terça-feira, 13 de outubro de 2026

ENTRE O COTIDIANO E O PENSAMENTO

  

SINOPSE

  Muitas pessoas orientam sua vida pelo seu cotidiano, ao lado de outras que se orientam pelo pensamento. Nesta disputa, nem sempre silenciosa, precisa acontecer uma nova síntese: nem demais para o céu e nem demais para a terra; não só o cotidiano e também não só o pensamento.

O excesso do pensamento não só anula o cotidiano, mas, também ameaça com a disparada tecnológica o próprio lugar do pensamento, porquanto se volta contra a sensatez do desvelo e cuidado do que a natureza levou tantos milhões de anos para oferecer à condição humana.

Não se poderia ser mais feliz, sob menos impacto ambiental, menos asfalto, menos lixo e poluentes e os seres humanos se deslocarem entre muitas flores, arbustos e árvores de toda espécie, com mais saúde e qualidade de vida?

 

                                                                             

ÍNDICE

 

Apresentação...

 

1 – O trem no eldorado da agro-indústria...

 

2 – As fronteiras entre as montanhas de carne...

 

3 – Depois das recepções iniciais... 

 

4 – A rua como lugar da patologia social... 

 

5 – Cordialidade e etiqueta...

  

6 – Singular e plural...

  

7 – Intimidade e promiscuidade...

 

8 – Descanso e lazer...

 

9 – Uma constância na racionalidade...

 

10 – A perspectiva de uma humanidade simbiótica...

 

11 – Afinal, náufragos ou astronautas? ...

 

Epílogo...

 

APRESENTAÇÃO

 

 

  A consideração dos grandes avanços da história leva a perceber que, certamente todos eles ocorreram nas trilhas do pensamento, isto é, os projetos, os planos, os sonhos e as utopias, mobilizaram inumeráveis inventos, avanços tecnológicos e superações fantásticas, movidas pela acuidade do pensamento humano.

  Ao lado deste processo, incontáveis pessoas viveram, com níveis de vida possivelmente satisfatórios e bons, porém, não movidas pelo pensamento, mas, por mundos cotidianos, a partir de hábitos, de praxes e de crenças locais ou regionais. Para esta gente, que envolve parte razoável da humanidade, a vida prática, com certeza, falou mais alto do que o pensamento e, seu mundo de referências cotidianas, teve primazia sobre o pensamento, pois, se constituiu num referencial mais seguro a respeito do que foi considerado bom, certo, e merecedor de esperanças.

  De alguns anos para cá, a observação fenomenológica dos fatos sociais aponta indícios razoáveis para o diagnóstico de uma tensão e, complicada polarização na relação destes dois âmbitos: se para parte considerável dos humanos, o pensamento ainda goza de uma hegemonia diante os propósitos de organização da vida, da cidade, do progresso das indústrias, da organização da vida urbana e rural, bem como da estética humana, evidencia-se, por outro lado, cada vez mais, o efeito dos costumes, das rotinas e das situações cotidianas.

Em qualquer cidade podemos observar, rapidamente, tanto no visual de pessoas quanto no aparato das casas e das ruas, as manifestações de resistência ao pensamento e ao que é tido como avanço da razão e da modernidade.

Esta contraposição entre o cotidiano e o pensamento, faz com que os dirigentes, líderes, e os organizadores de movimentos sociais, ou de professores em salas de aula, de pais na tarefa educadora de seus filhos, ou de responsáveis por outros âmbitos da vida social, sintam reais dificuldades para estabelecer razoável equilíbrio diante das polarizações criadas pela vida simples e prática, não vinculada ao pensamento.

 Basta ouvir o costumeiro “Sim, Senhor (a) ”, mas que, efetivamente, acaba sendo um “Não”. Do mesmo modo, escutam-se seguidamente afirmações incongruentes em torno de outras propostas, tais como: “logo vou aí”, “depois passo lá”, “daqui a alguns dias vou pagar a conta”, “vou convidá-lo para um jantar”, “vou fazer isto e mais aquilo”. O que efetivamente se constata é que a palavra se revela literalmente frágil em termos garantia de credibilidade.

 A falta de seriedade no que se diz e no que se promete, mostra que o pensamento tende a encobrir mais e a revelar menos. Fica a impressão de que se está diante de uma nova doença social: todos prometem tudo e qualquer coisa, mas, poucas pessoas honram e levam a sério as palavras que emitiram.

Aparentemente, já passou a lealdade à palavra dita, que comprometia a honra de alguém, ou algum fio de bigode ou de sobrancelha. Mais do que isto, evidencia-se um claro desinteresse sintomático e resistente por tudo quanto exige raciocínio, sistematização, fidelidade, estudo, regularidade e horário.

 O filósofo Finkielkraut, escreveu num de seus livros, La Derrota del Pensamiento, uma observação muito inusitada: sustenta que, atualmente, pela primeira vez na história humana, o pensamento perde lugar para o cotidiano.

  Sob alguns aspectos, isto parece muito evidente. No entanto, certos fatos sociais, indicam o caminho inverso, isto é, quem não se submete aos parâmetros do pensamento, perde espaço, perde emprego e a possibilidade de avanço nos patamares de status da aceitação social. Também perde a possibilidade de poder sonhar com níveis mais elevados e bem cotados no campo dos valores simbólicos da cultura.

Sob esta perspectiva, os que não participam dos avanços sociais e culturais da prosperidade exitosa da agroindústria e de outras inovações industriais e tecnológicas, estão fadados a ficar esquecidos e relegados, não só da história e da vida social, mas também do protagonismo da grande eclosão de mudanças e transformações que vêm ocorrendo, seja no aparato das lojas e dos prédios, seja na apresentação do visual urbano, ou da nova forma de entendimento da agricultura, da indústria e da agro-pecuária.

  No que segue, procurou-se, numa perspectiva um tanto eutrapélica, comentar facetas que evidenciam esta crise estabelecida entre o cotidiano e pensamento. Trata-se de uma abordagem com a modesta pretensão de ensaio, isto é, uma partilha de aspectos que interpelam diante do panorama antropológico, e, com o intuito de provocar reações de raciocínio, pois, quem sabe, possam despertar intuições para modos de convivência menos conflitantes.

O segundo intento deste rápido escorço, é o de despertar análises críticas e que, ao mesmo tempo, possam somar forças para que mais pessoas se envolvam num efetivo avanço da necessária capacidade de entendimento do ambiente cultural.

 Deste entendimento, com certeza, poderá ser vislumbrado algum processo mais rápido e eficaz de síntese. Tal processo, certamente, será encontrado com clara e pretendida busca consciente. Esta síntese não se viabilizará só com o cotidiano e nem somente com o pensamento.

 Se ainda está distante a harmonia racial e cultural, - apregoada há muitas décadas como um dos grandes mitos brasileiros, e que fornece a ilusória atribuição de que aqui este ajustamento harmonioso já aconteceu como fenômeno único da história deste planeta, - convém não ignorar a percepção de outra desarmonia, ainda mais gritante, da qual pouco se fala: a crescente diferenciação social por procedências regionais. Esta classificação desperta um verdadeiro vulcão de feridas emocionais e se constitui, por isso mesmo, num “barril de pólvora” capaz de detonar a qualquer momento. Portanto, não deixará nem ricos e nem pobres dormir no “berço esplêndido”, devido a inseguranças e instabilidades sociais que gera.

Convêm, por conseguinte, que, pelo menos o empenho leal ajude na importante aproximação da escandalosa má distribuição dos bens culturais, econômicos, políticos e religiosos.

  No meio das contradições é possível, contudo, dar importantes e significativos passos que venham a propiciar maior qualidade de vida nesta “terra varonil”, tão rica e agraciada pelas condições da natureza e pela história dos pioneiros que acumularam e engendraram valiosas experiências humanas.

 

 

I

 

O TREM NO ELDORADO DA AGROINDÚSTRIA

 

 

Ainda que algumas comparações com outros países avançados apontem para a viabilidade de trem e de ferrovia cruzando o “Eldorado da Agroindústria”, o trem, para além da sua utilidade para o transporte da produção, também se presta para expressar um quadro do senso comum e da gíria, não apenas no sentido mineiro, mas, também como analogia de uma noção antropológica da vida da região do centro-oeste brasileiro.

        Muitas reportagens televisivas passaram a outras regiões do País a ideia de que aqui está sendo desvelado um grande paraíso da prosperidade econômica e social. Basta lembrar a publicidade em torno da atratividade local para investimentos.

Tal estímulo despertado, sobretudo, a partir do incremento da agroindústria, vem sendo pintado com multicoloridas propagandas, com imagens altamente sugestivas e como o que de melhor existe para os parâmetros neo-liberais de obtenção do máximo com mínimo de custo.

        Porventura não está sendo este o sonho avivado em tantas pessoas que aqui vêm buscar a sorte ou estabelecer um empreendimento com vistas a obter muitos e abundantes lucros?

        Muito antigamente, quando a cultura grega clássica despencava do seu auge de universalização, devido à gritante desigualdade social que se estabelecera na cidade, os escravos e as classes inferiores passaram a não mais aceitar a discriminação ante os privilégios de algumas categorias abastadas. Ameaçados de perda dos estratosféricos privilégios, pensadores começaram a inquietar-se. O tradicional esquema dos “rapsodos”, poetas cantadores que faziam os escravos e agricultores dos tempos gregos antigos sonhar com a vida abastada da aristocracia palaciana e continuar trabalhando no serviço escravo das lavouras, passou a não ser mais aceito pelas classes populares da época. Entretanto, um daqueles pensadores, Platão, achou uma solução fantástica para justificar que o êxito e o sucesso da cidade, o grande mito da época, exigia necessariamente a diferenciação das classes sociais. O bem-estar dependeria precipuamente desta diferenciação.

 Platão chegou a uma conclusão ainda mais fantástica quando procurou justificar o “por que” da diferença das condições sociais. Tudo isso seria uma questão nada humana. Deus é que seria a causa da distinção social e, sendo Ele o protagonista desta diferenciação, caberia ao ser humano, tão somente a condição de descobrir e aceitar o lugar social que Deus lhe estabelecera.

Elemento básico e primordial da história de cada ser humano seria o de certificar-se do componente da sua alma: se foi feita com utilização de ouro, ou de prata ou, de um produto mais comum, o latão.

        Nascia dali a fundamentação para a paidéia (educação) e o papel para tal atividade humana: a de fazer cada aluno (a), no processo escolar, descobrir o material que Deus usou para fabricá-lo (a), a fim de leva-lo (a) a conformar-se com a condição social correspondente: se a alma fosse de ouro, deveria aspirar o governo; se fosse de prata, o exército ou algum serviço público que exige subserviência e, caso fosse de latão, conformar-se em ser serviçal na agricultura ou na condição escrava.

        Mais do que justificar a diferenciação social para levar as pessoas ao conformismo e à conclusão de que a diferenciação era fundamental para o bem-estar da cidade, Platão conseguiu o milagre de convencer as pessoas a aceitar que a justificação da desigualdade fosse vista como elemento positivo, pensado por Deus, para a felicidade social humana. A malandragem de Platão, para assegurar-se no posto privilegiado do poder, foi tão primorosa e favorável para a sustentação de elites aristocráticas, que até hoje ninguém conseguiu substituí-la na história ocidental.

        No prisma platônico, a escola e os professores receberam a função de acrisolamento, ou seja, a de constituir-se numa espécie de fogo que testa o metal, para saber se é de ouro, de prata ou de latão. Neste processo de depuração, os professores teriam a incumbência de extrair dos alunos suas virtualidades, ainda latentes para o futuro da sua vida.

 Com mentirinha tão bem justificada, certamente, não foi difícil implantar um processo diametralmente inverso, o de incutir na maioria da população a clássica forma de resignação e de conformismo às estratificações sociais inferiores.

Esta história antiga, como tantas similares e parecidas, -  que ainda se perpetuam dias atuais, - leva o mundo pobre e insatisfeito a sonhos delirantes com os versos, já não mais de rapsôdos helênicos, mas, dos cantadores sertanejos e populares que enaltecem a riqueza fácil, ilícita, os amores das noites sem fim, não só dos cantores sertanejos e caipiras, mas, sobretudo, os dos discursos políticos, para uma bonita viagem de trem a um lugar de fantasia: o da vida de aparências decadentes de uma aristocracia que acumulou fortunas. Ela ainda se mostra capaz de pagar milhões em salários mensais para os que decoram as fantasias e as apresentam de forma agradável com vistas à distração das multidões pobres.

No “trem” desta viagem ao eldorado, embarcam pessoas de todos os tipos e jeitos, mesmo apertados e mal ajeitados entre muitos outros que nele entraram com os mesmos sonhos de prosperidade: desempregados se acotovelam para encontrar emprego; fracassados em negócios, andam com a cabeça aureolada de sonhos para novos empreendimentos; andarilhos se apertam ansiosos para encontrar dinheiro e comida; bem sucedidos em comércio ou produção industrial, ostentam um nariz altaneiro, movidos pela confiança de encontrar mais campo para as potencialidades de lucro; finalmente, os que já estavam sem ambições econômicas, querem também encontrar um clima agradável, que lhes propicie saúde e os eleve com a exuberância das riquezas naturais da flora, da fauna, da fartura de alimentos e das boas condições de saúde, lazer e segurança básica.

O “trem”, no entanto, mesmo que as placas indiquem e apontem para um ponto final muito feliz e de grandes surpresas de êxito, obriga, contudo, - a cada estação que encontra pela frente, - que muitos destes viajantes desçam do “trem”. Alguns ainda se agarram ao trem no desejo de avançar rumo ao eldorado prometido, mas, ainda cegos ou ofuscados diante dos reais e altos riscos da favelização, não querem mergulhar em condições sub-humanas de vida: pouca alimentação, pouquíssima segurança, saúde precária, higiene básica deficiente, educação escolar inadequada e, com muito risco de morte precoce.

