sexta-feira, 24 de julho de 2026

TESOURO ESCONDIDO

 


Nesse mundão todo aturdido,

Encontrar tesouro escondido,

Move as ambições humanas,

Para muitas coisas doidivanas.

 

Saltar com o negócio da vida,

Para a opulência enriquecida,

Anseio que lateja em coração,

Da bem acalantada motivação.

 

Nascidos e inatos buscadores,

Induzidos aos focos exteriores,

Anelamos pelas coisas valiosas,

De algumas mágicas preciosas.

 

Por acaso ou por persistência,

Muitos encontram existência,

De tesouros mui fascinantes,

Para obter lucros alucinantes.

 

Pela praxe coletiva de buscar,

Fita-se algo valioso encontrar,

Sem reparar tesouro genuíno,

Reluzindo no mais íntimo sino:

 

É um tesouro do que já somos,

Precioso neste grande cosmos,

Essência peculiar do nosso eu,

Que no belo mundo apareceu.

 

Em rotas de busca já preterido,

Aponta-se só exterior querido,

Objeto do amor maior da vida,

O fascínio que exaure toda lida.

 

O entorno de tanta frustração,

Interpela para a outra direção:

Voltar à genuína interioridade,

Relativizar falsa exterioridade.

 

Amor maior que nos engendrou,

Revela o tesouro que se poupou,

Dos buscadores de acumulação,

Localizado no fundo do coração.

 

Ao ser encontrado este tesouro,

Relativiza todo metal, qual ouro,

Centraliza a pérola da existência,

E a coloca como nova referência.

 

O foco das referências anteriores,

Perde o brilho e os seus fulgores,

E passa a ser menos prestigiado,

Que a plenitude do novo achado.

 

Tantos anseios do eu profundo,

Não alcançam o desejo fecundo,

Do sentir alegria na existência,

Acima da busca de precedência.

 

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

REFÚGIOS AFETIVOS

 


Sentimento parceiro da humanidade,

Feito para o bem viver em sociedade,

Solidão impregna a genuína riqueza,

De alargar interioridade na inteireza.

 

Solidão favorece boa espiritualidade,

Que aciona o elã para a cordialidade,

Deixa mundo subjetivo bom e sereno,

Que irradia ambiente para ar ameno.

 

A solidão dos dias capitalistas de vida,

Produz os sobrantes solitários de lida,

Que sentem a experiência subjetiva,

Do seu mundo social, solto na deriva.

 

Uns se complementam com felinos,

Outros com cachorros pequeninos,

E criam linguagem meiga e intimista,

Para a estranha interação benquista:

 

Linguagem de forma onomatopaica,

Produz uma linguística toda arcaica,

Rica com gemidos, latidos e miados,

Peculiar de certos mundos isolados.

 

Específica da gatose ou cachorrice,

Escraviza e subjuga pets na burrice,

A depender integralmente do tutor,

Que lhes dedica seu precípuo amor.

 

Nesta simbiose de mundo paralelo,

Quebra-se o humano e histórico elo,

E se alarga novo nível de sofrimento,

Advindo da condição de isolamento.

 

Plataformas sociais entram na solidão,

E motivam uma inaudita acomodação,

Para preencher o vazio dos solitários,

Com muitos entretenimentos diários.

 

Sobra socialização com pets amados,

Que centralizam o colo dos alienados,

E exigem devotamento pio e integral,

Para o mundo sectário do novo social.

 

Pets já não aturam atenção a outros,

Pois, já ciumentos e feitos amoucos,

Somente bajulam os adorados donos,

E ocupam o centro dos seus tronos.

 

Os amados absorvem toda conversa,

E não admitem a comunhão adversa,

A seu círculo de linguagem específica,

Dos nhem-nhens, sem ação prolífica.

 

Ao se desintegrar o espaço público,

Gesta-se muito homogêneo abúlico,

Que pressiona para a forçada solidão,

Sem rota para a pública participação.

 

Os espaços digitais criam multidões,

Que só aceitam as mesmas opiniões,

E eliminam ainda mais, pouca chance,

De socializador processo ao alcance.

 

Sem boas mediações socializadoras,

Somem as inter-relações curadoras,

E a solidão produzida e estimulada,

Já não mais atura pessoa na alçada.

 

 

 

 

 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

SER PARA A COEXISTÊNCIA

 


Vida mais ampla que direito humano,

É grito veemente contra o agir insano,

Que quer possuir tudo para si mesmo,

E deixa maior parcela humana a esmo.

 

Ignora que o humano não vive sozinho,

E por isso, todo obcecado e mesquinho,

Esquece dimensão coletiva do planeta,

E desequilibra com a ambição mutreta.

 

Forjado por uma concepção neoliberal,

Afastado do seu “eu”, genuíno e real,

Ignora dimensão da ecologia cósmica,

Segue ação predatória anti-econômica.

