Pe. Dr. João Inácio Kolling
“NIHIL
SINE CONSENSU PLEBIS”
(Nada sem o consenso do povo)
Questão preambular
Com
este texto deseja-se despertar para uma sensibilização com vistas à imprescindível
mudança na “Weltanschauung” (modo de ver Deus, o mundo, e as coisas) da
formação de futuros padres, ou seja, espera-se deles um itinerário que os leve da
identidade tridentina, para identidade mais vinculada a Jesus Cristo, e ao que
decorre do Concílio Vaticano II. Significa necessária passagem da noção de
sacerdotalização de uma corporação autorreferencial e administradora do
sagrado, para uma noção sinodal, que aponta serviço de comunhão, longe do mero
culto e da piedade.
O
assunto formação de futuros presbíteros
é, na verdade, um tanto aporético, pois, envolve grandes anseios e expectativas,
mas, também indica evidências de que sua identidade arraigada ao longo de
muitos séculos, já não corresponde adequadamente aos anseios das comunidades
católicas, mas, renitente a uma possível mudança.
Pode-se, por conseguinte, discutir e ponderar
abundantemente sobre o tema, e ele, todavia, seguir como um “nó cego” para o
alcance do que o Concílio Vaticano II indica para identidade presbiteral, e
que, atualmente, já requer outra e inusitada característica, a sinodal, do
presbítero, decorrente do Vaticano II. Já não convém que um seminário forme
presbíteros para uma casta sacerdotal corporativa, de poder superior sobre uma
comunidade, mas, terá que apontar para vida simples, humilde, serviçal, que
assimila o Espírito de Deus na interação com a comunidade.
Nesta vasta amplitude de possíveis itinerários,
entram as máscaras de papéis sociais, configuradas a certos momentos históricos
e identificadas com a função clara e, distintamente, delineada de um presbítero.
Tudo indica que a clássica imagem de autoridade moral e social do presbítero
tende a fragmentar-se perante sensibilidade comunitária que anela por
presbíteros, menos sacerdotais e executivos, e, mais agentes animadores da fé.
A
Exortação Apostólica Pastore Dabo Vobis, com grande acuidade, destacou há
trinta anos atrás, que a formação ao presbiterado e à vida religiosa é uma das
tarefas das mais delicadas e importantes para o futuro do Evangelização da
humanidade: “Certamente há uma fisionomia
essencial do sacerdote que não muda: o padre de amanhã, não menos do que o de
hoje, deverá assemelhar-se a Cristo” (PDV, 5), mas, no âmbito da sociedade,
revelam-se contradições e simultânea sede por justiça, por mais paz e por um
sentido mais situado na criação e no respeito pela natureza. Por outro lado, a
sociedade revela notáveis elementos problemáticos, pois, nela se manifesta “um racionalismo, que em nome de uma
concepção redutora da ‘ciência’ torna insensível a razão humana ao encontro com
a Revelação e com a transcendência divina” (PDV,7). Além desta
característica,
“Registra-se uma defesa exasperada da
subjetividade da pessoa, que tende a fechá-la no subjetivismo, incapaz de
relações humanas. Assim muitos, sobretudo entre os adolescentes e os jovens,
procuram compensar esta solidão com substitutos de vária natureza, através das
formas mais ou menos agudas de hedonismo e de fuga às responsabilidades;
prisioneiros do instante fugaz, procuram ‘consumir’ experiências individuais, as
mais fortes e gratificantes possíveis no plano das emoções e sensações
imediatas” (Idem, ibidem).
A
inquietação salientada nesta Exortação despertou muito empenho para formar
presbíteros e religiosos de boa qualidade. No entanto, o atual horizonte
sinodal já aponta para outra necessária e precípua característica na identidade
do presbítero e do religioso. Em março de 2024, o Papa Francisco indicou temas
para estudos preparatórios para a Segunda Assembleia Sinodal de outubro de
2024. O grupo incumbido de revisar a Ratio
Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, sob orientação do Cardeal Cobo,
destacou dois aportes importantes:
a) Um marco eclesiológico pastoral a
exigir conversões necessárias dos formandos para ampliar sua capacidade
relacional, de amor recíproco e corresponsabilidade na tarefa missionária,
junto com os fiéis no anúncio do Evangelho. Formação e serviço teriam que andar
em estreita sintonia com a comunidade, num estilo sinodal, para inserir-se no Sensus Fidei do Povo de Deus. O
documento sugere que a formação ocorra em pequenos grupos de seminaristas, a
fim de facilitar a orientação com a dimensão comunitária. Mulheres competentes
e corresponsáveis seriam fundamentais neste processo;
b) Para o processo de conversão se
tornar operativo, precisam os formandos estar ligados à vida cotidiana do Povo
de Deus, e, particularmente, movidos pela Eclesiologia do Povo de Deus, sinodal,
em vista de um relacionamento de comunhão. Em outras palavras: viver em
fraternidade e trabalhar de forma sinodal.