No processo de evasão forçada no interior do “trem”, são obrigados a descer primeiro os analfabetos, depois os desempregados, adiante, os doentes, mais adiante, os que não possuem plano de saúde e reservas de dinheiro, os idosos, os que não são astutos, os que se movem por sentimentos altruístas e humanitários e os que sonham com uma vida mais justa e solidária; também os que se compadecem dos pequenos, dos fracos, dos doentes e dos deficientes, são obrigados a descer; o mesmo ocorre com os que não aprenderam o malabarismo das argumentações para ludibriar e convencer outros a qualquer preço.

Por fim, o trem chega ao almejado ponto final: a maioria dos vagões já está vazia. Ficou o cheiro desconfortável dos resíduos de frituras, dos banheiros que perderam o perfume dos desinfetantes, o lixo jogado pelo chão e um pequeno número de cidadãos ambiciosos, ainda que cansados, mas, ainda vigorosos na capacidade de alimentar os sonhos e o olhar perspicaz que, finalmente, poderá saciar-lhes o insondável desejo de acumular e desfrutar das vantagens desta conquista.

Laconicamente, a viagem do “trem” fez muita gente sonhar, mas, impôs uma lei categórica que obrigou a maioria dos passageiros a ficar ao longo do caminho. A ironia da audácia dos sonhos alimentados devolve-lhes a argumentação persuasiva de que, na verdade, não passam de fracos e que jamais deveriam ter-se atrevido a ir ao encontro do dito eldorado da agroindústria.

Este lugar, afinal, está reservado para algumas “almas de ouro”, beneficiadas por atributos especiais das instâncias superiores dos céus, uma vez que foram dotados pela matéria genuína e preciosa que não cabe ao comum dos mortais. Predestinados desde a concepção e ajudados pela educação a descobrir sua superioridade diante da grandeza dos céus, devem, por isto mesmo, manter-se distantes e insensíveis às mazelas das almas menos dotadas.

Os agraciados com a primazia dos bens precisam manter-se ricos, poderosos e afamados. Além de usar todos os meios públicos e possíveis com vistas a facilitar seu próprio patamar social, precisam criar mitos em torno do que gostam, do que fazem e do que investem no seu mundo de privilégios, a fim de que os pobres possam sonhar muito e desejar ardentemente tal regalia.

Afinal, para uma imagem menos hegemônica, Deus teria feito outros seres menos dotados e menos exigentes, uma vez que os engendrou com “alma de prata”. Estes, sim, ainda dispõem de um vasto campo para orgulhar-se, pois, mesmo com serviços de subserviência, ainda fruem do degrau um pouco menos saliente, mas suficientemente elevado das funções de poderem ser militares, secretários, administradores, guardas, executivos e policiais ostensivos.

Para aquela outra categoria inferior, como o próprio Deus já teria se valido de um material ainda mais comum, o “latão”, estas almas precisam realmente baixar a cabeça por serem de constituição altamente corrosiva, e não deveriam jamais atrever-se a querer ser mais do que latão. Afinal, pela ótica platônica Deus fez esta categoria para as condições inferiores, para os serviços ignóbeis e indignos. O melhor que podem esperar é servir as almas constituídas por ouro e prata. Entretanto, na função desta escória, presume-se estar algo importante, pensado por Deus para os nobres, pois seu trabalho, ainda que árduo, sofrido e mal remunerado, provoca o engrandecimento das almas de ouro.

Para os que vieram ao eldorado com a pacífica aceitação da diferenciação social e com a auto-imagem de alma superior, há muitos motivos para festas, porquanto estas podem encher de saliva a boca das almas inferiores e podem fazê-las sonhar que até elas poderiam vir a constituir-se em almas de ouro.

Como privilegiadas, as almas de ouro, além de ostentar o poder, precisam de muitas festas, especialmente, daquelas em que se adora e se enaltece seu nome, suas obras, seus múltiplos e nobres feitos em favor do bem comum e a etiqueta das vestimentas, porquanto tais rituais de engrandecimento, além de provocar uma coceira no “ego”, lhes devolvem a consciência da superioridade da sua alma e lhes permite devolver às instâncias superiores os benditos pelos incontáveis privilégios e favores com que foram agraciados, até sem merecimentos e, por mera e gratuita bondade divina...

Afinal, muito acima daquelas almas inferiores, está a dádiva da sua ostensiva opulência, vista como dom gratuito que Deus lhes concedeu, ainda que mediado pela dor, pelas lágrimas e pelo sangue de muitíssimas outras almas inferiores.

Os privilegiados da “alma de ouro” conseguem morar nos melhores lugares da cidade. Jornais e revistas privilegiam seu bom-gosto, seu requinte, sua beleza, seus gostos exóticos, as excentricidades de sua subjetividade e as coisas íntimas da sua cultura superior, mas, que não passa de um formalismo de etiquetas vazias de uma aristocracia podre.

A importância que estes presumidos seres superiores se auto-atribuem, está em copiar o que vem de fora e dos grandes centros de países ricos. Isto, além de lhes propiciar uma dupla personalidade, os torna extremamente frágeis no campo afetivo, uma vez que se movem por imagens estereotipadas de imitação que os aliena da vida local e regional.

Suas festas e rituais não conseguem exaurir suficientemente seus recursos, nem deslindar sua inesgotável fantasia. Nesta falta de fronteiras, os rituais das etiquetas os tornam sisudos, porque são obrigados a se mover por elogios de promoção e engrandecimento do nome.

Insensíveis aos que expoliam, cegos ante a dor da miséria alheia, surdos ante o clamor dos pobres, dos doentes, dos aflitos e dos famintos, não podem deixar de regalar suas noites com festas e orgias, porque ainda não se deram conta de que sua “alma de ouro” é fictícia e que cada dia mais se desmancha diante dos pés descalços dos bandos de pobres que invadem seus espaços de egolatria, de auto-adoração e, mais do que isto, que ameaçam sujar seus tapetes aveludados com o sangue da estupidez humana.

Mesmo na condição favorável das alturas, as almas de ouro, com suas montanhas de amidos, gorduras, proteínas e carbo-hidratos armazenados, não vêem necessidade de partilha com as outras almas inferiores, porque estas, afinal, foram feitas inferiores, precisamente para que eles, os pupilos de um deus imaginário, pudessem ser agraciados com alma de ouro, capaz de prestar-se como fonte de sonhos para as almas inferiores.

 Aparentemente, com todos os privilégios dos altos céus, as ditas “almas de ouro” ainda não querem enxergar que estão submetidas a uma condição altamente infeliz. Balançam segundo a intensidade dos ventos e não encontram firmeza para transcender sua própria miséria humana. Se pelo menos conseguissem captar uma imagem mais humana de um ser superior, talvez, encontrariam razões de esperança para vislumbrar um caminho mais humanitário...

 

II

 

AS FRONTEIRAS ENTRE AS MONTANHAS DE CARNE

 

 

  Se o cotidiano desta rica região do centro-oeste brasileiro vem sendo afetado por uma espantosa produção de carnes e grãos, ele não é apenas afetado por um neutro e pacífico avanço do pensamento. O aumento da produção altera substancialmente as fronteiras das relações sociais porque obriga a trabalhar segundo padrões novos e a estabelecer vínculos que fogem do quadro de formação e socialização local.

  Enquanto o cotidiano de muitíssima gente revela uma contradição dos valores locais e um sentimento alienado de inferioridade das coisas típicas desta região e do Brasil, os nomes dados às crianças que nascem, são um primeiro sinal a revelar este estranho anacronismo: aparece praticamente só nome americano e com ênfase no “W”. Chega a ser considerado grave erro de fala, alguém dizer, por exemplo, Vésley porque tem que ser “Uésley”.  Assim, até ao conhecido nome Petrobrás já foi sugerido adaptação para Petrobrax.

As lojas e os bares, para se tornarem chamativos, recorrem a painéis vistosos com nomes ingleses. Qualquer família que se preza, precisa ter seus filhos fazendo cursinho de inglês, mesmo que se revelem uma nulidade na língua desta “terra varonil”. Onde fica o brio pelas coisas locais e que deram sentido e coesão social no passado?

  Junto com a entrada massiva do pensamento, entra, nesta região, um processo que vai diluindo as fronteiras e as competências dos organizadores de grupos humanos. O retraimento ante o novo modo de vida que se manifesta, afeta, particularmente, a capacidade de iniciativas organizacionais.

  Já houve um tempo em que se destacava em excesso o papel do líder. Especialmente a Psicologia Social norte-americana de algumas décadas atrás, explorou exaustivamente a importância do líder num grupo humano e na sociedade. Isto foi se diluindo aqui na América Latina, a tal ponto que praticamente todos foram “educados” sobre a fundamental importância de estarem submetidos a um líder para qualquer tipo de organização da vida: na religião, na política e até no populismo que manipulava as classes populares, todos precisariam estar sujeitos a um grande líder.

Veio, depois, uma fase em que se contestou a excelência do líder, porque tal enaltecimento dos dotes inatos de algumas raras pessoas, poderia representar uma forma de levar as demais pessoas à resignação e ao conformismo. A lenta democratização, depois da desastrada ditadura militar-corporativista-agro-pecuária brasileira da década de 60 e 70, despertava os anseios de participação e democracia. Afinal, já não se aceitava que um líder pudesse ser nato e que toda uma comunidade tivesse que sentir-se amparada e manipulada pelos dotes desta pessoa especial. Tampouco, se aceitaria que certo fulano, tido como líder, merecesse a partir desta atribuição, alguma confiança ou melhores créditos.

 Na sustentação da importância do líder se escondia outra importante noção: a de que a massa humana é irracional e incontrolável. O único jeito de mantê-la dentro de certos parâmetros de controle, seria o de enquadrá-la sob certos quadros de manipulação e submetê-la a um líder carismático.

 Daí porque se fazia treinamento para líderes a fim de que o carisma nunca pudesse fugir de certas regras de controle. Veiculava-se, então, a noção de que a grande massa humana não teria capacidade coordenadora e que, uma massa humana não controlada por algum líder, representaria uma grave ameaça de convulsões sociais e de insubordinação aos planos imperialistas norte-americanos.

Em consequência disto, vinha o desvelo de uma particular preocupação em torno das instabilidades político-sociais da América Latina, onde nem mesmo as ditaduras militares conseguiam estabelecer ordem segundo as almejadas instâncias de controle.

 Indiretamente, a sustentação também enaltecia o papel de uma elite governante, sobretudo, se são levados em conta o peso da procedência étnica e do nome da família para o exercício de papéis de governo. Ainda hoje, podemos ouvir representantes dos altos escalões de governo insistindo na tecla da falta de um líder.

  O ato de insistir na importância do líder, equivale, por outro lado, a uma sutil afirmação de que a democracia não é viável. Alguns privilegiados devem fazer as coisas pelos outros. Ademais, como seria um governo onde todos pudessem mandar?

  Na dimensão cultural, o paradigma pós-moderno é também uma bela ilustração do quanto atualmente se deseja que não apareçam nem líderes e nem estruturas capazes de coibir os mais variados sentimentos humanos. Nesta aparente diluição das fronteiras de tudo quanto é imaginável, há, contudo, um contorno previsto e calculado para melhor contê-los numa fronteira quase imperceptível ao senso comum. Se os discursos enaltecem a vida fácil, solta, consumista, da festa e do prazer, porque ainda preocupar-se com o sentido da vida?

Basta curtir a vida e fruir as insondáveis chances de felicidade que deslizam por toda a parte. Para tanto, não se carece nem mesmo de regras ético-morais ou da memória do passado para a vida e para a convivência humana. Cada um pode viver, simplesmente, as sensações do momento, ou seja, viver o “aqui e agora” sem referência a projetos, especialmente os universalistas.

  Bem se sabe que a globalização da economia tende a induzir para este modo cultural. Ainda que as multicoloridas insinuações em torno de uma vida mais solta, desatrelada de princípios religiosos, ético-morais e de experiências gratificantes do passado, pareçam o melhor horizonte para uma vida feliz, há, contudo, uma fronteira que enquadra numa espécie de pocilga maior.

Os benefícios de renunciar ao passado, à noção cultural, à religião e a tantas coisas que fazem parte da organização humana, quando todo mundo é controlado pelas conversas de alguns donos dos bens culturais, acabam levando todos à submissão do mesmo controle.

  Um técnico da maior processadora de carnes da América comentava que nos muitos experimentos com vistas à maior produção e lucratividade com a carne suína, estava se aplicando uma técnica humana de desarticulação das pessoas até mesmo aos porcos, para que estes pudessem apenas engordar o mais rápido possível.

Teria sido observado que os leitões, ao serem submetidos ao desmame e colocados em grupos de trinta a quarenta, numa repartição do chiqueiro, passavam alguns dias de briga, até que se firmasse um único líder sobre os demais. A partir de então, todos se submetiam ao controle deste leitãozinho, metido a líder. Eventual entrada de leitão estranho a este grupo, correria o risco de ser agredido e até eliminado.

 Para evitar este tempo precioso em que os leitões deixavam de engordar, porque brigavam, se mordiam e se machucavam, experimentou-se juntá-los em quantidades de algumas centenas ou milhares numa única repartição. O grande aglomerado anularia a capacidade de organização, de descoberta e de submissão a um líder. Sem ter como se organizar, os leitões acabariam ocupando este tempo, tão fugaz, para consumir mais, engordar com maior rapidez e, além de tudo, gerar ainda mais divisas.

  Assim, a propalada globalização, pelo menos sob alguns aspectos, interpela com uma situação paradoxal: ou muitos líderes defendendo as peculiaridades locais segundo os distintos agrupamentos humanos, ou a do desmantelamento de todas as regras a fim de que todos se subsumam numa única tarefa: a de consumir. Neste caso, alguns grandes produtores e controladores de poder terão uma insondável segurança nas mãos: ninguém vai ameaçá-los e tampouco desestabilizá-los do poder que desfrutam.

A diluição das regras e a aparente liberdade, talvez sejam mais prejudiciais para a organização da vida do que possamos pensar à primeira vista.

 

 

 

 

 

 

III

 

 

DEPOIS DAS RECEPÇÕES INICIAIS

 

 

  A herança histórica de um dos grandes mitos brasileiros, o da cordialidade da gente deste “berço esplêndido”, move intensamente o imaginário coletivo, no sentido de exaltar a tão genuína e presumida qualidade. Na cordialidade, aparece muito evidente o antagonismo dos dois mundos culturais: o do cotidiano e o do pensamento.

