,

E aturdidas todas as possíveis iniciativas,

Para reatância rápida ante as invectivas.

 

Nos arrufos ternos para o entendimento,

Sempre se abre novo e vigoroso intento,

Capaz de integrar desencontros doídos,

E os sentimentos em ardentes pruridos.

 

Como as nuvens fugazes e passageiras,

O advento de sensações mais fagueiras,

Permite impregnar a vida com ternura,

Para a convivência com menos agrura.

13

 ATÁVICA FRAQUEZA HUMANA

 

Questões aparentes e superadas,

Renascem de entranhas passadas,

Muito além da briga esquerdista,

Ou da insinuante ação direitista.

 

A emergência da convulsão social,

Ameaça as políticas da lida oficial,

Com muitas polarizações fascistas,

E rompantes de apelações nazistas.

 

Na ingovernabilidade institucional,

Caem os patamares do referencial,

Que forneciam segura estabilidade,

Mas que preconizam instabilidade.

 

Oficiais meios de salvação previsível,

Já perderam seu apanágio indizível,

E deixam a esquerda como a direita,

Sem um projeto ideal que se ajeita.

 

Na amarga crise da governabilidade,

As polarizações para nova sociedade,

Apontam efetivos planos genocidas,

E pífios gestos de ações enternecidas.

 

Crescem cada dia mais os vulneráveis,

Que forçados a condições degradáveis,

Trabalham numa abjeta informalidade,

Pela sobrevivência de frágil qualidade.

 

No velho arcabouço do estado-nação,

Revela-se cada dia mais a indignação,

De que não considera a desigualdade,

Como a maior ameaça à humanidade.

 

14

 BANQUETES EGOLÁTRICOS

 

A triste sina de miseráveis,

Engendra-se em festanças,

Das opulências execráveis,

Que alargam as lambanças.

 

As regras que marginalizam,

Propensas a tantos espertos,

Mas que a tantos minimizam,

Propagam humanos desertos.

 

Nos sofrimentos mais cruéis,

Deixados aos tantos excluídos,

Definham os elevados vergéis,

Com a dignidade dos vencidos.

 

Nos muros dos preconceitos,

Protegem-se os privilegiados,

Sob os devassos desrespeitos,

Como os seletos abençoados.

 

Com os tão raros reintegrados,

Diante dos atos compadecidos,

Morrem com anseios devotados,

Os valiosos sonhos enternecidos.

 

Integrar os tantos marginalizados,

Requer uma compaixão operante,

Diante dos fatos tão disparatados,

Sob esta crassa elitização diletante.

15

BRILHO DE UMA ESTRELA

 

 

Apesar das estrelas a brilhar no céu,

Os antigos profetas evitavam o léu,

Queriam as cidades a irradiar paz,

Do bem viver que a todos compraz.

 

Na ânsia de um bom entendimento,

Estava latente um esperado alento,

Do fim das guerras étnicas e raciais,

Para fruírem de direitos mais iguais.

 

O ardente sonho demorou a chegar,

Para o respeito humano prosperar,

Mas, quando, veio a se manifestar,

Encontrou os renitentes a protestar.

 

Esperavam um redentor da nobreza,

Com ar de pompa e muita grandeza,

De objetivação rica e força guerreira,

Para reinar sob uma paz derradeira.

 


As expectativas foram bem frustradas,

Para ambições de poder desmesuradas,

De grande centro religioso hegemônico,

Com injunções de um poder anacrônico.

 

Enquanto isso, andarilhos estrangeiros,

Souberam captar os novos paradeiros,

Da estrela que brilhou em nova direção,

Para uma humanidade de bom coração.

 

16

 CALAMIDADE E FÉ

 

Ao lado dos medos que se ampliam,

Enquanto riscos diários se irradiam,

Também se alarga a magia religiosa,

Com a pretensão de ação prodigiosa.

 

Fé cultivada para pequenos tateios,

Neste tempo dos intensos anseios,

Passa a ser substituída pelo apelo,

Bem distante do religioso desvelo.

 

Na larga proporção da calamidade,

Surge ostensiva e farta saciedade,

De desfile com símbolos religiosos,

Para exaltação de aparatos briosos.

 

Numa disputa acirrada de audiência,

Com imagético de cordial aderência,

Mediadores religiosos focam espaço,

Para enaltecerem seu próprio traço.

 

Sob o intento de ser bem inusitado,

Com vistas a desfrutar o maior legado,

Alguns se tornam ridículos na ousadia,

E aborrecem na fala que nada irradia.

 

Se o cultivo da fé desperta a firmeza,

Para lidar no momento de incerteza,

Os apelos mágicos por popularidade,

Tendem para a mórbida insanidade.

 

 

17

 CANÇÕES E FALAS MORALIZANTES

 

Enquanto o medo da virose,

Ameaça mais que a cirrose,

A defesa contra o contágio,

Revela o ambíguo apanágio:

 

Proteger os bens ou salvar-se,

Apelar à sorte ou resignar-se.

Um anelo vigoroso pela vida,

Acalanta uma fé enternecida.

 

No suporte da fé para o além,

Com um amparo que faz bem,

Espero das canções e das falas,

Mais que as moralizações ralas.

 

Queria ouvir um canto religioso,

Sem ordens do estilo fastigioso,

Com verbos na terceira pessoa,

E no “faça” o termo que ressoa.

 

Que na experiência elaborada,

Eu defronte porta escancarada,

Para efetuar boa imagem divina,

Não vinda de insinuação cretina.

 

Que a imagem do Deus bondoso,

Alargue em mim o maravilhoso,

De um Deus além das imagens,

O velho e duro nas espionagens.

 

Longe de condenação e inferno,

Espero um compassivo e terno,

Que dá razão aos dias de graça,

E aponta para além da desgraça.

 

A novidade de genuínos valores,

Possa alargar humanos pendores,

Para a reelaboração das afeições,

Que ultrapassam sofridas feições.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

18

CANTIGA NOSTÁLGICA

 

Na viola das cordas frouxas,

Ladeada com tantas trouxas,

Os sons lentos e lamuriosos,

 Repercutem pouco graciosos.