A indicação deste grupo de estudo é certamente mais do
que oportuna para evitar o aburguesamento fácil e elitizado de jovens
aspirantes ao presbiterado.
Ao
lado deste desafio, ocorre também um intrincado jogo das contingências, porque
a religião está atrelada a heranças culturais e se mescla com seus elementos,
de tal forma, que corre o risco de perder suas primigênias razões de ser, porquanto
a fé carece necessariamente da mediação cultural, e, para ser assimilável,
depende da força motriz da cultura, que, - por sua vez, - é dinâmica, seletiva,
inovadora e auto-transcendente. Como o processo cultural é seletivo - e segura
alguns elementos, enquanto relega outros, - a costumeira identidade
presbiteral, tende a perder seu lugar e sua relevância. Portanto, mais do que
confiar na tradição dos últimos séculos de formação presbiteral, convém voltar
às raízes do cristianismo, para dali haurir a identidade genuína na
configuração do convite feito por Jesus Cristo a homens e mulheres.
A reatância do vínculo
com a fonte, evita que se adotem hábitos do período mais medieval, já estranho
ao momento histórico contemporâneo. O que uma vez foi considerado fixo, rígido,
estável, perene e, excelente na visão estática de mundo, já não se ajusta ao
mundo cultural de transformações rápidas e profundas, que insinuam a olhar mais
para o futuro do que para o passado.
O
momento histórico atual permite considerar que a solução encontrada pelo
Concílio de Trento, para formar bons e santos padres, há mais de mil e
quinhentos anos atrás, parece não produzir a eficácia esperada nos dias
hodiernos, basicamente de vida urbana. Um seminário foi resposta adequada para
um mundo agrário do tempo medieval, e sua ótica formativa, na atualidade,
produz uma demanda que já não corresponde às urgências da evangelização hodierna.
Afinal,
que rosto de Jesus deve ser anunciado e testemunhado em nosso tempo?
1 – A Vocação presbiteral e religiosa
Firmou-se
um conceito clássico de que a vocação é um chamado direto de Deus, feito na
consciência de alguns indivíduos. Este privilégio, que inicia com um
pressuposto de deferência toda especial e seletiva um tanto estranha da parte
de Deus, eleva um menino a uma mágica ascensão para elevada condição social.
Estaria Deus mesmo fazendo tal seletividade? E, por que não chama mais gente? Se
a vocação depende de um chamado especial e exclusivo de Deus, estaria Nele a indisposição
de despertar mais obreiros para a messe? Tudo indica, que o problema se situa,
aqui entre nós, na instância vivida no interior das comunidades católicas.
O
discurso do privilégio da vocação sacerdotal apresenta algumas incongruências para
o discipulado cristão. Como se manifesta este convite de Deus? Uma honrosa
promoção direta, ou uma interpelação de um ambiente social e religioso, que
requer ação colaborativa, compassiva e animadora? Então, para que tanta
solenidade ufanista numa ordenação sacerdotal a fim de dar a entender a elevada
superioridade do sacramento da Ordem, sobre os demais sacramentos? Mesmo a
explícita adoração da personalidade, que faz um menino pobre ascender a um alto
status simbólico na Igreja, não desperta, todavia, interesses de muitos jovens
para a vida presbiteral.
É
provável que uma vocação cristã para o ministério presbiteral decorra mais precipuamente
da sensibilidade para colaborar, ante apelos de comunidades e do bom exemplo de
padres, e de outras lideranças dinâmicas, do que de uma interferência direta de
Deus. Jesus Cristo convidou, a todos e a todas, para o seguimento.
