Feitos de natureza instável,
Sujeitos balançam no afável,
Engolem as regras e palavras,
Em suas simuladas deslavras.
Denigrem toda convivência,
E alargam a farta indecência,
Atrás de couraças hipócritas,
Com espoliações parasíticas.
Nos mimetismos hiper-reais,
Engendram imagens virtuais,
Para apontar as alternâncias,
Sem sinalizar as constâncias.
ÍNDICE
Apresentação...
1
– Vicissitudes...
2
– Mimetismo da inocência...
3
– Fruições...
4
– Gênese da bondade...
5
– Jumentos e mísseis...
6
– Lagartas e gafanhotos...
7
– Lembranças...
8
– Lembranças valiosas...
9
– Lolamania em alta...
10
– Malficência...
11
– Mundos desencontrados...
12
– Na bazófia do poder...
13
– Na égide da “paz e bem”...
14
– Na égide de Priapo...
15
– Na gronga política...
16
– No reino da petulância...
17
– No ar da galhardia...
18
– No sururú da roubalheira...
19
– Nos requififes da vaidade...
20
– Novos mandingueiros...
21
– O marruco na pastagem...
22
– O megatério político...
23
– O mundo encantado da denegação...
34
– O poder de nomear...
25
– O poder dos direitos adquiridos...
26
– O relógio da torre ...
27
– O resgate do amor...
28
– Obediência infantilizadora...
29
– Obesos de facilidades...
30
– Ódios cultivados...
31
– Odores mefíticos...
32
– Oscilações...
33
– Ósculos e beijos...
34
– Ostracismo religioso...
35
– Otários e perdulários...
36
– Paixão pela soledade...
37
– Para além da aparência...
38
– Paradoxos...
39
– Poder do espetáculo...
40
– Poder e descarte...
41
– Provisoriedade...
42
– Quebra de fronteiras...
43
– Respeito profundo...
44
– Saracoteios da vida...
Palavras
finais...
Apresentação
Tantos fatos novos e imprevistos
Com gestos nobres e benquistos,
Mesclam-se a tantas frustrações,
Provenientes de humanas ações.
Assim, tantos sonhos altaneiros,
Acalantados com ares fagueiros,
Passam sem deixar algum acesso,
Levam todo pretendido sucesso.
Nem sempre as obras executadas,
Produzem expectativas esperadas,
Mas, tantas outras eventualidades,
Gestam a grandeza de qualidades.
Muita coisa da contingência frágil,
Denota um processo humano ágil,
Para as inovações tão importantes,
Em meio às situações periclitantes.
1
VICISSITUDES
Aparecem como enxurradas,
Agressivas, nada extenuadas,
Que levam as regras vigentes,
E perturbam pobres viventes.
Com odores de maus indícios,
Não deixam aso a interstícios,
Dos seguros acontecimentos,
Para espalhar aborrecimentos.
Levam as regras estabelecidas,
Pisoteiam aquelas esmaecidas,
Da justa e ordeira convivência,
Para impor uma vil indecência.
Com a corrupção adaptam leis,
E favorecem suas seletas greis,
Distantes da dolorosa sofrência,
Duma multidão na insolvência.
Espoliam e justificam seus atos,
Com o suporte dos novos fatos,
De ações hipócritas propaladas,
Para ocultar vantagens safadas.
Nas leis que visam a auto-defesa,
Aparentam uma lídima inteireza,
E enganam a enorme população,
Estufando-se em sua satisfação.
2
MIMETISMO DA INOCÊNCIA
Na facilidade da justificação,
Acoberta-se a malversação,
E no disfarce do agir correto,
Alega-se procedimento reto.
Na hiper-realidade mentirosa,
Oculta-se efetiva ação danosa,
E sob uma alegada inocência,
Afirma-se a reta procedência.
O vasto mimetismo dissuadido,
Revela quadro ético denegrido,
De sumiço de balizas decentes,
Do rol de vítimas descontentes.
No livre avanço da impunidade,
Infesta-se em toda a sociedade,
Uma falsa noção da reta virtude,
De enganar com boa similitude.
Na evasiva da responsabilidade,
Uma disfarçada boa idoneidade,
Encobre toda patranha indevida,
E nega toda incoerência atrevida.
A negação dos fatos consumados,
Insinua e educa por todos os lados,
Que um procedimento desonesto,
Pode ser adaptado como honesto.
3
FRUIÇÕES
É tão prazeroso fruir,
Sem precisar denegrir,
Uma beleza cultivada,
Com postura recatada.
Estar no meio da beleza,
De contagiosa inteireza,
Prospecta o sentimento,
Para silenciar o lamento.
Sob a maldade humana,
Uma nova luz promana,
Apontando a grandeza,
Da bondade de sutileza.
Emerge como flor na eira,
E desabrocha tão fagueira,
Para atrair mágoa sofrida,
E a deixa menos esmaecida.
Das amizades partilhadas,
Com furtivas gargalhadas,
Aumentam os ares do céu,
Para enterrar a dor ao léu.
Até o contágio do universo,
Enseja integrar o perverso,
Para inseri-lo num suporte,
Que firme inusitado aporte.
4
GÊNESE DA BONDADE
Saudade da infância,
Da pouca ganância;
Com gracejos fúteis,
Sobre coisas inúteis.
A maldade tacanha,
Sem esperta manha,
Quase nada ofendia,
E nem piorava o dia.
Sem astúcia e malícia,
Brinquedo era delícia,
Para poucas proezas,
De ousadas safadezas.
As fantasias fluentes,
E os gestos decentes,
Teciam o imaginário,
Com um rico ideário.
O cabo de vassoura,
De força duradoura,
Virava cavalo veloz,
Belo como albatroz.
Eivado de natureza,
Com farta inteireza,
Feito contemplativo,
Tudo era superlativo.