  Estaria o “jeitinho brasileiro”, de acolher as pessoas com tratos afáveis, sendo realmente uma especificidade deste povo?

Talvez, para perpetuar o mito, haja, pelo menos, um esforço e certo exagero nas saudações de acolhida, sobretudo, nos aparatos dos gestos e na intensidade do timbre na fala. Entretanto, o que acontece depois da acolhida, parece revelar um sangue mais colérico e a expressão não-verbal deixa transparecer muito mais a apatia e a indiferença do que a eufórica recepção.

  A história recente do País brasileiro aponta conflitos étnico-culturais e sociais ainda não adequadamente ajustados.

  A influência francesa das teses de Gobbinneau a respeito da inferioridade de algumas raças constituintes do povo brasileiro, fez com que - há bem menos de cem anos atrás, - intelectuais brasileiros, como Nina Rodrigues, Sílvio Romero, Euclides da Cunha e outros, chegassem a pensar, que o Brasil somente teria condições de superar a inferioridade que apresentava frente aos países europeus, mediante o branqueamento dos povos africanos e indígenas, tidos como inferiores à raça branca da cultura européia.

  O processo de branqueamento levaria muitas décadas, mas, seria o caminho mais plausível para levar o povo brasileiro a um nível de vida mais próximo daquele vivido pelos europeus.

  Este lamentável etnocentrismo racial só deixou de ser considerado, não pela sua dimensão absurda, mas, porque na década de 1930, interesses do governo populista de Getúlio Vargas, precisavam exatamente destas raças, tidas como inferiores, para a barata mão-de-obra da emergente industrialização brasileira.

  Foi então que o renomado antropólogo brasileiro Gilberto Freyre deixou de justificar o branqueamento das supostas raças inferiores para exaltar a criação de um novo mito, o do “brasileiro trabalhador”.

 Velava-se, deste modo, uma longínqua história envolvendo rotulações de que estas raças inferiores eram indolentes, vadias, preguiçosas e incapazes para um serviço segundo os ditames do iluminismo europeu.

  O novo mito do “brasileiro trabalhador” precisaria também de um encobrimento das muitas tensões e conflitos históricos entre as etnias aqui estabelecidas.

 Por astúcia ou por cega subserviência, o mencionado antropólogo passou a justificar que o Brasil teria sido o único paraíso do mundo onde a integração de três raças distintas se encaixou de uma forma completamente harmônica e pacífica, fenômeno que teria acrisolado as virtudes comuns de povo pacífico, ordeiro, cordial, trabalhador, alegre e festivo.

  O novo mito, plenamente favorável ao populismo manipulador das tensões e reivindicações populares, além de encobrir o real conflito racial, ainda hoje muito distante de estar equacionado, facilitava o controle das classes populares.

  Uma síntese das três grandes etnias que compõem o quadro social brasileiro, de fato, poderá algum dia, vir a tornar-se uma fantástica riqueza para o gênero humano, sobretudo, pela assimilação das riquezas peculiares de cada uma das raças constituintes do povo brasileiro. Isto, todavia, requer um trabalho consciente que permita integrar os eixos articuladores mais fortes de cada raça: o trabalho dos descendentes europeus; o lazer da descendência africana e o ócio da raça indígena.

  Se europeus e descendentes de raças européias priorizaram demasiadamente, aqui no Brasil, o ato de produzir e inventar, tal centralismo os levou a uma vulnerabilidade quanto à hipertensão arterial, problemas digestivos por excesso de preocupação e prejuízos físicos por renitente obsessão no trabalho.

Para estes, lazer e ócio constituiriam um ótimo tempero e um gostoso condimento para dar mais gosto à dimensão do trabalho e permitir-lhes-ia dispensar muitos betabloqueadores, calmantes e soporíferos.

  Aos descendentes africanos, discriminados do acesso aos principais bens simbólicos da cultura, o direito de produção mais autônoma e menos subserviente aos donos das indústrias, lhes daria mais liberdade e condições de vida muito mais prósperas.

  Os indígenas e seus descendentes, tão discriminados e excluídos porque não se submetem à austeridade e ao rigor sistemático dos processos de produção dos brancos europeus e até das formas de lazer dos afro-descendentes, uma produção mais estável e regular poderia assegurar-lhes mais conforto, mais higiene e melhores condições básicas de vida.

  Tal síntese racial evidentemente ainda está por acontecer. Seria, por conseguinte, uma ilusão supor que o ajustamento das raças aconteceu de forma harmônica.

A harmonização das etnias sempre foi muito tensa e continuará, com certeza, por muito tempo, até tornar-se tolerável, se é que isto um dia possa vir a acontecer. Ainda que publicamente se use da falácia para dizer que todos têm direitos iguais, persiste, de forma subliminar, uma discriminação muito forte por parte de qualquer uma das etnias do processo social brasileiro.

  A lamentável condição político-econômica brasileira, que atualmente vem forçando um intenso migracionismo interno no País, aviva de forma particular as censuras, reservas, medos e resistências étnicas, particularmente, na região do centro-oeste brasileiro.

  Na saudação e nas conversas de etiqueta ou de aplicação dos mitos, parece que tudo é conduzido na paz e no bem-querer. No entanto, na sutileza das piadas, dos chistes, das anedotas e dos causos, subjazem muitos sentimentos de rejeição.

 Basta ver que, até por regiões nacionais de procedência, ocorre discriminação, e, está muito diluída nas ironias das conversas.

 De forma geral, tolera-se com mais facilidade uma pessoa procedente de outra nacionalidade do que um descendente estrangeiro vindo de outra região brasileira. Afinal, se é um ou outro estrangeiro que aparece, ele precisa adequar-se aos costumes vigentes para sobreviver no quadro cultural e ele não representa nenhuma ameaça aos costumes locais; mas, quando diversas pessoas de outra região brasileira aqui se estabelecem, elas, mesmo sendo recebidas com boas-vindas, representam ameaça aos quadros do “ethos” cultural estabelecido (jeito de conceber o mundo as coisas, as pessoas, envolvendo costumes, hábitos, praxes e crenças...).

  Por trás das etiquetas movem-se sentimentos reais que nem sempre são de acolhida. Daí a força do disfarce nos elogios que, costumeiramente, não passam de palavras polidas, mas, que cruzam distantes dos reais sentimentos do coração.  Acima do princípio de contradição entre atração e repulsa, funciona a defesa de quem esconde, por trás do elogio, um sentimento marcante de resistência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

IV

 

A RUA COMO LUGAR DA PATOLOGIA SOCIAL

 

 

Nada melhor para ilustrar o antagonismo entre o cotidiano e o pensamento do que observar as ruas e avenidas.

A rua é um elemento central da edificação da cidade moderna. Nenhum espaço é mais evidente do que a rua para visibilizar a diferenciação social e o antagonismo que se manifesta tanto na qualidade de algumas ruas em relação a outras, quanto no que ladeia as ruas: casas miseráveis e mansões suntuosas, capazes de afrontar a clássica diferenciação das classes sociais.

 A simples classificação de centro, periferia, vila, bairro residencial, bairro operário, favela, etc. revela as profundas desigualdades sociais que ali se manifestam, seja na plena e irradiante luz solar do dia, na luminosidade romântica do luar, ou na mais abscôndita escuridão da noite.

As últimas décadas foram particularmente favoráveis para separar de forma evidente e preclara o distanciamento de lugares, formas e sujeitos que não querem perder nenhum privilégio conquistado e somente favorecer, na melhor das hipóteses, os que são da sua categoria, a fim de que se constituam em grupo coeso. É assim que se ostenta o lugar dos funcionários de banco, dos dentistas, dos médicos, dos agrônomos, dos advogados, enfim, das entidades que se auto-interpretam com certo status nos bens simbólicos da cultura estabelecida.

Se a rua, de um lado separa todos estes mundos que se engendraram nestes últimos anos, ela passa a constituir-se, também, num outro e novo espaço, o espaço do consumo, da eletrônica, da telemática e da visualização de todo tipo de combinações aleatórias que possam levar ao aumento de desejos. Assim, na medida em que desaparecem as tradicionais vinculações, como partido, classe, ideologia, religião e família, a mistura desordenada acaba criando um mundo tão hiper-real que a rua já não comporta ordem e elementares regras de eficiência. Ali tudo se atropela em função das grandes promoções, dos shows, dos mercados, dos anúncios, e dos encantamentos pelo que se encontra atrás das vitrines. Os que já não suportam esperar numa fila de alguma atividade religiosa, se submetem com relativa resignação às enormes filas de bancos e lotéricas, estes, os grandes reveladores da religião real que prevalece na vida desta região... Já não há necessidade de um Deus de experiência, mas basta o prazer haurido do que os olhos podem visualizar e que levem os indivíduos a deslizar, a patinar, se não é no real das escadas rolantes, dos elevadores, dos carros, das motos, das bicicletas e dos skates, então no mundo solto da imaginação, na fantasia dos espetáculos, dos vídeo-games, dos caça-níqueis, dos parques, das loterias, enfim, onde se pode escorregar até o infinito, fruindo o que cada nova visualização desperta.

Embora a rua esteja constituída em espaço trágico e de tragédia como a vida da “pólis” grega, na fase da decadência urbana do período clássico, continua, entretanto, a ser o lugar unidirecional para revelar os estilos, os poderes econômicos, as excentricidades, os estereótipos consumistas, os modismos e a mistura do trágico com o cômico, do triste com o alegre, da sério com a irreverente, do bom-senso com a estupidez.

 A rua revela não só a condição do lugar que se habita, mas, também as concepções coletivas, as tensões, as resistências culturais.

 Apesar da sinalização moderna, muita gente parece ainda não ter-se dado conta da mudança cultural e anda na rua como se fosse uma estrada de vilarejo, na qual se pode andar na contramão, estacionar em sentido contrário, ultrapassar pela esquerda e pela direita, parar no meio da pista para conversar com outro motorista, dirigir atendendo telefone celular ou ingerindo sorvete, ou, ainda, imprimindo uma velocidade, abusada além dos limites, ou tão lenta que congestiona o trânsito e, pelo que parece, somente para chamar atenção, sem o menor constrangimento ante a impaciência dos outros, que precisam esperar, quer gostem ou não, quietos e calados, à moda dos velhos “coronelismos”...

Enfim, a rua é o lugar onde parece prevalecer o direito de cada pessoa poder andar do jeito que acha bom e se apossar dos espaços, desatento às mais básicas regras oficiais para o trânsito, sejam da indicação que forem. Já não parece ser um lugar de pensamento.

 Pedreiros, ao construírem casas ou reformarem lojas, ocupam, sem maiores inquietações, todo o espaço do passeio com material de construção e artefatos para o serviço, e estendem sua área de serviço até mesmo para a pista de trânsito, a fim de ali preparar concreto, massa de levantamento e depositar seus equipamentos.

 Ciclistas jogam a bicicleta no meio da calçada enfrente às portas de lojas, dos bancos e parecem sequer se importar com o que isso possa representar para outros transeuntes...

 Assim, uma observação simples e fenomenológica, permite reparar ainda muitos outros elementos contraditórios no espaço da rua.

A rua parece ser o espaço da ausência de sensibilidade quanto a uso e abuso de som, de descarga de carros e de motos. A rua é uma verdadeira parafernália de poluição acústica; lugar de lixo jogado de qualquer jeito e em qualquer lugar, de cacos das garrafas de cerveja, de copos descartáveis e de outros produtos plásticos espalhados por toda parte, sobretudo, nos lugares de comícios políticos, festas populares, escolas e de outros eventos festivos.

 A calçada ou lugar reservado aos pedestres, especialmente nas principais ruas e avenidas, apresenta uma ocupação múltipla: para uns, é o lugar da venda; para outros, é a sala ampliada para colocação de cadeiras, bancos e rodas de conversa; para outros, é o lugar do estacionamento da sua moto ou do seu carro, nada se importando com o que um pedestre precisa fazer para contornar o espaço territorial reservado; para outros ainda, é o lugar para as conversas de grupo, para sentar e tomar cerveja, para vender espetinho e lugar para observar os transeuntes.

A calçada é também o lugar do despejo das folhas que caem no pátio da casa, o lugar para jogar fora os resíduos fecais do cachorro; o lugar para se jogar tocos de cigarro, restos de alimentos, embalagens descartáveis de picolés e tantos outros produtos de venda, como se fosse o pátio de uma Fazenda, onde cachorros, galinhas, patos e outros animais domésticos se encarregam de fazer a reciclagem.

Evidencia-se, ao mesmo tempo, uma notável falta de atenção, de cuidado e de conservação dos bens públicos. Na verdade, uma clara ambigüidade entre o cotidiano e o pensamento.

 Enquanto se deixa a casa limpa e bem ajeitada, não se tem nenhum escrúpulo para jogar o lixo na rua ou na calçada ou para manter a calçada em condições transitáveis para pedestres. Afinal, pedestre merece calçada?

 Talvez seja resquício de um hábito rural, que permitia jogar janela ou porta a fora qualquer tipo de lixo, porque os animais domésticos se encarregavam de fazer o processamento destes produtos.

Percebe-se, pois, que muitas pessoas pensam e justificam regras e comportamentos decorrentes da forma como vivem, e outras, vivem movidas por pensamentos, planos, desejos, e, compulsões de superação.

A polarização entre o cotidiano e o pensamento, enquanto medição de forças de defesas e antagonismos, não leva a grandes avanços, porque o razoável, com certeza, precisa envolver os dois pólos e gerar uma nova síntese.

De qualquer forma, existe o embate em que, uns, se esmeram pelo avanço do pensamento, e outros, relutam e resistem com as formas do cotidiano, ou seja, vivem no espaço urbano como se este fosse um povoado agrícola: daí a prevalência do espontâneo e das regras que se impõem sem vínculos relativos ao que ocorre em espaços urbanos maiores.