Permanece
a impressão de que ainda vigora a velha estratificação platônica, sugerida no
livro A República, quando Platão se
valeu do mito da composição das almas, para justificar a desigualdade social do
seu tempo: Deus teria formado algumas almas com ouro, outras com prata e, as
demais, com ferro, bronze ou latão. Nesta perspectiva, o padre, privilegiado
com alma de ouro, ´´e incumbido da função de governar, reger, pois, sua virtude
de sabedoria enxerga o bem, a verdade e a justiça. Cabe-lhe o dever de
administrar as almas de prata (soldados e defensores) e de latão (movidos pelos
apetites do baixo ventre). Neste caso, mais do que ser discípulo seguidor de Jesus
Cristo e anunciar, com testemunho, o Reino por Ele anunciado, importa o lugar
social e o status de quem é auferido pela graça especial de Deus e ainda conta
com privilegado acesso a todas as verdades divinas a serem repassadas à vida
dos demais cristãos comuns.
Parece
que a “bolha” e o “céu de papel” das narrativas sobre vocação e vida presbiteral,
não se coadunam com a vida real, vivida pelos possíveis candidatos ao
presbiterado. Reproduz-se o imaginário da harmonia das rezas do padre, com seus
sorrisos, amizades, altruísmos e ascética, sob a veste litúrgica colorida e
principesca, como a mais elevada sintonia com Deus. Existe muita teatralidade
e, nesta tarefa, tantos seminaristas e padres andam tão frágeis vícios,
induzidos a levar uma vida dupla, que, sob boas aparências não escondem sinais
de irrupção do vulcão interior. Basta ouvir a quantia de queixas relativas a
fadiga e a esgotamento psíquico-afetivo (Burn Out) com sobrecarga de atividades
e fatores depressivos.
O
seminarista, neste quadro tradicional de seminário, começa muito cedo, a sobrepôr
uma máscara à sua personalidade: tipo de vestimenta, gosto pelo vestuário
litúrgico e papéis ou representações, tais como as peculiares da teatralidade,
para ser visto e promovido. Uma ordenação sacerdotal vira, então, o clímax para
o seminarista aparecer como um ser totalmente acima da condição do comum dos pobres
mortais e ele acaba escondendo, com variados mecanismos, suas patologias mal
orientadas sob o papel de aparência.
As
narrativas das máscaras ou dos arquétipos estratificados há muitos séculos,
apresentam o padre como sujeito puro, piedoso, meticuloso, nos mínimos detalhes
do ritual, e, acima de tudo, um reverendo santo. Não pode revelar seus desejos,
nem falhas ou limitações. Precisa mostrar que é irrepreensível, mais do que as
beguinas da Idade média.
A
narrativa tão dilatada para despertar vocacionados, não combina com a escassez
de presbíteros. Os apelos aos supostos privilégios, não encobrem
suficientemente os desconfortos e os desencantos, pois, um padre está sujeito à
cobrança contínua: é criticado por parcelas ou grandes porções da comunidade,
tanto pelo que faz, quanto por aquilo que deixa de fazer. Esta crítica,
normalmente, não é direta e chega ao padre por vias indiretas de pessoas
fofoqueiras, e do “não dito” que se expressa nos olhares que censuram e
distanciam. Ademais, como ocupar função tão enaltecida, e ter que observar que,
cada vez mais, amigos e membros da comunidade se afastam e até rompem a amizade
com o padre?
Uma
simples afirmação sobre certas posturas políticas e religiosas, é o suficiente
para que o padre seja descartado, e visto como lixo que não interessa. Nesta
condição, ligada pela tênue corda da simpatia, qualquer pequeno descuido
implica em ser negligenciado. Tal risco força uma lisura e uma necessidade de
polidez nas interações, que fazem o padre ser vago e obrigado a falar
“abobrinhas” genéricas.
Assim,
o “céu de papel” já não sustenta nuvens animadoras para uma identidade
profética e entusiasmada, em vista do um reino novo. Revela-se que o imagético
produzido em torno do padre em tempos idos, o leva a vivenciar um dilema
crucial: viver o ideal absorvido como nobre e superior, ou descer ao “eu real”
da miséria, que o obriga a uma mendicância, até de afeto, para não sucumbir no
isolamento solitário.
Um
dos meios mais evidentes da compra de afeto, está no esperar elogios e
apreciações elogiosas, por atividade intensa, organizadora e de administração
eficiente.