Bondade do entorno,
De um belo contorno,
Movia nas esperanças,
As sonhadas andanças.
Nas asas da alvorada,
O canto da passarada,
Alargava a motivação,
Para elevar o coração.
5
JUMENTOS E MÍSSEIS
No avançado patamar tecnológico,
Guerrear com jumento fica ilógico,
Pois somente a humilde condição,
Vale-se de jegue para a locomoção.
Na simbologia de vetusta imagem,
Jumento não oferece a vantagem,
À supremacia das lutas de guerra,
Mas, do que a humildade encerra.
Se a sorte dos humildes está frágil,
Diante dos maldosos de ação ágil,
Significa, contudo, a arma da paz,
Rumo ao respeito humano eficaz.
Na humilde entrada em Jerusalém,
Jesus Cristo, mobilizado pelo além,
Enfrentou sem arma a prepotência,
E apontou rumo de mais decência.
A sofrida memória da cruz assumida,
Mais que identificação enternecida,
Oferece apelo ao basta na violência,
E à superação da pérfida indecência.
Alguém rompeu o círculo da violência,
Pelo perdão e pela farta
benevolência,
E apontou humana condição possível,
Para a vivência respeitosa do
indizível.
6
LAGARTAS E GAFANHOTOS
Na antiga imagem do profeta Joel,
Que viu na devastação de lagartas,
E na pior liquidação de gafanhotos,
A razão de tristeza para o povo fiel,
Pois a invasão de destruições fartas,
Gerou a devastação de efeitos rotos.
Em vez de esperar agravo pessimista,
Antecipou viabilidade do novo porvir,
Na invasão amorosa dum Deus bom,
Para infundir espírito santo
avivador,
Que igual a um fogo muito abrasador,
Permitiria à condição humana a pista,
Do novo modo de proceder e de servir,
Capaz de assegurar entendimento bom.
As lagartas e gafanhotos da
corrupção,
Devoram sonhos da humana condição,
De que uma possibilidade de respeito,
Permita irrupção de uma mentalidade,
Que possa renovar a nossa sociedade,
E leva-la a conviver sem tanto
defeito.
7
LEMBRANÇAS
Sinais que expressaram um momento,
Para lembrar edificante procedimento,
Viram ícones sacramentais dum gesto,
Do proceder despretensioso e modesto.
Ao remeterem a bons tempos passados,
Reativam múltiplos e louváveis legados,
E ensejam larga fruição daqueles
fatos,
Ativam ensejo de gestos mais
sensatos.
O difícil é superar os sinais milagreiros,
Eivados de gestos e de modos
faceiros,
A lembrar o inefável transbordamento,
Dum grato e inebriante contentamento.
Ausência daqueles sinais tão
simbólicos,
Causa perda e sentimentos
melancólicos,
Porque sem demora se evade a memória,
Das pessoas e tempos de edificante
glória.
Nem a memória dos recursos
eletrônicos,
Recupera tão bem os significados
icônicos,
Dos sinais que falam coisas bem
diferentes,
E remetem a novos olhares
benemerentes.
8
LEMBRANÇAS VALIOSAS
Magnífico dia de fruir lembranças,
De pessoas amáveis nas andanças,
Que, após duras rupturas sofridas,
Persistem em marcas tão queridas.
Muito além das dores da saudade,
Aviva-se a bela e tão rica amizade,
Que forneceu sentido à existência,
E a engrandeceu de benemerência.
Os incontáveis gestos edificantes,
Com momentos muito marcantes,
Transbordam do baú da memória,
E animam a exuberância da glória.
Os inumeráveis momentos felizes,
Sequer ofuscam pequenos deslizes,
E povoam as esperanças agradáveis,
Para outras investidas memoráveis.
Na certeza de que honesta bondade,
Gestou boa edificação na sociedade,
Aumenta o sentimento responsável,
De não apagar sua memória amável.
Na comunhão feliz de muitos santos,
Brilha seu olhar de muitos encantos,
Similar à luz irradiante na escuridão,
A indicar o caminho de justa retidão.
Tão bem-aventuradas recordações,
Não cabem nos voláteis corações,
E precisam ecoar num alto clamor,
O alcance irradiante do seu amor.
9
LOLAMANIA EM ALTA
Na exaustiva loquacidade mórbida,
Prenhe de muita apelação sórdida,
Alarga-se uma oratória do possível,
Para ocultar o evidente impossível.
Mais do que o desejo de persuasão,
Importa a bem obliterada obsessão,
De que o novo engendra felicidade,
Bem-estar com larga prosperidade.
Sem a memória dos ódios ativados,
Emergem e agem por todos os lados,
Desalentos com os anelos preteridos,
E inoperância de discurso proferidos.
Da loquacidade indutora de euforia,
Não advém nenhuma efetiva alegria,
Pois, volátil como nuvem passageira,
Deixa a maior massa popular na eira.
Fluem então mobilizações primárias,
Insensíveis às prescrições
ordinárias,
A recuperar velhas táticas de
antanho,
Que agridem o conhecido e estranho.
Na patologia das manhas de muita
fala,
Insensatez que sem medida se propala,
Propugna um alto e requerido
respeito,
E dispara tiro certeiro e mortal no
peito.
A dignidade humana desejada a poucos,
Alimenta multidões de muitos amoucos,
Que ofendem, brigam, muito humilham,
Apenas por ideário alheio que
partilham.
Na falada evolução do gênero humano,
Fica complicado aglutinar o agir
insano,
Que semeia tanto ódio por mera
paixão,
E, é inócuo para disseminar
compaixão.
10
MALEFICÊNCIA
Ao lado das maledicências,
Verdadeiras maleficências,
Arruínam nosso cotidiano,
E espalham o ardor insano.
O pior é a cruel vingança,
Na obliterada lambança,
A intimidar com violência,
Sem nenhuma clemência.
