quarta-feira, 15 de julho de 2026

RAIVAS COLETIVAS

 


Tanto pretendente a poder soberano,

Consegue enlear para um desengano,

Como absoluto da ordem do Estado,

Que reprime para não ser molestado.

 

Passa a usar poder para a repressão,

Sem se ressentir com sua rígida ação,

E administra vida alheia de tal forma,

Que todos se submetam à sua norma.

 

Desloca sua culpa para os ressentidos,

Pois, leva-os a crer todo persuadidos,

Que o salvador providente e dadivoso,

É ele, para a felicidade de pleno gozo.

 

Ele expande toda sua riqueza pessoal,

E avança sobre territórios com o ideal,

De ser o soberano sobre a vida alheia,

Sem se meter numa enrascada peleia.

 

Joga a culpa nos espoliados sem renda,

Que improdutivos não merecem prenda,

Pois, já se culpam com a sua inutilidade,

Perante o bom governante da sociedade.

 

Isso lhe permite uma crassa biopolítica,

Em torno de uma produtiva geopolítica,

Para deixar vivo só quem muito produz,

E descartar o resto que a nada conduz.

 

Seu dilatado complexo de providência,

Adianta-se à toda coletiva precedência,

E lhe apresenta verdades de um saber,

Precípuas da referência para proceder.

 

Feitos dependentes para não revidar,

Ele introduz a violência para esvaziar,

Qualquer tentativa de emancipação,

Dos roubados da ressentida condição.

 

Os injustiçados engolem toda culpa,

Diante daquele que não se desculpa,

E se recriminam na sua imobilização,

Porque o tirano antecipou sua inação.

 

Na lógica neoliberal de exploração,

Estimula-se a competitiva emulação,

Apregoada pelos gurus do sistema,

Que solidificam o seu estratagema.

 

Assim raiva coletiva de oprimidos,

Já diluída nos sujeitos preteridos,

Não mobiliza indignadas reações,

De bodes expiatórios de mandões.

 

Poderoso rei da ação benevolente,

Já desarticulou todo descontente,

Porque na imobilização antecipada,

Deixou vítima como única culpada.

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 14 de julho de 2026

GUERRA NO ÂMBITO ESPIRITUAL

 


A austeridade para a santidade,

Moveu regra pessoal e piedade,

E lhe aponta a luta contra o mal,

No campo duma política radical.

 

Sem ascética da transcendência,

Toda luta divina é na imanência,

E as Igrejas mudam sua função,

Para conduzida política de ação.

 

Importa uma política santificada,

Ativa ante a maldade diabolizada,

Aliada ao divino e poderoso Deus,

Para defender os fiéis amigos seus.

 

O argumento da batalha espiritual,

Já Cristofascista, como referencial,

Legitima, com narrativas favoráveis,

Falsos méritos de sujeitos elegíveis.

 

Líderes religiosos na ação coletiva,

Empreendem sistemática invectiva,

A favor de um legitimado salvador,

Apontado como genuíno redentor.

 

Os fiéis induzidos a uma conduta,

Movem-se em fanatizada labuta,

Para derrotar do inimigo do mal,

Adversário forte, o suposto rival.

 

A insistência na ética da vigilância,

Amplia largo poder da arrogância,

Para não tolerar a ação do diabo,

E eliminá-lo no pífio menoscabo.

 

Caráter sagrado atribuído a líder,

Como temente a Deus, o colíder,

Induz a manipular frases bíblicas,

E despertar similaridades idílicas.

 

Legitimar único sujeito mandante,

Contra todo o vasto agir errante,

Permite santificar escolha política,

Ao iluminado da imagem acrítica.

 

Narrativas pessoais do candidato,

Como o sujeito piedoso e cordato,

Apelam à escolha divina do serviço,

Aceito na humildade para seu viço.

 

Sutileza de explorar perseguição,

Do adversário em diabólica ação,

Oposto a Deus, o fautor do bem,

Não age como a cristão convém.

