sábado, 24 de outubro de 2026

EPISÓDIOS GALHOFEIROS

  

Índice

1 – Na casa da Tia Catarina...

2 – Com o canhoto azarado...

3 – No cheirador de rolha...

4 – Sob o saco de requeijão...

5 – No tempo do calção litúrgico...

1

NA CASA DA TIA CATARINA

 

            O terreno da sua residência, equivalente a uns quatro terrenos urbanos, no povoado de São João, interior de São Carlos - SC, era mais que um jardim botânico. Pessoa gorda nem conseguiria chegar à casa de Catarina, naqueles estreitos trilhos de acesso. Todo o entorno da casa, constituía um ambiente encantador de variedades de flores, frutíferas e árvores de sombra. Ainda hoje, os jardins daquela comunidade encantam pela beleza e encantamento da múltipla coloração de flores.

Catarina, em sua família, foi uma menina normal, a mais velha de treze filhos e ajudou sua mãe a criar uma porção deles. Seus pais moravam ao lado do lote da sua residência. Seu pai faleceu cedo, de tétano, decorrente de um estrepe no pé. Pouco tempo depois, queimou a casa, onde moravam, e Catarina teve que lutar muito com sua mãe para que seus doze irmãos pudessem crescer com comida e saúde.

Catarina namorou, noivou e estava se encaminhando para o casamento. Um fato secundário e imprevisto, mudou o rumo, e desviou o casamento.

            Naqueles tempos, todo morador tinha uma espingarda e, esta, geralmente, ficava pendurada num prego na parede da sala de estar, a fim de facilitar o acesso, em caso de necessidade de matar algum bicho. Diversos irmãos de Catarina, num dia de chuva, estavam se atropelando na sala de estar, e já não sabiam mais o que inventar naquele espaço, pois, não podiam ir para fora devido à chuva intensa.

A certa altura da manhã, resolveram fazer uma luta, simulando uma guerra e as armas eram constituídas por calças que um batia contra outros. De repente, um irmão de Catarina, ao querer bater em outro irmão, esticou a calça pelo ar e a enroscou na espingarda, e, ela, na queda, detonou um tiro que atingiu em cheio a perna direita da Catarina, do joelho para baixo. Catarina estava na pia preparando almoço. A tragicidade do fato, acabou sumindo com a parte inferior da perna, do joelho par baixo, destroçada pelo chumbo. Sobraria, assim, a partir da amputação dos fiapos sobrantes, tão somente a possibilidade de andar de muletas. O noivo, não assumiu seu pacto, e deixou Catarina de lado, ignorando todo seu sofrimento.

A dupla perda, da perna e do noivo, não tirou o rumo da vida de Catarina, mas, ela não quis mais saber da possibilidade de se casar, e, ser, eventualmente, mais uma vez, deixada de lado, em algum momento da vida. Como era muito estimada na comunidade, um marceneiro foi solidário com Catarina, e fez uma perna mecânica de madeira, mesmo um tanto rústica, mas, que permitiu substituir a parte que o tiro de espingarda fez sumir.

Não era ainda uma perna mecânica como essas modernas da atualidade, mas, ajudava Catarina a locomover-se. A casa de Catarina, que seria para a vida partilhada, virou casa de costura. Todo dia ia e vinha alguém, ou para trazer roupa, ou para experimentá-la, ou para leva-la. Catarina também era muita agraciada com frutas, linguiças e outros alimentos, embora, produzisse fartura e também a partilhava. Assim, a casa de Catarina virou símbolo de cordialidade.

            A casa pequena da tia Catarina, de madeira, escondia até cor da pintura, de tanta lata de tinta, transformada em vaso, que ficava pendurada na parede, com flores. Também tinha muita flor pendurada nos galhos das árvores. Com isso, a casa sequer era visualizada, a partir da estrada, pois, ficava no meio deste jardim maravilhoso. A sala de estar virou sala de costura e de tão abarrotada que ficava com tecido para todo lado, só dava espaço, para no máximo três pessoas ficarem sentadas naquele espaço restrito. Catarina ficava sempre sentada atrás da sua máquina. A porta da sala, sempre aberta, ajudava a reduzir andanças para lá e para cá a fim de abri-la e fechá-la.

Tia Catarina tinha peculiaridades fantásticas. Costureira, durante uns sessenta anos, costurava praticamente toda a roupa da comunidade: calças, camisas, casacos, vestidos, saias e roupas íntimas. Além de ser costureira, constituía a central de informações e sabia de qualquer fato e de toda fofoca da comunidade. No entanto, não era daquelas fofoqueiras vulgares e chatas. Serena, calma, sempre sorridente, sabia falar sobre o mundo das conversas daquele povoado: envolvia doenças, nascimentos, fiascos e casos hilários, colheitas, frustrações de safra e todo aquele mundo romântico dos jovens iniciando namoros.

Apesar da sua limitação física, Catarina cultivava flores, muita verdura na horta, tinha vaca de leite e criava, normalmente, dois porcos. Assim que engordava um porco, vendia-o e recebia um leitão pequeno, doado por alguém. Criava, também, galinhas e, como o arvoredo, com imensa quantidade de flores, abrigava pássaros de todo tipo, assim, também o sótão da casa, abrigava muitos gambás e ratos. A horta produzia, além de verduras e legumes, até pinhão, pois, no meio da horta, subia aos elevados ares, um altaneiro e imponente pinheiro.

O mundo das flores era peculiar: não existia comércio de flores em São João, mas, estas eram entregues, gratuitamente, e, com senso cordial, pois, assim como alguém recebia mudas de flores e de arbustos, também sentia satisfação em poder dar mudas a outras pessoas. Desta forma, as plantas ativavam um vasto mundo simbólico, porquanto cada planta ou flor, lembrava a pessoa que a havia doado. Nisto, as mentes se povoavam com a alegria do jardim devido às boas memórias das pessoas generosas.

O pequeno espaço de capim para alimentação da vaca era complementado com as sobras da horta, mas, Catarina também arrendou um outro pedaço de chão, ao lado do seu lote, onde plantava milho, arroz, mandioca e feijão. Não era muito, mas, o suficiente para o consumo doméstico. Meio de arrasto, com aquela pesada perna de pau, descansava das costuras e ia mexer, durante uma hora, na terra.

Chegar à casa da tia Catarina, era o símbolo da entrada no paraíso terrestre. Além da beleza extraordinária das flores, Catarina era muito acolhedora, simpática e fazia os agrados que a mãe não podia fazer. Dava umas balas. De repente ia cortar um pedaço de salame. Sem demora, se inventava a fazer um mate-doce, daqueles muito especiais.

Ajeitava a cuia, ia na janela, recolhia a erva seca do chimarrão anterior, ajeitava na cuia e, então, ia ao pote de erva e colocava um pouco de erva nova em cima daquela erva secada e lavada pelo uso. Arrumava o pote de açúcar, metia uma boa colherada de açúcar na cuia e depois a água quente.

Depois de tomados uns três goles, já começava uma movimentação peristáltica, e se tinha que correr, atropelando flores, para chegar, em tempo, na “capunga”, a fim de proceder uma ruidosa evacuação. O pior, era a posterior sequela da desconfortável cólica intestinal.