O desencontro entre cotidiano e pensamento se revela também nas formas de criar gado, na suinocultura, no estilo de produzir leite e outros produtos agrícolas, pois, neles se manifesta uma contraposição clara entre formas extremamente simples e arcaicas, ao lado de tecnologias de ponta e com altíssima produção. Afinal, quem estaria mais certo?

   O antagonismo, remetido para o campo ético, leva a uma pergunta que implica numa contraposição mais radical: seria melhor viver-se de formas menos modernizadas, tendo picadas de atalho no meio do cerrado e das matas fechadas em vez de pistas de asfalto, e ter a cordialidade, o valor da pertença a uma comunidade, o significado do parentesco, das amizades, do amparo na alegria e na morte, do que ter todo este progresso de auto-pistas, asfaltos, shoppings, arranha-céus, lojas enfeitadas, status, etiquetas, tecnologia, carrões, unidades de tratamento intensivo e, ao mesmo tempo, encontrar tanta frieza, solidão, tanta droga, tanto assalto, tanta doença, tanto vazio existencial, tanta tensão,  tantas crises de desânimo e tantas mortes estúpidas?

 

 

 

V

 

CORDIALIDADE E ETIQUETA

 

 

  Com certeza, já antes dos nossos tempos modernos, fatores variados levaram pessoas a entrar em estados de ansiedade e depressão, apesar de todas as formas de pertença e de praxes sociais.

 O fenômeno da urbanização moderna traz, todavia, além da fantástica rapidez e multiplicação dos signos de comunicação, uma cordialidade artificial, equivalente a etiquetas sociais e que predispõem para fatores depressivos relacionados à perda do sentido da vida. Na Antropologia, tal fenômeno passa a ser interpretado como tédio, uma nova doença urbana.

  Segundo o Logoterapeuta austríaco, Victor Frankl, a grande doença do nosso tempo, já não decorre tanto dos desajustes de estágios do nosso passado, mas, muito mais da falta de um horizonte de fé e de sentido para o futuro distante. A doença da maioria das pessoas está na sua incapacidade de se projetar para além do momento presente de crise, depressão, qualquer outra dificuldade, ou da inércia para sair de uma situação estabelecida.

Diante da rapidez e da fugacidade dos pequenos momentos de felicidade em nossa vida, podemos perceber que o tédio pode estar diluído em todos eles.

O tédio não resulta, apenas, da frustração diante das idealizações de felicidade, mas emerge, atualmente, da grande multiplicação dos signos de linguagem e de imagens, através da eletrônica e da informática, ou da tele-informática.

O tédio parece, por conseguinte, resultar de um sentimento de saturação. Quando se tem a sensação de saber tudo sobre tudo, surge um sentimento de mal-estar, porque já não há mais expectativa de empolgamento, de novidade, de surpresa, ou de algo inusitado e novo.

Sobra, então, o sentimento enfadonho de desconforto e de insuportabilidade do que está por vir a acontecer. Tal situação, estreitamente ligada a um tipo de entendimento cultural repassado pela educação ambiental, dissolve o ator social e, por conseguinte, engrandece o narcizismo solipsista que faz os indivíduos se subsumirem na vivência do agora, de forma autônoma, mesmo que seja criativa, mas num horizonte de dependência a um quadro consumista que a vida urbana desperta. Por isso já se usa na Sociologia um novo conceito para explicar a vida dos sujeitos urbanos. Eles vivem uma “anomia” subjetiva. Quando Emile Durkheim interpretou a sociedade da revolução industrial como anômica, ou doente, apontava como causa a falta de regras sociais e regras mais rígidas. Atualmente, contamos com inúmeros códigos de regras sociais a ponto que qualquer atitude pode ser justificada ou condenada. Em contrapartida, vive-se a anomia subjetiva, isto é, rodeados de pessoas que querem todos os direitos imagináveis, todas as regalias, todas as vantagens, mas, que não admitem nenhuma regra e nenhuma cobrança sobre o seu modo de agir e pensar. Afinal, os outros precisam ser instrumentos para propiciar este desmesurado desejo. Precisam as suas virtualidades favorecer para que tal aspiração subjetiva não sofra percalços.

O que poderia, por conseguinte, uma aglomeração urbana, como a das simpáticas cidades, significar ante a histórica predominância do mundo tradicional das fazendas e sítios de interior, a ponto de gerar o tédio?

  A cidade, tida por muitos como a grande revolução do mundo ocidental, vem processando uma série de transformações de cunho antropológico. Aparecem, ali, características muito diferentes do que aquelas típicas do mundo rural.

Lá, o reconhecimento do parentesco, da vizinhança e da comunidade, era (e ainda é) marcado pela cordialidade. Há muitos rituais de saudação e de expressão da cordialidade, como os gestos de pedir a bênção aos adultos e mais velhos, dar-lhes um abraço ou beijo de saudação, etc.

No meio urbano, este traço vem sendo substituído, paulatinamente, pela etiqueta. Esta característica de agregação social separa por níveis de status, de veste, de cargos, de tipos de profissões e de reflexos do poder aquisitivo (“É o seu Fulano e a senhora Beltrana”). Convidam-se apenas certas pessoas para ocupar espaços nos palanques públicos, mas, também os tomadores de pinga dos bares não aceitariam partilhar o trago com certas pessoas engravatadas e vestidas no rigor social do destaque das modas.

  Enquanto que, no meio rural, as instituições do trabalho, da família, da religião, da política, etc., são tidas como fatores de realização e bem-estar, na cidade, estas fontes de realização, ou de felicidade, são propugnadas, endeusadas e apontadas nas variadas formas de conquista e de lazer.

Os valores tão específicos de realização das comunidades rurais, como formas de vivência da religião, modos de envolvimento político e o estilo de vida familiar, na vida urbana, perdem seu significado e, em seu lugar, aparece muito evidenciado o lugar do lazer.

 Ao tempo livre atribui-se a correspondência, pelo menos nas argumentações discursivas, do paradisíaco sonho de liberdade, a possibilidade de expressão do corpo e as práticas que induzem a prazer.

Nos ambientes rurais, a tradição exercia papel fundamental na organização da vida. Ali eram valorizadas, primordialmente, certas práticas culturais, como o do respeito aos mais velhos, respeito às autoridades, o privilégio do social sobre o individual, etc.

Naquele quadro, a religião era vista como fator de coesão e de pertença social; a família tinha uma importância fundamental na vida, no trabalho e na comunidade.

O lazer não era visto pela sua dimensão pessoal, mas pela dimensão coletiva.[1]

  No quadro do mundo rural, todas as pessoas tinham que trabalhar a partir da intimidade do lar e sob o controle dos mais velhos.

Na cidade, processa-se uma mudança significativa em relação ao trabalho, porque ele passa a ser visto, não como inerente à realização humana, mas, como mera mediação para o alcance de condições de lazer.

 Muitos suportam o trabalho porque idealizam o que vem depois: festa, bebidas, passeios, encontros, comilanças e outros passatempos.

  O lazer vem sendo insinuado como sendo a mais bem elaborada produção da civilização humana e como o maior propiciador de felicidade. É o grande símbolo do pensamento. Basta lembrar o incremento que se dá ao turismo, às viagens, às praias.

 As férias de fim-de-ano, os pacotes de excursões, as viagens ao exterior, aos campos, aos balneários, tudo parece pintar um grandioso quadro de felicidade. O endeusamento destas fontes de lazer parece evidenciar que nele se idealiza uma velha concepção maniqueísta e que estabelece dois pólos opostos: um, que orienta para escolher o do bem, que é o lazer, e o outro, que deve ser rejeitado, que é o cansaço do trabalho.

O lazer começa a povoar todo o imaginário coletivo em torno das possibilidades de viajar, conhecer, conquistar, desfrutar... Em função disto, organiza-se muito espaço de tempo para “malhação”, exercícios e “curtição”, numa nova forma de instauração do velho mito da eterna juventude.

A atribuição, que uma vez era dada ao campo religioso para o alcance da felicidade e realização dos seres humanos, agora, é, supostamente, fornecida pelos incontáveis atributos que o lazer pode propiciar nas cidades.

Tal deslocamento abre uma ambigüidade: uns procuram esta realização num certo tipo de programa musical, outros em caminhadas, outros ainda em esportes, teatro, cinema, etc., e o que os atrai, via de regra, nem chega a ser uma opção pessoal, mas a mera aproximação de gostos similares, despertados pelos meios de comunicação de massa.[2]

  A idealização do lazer, produzida por classes dominantes e privilegiadas para o sonho dos pobres e dos que não tem acesso ao lazer, parece repetir a velha estratégia do tempo mitológico grego, no qual a aristocracia dispunha de rapsodos (poetas cantadores), para cantar ao povo os versos que enalteciam a aristocracia, visando fazer com que todos viessem a sonhar com a dita “aristocracia” e suportar o pesado fardo do trabalho escravo...

Como muitos não aceitam a resignação, tentam um acesso imediato às condições privilegiadas do lazer através de roubos, jogatinas, apostas em loterias, negócios obscuros, assaltos, contravenções e golpes econômicos.

Afinal, se o trabalho é tão humilhante e mal remunerado, porque não buscar o lazer de forma mais fácil e a qualquer preço, já que é apregoado como sinônimo de felicidade? Entretanto, mesmo que alguém atinja condições de lazer por vias fáceis, persistirá ali uma contradição: o que aparentemente deveria constituir-se em algo saudável, se torna altamente controvertido porque se limita a uma ostentação banal de modas e modismos consumistas e que leva muita gente à beira dos limites de uma vertigem de fama, de beleza, de ousadia, muito próximos da loucura e do suicídio.

As corridas noturnas dos “filhinhos de papai”, o uso e abuso do álcool, o excesso de comilanças e o consumo de outras drogas, tanto as legalmente permitidas quanto as proibidas, significam um evidente mecanismo de morte e de destruição de si mesmo.

Tudo isso, ao invés de felicidade, aponta muito mais para a experiência do tédio, da desesperança, da falta de gosto pela vida, da ausência de bom-senso, do que para sentimentos de felicidade e se mostram mais propensos para o velho adágio romano do “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”. Mas será que lazer é apenas comer, beber e curtir sensações físicas agradáveis?

 Revela-se um triste quadro da vida manipulada para comer e beber. Afinal, o que se oferece num calçadão, e no sem número de bares e lanchonetes?

  Ainda que a felicidade seja buscada, freneticamente, nas mil oportunidades de lazer, ele direciona eminentemente para o tédio, porque os tipos de praxes sociais são causadores deste sentimento de saturação.

Se não se leva em consideração este quadro amplo, muitos sonhos acalantados com grandes expectativas de felicidade, na verdade, propiciam vazio, decepção, desesperança e tédio.

  O estabelecimento de um patamar muito elevado e fictício para o lazer, como viagens, programas e encontros, leva a não dar valor a importantes fontes e fatores de prazer, geradores de momentos de felicidade cotidiana, mas, que não advêm daquelas tão destacadas do campo do lazer.

Tais fontes, decorrentes de um modo de conduzir-se na vida, poderiam preencher muito mais o tempo cronológico e a concepção do lazer, não como o de algumas práticas, mas como o rumo ou sentido, em função do qual se conduz a vida.

  O mito da existência interminável de produtos e o da infinita continuidade de uma sociedade consumista, mais impede do que é capaz de propiciar fatores de realização pessoal: a simples submissão ao que é distinto e inédito no momento, com vistas a encontrar maior gozo e maior número de fatores de excitação da adrenalina no sangue, revela indivíduos à busca de si mesmos, todavia manipulados pelos excitantes que a própria sociedade condena, mas, lhe apresenta com persuasão todos os dias.

Tal insinuação contínua de experimentação de tudo quanto provoca sensações consumistas desvia a chance de haurir fonte de prazer em incontáveis outras formas que estão além do ato de “curtir”.

  Nesta busca, gera-se uma crise de identidade porque a auto-imagem e a auto-estima dependem precisamente da percepção de que outros manifestem sinais de estima e valorização.

A clareza em torno do que cada pessoa sintetiza sobre si mesma depende da relacionalidade, ou seja, do modo como a hetero-imagem afeta a interação. Portanto, o presumido mundo de indivíduos fechados sobre si mesmos na busca de felicidade, não pode efetivar-se por uma razão muito simples: o fator que desencadeia sensações de felicidade está truncado porque depende do bom relacionamento com outros.

  Se mulheres agricultoras uma vez conseguiam organizar-se na vida com 13 ou 15 filhos, uma mulher, na cidade, tendo um ou dois, já não suporta o cansaço por estar levando seu pimpolho de um lugar para outro, para preencher-lhe o dia e até os sonhos da noite: aulas, cursinho de dança, de música, de natação, de ginástica, de inglês e de informática...

As crianças já revelam, pela sua forma de olhar, a saturação de tudo isso. Neste processo de saturação, está, igualmente, em jogo uma rivalidade fora do comum e uma verdadeira obsessão de corrida à precocidade.

Parece que o único assunto interessante para as conversas é o de poder contar vantagens relativas ao que o “filhinho” e a “filhinha” já conseguem fazer com menos idade do que outras crianças.[3]

Mais do que educação para uma normal e sadia relacionalidade, está em jogo uma acirrada rivalidade da ótica iluminista de superação e que pressupõe o rebaixamento dos outros para a auto-ascensão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VI

 

SINGULAR E PLURAL

 

Esta cobiçada região do contro-oeste do imenso Brasil vive um impacto ambiental e humano que remete para uma tensão humana, tão antiga quanto à da existência dos hominídeos, mas, também indica o confronto do cotidiano com o pensamento.

A tensão envolve o conflito entre o novo e o velho, entre a superação e a estagnação, entre a certeza da experiência e o risco da novidade, entre o conformismo e a busca de novidades, entre a resignação e a não aceitação da forma como as coisas acontecem, enfim, entre o cotidiano e o pensamento...

O limiar desta tensão impõe duas situações que se estabelecem como contrárias. De um lado, vive-se a saudade, a própria defesa e a busca da hegemonia do cotidiano sobre tudo quanto se articulou no passado remoto desta terra; do outro lado, entra massivamente o avanço da vida racional, a busca da eficiência, a inovação tecnológica e o lucro calculado pelas últimas fronteiras do sistema capitalista.