 

O bom candidato fita no sublime,

Sob escora de Deus tudo redime,

Pois, força do poder espiritual,

É homem que elimina todo mal.

 

Sob a religiosa validação política,

Desvia-se eventual análise crítica,

Da vida perpassada por conluios,

Não lubrificados pelos mucudaios.

 

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

PALAVRAS A MULTIDÕES

 


Tantos discursos insinuantes,

Para as multidões anelantes,

Com gestos bem autoritários,

Emitem os juízos temerários.

 

Como na velha sofística grega,

Intenção de domínio escorrega,

Rumo à passividade dependente,

Que facilita comando arrogante.

 

Os gritos e palavras de ordem,

Supõem eliminar a desordem,

Para deixar todos muito felizes,

Sob seus governos e diretrizes.

 

Por isso apraz lembrar discurso,

De Jesus Cristo em seu percurso,

Que recorria a lídimas parábolas,

E, às enriquecedoras metáforas.

 

Diante de multidão empobrecida,

Já refém da espoliação aguerrida,

Jesus, sem a ofender, nem lograr,

Incitava a novo rumo programar:

 

Sair da passividade dependente,

Acomodada sem novo horizonte,

E dinamizar sua vida manipulada,

Para uma solidariedade dilatada.

 

Falou de um estranho semeador,

Que jogou semente no seu redor,

Sobre os espaços ermos e áridos,

Os fecundos, pedregosos e cálidos.

 

Alguém semearia desta maneira,

Desperdiçando semente fagueira,

Para colher os abundantes frutos,

Com a precária chance de lucros?

 

Dava a entender que o semeador,

Era Deus, no seu profundo amor,

Que apostava semente preciosa,

Em toda a interioridade raivosa.

 

Se alguns corações de espinhos,

Sufocam de modos mesquinhos,

Ante as boas palavras semeadas,

Outros frutificam em disparadas.

 

Terra pisada dos corações duros,

Criam fortes couraças e escudos,

Que não deixam Palavra de Deus,

Produzir efeitos nos seus “eus”.

 

Os muitos corações inconstantes,

Aceitam e esquecem em instantes,

Para retornarem à sua velha rotina,

Conformando-se na habituada sina.

 

Há corações inquietos e agitados,

Para bons êxitos e lucros dilatados,

Mas são espinheiras que sufocam,

Os bons sentimentos que os tocam.

 

Entretanto, alguns corações bons,

Como terra boa de múltiplos dons,

Produzem gestos de humanidade,

A render interação com bondade.

 

Os diferentes estados de coração,

Como os momentos de disposição,

Se alternam no cotidiano comum,

Do agir que não leva a lugar algum.

 

Se existem terrenos improdutivos,

Em momentos áridos e agressivos,

Outros se disponibilizam fecundos,

E desmobilizam modos iracundos.

 

Outra acepção da parábola de Cristo,

No testemunho dum jeito benquisto,

Encontra secura, espinho e a aridez,

Mas, poucos abrem brecha na avidez.

 

Na síntese das resistências efetivas,

Intuem-se boas e novas alternativas,

Para, como Jesus, que muito semeia,

Colher poucos resultados na plateia.

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

ASCENÇÃO DO DESPOTISMO

 


Os despóticos procedimentos,

Inibem parcos e bons alentos,

Desde sofrida gênese humana,

E alargam dor que desengana.

 

Ativo estímulo à transgressão,

Amplia na infâmia à exaustão,

Que atos grosseiros e vulgares,

Facilitam elevados patamares.

 

Arrogância esperta e atrevida,

Fascina mais que honesta lida,

E o centro da lógica capitalista,

Estimula toda ambição egoísta.