No retorno, disfarçava-se a dor de barriga e se agradecia pelo mate. Sem demora, a tia Catarina se metia a fazer bolinhos de batatinha, especiaria da culinária de São João. Ralava batatinhas grossas, misturava com sal, ovos, leite e mais alguns temperos.

 A banha da frigideira, normalmente rançosa, usada para muitas frituras, deixava um cheiro meio estranho, mas, aqueles bolinhos, angelicais e bons de serem deglutidos, agregavam, impreterivelmente, outra bagunça no estômago e, dentro de alguns minutos, tornava-se inevitável mais uma corrida frenética e disparada, até a dita “capunga”, para efetuar a limpeza do pouco que ainda permanecia nas entranhas.

Tia Catarina insistia para comer mais bolinhos, e, mesmo com a boca salivando, dizia-se que a barriga já estava estufada de cheia. Nem se passava muito tempo, e a tia já oferecia bolachas, de repente um pequeno chocolate e assim ia aquela bajulação com muitos agrados.

O que nunca se conseguiu ver, era como a tia afirmava aquela perna mecânica na sua perna para poder caminhar. Dizia-se que era um ritual demorado de amarrar muitos panos, para evitar fricção do couro da perna com a madeira. Entretanto, a perna funcionava, ao lado da outra, por longas horas diárias, para movimentar a máquina de costura.

Pernoitar na casa da tia Catarina, oferecia um cenário para muitas alucinações. Era corrida de rato sobre o forro e, também, o caminhar pesado e lento de enormes gambás. Para a tia, eram bichinhos queridos que não faziam mal algum. Ela nem percebia que, de vez em quando, na abertura do forro pelo qual o cano da chaminé do fogão a lenha subia, uma meia dúzia de gambás ficava espreitando sobre o que acontecia na cozinha, mas, também, alguns gambás, mais espertos, desciam um pouco, até o varal das linguiças e charques, pendurados acima do fogão, e recolhiam algumas pernas de salame.

A tia Catarina nem se importava e dizia que eles também precisam alimentar-se e olhavam com tanta simpatia, que bem mereciam alguma comida saborosa.

 

2

COM O CANHOTO AZARADO

 

Ao nascer, escapou-se por um triz, pois, estava atravessado no útero da mãe, na hora do parto e, como foi tirado pela força braçal, ao, finalmente, desvencilhar-se da prisão do sufoco, foi considerado morto, por algumas horas, porquanto a parteira e as vizinhas quiseram salvar sua mãe.

Mesmo sem aparentes sinais vitais, uma tia, ao colocar sua mão sobre o seu peito, constatou que seu coração ainda batia. Foi, então, que lhe deram atenção. Cresceu sem maiores sequelas e, aos poucos, perceberam que ele era canhoto. Normal como tantos outros canhotos, passou a primeira infância como canhoto, sem maiores dificuldades.

Quando, aos sete anos começou a ir na escola, teve uma surpresa: o professor, ao constatar que ele escrevia com a mão esquerda, auferiu-lhe séria e severa admoestação. Naquele tempo, os pais tinham que ensinar os filhos a escrever, antes de irem à escola. Como aquele menino não se ajeitava para escrever com a mão direita, começou a levar varadas de marmelo nas costas. Junto com a surra, tinha que ouvir, que, tudo o que é esquerdo, é do diabo.

Talvez por inconsciente resistência, um dia, ao cortar uma batata doce para fazer lavagem de porco, descuidou-se na direção do facão, e cortou, junto com uma lasca de batata, a primeira vértebra do dedo polegar direito. Levado ao médico, este estava turbinado por cachaça, na hora de tirar a atadura, arrancou de vez a parte cortada. Longo e demorado processo, fez crescer parte desta vértebra, mas, torta e sem osso. Foi, assim, tolerado, por um ano, para escrever com a mão esquerda. Quando o polegar direito, ficou revestido de pele e com duas unhas tortas, foi obrigado a escrever com a mão direita.

Ao participar das celebrações religiosas, enfrentou outro conflito em relação ao sinal da cruz: para ele, o certo era faze-lo com a mão esquerda. Um velho carrancudo que o observava, ia até ele, e o erguia no puxão de orelha a fim de aprender, para sempre, que sinal da cruz de faz somente com a mão direita.

 Afinal, mudaria alguma coisa neste mundo, se fosse feita com a mão esquerda? Era a ditadura dos estereótipos. O mesmo ocorria em relação à genuflexão: ele dobrava a perna esquerda. Não podia ser assim, pois, tinha que dobrar a direita.

Parece que tal rigidez, afetou até o seu olhar: de tanta censura, para ser tudo da direita, criou mais simpatia pelo que provinha da esquerda física. Afinal, só sabia chutar bola com a perna esquerda, - e chutava forte - porque, com a direita, seu chute era considerado chute de menina. Hoje, não seria mais possível fazer esta comparação, mas, naqueles tempos, meninas não jogavam bola, e dizer que um chute era de menina, equivalia a dizer, zero pela direita.

Para bater prego, para erguer peso, segurar bezerros no laço, atirar pedra, enfim, tudo tinha que ser com a mão esquerda, menos o escrever.

Passada a ofensiva mais truculenta para deixar de escrever com a mão esquerda, e já conformado em escrever com a mão direita, emergiu mais um dilema: começou a querer ser padre. A contrariedade veio do catequista que dizia: para alguém ser padre, não podia ter nenhum defeito nos dedos polegares e indicativos. Mais um peso de consciência, pois, o seu dedo polegar direito, fornecia os argumentos suficientes para que fosse dispensado da chance de ser padre. É que, naqueles tempos, o padre rezava a missa inteira com estes dedos unidos, o que, atualmente, seria um gesto obsceno.

Abriu-se, então, um segundo dilema: queria ser padre, com o dedo polegar defeituoso, e, para não ser dispensado do sonho, ficava sempre com a mão direita no bolso. Também ali, tudo complicado, pois, era proibido andar de mão no bolso. Dizia-se que a mão poderia gostar de ficar muito perto de uma área altamente perigosa. Ele achou uma saída: por onde andasse, tinha o terço no bolso direito da calça.

 Quando era interpelado por andar com a mão no bolso, puxava o terço e dizia que estava rezando, mas, não estava rezando coisa nenhuma. Escapou-se de ser dispensado da condição de ser padre, foi ordenado, e, dias depois, ocorreu o que não podia imaginar: correndo atrás da bola, girou o corpo sobre o joelho direito e rompeu os ligamentos, a tal ponto, que o joelho era dobrável para qualquer lado.

 Como não firmava a perna, caía a toda hora, e teve que submeter-se a seis intervenções cirúrgicas, para conseguir caminhar para o estrito necessário. As múltiplas cirurgias desalinharam seu pé, e, no simples ato de caminhar na sala de estar, quebrou o osso que leva ao segundo dedo do pé. Precisou submeter-se a mais uma cirurgia, a sétima, para implantes de platina. Assim, limitado, ainda mais, pelo lado direito, acabou enfunado como professor de Filosofia.

