SINOPSE
Muitas pessoas orientam sua vida pelo seu
cotidiano, ao lado de outras que se orientam pelo pensamento. Nesta disputa,
nem sempre silenciosa, precisa acontecer uma nova síntese: nem demais para o
céu e nem demais para a terra; não só o cotidiano e também não só o pensamento.
O
excesso do pensamento não só anula o cotidiano, mas, também ameaça com a
disparada tecnológica o próprio lugar do pensamento, porquanto se volta contra
a sensatez do desvelo e cuidado do que a natureza levou tantos milhões de anos
para oferecer à condição humana.
Não se
poderia ser mais feliz, sob menos impacto ambiental, menos asfalto, menos lixo
e poluentes e os seres humanos se deslocarem entre muitas flores, arbustos e
árvores de toda espécie, com mais saúde e qualidade de vida?
ÍNDICE
Apresentação...
1 – O trem no eldorado da agro-indústria...
2 – As fronteiras entre as montanhas de carne...
3 – Depois das recepções iniciais...
4 – A rua como lugar da patologia social...
5 – Cordialidade e etiqueta...
6 – Singular e plural...
7 – Intimidade e promiscuidade...
8 – Descanso e lazer...
9 – Uma constância na racionalidade...
10 – A perspectiva de uma humanidade simbiótica...
11 – Afinal, náufragos ou astronautas? ...
Epílogo...
APRESENTAÇÃO
A consideração dos grandes avanços
da história leva a perceber que, certamente todos eles ocorreram nas trilhas do
pensamento, isto é, os projetos, os planos, os sonhos e as utopias, mobilizaram
inumeráveis inventos, avanços tecnológicos e superações fantásticas, movidas
pela acuidade do pensamento humano.
Ao lado deste
processo, incontáveis pessoas viveram, com níveis de vida possivelmente
satisfatórios e bons, porém, não movidas pelo pensamento, mas, por mundos
cotidianos, a partir de hábitos, de praxes e de crenças locais ou regionais.
Para esta gente, que envolve parte razoável da humanidade, a vida prática, com
certeza, falou mais alto do que o pensamento e, seu mundo de referências cotidianas,
teve primazia sobre o pensamento, pois, se constituiu num referencial mais
seguro a respeito do que foi considerado bom, certo, e merecedor de esperanças.
De alguns anos para
cá, a observação fenomenológica dos fatos sociais aponta indícios razoáveis
para o diagnóstico de uma tensão e, complicada polarização na relação destes
dois âmbitos: se para parte considerável dos humanos, o pensamento ainda goza
de uma hegemonia diante os propósitos de organização da vida, da cidade, do
progresso das indústrias, da organização da vida urbana e rural, bem como da
estética humana, evidencia-se, por outro lado, cada vez mais, o efeito dos
costumes, das rotinas e das situações cotidianas.
Em qualquer cidade podemos observar, rapidamente, tanto no
visual de pessoas quanto no aparato das casas e das ruas, as manifestações de resistência
ao pensamento e ao que é tido como avanço da razão e da modernidade.
Esta contraposição entre o cotidiano e o pensamento, faz com
que os dirigentes, líderes, e os organizadores de movimentos sociais, ou de
professores em salas de aula, de pais na tarefa educadora de seus filhos, ou de
responsáveis por outros âmbitos da vida social, sintam reais dificuldades para
estabelecer razoável equilíbrio diante das polarizações criadas pela vida
simples e prática, não vinculada ao pensamento.
Basta ouvir o
costumeiro “Sim, Senhor (a) ”, mas que, efetivamente, acaba sendo um “Não”. Do
mesmo modo, escutam-se seguidamente afirmações incongruentes em torno de outras
propostas, tais como: “logo vou aí”, “depois passo lá”, “daqui a alguns dias
vou pagar a conta”, “vou convidá-lo para um jantar”, “vou fazer isto e mais
aquilo”. O que efetivamente se constata é que a palavra se revela literalmente frágil
em termos garantia de credibilidade.
A falta de seriedade no
que se diz e no que se promete, mostra que o pensamento tende a encobrir mais e
a revelar menos. Fica a impressão de que se está diante de uma nova doença
social: todos prometem tudo e qualquer coisa, mas, poucas pessoas honram e
levam a sério as palavras que emitiram.
Aparentemente, já passou a lealdade à palavra dita, que
comprometia a honra de alguém, ou algum fio de bigode ou de sobrancelha. Mais
do que isto, evidencia-se um claro desinteresse sintomático e resistente por
tudo quanto exige raciocínio, sistematização, fidelidade, estudo, regularidade
e horário.
O filósofo
Finkielkraut, escreveu num de seus livros,
Sob alguns aspectos,
isto parece muito evidente. No entanto, certos fatos sociais, indicam o caminho
inverso, isto é, quem não se submete aos parâmetros do pensamento, perde
espaço, perde emprego e a possibilidade de avanço nos patamares de status da
aceitação social. Também perde a possibilidade de poder sonhar com níveis mais
elevados e bem cotados no campo dos valores simbólicos da cultura.
Sob esta perspectiva, os que não participam dos avanços
sociais e culturais da prosperidade exitosa da agroindústria e de outras
inovações industriais e tecnológicas, estão fadados a ficar esquecidos e
relegados, não só da história e da vida social, mas também do protagonismo da
grande eclosão de mudanças e transformações que vêm ocorrendo, seja no aparato
das lojas e dos prédios, seja na apresentação do visual urbano, ou da nova
forma de entendimento da agricultura, da indústria e da agro-pecuária.
No que segue, procurou-se,
numa perspectiva um tanto eutrapélica, comentar facetas que evidenciam esta
crise estabelecida entre o cotidiano e pensamento. Trata-se de uma abordagem
com a modesta pretensão de ensaio, isto é, uma partilha de aspectos que interpelam
diante do panorama antropológico, e, com o intuito de provocar reações de
raciocínio, pois, quem sabe, possam despertar intuições para modos de
convivência menos conflitantes.
O segundo intento deste rápido escorço, é o de despertar
análises críticas e que, ao mesmo tempo, possam somar forças para que mais
pessoas se envolvam num efetivo avanço da necessária capacidade de entendimento
do ambiente cultural.
Deste entendimento,
com certeza, poderá ser vislumbrado algum processo mais rápido e eficaz de
síntese. Tal processo, certamente, será encontrado com clara e pretendida busca
consciente. Esta síntese não se viabilizará só com o cotidiano e nem somente
com o pensamento.
Se ainda está distante
a harmonia racial e cultural, - apregoada há muitas décadas como um dos grandes
mitos brasileiros, e que fornece a ilusória atribuição de que aqui este
ajustamento harmonioso já aconteceu como fenômeno único da história deste
planeta, - convém não ignorar a percepção de outra desarmonia, ainda mais
gritante, da qual pouco se fala: a crescente diferenciação social por
procedências regionais. Esta classificação desperta um verdadeiro vulcão de
feridas emocionais e se constitui, por isso mesmo, num “barril de pólvora”
capaz de detonar a qualquer momento. Portanto, não deixará nem ricos e nem
pobres dormir no “berço esplêndido”, devido a inseguranças e instabilidades
sociais que gera.