Enquanto que, para os autóctones, os hábitos, os costumes e as praxes do passado desta região constituem as razões mais fortes da vida, para muitos outros migrantes que chegam a esta terra, a predominância se estabelece sobre o pensamento racional e sobre o desejo de haurir das condições desta região o necessário êxito acalantado por sonhos, cálculos e propagandas.

Para os nativos, a entrada das estratégias da racionalidade, da sistemática e da rigidez no trabalho, significa uma terrível ameaça aos costumes ancestrais, ao trânsito sem regras, ao pequi com arroz, ao frango caipira, à gueiroba e às muitas outras expressões culturais que lhes deram sentido e sentimento de amparo.

 Para os que vêm movidos por pretensões de superação, inquieta a falta de ritmo, de rigor, de persistência, a falta de compromisso pela palavra dada, enfim, a sutil contestação de sua presença e, seu silencioso protesto contra o espalhafatoso progresso, porque lhes tira o espaço vital, ou seja, toma o lugar do mundo no qual cresceram e viveram.

Quem estaria no direito de atirar a primeira pedra para espantar o adversário?

Os representantes da postura que privilegia o cotidiano têm motivos de sobra para uma justificação do seu modo de vida, mas, também os movidos pela racionalidade dos que aqui aportaram e dos que aqui cresceram movidos pelo campo do pensamento, animados pela busca dos ideais despertados pela mídia, querem a realização das aludidas ofertas.

Fica, assim, estabelecido, na arena cultural, um duelo em que o cotidiano e o pensamento se defrontam e cada um presume contar com as forças suficientes para nocautear o adversário, a fim de que a grande platéia possa condecorá-lo com aplausos e o merecido reconhecimento.

Se os mais afoitos na atividade intelectual se acham na condição de interpretar a alma coletiva que aqui foi engendrada, os defensores desta expressão de cultura local, também se consideram no justo direito de salvaguardar seu patrimônio e interpretar a invasão cultural dos chamados forasteiros vindos de outras terras, que, pelo menos, pretende conquistar uma superação do que considera um particularismo local.

Neste jogo, da cultura como experiência e da cultura como projeto de superação, está a crise da “minha cultura” com a “nossa cultura”.

A evidência, no entanto, mostra que não é possível viver apenas com os valores locais, mas, a vida tampouco se torna razoável quando apenas é movida por ideais e referências que estão acima e aquém dos valores locais.

Quando é afirmada, demasiadamente, a dimensão local, perde-se a referência com o universal; e, caso se afirme excessivamente o universal, torna as pessoas inadequadas ante a vida local e cotidiana, que, na verdade, é imprescindível para a normalidade da existência.

Basta verificar pessoas que presumem viver um ar universalista e se movem por etiquetas e modas de grandes centros internacionais, para reparar como são altamente impróprias e inadequadas nos ambientes de cultura local e regional.

Corre-se, deste modo, o perigo de combater o imperialismo para salvar a identidade local e a de perder essa identidade ao subsumir nas fauces do imperialismo.

A maior parte da história humana tem a marca e o predomínio dos valores que se impõem como universais e mais convincentes do âmbito racional.

As incontáveis tentativas de romper esta ingerência, sobretudo, para salvaguardar os traços locais ou regionais, normalmente, não conseguem quebrar uma forçada resignação e uma humilhante impotência ante a totalidade. Mesmo quando ocorre uma vitória parcial, aparecem outras insinuações estrangeiras que acabam se impondo à força.

Como, então, salvar valores autóctones e integrar outros da dimensão mais ampla da cultura que nos envolve?

A evidência é a de que não se consegue pautar a vida apenas pelos valores locais, ainda que a reação espontânea indique mecanismos de defesa ante a entrada massiva de outros valores.

Parece que a reação espontânea é parecida com a de andar num ônibus. Enquanto meia dúzia de pessoas ocupa os assentos, a conversa tem um fluxo e um nível bem natural. Entretanto, na medida em que entram outros passageiros estranhos, tende-se a diminuir a naturalidade da conversa e começa a ocorrer uma reserva territorial, isto é, se alguém ocupa um assento, coloca a sacola no assento do lado para dizer, numa linguagem não-verbal, que não deseja que outra pessoa queira sentar-se ao seu lado.

No entanto, como os outros passageiros pagaram seu bilhete de passagem e tem os mesmos direitos de assento, acaba aceitando que alguém se assente ao lado, mas, não se sente à vontade para conversar com esta pessoa. Disfarça um sono ou um olhar distraído para o outro lado.

Algo similar ocorre em nossos espaços urbanos. Para os que nasceram e se criaram na cidade, a vinda de eventuais imigrantes representa desconforto e ameaça.

Se aparece um imigrante como novo vizinho, funciona também o mecanismo de proteção do espaço vital, mediante o qual se faz uma avaliação rigorosa dos gestos e atitudes do novo morador.

Certamente ninguém irá visitá-lo para contar anedotas e falar descontraidamente da vida. No entanto, quando se encontra com outros vizinhos já mais antigos da redondeza, contará piadas sobre o jeito e a origem da procedência do novo vizinho e gozará até mesmo do seu sotaque de fala.

Andando por diferentes lugares do País, foi possível perceber que as mesmas piadas, contadas, por exemplo, de um gaúcho em relação a um paulista, um goiano as narra em relação ao gaúcho, e um matuto em relação ao goiano.

Na piada, ou na anedota, que se conta em relação ao novo morador, transparece, numa forma sutil de exteriorização, o sentimento de que o outro é invasor de um espaço reservado e que ele representa uma ameaça aos valores locais. Entretanto, a razão da mobilidade social e que motiva a intensa onda migratória, acaba não sendo discutida e tampouco enfrentada para soluções reais.

A resistência a novos moradores certamente não ameniza a sofrida adaptação, tanto para quem chega quanto para aquele que se sente invadido. No entanto, não se pode desconsiderar que, os que buscam amparo, afinal movidos por propagandas sedutoras, também sofrem porque deixaram para trás outro mundo referencial de amigos, costumes, praxes e modos de ser.

Como, então, salvar valores autóctones, integrar valores mais amplos da cultura e respeitar as diferenças culturais? Tamanha tarefa, com certeza, é bem mais exigente do que se possa imaginar à primeira vista. No entanto, terá que acontecer, até mesmo para viabilizar a vida doméstica dos lares.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VII

 

INTIMIDADE E PROMISCUIDADE

 

 

Antigamente ocorriam muitas discussões em torno de gênero para estabelecer o que era peculiar e específico da condição masculina e feminina.

Na vasta literatura sobre o que é direito de cada gênero, vigorou predominantemente a valorização de costumes da hegemonia de direitos e poderes, culturalmente sustentados a unhas e dentes, porque representaram avanços sobre momentos anteriores.

   Atualmente parece prevalecer, cada vez mais, a tendência de buscar os direitos que uma pessoa pode desfrutar a fim de exercer controle sobre outras pessoas, sobretudo, no âmbito doméstico.

Com esta atenção primordial para a proteção, descarta-se a possibilidade de entendimento da diferença e do mistério da vida das outras pessoas, mesmo da parceria de namoro ou da pessoa que complementa o casamento.

  A defesa ou a condenação de costumes e praxes culturais, nem sempre considera o sentido da complementariedade e a possibilidade da função laboratorial que esta característica pode exercer na vida humana.

  Enquanto se fica no nível de discussão do que é de direito a partir de costumes e tradições, pode-se estar perdendo a capacidade de considerar a noção mais importante do ponto de vista antropológico: o processamento do público e do privado.

  A ausência de condições do ambiente familiar, ou por falta de diálogo, ou ajuntada por interesses pragmáticos de outros casamentos fracassados, o casal constituído, muitas vezes, sem consentimento dos filhos, deixa de viver o mundo privado. Sem este, não se ativam os jogos afetivos que determinam o estado de humor de todos os membros constituintes daquele bloco ou aglomeração tida como familiar.

  Certamente um olhar atencioso de um pai, que revela sua autoridade, leva seu filho a fazer com mais satisfação alguma tarefa. Assim também, um procedimento movido por poder, acompanhado de um ar superior, arrogante de quem manda e dá ordens, levará o filho a devolver, em outro nível de agressão ou de deslocamento desta raiva, normalmente de forma não-verbal, a mesma atitude básica, a ponto de lhe causar desgosto profundo pela vida e desconcertá-lo nos seus grandes sonhos para o futuro.

Assim, ocorrem incontáveis projeções, fixações, submissões e deslocamentos de sintomas que, diuturnamente, afetam o espaço familiar, ao lado do proeminente desencontro entre o cotidiano e o pensamento.

Tanto os desequilíbrios quanto as capacidades cultivadas no processo de ajustamento, sejam do casal ou, deste com os filhos, apresenta a cada dia coisas novas que impressionam.

  Entretanto, nenhuma família é uma ilha isolada, porque todas são diariamente afetadas por situações públicas ou sociais. O que ocorre neste nível de incidência? Em primeiro lugar, uma intensa ativação dos desejos, o que abafa totalmente a memória, precisamente esta que é capaz de apontar horizontes reais para a vida.

 Se a família leva demasiadamente em conta a invasão de informações a que está submetida, ela perde, gradualmente, o que é original em suas relações afetivas e passa a absorver etiquetas como formas de expressão de vida.

Esta imitação de outras pessoas transformadas em mito, idealizadas ou de imagens criadas por propagandas, propicia status, títulos, honras e cargos, mas leva à perda da capacidade de equilibrar este mundo criado para o consumo com o que emerge da vida privada.

Equivale a pretender caminhar equilibradamente com uma perna de um metro (dimensão pública) e com outra de apenas meio metro (dimensão privada). Se tal ato de caminhar só pode ser capenga, tenderá a desanimar o caminheiro do processo de recriar motivações para a vida.

  Há mais de cinco décadas o pensador Francês Emmanuel Mounier já alertava, em sua obra O Personalismo, sobre o risco da confusão entre intimidade e promiscuidade.

Muitas bandeiras, tidas como de emancipação e libertação de tabus e costumes podem ser ostensivamente hasteadas para favorecer uma socialização imperialista, que tira do espaço familiar a mais profunda dimensão da intimidade.

A intimidade vem sendo profanada pela invasão agressiva de novidades e pelo estímulo ao desfrute.

 A multiplicidade de fantasias criadas a partir de fatos reais e de outros meramente fictícios, passam a inspirar perfis de vida familiar que eqüivalem a contratar o gambá para cuidar do aviário.

  A procura do avesso desta condição, atrelada à onda consumista, não elimina, contudo, uma complexa trama de desequilíbrios afetivos e emocionais, envolvendo projeções, possessividades, submissões e outras formas de atrelamento desequilibrado. Mesmo sem este mundo da mídia eletrônica, ocorrem tensões, conflitos, angústias e estados, muitas vezes doentios, que afetam não somente a vida privada do ambiente doméstico, mas até mesmo a vida social.

  Com esta fragilidade, a relação de homem e mulher facilmente cai da intimidade para a promiscuidade. Em vez de ser fonte de comunhão, de alegria e de gosto pela vida, a relação conjugal e familiar pode despertar sentimentos de culpa, de isolamento e de mal-estar, porque a profanação da intimidade leva ao desrespeito, ao desfrute, à agressão e à descartabilidade da outra pessoa.

  A perda da intimidade provoca um efeito indireto que é o da perda da capacidade de “filtrar” ou “processar” tudo o que advém da vida social.

Sem esta filtragem, ocorre a absorção da fantasia e da idealização que ignora o que é peculiar e próprio do espaço familiar.

  Ao espaço familiar não compete apenas absorver, porque ele tem em si a riquíssima função de socializar seus membros e a de enriquecer a sociedade com estes valores.

Não estaria ocorrendo, em nossos dias, uma demasiada ausência de socialização dos filhos no espaço doméstico? Se eles absorvem o mundo consumista e apenas se norteiam por etiquetas, como esperar deles valores de socialização que respeitem os outros?

   Bloco familiar sem socialização eqüivale a pretender instalar uma hidráulica para fornecer água filtrada e tratada para o consumo humano, mas que apresenta, na torneira dos consumidores, água suja e com coliformes fecais em excesso...

  Afinal, o que estaria sujando a água da intimidade? Tanto os hábitos, quanto paixões e desequilíbrios afetivos levam à invasão da intimidade e cortam a fronteira ou a divisa do necessário distanciamento que o respeito à outra pessoa, seja marido, mulher, filho ou qualquer outra pessoa requer.

  No desrespeito da intimidade explodem mil formas diferentes de desequilíbrio emocional e esta condição passa a ser levada diretamente para o ambiente social.

  Assim como a mulher pode invadir a intimidade do marido e vice-versa, o mesmo se repete no relacionamento entre pais e filhos e dali passa para o âmbito social.

   Uma pequena transgressão da intimidade na família pode induzir para um caminho de grandes apropriações de bens públicos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VIII

 

DESCANSO E LAZER

 

 

A crise econômica dos últimos tempos afeta particularmente a serenidade da vida do ambiente doméstico. Muitíssimas pessoas precisam trabalhar mais do que o normal e, mesmo assim, não conseguem suprir a demanda das necessidades.

 O trabalho excessivo, além de gerar enormes desgastes físicos, leva a preocupações, doenças, depressões e à perda de motivações para a vida.

A vida neste verdadeiro turbilhão de hiper-ativismo no mundo do trabalho, não é apenas uma questão de necessidade ou de desejo. É uma forte influência cultural, especialmente, a que recebemos do ambiente europeu. Trata-se de centralizar o trabalho como o valor máximo da existência. Nesta exaltação da operosidade, passa a ser elogiado somente o aumento da capacidade de trabalho. Tudo quanto representa diminuição de trabalho, ócio ou lazer, seja por fatores de doença, de idade ou ritmo de vida, passa a ser desprestigiado.

A perda da capacidade de trabalho intenso equivale praticamente a desprezo e esquecimento...

O trabalho, centralizado como o que de mais importante existe na existência humana, na verdade, cansa muito e obriga as pessoas a procurar formas de recuperar as energias.