Surgiu, numa certa altura da vida limitada para muita andança, o encantamento por tocar violão. Havia, porém, um problema complicado: o dedo polegar direito não se prestava para bater nas cordas, nem com dedal e nem de outra forma. Restou ainda uma alternativa: inverter as cordas, só que isso implicava em ter um violão exclusivo para si. Foi poupando pequenas quantias na poupança, até que conseguiu comprar um violão para si, e que por sinal, imprestável aos outros, que não eram canhotos como ele. Não virou um renomado violonista, mas, conseguia acompanhar as cantarias de Igreja e de festinhas, nas quais se costumava cantar durante horas a fio. Quando tudo ia tranquilo, ladrões entraram na residência e roubaram seu violão: mais uma sina contra o canhoto. Presumidamente, foi ladrão de direita e ele desistiu de ser violeiro.

Mesmo sem ser esquerdista e nem marxista, pelo simples fato de lecionar Filosofia, viveu sendo acusado como sujeito comunista. Era aquele ódio por tudo quando era identificado como de esquerda. Seu velho padrinho, educado como tanta outra gente, dava-lhe insistentes conselhos para evitar esta diabólica atração pela esquerda e falava dos horrores hediondos dos comunistas.

Dizia aquelas abobrinhas, muito veiculadas, de que comunistas tiravam a terra, os animais, comiam criancinhas, estupravam, e, somente faziam coisas do diabo. Até colegas davam a entender que ele era um canhoto comunista. Mesmo que tenha lido e estudado todos os autores como Engel, Hegel, Marx, Feuerbach, Gramschi, Althusser, Nietsche e tantos outros, sempre os leu numa perspectiva crítica. O razoável conhecimento relativo a tais pensadores, constituía razão suficiente para ser rotulado de esquerdista.

Embora ser canhoto, não representasse necessário sintoma e evidência de ser comunista, a pecha o fez sofrer acusações de ser esquerdista, seja como defensor da Filosofia da Libertação, ou, por não enfatizar e ratificar a visão clericalista, ultraconservadora, e fanática por posturas políticas de extrema direita.

Afinal, se o nariz estabelecido entre os dois olhos, já delineia que o olhar de bom foco, precisa do olho direito, tanto quanto o do esquerdo, todo este fanatismo por apenas um olho, além de um olhar caolho e vesgo, fazia enxergar, apenas, uma parte da dialética da complementariedade: um olhar bom e perspicaz, precisa ser simultaneamente esquerdo e direito. Talvez indique até algo precioso para o campo da política.

 

3

NO CHEIRADOR DE ROLHA

 

O professor universitário, doutor em Educação, chamado José Bingolim, apresentava-se no perfil nobre da erudição francesa. Andava, um dia como outro, de terno e gravata e se destacava, mais pela pose, do que pela sabedoria. Como tanta outra gente, que mistura seu ego com o status, ele era perito em falar, não dos temas candentes e inquietantes da educação, mas, precipuamente, dos vinhos franceses.

Descendente de italianos que migraram ao sul do Brasil, cresceu naquele clima de famílias numerosas, com muita polenta, queijo, vinho e salame. De estatura média, mas, robusta e bem alargada, fazia da sua fala uma tergiversação degringolada. Como esteve algumas vezes na França, e fez cursinho, por correspondência, sobre como tomar vinhos nobres, conseguia falar, horas a fio, sobre os modos de se tomar vinho, sobre os tipos de taças, sobre as condições de manutenção das garrafas nos altarezinhos da adoração ao deus Priapo, sobre o como fazer este vinho circular por todo o ambiente da boca, para, enfim, deixa-lo deslizar, suavemente, no penhasco da garganta, e pousar, com elegância, no meio daquele brejo pantanoso do estômago.

Chatíssimo na sua enlevação para ensinar como tomar vinho, constituía-se, realmente, em professor catedrático de afirmações eruditas, com descrições minuciosas, e, com largas minudências e brogúncias, a respeito de vinhos, sobretudo, os franceses.

Bingolim ostentava uma colorida variedade de garrafas na parede da sala de estar da sua casa. No destaque daquela prateleira, ficava um pote de vidro, enorme, de cerca de cinquenta centímetros de altura, praticamente cheio de rolhas cheiradas e guardadas para ativar a memória dos tipos de excelsos e nobres vinhos já ingeridos depois dos ditos “buquês” e desassidificação naqueles giros do vinho dentro da taça, antes de aproximá-lo da boca, suspirante e sedenta por aquele líquido precioso.

De vez em quando, em seus arroubos, nada deletérios, para coçar seu próprio ego, convidava um e outro colega para um jantar. Um destes colegas foi o professor Pedro Kretz. O sobrenome já indicava um pouco do seu perfil, pois, Kretz, em alemão, significa sarna, -  para os pobres; - e, para os ricos, esta bonita doença chamada de escabiose.

Com características de irritação cutânea por ter que suportar algumas horas de jactância sobre vinhos e como tomá-los, Pedro tinha uma desculpa de que não tomava vinho, nem francês, nem grego ou chinês e, nem mesmo, o falado vinho alemão “Jungfraumilch” (traduzido, leite de jovem senhora), e, menos ainda, estes vinhos de garrafão, vendidos nos armazéns e supermercados como “Sangue de Boi”, “Chapinha”, “Campo Largo” e outros similares. Argumentava que bebia apenas alguma latinha de cerveja Heineken, no bico, sem sequer usar copo. Era, evidentemente, uma ironia contra o nobre professor e degustador de vinhos.

Jantar ao lado do professor José Bingolim (“Bingolim” também significava a bochinha fina, ou balim, usada nos jogos de bocha, esporte preferido dos descendentes italianos), proporcionava impreterível movimentação peristáltica.

Um dia, o professor formulou mais um convite para que José Kretz fosse jantar em sua casa. A esposa do Bingolim, gentil e discreta, tinha que ser assim mesmo, pois, ante as falas ininterruptas do marido, deve ter aprendido a ficar calada. Desta vez, porém, veio o que faltava para a conversa ser exclusivamente sobre vinhos franceses.

 Tratou-se da presença da doutora Margarete, filha de gente modesta, que lutou muito para custear sua Faculdade de Medicina, mas, ela, como médica, e auto-proclamada doutora, já não se ocupava mais com as conversas do senso comum e dos ambientes da vila de onde saiu. Era destas mulheres falantes e faladeiras, tanto quanto o professor Bingolim para abordar o tema preferido e imprescindível da conversa: vinhos.

Enquanto a esposa do professor Bingolim arrumava a mesa com aquelas pilhas de pratos, e enchendo o espaço disponível com taças, guardanapos, talheres e outros apetrechos, o professor mostrava seus equipamentos para servir vinho, a fim de não permitir que alguma gota de vinho deslizasse pelo bico da garrafa e fosse parar na toalha branca da mesa e, sobre o como colocar o dedo naquele buraco arredondado no fundo da garrafa, na hora de servir o vinho. Até para isso, precisava ser seguido um ritual de etiqueta sofisticada.