Convêm, por conseguinte, que, pelo menos o empenho leal ajude
na importante aproximação da escandalosa má distribuição dos bens culturais,
econômicos, políticos e religiosos.
No meio das
contradições é possível, contudo, dar importantes e significativos passos que
venham a propiciar maior qualidade de vida nesta “terra varonil”, tão rica e
agraciada pelas condições da natureza e pela história dos pioneiros que
acumularam e engendraram valiosas experiências humanas.
I
O TREM NO
ELDORADO DA AGROINDÚSTRIA
Ainda que
algumas comparações com outros países avançados apontem para a viabilidade de
trem e de ferrovia cruzando o “Eldorado da Agroindústria”, o trem, para além da
sua utilidade para o transporte da produção, também se presta para expressar um
quadro do senso comum e da gíria, não apenas no sentido mineiro, mas, também
como analogia de uma noção antropológica da vida da região do centro-oeste
brasileiro.
Muitas
reportagens televisivas passaram a outras regiões do País a ideia de que aqui
está sendo desvelado um grande paraíso da prosperidade econômica e social.
Basta lembrar a publicidade em torno da atratividade local para investimentos.
Tal estímulo despertado, sobretudo, a partir do incremento da
agroindústria, vem sendo pintado com multicoloridas propagandas, com imagens
altamente sugestivas e como o que de melhor existe para os parâmetros
neo-liberais de obtenção do máximo com mínimo de custo.
Porventura não
está sendo este o sonho avivado em tantas pessoas que aqui vêm buscar a sorte
ou estabelecer um empreendimento com vistas a obter muitos e abundantes lucros?
Muito
antigamente, quando a cultura grega clássica despencava do seu auge de
universalização, devido à gritante desigualdade social que se estabelecera na
cidade, os escravos e as classes inferiores passaram a não mais aceitar a
discriminação ante os privilégios de algumas categorias abastadas. Ameaçados de
perda dos estratosféricos privilégios, pensadores começaram a inquietar-se. O
tradicional esquema dos “rapsodos”, poetas cantadores que faziam os escravos e
agricultores dos tempos gregos antigos sonhar com a vida abastada da
aristocracia palaciana e continuar trabalhando no serviço escravo das lavouras,
passou a não ser mais aceito pelas classes populares da época. Entretanto, um
daqueles pensadores, Platão, achou uma solução fantástica para justificar que o
êxito e o sucesso da cidade, o grande mito da época, exigia necessariamente a
diferenciação das classes sociais. O bem-estar dependeria precipuamente desta
diferenciação.
Platão chegou a uma
conclusão ainda mais fantástica quando procurou justificar o “por que” da
diferença das condições sociais. Tudo isso seria uma questão nada humana. Deus
é que seria a causa da distinção social e, sendo Ele o protagonista desta
diferenciação, caberia ao ser humano, tão somente a condição de descobrir e
aceitar o lugar social que Deus lhe estabelecera.
Elemento básico e primordial da história de cada ser humano seria
o de certificar-se do componente da sua alma: se foi feita com utilização de
ouro, ou de prata ou, de um produto mais comum, o latão.
Nascia dali a
fundamentação para a paidéia (educação) e o papel para tal atividade humana: a
de fazer cada aluno (a), no processo escolar, descobrir o material que Deus
usou para fabricá-lo (a), a fim de leva-lo (a) a conformar-se com a condição
social correspondente: se a alma fosse de ouro, deveria aspirar o governo; se
fosse de prata, o exército ou algum serviço público que exige subserviência e,
caso fosse de latão, conformar-se em ser serviçal na agricultura ou na condição
escrava.
Mais do que
justificar a diferenciação social para levar as pessoas ao conformismo e à
conclusão de que a diferenciação era fundamental para o bem-estar da cidade,
Platão conseguiu o milagre de convencer as pessoas a aceitar que a justificação
da desigualdade fosse vista como elemento positivo, pensado por Deus, para a
felicidade social humana. A malandragem de Platão, para assegurar-se no posto
privilegiado do poder, foi tão primorosa e favorável para a sustentação de
elites aristocráticas, que até hoje ninguém conseguiu substituí-la na história
ocidental.
No prisma
platônico, a escola e os professores receberam a função de acrisolamento, ou
seja, a de constituir-se numa espécie de fogo que testa o metal, para saber se
é de ouro, de prata ou de latão. Neste processo de depuração, os professores
teriam a incumbência de extrair dos alunos suas virtualidades, ainda latentes para
o futuro da sua vida.
Com mentirinha tão bem
justificada, certamente, não foi difícil implantar um processo diametralmente
inverso, o de incutir na maioria da população a clássica forma de resignação e de
conformismo às estratificações sociais inferiores.
Esta história antiga, como tantas similares e parecidas, - que ainda se perpetuam dias atuais, - leva o
mundo pobre e insatisfeito a sonhos delirantes com os versos, já não mais de
rapsôdos helênicos, mas, dos cantadores sertanejos e populares que enaltecem a
riqueza fácil, ilícita, os amores das noites sem fim, não só dos cantores
sertanejos e caipiras, mas, sobretudo, os dos discursos políticos, para uma
bonita viagem de trem a um lugar de fantasia: o da vida de aparências decadentes
de uma aristocracia que acumulou fortunas. Ela ainda se mostra capaz de pagar
milhões em salários mensais para os que decoram as fantasias e as apresentam de
forma agradável com vistas à distração das multidões pobres.
No “trem” desta viagem ao eldorado, embarcam pessoas de todos
os tipos e jeitos, mesmo apertados e mal ajeitados entre muitos outros que nele
entraram com os mesmos sonhos de prosperidade: desempregados se acotovelam para
encontrar emprego; fracassados em negócios, andam com a cabeça aureolada de
sonhos para novos empreendimentos; andarilhos se apertam ansiosos para
encontrar dinheiro e comida; bem sucedidos em comércio ou produção industrial,
ostentam um nariz altaneiro, movidos pela confiança de encontrar mais campo
para as potencialidades de lucro; finalmente, os que já estavam sem ambições
econômicas, querem também encontrar um clima agradável, que lhes propicie saúde
e os eleve com a exuberância das riquezas naturais da flora, da fauna, da
fartura de alimentos e das boas condições de saúde, lazer e segurança básica.