Tal situação gera uma necessidade de férias, de descansos nos fins-de-semana e de momentos de repouso. Mesmo assim, permanece um sentimento de dívida porque a recuperação das energias nem sempre oportuniza reservas energéticas e motivacionais para aumentar a capacidade de produção.

Ao centralismo do trabalho corresponde um problema ainda maior do que o do desgaste físico pessoal, pois, da primazia do trabalho resulta a diferenciação de classes, tanto na família quanto na sociedade, porque leva a um mundo de aparências.

De acordo com o que se acumula através do trabalho, obtêm-se status, posições sociais, condecorações, elogios, enfim, castas e classes especiais que se tornam cada vez mais seletivas, separadas e protegidas da convivência social. O trabalho, como facilmente pode ser reparado, gera separação e, esta, produz mediocridades: ar de superioridade, melindres por pequenos detalhes e o desejo de sempre justificar os desejos e as ambições.

Até uma análise sem maiores alcances, permite reparar que o trabalho, quando é excessivamente endeusado na vida, desequilibra de forma profunda e anula a rica capacidade do lazer.

Uma vida sem lazer é uma vida que perde a graça. Entretanto, lazer não é a mesma coisa do que fazer trinta dias de férias no fim de um ano, descansar num fim-de-semana e dormir certo número de horas no correr de uma noite.

Tanto o trabalho quanto os momentos de descanso ajudam a esconder outra dimensão fundamental da nossa vida, que é a dimensão da festa. Evidentemente, não a festa do desfile de modas ou a do esnobe que visa comprar a admiração dos outros.

A festa e o lazer envolvem a dimensão não produtiva, isto é, levam a dar importância para as coisas cotidianas, para a memória do passado, para a linguagem não verbal, para o mundo simbólico e para o que envolve o mistério da vida.

Enquanto que o trabalho tende a gerar acúmulo de bens, status, fama e reconhecimento, ele não ajuda a produzir o que é essencial para a vida e, precisamente o que mais gratifica e realiza, não é o que se produz, mas o que se recebe, isto é, o que advém do amor, da amizade, da estima...

Como o trabalho leva a cultivar sentimentos que, normalmente, visam legitimar os desejos e as ambições, os sentimentos recebidos, bem ao contrário, provocam o gosto, a auto-estima e o sentimento de estar de bem com a vida.

Os sentimentos recebidos ou encontrados, ainda que no sutil relance de uma olhada, sempre alteram nosso humor e nosso modo de ser. Eles podem até trazer desconforto, tensão, surpresa, crises, mas, sempre nos remetem para a qualidade de vida.

Se o trabalho produzido tende a levar para a busca de algo que favoreça o conforto, o lazer está estreitamente ligado à dimensão da festa: leva a encarar a vida no seu conjunto global, que salienta a gratuidade.

 A festa situa-se, pois, no campo da atividade não produtiva.

Na atividade não produtiva, tende-se a valorizar mais a capacidade festiva, o transbordamento, a vitalidade, a exuberância e a dignidade.

Estas forças humanas ajudam a vencer o moralismo, o calculismo e o poder como tirania sobre a vida alheia. O moralismo consiste em estabelecer incontáveis regras e prescrições para os outros.

O calculismo leva à busca de fórmulas que visam estabelecer controle sobre os outros e sobre as coisas; e o poder tirânico, mesmo rodeado por uma aura de mistério e encantamento, normalmente leva a justificar mecanismos de defesa com a gradual perda da capacidade de sentir o que as outras pessoas realmente necessitam.

A capacidade festiva afirma a pessoalidade, que é algo bem distinto da domesticação, das aparências, dos cargos, das posses e da tirania do ter.

A festa integra a rica capacidade de levar à gratuidade, esta que tem o fantástico potencial de vencer todo o campo das aparências, que, normalmente, levam à divisão de classes, a injustiças e à exploração da venda do trabalho.

A gratuidade equilibra nas pessoas a obsessão pelo trabalho, seja ele intelectual ou de outra natureza. Portanto, se a realização emerge de um âmbito distinto daquele que conduz à obsessão, convêm descobrir razões mais plausíveis do que as da idolatria do trabalho, a fim de que a vida possa propiciar mais gosto e evitar o trágico avanço dos graves desequilíbrios que o trabalho desencadeou no planeta nestes últimos séculos.

 

 

IX

 

UMA CONSTÂNCIA NO PENSAMENTO

 

 

  Destacamos no capítulo anterior que o trabalho, ainda que importante, não é fator primordial e exclusivo para levar ao que realmente apraz na vida.

O trabalho, sobretudo o urbano, tende a remeter-nos mais para o campo do pensamento do que o do cotidiano.

 Quanto ao entendimento do pensamento, podemos demarcá-lo sob distintas leituras: a do mundo antigo, a do medieval, do moderno, do pós-moderno, pós-industrial, pós-estrutural ou, de eventual outro “pós” de algo, e, ainda, pelas diferenças e rupturas, mas, também, pelas constantes que se perpetuam em todos estes paradigmas.

 Uma destas constâncias, certamente, é a do monismo que leva a estabelecer finalidades ou teleologias (finalismos) que mapeiam o espaço e o tempo da vida das outras pessoas.

 Em razão dos finalismos facilmente se acham argumentos para colonizar as diferentes formas de organização sócio-cultural, o que também permite privilegiar uma elite que se assegura em vantagens conquistadas.

 Se no mundo grego esta incumbência ficou para os filósofos, no mundo cristão medieval, esta condição passou a ser hegemônica no campo teológico, uma vez que os teólogos passaram a mapear o cotidiano das pessoas.

 A modernidade foi uma apropriação deste finalismo da teologia medieval, porém, com a imanentização, através do progresso e da superação das ciências.

 Já a pós-modernidade e os outros pós, constituem uma forma negativa de reação a estas teleologias ou meta-narrativas, sobretudo as modernas, que, não só mapeiam o cotidiano das pessoas, mas, que também impõem a todos o consumismo da globalização, de modos que os produtores da matéria de consumo são os novos e privilegiados “teólogos” que ditam as regras que todos os seres do planeta precisam seguir.

Trata-se de uma nova forma do velho monismo, mesmo que se arrogue a superioridade de poder condenar os monismos anteriores.

 Basta reparar a praxe desta região para ver como o poder econômico se impõe sobre as outras formas de poder e estabelece um monismo muito expressivo e determinante na organização e entendimento deste pedaço do “berço esplêndido”. Convém delinear um pouco mais esta questão do monismo.

 

a) O Monismo

 

  O termo “monismo” é de uso relativamente recente, pois foi Wolf quem o empregou pela primeira vez, em 1734. O fenômeno monista, no entanto, é muito antigo e está muito evidente no pensamento clássico grego, porque ali já se moveu por concepções e doutrinas em torno da unidade.

   O Dicionário de Filosofia de Brugger salienta que o monismo universal afirma a existência de uma unidade essencial entre Deus e o mundo.[4]

   Tal concepção leva a suprimir as diferenças entre matéria e espírito, indivíduo e sociedade, etc.

   A referida concepção permite, como aparece evidente na história, tanto concepções materialistas quanto espiritualistas. Ambas tendem a valer-se de uma mesma mediação para contornar as contradições que decorrem da pluralidade dos seres e das manifestações culturais, isto é, tentam reduzir ou enquadrar as diferenças na unidade presumidamente superior.

  O filósofo Ferrater Mora destaca que, em geral, se entende por monismo a sustentação de um só tipo de substância ou realidade.[5]

   Trata-se, por conseguinte, de uma forma reducionista que afirma a existência de uma única substância ou realidade cultural. O referido autor também salienta que o monismo atual pode vir disfarçado como espiritualismo que sustenta a natureza e o mecanismo a que está sujeito e os engloba numa teleologia.[6]

  Tal espiritualismo parece não ficar necessariamente restrito ao campo religioso e teológico, mas abrange até mesmo formas materialistas e imanentistas, dada a sua dimensão finalista que justifica a necessidade de mudanças a fim de que todos quantos vierem a ser assimilados como diferentes, venham a absorver a concepção que se lhes impõe.

 Sem entrar na questão religiosa ou filosófica da relação de um Absoluto com a contingência humana, convém, contudo, considerar o que Cirne Lima afirma a este respeito. Diz ele que a questão não é a de discutir a existência ou a não existência de um Deus ou um Absoluto, porque a própria contingência e a relatividade da nossa vida e da cultura já constituem a prova evidente de um Absoluto, seja ele real ou estabelecido por suposição.

 Deste modo, mais interessante do que perguntar sobre a existência ou não existência de um Absoluto, convém que se formulem perguntas sobre a identidade que lhe é atribuída ou a identidade que este Absoluto revela.[7]

  O destaque das observações não quer envolver-se em torno da transcendência que o Absoluto revela, mas, ponderar sobre os atributos que as mentes humanas estabelecem como sendo a identidade deste Absoluto.

  O campo religioso dos diferentes credos oferece uma bela ilustração de afirmações muito contrárias, mas, absolutamente categóricas, que aparecem nos discursos do que Deus quer que se faça. Será que é realmente Deus que quer isso, ou é a mente do pregador que pretende enquadrar e mapear a vida das pessoas para que se submetam aos seus desejos ou ambições?

  De uma forma muito similar, há os pregadores no campo da economia, da política, do comércio e da agricultura. Basta lembrar com que fervor eles reagem frente a alguns temas como reforma agrária e melhor redistribuição dos bens simbólicos da cultura brasileira, melhores salários, condições mais dignas para todos, etc., e como saltam ruborizados para apologias de suas convicções e como se tornam afrontosos nos ataques, quando se fala em direito dos índios, dos sem-terra, ou ainda, de outras categorias sociais discriminadas.

   Em função destes atributos de instâncias superiores é que, costumeiramente, se estabelecem teleologias, isto é, o grupo de acesso a estas instâncias, mapeia o espaço e o tempo da vida das pessoas a fim de controlá-las e enquadrá-las para o alcance desta finalidade.

 Neste procedimento, porém, costuma-se usar uma concepção Aristotélica que projeta Deus para fora do âmbito da organização da vida humana e para fora do espaço e do tempo concreto, ao qual só o seleto grupo de iniciados ou privilegiados pode ter acesso.

 Pode ser um discurso que fala em nome deste Deus e também uma afirmação imanentista ou secularizada que estabelece algo absoluto e o impõe aos demais com vistas a uma teleologia para enquadrar a tudo quanto é distinto do mapeamento que estabeleceu para os outros.

Parece, no entanto, que o Absoluto, seja o da concepção religiosa de Deus ou o de um “Outro Absoluto” imanente, inclui a imanência e vice-versa. Lima insiste na afirmação de que: “Deus não está fora, ele está dentro. Ele não empurra de fora os planetas e os átomos em suas órbitas. (...) Deus, o Absoluto, está no âmago”.[8]

  Entretanto, a colocação de um transcendente para além dos quadros da imanência, sempre permite estabelecer uma teleologia.

   Esta situação prospectiva permite a supostos iniciados ou privilegiados, impor, em nome desta teleologia, um mapeamento do espaço e do tempo que os demais devem seguir, tanto para salvar-se, quanto para serem felizes.

  Atualmente, ante as muitas e variadas polêmicas discursivas em torno de modernidade, pós-modernidade, pós-estruturalismo e pós-industrialismo, pode passar despercebido que, ao longo dos distintos paradigmas culturais, permaneceu estável uma mesma concepção monista.

 É uma constante que apenas desloca o grupo dos privilegiados que se auto-arrogam o direito e a condição de determinar, em nome da transcendência absoluta ou imanentizada, o que convêm aos demais para se sentirem integrados no seu mundo privilegiado.

 Esta “cronotopologia”[9], presente no mundo clássico grego, no mundo semita e em tantos outros do mundo antigo, também se manifestou no pensamento cristão, na medida que este efetivou uma síntese do pensamento grego com o semita.

 O mesmo fenômeno seguiu inalterado na modernidade e atualmente, de forma negativa, se apresenta na pós-modernidade.

 São distintas formas colonizadoras decorrentes de um mesmo finalismo que leva a estabelecer regras de vida e de ocupação de espaço para tudo quanto se revela diferente, seja no modo de vida pessoal ou cultural. Especialmente, quando representam ameaças aos privilegiados dos que se denominam superiores na estratificação social.

 Estas teleologias ocidentais tiveram sua primeira expressão de alcance para além do âmbito europeu com o pensamento cristão.

 

 

b) No encontro Jerusalém-Atenas

 

  Do encontro da metafísica grega e da espiritualidade semítica, que foi o de conceber a história como teleológica e providencial do Deus Javé, nasceu a síntese da concepção do crisitianismo.

   Não se deseja, aqui, ponderar sobre a questão cristológica, mas, sobre o pensamento que a partir dos primeiros séculos da Igreja Católica foi empreendido pelos pensadores do chamado período patrístico.

   Tal como os gregos do período clássico, que se auto-atribuíram uma superioridade em relação aos outros povos, os “santos padres” passaram a interpretar o cosmos e o lugar do homem neste universo e se sentiram na condição messiânica de marcar fronteiras para dizer quem se enquadrava neste horizonte e, nisto, se sentiram imbuídos do direito de classificar os demais como pagãos, que deveriam ou ser mortos ou integrados ao mundo religioso.

  Pensadores cristãos, sobretudo nos primeiros 400 anos da Igreja, começaram a circunscrever novas fronteiras com vistas a integrar a todos no seu universo ecumênico a fim de que viessem a desfrutar dos privilégios da ação histórica de Deus.

  Enquanto que na cultura grega alguém era classificado de bárbaro, porque não pertencia à “pólis” (cidade) e aos seus costumes, na concepção cristã, especialmente na do Santo Império e da Cristandade, o critério de inclusão passou a ser o da aceitação no projeto de Deus, realizado através da Igreja.

 O novo “bárbaro” passou a ser identificado como aquele que era interpretado pagão, herege e infiel.

 A redefinição das condições de pertença implicou numa nova tarefa para a história, porque Deus teria um plano que poderíamos aceitar, mas, que implicaria em nova razão para a historicidade: a de que cristãos precisavam fazer uma experiência subjetiva desta história de Deus, o que levou à redefinição e à determinação de outros moldes de ocupação do espaço e do tempo.