Parece
também ser sintomático que tantos padres escolham carreira na área jurídica e
do direito canônico para levar uma vida menos exposta do que a de ser pároco.
Formados na estrutura tridentina, ser exímio canonista, parece que oferece um
pouco mais de status do que o ser pároco e se torna um dos pré-requisitos para
carreira, com elevadas chances de ser nomeado bispo.
Deste
modo, as narrativas metafísicas e fantasiosas do imagético sacerdotal, já
requerem e clamam por outras, - novas, - e inovadoras formas de vender “o
peixe” da vocação sacerdotal.
2 - A Referencialidade do quadro Presbiteral
Que perfil de presbítero, se encontra
em nosso país, como desencadeador do primeiro despertar para a vocação ao
presbitério?
Constatam-se,
na verdade, muitos perfis e muitos modelos nitidamente distintos, desde
tradicionais “ultra-conservadores” até os “hiper-imagéticos”, que aparecem nas
mídias. Ao lado deste pluralismo de multiplicidade referencial, certamente se
impõe o visual do que é veiculado na mídia, mais do que no “corpo-a-corpo” dos
testemunhos e da animação vocacional. Assim, grupos minoritários despertam mais
vocações do que outros, através de suas interações midiáticas, sugestivas e de
maior influência persuasiva. A visualização de celebrações solenes e imponentes,
sejam as de Roma, ou a das grandes catedrais e santuários, fornece um imagético
presbiteral muito distinto daquele que decorre dos presbíteros, simples, aprendizes,
discretos, dedicados e humildes em milhares de comunidades paroquiais.
Segundo
José Carlos Pereira, uma pesquisa com 1858 entrevistas, apresentou uma
amostragem de perfil, certamente interpelador para a formação de futuros presbíteros:
evidenciou-se a imagem do presbítero “gerenciador do sagrado”, que atua em
pastoral de manutenção, sem destacadas ousadias pastorais, sem muita gestão
participativa, já que conselhos são meramente consultivos; predominam, por
outro lado, as características das paróquias rurais de longa ancestralidade.
Quanto à suposta fraternidade presbiteral, a interação real dos presbíteros com
colegas e bispos, revela-se meramente convencional. Surpreende, também, que
ocorre pouca oração pessoal e pouca leitura. Muitos presbíteros manifestam
certa inquietação com depressão e suicídio e, muitos outros, também revelam
forte inclinação à identidade homo-afetiva.
Por
outro lado, ao contrário dos presbíteros de algumas décadas passadas, os
presbíteros do momento atual deixam transparecer reduzida atuação em políticas
públicas e pastorais sociais. Com modelos destas características, pode-se
pressupor que atraiam precipuamente vocações mais propensas para o imagético da
autorreferencialidade e do poder simbólico que subjaz nas vestes ostensivas e
solenes, mas, de uma referência superada pelo tempo. Neste aspecto, é oportuno
lembrar o filósofo e sociólogo francês, Pierre Bourdieu, por salientar que a
cultura tende a se reproduzir pela educação.
Quando
Bourdieu criticou a sociedade, salientou que nela se procede a dominação e a
desigualdade, através de uma forma simbólica sutil no processo formativo, com
vistas à manutenção da situação vigente, ou seja, reproduz-se um quadro social
estabelecido e, muito rigidamente hierarquizado.
A partir da concepção de
sociedade perfeita e de cristandade, criou-se um arcabouço da identidade do
presbítero, estratificado no “poder superior” e na autoridade sobre o âmbito
paroquial. Este “habitus” do mundo simbólico do presbítero, decorrente de longa
identidade, assimilada e visualizada, reforça a predisposição para reproduzir
exatamente a mesma identidade. Significa, por conseguinte, que o atual quadro
de presbíteros tenderá a reproduzir seu próprio perfil na educação de futuros
presbíteros. É muito difícil esperar que um pé de laranja venha a produzir uma
melancia.
O ceticismo perante
possível identidade presbiteral distinta daquela que se estratificou, corresponde
de certa forma, a esperar melancias de laranjeiras. No entanto, espera-se, que
a formação de futuros padres, mais do que preparar padres no horizonte de
séculos passados, prepare pessoas especialistas em diálogo com o mundo cultural
contemporâneo, como discípulos que se configuram progressivamente à
personalidade de Jesus Cristo, em razão da construção do seu reino anunciado.