O “trem”, no entanto, mesmo que as placas indiquem e apontem
para um ponto final muito feliz e de grandes surpresas de êxito, obriga,
contudo, - a cada estação que encontra pela frente, - que muitos destes
viajantes desçam do “trem”. Alguns ainda se agarram ao trem no desejo de
avançar rumo ao eldorado prometido, mas, ainda cegos ou ofuscados diante dos
reais e altos riscos da favelização, não querem mergulhar em condições
sub-humanas de vida: pouca alimentação, pouquíssima segurança, saúde precária,
higiene básica deficiente, educação escolar inadequada e, com muito risco de
morte precoce.
No processo de evasão forçada no interior do “trem”, são
obrigados a descer primeiro os analfabetos, depois os desempregados, adiante,
os doentes, mais adiante, os que não possuem plano de saúde e reservas de dinheiro,
os idosos, os que não são astutos, os que se movem por sentimentos altruístas e
humanitários e os que sonham com uma vida mais justa e solidária; também os que
se compadecem dos pequenos, dos fracos, dos doentes e dos deficientes, são
obrigados a descer; o mesmo ocorre com os que não aprenderam o malabarismo das
argumentações para ludibriar e convencer outros a qualquer preço.
Por fim, o trem chega ao almejado ponto final: a maioria dos
vagões já está vazia. Ficou o cheiro desconfortável dos resíduos de frituras,
dos banheiros que perderam o perfume dos desinfetantes, o lixo jogado pelo chão
e um pequeno número de cidadãos ambiciosos, ainda que cansados, mas, ainda
vigorosos na capacidade de alimentar os sonhos e o olhar perspicaz que,
finalmente, poderá saciar-lhes o insondável desejo de acumular e desfrutar das
vantagens desta conquista.
Laconicamente, a viagem do “trem” fez muita gente sonhar, mas,
impôs uma lei categórica que obrigou a maioria dos passageiros a ficar ao longo
do caminho. A ironia da audácia dos sonhos alimentados devolve-lhes a
argumentação persuasiva de que, na verdade, não passam de fracos e que jamais
deveriam ter-se atrevido a ir ao encontro do dito eldorado da agroindústria.
Este lugar, afinal, está reservado para algumas “almas de
ouro”, beneficiadas por atributos especiais das instâncias superiores dos céus,
uma vez que foram dotados pela matéria genuína e preciosa que não cabe ao comum
dos mortais. Predestinados desde a concepção e ajudados pela educação a
descobrir sua superioridade diante da grandeza dos céus, devem, por isto mesmo,
manter-se distantes e insensíveis às mazelas das almas menos dotadas.
Os agraciados com a primazia dos bens precisam manter-se
ricos, poderosos e afamados. Além de usar todos os meios públicos e possíveis
com vistas a facilitar seu próprio patamar social, precisam criar mitos em
torno do que gostam, do que fazem e do que investem no seu mundo de
privilégios, a fim de que os pobres possam sonhar muito e desejar ardentemente
tal regalia.
Afinal, para uma imagem menos hegemônica, Deus teria feito
outros seres menos dotados e menos exigentes, uma vez que os engendrou com
“alma de prata”. Estes, sim, ainda dispõem de um vasto campo para orgulhar-se,
pois, mesmo com serviços de subserviência, ainda fruem do degrau um pouco menos
saliente, mas suficientemente elevado das funções de poderem ser militares,
secretários, administradores, guardas, executivos e policiais ostensivos.
Para aquela outra categoria inferior, como o próprio Deus já
teria se valido de um material ainda mais comum, o “latão”, estas almas
precisam realmente baixar a cabeça por serem de constituição altamente
corrosiva, e não deveriam jamais atrever-se a querer ser mais do que latão.
Afinal, pela ótica platônica Deus fez esta categoria para as condições
inferiores, para os serviços ignóbeis e indignos. O melhor que podem esperar é
servir as almas constituídas por ouro e prata. Entretanto, na função desta
escória, presume-se estar algo importante, pensado por Deus para os nobres,
pois seu trabalho, ainda que árduo, sofrido e mal remunerado, provoca o
engrandecimento das almas de ouro.
Para os que vieram ao eldorado com a pacífica aceitação da
diferenciação social e com a auto-imagem de alma superior, há muitos motivos
para festas, porquanto estas podem encher de saliva a boca das almas inferiores
e podem fazê-las sonhar que até elas poderiam vir a constituir-se em almas de
ouro.
Como privilegiadas, as almas de ouro, além de ostentar o
poder, precisam de muitas festas, especialmente, daquelas em que se adora e se
enaltece seu nome, suas obras, seus múltiplos e nobres feitos em favor do bem
comum e a etiqueta das vestimentas, porquanto tais rituais de engrandecimento,
além de provocar uma coceira no “ego”, lhes devolvem a consciência da superioridade
da sua alma e lhes permite devolver às instâncias superiores os benditos pelos
incontáveis privilégios e favores com que foram agraciados, até sem
merecimentos e, por mera e gratuita bondade divina...
Afinal, muito acima daquelas almas inferiores, está a dádiva
da sua ostensiva opulência, vista como dom gratuito que Deus lhes concedeu,
ainda que mediado pela dor, pelas lágrimas e pelo sangue de muitíssimas outras
almas inferiores.
Os privilegiados da “alma de ouro” conseguem morar nos
melhores lugares da cidade. Jornais e revistas privilegiam seu bom-gosto, seu
requinte, sua beleza, seus gostos exóticos, as excentricidades de sua
subjetividade e as coisas íntimas da sua cultura superior, mas, que não passa
de um formalismo de etiquetas vazias de uma aristocracia podre.
A importância que estes presumidos seres superiores se
auto-atribuem, está em copiar o que vem de fora e dos grandes centros de países
ricos. Isto, além de lhes propiciar uma dupla personalidade, os torna
extremamente frágeis no campo afetivo, uma vez que se movem por imagens
estereotipadas de imitação que os aliena da vida local e regional.
Suas festas e rituais não conseguem exaurir suficientemente
seus recursos, nem deslindar sua inesgotável fantasia. Nesta falta de
fronteiras, os rituais das etiquetas os tornam sisudos, porque são obrigados a
se mover por elogios de promoção e engrandecimento do nome.
Insensíveis aos que expoliam, cegos ante a dor da miséria
alheia, surdos ante o clamor dos pobres, dos doentes, dos aflitos e dos famintos,
não podem deixar de regalar suas noites com festas e orgias, porque ainda não
se deram conta de que sua “alma de ouro” é fictícia e que cada dia mais se
desmancha diante dos pés descalços dos bandos de pobres que invadem seus
espaços de egolatria, de auto-adoração e, mais do que isto, que ameaçam sujar
seus tapetes aveludados com o sangue da estupidez humana.
Mesmo na condição favorável das alturas, as almas de ouro,
com suas montanhas de amidos, gorduras, proteínas e carbo-hidratos armazenados,
não vêem necessidade de partilha com as outras almas inferiores, porque estas,
afinal, foram feitas inferiores, precisamente para que eles, os pupilos de um
deus imaginário, pudessem ser agraciados com alma de ouro, capaz de prestar-se
como fonte de sonhos para as almas inferiores.