Arma o clima desfavorável,
E não sossega no execrável,
De denegrir a boa imagem,
Na associação à sacanagem.
Num efeito da maleficência,
Aparece uma vil indecência,
De tergiversar moralmente,
Para difamação envolvente.
Se distintas ações machucam,
As que mais ferem e apupam,
Vão contra símbolos culturais,
E denigrem raízes ancestrais.
No alcance da maleficência,
O antídoto da benevolência,
Transforma mundos sofridos,
E eleva humildes agradecidos.
11
MUNDOS DESENCONTRADOS
Enquanto planetas e estrelas somem,
Outros emergentes vêm e consomem,
Componentes e nutrientes para saciar,
O inerente anseio de se
complexificar.
Nos mundos cósmicos a vida se agita,
Se compacta, se expande e regurgita,
Por espaço suficiente para
existência,
E assim se rebate por uma excelência.
Em mundos humanos tão iracundos,
Eclodem anseios de atos profundos,
Para a capacidade de entendimento,
Sem perversa força do armamento.
Dos anelos mais humanitários e bons,
Esperam-se grandezas dos ricos dons,
Que complementem boa convivência,
Sem a possessiva e ambiciosa
regência.
Já no mundo dos gostos e dos valores,
Criam-se os desencontros e
dissabores,
Ao redor de sonhos políticos e
anseios,
Despertados pelos sofisticados
enleios.
Constante adiamento do mundo viável,
Frustra e obnubila a ação tão
desejável,
De respeitoso e gratuito
entendimento,
Que permite fruir bom congraçamento.
12
NA BAZÓFIA DO PODER
A noção do poder como serviço,
Acabou enveredada num sumiço,
E delegou à vaidade exasperada,
Belo suporte de conduta afetada.
Na exaltada presunção do cargo,
A ele não se apresenta embargo,
Porque a amizade cria suportes,
Que derrubam verídicos aportes.
Nas vanglórias contra os relatos,
Nada importam verídicos fatos,
Mas só a auto-defesa insistente,
Assegura bom lugar precedente.
Presunçosa e alegada inocência,
Garante larga condescendência,
Dos súditos em obediente ação,
Para evitar qualquer deposição.
Nas prévias garantias de triunfo,
Anunciadas na ardileza do trunfo,
Antecipa-se o selo da idoneidade,
Dos atos perpetrados na maldade.
As leis justificadas e enaltecidas,
Com hermenêuticas esmaecidas,
Mas não esmorecidas na argúcia,
Garantem a inteireza da astúcia.
13
NA ÉGIDE DA “PAZ E BEM”
Um saudoso estilo de vida,
Na organização denegrida,
Fez São Francisco de Assis,
Virar um eterno aprendiz.
Sob uma piedade puritana,
Intuiu a força que irmana,
No enleio da cordialidade,
Do bem com fraternidade.
As boas relações afetivas,
Acima de súplicas efetivas,
Modificavam a gratuidade,
Tão evadida na sociedade.
No amor acima da justiça,
Diluía-se na vasta cobiça,
A ladrona do elã da vida,
E da prática enternecida.
Na síntese da paz e bem,
Integrava-se todo o além,
Para elevar na dignidade,
O que enleva a santidade.
Visão otimista do mundo,
Relegava o foco iracundo,
Para centralizar a alegria,
Nos contatos de cada dia.
No jeito simples de Jesus,
Viu ação divina que seduz,
Para o amor tão humano,
Que supera o desengano.
14
NA ÉGIDE DE PRIAPO
Do velho culto ao elemento viril,
Renasce uma obsessão muito vil,
Da adoração do poder excitante,
Para afirmar o poder mandante.
A sedutora artimanha possessiva,
Vale-se da fina astúcia agressiva,
Para comprar afeto sem medida,
E tornar refém a pessoa agredida.
O desejo insaciável de apropriação,
Gera ciúmes de má concatenação,
E leva a mecanismos de vingança,
Para ratificar hábitos de lambança.
Com virilidade adorada e exaltada,
Sob o apanágio da vida desregrada,
Ampliam-se espíritos desenfreados,
Que criam ruína por todos os lados.
Na desventura dos lares desfeitos,
Sobram sequelas dos vis defeitos,
Que se alargam para novos lares,
E contaminam até seus bons ares.
Com culto a Priapo acima dos altares,
Transforma-se amor para patamares,
Que não passam de desfrute machista,
A relegar o fim à capacidade
altruísta.
15
NA GRONGA POLÍTICA
Nas muitas coisas imperfeitas,
Desde esquerdas até direitas,
Seguem conluios e conchavos,
Para os velhos e pífios agravos.
Alianças de interesses sórdidos,
Revelam velhos jogos mórbidos,
Da obsessão de acesso a cargo,
Para alargar poder de embargo.
Nas vantagens e direitos especiais,
Residem as ocasiões sensacionais,
Para a seletividade dos privilégios,
Facilitados por ignóbeis sortilégios.
No olhar aguçado para a ambição,
Serve toda a evidente contradição,
Desde que não ameace uma perda,
De centro, direita ou de esquerda.
Importa somente persuadir crentes,
Mesmo que, estejam descontentes,
Pois, ao ouvirem promessas ilusórias,
Devaneiam com suas idílicas glórias.
Sob uma gronga tão velha e descabida,
Anda vaga toda orientação consabida,
De que mentira tão bem proclamada,
Queira o bem a esta gente mal amada.
16
NO REINO DA PETULÂNCIA
Disseminada em larga escala,
A petulância invade e propala,
Que modos nada respeitosos,
Estão acima de gestos ditosos.
Na cínica e sedutora insolência,
Afirma-se o topo da irreverência,
Que age de modo vil e arrogante,
Sem a menor sutileza atenuante.