 Assim, ser cristão implicava em nova forma de encarar o temporal (não no sentido de tempestade, mas entendido como o processo da vida). Deste modo: “o mundo histórico e a historicidade da subjetividade e da sociedade gravitou em torno da história divina de Deus”.[10]

 

  A conclusão de que Deus estabeleceu um referencial entre o Alfa e o Ômega, delimitou um quadro de ações humanas que poderiam ser desenvolvidas para que esta história atingisse a finalidade atribuída a Deus. Neste meio se estabeleceu uma condição de salvação: ou se optaria por seguir uma história decadente que levaria à perda e à degradação, ou se optaria pela proposta que auto-realizaria em Deus.

O peso da ameaça condicionou para que se optasse por Deus, uma vez que a queda passou a ser interpretada como culpável e não inocente. Todavia, o meio entre o Alfa e o Ômega poderia redimir, na medida em que conferisse humanidade e ação à história de Deus.

  Fez-se, para este fim, uma cronotopologia ou um mapeamento do espaço e do tempo da vida para as distintas culturas e, todas, precisariam adequar-se às exigências.

   Assim, o programa de evangelização passou a diminuir e a relativizar os outros mapeamentos culturais e a impor o seu como superior, dada a sua estreita vinculação com a transcendência.

   A não aceitação desta proposta redentora passou, então, a ser condenada como heresia e como opção pelo caminho da queda, caminho irreversível para a condenação eterna.

 

c) Modernidade: reapropriação secular do mapeamento cristão

 

  A modernidade pode ser lida pelo prisma de uma auto-interpretação da sociedade através da secularização da história divina proposta pelo cristianismo.

 Nesta re-leitura, passou a ser estabelecida a noção de progresso e a sustentação da diferenciação social das esferas de valores dos sistemas e subsistemas sociais.

  Tal como no cristianismo, onde se estabeleceu uma diferenciação de cargos e mediações de santificação, a modernidade aplicou um procedimento similar. Assim, como missionários cristãos que se proclamavam no direito de evangelizar todos os povos no plano de salvação para Deus, surgiu um grupo missionário secularizado que se estabeleceu na missão superior de convencer a todos quantos estavam fora do progresso técnico-científico para que se submetessem às suas sábias orientações salvacionistas, porque os levariam à prosperidade, superação, progresso e felicidade.

 Como os missionários cristãos passaram a exportar uma transcendência divina e em seu nome se acharam no direito de colonizar e mapear a vida das pessoas, estabelecendo-lhes os critérios do que podiam e não podiam fazer, os “missionários” da modernidade, também se apresentaram como humanitários que colocavam sua própria vida como sacrifício expiatório a fim de que todos movidos por valores culturais distintos pudessem redimir-se pela submissão aos planos do progresso, e, em razão disso, mapearam tanto o espaço e o tempo quanto as condições geo-políticas, econômicas e sociais.

 Desta forma, a modernidade fez uma exportação ou uma invasão de todos os âmbitos culturais para forçá-los a se submeter ao progresso das inovações tecnológicas, pois foi movida por um conceito de transcendência que, necessariamente, deveria ser assumido pelas nacionalidades e culturas.

  Na raiz da propalada revolução do progresso, da liberdade, da democracia e da subjetividade, está um mapeamento espacio-temporal cristão, porém, secularizado.

Se a modernidade a partir de um centro referencial conseguiu afirmar-se e proclamar-se como instância superior em relação às demais formas culturais, estabeleceu uma programação de história e de historicidade para redimir a todos na mediação estabelecida entre o Alfa e o Ômega.

  A apropriação feita do mapeamento cristão permitiu à modernidade estabelecer-se como mediadora da conversão-salvação. Nesta atribuição religiosa secular, como na cristandade que circunscreveu um campo salvífico e delimitou fronteiras para traçar o que era moderno e obsoleto, primitivo e atrasado...

  Se os atuais fundamentalismos religiosos nos assustam com o radicalismo de suas mensagens de tele-evangelismo e em outras mobilizações proselitistas para salvar primitivos, infiéis e perdidos do nosso tempo, a modernidade faz o mesmo de outro jeito e que, aliás, aceitamos facilmente sem nos assustar e sem maiores críticas.

 

d) Pós-Modernidade como mapeamento negativo da Modernidade

 

  Na decrepitude e enfraquecimento das meta-narrativas ocidentais, sobretudo, as do cristianismo e as da modernidade, criou-se sólida teleologia favorável às condições salvacionistas.

 Entretanto, se lembramos que, sob estes signos, ocorreram indescritíveis genocídios de indígenas americanos, escravização de africanos, “guerras santas” e as duas recentes e hediondas guerras mundiais, estes meta-relatos simplesmente não puderam mais sustentar a credibilidade porque ficaram muitíssimo aquém do que propuseram e não levaram nem para perto do patamar de vida que prometeram.

 Assim, de algumas décadas para cá, caíram em descrédito estas teleologias, tanto religiosas quanto seculares, porque se impuseram muito mais como terror do que como salvação. Afinal, em que acabaram as grandes teleologias da modernidade? 

Auschwitz, Hiroschima, presença divina de um Deus salvador, progresso, superação, declararam a morte de uma metafísica, mas, revelaram outras tão ou mais funestas porque, sob o discurso da emancipação, efetivou-se uma espoliação da maioria das pessoas humanas para o conforto e bem-estar de algumas poucas.

Da constatação destes fatos contraditórios nasceu a ojeriza a tudo quanto é teleológico.

 Nasceu, assim, uma convicção de que a valorização do momento presente, sem nenhuma meta-explicação para a universalidade salvacionista das coisas e da vida, seria a melhor saída.

 Tal como a cristandade havia delegado a certos sujeitos o direito de traçar as condições de vida para os outros, os arautos da modernidade também preencheram o espaço e o tempo com projetos que deveriam ser assimilados pelos diferentes povos e culturas, porque foram estabelecidos em supostos avanços tecnológicos e técnico-científicos que um pequeno grupo humano dominava.

 Deste modo, um pequeno grupo humano de privilegiados que se mostrou pioneiro em avanços tecnológicos, como o da informática, se viu no direito de apontar caminhos de salvação, mas apenas colonizou.

  A pós-modernidade, aparentemente muito distinta nas propostas, passou a estabelecer o mesmo patamar, porque, ao negar a possibilidade dos patamares da história, da metafísica e dos meta-relatos, estabeleceu um novo mapeamento para a temporalidade: a da ausência de fronteiras, a da valorização do “ hic et nunc” (do aqui e agora) e da ausência de sentido para a vida.

 Nesta proposta um tanto anárquica, está, contudo, uma mesma finalidade teleológica, pois proclama que todos se desvencilhem de seus valores religiosos tradicionais, de seus projetos de superação, etc., e impõe a todos a regra do consumo globalizado.

 Este despertar consumista oculta uma ação de donos dos meios de produção e de informação, constituído na leva dos que “deitam, rolam e gozam” diante da miséria alheia e ainda a induzem à dependência do mais crasso consumismo.       

 

X

 

A PERSPECTIVA DE UMA HUMANIDADE SIMBIÓTICA

 

  A mistura de traços étnicos, culturais e até regionais, que aqui são forçadas a se integrar, aponta para uma realidade nada fácil. Adaptar-se a novas situações, sempre mexe com as buscas de segurança e estabilidade.

 A simbiose, entretanto, indica algo que pode transcender a polarização entre cotidiano e pensamento e até mesmo o sistema de vida capitalista hegemônico e que tende a induzir muito mais para o parasitismo do que para hospedeiros acolhedores e hóspedes que deixam um belo retorno pela hospedagem. Não poderiam as duas forças culturais em crise de relações, o cotidiano e o pensamento, constituir-se em bons hóspedes e cordiais hospedeiros?

A história humana já teve que passar por incontáveis processos de integração, envolvendo agressões, guerras, deportações e formas humilhantes de toda a natureza aos vencidos.

No duro embate destas forças humanas, ainda se passa distante de outra adaptação, certamente, não menos difícil para se chegar a uma convivência pacífica e de benéfica interatuação, e que, no mínimo, deve ter levado milhões de anos.

Se hoje há encantamento com a fantástica complementariedade dos sistemas de vida do organismo humano, a lógica de tal síntese, não poderia indicar outras extraordinárias adaptações de harmonização de sistemas diferentes, tanto físicos quanto culturais, para uma vida ainda mais complexa e perfeita?

O engendramento dos sistemas de vida do corpo humano certamente envolveu uma simbiose muito complicada e que só aos poucos foi se ajustando a ponto de hoje se ficar maravilhado pelas formas de relação entre hóspedes e hospedeiros que se adaptam no organismo.

 Este fantástico relacionamento no interior do corpo, indica que não será pelo caminho do parasitismo que se vão harmonizar as diferenças culturais. A própria evolução cultural também deve ter efetivado uma simbiose ao longo do processo evolutivo.

 Sustenta-se, atualmente, que o corpo humano, na verdade, é uma simbiose de distintos sistemas e subsistemas de vida.

  Tal horizonte de entendimento da condição humana, poderia alentar para a privilegiada condição de um ajuntamento humano de tantas diferenças. Pode, entretanto, a própria perspectiva simbiótica, constituir-se num mito para justificar o sofrimento que esta integração forçada requer.

Entre as muitas mega-teorias ou meta-relatos universalistas, está uma que diz respeito à origem da vida humana. Ele aponta, sobretudo pelo prisma da Arqueologia, da Paleontologia e da Antropologia Cultural, para as explicações de que os seres humanos são frutos de uma demorada evolução através de muitos milhões de anos.

  Se tal dedução questiona diretamente as noções criacionistas, segundo as quais Deus teria criado diretamente as pessoas humanas, aparece como ainda mais ousada a sustentação de que a condição humana é fruto e sobrevivência de uma longa e árdua luta e seleção natural em que prosperaram os mais espertos e fortes.

Esta perspectiva desconsidera a dimensão simbólica, artística, cultural e mítico-religiosa, porque enquadra no mero mundo animal. Ela, no entanto, afeta as concepções de homem, de vida e de cósmos.

Ainda que do ponto de vista religioso possa ser admitido que o criacionismo, também pode estar presente no grande milagre da matéria possuir em si as virtualidades para gerar a vida, sobra uma contraposição difícil de ser conciliada: como integrar a noção da luta pela sobrevivência e da seleção natural com a dimensão solidária e humanista que visa promover pobres e excluídos, limitados e doentes?

  Querendo ou não, as mega-teorias sobre a origem e a evolução se impõem em diversos campos do conhecimento humano, tais como Física, Astronomia, Biologia, Bioengenharia, mas também na Filosofia e na Teologia. Se, por exemplo, os dados da Astronomia de que os fótons (partículas de luz) que atingem a retina de nossos olhos percorreram antes deste contato e, na velocidade da luz, uma duração de 15 bilhões de anos, ficamos atônitos ante uma possível imensidão de distâncias do universo.

 Se, por outro lado, a Bioquímica oferece, com rapidez e precisão, toda uma cadeia de estruturas do código genético (DNA), então, fica difícil contestar o processo evolutivo que teria se engendrado na Terra, a partir do caos que ali reinava, há cerca de quatro bilhões de anos atrás, envolvendo uma mistura desordenada de vapor de água, nitrogênio, monóxido de carbono, amoníaco, metano, monóxido de carbono e ácido cianídrico.

  As buscas de entendimento da origem humana, no entanto, não param de surpreender com novas deduções a respeito de como o processo da vida humana pode ter sido engendrado. Joël de Rosnay (em O homem simbiótico - perspectivas para o terceiro milênio. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997), por exemplo, sustenta que o corpo humano permanece vivo, graças a um procedimento comensual (de hospedagem), onde um organismo vive de outro que lhe dá abrigo e lhe devolve enzimas fundamentais para que também possa viver.

É uma espécie de hospedagem em que ocorre a integração de muitos organismos, de modos a formar uma associação de complementariedade.

  Todos os sistemas de vida na Terra estariam marcados por este tipo de relações simbióticas.

 Tal inter-atuação se manifesta, de forma muito clara e simples, entre animais e plantas. Os seres humanos, acabam ingerindo proteínas que foram assimiladas por leguminosas que, por sua vez, vivem em simbiose com micróbios, que eliminam azoto para nutrir as plantas.

 Esta simbiose entre plantas e animais estaria ocorrendo, de forma extraordinariamente simples, a partir da integração de dois pigmentos: o verde da clorofila das folhas e o vermelho da hemoglobina que está no sangue.

  As folhas das plantas captam energia solar através da fotossíntese que transforma água e gás carbônico em nutrientes essenciais para a vida por meio de oxigênio e açúcares.

 Os açúcares procedentes da celulose, amido ou material básico dos vegetais, acabam, através da digestão, transformado em glicose, esta que oferece uma reserva energética para a vida.

  No processo de respiração ocorre uma combustão que queima o oxigênio que está na hemoglobina e disso resulta a eliminação de gás carbônico, vapores de água e sais minerais, que novamente voltam a alimentar as plantas.

  Enquanto que as células das plantas verdes, através dos cloropastos da clorofila captam a energia solar, as células dos organismos humanos contêm no DNA as centrais chamadas mitocôndrias que fabricam a energia que alimenta as células.

A simbiose das mitocôndrias e dos cloropastos revela uma história de amor muito interessante, pois, as mitocôndrias são antigas bactérias, enquanto que os cloropastos, são antigas algas.

 São, pois, sistemas de vida completamente distintos que, ao longo do tempo, se associaram e se tornaram tão dependentes um do outro, a ponto de um fornecer energia e acolhida para o outro.

Algo similar ocorre com a digestão de todos os seres herbívoros, possuidores de bactérias no aparelho digestivo e que tem uma enzima capaz de decompor a celulose para transformá-la em fonte de oxigênio através da fermentação.

Estas regras de aglomeração existentes nas diferentes condições da natureza, permitem a formação de sistemas e sub-sistemas que, aos poucos, vão se tornando cada vez mais complexos e progressivos.