Aparentemente, com
todos os privilégios dos altos céus, as ditas “almas de ouro” ainda não querem
enxergar que estão submetidas a uma condição altamente infeliz. Balançam
segundo a intensidade dos ventos e não encontram firmeza para transcender sua
própria miséria humana. Se pelo menos conseguissem captar uma imagem mais
humana de um ser superior, talvez, encontrariam razões de esperança para
vislumbrar um caminho mais humanitário...
II
AS
FRONTEIRAS ENTRE AS MONTANHAS DE CARNE
Se o cotidiano desta
rica região do centro-oeste brasileiro vem sendo afetado por uma espantosa
produção de carnes e grãos, ele não é apenas afetado por um neutro e pacífico
avanço do pensamento. O aumento da produção altera substancialmente as
fronteiras das relações sociais porque obriga a trabalhar segundo padrões novos
e a estabelecer vínculos que fogem do quadro de formação e socialização local.
Enquanto o cotidiano de muitíssima gente
revela uma contradição dos valores locais e um sentimento alienado de
inferioridade das coisas típicas desta região e do Brasil, os nomes dados às
crianças que nascem, são um primeiro sinal a revelar este estranho anacronismo:
aparece praticamente só nome americano e com ênfase no “W”. Chega a ser
considerado grave erro de fala, alguém dizer, por exemplo, Vésley porque tem
que ser “Uésley”. Assim, até ao
conhecido nome Petrobrás já foi sugerido adaptação para Petrobrax.
As
lojas e os bares, para se tornarem chamativos, recorrem a painéis vistosos com
nomes ingleses. Qualquer família que se preza, precisa ter seus filhos fazendo
cursinho de inglês, mesmo que se revelem uma nulidade na língua desta “terra
varonil”. Onde fica o brio pelas coisas locais e que deram sentido e coesão
social no passado?
Junto com a entrada massiva do pensamento,
entra, nesta região, um processo que vai diluindo as fronteiras e as
competências dos organizadores de grupos humanos. O retraimento ante o novo
modo de vida que se manifesta, afeta, particularmente, a capacidade de
iniciativas organizacionais.
Já houve um
tempo em que se destacava em excesso o papel do líder. Especialmente a
Psicologia Social norte-americana de algumas décadas atrás, explorou exaustivamente
a importância do líder num grupo humano e na sociedade. Isto foi se diluindo aqui
na América Latina, a tal ponto que praticamente todos foram “educados” sobre a
fundamental importância de estarem submetidos a um líder para qualquer tipo de
organização da vida: na religião, na política e até no populismo que manipulava
as classes populares, todos precisariam estar sujeitos a um grande líder.
Veio, depois, uma fase em que se contestou a excelência do
líder, porque tal enaltecimento dos dotes inatos de algumas raras pessoas, poderia
representar uma forma de levar as demais pessoas à resignação e ao conformismo.
A lenta democratização, depois da desastrada ditadura
militar-corporativista-agro-pecuária brasileira da década de 60 e 70,
despertava os anseios de participação e democracia. Afinal, já não se aceitava
que um líder pudesse ser nato e que toda uma comunidade tivesse que sentir-se
amparada e manipulada pelos dotes desta pessoa especial. Tampouco, se aceitaria
que certo fulano, tido como líder, merecesse a partir desta atribuição, alguma
confiança ou melhores créditos.
Na sustentação da
importância do líder se escondia outra importante noção: a de que a massa
humana é irracional e incontrolável. O único jeito de mantê-la dentro de certos
parâmetros de controle, seria o de enquadrá-la sob certos quadros de
manipulação e submetê-la a um líder carismático.
Daí porque se fazia
treinamento para líderes a fim de que o carisma nunca pudesse fugir de certas
regras de controle. Veiculava-se, então, a noção de que a grande massa humana
não teria capacidade coordenadora e que, uma massa humana não controlada por
algum líder, representaria uma grave ameaça de convulsões sociais e de
insubordinação aos planos imperialistas norte-americanos.
Em consequência disto, vinha o desvelo de uma particular
preocupação em torno das instabilidades político-sociais da América Latina,
onde nem mesmo as ditaduras militares conseguiam estabelecer ordem segundo as
almejadas instâncias de controle.
Indiretamente, a
sustentação também enaltecia o papel de uma elite governante, sobretudo, se são
levados em conta o peso da procedência étnica e do nome da família para o
exercício de papéis de governo. Ainda hoje, podemos ouvir representantes dos
altos escalões de governo insistindo na tecla da falta de um líder.
O ato de insistir na
importância do líder, equivale, por outro lado, a uma sutil afirmação de que a
democracia não é viável. Alguns privilegiados devem fazer as coisas pelos
outros. Ademais, como seria um governo onde todos pudessem mandar?
Na dimensão
cultural, o paradigma pós-moderno é também uma bela ilustração do quanto
atualmente se deseja que não apareçam nem líderes e nem estruturas capazes de
coibir os mais variados sentimentos humanos. Nesta aparente diluição das
fronteiras de tudo quanto é imaginável, há, contudo, um contorno previsto e
calculado para melhor contê-los numa fronteira quase imperceptível ao senso
comum. Se os discursos enaltecem a vida fácil, solta, consumista, da festa e do
prazer, porque ainda preocupar-se com o sentido da vida?
Basta curtir a vida e fruir as insondáveis chances de felicidade
que deslizam por toda a parte. Para tanto, não se carece nem mesmo de regras
ético-morais ou da memória do passado para a vida e para a convivência humana.
Cada um pode viver, simplesmente, as sensações do momento, ou seja, viver o
“aqui e agora” sem referência a projetos, especialmente os universalistas.
Bem se sabe que a
globalização da economia tende a induzir para este modo cultural. Ainda que as
multicoloridas insinuações em torno de uma vida mais solta, desatrelada de
princípios religiosos, ético-morais e de experiências gratificantes do passado,
pareçam o melhor horizonte para uma vida feliz, há, contudo, uma fronteira que
enquadra numa espécie de pocilga maior.
Os benefícios de renunciar ao passado, à noção cultural, à
religião e a tantas coisas que fazem parte da organização humana, quando todo
mundo é controlado pelas conversas de alguns donos dos bens culturais, acabam
levando todos à submissão do mesmo controle.
Um técnico da maior processadora
de carnes da América comentava que nos muitos experimentos com vistas à maior
produção e lucratividade com a carne suína, estava se aplicando uma técnica
humana de desarticulação das pessoas até mesmo aos porcos, para que estes
pudessem apenas engordar o mais rápido possível.