No meio da conversa fechada com a médica Margarete, Bingolim foi pegar uma garrafa de vinho, colocou-a sobre a mesinha especial, entre os sofás, foi buscar a caixa dos apetrechos para abrir a garrafa, e, o que mais incomodou José Kretz, foi que Bingolim, assim que extraiu a rolha do bico da garrafa, cheirou demoradamente a rolha e fez os visitantes também cheirá-la. Foi, então, que iniciou a palestra magna sobre o cheirar a rolha. Aquela ritualização solene, de cheirar, ficar com o nariz no rumo da lua, inebriar-se com os eflúvios daquele néctar dos deuses, tornava-se altamente animalesco para o José Kretz.

Afinal, ele, quando era menino, observava um ritual tão parecido com os touros e carneiros, que, cheirando a saída urinária das fêmeas, ficavam com o nariz erguido na direção da lua. O ato consistia, certamente, no tempo necessário para que aquelas inalações chegassem, através de seletos neurônios, até o cérebro para lhe dizer que deliberasse uma ordem ao corpo: pode inebriar-se à exaustão com tais hormônios de pura felicidade.

A médica conseguiu furar o monólogo da conversa do professor Bingolim, e enveredou sua grandiloquência sobre vinhos franceses, que ela apreciava muito. Era “Chateaux” disso e “Chateaux” daquilo, como “Chateaux de la Cave”, “Chandon”, que o silenciado José Kretz desejava, também, entrar na conversa, para dizer que já tinha tomado “Vino de Riocha”, da Espanha e, Casilla del Diablo, do Chile. Como não conseguiu furar a esotérica e mística elevação dos dois, depois de cheirar a rolha, ele não aguentou mais aquela conversa interminável sobre vinho francês e rolha, levantou-se e falou para os dois: eu apenas aprecio um único vinho francês. É o vinho “Chatô de Shaco Cheio”. Levantou-se e foi embora, antes do jantar. Para seu alívio, nunca mais foi convidado.

 

4

SOB O SACO DO REQUEIJÃO

 

O saco do requeijão requer uma hermenêutica complicada para que se possa entender o seu significado. A dificuldade envolve as duas palavras, devido à polissemia dos seus significados. Além das conotações, envolvem metalinguagens, e ainda, alguns sentidos de entrelinhas não escritas, ou seja, não é sempre bem aquilo que se diz com a palavra.

Começando pela palavra “saco”, o seu significado requer uma enciclopédia mental para constatar o que a utilização da palavra realmente quis expressar e, ainda mais: as palavras acrescidas, complicam com, elevados graus, a clareza do significado, como “saco cheio” ou “saco vazio”; saco, em sentido figurado ou conotativo; saco, como estado afetivo-emocional; saco, limpo ou sujo; saco plástico ou de couro; saco de pano ou de lona; saco “beg” ou saquinho de sal; saco, furado ou bem costurado; e assim vai...

Na fala com entrelinhas, fala-se em cair o saco, em saco da mulher, em puxa-saco, em dizer que algo é um saco; em saco cheio e, em muito outro enleio. Assim, ao se dizer que Fulano está coçando o saco, poderia remeter ao significado de estar ansioso, numa expectativa, que está com tédio, sem saber o que fazer, ou até por fatores de hábito cultural, para dar a entender que queria ser visto como sujeito muito macho, barbaridade tchê!

A toda hora, nem apelação ao VAR conseguia clarear o significado de “cair o saco”: em primeiro lugar, qual; depois, porquê?; e, ainda, de onde que caiu. Afinal, era um saco de garupa, como dizem os gaúchos? E se foi saco de garupa, era de lona, de pano ou de couro? Ademais, estava sobre o cavalo encilhado, ou nos ombros do vivente, carregando algum produto para casa? Ou seria, enfim, algum processo fisiológico do peso dos fragmentos seminais de homem chato e impertinente?

Entretanto, o que mais requeria hermenêuticas, era a expressão “saco cheio”, que podia ser referência de metáfora para expressar saturação e sobrecarga de atividades desgastantes, ou, apenas referir-se a saco de milho, de café, de soja, ou de feijão, ou de açúcar, embora, também pudesse estar no foco, algum outro sentido figurado ou simbólico.

Para que este assunto também não vire um saco, convém mencionar a palavra “requeijão”. Basicamente resulta do leite coagulado, ou por coagulação ácida ou enzimática. Desta massa, chamada de coalhada, processa-se o queijo fundido, - cozido ou não, - mas, acrescido de grande variedade de aditivos, como gorduras saturadas, óleo de manteiga, sódio, e, mais alguns produtos que, finalmente, o deixam irresistível: a condição de ser cremoso.

Se é cremoso, produz na fantasia, aquela magia de algo suave e pastoso, e, com isso, remete a outro significado: ser carinhoso, fofo, meloso e muito gostoso. Em sua essência, a palavra “cremoso”, remete a significados polissêmicos do campo da paixão humana: a propriedade de ser viscoso, pastoso, liso, fácil e substancioso.

Feito este preâmbulo, pode-se, então, chegar a mais um significado de “saco de requeijão”. Enquanto que na cultura de influência italiana, era normal o consumo de muito queijo, com polenta, salame, “radiche” e tantas outras iguarias apreciáveis, entre os descendentes alemães, demorou a se assimilar o consumo de queijo, mas, era cotidiano o uso de requeijão. Com técnica menos refinada do que o das atuais indústrias de laticínios, deixava-se o leite numa vasilha aberta e exposta em algum lugar, a fim de que virasse coalhada. Entrava, então, o outro elemento: o saco.

Na verdade, era habitual a utilização dos sacos de sal, que continham cerca de vinte quilos deste produto. Ao serem esvaziados, estes sacos eram lavados e alvejados, e, então, passavam a ter a função de separar o soro da coalhada. Geralmente pendurados no lado da janela da cozinha, para fácil acesso, quando o soro havia se sumido do saco, a massa era recolhida, amassada com garfo, acrescida de nata e sal e constituía, assim, o requeijão. Este, era passado no pão de milho: primeiro vinha uma camada de “Schmier” (doce de frutas com melado de cana ou açúcar), depois, a camada de requeijão e, por cima desta camada, mais um pouco de nata para que esta cobertura, como o merengue das tortas, deixasse a fatia de pão bonita e atraente.

Atualmente as indústrias de laticínios fabricam algo similar ao requeijão, como o Quaker ou queijo frescal e nata, mas, nenhum destes produtos, isolados ou misturados, chega ao sabor do requeijão caseiro, junto com pão de milho. No lugar da cremosidade, pastosidade, suavidade, lisura, e frescura do requeijão atual, o requeijão caseiro ainda não tinha absorvido a dimensão carinhosa, melosa e com jeito gostoso.

Segundo a hermenêutica de um amigo, a cremosidade estaria sendo a grande causa dos desvios de conduta e da perda da identidade de masculino e feminino. Talvez não seja, mas, a palavra cremosa é altamente hipnótica para induzir ao consumo. Afirmar que um sorvete é cremoso, que um picolé é super-cremoso, que o requeijão e tanto outro produto, como o café, é macio e cremoso, constitui a mais efetiva e sedutora publicidade para seu consumo.