O envaidecimento leva à ousadia,
De esnobe e escancarada picardia,
De furtar e de deixar até contente,
O logrado em seu torpor padecente.
Para justificar boa e reta
governança,
Encobre-se uma perfidiosa lambança,
E se mudam as regras estabelecidas,
Sem que arrogâncias sejam preteridas.
No enleio da boa vontade presumida,
Engana-se com a austeridade fingida,
Para ostentar retidão e
transparência,
Sem em nada se mudar a irreverência.
A atribuição de direitos seguindo
desejos,
Importa mais que os reiterados
remelejos,
Dos insatisfeitos em sua agrura
cotidiana,
Da qual toda delegação de poder
emana.
17
NO AR DA GALHARDIA
Indizível e grata experiência,
De uma gentil convivência,
Eleva toda magnanimidade,
No clima alegre da amizade.
Se o garbo da boa acolhida,
Na distinção não merecida,
Já enaltece a generosidade,
Causa simpatia à saciedade.
No peculiar e bom ambiente,
O elã da vida solta contente,
O interceptado de grandioso,
Para o ambiente harmonioso.
Nas gargalhadas espontâneas,
Por coisas bem consentâneas,
As mágoas voam tão diluídas,
E carregam dores ressentidas.
Na constatação do bem-estar,
Não aflora algo a se contestar,
Porque a empatia do ambiente,
Enseja um clima bem contente.
A galhardia fabrica os sonhos,
De caminhos não enfadonhos,
Que antecipam ações singelas,
E mais tempo para boas trelas.
18
NO SURURU DA
ROUBALHEIRA
Com tanta informação nada lisonjeira,
Dos homens públicos em roubalheira,
Aflora cada dia mais claro e
evidente,
O enleio da conivência do Presidente.
Discurso enfático de senador
demitido,
Que há anos soava como som aturdido,
A favor do bom-senso da honestidade,
Mostra a ilusão da sua reta
idoneidade.
Anos de muitas mentiras acobertadas,
Sob as falaciosas apelações
recatadas,
Tornaram-se transparentes e visíveis,
E reveladoras de disparates
incríveis.
A aparente crise sem causa
detectável,
Insinuada como vilã da vida
degradável,
Denegriu milhões de pessoas
espoliadas,
E escancarou as roubalheiras
execradas.
Vultosa exportação do dinheiro
roubado,
Que faz tanta falta na lida por todo
lado,
Permite assimilar a pobreza
alarmante,
Como preço do banditismo governante.
O fim do sururu da crise dos
malandros,
Requer consciência reta dos meandros,
Que não podem alinhar a governança,
Para um projeto de solidária bonança.
19
NOS REQUIFIFES DA
VAIDADE
Tanta festa bonita foi transformada,
Em exteriorização muito exagerada,
Para o simulacro das belas imagens,
E esnobação de muitas bricolagens.
O mais importante do ato celebrado,
Não é a memória de algo perpetrado,
Mas a venda disfarçada de um nível,
Que aporte sua elevação presumível.
Na esnobação das imagens vistosas,
Afloram intenções muito orgulhosas,
Da proeminência com as aparências,
Para o desfrute das benemerências.
Desvirtuação de cerimônias religiosas,
Para finalidades meramente dengosas,
Subverte sacramentos em cerimonial,
Para esnobação do status patrimonial.
Festividade desprovida de memória,
Exalta apenas uma aparente glória,
Sem a riqueza do transbordamento,
E, sem contágio do contentamento.
20
NOVOS MANDINGUEIROS
Distantes da típica ancestralidade,
E da marca cultural da antiguidade,
Os novos mandingueiros religiosos,
Sabem explorar fatos miraculosos.
Sob o transe produzido e cultivado,
Veem cura e milagre por todo lado,
Mas diluem o ar da velha feitiçaria,
Sem vínculo algum com a bruxaria.
As proclamadas curas e libertações,
Tão simpáticas a sofridos corações,
Ruborizam as mui exaltadas faces,
De pregadores fanáticos e rapaces.
Na nova hierarquização de poderes,
Repetem obsoletos apelos e dizeres,
Para o estado de transe propagar-se,
E eles, em sua grandeza inebriar-se.
O abuso dos instrumentos musicais,
Para canções agressivas e infernais,
Cria um efeito hipnótico favorável,
Que desencadeia prodígio inefável.
Palavras cadenciadas e alucinantes,
Berradas como melodias cantantes,
Impõem ordem autoritária de cura,
Na hipnótica e dissuadida diabrura.
Falam, então, dos recados especiais,
Auferidos pelas instâncias
celestiais,
Que lhes informam dados secretos,
Para produzirem efeitos prediletos.
Mandingados pela própria grandeza,
Exalam um arrogante ar de nobreza,
Pelos seus especiais poderes de cura,
Mas que atrelam viventes na secura.
21
O MARRUCO NA PASTAGEM
Sentindo-se o poder absoluto,
Muge e avança todo resoluto,
O touro metido a dono do país,
Fazendo dele o ambiente feliz.
Psicopata de origem mórbida,
Vive da prepotência sórdida,
Para garantir reino absoluto,
E perpetrar legado impoluto.
Impõe seu mugido fanático,
Como se tudo fosse errático,
Menos sua cega arrogância,
Eivada de muita petulância.
No temerário apelo à ordem,
Esconde uma falsa desordem,
Que visa assegurar privilégios,
Ao seleto grupo de egrégios.
No rompante bem vociferado,
Irradia as ordens por todo lado,
Para assegurar a exclusividade,
Sobre atrelados da passividade.
Sem cabresto a limitar o poder,
Em nada importa o escafeder,
De espoliados sem segurança,
Que já perderam a esperança.
22
O MEGATÉRIO POLÍTICO
Muito mais ousado e temerário,
Do que um megatério terciário,
Está o agir persuasivo político,
Em estranho achego enclítico.