Teria sido observado que os leitões, ao serem submetidos ao
desmame e colocados em grupos de trinta a quarenta, numa repartição do
chiqueiro, passavam alguns dias de briga, até que se firmasse um único líder
sobre os demais. A partir de então, todos se submetiam ao controle deste
leitãozinho, metido a líder. Eventual entrada de leitão estranho a este grupo,
correria o risco de ser agredido e até eliminado.
Para evitar este
tempo precioso em que os leitões deixavam de engordar, porque brigavam, se mordiam
e se machucavam, experimentou-se juntá-los em quantidades de algumas centenas
ou milhares numa única repartição. O grande aglomerado anularia a capacidade de
organização, de descoberta e de submissão a um líder. Sem ter como se
organizar, os leitões acabariam ocupando este tempo, tão fugaz, para consumir
mais, engordar com maior rapidez e, além de tudo, gerar ainda mais divisas.
Assim, a propalada
globalização, pelo menos sob alguns aspectos, interpela com uma situação
paradoxal: ou muitos líderes defendendo as peculiaridades locais segundo os
distintos agrupamentos humanos, ou a do desmantelamento de todas as regras a
fim de que todos se subsumam numa única tarefa: a de consumir. Neste caso,
alguns grandes produtores e controladores de poder terão uma insondável
segurança nas mãos: ninguém vai ameaçá-los e tampouco desestabilizá-los do
poder que desfrutam.
A diluição das regras e a aparente liberdade, talvez sejam
mais prejudiciais para a organização da vida do que possamos pensar à primeira
vista.
III
DEPOIS DAS
RECEPÇÕES INICIAIS
A herança histórica de um dos grandes mitos
brasileiros, o da cordialidade da gente deste “berço esplêndido”, move
intensamente o imaginário coletivo, no sentido de exaltar a tão genuína e
presumida qualidade. Na cordialidade, aparece muito evidente o antagonismo dos
dois mundos culturais: o do cotidiano e o do pensamento.
Estaria o “jeitinho
brasileiro”, de acolher as pessoas com tratos afáveis, sendo realmente uma
especificidade deste povo?
Talvez, para perpetuar o mito, haja, pelo menos, um esforço e
certo exagero nas saudações de acolhida, sobretudo, nos aparatos dos gestos e
na intensidade do timbre na fala. Entretanto, o que acontece depois da
acolhida, parece revelar um sangue mais colérico e a expressão não-verbal deixa
transparecer muito mais a apatia e a indiferença do que a eufórica recepção.
A história recente do
País brasileiro aponta conflitos étnico-culturais e sociais ainda não
adequadamente ajustados.
A influência francesa
das teses de Gobbinneau a respeito da inferioridade de algumas raças
constituintes do povo brasileiro, fez com que - há bem menos de cem anos atrás,
- intelectuais brasileiros, como Nina Rodrigues, Sílvio Romero, Euclides da
Cunha e outros, chegassem a pensar, que o Brasil somente teria condições de
superar a inferioridade que apresentava frente aos países europeus, mediante o
branqueamento dos povos africanos e indígenas, tidos como inferiores à raça
branca da cultura européia.
O processo de
branqueamento levaria muitas décadas, mas, seria o caminho mais plausível para
levar o povo brasileiro a um nível de vida mais próximo daquele vivido pelos
europeus.
Este lamentável
etnocentrismo racial só deixou de ser considerado, não pela sua dimensão
absurda, mas, porque na década de 1930, interesses do governo populista de
Getúlio Vargas, precisavam exatamente destas raças, tidas como inferiores, para
a barata mão-de-obra da emergente industrialização brasileira.
Foi então que o
renomado antropólogo brasileiro Gilberto Freyre deixou de justificar o
branqueamento das supostas raças inferiores para exaltar a criação de um novo
mito, o do “brasileiro trabalhador”.
Velava-se, deste modo,
uma longínqua história envolvendo rotulações de que estas raças inferiores eram
indolentes, vadias, preguiçosas e incapazes para um serviço segundo os ditames
do iluminismo europeu.
O novo mito do
“brasileiro trabalhador” precisaria também de um encobrimento das muitas
tensões e conflitos históricos entre as etnias aqui estabelecidas.
Por astúcia ou por
cega subserviência, o mencionado antropólogo passou a justificar que o Brasil
teria sido o único paraíso do mundo onde a integração de três raças distintas
se encaixou de uma forma completamente harmônica e pacífica, fenômeno que teria
acrisolado as virtudes comuns de povo pacífico, ordeiro, cordial, trabalhador,
alegre e festivo.
O novo mito,
plenamente favorável ao populismo manipulador das tensões e reivindicações
populares, além de encobrir o real conflito racial, ainda hoje muito distante
de estar equacionado, facilitava o controle das classes populares.
Uma síntese das três
grandes etnias que compõem o quadro social brasileiro, de fato, poderá algum
dia, vir a tornar-se uma fantástica riqueza para o gênero humano, sobretudo,
pela assimilação das riquezas peculiares de cada uma das raças constituintes do
povo brasileiro. Isto, todavia, requer um trabalho consciente que permita
integrar os eixos articuladores mais fortes de cada raça: o trabalho dos
descendentes europeus; o lazer da descendência africana e o ócio da raça
indígena.
Se europeus e
descendentes de raças européias priorizaram demasiadamente, aqui no Brasil, o
ato de produzir e inventar, tal centralismo os levou a uma vulnerabilidade
quanto à hipertensão arterial, problemas digestivos por excesso de preocupação
e prejuízos físicos por renitente obsessão no trabalho.
Para estes, lazer e ócio constituiriam um ótimo tempero e um
gostoso condimento para dar mais gosto à dimensão do trabalho e
permitir-lhes-ia dispensar muitos betabloqueadores, calmantes e soporíferos.
Aos descendentes
africanos, discriminados do acesso aos principais bens simbólicos da cultura, o
direito de produção mais autônoma e menos subserviente aos donos das
indústrias, lhes daria mais liberdade e condições de vida muito mais prósperas.
Os indígenas e seus
descendentes, tão discriminados e excluídos porque não se submetem à
austeridade e ao rigor sistemático dos processos de produção dos brancos
europeus e até das formas de lazer dos afro-descendentes, uma produção mais
estável e regular poderia assegurar-lhes mais conforto, mais higiene e melhores
condições básicas de vida.
Tal síntese racial
evidentemente ainda está por acontecer. Seria, por conseguinte, uma ilusão
supor que o ajustamento das raças aconteceu de forma harmônica.
A harmonização das etnias sempre foi muito tensa e
continuará, com certeza, por muito tempo, até tornar-se tolerável, se é que
isto um dia possa vir a acontecer. Ainda que publicamente se use da falácia
para dizer que todos têm direitos iguais, persiste, de forma subliminar, uma
discriminação muito forte por parte de qualquer uma das etnias do processo
social brasileiro.