 

Hinos de uma espera mágica,

Para mudar uma vida trágica,

Do Espírito tão eficaz na ação,

Sustentam passiva resignação.

 

As cantilenas tristes e repetidas,

Parecem reforçar boas medidas,

Para captar das alturas celestes,

Para ações eficazes e incontestes.

 

Pede-se muito ao Espírito Santo,

Para livrar a vida do desencanto,

E canta-se insistente aclamação,

Sem um caminho de libertação.

 

Já não ecoa um estado da alma,

A desejar uma força que acalma,

Para eficaz lida com problemas,

E conquistar outros emblemas.

 

Se mantras ecoam nas cantigas,

Para acalantar imagens antigas,

Talvez falte o olhar do sentido,

Para superar o tempo aturdido.

 

 

19

CAVALO DA FANTASIA

 

Coisa que eu tanto queria:

Ter um cabo de vassoura,

Como o cavalo da alegria,

E com a força duradoura.

 

Andar por belos caminhos,

De leveza e luz fantasiosa,

Sem obstáculos daninhos,

E sem imposição imperiosa.

 

Marchar, trotear e correr,

No vigoroso afã do sonho,

Do cabo roliço a percorrer,

Caminho nada enfadonho.

 

Da bela missão exuberante,

De galopar em mundo real,

A fantasia nada extenuante,

Criava um belo referencial.

 

O canto vindo da empolgação,

Captava a natureza vicejante,

E rica sintonia de divina ação,

Ao destro cavaleiro viajante.

 

 

Feliz, laçava valentes animais,

E amestrava seu cavalo veloz,

A energetizar as forças vitais,

Para novo galope nada atroz.

 

 

20

CLOROQUINA E SUA SINA

 

Sozinha ou bem acompanhada,

Encontra-se toda emaranhada,

Na política polêmica e acirrada,

Da dura rivalidade emperrada.

 

Velha conhecida da terapêutica,

Sem uma inquietação maiêutica,

Foi usada para o combate eficaz,

Do lúpus e reumatismo pertinaz.

 

Também consagrada no combate,

Da malária e viroses de embate,

Saltou para repercussão mundial,

Diante do COVID-19, tão mortal.

 

Já testada diante do SARSCovide1,

Não demonstrou resultado algum,

Mas, no desespero da pandemia,

Passou a uma grande polissemia.

 

Sem as comprovações almejadas,

Revelou nas disfunções variadas,

Que diminui os glóbulos brancos,

E deixa fígado e coração mancos.

 

Apesar disso, os profetas falazes,

Com argumentos bem loquazes,

Sustentam contra dados médicos,

Argumentos categóricos e sádicos.

 

Qual seria o sólido fundamento,

Para abjudicar o conhecimento,

Da ampla e endeusada ciência,

O escudo clássico da eficiência?

 

21

 COMPETIÇÃO E BOA CONVIVÊNCIA

 

Quando a garra pela conquista,

Ocupa o centro sensacionalista,

Do supremo ideal de felicidade,

Ativa-se humana agressividade.

 

Vítima do impulso agressivo,

O psiquismo humano reativo,

Ajuda a lidar com frustrações,

Mas aumenta as competições.

 

Como energia dinâmica vital,

A garra de um efeito colossal,

Engole toda bondade e amor,

Para ampliar um vasto terror.

 

Sem grato desfrute amoroso,

O espaço do coração bondoso,

Ocupado pelo alvo possessivo,

Cria um mundo todo agressivo.

 

Os muitos riscos de ser objeto,

Produzem desencontro abjeto,

De violência em níveis variados,

Sem suprir o valor dos agrados.

 

Quando frustrados e agredidos,

Formam os bandos destemidos,

Ou quadrilhas cruéis e odiosas,

Matam com táticas horrorosas.

 

 

22

 CONTÁGIO PSÍQUICO DO PÂNICO

 

Arfamos na expectativa,

Por uma vacina lenitiva,

De eficiente terapêutica,

Sem irritante maiêutica.

 

O ator da nova pandemia,

Remete a antiga endemia,

Que já ceifou tantas vidas,

De criaturas tão queridas.

 

A memória acorda fatos,

Adormecidos sob relatos,

E povoa vasto imaginário,

Com o símbolo ordinário:

 

Largos medos do sintoma,

Indicam categórico axioma,

De variados outros medos,

Reprimidos como segredos.

 

A ação do temido contágio,

Produz estranho apanágio,

Que a normalidade da vida,

Não vê no cotidiano da lida:

 

Somos seres tão vulneráveis,

Que os atavismos herdáveis,

Perderam a espiritualidade,

Para resistir na calamidade.

 

As fracas razões para existir,

Diariamente ficam a insistir,

Na esconjuração da morte,

Que não afasta fatal aporte.

 

Sem resistências espirituais,

Os fluxos de sistemas virais,

Mesmo sob medicina eficaz,

Vencem o desejo perspicaz.

 

 A vitória sobre uma virose,

Não nos isenta da psicose,

Das reais ameaças bélicas,

E fanatizações psicodélicas.

 

23

 CORONA

 

Quando o bichinho tão invisível,

Centraliza medos ao desprezível,

Percebe-se nele a potência sutil,

Mais forte que prepotência viril.

 

O vasto potencial de extermínio,

Alarga-se e aumenta o domínio,

Sobre a cega ambição capitalista,

E a esfalfa na sua visionária pista.

 

No grande poder das metrópoles,

Revelam-se eiras das necrópoles,

Fonde  muitos humanos exalam,

Odores fétidos que se propalam.

 

Fenecida a prepotência arrogante,

De tanto cego e abjeto mandante,

Ressurge a ação humilde e cordial,

Compassiva e solidária, sem igual.

 

No desvelo pela salvação de vidas,

Derrubam-se as guerras fratricidas,

E o arsenal da morte de armas letais,

Revela os humanos desvarios vitais.

 

O esmilingüido Corona fala tão forte,

Que pomposo e tecnológico aporte,

Necessita revisar as procrastinações,

Que tanto mataram entre as nações.

 

No suplício do sufoco da falta de ar,

 Até insensíveis verdugos de matar,

Anelam e morrem sem o sustento,

Da espoliação que lhes deu alento.