Assim, mais do que príncipes ornamentais de autoridade moral e social,
requerem-se discípulos para lidas sinodais, longe dos fundamentalismos que
tendem a isolar e situar presbíteros numa realidade paralela.
Diante deste horizonte, uma
pergunta se evidencia: o atual quadro presbiteral é satisfatório aos grandes anelos e anseios de animação da vida das
comunidades católicas? Parece que o modelo vigente vem se revelando cada
dia mais ineficiente e ineficaz, além de insuficiente diante das reais
necessidades. Ainda mais, quando boa parte do clero tende ao
ultra-conservadorismo e ao refúgio num mundo simbólico de ascensão social e de
uma elevação do grau de exercício do poder. Poderiam, porventura, tais
concepções de presbíteros, preparar futuros padres para outro inusitado
contexto? Mesmo escondidos sob batinas e vestes suntuosas de um outro momento
histórico, encontram-se, sob estas vestes pomposas, muitos seres altamente
frágeis.
Notícias quase diárias
destacam situações preocupantes de abuso de poder e desvios no campo
afetivo-sexual, imagens de muito rubricismo e pouca mensagem cristã; muita
imagética e pouca transparência e testemunho do jeito de Jesus Cristo; muita
estética e pouquíssima ética; muita moral normativa, com mínima sensibilidade
de coração; muita afirmação categórica e pouca iluminação nova; muito sermão
inflamado e pouco testemunho; muita fala para agradar e pouco profetismo evangélico.
Este contexto produz uma identidade de padre realmente pouco simpática a jovens
adolescentes dos dias atuais. O já reduzido quadro de presbíteros, mais os escândalos
de problemas afetivos não reconhecidos, além de muitos casos concretos de
prepotência clerical, já não estimulam número considerável de jovens para alargar
o atual quadro presbiteral.
Seria a centralidade do
presbítero a do mero exercício de poder sobre uma área territorial da paróquia,
ou teria outra ação decorrente dos evangelhos? Volta a questão chave: por que presbíteros novos, e para que?
A cultura humana se
revela altamente seletiva: relega traços e conserva outros. Quando ela se
transforma e adquire novos traços, pode a imagética de muitos séculos
anteriores mostrar-se literalmente inócua frente a outro contexto cultural.
3 – Por nova identidade de futuros
presbíteros
O filósofo Immanuel Kant
salientou, na introdução do seu livro A
Pedagogia, que o humano é aquilo que a educação faz dele. Tal importância
remete ao empenho para que a formação se constitua num processo de especial e
profunda capacidade relacional.
Reportar-se ao mundo
cultural e religioso do tempo de Jesus Cristo, permite, observar, por outro
lado, que Ele não convidou membros da elite pensante, nem mentes brilhantes de
inteligência para dar início e andamento na construção do Reino (outro modo de
se de viver). Dirigiu-se a pessoas frágeis, limitadas, que mesclavam dons e
qualidades, com muitas limitações e incoerências. Ao levar em conta tal
anterioridade, apostou em processo de formação para um perfil de personalidade
servidora e missionária.
Ainda que alguns sonhassem com a estratificada
categoria de honras e poderes, Ele os despertou para um modus vivendi: simples, serviçal, distante da acomodação, com o
mínimo, e, sem o comodismo do status de honra e de poderosa ascendência. A
identidade peculiar que lhes apontou, foi a de serviço a Deus e às pessoas, que,
no dizer do Papa Francisco, teria que absorver o cheiro das ovelhas. A Exortação Apostólica Pastore Dabo Vobis já
salientava que:
“O presbítero, de fato, em virtude da consagração que recebe pelo
sacramento da Ordem, é enviado pelo Pai, através de Jesus Cristo, ao qual como
Cabeça e Pastor do seu povo é configurado de modo especial para viver e atuar,
na força do Espírito Santo, a serviço da Igreja para a salvação do mundo”
(PDV, 12).
Trata-se de perspectiva
relacional, como marco da identidade do presbítero, pois, sacramentalmente
inserido ao bispo e aos demais presbíteros, serve o Povo de Deus e a Igreja,
para atraí-la a Cristo.
Mais do que minudências
rituais e rubricismos ornamentais em celebrações, Jesus convocou seus
seguidores ao despojamento para agir numa vinculação sinodal. Mandou-os para
todos os lados, não para ensinar doutrinas e normas, mas, convocou homens e
mulheres para o entendimento no encontro com diversas culturas: acolher e
deixar-se acolher; aprender e partilhar; aculturar-se e inculturar-se.