A lamentável condição
político-econômica brasileira, que atualmente vem forçando um intenso
migracionismo interno no País, aviva de forma particular as censuras, reservas,
medos e resistências étnicas, particularmente, na região do centro-oeste
brasileiro.
Na saudação e nas
conversas de etiqueta ou de aplicação dos mitos, parece que tudo é conduzido na
paz e no bem-querer. No entanto, na sutileza das piadas, dos chistes, das
anedotas e dos causos, subjazem muitos sentimentos de rejeição.
Basta ver que, até por
regiões nacionais de procedência, ocorre discriminação, e, está muito diluída
nas ironias das conversas.
De forma geral,
tolera-se com mais facilidade uma pessoa procedente de outra nacionalidade do
que um descendente estrangeiro vindo de outra região brasileira. Afinal, se é
um ou outro estrangeiro que aparece, ele precisa adequar-se aos costumes
vigentes para sobreviver no quadro cultural e ele não representa nenhuma ameaça
aos costumes locais; mas, quando diversas pessoas de outra região brasileira
aqui se estabelecem, elas, mesmo sendo recebidas com boas-vindas, representam
ameaça aos quadros do “ethos” cultural estabelecido (jeito de conceber o mundo
as coisas, as pessoas, envolvendo costumes, hábitos, praxes e crenças...).
Por trás das etiquetas
movem-se sentimentos reais que nem sempre são de acolhida. Daí a força do
disfarce nos elogios que, costumeiramente, não passam de palavras polidas, mas,
que cruzam distantes dos reais sentimentos do coração. Acima do princípio de contradição entre atração
e repulsa, funciona a defesa de quem esconde, por trás do elogio, um sentimento
marcante de resistência.
IV
A RUA COMO
LUGAR DA PATOLOGIA SOCIAL
Nada melhor para ilustrar o antagonismo entre o cotidiano e o
pensamento do que observar as ruas e avenidas.
A rua é um elemento central da edificação da cidade moderna.
Nenhum espaço é mais evidente do que a rua para visibilizar a diferenciação
social e o antagonismo que se manifesta tanto na qualidade de algumas ruas em
relação a outras, quanto no que ladeia as ruas: casas miseráveis e mansões
suntuosas, capazes de afrontar a clássica diferenciação das classes sociais.
A simples
classificação de centro, periferia, vila, bairro residencial, bairro operário,
favela, etc. revela as profundas desigualdades sociais que ali se manifestam,
seja na plena e irradiante luz solar do dia, na luminosidade romântica do luar,
ou na mais abscôndita escuridão da noite.
As últimas décadas foram particularmente favoráveis para
separar de forma evidente e preclara o distanciamento de lugares, formas e
sujeitos que não querem perder nenhum privilégio conquistado e somente
favorecer, na melhor das hipóteses, os que são da sua categoria, a fim de que
se constituam em grupo coeso. É assim que se ostenta o lugar dos funcionários
de banco, dos dentistas, dos médicos, dos agrônomos, dos advogados, enfim, das
entidades que se auto-interpretam com certo status nos bens simbólicos da
cultura estabelecida.
Se a rua, de um lado separa todos estes mundos que se
engendraram nestes últimos anos, ela passa a constituir-se, também, num outro e
novo espaço, o espaço do consumo, da eletrônica, da telemática e da
visualização de todo tipo de combinações aleatórias que possam levar ao aumento
de desejos. Assim, na medida em que desaparecem as tradicionais vinculações,
como partido, classe, ideologia, religião e família, a mistura desordenada
acaba criando um mundo tão hiper-real que a rua já não comporta ordem e
elementares regras de eficiência. Ali tudo se atropela em função das grandes
promoções, dos shows, dos mercados, dos anúncios, e dos encantamentos pelo que
se encontra atrás das vitrines. Os que já não suportam esperar numa fila de alguma
atividade religiosa, se submetem com relativa resignação às enormes filas de
bancos e lotéricas, estes, os grandes reveladores da religião real que
prevalece na vida desta região... Já não há necessidade de um Deus de
experiência, mas basta o prazer haurido do que os olhos podem visualizar e que
levem os indivíduos a deslizar, a patinar, se não é no real das escadas
rolantes, dos elevadores, dos carros, das motos, das bicicletas e dos skates,
então no mundo solto da imaginação, na fantasia dos espetáculos, dos
vídeo-games, dos caça-níqueis, dos parques, das loterias, enfim, onde se pode
escorregar até o infinito, fruindo o que cada nova visualização desperta.
Embora a rua esteja constituída em espaço trágico e de
tragédia como a vida da “pólis” grega, na fase da decadência urbana do período
clássico, continua, entretanto, a ser o lugar unidirecional para revelar os
estilos, os poderes econômicos, as excentricidades, os estereótipos
consumistas, os modismos e a mistura do trágico com o cômico, do triste com o
alegre, da sério com a irreverente, do bom-senso com a estupidez.
A rua revela não só a
condição do lugar que se habita, mas, também as concepções coletivas, as
tensões, as resistências culturais.
Apesar da sinalização
moderna, muita gente parece ainda não ter-se dado conta da mudança cultural e
anda na rua como se fosse uma estrada de vilarejo, na qual se pode andar na
contramão, estacionar em sentido contrário, ultrapassar pela esquerda e pela
direita, parar no meio da pista para conversar com outro motorista, dirigir
atendendo telefone celular ou ingerindo sorvete, ou, ainda, imprimindo uma
velocidade, abusada além dos limites, ou tão lenta que congestiona o trânsito
e, pelo que parece, somente para chamar atenção, sem o menor constrangimento
ante a impaciência dos outros, que precisam esperar, quer gostem ou não,
quietos e calados, à moda dos velhos “coronelismos”...
Enfim, a rua é o lugar onde parece prevalecer o direito de
cada pessoa poder andar do jeito que acha bom e se apossar dos espaços, desatento
às mais básicas regras oficiais para o trânsito, sejam da indicação que forem.
Já não parece ser um lugar de pensamento.
Pedreiros, ao
construírem casas ou reformarem lojas, ocupam, sem maiores inquietações, todo o
espaço do passeio com material de construção e artefatos para o serviço, e
estendem sua área de serviço até mesmo para a pista de trânsito, a fim de ali
preparar concreto, massa de levantamento e depositar seus equipamentos.
Ciclistas jogam a
bicicleta no meio da calçada enfrente às portas de lojas, dos bancos e parecem
sequer se importar com o que isso possa representar para outros transeuntes...
Assim, uma observação
simples e fenomenológica, permite reparar ainda muitos outros elementos
contraditórios no espaço da rua.
A rua parece ser o espaço da ausência de sensibilidade quanto
a uso e abuso de som, de descarga de carros e de motos. A rua é uma verdadeira
parafernália de poluição acústica; lugar de lixo jogado de qualquer jeito e em
qualquer lugar, de cacos das garrafas de cerveja, de copos descartáveis e de
outros produtos plásticos espalhados por toda parte, sobretudo, nos lugares de
comícios políticos, festas populares, escolas e de outros eventos festivos.
