Índice
1 – Na casa da Tia
Catarina...
2 – Com o canhoto azarado...
3 – No cheirador de rolha...
4 – Sob o saco de requeijão...
5 – No tempo do calção litúrgico...
1
NA CASA DA TIA CATARINA
O terreno da
sua residência, equivalente a uns quatro terrenos urbanos, no povoado de São
João, interior de São Carlos - SC, era mais que um jardim botânico. Pessoa
gorda nem conseguiria chegar à casa de Catarina, naqueles estreitos trilhos de
acesso. Todo o entorno da casa, constituía um ambiente encantador de variedades
de flores, frutíferas e árvores de sombra. Ainda hoje, os jardins daquela
comunidade encantam pela beleza e encantamento da múltipla coloração de flores.
Catarina, em sua família, foi uma
menina normal, a mais velha de treze filhos e ajudou sua mãe a criar uma porção
deles. Seus pais moravam ao lado do lote da sua residência. Seu pai faleceu
cedo, de tétano, decorrente de um estrepe no pé. Pouco tempo depois, queimou a
casa, onde moravam, e Catarina teve que lutar muito com sua mãe para que seus
doze irmãos pudessem crescer com comida e saúde.
Catarina namorou, noivou e estava se
encaminhando para o casamento. Um fato secundário e imprevisto, mudou o rumo, e
desviou o casamento.
Naqueles
tempos, todo morador tinha uma espingarda e, esta, geralmente, ficava pendurada
num prego na parede da sala de estar, a fim de facilitar o acesso, em caso de
necessidade de matar algum bicho. Diversos irmãos de Catarina, num dia de
chuva, estavam se atropelando na sala de estar, e já não sabiam mais o que
inventar naquele espaço, pois, não podiam ir para fora devido à chuva intensa.
A certa altura da manhã, resolveram
fazer uma luta, simulando uma guerra e as armas eram constituídas por calças
que um batia contra outros. De repente, um irmão de Catarina, ao querer bater
em outro irmão, esticou a calça pelo ar e a enroscou na espingarda, e, ela, na
queda, detonou um tiro que atingiu em cheio a perna direita da Catarina, do
joelho para baixo. Catarina estava na pia preparando almoço. A tragicidade do
fato, acabou sumindo com a parte inferior da perna, do joelho par baixo,
destroçada pelo chumbo. Sobraria, assim, a partir da amputação dos fiapos
sobrantes, tão somente a possibilidade de andar de muletas. O noivo, não
assumiu seu pacto, e deixou Catarina de lado, ignorando todo seu sofrimento.
A dupla perda, da perna e do noivo,
não tirou o rumo da vida de Catarina, mas, ela não quis mais saber da
possibilidade de se casar, e, ser, eventualmente, mais uma vez, deixada de
lado, em algum momento da vida. Como era muito estimada na comunidade, um
marceneiro foi solidário com Catarina, e fez uma perna mecânica de madeira,
mesmo um tanto rústica, mas, que permitiu substituir a parte que o tiro de
espingarda fez sumir.
Não era ainda uma perna mecânica como
essas modernas da atualidade, mas, ajudava Catarina a locomover-se. A casa de
Catarina, que seria para a vida partilhada, virou casa de costura. Todo dia ia
e vinha alguém, ou para trazer roupa, ou para experimentá-la, ou para leva-la.
Catarina também era muita agraciada com frutas, linguiças e outros alimentos,
embora, produzisse fartura e também a partilhava. Assim, a casa de Catarina
virou símbolo de cordialidade.
A casa
pequena da tia Catarina, de madeira, escondia até cor da pintura, de tanta lata
de tinta, transformada em vaso, que ficava pendurada na parede, com flores.
Também tinha muita flor pendurada nos galhos das árvores. Com isso, a casa sequer
era visualizada, a partir da estrada, pois, ficava no meio deste jardim
maravilhoso. A sala de estar virou sala de costura e de tão abarrotada que
ficava com tecido para todo lado, só dava espaço, para no máximo três pessoas
ficarem sentadas naquele espaço restrito. Catarina ficava sempre sentada atrás
da sua máquina. A porta da sala, sempre aberta, ajudava a reduzir andanças para
lá e para cá a fim de abri-la e fechá-la.