Volumoso e forte na aparência,
Ao lado da radiosa imponência,
Abre bocão enorme e faminto,
E ameaça devorar todo recinto.
Mesmo na aparente voracidade,
A falada política para a sociedade,
Anda desdentada como megatério,
E sequer ultrapassa o despautério.
Ameaça de morder tantas coisas,
Termina lambendo inertes loisas,
Sem nada de efetivo para enlevar,
A aguardada expectativa popular.
Enquanto o medo do megatério,
Acua tanta vítima do impropério,
O perfil das aparências vorazes,
Termina em meros ditos fugazes.
Resta esperar fulgores inovados,
Que resplandeçam ares eivados,
De uma justiça mais abrangente,
E que geste clima mais contente.
23
O MUNDO ENCANTADO DA DENEGAÇÃO
Segue na alta velocidade,
Da tecnificada sociedade,
Uma persuasão denegada,
De negar a ação praticada.
Nada tão charmoso e belo,
Como o mentiroso singelo,
A negar com toda firmeza,
A traição da reta inteireza.
Nas manchetes e noticiários,
O centro dos relatos diários,
Repete as evasivas negações,
De vetustas procrastinações.
Seria extraordinária surpresa,
Se alguém fizesse sua defesa,
E afirmasse ter feito o que fez,
E reconhecesse a mesquinhez.
A técnica do afirmar o contrário,
Permite moldar o fictício ideário,
Da inocência preclara e evidente,
E da reta consciência procedente.
Assim como ninguém viu e notou,
Que algum ato ilícito se efetuou,
Ninguém explica o ocorrido fato,
Dum dito suposto deslize de ato.
Importa, pois, desmentir o fato,
E rechaçar as evidências do ato,
Para assegurar boas aparências,
E ocultar notáveis incoerências.
Negar a veracidade da acusação,
É o que mais se ensina na ação,
Pois o ato ilícito é tão atraente,
Quanto negá-lo convictamente.
24
O PODER DE NOMEAR
Já antes do manejo dos pronomes,
As crianças auferem belos nomes,
Às bonecas e aos variados animais,
E se apossam como donas literais.
Adultos seguem similar patranha,
E fruem de congêneres na manha,
Delimitando-os a objetos de uso,
Para todo e variado tipo de abuso.
Sem pensar complementariedade,
Arrogam-se a larga arbitrariedade,
De sequer respeitar a mãe Terra,
Nem a seus filhos na dura guerra.
Inteligentes filhos da humanidade,
Desencadearam pérfida insanidade,
E conhecem, nomeiam e dominam,
Sem assumir o quanto incriminam.
Tratam de formas muito desiguais,
E por isso vivem arrumando rivais,
E lidam explorando a inferioridade,
Longe de assumir a larga maldade.
Ignoram que são da mesma argila,
Da qual matam o hálito que sibila;
Afogam as inaladas do bom-senso,
E incorrem num humano descenso.
Ao dominar sem responsabilidade,
Degradam a culminância da idade,
E forçam a história que se inclina,
Para esta tão desenchavida sina.
25
O PODER DOS DIREITOS
ADQUIRIDOS
Mesmo sob as astutas barganhas,
E as traiçoeiras e pífias patranhas,
Todo o nobre direito conquistado,
É eternizado como inquestionado.
Do privilégio da árdua conquista,
Deriva grandeza sensacionalista,
De novo patamar de excelência,
Digno de interminável vigência.
Despertam-se invejosos lesados,
Que almejam os similares legados,
E agem para não ficar preteridos,
Nem ver seus anelos indeferidos.
Nesta guerra infinda da conquista,
Estimulada pela onda consumista,
Não existem planetas suficientes,
Para os insondáveis descontentes.
Surgem, assim, os redutos seguros,
Movidos por procedimentos duros,
Que na espoliação do já amealhado,
Edificam algum refúgio assegurado.
Os decepcionados e descontentes,
Privados dos acessos ascendentes,
Apelam aos seus desejos vigentes,
E vociferam solicitações exigentes.
Perante incontroladas demandas,
Das más governanças quejandas,
Sobram as imensidões humanas,
Frustradas com poderes sacanas.
26
O RELÓGIO DA TORRE
De elevada imponência,
Ignora toda premência,
De desejada segurança,
Para uma leve andança.
Parado, sem movimento,
Não oferece bom alento,
À pressa tão precipitada,
Da vida fugaz e disparada.
Lembra saudoso passado,
Do tempo pouco agitado,
Sem comprimir o tempo,
Nem focar o contratempo.
Ativava compasso molengo,
Das belas horas com dengo,
Cheias de demorada fruição,
No embalo da boa sensação.
Sem pressa de agitadas horas,
O relógio parado das demoras,
Da torre desnudada de sonhos,
Permitia devaneios medonhos.
O relógio do tempo comprido,
Deixava bem solto e estendido,
O assunto fútil da conversação,
Sem a ativa afoiteza para ação.
27
O RESGATE DO AMOR
Tanto tempo de vida fútil e banal,
Gera padecimentos em manancial,
Que inundam uma lida denegrida,
E afogam o elã da força aguerrida.
O atrelamento a variados vícios,
Anestesia os minguados indícios,
Para impedir nos procedimentos,
Pistas que gestem novos alentos.
Muitas palavras de moralização,
Aumentam mais a consternação,
E inibem toda a força de perdão,
Para a auto-punição sem condão.
O querer bem, sem as condições,
Das pautas e rigorosas restrições,
Comunica numa metalinguagem,
A força de mudar a auto-imagem.
No amor manifestado em perdão,
Reata-se o itinerário de redenção,
Capaz de criar novas motivações,
Para as exuberantes e boas ações.
28
OBEDIÊNCIA INFANTILIZADORA
O desejo de tempos promissores,
Também ferve novos dissabores,
Advindos de lídimas expectativas,
E das muitas viáveis alternativas.