A calçada ou lugar
reservado aos pedestres, especialmente nas principais ruas e avenidas,
apresenta uma ocupação múltipla: para uns, é o lugar da venda; para outros, é a
sala ampliada para colocação de cadeiras, bancos e rodas de conversa; para
outros, é o lugar do estacionamento da sua moto ou do seu carro, nada se
importando com o que um pedestre precisa fazer para contornar o espaço
territorial reservado; para outros ainda, é o lugar para as conversas de grupo,
para sentar e tomar cerveja, para vender espetinho e lugar para observar os
transeuntes.
A calçada é também o lugar do despejo das folhas que caem no
pátio da casa, o lugar para jogar fora os resíduos fecais do cachorro; o lugar
para se jogar tocos de cigarro, restos de alimentos, embalagens descartáveis de
picolés e tantos outros produtos de venda, como se fosse o pátio de uma
Fazenda, onde cachorros, galinhas, patos e outros animais domésticos se
encarregam de fazer a reciclagem.
Evidencia-se, ao mesmo tempo, uma notável falta de atenção,
de cuidado e de conservação dos bens públicos. Na verdade, uma clara
ambigüidade entre o cotidiano e o pensamento.
Enquanto se deixa a
casa limpa e bem ajeitada, não se tem nenhum escrúpulo para jogar o lixo na rua
ou na calçada ou para manter a calçada em condições transitáveis para pedestres.
Afinal, pedestre merece calçada?
Talvez seja resquício
de um hábito rural, que permitia jogar janela ou porta a fora qualquer tipo de
lixo, porque os animais domésticos se encarregavam de fazer o processamento
destes produtos.
Percebe-se, pois, que muitas pessoas pensam e justificam
regras e comportamentos decorrentes da forma como vivem, e outras, vivem
movidas por pensamentos, planos, desejos, e, compulsões de superação.
A polarização entre o cotidiano e o pensamento, enquanto
medição de forças de defesas e antagonismos, não leva a grandes avanços, porque
o razoável, com certeza, precisa envolver os dois pólos e gerar uma nova
síntese.
De qualquer forma, existe o embate em que, uns, se esmeram
pelo avanço do pensamento, e outros, relutam e resistem com as formas do
cotidiano, ou seja, vivem no espaço urbano como se este fosse um povoado
agrícola: daí a prevalência do espontâneo e das regras que se impõem sem
vínculos relativos ao que ocorre em espaços urbanos maiores.
O desencontro entre cotidiano e pensamento se revela também
nas formas de criar gado, na suinocultura, no estilo de produzir leite e outros
produtos agrícolas, pois, neles se manifesta uma contraposição clara entre
formas extremamente simples e arcaicas, ao lado de tecnologias de ponta e com
altíssima produção. Afinal, quem estaria mais certo?
O antagonismo, remetido para o campo
ético, leva a uma pergunta que implica numa contraposição mais radical: seria
melhor viver-se de formas menos modernizadas, tendo picadas de atalho no meio
do cerrado e das matas fechadas em vez de pistas de asfalto, e ter a
cordialidade, o valor da pertença a uma comunidade, o significado do
parentesco, das amizades, do amparo na alegria e na morte, do que ter todo este
progresso de auto-pistas, asfaltos, shoppings, arranha-céus, lojas enfeitadas,
status, etiquetas, tecnologia, carrões, unidades de tratamento intensivo e, ao
mesmo tempo, encontrar tanta frieza, solidão, tanta droga, tanto assalto, tanta
doença, tanto vazio existencial, tanta tensão,
tantas crises de desânimo e tantas mortes estúpidas?
V
CORDIALIDADE E ETIQUETA
Com certeza, já antes dos nossos tempos
modernos, fatores variados levaram pessoas a entrar em estados de ansiedade e
depressão, apesar de todas as formas de pertença e de praxes sociais.
O fenômeno da urbanização moderna traz,
todavia, além da fantástica rapidez e multiplicação dos signos de comunicação,
uma cordialidade artificial, equivalente a etiquetas sociais e que predispõem para
fatores depressivos relacionados à perda do sentido da vida. Na Antropologia,
tal fenômeno passa a ser interpretado como tédio, uma nova doença urbana.
Segundo o Logoterapeuta austríaco, Victor
Frankl, a grande doença do nosso tempo, já não decorre tanto dos desajustes de
estágios do nosso passado, mas, muito mais da falta de um horizonte de fé e de
sentido para o futuro distante. A doença da maioria das pessoas está na sua
incapacidade de se projetar para além do momento presente de crise, depressão,
qualquer outra dificuldade, ou da inércia para sair de uma situação
estabelecida.
Diante
da rapidez e da fugacidade dos pequenos momentos de felicidade em nossa vida,
podemos perceber que o tédio pode estar diluído em todos eles.
O tédio
não resulta, apenas, da frustração diante das idealizações de felicidade, mas
emerge, atualmente, da grande multiplicação dos signos de linguagem e de
imagens, através da eletrônica e da informática, ou da tele-informática.
O tédio
parece, por conseguinte, resultar de um sentimento de saturação. Quando se tem
a sensação de saber tudo sobre tudo, surge um sentimento de mal-estar, porque
já não há mais expectativa de empolgamento, de novidade, de surpresa, ou de
algo inusitado e novo.
Sobra,
então, o sentimento enfadonho de desconforto e de insuportabilidade do que está
por vir a acontecer. Tal situação, estreitamente ligada a um tipo de
entendimento cultural repassado pela educação ambiental, dissolve o ator social
e, por conseguinte, engrandece o narcizismo solipsista que faz os indivíduos se
subsumirem na vivência do agora, de forma autônoma, mesmo que seja criativa,
mas num horizonte de dependência a um quadro consumista que a vida urbana
desperta. Por isso já se usa na Sociologia um novo conceito para explicar a
vida dos sujeitos urbanos. Eles vivem uma “anomia” subjetiva. Quando Emile
Durkheim interpretou a sociedade da revolução industrial como anômica, ou
doente, apontava como causa a falta de regras sociais e regras mais rígidas.
Atualmente, contamos com inúmeros códigos de regras sociais a ponto que
qualquer atitude pode ser justificada ou condenada. Em contrapartida, vive-se a
anomia subjetiva, isto é, rodeados de pessoas que querem todos os direitos
imagináveis, todas as regalias, todas as vantagens, mas, que não admitem
nenhuma regra e nenhuma cobrança sobre o seu modo de agir e pensar. Afinal, os
outros precisam ser instrumentos para propiciar este desmesurado desejo. Precisam
as suas virtualidades favorecer para que tal aspiração subjetiva não sofra
percalços.