 

No isolamento pela sobrevivência,

Clama e ecoa uma nova iminência:

O lado humano, cordial e solidário,

Destaca-se melhor que o salafrário.

 

24

 CORRUPTICIDA

 

Ante qualquer virose infecciosa,

Investe-se em pesquisa rigorosa,

Para descobrir antídotos eficazes,

Que eliminem efeitos mordazes.

 

Bom seria encontrar bactericida,

Ou um fulminante corrupticida,

Para imunizar lidas mandantes,

Dos indevidos roubos gritantes.

 

O corrupticida de efeito colateral,

Teria que infestar em tempo real,

Todo larápio maldoso e poderoso,

Para jamais sentir qualquer gozo.

 

Assim o temor de graves sequelas,

Motivaria os mandantes de trelas,

A exercer sua função como serviço,

Sem qualquer soldo e sem enguiço.

 

Um resultado do bom corrupticida,

Permitiria alastrar lida enternecida,

Para eliminar estratificações sociais,

Que ferem os direitos fundamentais.

 

Outro efeito salutar do corrupticida,

Permitiria uma organização da vida,

Bem mais justa e menos denegrida,

Do que uma governabilidade falida.

 

25

 CORTEJOS DE ALEGRIA

 

 

Razões muito diversificadas,

Motivam festas tão variadas,

Para extravasar exuberância,

Que se irradia com elegância.

 

A partilha de razões festivas,

Alarga as memórias furtivas,

Que enlevaram a existência,

E ergueram sua precedência.

 

Boas recordações do passado,

Ativam uma força de legado,

Que clareiam as esperanças,

De viver similares bonanças.

 

Assim uma alegria presente,

Amplia na emoção contente,

A rica antecipação do tempo,

Para superar o contratempo.

 

A partilha dos participantes,

Eleva as razões extasiantes,

Que permitem antecipação,

De bom tônus para a ação.

 

No sentimento amparado,

Do sentir-se bem agregado,

Renova-se a razão da vida,

Que enche de prazer a lida.

 

26

CUIDADO SOLÍCITO

 

Quando os sinais de morte,

Revelam a sua cínica sorte,

A reação do clima alterado,

Dá aporte a ar envenenado.

 

A economia cega por lucro,

De olho fito no sobrelucro,

Gera esta enorme pobreza,

E migracionismo de tristeza.

 

Embora sinais de caridade,

Feitos com solidariedade,

Revelem exitoso cuidado,

Sobra um mundo olvidado.

 

Lacaios líderes escolhidos,

Indiferentes aos preteridos,

Esnobam a insensibilidade,

Ante a relegada sociedade.

 

Conluios de líderes cristãos,

Trocam os pés pelas mãos,

E se enrodilham na proeza,

De furtar com fina destreza.

 

Manipulam os sentimentos,

E crenças para detrimentos,

Da real cordialidade humana,

Com ódio e tensão desumana.

 

Sem cuidadoso olhar solícito,

O afrontoso descaso explícito,

Da degeneração da natureza,

Denigre sua magnífica beleza.

 

Ademais delegar urgente zelo,

Aos interesseiros sem desvelo,

Significa trair sustentabilidade,

E acelerar a morte da lealdade.

 

27

 DECLARAÇÃO DE DIGNIDADE

 

Na elevação da mãe do Senhor,

A ser recebida pelo seu penhor,

No apanágio da bondade divina,

Aponta-se uma rota peregrina.

 

A expectativa de uma elevação,

Recria nossa humana condição,

Que doze estrelas do passado,

Enalteçam o nosso belo legado.

 

A vida de auto-transcendência,

Sem sucumbir numa sofrência,

Aponta-nos o desejo profundo,

De um mundo menos iracundo.

 

Por isso a homenagem a Maria,

Prefigura o anelo que se irradia:

Que nosso encontro derradeiro,

Envolva-nos ao Deus verdadeiro.

 

Nesta esperança tão assuntada,

Irradia-se na parusia encantada,

Que em Maria está prefigurada,

E que, por nós, é tão aguardada.

 

O caminho humilde encantador,

Na generatividade do salvador,

Interpela-nos por onde o amor,

Eleva ao esplêndido pundonor.

 

As obras da pedagogia de Deus,

Deixaram ao mundo dos “eus”,

Um itinerário de ação serviçal,

Que eleva à assunção colossal.

 

28

 DEUS DAS COISAS E LOISAS

 

Como deus cananeu adorado,

Em majestoso touro dourado,

Em reino de prazer e vaidade,

Cultua-se o corpo à saciedade.

 

O poder superior da divindade,

Aponta para toda a sociedade,

Que altar do capital absorvido,

É auge do herói bem-sucedido.

 

Sob a prosperidade do dinheiro,

Todo negócio ilícito aventureiro,

Na graça do oligopólio da mídia,

Constitui a abençoada perfídia.

 

Profetas disputam e negociam,

Com dinheiro que reverenciam,

A felicidade plena do consumo,

E o entretenimento sem rumo.

 

O imagético do sagrado superior,

Não requer a qualidade interior,

Mas a astúcia para bom negócio,

Que permita máximo lazer e ócio.

 

Indiferença atinente à vida alheia,

Oferece um segredo de divina teia:

Fazer sonhar com incrível consumo,

E levar todos no idolátrico aprumo.

 

A santidade máxima do automóvel,

Se alarga no contínuo sonho móvel,

De um carro novo mais sofisticado,

Para graduação no âmbito sagrado.

 

Por isso o planeta morre entulhado,

De carro novo e velho por todo lado,

Mas, que prenuncia um fim fatídico,

Da ilusão infeliz de sonho inverídico.

 

Restam loisas sobre vidas alienadas,

Que frias pedras deixam soterradas,

E que o deus adorado e tão dourado,

Deixou a sina da morte sem legado.

 

29

 DEUS DAS PRATELEIRAS

 

Minimizado na sua grandeza criadora,

E refém fornecedor de loja promissora,

Cabe-lhe propiciar produtos eficientes,

Que fiéis pedem como estupefacientes.