Cultivo de euforia infantilizadora,
Sob uma mágica ação redentora,
Leva ao uso de armas detestadas,
Diante de violências exasperadas.
O orgulho toma o lugar modesto,
E enaltece em seu lugar o doesto,
Fazendo vítima do autoritarismo,
Quem discorda do farto cinismo.
A violência usada para gestar paz,
Sem o diálogo ameno que apraz,
Instaura vasto poder de destruição,
Que beneficia só poucos na fruição.
Manipulação de condições mágicas,
Rapidamente efetuará ações trágicas,
Que subverterão os ingênuos anseios,
E afundarão os enrustidos devaneios.
A noite escura será terreno fecundo,
Para a opressão do poder iracundo,
A extorquir mais do que o efetuado,
Sem curar as feridas do vasto legado.
A fragilidade do invólucro de barro,
Sem demora surtirá quadro bizarro,
Em que os sonhadores manipulados,
Viverão pesadelos não dissimulados.
Acordarão para um duro cotidiano,
E verão que sua dor de desengano,
Terá que ser amenizada pela ação,
Capaz de regar dureza de coração.
29
OBESOS DE FACILIDADES
Distante da abnegação e austeridade,
Todos almejam a leveza e a facilidade,
Que possam diminuir esforço e pesos,
Para a suavidade de contornos ilesos.
Nada com regime austero e de dureza,
Pois a sensação bem cotada é moleza,
E o mínimo de movimentos e esforços,
Para evitar toda insônia e os remorsos.
Na digitalização que ameniza os pesos,
Aparecem mais indiretos contra-pesos,
Que vão além dos volumes exagerados,
E saturam pelos de informes digitados.
Obnubilados por nuvens de informação,
Dedos indicadores assumem a direção,
E o cérebro vazio do poder organizador,
Só gesta a fantasia de poder devorador.
No inebriar-se com ares das informações,
Ajuntam-se calorias fora de proporções,
E evadem-se os músculos da flexibilidade,
Para deslizar nas gorduras da inatividade.
O celular ocupa toda mente e o coração,
Anelante por dedos sempre na atenção,
Para acessar a ventania de informações,
Que locupletem as inquietas obsessões.
Na fluidez das constantes informações,
A mórbida assimilação das digitações,
Seduz para conectividade progressiva,
Mas causa “infobesidade” compulsiva.
30
ÓDIOS CULTIVADOS
Mais que cardos em relvados,
A boicotar os grãos cultivados,
Ódios de motivação religiosa,
Produzem relação desastrosa.
Nos atributos a causas divinas,
Alardeiam-se as ações cretinas,
Do prazer sádico que submete,
Que na vida alheia se intromete.
Na agressão ao valor simbólico,
Revela-se um denodo diabólico,
Que mesmo sem agressão física,
Atinge os âmagos da metafísica.
A difamação da pessoa adversa,
Permite a profanação perversa,
De atingir identidade e a honra,
Da pessoa que muito se desonra.
Ao ser denegrida a boa imagem,
Todo acréscimo de espionagem,
Espolia ainda bem mais a vítima,
Por distorcer sua defesa legítima.
No ciclo de vingança sem limites,
Aparecem simpáticos blefarites,
Para alardear clima conspiratório,
De duro processo persecutório.
Para cortar o ciclo da violência,
Com o atenuante de clemência,
Sobra aquela difícil misericórdia,
Meio eficaz de reatar concórdia.
31
ODORES MEFÍTICOS
Quando os esquemas políticos,
Eivados de conluios mefíticos,
Querem efetuar valiosas obras,
Gestam com fétidas manobras.
A prioridade das boas vantagens,
Para as suas próprias safadagens,
Obriga a ocultar a fonte mefítica,
Para desviar toda possível crítica.
Ao desnudar-se a traquinagem,
Que perverteu sua reta imagem,
Mesmo com seus odores fétidos,
Querem passar-se por intrépidos.
Volatizado todo o efeito nefasto,
Do aumento ao necessário gasto,
Resta a espoliado pagar o custo,
Do evento bem danoso e injusto.
Na pérfida camaradagem dadivosa,
Sempre aparece a pessoa mimosa,
Beneficiária das fartas vantagens,
E que reforça as vis patranhagens.
Os acostumados a serem iludidos,
Mesmo bem logrados e preteridos,
Ainda ficam inertes e acomodados,
A esperar ensejo de bons legados.
32
OSCILAÇÕES
Como pensamentos e emoções,
A história deixa demonstrações,
De avanços e regressos seguidos,
Sem mudar defeitos enrustidos.
Progresso de gestos humanitários,
Não segue os renovados ideários,
E permite regressões descabíveis,
Com perversões das mais terríveis.
No balanço da história ressoaram,
E os sons extremistas vociferaram,
Novidades e animadoras inovações,
Com as fundamentalistas monções.
O avanço de bom-senso e respeito,
Estrangula-se em caminho estreito,
E morre sufocado sem compaixão,
No rol da ausência de comiseração.
A ditadura contra todo o diferente,
Alastra-se em proporção crescente,
Para ameaçar a conquista efetuada,
E a convivência fraterna e recatada.
Na sina das polarizações regulares,
Ansiamos em sôfregos patamares,
Que o pêndulo se alinhe no rumo,
Para não nos engolir no consumo.
33
ÓSCULOS E BEIJOS
Entre ósculos e beijos ruidosos,
Sob os estalidos espalhafatosos,
Insinua-se o poder do romance,
E êxito do seu possível alcance.
Quando importa uma conquista,
Ativa-se o largo anseio intimista,
Para o desfrute ou a intimidade,
Com vistas ao prazer à vontade.
Quando o ósculo é sinal da paz,
Envolve a discretude que apraz,
E reativa as valiosas esperanças,
De convivência sem lambanças.