 

O auge da lógica inescrupulosa,

Libera toda ganância ambiciosa,

E faz dela o sucesso de domínio,

De um bem tolerado raciocínio:

 

Apontar o terror na sociedade,

Explora os medos à saciedade,

Para naturalizar trato ríspido,

E causar muito pavor híspido.

 

Astuto apelo ao sobrenatural,

Induz mentes para o infernal,

Que facilita apetite agressivo,

Como o melhor reagente ativo.

 

Diviniza-se misoginia e cinismo,

Atributo exclusivo do machismo,

Para mandar, conquistar leitores,

E fingir pios e piedosos fervores.

 

Seria sucesso só para exagerados,

A ofender com modos malcriados,

Através de insultos e desrespeitos,

Para alcançar muitos bons preitos?

 

Estranho fascínio pelos arrogantes,

Egoístas imorais e pífios mandantes,

Leva-os a altas conquistas eleitorais,

Suporte os para lucros excepcionais.

 

Candidato ético, reto e responsável,

A visar bem-comum de modo afável,

Já nem conquista supostos eleitores,

Porque adoram-se os provocadores.

 

O candidato forte e todo vingativo,

Mesmo que seja altamente nocivo,

Leva a vantagem no resultado final,

Ante concorrente empático e social.

 

Sob vasta agressividade introjetada,

Resulta efetiva consciência dilatada,

A se encantar pelo forte e agressivo,

Que se orienta pelo modo vingativo.

 

O traço todo mórbido da sociedade,

Já merece terapia ante insanidade,

Que desloque fortes e vingativos,

Do comando de grupos coletivos.

 

Se infâmia é a baliza para ascender,

E para o exercício do tirano poder,

Então a lógica da motivação social,

Necessita de uma UTI emergencial.

 

 

 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

PROPOSTAS DE ORDEM

 


Esperta proposta de campanha,

Com uma sutil ação de patranha,

Aponta a desordem implantada,

E propõe nova ordem inusitada.

 

Apresentar ordem como a saída,

É um atraente ponto de partida:

Cai no agrado do valioso eleitor,

Para votar num eficiente gestor.

 

No entanto, proposta de ordem,

Não se exime de nova desordem,

Perante a condição estabelecida,

E produz conflitividade renhida.

 

Como na vetusta contraposição,

De caos-cosmos na organização,

Almeja-se um cosmos de ordem,

Que gere a inovada contraordem.

 

Quando se supõe que o mundo,

Iniciado pelo equilíbrio fecundo,

Da idônea ordem com harmonia,

Então somos frutos duma ironia:

 

A queda irrecuperável do paraíso,

Nos relega neste diabólico guizo,

De sempre produzir a desordem,

Ante os bons fautores da ordem.

 

Pressupõe-se a ordem absoluta,

Recuperável na forma impoluta,

Na separação do que degenera,

Sob oposição, feita a quimera.

 

Como a finitude é inescapável,

Toda a ordem radical é inviável,

Porque é inerente à desordem,

E a ordem cai na contraordem.

 

Presunção totalitária de ordem,

Que quer que todos concordem,

É crassa ambição pelo domínio,

Para estabelecer o predomínio.

 

É imaginário poder de controlar,

Todo mal a agir de modo vulgar,

E unificar o ambiente desunido,

Para erradicar mal estabelecido.

 

Esquece-se a fronteira dialética,

Que não separa desejada ética,

Na busca implacável de política,

Sem uma necessária auto-crítica.

 

Ordem e desordem se mesclam,

E em todo indivíduo se afalcoam,

Porque a ordem agrega desordem,

E desordem também é uma ordem.

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

FALSOS CÃES PEDIGREE

 


Bem aqui, no reino do Morocó,

Lugar encarado como cafundó,

Mundo dos cães, estratificado,

Produz o estranho maranhado:

 

Tem lobete e cachorro do mato,

Tem pedigree que parece gato,

Mas, o que mais tem é vira-lata,

A fazer da rua a área aristocrata.