Aquele saquinho, que uma vez era para conter o sal, na qualidade de filtro separador do soro do leite da coalhada, não ficava muito ausente das conversas cotidianas mais antigas em ambientes de descendência alemã: muito complicado para ser lavado, devido à absorção da gordura do leite, constituía o símbolo do cheiro azedo do soro, e do mau-humor. Nada ficava mais hilário quando alguém contava a história de mulher que tinha batido este saco de requeijão na cabeça do marido. Era sua arma e o símbolo máximo do empoderamento da mulher, diante do marido machão ou bêbado.

Alguém vir a ser gozado de que levou o saco de requeijão na orelha, constituía a mesma coisa do que lhe dizer: enfim, caiu o saco! Você, agora, está com a natureza máscula escafedida.

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NO TEMPO DO CALÇÃO LITÚRGICO

 

Nos idos tempos do início da década de 1960, vivia-se na Igreja Católica a influência marcante e determinista do Concílio de Trento para seminaristas que quisessem ser padres. Os neurônios cerebrais, naqueles tempos, nem tinham sido ativados e informados a respeito do que poderia ser o uso de calção, menos ainda, de sunga. Eles, certamente, nem sabiam identificar estas normativas da moda.

No seminário de Maravilha, SC, situado no topo mais elevado da cidade – que na verdade, era mais uma vila perdida no meio do mar ondulado de Araucárias, - se a moda da época já apresentava algumas diretrizes a respeito do como se vestir, neste seminário, não se admitia nem mesmo o uso de calça curta. Calça comprida, era a regra oficial, quer para estar na sala de aula, quer nos momentos de lazer ou de jogar futebol.

Havia uma exceção, muito especial, para o banho coletivo, num açude localizado dentro do mato. Atravessava-se a pequena cidade, e lá, no outro lado, bem isolado por mato, - a cerca de três quilômetros de distância do seminário, - tomava-se o banho com uso de calção que tinha que encobrir os joelhos. E, com um detalhe: não se podia ir até o açude de calção. Ia-se de calça comprida, atravessando o centro da cidade, e, lá no mato, um se escondendo do outro, atrás de alguma árvore, trocava a calça pelo calção de banho. Nem se admitia pensar na hipótese de sair do açude e voltar para casa com calção molhado no corpo. O simples fato de trocar a roupa no mato, acabava deixando tanto o calção quanto a calça embarrada e suja. Mas era a condição.

Passados alguns anos, já em outro seminário em Santo Ângelo, RS, já se podia vestir o calção de banho e correr até um enorme açude a uns quinhentos metros de distância, e, guarnecido por mata fechada. Com frio ou calor, neve, geada ou chuva, todos tinham que tomar banho diário naquele açude. Nem se sonhava com chuveiro, e ainda mais, chuveiro aquecido. Voltava-se do açude em corrida, ainda mais, no frio do inverno gelado, e corria-se até o dormitório, com o calção, já sem escorrer água pelas pernas, e se vestia outro calção e calça comprida. Nem era imaginável o uso de cueca de microfibra, elastina e desta microscópica pequenez de tamanho, como a das cuecas dos dias atuais. Tudo era feito à base de tecido de algodão.

De tanto pressionar o diretor do seminário para jogar futebol, do jeito da seleção brasileira e dos grenais, com um calção, como eles os vestiam, seria um status fora do comum. Depois de anos de insistência, eis, que o diretor liberou o uso de calção para os jogos de futebol, mas, estritamente, para o tempo do jogo em campo. No entanto, ainda não havia chegado o tempo evolutivo do uso de calção curto e apertado como os daqueles jogadores afamados, quase perceptíveis naqueles incipientes televisores em preto e branco. Isto, quando não chovia, pois, se chovesse, sumia a imagem. Os calções, obrigatoriamente, tinham que cobrir as pernas, até os joelhos.

Se a liberação foi uma grande conquista, havia, no entanto, um resquício de insatisfação e incompletude nos anseios de poder usar calção que não fosse tão comprido. Imediatamente, este calção comprido, foi batizado de “calção litúrgico”, e muito se falava de que este tipo de calção era radicalmente distinto dos calções vestidos pelos demais meninos, quer nas ruas, nos jogos e até para ir à escola. Eles praticavam economia muito maior em relação à roupa desnecessária do que os seminaristas e só se via menino com calção curto e apertado.

Sob o conceito de calção litúrgico, passaram-se mais uns anos e os seminaristas, já maiores, ao jogarem contra outros times de futebol, enfrentavam uma gozação fora do comum, com aqueles calções litúrgicos. As meninas e moças, então, tiravam o maior sarro. Razão para mais uma campanha em favor de calção normal, até comprável em lojas de tecidos, para serem mais parecidos com o comum dos mortais na veste, eis que o esmerado empenho obteve bom resultado: os seminaristas foram liberados para usarem calções curtos como os de outros jogadores, mas, com uma condição, não daqueles de mostrar o volume dos documentos.

Por ironia das contrariedades, quando os seminaristas, finalmente, puderam vestir calção não litúrgico, entrou a moda do bermudão. Foi, então, que começaram a aparecer jogadores com calções até os joelhos, folgados como bombachas de gaúchos, e os seminaristas, outra vez, se viram deslocados diante dos ditames da moda.

 

 

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

DENEGRIDOS ARQUÉTIPOS

 


Como em outros momentos da história,

Uma autoimagem de grandeza e glória,

Leva a rótulos contra as outras pessoas,

E falsifica os atributos de pessoas boas.

 

Como na Bíblia, chamar outros de pagãos,

Dava direito de lhes imputar duras ações,

Para que suas insinuações não afetassem,

Todos os que outras imagens cultivassem.

 

Uma autointerpretação de reta conduta,

Projeta, de forma arrogante e impoluta,

Rótulos sobre comportamentos distintos,

Para perseguição em quaisquer recintos.

 

Como os combates de cristãos a mouros,

Movidos pelos motivos os mais obscuros,

A rotulação oferece um direito a guerra,

Para erradicar toda diferença que berra.

 

Conhecido arquétipo do Führer alemão,

Tão eficaz no desejo de cretino mandão,

Permite que se coloque acima do Estado,

E o use para o próprio poder acumulado.

 

Atualmente até os ditadores autoritários,

São manequins dos grupos mandatários,

Que, atrás dos palcos, ditam as normas,

Que assegurem ambiciosas plataformas.

 

Para que o poder dos milionários cresça,

E qualquer força do Estado lhes obedeça,

Produzem e denigrem imagens adversas,

A seus planos de maquinações perversas.

 

Poder dos bilionários virou hegemônico,

E rege sobre os Estados de modo irônico,

Para lhes garantir concentração de renda,

Até mesmo sob a falsificada reprimenda.

 

Produzem guerra para obter mais capital,

E promovem crenças para domínio total,

Que assegure o direito de tudo abarcar,

Com o vantajoso lucro de tudo acumular.

 

Um Estado, já feito refém dos magnatas,

Produz o arquétipo dos atos democratas,

Mas, manipulado pelo poder autoritário,

Financia quem se submete ao seu ideário.