Tia Catarina tinha peculiaridades
fantásticas. Costureira, durante uns sessenta anos, costurava praticamente toda
a roupa da comunidade: calças, camisas, casacos, vestidos, saias e roupas
íntimas. Além de ser costureira, constituía a central de informações e sabia de
qualquer fato e de toda fofoca da comunidade. No entanto, não era daquelas
fofoqueiras vulgares e chatas. Serena, calma, sempre sorridente, sabia falar
sobre o mundo das conversas daquele povoado: envolvia doenças, nascimentos,
fiascos e casos hilários, colheitas, frustrações de safra e todo aquele mundo
romântico dos jovens iniciando namoros.
Apesar da sua limitação física,
Catarina cultivava flores, muita verdura na horta, tinha vaca de leite e criava,
normalmente, dois porcos. Assim que engordava um porco, vendia-o e recebia um
leitão pequeno, doado por alguém. Criava, também, galinhas e, como o arvoredo,
com imensa quantidade de flores, abrigava pássaros de todo tipo, assim, também
o sótão da casa, abrigava muitos gambás e ratos. A horta produzia, além de
verduras e legumes, até pinhão, pois, no meio da horta, subia aos elevados ares,
um altaneiro e imponente pinheiro.
O mundo das flores era peculiar: não
existia comércio de flores em São João, mas, estas eram entregues,
gratuitamente, e, com senso cordial, pois, assim como alguém recebia mudas de
flores e de arbustos, também sentia satisfação em poder dar mudas a outras
pessoas. Desta forma, as plantas ativavam um vasto mundo simbólico, porquanto
cada planta ou flor, lembrava a pessoa que a havia doado. Nisto, as mentes se
povoavam com a alegria do jardim devido às boas memórias das pessoas generosas.
O pequeno espaço de capim para alimentação
da vaca era complementado com as sobras da horta, mas, Catarina também arrendou
um outro pedaço de chão, ao lado do seu lote, onde plantava milho, arroz,
mandioca e feijão. Não era muito, mas, o suficiente para o consumo doméstico. Meio
de arrasto, com aquela pesada perna de pau, descansava das costuras e ia mexer,
durante uma hora, na terra.
Chegar à casa da tia Catarina, era o
símbolo da entrada no paraíso terrestre. Além da beleza extraordinária das
flores, Catarina era muito acolhedora, simpática e fazia os agrados que a mãe
não podia fazer. Dava umas balas. De repente ia cortar um pedaço de salame. Sem
demora, se inventava a fazer um mate-doce, daqueles muito especiais.
Ajeitava a cuia, ia na janela,
recolhia a erva seca do chimarrão anterior, ajeitava na cuia e, então, ia ao
pote de erva e colocava um pouco de erva nova em cima daquela erva secada e
lavada pelo uso. Arrumava o pote de açúcar, metia uma boa colherada de açúcar
na cuia e depois a água quente.
Depois de tomados uns três goles, já
começava uma movimentação peristáltica, e se tinha que correr, atropelando
flores, para chegar, em tempo, na “capunga”, a fim de proceder uma ruidosa
evacuação. O pior, era a posterior sequela da desconfortável cólica intestinal.
No retorno, disfarçava-se a dor de
barriga e se agradecia pelo mate. Sem demora, a tia Catarina se metia a fazer
bolinhos de batatinha, especiaria da culinária de São João. Ralava batatinhas
grossas, misturava com sal, ovos, leite e mais alguns temperos.
A banha da frigideira, normalmente rançosa,
usada para muitas frituras, deixava um cheiro meio estranho, mas, aqueles
bolinhos, angelicais e bons de serem deglutidos, agregavam, impreterivelmente,
outra bagunça no estômago e, dentro de alguns minutos, tornava-se inevitável mais
uma corrida frenética e disparada, até a dita “capunga”, para efetuar a limpeza
do pouco que ainda permanecia nas entranhas.
Tia Catarina insistia para comer mais
bolinhos, e, mesmo com a boca salivando, dizia-se que a barriga já estava
estufada de cheia. Nem se passava muito tempo, e a tia já oferecia bolachas, de
repente um pequeno chocolate e assim ia aquela bajulação com muitos agrados.
O que nunca se conseguiu ver, era
como a tia afirmava aquela perna mecânica na sua perna para poder caminhar.
Dizia-se que era um ritual demorado de amarrar muitos panos, para evitar
fricção do couro da perna com a madeira. Entretanto, a perna funcionava, ao
lado da outra, por longas horas diárias, para movimentar a máquina de costura.