 

Alheio à circularidade complementar,

Do movimento vital da Terra e do ar,

Move-se na política toda consumista,

De inexequivel consequência fatalista.

 

Acha que somente ele cresce e evolui,

Não percebe quanto se auto-diminui,

E, imagina exaurir todo planeta Terra,

Para migrar rumo a outra estratosfera.

 

Na sua visão distorcida de autoridade,

Acha que pode desfrutar à saciedade, 

Entende-se pelo seu poder de domínio,

E sequer percebe avançado extermínio.

 

Doentia fixação de dominar e explorar,

Produz autoridade mórbida a apavorar,

Os sujeitos e ecossistemas dependentes,

De seus audaciosos planos prepotentes.

 

Reproduz largo desequilíbrio sistêmico,

Do planeta já desrespeitado e anêmico,

Só porque deseja ser poderoso senhor,

Por meio de um processo barganhador.

 

Alarga submissão sob normas rígidas,

Com alienações altamente analgésicas,

Transforma vínculo em prisão psíquica,

Através da movimentação psicopática.

 

Atrai parceiros de interesses similares,

Que o bajulam com mentiras vulgares,

Com pretensão de controlar e espoliar,

A fim de novos domínios descortinar.

 

Longe de promover liberdade interior,

Quer controlar sujeitos com duro rigor,

E cria expectativas literalmente irreais,

No delírio das suas febres neoliberais.

 

Avançado e evidente estado doentio,

Ainda não o afasta do adoecente brio,

De continuar a matar sistemas de vida,

Que ampliam as inseguranças na lida.

 

 

MÃOS FECHADAS

 


Quando se abrem na oblatividade,

Enriquecem os gestos de caridade,

Transformam relações conflitivas,

E despertam esperanças lenitivas.

 

Podem ser mediadoras do afeto,

E constituir um caminho dileto,

De afeição, ternura acolhedora,

E benéfica ação transformadora.

 

Quando abertas para não ajuntar,

E visam bom provento assegurar,

Tornam-se mediadoras sagradas,

Para as realizações acalantadas.

 

Quando dão forma a ambientes,

Ante humores pouco aderentes,

Recriam nas motivações de vida,

Ações inovadas na cotidiana lida.

 

Meios que repassam as emoções,

Da força diante das prostrações,

Ativam os doentes desconfiados,

E os remetem aos novos legados.

 

Quando se cruzam para a oração,

Elevam a Deus a objetiva situação,

Para renovar os melhores anseios,

Diante dos já pessimistas receios.

 

Toque sensível na ferida exposta,

Manifesta na empatia da aposta,

Que, sob a terapêutica indicada,

Retorna almejada saúde desejada.

 

Mão sem dedo indicador em riste,

Permite mudar tanto rosto triste,

E apontar-lhe uma esperança real,

No sentido da transcendência vital.

 

Mãos fechadas para os privilégios,

Que justificam seletivos egrégios,

Viram instrumentos de espoliação,

E criam um mundo de destruição.

 

Mãos fecham para a acumulação,

Desequilibram ordem da relação,

E coisificam pessoas para servir,

A ganancioso plano do seu devir.

 

Mãos fechadas e arrebatadoras,

Sob as narrativas conservadoras,

Privilegiam violências de gênero,

E oficializam feminicídeo vênero.

 

Adulteram as leis da hierarquia,

E sob a defesa da “boa família”,

Subordinação passiva da mulher,

Considera-a um objeto qualquer.

 

Mãos dominadoras da segurança,

Subjugam mulheres na reinança,

De que homem macho conquista,

Com mão fechada e possessivista.

 

Mãos fechadas contra a igualdade,

Submetem mulheres na sociedade,

E não lhes permite paridade efetiva,

Porque significaria regra alternativa.

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

SEMENTE E SEMEADOR

 


Como sementes jogadas na lavoura,

Sob os atos de esperança altaneira,

Há sentimentos jogados a mentes,

Que germinam as razões contentes.

 

Jesus Cristo ao falar em parábolas,

Não se mostrava perito em fábulas,

Nem se ocupava com espalhafatos,

Para desfrutar dos especiais tratos.

 

Falava aos ouvintes, sem conceitos,

Pois, com os seus metafóricos jeitos,

Chegava à imaginação das pessoas,

Com  interpelação para ações boas.

 

O rumo da fantasia fitava imaginação,

Para mergulhar no fundo do coração,

E vislumbrar mais que o elã opressor,

A ação coletiva para novo pundonor.

 

Mais que a narrativa de argumentos,

Para projetar idealizações de alentos,

Despertava cerne do sentir profundo,

Contra o poder dominante e iracundo.

 

Sem os enigmas e mensagens ocultas,

Despertava ações de pessoas adultas,

Ao associar a virtualidade da semente,

Que cresce num processo consciente.