 

Gasta uma ínfima porção da sua fortuna,

Para garantir eleição de jogada oportuna,

Que permita direito de guerra ante tudo,

Para poder ampliar acumulado topetudo.

 

Ao rotularem alguém como um corrupto,

Escondem próprio proceder ininterrupto,

Que os tornou tão ricos, acima do Estado,

E dele se valem para o poder manipulado.

 

 

 

 

O INVENTOR MALOGRADO

  

            José Malaquias, desde sua infância, foi um grande sonhador. Quis inventar e fabricar coisas contra as mortes e maldades humanas. Quando se meteu a fazer um carrinho, faltaram peças e ferramentas. Mais tarde, resolveu fabricar um “estoura-som” dos aparelhos de som com volume exagerado e faltou tecnologia.

            Chateado com as notícias diárias sobre políticos corruptos, pensou em inventar um “corrupticida”. Sem êxito, quis inventar um inversor de ódios para haver menos briga e ódio entre as pessoas. Por fim, virou um curandeiro a indicar o consumo de chá de Alfafa.

 

ÍNDICE

Apresentação...

1 – Um “Estoura-Som”...

2 – Um “corrupticida”...

3 – Inversor de ódio...

4 – Chá de alfafa...

Palavras finais...

 

APRESENTAÇÃO

 

            José Malaquias estava dormindo. Acordou, sem saber como e porquê, mas, constatou que estava exultando de alegria. A memória lhe permitiu lembrar, apenas e somente, que estava escutando seu amigo Osvaldo a lhe contar uma anedota sobre a insignificância do ser humano poderoso. Empenhou-se para voltar ao sonho, no insistente desejo de recuperar o fio da meada daquela alegria espontânea, e, simplesmente não conseguiu localizar o devido acesso.

Andou insistindo para reatar a conversa gestora da alegria, no trilho do mato escuro da fantasia, porém, nem ali encontrou a chave da reatância à alegria do sonho. Acordado, e ainda extasiado com a gratuidade daquela alegria, deduziu que interações humanas, plausíveis de causar exultações de alegria, poderiam ser incomparavelmente mais benéficas à vida do que ideais dominantes que levam ao investimento de trilhões de dólares na trágica sofisticação de armas letais para destruir pessoas.

Na estupidez que costuma anteceder as guerras, revela-se o sumiço da cordialidade, esta que não carece de investimentos astronômicos em armas para ameaçar, intimidar, subjugar e matar. No entanto, muito acima do poder das armas, a cordialidade aviva o sonho, real e consciente, capaz de apontar para uma convivência de seres humanos, com menos ódio, menos sisudez, e com muito maior capacidade de fruir, e, sem nenhuma investidura honorífica para pessoas militarizadas, com equipamentos e armas de destruição.

José Malaquias, não nasceu com dotes geniais, mas, no ambiente da sua infância, sonhou com muitas obras e edificações do mundo fantasioso sem nenhum gosto por inventar equipamentos de morte. Viu, no entanto, que a maior parte dos sonhos não se viabilizou por falta de equipamentos necessários para utilitários benéficos às pessoas humanas, especialmente, os precípuos para fazer rodas, eixos, volantes, freios e estofamentos para um pequeno carrinho de madeira, ou, fabricar uma bola menos quadrada que as bolas feitas com barbante e pano, únicas ao seu alcance empreendedor.

Um dia José viu, numa revista, a imagem de um automóvel encantador, com espaço interno para uma criança motorista. Resolveu fabricar um auto similar, mas, faltou literalmente tudo o que se fazia necessário. Teve que conformar-se em andar no seu cavalo, feito com cabo de vassoura, mas, que na imaginação, corria, empinava, troteava e deslizava em marchas suaves e ainda relinchava.

José cresceu com múltiplas tentativas malogradas de inventar algo útil e prático. A certa altura dos estudos, suspeitou que era possuidor de poderes paranormais para captar quais questões cairiam nas provas do dia seguinte, através da movimentação de um pêndulo. Não acertou nenhuma questão sequer.  Assim fez muitas outras tentativas pelo mundo das fantasias, mas, todas acabaram definhando antes de se tornarem uma utilidade para facilitar algo do senso prático e objetivo das lidas de cada dia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1

UM “ESTOURA-SOM”

 

Um dia, conversando com um técnico da Siemens, da Alemanha, que veio instalar um aparelho de Raio-X em Januária, Minas Gerais, José se encantou profundamente com uma narrativa deste técnico. Desejou gravar e comer as explicações sobre o como ele resolveu um problema de abuso de som do seu vizinho, mas, não assimilou os necessários passos, porque não entendia nada de eletrônica. Tal assunto fascinante, viria, contudo, ao encontro de uma solução para o que José mais se implicava: o abuso de sons, a elevadíssimos decibéis.

O alemão lhe contou minuciosamente como agiu para silenciar o som abusivo, produzido na casa do seu vizinho, exibido e desaforado. Explicou que inventou um aparelhinho simples, portátil, quase similar ao do controle eletrônico de portões, porém, capaz de potencializar o volume do som de um aparelho à capacidade máxima possível, de supetão, e que, com isso, estourava, instantaneamente, os alto-falantes daquela caixa de som.

O alemão comentou o desconforto que sentia toda vez que era obrigado a suportar um som irritante pelo volume excessivo. Seu vizinho, metido a doido varrido, chegava do serviço, colocava o aparelho de som na varanda e soltava uma música, além de chata, em volume astronômico.

Num belo dia, quando este vizinho se sentou ao lado da caixa de som, e, enquanto tomava sua cerveja, o técnico apertou o controle do seu aparelhinho e pode ouvir, no mesmo instante, o estouro da caixa de som do dito vizinho.

O vivente esbravejeou e deu um soco na mesa, mas, não saiu mais som daquela caixa. No dia seguinte, na mesma hora, iniciou-se o mesmo ritual de música exaltada com caixa de som nova, maior e diferente. O simples aperto no aparelhinho, queimou a caixa de som, da mesma forma, como no dia anterior. Como o vizinho irritador era persistente na sua teimosia, no terceiro dia, estava ele, outra vez, sentado na varanda, com as pernas para o ar, tomando cerveja e vagando no som alucinado, com outro enorme equipamento amplificador de música. Bastou mais um aperto no aparelhinho e já começou a irradiar-se um silêncio daqueles bons e agradáveis. A partir daquele dia, nunca mais se ouviu som na casa deste vizinho.

José Malaquias ficou fascinado pelo assunto do técnico alemão em aparelhos de Raio-X, e já pensou em conseguir silenciar os grandes abusadores acústicos de festinhas, nas altas horas da noite, e o som daquela bateção maluca de tambores irradiados em sons automotivos dos carros da rapaziada que queria exibir-se como “filhos de papai rico” e, ainda, daquelas chatíssimas e irritantes propagandas de publicidade comercial nas ruas. A possibilidade de poder amenizar esta poluição acústica, invasiva e desrespeitosa, seria um préstimo inaudito, capaz de proporcionar ajuda e benefício enorme à qualidade da vida humana.