 

Ali, festa e folia ocupa todo dia,

E o que prevalece, é galhardia,

Vida agitada e amizade coletiva,

Sob interação ruidosa e efusiva.

 

As raízes sem pedigree europeu,

Ou dum norte-americano liceu,

Revelam sua genética derivada,

Como mistura pouco valorizada.

 

Nos cercados super-protegidos,

Latem os cães de fortes rugidos;

O som ecoa como ordem dada,

Para subserviência equivocada.

 

Eles mandam e são superiores,

Ditam regras, como ditadores,

E promovem poucos vira-latas,

 Para serem as suas gentis tatas.

 

Elitizadas sob um pedigree falso,

Movem-se no elitizado impulso,

De serem raça de lugar superior,

Ante mundo de vira-lata inferior.

 

Já descontextualizadas da rua,

E indiferentes à realidade crua,

Correm em superiores estádios,

Mandaletes de pífios presságios.

 

Transfiguradas em reais mitos,

E sob os constrangedores ritos,

Induzem os vira-latas ao delírio,

De adorá-las qual sábio Porfírio.

 

Tais genuínos parasitas sociais,

Desprezam cachorradas banais,

E seguros no poder dominante,

Pintam-se como ideal alienante.

 

O seu modo de ser como molde,

Não esconde um real desmolde,

Do falso pedigree da cachorrada,

Movido pela cultura disparatada.

 

Desapropriam o mundo popular,

Porque só sabem muito explorar,

E apenas deixam as parcas sobras,

Com as suas alienantes manobras.

 

Nada acrescentam aos vira-latas,

Tiram cor e sabor a ruas pacatas,

Como falsos pedigrees exteriores,

A facilitar processos espoliadores.

 

 

 

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

GLADIADORES DE ENTRETENIMENTO

 


Um estranho gosto humano,

Aparentemente todo insano,

De apreciar o embate brutal,

Proporciona fantasia triunfal.

 

Já sem ludicidade interativa,

Conta toda força destrutiva,

Vale dominar e vencer rival,

E fruir a glória excepcional.

 

Mais do que personalidade,

Pesa músculo e sagacidade,

Para dominar o adversário,

E deixa-lo sem comentário.

 

O respeito e a cordialidade,

São ineptos para atrocidade,

Porque somente vira herói,

Um musculoso que destrói.

 

Quando um gladiador vence,

Publicidade a todos convence,

De que é mito reverenciável,

Que propicia euforia inefável.

 

Como os coliseus nos impérios,

Erguem-se os estádios etéreos,

Para as pias emoções coletivas,

Com fortes fanatizações reativas.

 

Sob o ânimo do herói vencedor,

Reproduz-se preito a pundonor,

De quem derrota o adversário,

Feito um pobre amouco sicário.

 

Briga-se tenazmente pelo herói,

Que sob a mídia, se reconstrói,

E as rivalidades com inimizades,

Minam as pacíficas sociedades.

 

Similitude ao Espártaco romano,

Ativa a rebeldia de trato insano,

Move até os exércitos rebeldes,

Com as agitações nada humildes.

 

Quando interesse do espetáculo,

Vira sutil e subliminar tentáculo,

De inaudito acúmulo e consumo,

Pouco sobra ao humano aprumo.

 

Como antigo gladiador Flamma,

Muito mito produzido inflama,

Aversão crescente à liberdade,

Para fruir adoração da vaidade.

 

Toda força bruta do gladiador,

Reativa as multidões no ardor,

De ascender ao poder triunfal,

Sob a heroica fantasia colossal.

 

Dura internalização do fracasso,

Vomita mágoa do frustrado laço,

Porque o mito do herói gladiador,

É pobre escravo de manipulador.

 

 

 

 

<center>RAIVAS COLETIVAS</center>

  Tanto pretendente a poder soberano, Consegue enlear para um desengano, Como absoluto da ordem do Estado, Que reprime para não ser ...