Pernoitar na casa da tia Catarina,
oferecia um cenário para muitas alucinações. Era corrida de rato sobre o forro
e, também, o caminhar pesado e lento de enormes gambás. Para a tia, eram
bichinhos queridos que não faziam mal algum. Ela nem percebia que, de vez em
quando, na abertura do forro pelo qual o cano da chaminé do fogão a lenha subia,
uma meia dúzia de gambás ficava espreitando sobre o que acontecia na cozinha,
mas, também, alguns gambás, mais espertos, desciam um pouco, até o varal das
linguiças e charques, pendurados acima do fogão, e recolhiam algumas pernas de
salame.
A tia Catarina nem se importava e
dizia que eles também precisam alimentar-se e olhavam com tanta simpatia, que
bem mereciam alguma comida saborosa.
2
COM O CANHOTO AZARADO
Ao nascer, escapou-se por um triz,
pois, estava atravessado no útero da mãe, na hora do parto e, como foi tirado
pela força braçal, ao, finalmente, desvencilhar-se da prisão do sufoco, foi
considerado morto, por algumas horas, porquanto a parteira e as vizinhas
quiseram salvar sua mãe.
Mesmo sem aparentes sinais vitais,
uma tia, ao colocar sua mão sobre o seu peito, constatou que seu coração ainda
batia. Foi, então, que lhe deram atenção. Cresceu sem maiores sequelas e, aos
poucos, perceberam que ele era canhoto. Normal como tantos outros canhotos,
passou a primeira infância como canhoto, sem maiores dificuldades.
Quando, aos sete anos começou a ir na
escola, teve uma surpresa: o professor, ao constatar que ele escrevia com a mão
esquerda, auferiu-lhe séria e severa admoestação. Naquele tempo, os pais tinham
que ensinar os filhos a escrever, antes de irem à escola. Como aquele menino não
se ajeitava para escrever com a mão direita, começou a levar varadas de marmelo
nas costas. Junto com a surra, tinha que ouvir, que, tudo o que é esquerdo, é do
diabo.
Talvez por inconsciente resistência,
um dia, ao cortar uma batata doce para fazer lavagem de porco, descuidou-se na
direção do facão, e cortou, junto com uma lasca de batata, a primeira vértebra
do dedo polegar direito. Levado ao médico, este estava turbinado por cachaça,
na hora de tirar a atadura, arrancou de vez a parte cortada. Longo e demorado
processo, fez crescer parte desta vértebra, mas, torta e sem osso. Foi, assim,
tolerado, por um ano, para escrever com a mão esquerda. Quando o polegar
direito, ficou revestido de pele e com duas unhas tortas, foi obrigado a
escrever com a mão direita.
Ao participar das celebrações
religiosas, enfrentou outro conflito em relação ao sinal da cruz: para ele, o
certo era faze-lo com a mão esquerda. Um velho carrancudo que o observava, ia
até ele, e o erguia no puxão de orelha a fim de aprender, para sempre, que
sinal da cruz de faz somente com a mão direita.
Afinal, mudaria alguma coisa neste mundo, se
fosse feita com a mão esquerda? Era a ditadura dos estereótipos. O mesmo
ocorria em relação à genuflexão: ele dobrava a perna esquerda. Não podia ser
assim, pois, tinha que dobrar a direita.
Parece que tal rigidez, afetou até o seu
olhar: de tanta censura, para ser tudo da direita, criou mais simpatia pelo que
provinha da esquerda física. Afinal, só sabia chutar bola com a perna esquerda,
- e chutava forte - porque, com a direita, seu chute era considerado chute de
menina. Hoje, não seria mais possível fazer esta comparação, mas, naqueles
tempos, meninas não jogavam bola, e dizer que um chute era de menina, equivalia
a dizer, zero pela direita.
Para bater prego, para erguer peso,
segurar bezerros no laço, atirar pedra, enfim, tudo tinha que ser com a mão
esquerda, menos o escrever.
Passada a ofensiva mais truculenta
para deixar de escrever com a mão esquerda, e já conformado em escrever com a
mão direita, emergiu mais um dilema: começou a querer ser padre. A
contrariedade veio do catequista que dizia: para alguém ser padre, não podia
ter nenhum defeito nos dedos polegares e indicativos. Mais um peso de
consciência, pois, o seu dedo polegar direito, fornecia os argumentos
suficientes para que fosse dispensado da chance de ser padre. É que, naqueles
tempos, o padre rezava a missa inteira com estes dedos unidos, o que,
atualmente, seria um gesto obsceno.