Como José não entendia nada de eletrônica, nem adiantaria fazer alguma tentativa para fabricar tal aparelhinho. No entanto, ficou com a ideia. Logo pensou em encontrar um técnico eletrônico para lhe pedir a fabricação de tal aparelhinho com a idealizada ideia, no desejo de patenteá-la e ficar rico com a venda do seu “Estoura-Som”. Até imaginou que para patentear este invento, de suma preciosidade para viver em ambientes menos abusados por sons absurdos, este somente acionaria seu poder destrutivo, a partir do limite dos decibéis permitidos pela legislação em vigor, mas, não observada.

Buscas de lojas de reparos eletrônicos e explicação do que desejava, frustraram José Malaquias, pois, eles consertavam e adaptavam peças de todo jeito, mas, não sabiam como produzir e acionar um disparo do volume de uma caixa de som ao máximo, à distância, a ponto de estourá-la. Um dia, animou-se com uma nova possibilidade: encontrou um rapaz de família conhecida, que acabara de passar no vestibular de Robótica.

Foi lá e fez uma exigência categórica ao rapaz: você tem que descobrir, do jeito quer for possível, - ao longo dos anos da Faculdade, - a técnica de fazer um pequeno dispositivo para estourar caixas de som. Peça para os professores, e, depois, nós vamos criar uma empresa, que, com certeza, vai alcançar prosperidade fora do comum.

Toda vez que José Malaquias encontrava o rapaz, este sempre voltava com a informação de que nem sequer os professores sabiam apontar um modo de como fazer tal aparelho. O rapaz se formou em Robótica, virou técnico exímio em controles remotos, mas, nada que acrescentasse algo à esperança de um “Estoura-Som”.

O pior para José Malaquias era lembrar que poderia ter solicitado o endereço ou telefone do perito alemão. Sob este lapso de atenção, perdeu a possibilidade de escrever-lhe, e este poderia fornecer-lhe os passos para o utilitário de poder fantástico. O grande desejo se esbugalhou e virou em nada. Mais um possível empreendimento malogrado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2

UM CORRUPTICIDA

 

Passado mais um tempo, diante do quadro de noticiários enchendo a cabeça com informações relativas a atos escancarados de corrupção, José Malaquias projetou, na área da saúde, a invenção de um comprimido barato, bom e eficaz, contra político corrupto.

Seria o valioso “Corrupticida”. Teria que ser uma ingestão forçada como aquelas de antigos medicamentos contra vermes, quando ele era criança. Ainda que o político não gostasse, teria que ingerir, na marra, o comprimido, e limpar a imundície da sua atrevida presunção daquela acumulação doentia, advinda das suas entranhas. Foi bem naquele período em que pseudocientistas indicavam Ivermectina contra a terrível pandemia da Covid, sem nenhuma eficácia. Teria que ser uma medicação em pílulas, capaz de eliminar as megalomaníacas parolas de autoridades constituídas; mas, os laboratórios sequer se entendiam sobre o como combater a pandemia da Covid e elaborar remédio eficaz contra sua infestação.

José Malaquias percebeu que, neste campo, ocorre muito colonialismo de grandes donos de fármacos, verdadeiros imperialistas a controlar e insinuar o consumo medicamentoso. Afinal, ali o fracasso seria evidente mais uma vez. Começou, então, a indignar-se com a manipulação grosseira e massiva da dominação das mentes humanas para fins eleitoreiros e de oportunismo selvagem no campo da política.

 As interferências transnacionais, os manipulados cultivos de ódio contra adversários, a determinação pelo pensamento único, a fim de perseguir e eliminar os discordantes, constituíam uma poluição sonora das piores possíveis.  José Malaquias anteviu a urgente necessidade de baixar o nível de animosidade, presente no clima geral na sociedade, e, propensa ao quadro de guerra, com militarismo acima do bem e do mal.  Em nada visualizava indício favorável ao desvelo pelo bem-estar dos cidadãos, mas, tão somente, o exercício da força bruta sobre indefesos. Seu Zé divagou sobre a possibilidade de criar-se um comprimido contra esta monstruosidade humana.

 Ao lado da morbidez dos mais poderosos deste planeta por matar similares, e da sua pretensão doentia pela acumulação, deveria este mecanismo anormal ser amainado, sem delongas, através de alguma pílula, com efeito similar ao da recomendada a psicóticos, paranoicos, fóbicos, esquizofrênicos e supermachos, a fim de frear suas compulsões hiper-ativadas.

Na sua inquietude por indicar, pelo menos, alguma coisa que pudesse diminuir ódios vociferantes, e alargados pelas fake-news, como terror a invadir as mentes humanas pobres, infensas e ordeiras, via que esta ação estava produzindo seres humanos monstruosos. Estes se moviam precipuamente para dominar através do bombardeio de informações falsas, com notícias canalizadas nos parâmetros da diabólica obsessão do pensamento único.  Na intuição do Zé, teria que se produzir um calmante capaz de amenizar este desvario pelo poder de mandar.

Algo humano, mas, totalmente irracional estava sendo esta briga de certos indivíduos pela conquista de um posto, ou de um cargo no poder instituído, com a pressuposição de somente trabalhar pelo bem do povo ou de setores da sociedade, mas que, - depois -  não admitiria jamais largar o osso do carguinho, tornando-se, gradualmente, mais mentiroso que antes, passando a mão nos lugares indevidos, e fazendo de tudo para não mais deferir este poder a outros.

 

 

 

 

 

3

UM INVERSOR DE ÓDIO

 

José Malaquias intuiu que se fazia necessário inventar um aparelhinho eletrônico a ser instalado, ao lado das cordas vocais, com a dupla função: a primeira, inverter falas agressivas e odiosas, por palavras meigas e acolhedoras; a segunda, instalar, paralelamente, uma extensão sem fio com um micro-chip na ponta do nariz, capaz de piscar em pequeno ponto de luz vermelha, toda vez que o político vociferasse contra supostos adversários, apenas para afirmar-se como melhor, superior e mais ambicioso.

Assim como já existe largo uso de tradutores de línguas, o salto para um inversor de ódios, seria a mais exuberante boa notícia.

Essa teatralidade insuportável da maior parte dos estabelecidos no poder, - que encena lisuras e bondades, nos ditames do velho vício paternalista, -  estaria gerando uma sociedade submissa, e a deixava refém dos espoliadores, já desprovidos dos genuínos bons sentimentos humanos.

Além daqueles aparelhinhos da micro-engenharia, seria plausível produzir outro remédio auxiliar de um receituário mais homeopático: todo serviço exercido em cargos públicos, deveria ser pago. Ao contrário dos super-salários, que eles estabelecem para suas vantagens e privilégios, quanto mais elevado o cargo do poder, mais eles teriam que pagar, todo mês, para o exercício da sua função, e, este dinheiro teria que ser destinado, integralmente, à coletividade. Seria, por conseguinte, uma sociedade mais democrática do que a vigente.