 

Devotos e evangelizados para consumir,

Tudo quanto se possa querer presumir,

Os piedosos esperam o poder agregado,

Dum imagético colorido que é desejado.

 

Precisa ser lindo, simpático e hiper-real,

Para proporcionar o efeito sensacional,

De sedar causticantes mágoas subjetivas,

A fim de impressionar e agradar convivas.

 

O Deus balconista nada necessita dizer,

Basta que obedeça, e, rápido no afazer,

Proporcione sem delongas o solicitado,

Para ensejar ao pedinte um rico agrado.

 

Ele não precisa querer pedir conversão,

Já que o pedinte espera nova concessão:

A de fruir tudo quanto o desejo aponta,

 Sem cobrança de prestar alguma conta.

 

Na psicopatia coletiva de fitar ambições,

Nada importam as passadas recordações,

Que ativam a consciência da auto-crítica,

E indicam inovações de projeção política.

 

Tampouco importa reconhecer omissões,

Já que a oferta do sagrado de promissões,

Perdoa, no lenitivo prazeroso de degustar,

Com fino sabor da sensação de bem-estar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

30 – DISFORIA

                                                                                       

O assunto pandemia,

Produz uma endemia,

Que alarga ansiedade,

E tristeza à saciedade.

 

O desgosto toma gosto,

E algum desejo oposto,

Ativa largo mau-humor,

E antecipa ar de rumor.

 

Sob clima de amargura,

Tudo acalanta diabrura,

De ação contra planos,

A atentar desenganos.

 

O que poderia ser bom,

Como espontâneo dom,

Aparece como atentado,

Que rouba bom legado.

 

A futurição fica sombria,

Porque em nada inebria,

Motivação que encante,

Para aposta significante.

 

No império da paralisia,

Nenhum palpite extasia,

E leva ao agir dinâmico,

Com um ar panorâmico.

 

Sobra sentimento triste,

Que a toda hora insiste,

Em motivar pessimismo,

No melancólico cinismo.

 

31

 DISPONIBILIDADE ENCANTADORA

 

Na manifesta disponibilidade,

Para bons gestos à saciedade,

Somos enlevados nos sonhos,

De tempos felizes e risonhos.

 

Impressiona a generosidade,

Nas promessas à sociedade,

Para uma lídima governança,

Que vai instaurar a bonança.

 

Promessas bem fantasiosas,

Com as realidades graciosas,

Do belo imaginário coletivo,

Oferecem pílulas de lenitivo.

 

Na decisiva ocasião de agir,

Tudo é protelado ao porvir,

Com as desculpas aleatórias,

Das heranças persecutórias.

 

As evasivas argumentações,

Explicam as procrastinações,

Deixadas pelos antecessores,

Relapsos nos seus pendores.

 

Vetustas e singelas desculpas,

Desviam as causas e as culpas,

Sobre aquela herança maldita,

Logradora da bondade bendita.

 

As léguas da meta assegurada,

Distanciadas da ação recatada,

Permitem à egolatria do cargo,

Manipular tudo sem embargo.

 

32

DISPUTA POR DEUSES

 

O avanço do fundamentalismo,

Revela o inusitado mecanismo,

De governo político e religioso,

Com apelo de plano audacioso.

 

Importa práxis de subordinação,

Do neoliberalismo de obsessão,

Que visa lucro com crescimento,

Sob um religioso arrefecimento.

 

Pautado em duro autoritarismo,

Faz-se necropolítica do cinismo,

Vociferador de ódio ao diferente,

Em nome do excelso onipotente.

 

Apegados ao antigo testamento,

Suporte eficaz para o argumento,

Insistem num imaginário de luta,

Que envolve a Deus na disputa.

 

Deus se curva ante o fiel vigoroso,

Que não sossega no fito ardoroso,

De alcançar tudo o quanto deseja,

Para abarrotar-se pelo que almeja.

 

Uniformização do ódio convergente,

Contra qualquer postura divergente,

Nega o basilar princípio cristológico,

Dum ecumênico respeito dialógico.

 

Sob a teologia do poder autoritário,

Encampa-se e, com modo arbitrário,

Um controle sob a tutela do Divino,

Para manter súditos no agir cretino.

 

Não percebem as diferenças sociais,

Nem os injustos parâmetros legais,

Porque seu cego foco conquistador,

Não questiona seu agir molestador.

 

33

 ENFARAMENTO

 

Aborrecente e entediante,

É a insistência enfadante,

Em torno da Previdência,

Já na beira da indecência.

 

Sob a repetida afirmação,

De ser bom para a nação,

Esconde-se um privilégio,

Do astuto poder egrégio.

 

Que venha da população,

A paga da procrastinação,

Que rouba com maldade,

O bem de toda sociedade.

 

Enquanto amarga condição,

De enorme parte da nação,

É ignorada em seus direitos,

Reinantes ocultam defeitos.

 

Neste enfaro tão saturante,

E de natureza repugnante,

A contraditória informação,

Enfastia qualquer boa ação.

 

Da legislação para os fracos,

E das regalias para velhacos,

Sobra este ambiente danoso,

Sem sinais de algo grandioso.

 

34

ENFERMIDADE

 

Quando os olhos escancaram dor,

E uma substancial perda de vigor,

Move-se no sentimento a vontade,

De modificar aquela contrariedade.

 

Sem a certeza do efeito do gesto,

Condói-se o coração tão modesto,

Para apontar uma viva esperança,

No meio desta irrequieta andança.

 

Quando a morte parece espreitar,

Pelas frestas do corpo a definhar,

Pouco alento resta para insinuar,

Que saúde plena venha a vigorar.

 

Na compaixão tão desconfortável,

A ausência de uma palavra amável,

Obriga a abrir a porta da quietude,

Para a empática força de solicitude.

 

Sentir dor tão anelante de amparo,

Mesmo no definhamento preclaro,

Parece reativar a fraca consciência,

De que se pode ter mais clemência.

 

Assim o intrigante compadecimento,

Pelo menos repassa um frágil alento,

Para quem lida na oscilante vontade,

Ferida por desandada contrariedade.