Abriu-se, então, um segundo dilema:
queria ser padre, com o dedo polegar defeituoso, e, para não ser dispensado do
sonho, ficava sempre com a mão direita no bolso. Também ali, tudo complicado,
pois, era proibido andar de mão no bolso. Dizia-se que a mão poderia gostar de
ficar muito perto de uma área altamente perigosa. Ele achou uma saída: por onde
andasse, tinha o terço no bolso direito da calça.
Quando era interpelado por andar com a mão no
bolso, puxava o terço e dizia que estava rezando, mas, não estava rezando coisa
nenhuma. Escapou-se de ser dispensado da condição de ser padre, foi ordenado, e,
dias depois, ocorreu o que não podia imaginar: correndo atrás da bola, girou o
corpo sobre o joelho direito e rompeu os ligamentos, a tal ponto, que o joelho
era dobrável para qualquer lado.
Como não firmava a perna, caía a toda hora, e
teve que submeter-se a seis intervenções cirúrgicas, para conseguir caminhar
para o estrito necessário. As múltiplas cirurgias desalinharam seu pé, e, no
simples ato de caminhar na sala de estar, quebrou o osso que leva ao segundo
dedo do pé. Precisou submeter-se a mais uma cirurgia, a sétima, para implantes
de platina. Assim, limitado, ainda mais, pelo lado direito, acabou enfunado
como professor de Filosofia.
Surgiu, numa certa altura da vida
limitada para muita andança, o encantamento por tocar violão. Havia, porém, um
problema complicado: o dedo polegar direito não se prestava para bater nas
cordas, nem com dedal e nem de outra forma. Restou ainda uma alternativa:
inverter as cordas, só que isso implicava em ter um violão exclusivo para si.
Foi poupando pequenas quantias na poupança, até que conseguiu comprar um violão
para si, e que por sinal, imprestável aos outros, que não eram canhotos como
ele. Não virou um renomado violonista, mas, conseguia acompanhar as cantarias
de Igreja e de festinhas, nas quais se costumava cantar durante horas a fio.
Quando tudo ia tranquilo, ladrões entraram na residência e roubaram seu violão:
mais uma sina contra o canhoto. Presumidamente, foi ladrão de direita e ele
desistiu de ser violeiro.
Mesmo sem ser esquerdista e nem marxista,
pelo simples fato de lecionar Filosofia, viveu sendo acusado como sujeito
comunista. Era aquele ódio por tudo quando era identificado como de esquerda.
Seu velho padrinho, educado como tanta outra gente, dava-lhe insistentes
conselhos para evitar esta diabólica atração pela esquerda e falava dos
horrores hediondos dos comunistas.
Dizia aquelas abobrinhas, muito
veiculadas, de que comunistas tiravam a terra, os animais, comiam criancinhas, estupravam,
e, somente faziam coisas do diabo. Até colegas davam a entender que ele era um canhoto
comunista. Mesmo que tenha lido e estudado todos os autores como Engel, Hegel,
Marx, Feuerbach, Gramschi, Althusser, Nietsche e tantos outros, sempre os leu
numa perspectiva crítica. O razoável conhecimento relativo a tais pensadores,
constituía razão suficiente para ser rotulado de esquerdista.
Embora ser canhoto, não representasse
necessário sintoma e evidência de ser comunista, a pecha o fez sofrer acusações
de ser esquerdista, seja como defensor da Filosofia da Libertação, ou, por não
enfatizar e ratificar a visão clericalista, ultraconservadora, e fanática por
posturas políticas de extrema direita.
Afinal, se o nariz estabelecido entre
os dois olhos, já delineia que o olhar de bom foco, precisa do olho direito,
tanto quanto o do esquerdo, todo este fanatismo por apenas um olho, além de um
olhar caolho e vesgo, fazia enxergar, apenas, uma parte da dialética da
complementariedade: um olhar bom e perspicaz, precisa ser simultaneamente
esquerdo e direito. Talvez indique até algo precioso para o campo da política.