Para tal interação,
tornava-se importante a empatia, o equilíbrio emocional, a capacidade de boa
relação interpessoal, o diálogo com o mundo diferente, e, para tal tarefa
missionária de grandeza humanitária, fazia-se necessária uma espiritualidade
profunda e autêntica, cultivo da oração e capacidade de discernir a presença de
Deus naqueles mundos sofridos e espoliados. Dir-se-ia, hoje, como o Papa
Francisco: uma Igreja em saída, convocada
a sair do conforto para dialogar com as periferias existenciais.
Florescia assim, no meio
de grandes limitações humanas e pessoais, uma crescente capacidade de compaixão
e de sincera preocupação com as carências e necessidades alheias. Tal
generosidade despertava ambientes de cordialidade e de ação solidária em favor
dos mais frágeis e desprotegidos.
O Papa
Leão XIV, na Carta Encíclica Magnífica
Humanitas, destaca que existe igual dignidade de todos os seres humanos e
que “o mais do que humano do cristianismo cristão” deve agir beneficamente na
atual era digital, porque a Igreja deve caminhar na história da humanidade e é
convocada a escutar, a dialogar, e deixar-se interpelar por tudo quanto diz
respeito à existência de homens e mulheres do nosso tempo (Nº 19).
Tal
desafio requer responsabilidade frente ao modo como se tecem as relações
humanas nos dias atuais. Este chamamento para caminhar com a humanidade na
concretude da sua história, deve levar à participação dos percursos, nos quais
a sociedade se organiza (Nº 19).
3.1 – O que se espera de candidatos
ao presbitério e vida religiosa
O
sonho de pairar acima dos demais batizados é desejo real de boa parcela dos
candidatos ao presbiterado. Para muitos deles, afinal, poder sair de uma
situação modesta, sem grandes alternativas no status simbólico da cultura de
conquistas e posses, a vida presbiteral emerge como meio de fácil ascensão
social, e, como caminho ainda mais fácil do que o enfrentado pela maioria dos
jovens.
A
Exortação Apostólica Pastore Dabo Vobis, já delineava, na década de 1990 a
espécie de ateísmo prático e existencial de uma visão secularista da vida e do
destino humano, onde cada pessoa tende a se considerar o centro de todo
interesse, “e ousa dizer-se o princípio e a razão de toda a realidade” (PDV,
7). Disso, “decorre desagregação da
realidade familiar e o obscurecimento, ou a falsificação do verdadeiro sentido
da sexualidade humana” fenômenos que incidem negativamente sobre os jovens
e sua disponibilidade para a vocação religiosa e presbiteral (Idem, ibidem).
O
imagético da indumentária litúrgica e a exibição (ou a “pavonice”) das vestes
suntuosas, apresentam-se como sedutoras para meninos sonhadores. Aponta para a bolha,
muito acima das contingências e fragilidades humanas e se vislumbra como
itinerário para seguranças seguras e confortáveis, apesar da indiferença e da
irrelevância que tal condição representa na sociedade secularizada.
3.2 – O risco de sacralização para o
clericalismo
A
facilidade característica do devocionalismo autorreferencial, própria do
clericalismo, apresenta-se como persuasão sugestiva para um perfil de
presbítero que exerce um poder categórico, absoluto e hegemônico na comunidade
paroquial. Não cabe, neste horizonte a perspectiva profética, sinodal e
colaborativa. É mais fácil saber e ditar o que se pode e não se pode fazer, e
que, numa perspectiva carreirista, leva a ascender na graduação hierárquica e rígida.
Immanuel
Kant, há muitos anos, levantou uma pergunta indiscreta atinente a este traço
autoritário: Quando um padre, pastor ou alguém em função religiosa fala muito
do que Deus quer e manda fazer, é mesmo Deus que quer isso, ou é vontade do
reverendo mandante, querendo ampliar e elevar seu poder pessoal?
Será
fundamental que candidatos ao presbitério, aprendam, desde muito cedo, a
trabalhar com outros, sem assumir a última palavra e a direção das decisões.