 

35

ERA DOS ZAPEADORES

 

No vai-e-vem dos humanos pendores,

Fala mais alto o perfil dos zapeadores,

Que apresentam nos dedos polegares,

O controle de se vincular a outros ares.

 

Nenhuma ocupação pesada e onerosa,

Acalanta aquela expectativa prazerosa,

Pois, leva a clicar para ver outro visual,

Mais leve, atraente, gostoso e sensual.

 

Tudo precisa ser suave e interessante,

Mas, também rápido e nada maçante,

Para que o controle remoto não faça,

A substituição por algo de mais graça.

 

O dedo polegar com poder decisório,

Torna todo ato interativo provisório,

Porque já atrelado à leveza do gosto,

Desliga-o para ouvir e ver outro rosto.

 

O click do dedo polegar por novidade,

Revela muita sede e farta ansiedade,

De absorção dos desejos de consumo,

Que tanto obstinam no mesmo rumo.

 

No rumo voraz de consumir para ser feliz,

A leveza toma conta do imaginário e diz,

Que nenhuma atividade seja enfadonha,

Mesmo se causa insegurança medonha.

 

36

ESPERANÇAS ANTIGAS

 

A consciência da incapacidade,

De agir na perversa fragilidade,

Das ambíguas ações humanas,

Ultrapassa as forças e as ganas.

 

Do viés religioso do universo,

Emerge a análise do perverso,

E uma expectativa redentora,

Que ajuda na ação salvadora.

 

Na luz da fé ou do ateísmo,

Espera-se a saída do abismo,

Que separa os dominadores,

E os dominados perdedores.

 

A expectativa da divina ajuda,

Faculta recriar a alegria aguda,

De que em sintonia com Deus,

A maldade, enfim, dê o adeus!

 

Naquilo que foi experimentado,

Como o sinal de amor ilimitado,

Recria-se uma valiosa esperança,

De algo melhor que a lambança.

 

O que de Deus se espera alcançar,

São forças capazes de esmiuçar,

Novas regras de mínimo respeito,

Para nada se destruir no despeito.

 

37

ESPERANÇAS SORONGAS

 

No divinizado sistema capitalista,

Aponta-se única e certeira pista,

De felicidade vinda do consumo,

Projetado sem término de rumo.

 

A cega ambição produz rivais,

Que ambicionam espaços vitais,

E eliminam eventuais ameaças,

Para assegurar as boas graças.

 

Assim as esperanças minguadas,

E atônitas nas posturas acuadas,

Cegam-se na escuridão do medo,

E tateiam por sinistro arremedo.

 

Na ausência de boa expectativa,

A inatividade se afigura reativa,

Para não agir sem as garantias,

Da evidencia de gratas alegrias.

 

Nesta insegurança tão soronga,

A vida se desanda songamonga,

E retrocede na perfectibilidade,

Sem caminhos de credibilidade.

 

A coerência na direção religiosa,

Ainda recria perspectiva valiosa,

De uma eficaz vivência solidária,

Com melhor ligação comunitária.

 

38

ESTRANHOS MEDIADORES

 

Acima da média dos traidores,

Situam-se os ditos mediadores,

Que transformam a sua missão,

Numa degradada procrastinação.

 

Vilipêndio com coisas sagradas,

Enrola-os em condutas ilibadas,

De meras aparências exteriores,

E disputa por cargos superiores.

 

Aparência rubricista nos rituais,

Em cenários de climas angelicais,

Permite encobrir vida desonesta,

E escancarar repercussão funesta.

 

Na estranha adoração dos panos,

Enfeitados como bicos de tucanos,

Pregam discurso de agrado moral,

Como um sacro poder atemporal.

 

Marcados por vícios degradantes,

Tornam-se magníficos farsantes,

Para insinuar uma piedade santa,

Que ao público agrada e encanta.

 

Longe duma construção do Reino,

Seu modo de ação é belo treino,

Para alargar uma fala de agrados,

A simpatizar para todos os lados.

 

Nos itinerários da boa formação,

Esconderam a sua real intenção,

E na profissão da malandragem,

Encontraram favorável aragem.

 

Vivem as aparências simpáticas,

Para ocultar as ações erráticas,

E vivem numa vida principesca,

Sem horror da agrura dantesca.

 

Denigrem o nome dos honestos,

Agregados em pequenos restos,

Que agem cordatos na mediação,

Para Deus ajudar a humana ação.

 

39

 FAGULHAS DE ESPERANÇA

 

Sob o idealismo de elevados planos,

Emergiram estupefatos desenganos,

Pois, mesmo com os nobres desejos,

Vieram frutos de amargos remelejos.

 

No outro jeito de pensar a bondade,

Pode ela ver na humana fragilidade,

Um lastro de disfarçado mimetismo,

Distante do fantasiado romantismo.

 

Com tantas humilhações e desacatos,

Presentes nos gestos bons e pacatos,

Torna-se evidente que o mundo real,

É bem mais contundente que o ideal.

 

Preceito religioso pouco prestigiado,

Aponta o perdão como valor sagrado,

Para não repetir a círculo da vingança,

Porque arruína toda a boa esperança.

 

Mais fácil é integrar uma humilhação,

Do que ser o fautor de agressiva ação,

Pois, o desrespeito do ato impetrado,

Gesta um círculo vicioso desregrado.

 

Nos sinais gratuitos de boa acolhida,

Renascem forças da energia tolhida,

Que realizam na pequenez da alma,

Milagres para propiciar vida calma.

 

 

40

FALTA DE ASSUNTO

 

Quando as notícias da corrupção,

Já não indicam alguma boa opção,

Para sonhos protelados há tempo,

Sobra apenas outro contratempo.

 

O vil perpetrado na centralidade,

Confunde qualquer boa vontade,

E inocenta pela mentira repetida,

O lastro da roubalheira incontida.

 

A indignação ativa uma quietude,

Distante daquela excelsa virtude,

Porque evolve revolta reprimida,

Já sem motivo de ser exprimida.

 

A desfaçatez dos grandes ladrões,

Ignora insanos e doentios grotões,

Vitimados pela ignóbil espoliação,

Dos nobres mandantes da nação.

 

A começar pelos seus privilégios,

Esnobados como bons sortilégios,

Requerem a vasta plebe relegada,

Para bancar sua alteza esnobada.