3
NO CHEIRADOR DE ROLHA
O professor universitário, doutor em
Educação, chamado José Bingolim, apresentava-se no perfil nobre da erudição
francesa. Andava, um dia como outro, de terno e gravata e se destacava, mais
pela pose, do que pela sabedoria. Como tanta outra gente, que mistura seu ego
com o status, ele era perito em falar, não dos temas candentes e inquietantes
da educação, mas, precipuamente, dos vinhos franceses.
Descendente de italianos que migraram
ao sul do Brasil, cresceu naquele clima de famílias numerosas, com muita
polenta, queijo, vinho e salame. De estatura média, mas, robusta e bem
alargada, fazia da sua fala uma tergiversação degringolada. Como esteve algumas
vezes na França, e fez cursinho, por correspondência, sobre como tomar vinhos
nobres, conseguia falar, horas a fio, sobre os modos de se tomar vinho, sobre
os tipos de taças, sobre as condições de manutenção das garrafas nos altarezinhos
da adoração ao deus Priapo, sobre o como fazer este vinho circular por todo o
ambiente da boca, para, enfim, deixa-lo deslizar, suavemente, no penhasco da
garganta, e pousar, com elegância, no meio daquele brejo pantanoso do estômago.
Chatíssimo na sua enlevação para ensinar
como tomar vinho, constituía-se, realmente, em professor catedrático de
afirmações eruditas, com descrições minuciosas, e, com largas minudências e
brogúncias, a respeito de vinhos, sobretudo, os franceses.
Bingolim ostentava uma colorida
variedade de garrafas na parede da sala de estar da sua casa. No destaque
daquela prateleira, ficava um pote de vidro, enorme, de cerca de cinquenta
centímetros de altura, praticamente cheio de rolhas cheiradas e guardadas para
ativar a memória dos tipos de excelsos e nobres vinhos já ingeridos depois dos
ditos “buquês” e desassidificação naqueles giros do vinho dentro da taça, antes
de aproximá-lo da boca, suspirante e sedenta por aquele líquido precioso.
De vez em quando, em seus arroubos, nada
deletérios, para coçar seu próprio ego, convidava um e outro colega para um
jantar. Um destes colegas foi o professor Pedro Kretz. O sobrenome já indicava
um pouco do seu perfil, pois, Kretz, em alemão, significa sarna, - para os pobres; - e, para os ricos, esta
bonita doença chamada de escabiose.
Com características de irritação
cutânea por ter que suportar algumas horas de jactância sobre vinhos e como
tomá-los, Pedro tinha uma desculpa de que não tomava vinho, nem francês, nem
grego ou chinês e, nem mesmo, o falado vinho alemão “Jungfraumilch” (traduzido,
leite de jovem senhora), e, menos ainda, estes vinhos de garrafão, vendidos nos
armazéns e supermercados como “Sangue de Boi”, “Chapinha”, “Campo Largo” e
outros similares. Argumentava que bebia apenas alguma latinha de cerveja
Heineken, no bico, sem sequer usar copo. Era, evidentemente, uma ironia contra
o nobre professor e degustador de vinhos.
Jantar ao lado do professor José
Bingolim (“Bingolim” também significava a bochinha fina, ou balim, usada nos
jogos de bocha, esporte preferido dos descendentes italianos), proporcionava
impreterível movimentação peristáltica.
Um dia, o professor formulou mais um
convite para que José Kretz fosse jantar em sua casa. A esposa do Bingolim,
gentil e discreta, tinha que ser assim mesmo, pois, ante as falas ininterruptas
do marido, deve ter aprendido a ficar calada. Desta vez, porém, veio o que
faltava para a conversa ser exclusivamente sobre vinhos franceses.
Tratou-se da presença da doutora Margarete,
filha de gente modesta, que lutou muito para custear sua Faculdade de Medicina,
mas, ela, como médica, e auto-proclamada doutora, já não se ocupava mais com as
conversas do senso comum e dos ambientes da vila de onde saiu. Era destas
mulheres falantes e faladeiras, tanto quanto o professor Bingolim para abordar
o tema preferido e imprescindível da conversa: vinhos.
Enquanto a esposa do professor
Bingolim arrumava a mesa com aquelas pilhas de pratos, e enchendo o espaço
disponível com taças, guardanapos, talheres e outros apetrechos, o professor
mostrava seus equipamentos para servir vinho, a fim de não permitir que alguma
gota de vinho deslizasse pelo bico da garrafa e fosse parar na toalha branca da
mesa e, sobre o como colocar o dedo naquele buraco arredondado no fundo da
garrafa, na hora de servir o vinho. Até para isso, precisava ser seguido um
ritual de etiqueta sofisticada.