No respeitoso sinal de acolhida,
Muda-se o tempo da despedida,
Porque se alarga com a ternura,
E se enche com a bondade pura.
Assim os beijos de paz e amizade,
Tão raros para expressar lealdade,
Tornam-se beijos santos e eficazes,
Contra os pífios intentos mordazes.
No aperfeiçoamento da concórdia,
Cultivada sem a maldade mixórdia,
O ósculo da atenciosa fraternidade,
Cria mundos de respeitosa amizade.
34
OSTRACISMO RELIGIOSO
Nem muito piedoso,
O comum religioso,
Afirma as simpatias,
E enjeita antipatias.
Ostracismo forçado,
Repete triste legado,
Já vetusto na política,
E sobreposto à crítica.
Não se enfoca o certo,
E dissonante por perto,
Indica-lhe o ostracismo,
E ignóbil revanchismo.
Importa grupo afinado,
Na posse de um legado,
Que eleve precedência,
Mesmo com indecência.
O itinerário da religião,
Fica restrito à opinião,
Para ascendência social,
Com bajulação especial.
Enquanto se indica o exílio,
Ao que desmascara o idílio,
A comunidade enfraquece,
Na exterioridade da prece.
35
OTÁRIOS E PERDULÁRIOS
Tantas pessoas simples e modestas,
Passam por dificuldades indigestas,
Porque sua fé simplória enganada,
Patrocina os nobres da esplanada.
Enquanto perdulários dissipadores,
Consideram-se bons dispensadores,
O limite sem eira para as gastanças,
Penetra o ralo das sujas lambanças.
Os otários ludibriados nos anseios,
Apenas encontram vagos meneios,
Porque os perdulários não cedem,
Na vantagem em que se excedem.
Neste fazer de conta que algo mude,
Um anela que alguém muito ajude,
E outro quer que sua extravagância,
Cresça na bem suprida abundância.
Enquanto isso, viciados gastadores,
Auferidos a paternalistas gestores,
Dissipam segundo suas barganhas,
Que perpetuam velhas patranhas.
36
PAIXÃO PELA SOLEDADE
Com tanta fartura de contrariedade,
Com notícias de clara arbitrariedade,
É generalizada a condição
celibatária,
Como fonte de depravação primária.
Todos rotulados no nível da anomalia,
Não se evadem da insistente mania,
Que os enquadra pelo nível de risco,
A rondar o seleto e bondoso aprisco.
Se revelar encanto por uma criança,
Já desperta suspeita e desconfiança,
E se conversar com alguma senhora,
Obcecado mulherengo de toda hora.
Ao se entreter mais com os homens,
Prefigura o vasto rol dos lobisomens,
Da homo-afetividade desmunhecada,
Em escancarada caça mancomunada.
Pior ainda se conversar com criança,
Pois já perde toda eventual
confiança,
E representa a pederastia depravada,
A rondar a pureza juvenil tão
ilibada.
Resta então aquela rota da soledade,
Para integrar olhares de severidade,
Que no distanciamento já precavido,
Integra o sentimento desenchavido.
Da soledade recebe o vasto pendor,
Para reciprocidade de humilde fervor,
Sem perder seu peculiar modo de ser,
E a grandeza da vida a se enternecer.
37
PARA ALÉM DA APARÊNCIA
Na grande onda migratória,
O que resolve bela oratória,
Para atenuar vil indecência,
No simulacro da aparência?
Muitos mundos prometidos,
Mobilizam andejos iludidos,
A encontrar um pouco mais,
Do que a violência nos rivais.
As promessas tão materiais,
Ao lado das certezas ideais,
Revelam progressivamente,
Bem frágil cultivo da mente.
Asseguram dons espirituais,
Por meio de exóticos rituais,
Mas, importa a apropriação,
Com desfrute sob a coação.
O superior poder anunciado,
E nos altos sons proclamado,
Indica sedenta precedência,
E dominação sem decência.
Por isso, a busca da verdade,
Requer a genuína liberdade,
De uma parceira peregrina,
Que orienta bem e ilumina.
38
PARADOXOS
Incrível a insensatez humana,
Que deseja a paz e a profana,
Que quer unidade aprazível,
E a torna possessão horrível.
Anela por bom entendimento,
E vive no descontentamento,
Mesmo nos constantes pactos,
Rompe-os apesar de impactos.
Vive falando da paz desejada,
Mas mobiliza arma desaforada,
E move-se na constante guerra,
Com todo pérfido, que encerra.
Investe para formalizar acertos,
Aprofunda os frágeis consertos,
Que despertam outros embates,
E gestam os violentos combates.
Anuncia um espírito superior,
Mas, faz um cotidiano inferior,
Que não renova as obsessões,
E nem modifica as possessões.
Enaltece sua sabedoria ilimitada,
E se ufana da obra conquistada,
Só que definha no próprio enleio,
Do orgulho, em contínuo rodeio.
39
PODER DO ESPETÁCULO
Um aporte de muito tentáculo,
Abastece a mídia do espetáculo,
Para os sedentos consumidores,
Que esperam amplos penhores.
A valorização da personalidade,
Explorada com larga saciedade,
Produz os políticos simpáticos,
E os ensina a serem enfáticos.
Sobre alertas do que expressar,
E quais palavras, para ressaltar,
Com os gestos bem ponderados,
Fruem agrado de vastos legados.
A boa orquestração publicitária,
Garante uma ascensão ordinária,
Para difundir política espetacular,
Celebrizando um sujeito peculiar.
Importa muito o enredo pessoal,
Pintado como novela sensacional,
Para apaixonar o sonho delirado,
E apostar no imagético dourado.
Com imagem política construída,
Substitui-se na intimidade ferida,
O alcance mirabolante do herói,
Que nada edifica e nem constrói.