 

Na insensibilidade ao espoliado,

Revelam o seu perverso legado,

De deixá-los morrer na míngua,

Sem um bom paladar na língua.

 

Que se alimentem dos torpores,

Que enchem o vazio com odores,

Das drogas alienantes e certeiras,

Nos recantos ignorados das eiras.

 

41

FANÁTICOS E FUNDAMENTALISTAS

 

Dois extremos de arrebatadores,

Causam os desconfortos e dores,

Advindos de linguagem violenta,

Que nem sequer diabo aguenta.

 

Na violência em nome de Deus,

E na aparência de atos fariseus,

Arrogam-se, no único caminho,

O segredo do humor alegrinho.

 

O deus do entusiasmo doente,

Os eleva ao êxtase renitente,

Que ignora a realidade alheia,

E os motiva para a dura peleia.

 

Valem os seus mandamentos,

De projetados encantamentos,

Que sequer cobram conversão,

Nem mudanças na conspiração.

 

Atos violentos de dominação,

Feitos em nome da divina ação,

Refletem agressividade interior,

Arrebatada à instância superior.

 

No apelo ao fundamento divino,

Escancara-se seu modo cretino,

Que defende o seu argumento,

E o remete ao superior intento.

 

Defendem tradição interesseira,

Para a sua reafirmação fagueira,

Que vê inimigos em todo distinto,

E combate-os com vigor e absinto.

 

Farejam diabo nas ações alheias,

Razões das suas sombrias teias,

E liberam-se para luta ferrenha,

Contra o que do diabo provenha.

 

Escondem a própria insegurança,

Projetada na alheia desconfiança,

Porque desprovidos da humildade,

Não avaliam sua própria verdade.

 

 

42

 FEIÇÃO DE ANTOJO

 

Do seu olhar enfastiado,

Borbulha ar entediado,

Em ondas aborrecidas,

De inócuas investidas.

 

Desencantos políticos,

Com os felinos críticos,

Derrubam esperanças,

E soltam as andanças.

 

O mundo da ocultação,

Com toda malversação,

Anula os bons sonhos,

E cria ares tristonhos.

 

O dito com persuasão,

Eleva-se na ebulição,

Sem atos e benefícios,

E pede mais sacrifícios.

 

Na aparência enganosa,

A larga astúcia danosa,

Atinge o elã e o sentido,

E deixa o humor ferido.

 

Sobra vasta amargura,

Com anseio de ternura,

E, sem força para ação,

Tudo cai na desolação.

 

Fastio da repugnância,

Engole toda elegância,

De oferecer-se à vista,

Para sugerir uma pista.

 

43

MILAGRINHOS DA COVID-19

                                       

Sistemático na expansão,

E afoito na repercussão,

Driblou as espionagens,

E as ricas grãnfinagens.

 

Apreciador dos pulmões,

Achou ali valiosos filões,

De comida e reprodução,

Para ampliar a sua ação.

 

Ambíguo como humanos,

Causa muitos desenganos,

E mata por domínio cruel,

O alimento do seu vergel.

 

Por outro lado, sua ação,

Travou a nossa produção,

E no “stop” da sua ordem,

Parou mórbida desordem.

 

Silenciou os prepotentes,

Calou humanos decentes,

E os inquire sobre a vida,

E os motivos da sua lida.

 

Moeu poder globalizado,

Gozou do status armado,

E calou doida economia,

Roendo sua hegemonia.

 

Fitou a ciência absoluta,

E a deixou bem reculuta,

No caminho tão incerto,

Da andança de deserto.

 

Deletou temas da mídia,

E a deixou numa acídia,

Pois, escancarou o real,

Da manipulação desleal.

 

Feriu língua prepotente,

De contumaz presidente,

Apático a mortes espúrias,

De suas cotidianas fúrias.

 

Tocou o cerne dos egoístas,

Em obsessões triunfalistas,

E os caustica com rebeldia,

Sem disfarces de galhardia.

 

Para o milagrinho ser grande,

Falta que muito se expande,

Para minar armas de guerra,

E todo diálogo que emperra.

 

Que aquiete toda ambição,

A ferir o estado da nação,

Para que sensível ao povo,

Aponte um caminho novo.

 

Para o milagrinho crescer,

A economia do enternecer,

Precisa agir pelos ignorados,

E vasta legião dos relegados.

 

O milagrinho da Mãe Terra,

Já aponta quanto a emperra,

Com o inaudito desrespeito,

Para merecer o digno preito.

 

Enfim o milagrinho já aponta,

Que nova vivência desponta,

Para a convivência solidária,

Com a cordialidade primária.

                                            

 

 

 

 

 

 

 

44

 NA ÉGIDE DA PAZ E BEM

 

Um saudoso estilo de vida,

Na organização denegrida,

Fez São Francisco de Assis,

Virar um eterno aprendiz.

 

Sob uma piedade puritana,

Intuiu a força que irmana,

No enleio da cordialidade,

De bem com fraternidade.

 

As boas relações afetivas,

Acima de súplicas efetivas,

Modificavam a gratuidade,

Tão evadida na sociedade.

 

No amor acima da justiça,

Diluía-se na vasta cobiça,

A ladrona do elã da vida,

E da prática enternecida.

 

Na síntese da paz e bem,

Integrava-se todo o além,

Para elevar na dignidade,

O que enleva a santidade.

 

Visão otimista do mundo,

Relegava o foco iracundo,

Para centralizar a alegria,

Nos contatos de cada dia.

 

No jeito simples de Jesus,

Viu ação divina que seduz,

Para o amor tão humano,

Que supera o desengano.

 

45

NEGAÇÃO SUICIDA

 

Com os sentimentos feridos,

Entes humanos são agredidos,

Pelo negacionismo fanático,

Sediado em governo apático.

 

Sob as teorias conspiratórias,

Que em nada são meritórias,

Vende-se opinião que fanatiza,

E no falso critério se minimiza.

 

Os piores são estes religiosos,

Que veiculam ideais raivosos,

Contra a aplicação da vacina,

E nobres passos da medicina.