No meio da conversa fechada com a
médica Margarete, Bingolim foi pegar uma garrafa de vinho, colocou-a sobre a
mesinha especial, entre os sofás, foi buscar a caixa dos apetrechos para abrir
a garrafa, e, o que mais incomodou José Kretz, foi que Bingolim, assim que
extraiu a rolha do bico da garrafa, cheirou demoradamente a rolha e fez os
visitantes também cheirá-la. Foi, então, que iniciou a palestra magna sobre o
cheirar a rolha. Aquela ritualização solene, de cheirar, ficar com o nariz no
rumo da lua, inebriar-se com os eflúvios daquele néctar dos deuses, tornava-se
altamente animalesco para o José Kretz.
Afinal, ele, quando era menino,
observava um ritual tão parecido com os touros e carneiros, que, cheirando a
saída urinária das fêmeas, ficavam com o nariz erguido na direção da lua. O ato
consistia, certamente, no tempo necessário para que aquelas inalações chegassem,
através de seletos neurônios, até o cérebro para lhe dizer que deliberasse uma
ordem ao corpo: pode inebriar-se à exaustão com tais hormônios de pura
felicidade.
A médica conseguiu furar o monólogo
da conversa do professor Bingolim, e enveredou sua grandiloquência sobre vinhos
franceses, que ela apreciava muito. Era “Chateaux” disso e “Chateaux” daquilo,
como “Chateaux de la Cave”, “Chandon”, que o silenciado José Kretz desejava,
também, entrar na conversa, para dizer que já tinha tomado “Vino de Riocha”, da
Espanha e, Casilla del Diablo, do Chile. Como não conseguiu furar a esotérica e
mística elevação dos dois, depois de cheirar a rolha, ele não aguentou mais
aquela conversa interminável sobre vinho francês e rolha, levantou-se e falou
para os dois: eu apenas aprecio um único vinho francês. É o vinho “Chatô de
Shaco Cheio”. Levantou-se e foi embora, antes do jantar. Para seu alívio, nunca
mais foi convidado.
4
SOB O SACO DO REQUEIJÃO
O saco do requeijão requer uma
hermenêutica complicada para que se possa entender o seu significado. A
dificuldade envolve as duas palavras, devido à polissemia dos seus significados.
Além das conotações, envolvem metalinguagens, e ainda, alguns sentidos de
entrelinhas não escritas, ou seja, não é sempre bem aquilo que se diz com a
palavra.
Começando pela palavra “saco”, o seu
significado requer uma enciclopédia mental para constatar o que a utilização da
palavra realmente quis expressar e, ainda mais: as palavras acrescidas,
complicam com, elevados graus, a clareza do significado, como “saco cheio” ou
“saco vazio”; saco, em sentido figurado ou conotativo; saco, como estado
afetivo-emocional; saco, limpo ou sujo; saco plástico ou de couro; saco de pano
ou de lona; saco “beg” ou saquinho de sal; saco, furado ou bem costurado; e
assim vai...
Na fala com entrelinhas, fala-se em
cair o saco, em saco da mulher, em puxa-saco, em dizer que algo é um saco; em
saco cheio e, em muito outro enleio. Assim, ao se dizer que Fulano está coçando
o saco, poderia remeter ao significado de estar ansioso, numa expectativa, que
está com tédio, sem saber o que fazer, ou até por fatores de hábito cultural,
para dar a entender que queria ser visto como sujeito muito macho, barbaridade
tchê!
A toda hora, nem apelação ao VAR
conseguia clarear o significado de “cair o saco”: em primeiro lugar, qual;
depois, porquê?; e, ainda, de onde que caiu. Afinal, era um saco de garupa,
como dizem os gaúchos? E se foi saco de garupa, era de lona, de pano ou de
couro? Ademais, estava sobre o cavalo encilhado, ou nos ombros do vivente,
carregando algum produto para casa? Ou seria, enfim, algum processo fisiológico
do peso dos fragmentos seminais de homem chato e impertinente?
Entretanto, o que mais requeria
hermenêuticas, era a expressão “saco cheio”, que podia ser referência de
metáfora para expressar saturação e sobrecarga de atividades desgastantes, ou,
apenas referir-se a saco de milho, de café, de soja, ou de feijão, ou de
açúcar, embora, também pudesse estar no foco, algum outro sentido figurado ou
simbólico.