 É o caso das redes de partículas, átomos, moléculas e células do organismo humano. Não seria tal condição um indicativo de que no organismo humano, um dia possam ser absorvidos os aparelhos mecânicos e eletrônicos?

Se a existência humana é uma confirmação das regras de aglomeração ou da simbiose de distintos sistemas ou sub-sistemas de vida e, se estes aprenderam a conviver pacificamente ao longo da história em que o planeta Terra se engendrou para culminar na existência humana, podem tais indícios apontar que há razoáveis possibilidades de que, num processo, daqui para frente, possam integrar-se máquinas aos sistemas da vida humana.

Assim como redes interdependentes dos sistemas de vida acabaram constituindo organismos humanos a partir de uma estreita faixa de elementos químico-físicos, como água, luz, atmosfera e temperatura, não seria tal história um indício evidente de que outras redes, como a de máquinas possam ser assimiladas no organismo humano?

Seria, deste modo, possível projetar um cibionte, síntese de ser humano com máquinas e a macro-vida existente no universo?

 

 

 

XI

 

 

AFINAL, NÁUFRAGOS OU ASTRONAUTAS?

 

 

 

No jogo do cotidiano e do pensamento parece encenar-se um instigante enredo, envolvendo a contraposição do astronauta e do náufrago.

A contraposição, no entanto, está, aparentemente, favorável para a tese de Jean Jacques Rousseau, sugerindo que cada indivíduo deveria ser como um leão solto na mata. Só que os leões astronautas avivam a fábula de Esopo, segundo a qual, um leão, um burro e um lobo se juntaram para fazer uma caçada. Sem demora conseguiram caçar um veado. O leão logo deu uma ordem ao burro:

- Você reparte, agora, a caça!

 O burro fez, então, três partes iguais. O leão, ao ver tal senso de justiça, saltou sobre o burro e lhe arrancou as orelhas com duas patadas. Foi então, ao encontro do lobo, e lhe deu uma ordem:

- Reparta você a nossa caça!

O lobo tomou as partes e as entregou ao leão. Foi, então, que o leão exclamou:

- Mas como você é justo! Quem é que te ensinou tal senso de justiça?

- O lobo retrucou: o Doutor de cabeça vermelha, ali do lado (a cabeça do burro ensangüentada...).

A fábula permite deduzir que o despotismo de alguns vanguardistas da exclusividade do pensamento representou realmente uma perfídia ao senso de justiça que as grandes massas humanas precisariam sentir. Ainda que eventuais sujeitos reprovem a atitude do leão, acabam considerando a lição do burro apenas pelo medo e se tornam lobos resignados, que nada fazem em função do que sonham ganhar, atrelados aos leões.

 O astronauta, aquele que tem acesso à ponta da tecnologia, que tem dinheiro e acesso a recursos de financiamento, olha para frente com um olhar auto-suficiente, esperançoso e sabe que a argúcia das suas capacidades o levará a descobrir novas fronteiras. Sabe que o adequado manejo dos instrumentos o conduzirá, impreterivelmente, ao sucesso. Ele não se pergunta a respeito da forma como conseguiu seus privilégios e, pouco se importa com tudo quanto envolve ética na política, valorização das maiorias excluídas e avanços na justiça social. Sua ambição o torna atento para novas possibilidades e avanços na conquista.

Para o astronauta, o privilegiado por excelência das profundas transformações tecnológicas dos últimos tempos, o que realmente lhe dá status, é a cultura norte-americana. Esta lhe oferece uma perspectiva otimista do futuro. Aconteça o que acontecer, ele somente vê o progresso pela frente e a possibilidade de abarrotar-se com muitas riquezas, uma vez que eventualidade de falhas nos instrumentos eletrônicas que utiliza, são muito reduzidas. Ainda que a grande maioria dos brasileiros, quais náufragos à deriva, estejam se dando mal, ele move-se pela certeza do triunfo e do êxito. Já vive a paixão da vitória e vê que nem é conveniente misturar-se muito com os mortais que pendem para o fracasso.

O astronauta adora a ciência, a tecnologia, a globalização, porque estes campos lhe asseguram todos os dias, bons augúrios e um sem número de vozes proféticas dando garantias de êxito. A televisão torna-se um aliado excelente, porque ela dispensa cultos religiosos, para fazer, todos os dias, um imenso e intenso culto ao sucesso pessoal das pessoas. Trata-se de um culto incomparavelmente mais agradável e fácil do que pensar num Deus que espera solidariedade humana e a ruptura das fronteiras que separam, por valas intransponíveis, as classes sociais e as castas enclausuradas para melhor assegurar suas ambições.

A revolução tecnológica é um credo de respostas evidentes, imediatas e sensacionais que dispensam mecanismos de paz e de qualidade existencial. Tampouco os conflitos envolvendo as questões centrais do gênero humano, com pobreza, ignorância e exclusão, conseguem sensibilizar para algo mais humanitário. O que o move o astronauta é outra humanidade, a que ele vai conquistar nos rumos da audácia, nos quais o céu equivale a prosperidade.

O lado do americano onipotente do “astronauta” brasileiro, revela, todavia, uma incontida fragilidade, porque se move por uma cultura importada, imitada, e este caminho, só pode gerar salvação no campo da fantasia.

O reverso desta medalha do astronauta conquistador mostra a realidade de milhões de pessoas que se vêem inseguras, desamparadas, quais náufragos em alto-mar... Só percebem ondas cada vez mais elevadas de adversidades, tratamentos ríspidos, falta de atenção, de amparo, de companhia, de uma mão estendida e, que desejam ver apenas uma coisa: visualizar terra firme e próxima para evadir-se do turbilhão das águas que ameaçam subsumir suas últimas forças. Esperam, ardentemente, que alguém os perceba e, que os ampare e que lhes jogue uma bóia para não sucumbir. Seus eventuais sonhos e clamores por justiça social, no simbólico e desconcertante contexto do naufrágio, não lhes propiciam nenhuma segurança, nem por vias políticas, nem éticas e nem mesmo religiosas. Tampouco seus ideais de solidariedade, envolvendo outros excluídos ou a recuperação das instituições em crise, sensibilizam os constructos mentais dos que regem a vida pública em função dos poucos “astronautas”. Sobra-lhes apenas um estado enfadonho, desesperado e sem horizontes de salvação efetiva.

Para os náufragos, sobretudo os desta imensa América Latina, o êxito dos astronautas consegue exercer um fascínio implacável e uma verdadeira vertigem. Aparece-lhes como a antecipação do céu, capaz de romper seu inferno de desemprego, de violências, de protestos, de drogas, mas este fascínio é cruel, pois não se deixa agarrar. É como o joguinho eletrônico de clicar sobre um objeto que salta longe quando se pretende clicá-lo. Ainda que este jogo desperta a teimosia, apenas aviva imagens de outro cenário, mas, que não consegue esconder o real das frustrações profundas que eclodem nos olhares e das marcas indeléveis de rostos que já perderam a auto-estima. Ficaram tão reduzidos na sua condição humana, que somente conseguem ver o imediato. Se alguns ainda erguem e balançam os braços ao céu, para bendizer a Deus porque continuam vivos e porque ainda sonham com salvação, precisam mesmo é de mais espaço na casa, mais comida, mais educação e mais condições para tratar os limites provocados por doenças.

 

 

 

 

 

 

 

EPÍLOGO

 

 

 

Se o avanço do pensamento, tão endeusado pelo setor técnico-agro-industrial da nossa região, ameaça o cotidiano da maioria dos cidadãos comuns, deixa, contudo, uma inquietação mais ampla no ar: quem pode pensar e o que pode ser pensado? Em outras palavras, quem pode inovar e mudar?

Em tempos antigos, o avanço do pensamento sempre implicou na participação política e na capacidade de tomar a liderança para serviços e avanços comunitários.

 Política consistia em ação para o bem-comum. Por isto a educação escolar acadêmica sempre tinha a ver com condições de trabalho e cidadania, ou seja, envolviam uma dimensão política.

 No estudo ou na especialização de alguém, pesava uma hipoteca social, isto é, o avanço do pensamento era revertido para o crescimento de uma comunidade. Até em tempos não muito distantes, as famosas professoras normalistas ofereciam ricas ilustrações de um pensamento aprimorado, mas, que sempre implicava em maior auto-estima da comunidade, não só pela beleza e modo delicado, simpático e serviçal das jovens professoras, mas, também, porque elas tomavam a frente em tudo quanto favorecesse os diferentes âmbitos de uma comunidade, fossem eles recreativos, organizacionais, celebrativos, religiosos, políticos, etc.

Atualmente parece que o sistema escolar empobreceu o sentido educacional a tal ponto que ele apenas é mediação para mão-de-obra de certo sistema de organização social capitalista e onde certo grupo, fechado em sua concepção bairrista, procura perpetuar-se no poder, mesmo quando sua função já se encontra completamente defasada. Há um fechamento radical para o que representa reordenamento do quadro estabelecido. Daí a peculiar resistência a tudo quanto vêm de outras regiões e que poderia representar eventual mudança no modo de ser.

A perda da função política no cultivo do pensamento é certamente uma lacuna grave dos nossos tempos.

Os espaços acadêmicos que preparam e reproduzem o pensável, acabam estabelecendo limites e diretrizes a respeito do que cada campo de ciência pode e não pode dizer e fazer.

 Neste jogo, normalmente não entra a noção da comunidade real, a que revela desigualdade profunda entre cidadãos privilegiados e os que não contam na sociedade, entre os que podem gritar e falar alto aos ouvidos dos demais e os que necessariamente só podem escutar. Não entra em pauta a sujeira da rua, a imundície jogada nos terrenos baldios, a conservação de árvores, flores e ornamentos, a conservação dos córregos, enfim, atenção à flora, fauna e ao ar que se respira, para que tudo isso seja algo a somar qualidade de vida. Significa que, nem o cotidiano consegue manter vida autônoma, porque a invasão da racionalidade chega a tal requinte, que não invade apenas os espaços sociais de comunicabilidade, mas, até mesmo as frestas mais abscônditas do inconsciente e da subjetividade dos indivíduos.

Se o “trem” que faz todos sonhar com uma cidade maravilhosa e uma região paradisíaca, permite que somente alguns poucos cheguem ao paradeiro final, o que, então, vai acontecer com os outros que são forçados a conformar-se, a desistir do ideal e a resignar-se numa condição servil de salários sub-humanos?

Enquanto que as recepções da etiqueta encobrem os desencontros reais do “Eldorado”, muito caminho de aproximação humana ainda precisa ser percorrido para que a cordialidade seja expressão de um estado de bem-estar generalizado, e este certamente nunca vai ocorrer sem maior distribuição dos bens materiais e simbólicos da nossa cultura.

 Na medida em que uns se fecham em condomínios, em lugares à parte, ainda que melhor assegurados do que outros contra roubos e invasões, não estarão imunes e ilesos de um cotidiano de violência que já se instalou devido ao infeliz processo de discriminação racial e cultural.

Se a defesa do singular deve ser preservada ante a invasão massiva do plural das novidades e mil excentricidades que a indústria de consumo cultural despeja aos borbulhões sobre as mentes humanas, não poderá, no entanto, consistir em mera auto-defesa passiva de condenação do diferente.

O lazer, tão fundamental para o equilíbrio humano, não pode ficar restrito a seletos grupos e ambientes, mas deverá ser uma condição para todos os espaços da vida urbana.

Do contrário, o avanço da racionalidade, mesmo avançando em pontas do insondável mistério da vida, com a bioengenharia e tantos avanços da simbiose humana, possível com máquinas e outros mil inventos, ficará devendo uma razão para vencer o tédio, a nova doença dos espaços urbanos que se afirmam nos ideais da racionalidade.

 A questão capaz de integrar o cotidiano e o pensamento passa imprescindivelmente, pela dimensão ética. O avanço do pensamento precisa apresentar uma proposta para a formação da subjetividade humana e para apontar uma identidade, tanto cultural, quanto social e pessoal. Sem este horizonte, existe algum lugar de onde se possa esperar formação de trabalhadores críticos, políticos e comprometidos para uma qualidade social e não apenas para seus interesses pessoais?

Em suma, no limiar ofuscado do cotidiano e do pensamento, precisa-se redescobrir uma nova proposta ética e política para a convivência urbana. Em outras palavras: não está faltando um rosto mais definido e delineado para um corpo tão bonito que é esta cidade?



[1]   CAMARGO, Luis Octávio de Lima. Quando o lazer se transforma em tédio. In: CULTURA VOZES, ano 87, vol. 87, no. 6, nov./dez. de 1993, p. 5-6.

[2]   Idem, p. 7-8.

[3]  Diante desta rivalidade, torna-se oportuno o lembrete de um ditado popular: “Deus perdoa sempre; as mulheres e os homens,de vez em quando, mas a natureza, não perdoa nunca”. A Biologia também sustenta que toda precocidade sempre implica em antecipação do fim, até mesmo na questão sexual, da genialidade ou de habilidades psico-motoras...

[4]   BRUGGER, Walter. Dicionário de Filosofia. Barcelona: Herder,1983, p. 375-376.

[5]   FERRATER MORA, José. Dicionario de Filosofía. Madrid: Alianza, p. 2.262-2.264.

[6]  Idem, p. 2.263.

[7]   LIMA, Carlos Cirne. Dialética para Principiantes. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996, p. 219.

[8]  Idem, p. 226.  Dizer que Deus está dentro e no âmago da vida, é algo distinto do que afirmar que tudo é Deus, uma forma chamada panteísta.

[9]   Termo que Eduardo Mendieta usa no texto Modernidad, Posmodernidad y Transmodernidad: una busca esperanzadora del tiempo. In: UNIVERSITAS PHILOSOPHICA, 27, (p.63-86), deciembre 1996, Bogotá, Colômbia.

[10]   MENDIETTA, Eduardo, op. cit. p. 73.

<center>ENTRE O COTIDIANO E O PENSAMENTO</center>

    SINOPSE   Muitas pessoas orientam sua vida pelo seu cotidiano, ao lado de outras que se orientam pelo pensamento. Nesta disputa, nem...