 

No apelo à apocalíptica besta,

Sempre favorável à sua lesta,

Negam urgente ato solidário,

E enaltecem o viés partidário.

 

Distorcem linguagem bíblica,

Como procrastinação bélica,

E se arregimentam para luta,

Sob a fanatização impoluta.

 

Cegos perante os moribundos,

E teimosos em erros rotundos,

Apregoam ideias suplantadas,

Passivos às vidas desandadas.

 

O negacionismo pelas vacinas,

Manifesta noções tão cretinas,

Que beiram o limiar demente,

Sem propiciar um ato decente.

 

O sadismo pelo fracasso alheio,

Tão insensível ante o aperreio,

Explode na incoerência suicida,

Duma pífia crueldade fratricida.

 

 

 

 

 

 

 

 

46

NOME DE BATISMO

 

A condecoração do nome,

Que envolveu de renome,

A condição da existência,

Reativa a benemerência.

 

O nome que me foi dado,

Bem mais que um agrado,

Indicou a aposta de valor,

No meu humano pendor.

 

Foi o compromisso forte,

A engendrar rico aporte,

Para um aprumo na vida,

Com cordialidade na lida.

 

Longe de mágica tradição,

Ou medrosa superstição,

O rito festivo e religioso,

Moveu mundo auspicioso.

 

Fora da convenção social,

Havia um motivo especial,

A celebrar uma existência,

Para a indelével potência:

 

De abrir o céu sem magia,

Com a senha de justa via,

Para relações edificantes,

Com gestos santificantes.

 

Sem convenções sociais,

De padrinhos ovacionais,

O batismo do nome dado,

Apostou num bom legado.

 

47

O FALADO COVID-19

 

Usado mais que outros termos,

Perpetra milhões de enfermos,

Desnuda uma obsessão social,

E descortina uma crise crucial.

 

Doida economia de mercado,

Revela seu enfadonho legado:

Roubou o valor da existência,

Sem amparo e sem clemência.

 

Engoliu a união e cooperação,

Com extrativismo e poluição,

E as ambições com desatinos,

Revelam seus modos cretinos.

 

Sob isolamento não desejado,

Escancara contraste enojado,

Da opulência sobre a pobreza,

Com perda da lídima inteireza.

 

Mostra que na utopia digital,

Cego progresso linear é fatal:

Com interativo envolvimento,

Faz da vida o triste desalento.

 

Distrai bem a todo instante,

Com a novidade incessante,

E gera alteridade sem rosto,

Que faz história de desgosto.

 

Camufla conflitos evidentes,

E repete mentiras insistentes,

Para tornar-nos robôs felizes,

Que não olham seus deslizes.

 

A escravidão da vida online,

Faz com que cada ser rumine,

No “cocô” da vida sem graça,

Dureza cotidiana da mordaça.

 

Sob os operadores da história,

Que apagam nossa memória,

Guiados pelo cabresto digital,

Vivemos neste mundo capital.

 

Ele corta os abraços e os beijos,

Desvirtua festas e os gracejos,

E espolia toda dor das mortes,

E a memória dos seus aportes.

 

48

PENDURICALHOS DA FÉ

 

A ação evangelizadora,

Deveria ser promissora,

Mas refém desvirtuada,

Entrou na porta errada.

 

Atrelada a organizações,

Que visam as multidões,

Vira objeto de consumo,

De um vistoso emplumo.

 

Sob os favores da mídia,

Que lhe armou a insídia,

A evangelização encanta,

Somente como percanta.

 

A motivação do dinheiro,

É um discurso altaneiro,

Com o apelo ao aparato,

Para o encanto cordato.

 

O desejo de hegemonia,

E o avanço de sintonia,

 Gestam pífia bajulação,

De insinuante adulação.

 

Barganha pelo topo,

Revela cego escopo,

Do grupo poderoso,

Pelo alcance vistoso.

 

Ação evangelizadora,

Na meta enganadora,

Vira mercado de bens,

Que coopta os reféns.

 

Com oferta de objetos,

Apelos nada discretos,

Insinuam o fetichismo,

Do cego consumismo.

 

Jóias e muitas viagens,

Permeiam as aragens,

Do deslinde religioso,

Para a bênção e gozo.

 

A compra do sagrado,

Sob o preço facilitado,

Escanteia a Boa Nova,

E obstrui o que inova.

 

Sem urdiduras vitais,

Os religiosos visuais,

Insinuam imbróglios,

Atraentes aos olhos.

                                                

Para o reino de Deus,

Dá-se um frio adeus,

Já que penduricalhos,

São os quebra-galhos.

 

 

 

 

 

 

49

PRESUNÇÃO

 

Tão conhecida e valorizada,

Acha excelência disparada,

Em cargos governamentais,

E até em ambientes frugais.

 

Adornada pelo próprio eu,

Como se fosse o Prometeu,

Só vive bem acompanhada,

Com sua vaidade assanhada.

 

Bem afoita com o orgulho,

Cria bem agitado barulho,

Para brilhar em evidência,

E propiciar benemerência.

 

Assim anda sempre afoita,

Com um pé atrás da moita,

Para aumentar a grandeza,

E ampliar a inefável alteza.

 

Nada sente do que é alheio,

Pois vive do próprio floreio,

E amealha poder e grandeza,

Para a sua própria inteireza.

 

A vaidade fornece a argúcia,

De captar pequena minúcia,

Que possa afetar o renome,

Do seu engrandecido nome.

 

Por achar-se muito superior,

Olha com desdém o inferior,

E o relega à sua indignação,

Sem lhe dar ínfima atenção.

 

Agride, debocha e humilha,

Seguindo sagrada planilha,

De que seu ego é absoluto,

E seu reino todo impoluto.

 

Aferrada ao círculo vicioso,

Só se move no ar dengoso,

De que existe perseguição,

Para abocanhar sua função.

 

Pouco ou nada acrescenta,

À condição humana sedenta,

E ainda espolia seus anseios,

Com os ilusórios devaneios.

50

QUIETUDE DA PODEROSA

 

Longe do ópio alienante,

Da polemização distante,

O êxito do agir midiático,

Delineia mundo simpático.