Para que este assunto também não vire
um saco, convém mencionar a palavra “requeijão”. Basicamente resulta do leite
coagulado, ou por coagulação ácida ou enzimática. Desta massa, chamada de
coalhada, processa-se o queijo fundido, - cozido ou não, - mas, acrescido de
grande variedade de aditivos, como gorduras saturadas, óleo de manteiga, sódio,
e, mais alguns produtos que, finalmente, o deixam irresistível: a condição de
ser cremoso.
Se é cremoso, produz na fantasia, aquela
magia de algo suave e pastoso, e, com isso, remete a outro significado: ser
carinhoso, fofo, meloso e muito gostoso. Em sua essência, a palavra “cremoso”,
remete a significados polissêmicos do campo da paixão humana: a propriedade de
ser viscoso, pastoso, liso, fácil e substancioso.
Feito este preâmbulo, pode-se, então,
chegar a mais um significado de “saco de requeijão”. Enquanto que na cultura de
influência italiana, era normal o consumo de muito queijo, com polenta, salame,
“radiche” e tantas outras iguarias apreciáveis, entre os descendentes alemães,
demorou a se assimilar o consumo de queijo, mas, era cotidiano o uso de
requeijão. Com técnica menos refinada do que o das atuais indústrias de
laticínios, deixava-se o leite numa vasilha aberta e exposta em algum lugar, a
fim de que virasse coalhada. Entrava, então, o outro elemento: o saco.
Na verdade, era habitual a utilização
dos sacos de sal, que continham cerca de vinte quilos deste produto. Ao serem
esvaziados, estes sacos eram lavados e alvejados, e, então, passavam a ter a
função de separar o soro da coalhada. Geralmente pendurados no lado da janela
da cozinha, para fácil acesso, quando o soro havia se sumido do saco, a massa
era recolhida, amassada com garfo, acrescida de nata e sal e constituía, assim,
o requeijão. Este, era passado no pão de milho: primeiro vinha uma camada de
“Schmier” (doce de frutas com melado de cana ou açúcar), depois, a camada de
requeijão e, por cima desta camada, mais um pouco de nata para que esta
cobertura, como o merengue das tortas, deixasse a fatia de pão bonita e
atraente.
Atualmente as indústrias de
laticínios fabricam algo similar ao requeijão, como o Quaker ou queijo frescal
e nata, mas, nenhum destes produtos, isolados ou misturados, chega ao sabor do
requeijão caseiro, junto com pão de milho. No lugar da cremosidade,
pastosidade, suavidade, lisura, e frescura do requeijão atual, o requeijão
caseiro ainda não tinha absorvido a dimensão carinhosa, melosa e com jeito
gostoso.
Segundo a hermenêutica de um amigo, a
cremosidade estaria sendo a grande causa dos desvios de conduta e da perda da
identidade de masculino e feminino. Talvez não seja, mas, a palavra cremosa é
altamente hipnótica para induzir ao consumo. Afirmar que um sorvete é cremoso,
que um picolé é super-cremoso, que o requeijão e tanto outro produto, como o
café, é macio e cremoso, constitui a mais efetiva e sedutora publicidade para
seu consumo.
Aquele saquinho, que uma vez era para
conter o sal, na qualidade de filtro separador do soro do leite da coalhada,
não ficava muito ausente das conversas cotidianas mais antigas em ambientes de
descendência alemã: muito complicado para ser lavado, devido à absorção da
gordura do leite, constituía o símbolo do cheiro azedo do soro, e do mau-humor.
Nada ficava mais hilário quando alguém contava a história de mulher que tinha batido
este saco de requeijão na cabeça do marido. Era sua arma e o símbolo máximo do
empoderamento da mulher, diante do marido machão ou bêbado.
Alguém vir a ser gozado de que levou
o saco de requeijão na orelha, constituía a mesma coisa do que lhe dizer:
enfim, caiu o saco! Você, agora, está com a natureza máscula escafedida.
5
NO TEMPO DO CALÇÃO LITÚRGICO
Nos idos tempos do início da década
de 1960, vivia-se na Igreja Católica a influência marcante e determinista do
Concílio de Trento para seminaristas que quisessem ser padres. Os neurônios
cerebrais, naqueles tempos, nem tinham sido ativados e informados a respeito do
que poderia ser o uso de calção, menos ainda, de sunga. Eles, certamente, nem
sabiam identificar estas normativas da moda.