 

Ajudava a desvelar novas esperanças,

Diante das vetustas leis e lambanças,

E no agir sem armas e autoritarismos,

Transluzia a ternura, sem os cinismos.

 

Historinhas contadas para edificação,

Mostravam que jeito de Deus em ação,

Envolvia cuidado paciente no processo,

Para efetivo e humanizante progresso.

 

Como fermento muda massa de pão,

A mudança da realidade requer ação,

De atos subsumidos na vida coletiva,

Sem uma pretensão auto-afirmativa.

 

Os pequenos gestos levam a irradiar,

Algo mui insignificante para desafiar,

O poder exercido de cima para baixo,

A deixar tanto ser humano cabisbaixo.

 

O despertar dum novo modo de agir,

Não pode protelar e os anseios inibir,

Mas como pouco fermento a levedar,

Possa levedar a vida social para amar.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

BONS E MALVADOS

 


Espalhados por todos os meandros,

Seres humanos tidos por malandros,

Por outros, que se pensam os bons,

Produzem os discriminatórios tons.

 

Defensores da boa retidão cultivada,

Querem deixar os errantes na alçada,

Para serem erradicados de imediato,

Para causarem o prejuízo ao cordato.

 

Na marca humana da visão sectária,

Sociedade fica dividida e partidária,

Entre os que se pensam como bons,

Para erradicar os dissonantes sons.

 

Quem discorda é visto como inimigo,

Que não cabe no seleto clube amigo,

E assim se legitima fim do adversário,

Para que não prejudique bom erário.

 

Zelo por integridade do grupo seleto,

Bisbilhota no proceder nada discreto,

Para caçar os não atrelados ao grupo,

E evitar que formem algum subgrupo.

 

Deus certamente não faz tal distinção,

E tampouco autoriza para intervenção,

Da pureza especial de grupos seletos,

Que querem erradicar seus desafetos.

 

Não nos cabe esta tarefa depuradora,

Ante a perspectiva de ação redentora,

Porque ser bom e maldoso é inerente,

A todo e qualquer humano ambiente.

 

Importa agir para coisas boas fruírem,

Sem as rotulações que tanto denigrem,

Pois, dos pequenos sinais de bondade,

Decorre mais do que força da maldade.

 

Arrancar toda cizânia do meio do trigo,

Imagem que agrega o inevitável perigo,

De tornar infrutíferos os valiosos grãos,

Nos aponta inexistência de guetos bons.

 

A presumida separação de bem e mal,

É produzida na interioridade paradoxal,

E ali, o céu e a Terra estão misturados:

Sugerem calma, sem atos precipitados.

 

Sem resolver o oposto enfado interior,

Não adianta eliminar âmbito exterior,

Porque continuará a persistir o ódio,

Ante outra cizânia no topo do pódio.

 

 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

RAIVAS COLETIVAS

 


Tanto pretendente a poder soberano,

Consegue enlear para um desengano,

Como absoluto da ordem do Estado,

Que reprime para não ser molestado.

 

Passa a usar poder para a repressão,

Sem se ressentir com sua rígida ação,

E administra vida alheia de tal forma,

Que todos se submetam à sua norma.

 

Desloca sua culpa para os ressentidos,

Pois, leva-os a crer todo persuadidos,

Que o salvador providente e dadivoso,

É ele, para a felicidade de pleno gozo.

 

Ele expande toda sua riqueza pessoal,

E avança sobre territórios com o ideal,

De ser o soberano sobre a vida alheia,

Sem se meter numa enrascada peleia.

 

Joga a culpa nos espoliados sem renda,

Que improdutivos não merecem prenda,

Pois, já se culpam com a sua inutilidade,

Perante o bom governante da sociedade.

 

Isso lhe permite uma crassa biopolítica,

Em torno de uma produtiva geopolítica,

Para deixar vivo só quem muito produz,

E descartar o resto que a nada conduz.

 

Seu dilatado complexo de providência,

Adianta-se à toda coletiva precedência,

E lhe apresenta verdades de um saber,

Precípuas da referência para proceder.

 

Feitos dependentes para não revidar,

Ele introduz a violência para esvaziar,

Qualquer tentativa de emancipação,

Dos roubados da ressentida condição.

 

Os injustiçados engolem toda culpa,

Diante daquele que não se desculpa,

E se recriminam na sua imobilização,

Porque o tirano antecipou sua inação.

 

Na lógica neoliberal de exploração,

Estimula-se a competitiva emulação,

Apregoada pelos gurus do sistema,

Que solidificam o seu estratagema.

 

Assim raiva coletiva de oprimidos,

Já diluída nos sujeitos preteridos,

Não mobiliza indignadas reações,

De bodes expiatórios de mandões.

 

Poderoso rei da ação benevolente,

Já desarticulou todo descontente,

Porque na imobilização antecipada,

Deixou vítima como única culpada.

 

 

 

 

 

 

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