Terão que aprender, igualmente, a conviver no pluralismo religioso e, caminhar,
como os jovens de Emaús, ao lado de quem pensa diferente, para lhes ajudar a
clarear as razões da sua fé. O rosto de padre, a ser progressivamente
delineado, deve ser o de pessoa frágil como as demais, mas que,
simultaneamente, se torna fermento não oriundo da máscara assumida de outro
tempo histórico.
O ser
humano depende de ritos e precisa de simbologias para expressar os valores
cristãos. No entanto, não são eficazes os rubricismos, - detalhistas e
autorreferenciais, - que levam ao exercício de ritos executados com extrema
frieza mecânica, mas, sob meticulosa execução. Este é traço típico da
teatralidade, onde o simulacro do ator principal imita perfeitamente o imitado.
É também uma ação típica do exercício da magia: a perfeição da minudência do
ato, produz o efeito mágico.
Como
Ernst Kassirer salientava no seu livro Antropologia Filosófica, se algo
caracteriza os humanos como distintos dos demais seres vivos no planeta, é o da
capacidade de expressar outras realidades através de símbolos. O ser humano é um
animal simbólico. Por isso, a queda ao rubricismo, é tendência que mata a
dimensão simbólica e se delimita ao campo da teatralidade e da magia. Pode ser comovente,
mas, não passa de ritualismo vazio, que não atrai gerações emergentes. Provavelmente,
tal teatralidade se lhes afigura como algo interessante e valioso. Perde-se,
assim, a dimensão simbólica da liturgia poder remeter ao evento salvador de
Jesus Cristo. Quando a liturgia, estreitamente atrelada a rubricas, se delimita
ao perfeccionismo dos modos de atuar, de portar-se, de pregar e de se vestir,
sobra somente bela teatralidade.
Requer-se
que a formação presbiteral desvie toda a larga e conhecida rota para ascensão
carreirista e de elevação hierárquica na sociedade, que estimula a criação de
“funcionários do sagrado” e que resvalam em devocionismo, que, ao invés de se
aproximar da configuração do jeito de Jesus Cristo, leva- indivíduos a bolhas
idealizadas, artificiais, com muita disciplina, rigidez e piedades, mas, onde a
alienação da vida real, inibe a capacidade empática com as pessoas sofridas.
Como a
maioria dos candidatos ao presbitério e à vida religiosa procede de ambientes
pobres, o seminário tradicional tornou-se um atalho de rápida e fácil ascensão
para a classe média, tanto para vida presbiteral quanto para alcançar empregos
de renda mais elevada.
Enquanto
jovens desejam a vida presbiteral e religiosa, tornam-se, facilmente, piedosos “consumidores
do sagrado” que os distancia de suas origens e os leva a relegar os traços
marcantes da sua personalidade do ambiente de onde vieram. Ao verem o horizonte
“empoderado” do presbitério, tornam-se exigentes: querem paróquia, boa de
condições econômicas, com carro do ano, com casa confortável para morar e, com amplitude
de espaço para mandar e desmandar, segundo seus critérios pessoais.
Segundo
Rafael Luciani,
“A Igreja hoje não precisa de administradores do sagrado,
mas, de pastores servos que caminham com os fiéis, escutem o Espírito que fala
por meio deles e compreendam seu ministério como um serviço de comunhão no meio
do mundo, especialmente em solidariedade com os mais excluídos”
Tampouco
podem os seminários prestar-se para uma formação pré-conciliar ao Vaticano II, -
sob o modelo tridentino que sacralizou e sacerdotalizou o presbítero, - ignorar
que, segundo o documento conciliar Presbyterorum
Ordinis, eles são configurados como ministros, pelo sacramento da ordem,
com a tarefa precípua de proclamar o Evangelho, celebrar sacramentos e governar
pastoralmente. No dizer de Rafael Luciano: “Sacerdócio,
mais do que casta sacerdotal autônoma e autorreferencial, não pode ficar à
parte da comunidade”, pois, necessita estar em estreita comunhão com os
fiéis.
O
referido documento conciliar também salienta nº 6, que, “de pouco servirão as cerimônias, embora belas, bem como as associações,
embora florescentes, se não se ordenam a educar os homens a conseguir a
maturidade cristã”.
Em
suma, a formação de padres novos, requer um ambiente comunitário e uma
combinação de estudo rigoroso, mas, em vista do enriquecimento da fé,
vivenciada numa comunidade: caminho humilde, serviçal, altruísta, como o de
Maria, mãe de Jesus.
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