No seminário de Maravilha, SC,
situado no topo mais elevado da cidade – que na verdade, era mais uma vila
perdida no meio do mar ondulado de Araucárias, - se a moda da época já
apresentava algumas diretrizes a respeito do como se vestir, neste seminário,
não se admitia nem mesmo o uso de calça curta. Calça comprida, era a regra
oficial, quer para estar na sala de aula, quer nos momentos de lazer ou de
jogar futebol.
Havia uma exceção, muito especial,
para o banho coletivo, num açude localizado dentro do mato. Atravessava-se a
pequena cidade, e lá, no outro lado, bem isolado por mato, - a cerca de três
quilômetros de distância do seminário, - tomava-se o banho com uso de calção
que tinha que encobrir os joelhos. E, com um detalhe: não se podia ir até o
açude de calção. Ia-se de calça comprida, atravessando o centro da cidade, e,
lá no mato, um se escondendo do outro, atrás de alguma árvore, trocava a calça
pelo calção de banho. Nem se admitia pensar na hipótese de sair do açude e
voltar para casa com calção molhado no corpo. O simples fato de trocar a roupa
no mato, acabava deixando tanto o calção quanto a calça embarrada e suja. Mas
era a condição.
Passados alguns anos, já em outro
seminário em Santo Ângelo, RS, já se podia vestir o calção de banho e correr
até um enorme açude a uns quinhentos metros de distância, e, guarnecido por
mata fechada. Com frio ou calor, neve, geada ou chuva, todos tinham que tomar
banho diário naquele açude. Nem se sonhava com chuveiro, e ainda mais, chuveiro
aquecido. Voltava-se do açude em corrida, ainda mais, no frio do inverno
gelado, e corria-se até o dormitório, com o calção, já sem escorrer água pelas
pernas, e se vestia outro calção e calça comprida. Nem era imaginável o uso de
cueca de microfibra, elastina e desta microscópica pequenez de tamanho, como a
das cuecas dos dias atuais. Tudo era feito à base de tecido de algodão.
De tanto pressionar o diretor do seminário
para jogar futebol, do jeito da seleção brasileira e dos grenais, com um
calção, como eles os vestiam, seria um status fora do comum. Depois de anos de
insistência, eis, que o diretor liberou o uso de calção para os jogos de
futebol, mas, estritamente, para o tempo do jogo em campo. No entanto, ainda
não havia chegado o tempo evolutivo do uso de calção curto e apertado como os
daqueles jogadores afamados, quase perceptíveis naqueles incipientes
televisores em preto e branco. Isto, quando não chovia, pois, se chovesse,
sumia a imagem. Os calções, obrigatoriamente, tinham que cobrir as pernas, até
os joelhos.
Se a liberação foi uma grande
conquista, havia, no entanto, um resquício de insatisfação e incompletude nos
anseios de poder usar calção que não fosse tão comprido. Imediatamente, este
calção comprido, foi batizado de “calção litúrgico”, e muito se falava de que
este tipo de calção era radicalmente distinto dos calções vestidos pelos demais
meninos, quer nas ruas, nos jogos e até para ir à escola. Eles praticavam
economia muito maior em relação à roupa desnecessária do que os seminaristas e
só se via menino com calção curto e apertado.
Sob o conceito de calção litúrgico,
passaram-se mais uns anos e os seminaristas, já maiores, ao jogarem contra outros
times de futebol, enfrentavam uma gozação fora do comum, com aqueles calções
litúrgicos. As meninas e moças, então, tiravam o maior sarro. Razão para mais
uma campanha em favor de calção normal, até comprável em lojas de tecidos, para
serem mais parecidos com o comum dos mortais na veste, eis que o esmerado
empenho obteve bom resultado: os seminaristas foram liberados para usarem
calções curtos como os de outros jogadores, mas, com uma condição, não daqueles
de mostrar o volume dos documentos.
Por ironia das contrariedades, quando
os seminaristas, finalmente, puderam vestir calção não litúrgico, entrou a moda
do bermudão. Foi, então, que começaram a aparecer jogadores com calções até os
joelhos, folgados como bombachas de gaúchos, e os seminaristas, outra vez, se
viram deslocados diante dos ditames da moda.