Já é o mito central do espetáculo,
Que seduz com mágico tentáculo,
Desencadeia um devaneio airoso,
De quem faz de modo primoroso.
Distante dos poderes de execução,
Ele encanta com radiante sedução,
Com seu jeito pitoresco de agradar,
Sem nada de solução para apontar.
40
PODER E DFESCARTE
Cada dia em crise mais abrangente,
O poder deixa o povo descontente,
E na medida do acesso a prediletos,
Crescem descontentes e desafetos.
A desgraça ingênita dos poderosos,
É a descartabilidade de rancorosos,
Considerados supérfluos aos fitos,
E obstáculos aos muitos não-ditos.
Na malvadeza de selecionar gênios,
Revigora-se a história de milênios,
Dos tiranos que visam supremacia,
E para tanto relegam a democracia.
Importa o “eu” excelso e superior,
Austero a controlar povo inferior,
Para não se organizar no direito,
Nem se arrogar a apontar defeito.
No silêncio imputado por satisfeitos,
Flui suave aquele ditame dos preitos,
Que espolia sempre os já preteridos,
Do acesso a patamares prometidos.
Sem aproximação dos bens simbólicos,
Sobram só os momentos melancólicos,
A reclamar de eventual compensação,
Diante da dura e bucólica
malversação.
No sentimento que tanto procrastina,
Espalha-se insatisfação de triste
sina,
Que rouba todo o gosto do bem viver,
E apaga a empatia para bem conviver.
41
PROVISORIEDADE
Da pouca validade da palavra dita,
Decorre um efeito de ação maldita,
Aos prognósticos bem duradouros,
Sem presságios dos maus agouros.
Provisoriedade não deixa relegar,
Que o trabalho venha a postergar,
A urgência dos atos humanitários,
Propícios a carentes e deficitários.
O deificado processo de acumulação,
Acelera uma doentia procrastinação,
De considerar inútil o lúdico e o
ócio,
Para obcecar num vantajoso negócio.
A duração tão precária e provisória,
Não se plenifica pela visão ilusória,
Da obstinada cegueira pelo capital,
Meio de desigualdade monumental.
Se o trabalho é fonte de realização,
É também prestável à escravização,
Para não almejar eventual atividade,
Que alargue as fruições da vontade.
Dos gestos benfazejos dos sistemas,
Da vida organizada em sub-sistemas,
Emergem indícios de reciprocidade,
Mais ricos que acúmulo à saciedade.
42
QUEBRA DE FRONTEIRAS
A globalização do livre mercado,
Engoliu fronteiras por todo lado,
Corre solta por rumos e direções,
Livre de obstáculos e de sanções.
Subleva autonomias e diferenças,
E interfere nas praxes e crenças,
Para restringi-las a consumidoras,
Vorazes por novidades inovadoras.
Sem balizas e sem divisas de limites,
Libera os vastos e variados palpites,
Para que não diminuam o consumo,
Do capitalismo obcecado num rumo.
Assim, políticos podem adornar-se,
E como nobre religião apresentar-se,
Para reafirmar caminhos redentores,
Como se fossem divinos portadores.
Vasto rol de pregoeiros da religião,
Ignora as raízes da sua promulgação,
E transforma belo discurso religioso,
Para o sucesso político vertiginoso.
Na manipulação dos fiéis crentes,
Não existem recursos indecentes,
Pois todos podem tornar-se meios,
Para alcance dos políticos anseios.
43
RESPEITO PROFUNDO
Quando a acolhida sem preconceitos,
Capta belo mundo além dos defeitos,
Revela-se a grandeza de gestos bons,
Advinda do cultivo de humanos dons.
Se compaixão permite alargar gestos,
Que ultrapassam o nível de protestos,
O amor solidário da riqueza humana,
Atinge até o entorno da lida profana.
Se os gestos compassivos já edificam,
O estado frágil da vida e a
dignificam,
Um trato bom e livre de preconceitos,
Gera belos e transformadores efeitos.
O clima da consciência então se
renova,
Na reinterpretação do gesto que
inova,
Sensível a acordar o galo da
consciência,
Do canto que alarga gestos de
coerência.
Neste caminho com tombos evidentes,
A auto-crítica de vacilos
improcedentes,
Permite expandir o amor mais
exigente,
Que é perdoar para viver mais
contente.
Na gratuidade da sintonia com o
bioma,
Detecta-se tanta vida entrando em
coma,
Que desgastado amor da
permissividade,
Supõe urgente conversão da
humanidade.
44
SARACOTEIOS DA VIDA
Muitas vezes rebola a dor,
Sem um sinal acalentador;
Que inquieta e faz inquirir,
Pelo que está a se denegrir.
Tantos anseios de respostas,
Ante tão enganosas apostas,
Apenas deixam uma ausência,
Sem sinais de uma clemência.
As insatisfatórias explicações,
Dissimuladas por decepções,
Induzem a refúgio atrelador,
Que em nada dissuade a dor.
Mesmo a vasta dependência,
Numa química sem solvência,
Pareçe uma vigorosa solução,
Mas só aumenta a prostração.
Sem uma fé de olhar arguto,
O sentimento se torna bruto,
E já não enxerga nada além,
Desta prostração que retém.
Sem um olhar que ultrapassa,
A relação tão cruel e devassa,
Deixa o breu da noite escura,
Irradiar o terror e a diabrura.
Palavras
finais
Quando
o bom humor é tão fugaz,
E tão
pouca coisa agrada e apraz,
Convém
não perder o foco da vista,
Para fruir
possível e inusitada pista.
A
passagem de tantas miragens,
Sensibiliza
muitas boas aragens,
Para integrar
feridos sentimentos,
Na
perspicácia de novos alentos.
Assim
a vida deslinda mais suave,
E
sempre oferece a valiosa chave,
Que
abre outra porta da existência,
Para a
grata e gratificante vivência.
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