O fracasso deste delírio se evidenciou antes mesmo de vir a constituir-se em eventual projeto, pois, sem a bênção das grandes mídias, ele nem se viabilizaria e, nem, tampouco, entre os frangos do galinheiro do José Malaquias. Restaria ainda uma última chance de colaborar para a diminuição drástica dos ódios humanos, ampliados pela fantasia, justificados como necessários, e, exercidos para legitimada destruição de pessoas insubmissas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4

CHÁ DE ALFAFA

 

Como os grandes mecanismos de ordem para manter paz entre similares humanos, quer religiosos, políticos, ou os da guerra, se delineiam como insuficientes e, literalmente ineficientes, José Malaquias intuiu algo mais discreto, haurido do mundo do curandeirismo. Um chá caseiro, fácil de ser cultivado e sem grandes custos, poderia evidenciar-se, alastrar-se, e, qual virose invasiva, chegar aos mais abscônditos confins do planeta.

Como tanta propriedade terapêutica é extraída de plantas, José Malaquias se enfurnou em torno das propriedades e dos múltiplos poderes da alfafa, específicos contra a sintomatologia das piores mazelas humanas da atualidade.

O chá de alfafa permitiria o “pulo do gato” para uma grande guinada na humanidade, porquanto devolveria o juízo da cabeça – há tempo deslocado para as tripas, -  a regressar ao seu nobre espaço, no oco da cabeça vazia.

A má digestão das discordâncias e das sugestões edificantes para uma convivência, cordial e serena, ante aumento do machismo exacerbado, o azedume de um fígado mal orientado pela bílis dos incontáveis raivosos de nossos dias, tudo isso, - que vem lá de baixo, - teria que encontrar ação de antídoto, para permitir que o juízo volte ao seu específico lugar do cérebro, sob a boa assessoria do coração, capaz de propulsionar bons sentimentos humanos.

Todas estas mazelas doentias, que se estabeleceram no submundo das entranhas, poderiam ser radicalmente acalmadas com um simples chá de alfafa.

Alfafa seria a estrela a orientar o caminho na escuridão do deserto humano. Suas múltiplas funções terapêuticas, tão pouco conhecidas, poderiam conter o segredo, ainda não desvendado, para um convívio pacífico entre seres humanos. Seu primeiro e mais importante efeito, atingiria os metidos a supermachos, pois, o chá de alfafa é, certamente, o melhor “brochante”, embora poucos o conheçam por tão valiosa propriedade.

O segundo efeito miraculoso do chá de alfafa está na sua ação calmante, tão sumida das interações humanas. Acalmar os ânimos mal-humorados, raivosos e vingativos, seria uma mediação capaz de mudar substancialmente as falas e os discursos políticos.

O terceiro efeito, imprescindível para o desarmamento da bílis negra que joga azedume no fígado e não deixa que o estômago, com todos os seus exércitos de micro-organismos, consiga digerir os desrecomendados alimentos super-processados, regados com a saliva das maldades humanas de inventar e ruminar fofocas, sob o excelente poder digestivo, permitiria que o chá de alfafa poderia propiciar benefício incalculável ao gênero humano.

Uma quarta propriedade do chá de alfafa está no seu espantoso poder de fazer mulheres aumentarem a produção de leite. Com tanta criança subnutrida com a ingestão de leites da química dos interesseiros lucros, o abundante leite materno, criaria crianças saudáveis, com os necessários anti-corpos, para conviver com a imensurável presença de micro-organismos, a ponto de crescerem fortes, sadias e predispostas, mais para a ludicidade e lazer, do que para o induzido mapeamento diário do pensamento único de viver para matar, tão exaltado na venda dos brinquedos de armas de guerra. Se o principal brinquedo é o de super-heróis que apenas matam, poderia, este precioso tempo de uma amamentação, combater a aparente e inocente ocupação em celulares com joguinhos que fazem seus cérebros se deslocarem para algum lugar, do estômago para baixo, e, aprender algo precípuo e fundamental do ser humano.

O leite materno, com o equilíbrio dos anti-corpos, poderia repassar, no colo das mães, as profundas intuições femininas pela vida, e, não pela morte. Com o leite, os bebês poderiam ser iniciados no mundo da simbiose do bem-querer.

Sem mencionar as demais propriedades terapêuticas do chá de alfafa, estaria nele o genuíno remédio, nada atrelado aos grandes e poderosos grupos farmacêuticos.

O chá de alfafa entraria, como a brisa suave dentro das casas, e, através do “corpo-a-corpo” das boas conversas, poderia disseminar-se até chegar a toda a humanidade, para, enfim, após tanto neurônio queimado em favor do saber humano, possa este chá de alfafa, na gratuidade de um dos grandes dons da natureza, elevar a dignidade e o respeito entre seres humanos.

Os trilhões de dólares investidos por pessoas, que se dizem ajuizadas e de bom senso, para sofisticar cada dia as armas de destruição, poderiam, em suma, a partir do chá de alfafa, serem revertidos para pensar em construir lares, praças, hospitais e jardins, a fim de que o bem-estar de todos os seres vivos, neste grande jardim, possa enaltecer a Terra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PALAVRAS FINAIS

 

Das fantasias infantis, aos outros sonhos de elevação dos pendores do quanto os humanos poderiam ser mais refratários diante do poder da publicidade midiática, sobretudo, da manipulação de poderosos e grupos hegemônicos, para lhes apontar rumos menos truculentos.

Neste itinerário, que a cada dia mais apavora, com riscos reais e efetivos da iminência de uma grande destruição humana, acaba falando, ainda mais alto do que os sons automotivos, o som de paranoicos desvairados e deslumbrados pelo seu super-poder.

Quando o foco central das apostas está na mira das armas mais potentes e sofisticadas para matar pessoas, já não reina humanidade, mas, a doentia obsessão por dominar outros seres. Diante deste obscuro horizonte, que se desvenda aos olhos, sonhar e debochar de forma simples e irônica da estupidez humana, na iminência da tragédia da vida no planeta Terra, permite uma catarse intuitiva, para além de invenções práticas e objetivas, a fim de que sonhos similares de muitas pessoas, possam configurar algo similar à mediação atribuída ao chá de alfafa.

Alfafa constituía o trato nobre aos milhares de cavalos nos quartéis de formação de soldados para a guerra. Feno de alfafa deixava os cavalos, fortes, saudáveis, bonitos e dóceis às ordens dos bravos montadores.

Quem sabe, na alegoria da alfafa, homens tratados diariamente com quantia razoável desta fonte de proteínas e outros benefícios à saúde, poderiam situar o juízo no seu devido lugar e se tornarem sujeitos sadios, elegantes, corteses, respeitosos, saudáveis, para lidas e andanças, que não sejam as de perseguir e matar. Então, ainda sobrará, chance para exultação nas gratuitas alegrias, a partir da partilha de sonhos.

Crer no malogro da capacidade humana de se transcender para níveis de maior capacidade de convivência e respeito, seria uma tragédia e um fatalismo cruel. Por isso, sonhar, ainda pode evidenciar algo que possa contribuir para uma saída do marasmo de pensar mais com as entranhas do que com a síntese entre cérebro e coração.

 

 

<center>EPISÓDIOS GALHOFEIROS</center>

    Índice 1 – Na casa da Tia Catarina... 2 – Com o canhoto azarado... 3 – No cheirador de rolha... 4 – Sob o saco de requeijão.....