 

Pelo novo ópio da evasão,

Vasta onda de persuasão,

Leva a apagar o dia-a-dia,

Da real miséria e carestia.

 

Muita fantasia atordoante,

Ocupa o lugar importante,

Da efetiva reação cultural,

E fixa a burocracia social.

 

Os bem produzidos heróis,

Iguais aos apagados faróis,

Não apontam na escuridão,

Rumo para uma navegação.

 

No doce consumo cultural,

Esconde-se rota sepulcral,

Da real situação do povo,

Manipulado de jeito novo.

 

Sob um espetáculo irreal,

A recompensação do real,

É mal-estar que prosterna,

Com a ação que consterna.

 

Sonhos rápidos e fugazes,

Prenhes de bocas vorazes,

Comem rastros sonhados,

Dos programas relegados.

 

Sem os sonhos apelativos,

Sobram problemas antigos,

De realidades consoladoras,

Sem mudanças promissoras.

 

51

ROTINAS ANÓDINAS

 

Sequer tristes e nem eufóricas,

Porém sôfregas e categóricas,

Impõem mitigação analgésica,

Para pouca reação sinestésica.

 

Noticiário pouco importante,

Trata velha rusga mandante,

E enfatiza os fatos intimistas,

Com as previsões pessimistas.

 

Os empolgantes acusadores,

Colhem revides aterradores,

E o antagonismo ideológico,

Reflete um clima patológico.

 

O ideal do próspero futuro,

Não cruza o momento duro,

Da decrepitude de projetos,

Sonhados no rol dos afetos.

 

Até as protelações paliativas,

Morrem com novas iniciativas,

Adiadas para tempos distantes,

Sem sinais e atos demandantes.

 

Mitigação do que deve ser feito,

Encontra em tudo algum defeito,

Para que seja mais bem avaliado,

E culmina sendo desconsiderado.

 

Na minguada relevância dos dias,

Cantam-se as mesmas melodias,

Que somente enaltecem amores,

Impregnados dos vis dissabores.

 

52

 TCHUTCHUCAS E PUTINHAS

 

Entre as jovens adolescentes,

Algumas meigas e atraentes,

Enchem de graça o encontro,

E inebriam mais que coentro.

 

Sabem explorar seu fascínio,

Com o mais astuto raciocínio,

E atraem sobre si os olhares,

Com ar de nobres patamares.

 

Mescla de pureza com astúcia,

Leva-as a uma refinada argúcia,

De explorar sonhos candentes,

E propiciar anelos padecentes.

 

Outras, caídas para a sedução,

Exibem-se à extrema exaustão,

Para oferecer por pouca coisa,

Seu corpo feito uma subcoisa.

 

Ocas de exuberância interior,

Explicitam o mundo inferior,

Da banalização do seu corpo,

E espaço do diabo-no-corpo.

 

Mandantes feitos tchutchuca,

Para seduzir nobres da tchuca,

Prostituem-se com aparência,

E ostentam vasta indecência.

 

Prefiro tchutchucas discretas,

Com posturas sociais corretas,

Que apontam mundos novos,

Para os já denegridos povos.

 

53

VISIBILIDADE HEGEMÔNICA

 

Tão apreciada no aparato social,

Tornou-se, na Igreja, referencial,

Para saudosismo da cristandade,

Religião burguesa de visibilidade.

 

Fez da forma litúrgica um centro,

Para reviver nostálgico epicentro,

Dum vistoso rubricismo litúrgico,

De lídimo aparato dramatúrgico.

 

Sem o “amai-vos como vos amei”,

Testamento de Jesus para a grei,

Volta-se ao cristianismo burguês,

Com exibidas etiquetas e clichês.

 

Sua fé faz associações culturais,

Das práticas religiosas ancestrais,

Sem revelar a grandeza invisível,

Daquele Deus em gesto indizível.

 

Como telescópios e astrofísicos,

A falar sobre fenômenos físicos,

Querem ostentar o Deus visível,

Em retórica fala incompreensível.

 

Sem reaproximar o culto da vida,

Fixados em imagética desmedida,

Apontam os caminhos integristas,

Para as seguranças salvacionistas.

 

Não revelam no instante presente,

O Deus invisível de modo atraente,

Pois, não amam como Cristo amou,

E, tampouco gostam do que falou.

 

Se o olhar da honra rouba o da fé,

Importam edificações e não o bofé,

Com belas mobilizações humanas,

Para ratificar aspirações doidivanas.

 

54

TEMPO DE ESPANTO

 

Toda projeção de acalanto,

Com inquietante espanto,

Revela louco eixo do mal,

De nacionalismo anormal.

 

Desengatado do seu eixo,

Manda no literal desleixo,

Resistente ao bom-senso,

E alarga inegável dissenso.

 

Sustentador das milícias,

Sabe manipular notícias,

E fanatizar os seguidores,

Para egrégios penhores.

 

Mudo a anseios do povo,

Aponta para pelo em ovo,

Insensível ao anelo básico,

Revela-se surdo e afásico.

 

Sadismo nesta pandemia,

Com a insensibilidade fria,

Extrapola larga morbidez,

Da tolerável mesquinhez.

 

Movido por cólera sizuda,

Age na autodefesa aguda,

Para justificar arrogância,

Da rigorosa intolerância.

 

Sem um rumo norteador,

Para o seu povo sofredor,

Perde-se em minudências,

Sem sinais de resiliências.

 

A ironia da argumentação,

Escancara à imensa nação,

Que escolha política infeliz,

Deixa o seu povo nada siliz.

 

PALAVRAS FINAIS

 

Pela orientação dos hábitos,

A vida produz alguns hálitos,

Que dão sabor ao cotidiano,

E inebriam o senso mediano.

 

Convém esforçada ousadia,

E captar do bom de cada dia,

Algo distinto a ser apreciado,

E valioso por ser diferenciado.

 

Nos corações autorreferentes,

Não brilham luzes diferentes,

Que possam despertar gestos,

E os procedimentos honestos.

 

Mais do que argúcia de ideias,

Servem exemplos de colmeias,

Para integrar as fobias e ódios,

E levar a vida a bons custódios.

 

 

 

 

 

 

 

 

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