O
que poderia, por conseguinte, uma aglomeração urbana, como a das simpáticas
cidades, significar ante a histórica predominância do mundo tradicional das
fazendas e sítios de interior, a ponto de gerar o tédio?
A cidade, tida por muitos como a grande
revolução do mundo ocidental, vem processando uma série de transformações de
cunho antropológico. Aparecem, ali, características muito diferentes do que
aquelas típicas do mundo rural.
Lá,
o reconhecimento do parentesco, da vizinhança e da comunidade, era (e ainda é)
marcado pela cordialidade. Há muitos rituais de saudação e de expressão da
cordialidade, como os gestos de pedir a bênção aos adultos e mais velhos,
dar-lhes um abraço ou beijo de saudação, etc.
No
meio urbano, este traço vem sendo substituído, paulatinamente, pela etiqueta.
Esta característica de agregação social separa por níveis de status, de veste,
de cargos, de tipos de profissões e de reflexos do poder aquisitivo (“É o seu
Fulano e a senhora Beltrana”). Convidam-se apenas certas pessoas para ocupar
espaços nos palanques públicos, mas, também os tomadores de pinga dos bares não
aceitariam partilhar o trago com certas pessoas engravatadas e vestidas no
rigor social do destaque das modas.
Enquanto que, no meio rural, as instituições
do trabalho, da família, da religião, da política, etc., são tidas como fatores
de realização e bem-estar, na cidade, estas fontes de realização, ou de
felicidade, são propugnadas, endeusadas e apontadas nas variadas formas de
conquista e de lazer.
Os
valores tão específicos de realização das comunidades rurais, como formas de
vivência da religião, modos de envolvimento político e o estilo de vida
familiar, na vida urbana, perdem seu significado e, em seu lugar, aparece muito
evidenciado o lugar do lazer.
Ao tempo livre atribui-se a correspondência,
pelo menos nas argumentações discursivas, do paradisíaco sonho de liberdade, a
possibilidade de expressão do corpo e as práticas que induzem a prazer.
Nos
ambientes rurais, a tradição exercia papel fundamental na organização da vida.
Ali eram valorizadas, primordialmente, certas práticas culturais, como o do
respeito aos mais velhos, respeito às autoridades, o privilégio do social sobre
o individual, etc.
Naquele
quadro, a religião era vista como fator de coesão e de pertença social; a
família tinha uma importância fundamental na vida, no trabalho e na comunidade.
O
lazer não era visto pela sua dimensão pessoal, mas pela dimensão coletiva.[1]
No quadro do mundo rural, todas as pessoas
tinham que trabalhar a partir da intimidade do lar e sob o controle dos mais
velhos.
Na
cidade, processa-se uma mudança significativa em relação ao trabalho, porque
ele passa a ser visto, não como inerente à realização humana, mas, como mera
mediação para o alcance de condições de lazer.
Muitos suportam o trabalho porque idealizam o
que vem depois: festa, bebidas, passeios, encontros, comilanças e outros
passatempos.
O lazer vem sendo insinuado como sendo a mais
bem elaborada produção da civilização humana e como o maior propiciador de
felicidade. É o grande símbolo do pensamento. Basta lembrar o incremento que se
dá ao turismo, às viagens, às praias.
As férias de fim-de-ano, os pacotes de excursões,
as viagens ao exterior, aos campos, aos balneários, tudo parece pintar um
grandioso quadro de felicidade. O endeusamento destas fontes de lazer parece
evidenciar que nele se idealiza uma velha concepção maniqueísta e que
estabelece dois pólos opostos: um, que orienta para escolher o do bem, que é o
lazer, e o outro, que deve ser rejeitado, que é o cansaço do trabalho.
O
lazer começa a povoar todo o imaginário coletivo em torno das possibilidades de
viajar, conhecer, conquistar, desfrutar... Em função disto, organiza-se muito
espaço de tempo para “malhação”, exercícios e “curtição”, numa nova forma de
instauração do velho mito da eterna juventude.
A
atribuição, que uma vez era dada ao campo religioso para o alcance da
felicidade e realização dos seres humanos, agora, é, supostamente, fornecida
pelos incontáveis atributos que o lazer pode propiciar nas cidades.
Tal
deslocamento abre uma ambigüidade: uns procuram esta realização num certo tipo de
programa musical, outros em caminhadas, outros ainda em esportes, teatro,
cinema, etc., e o que os atrai, via de regra, nem chega a ser uma opção
pessoal, mas a mera aproximação de gostos similares, despertados pelos meios de
comunicação de massa.[2]
A idealização do lazer, produzida por classes
dominantes e privilegiadas para o sonho dos pobres e dos que não tem acesso ao
lazer, parece repetir a velha estratégia do tempo mitológico grego, no qual a
aristocracia dispunha de rapsodos (poetas cantadores), para cantar ao povo os
versos que enalteciam a aristocracia, visando fazer com que todos viessem a
sonhar com a dita “aristocracia” e suportar o pesado fardo do trabalho
escravo...
Como
muitos não aceitam a resignação, tentam um acesso imediato às condições
privilegiadas do lazer através de roubos, jogatinas, apostas em loterias,
negócios obscuros, assaltos, contravenções e golpes econômicos.
Afinal,
se o trabalho é tão humilhante e mal remunerado, porque não buscar o lazer de
forma mais fácil e a qualquer preço, já que é apregoado como sinônimo de
felicidade? Entretanto, mesmo que alguém atinja condições de lazer por vias
fáceis, persistirá ali uma contradição: o que aparentemente deveria
constituir-se em algo saudável, se torna altamente controvertido porque se
limita a uma ostentação banal de modas e modismos consumistas e que leva muita
gente à beira dos limites de uma vertigem de fama, de beleza, de ousadia, muito
próximos da loucura e do suicídio.
As
corridas noturnas dos “filhinhos de papai”, o uso e abuso do álcool, o excesso
de comilanças e o consumo de outras drogas, tanto as legalmente permitidas
quanto as proibidas, significam um evidente mecanismo de morte e de destruição
de si mesmo.
Tudo
isso, ao invés de felicidade, aponta muito mais para a experiência do tédio, da
desesperança, da falta de gosto pela vida, da ausência de bom-senso, do que
para sentimentos de felicidade e se mostram mais propensos para o velho adágio
romano do “comamos e bebamos, porque
amanhã morreremos”. Mas será que lazer é apenas comer, beber e curtir
sensações físicas agradáveis?
Revela-se um triste quadro da vida manipulada
para comer e beber. Afinal, o que se oferece num calçadão, e no sem número de
bares e lanchonetes?
Ainda que a felicidade seja buscada,
freneticamente, nas mil oportunidades de lazer, ele direciona eminentemente
para o tédio, porque os tipos de praxes sociais são causadores deste sentimento
de saturação.
Se
não se leva em consideração este quadro amplo, muitos sonhos acalantados com
grandes expectativas de felicidade, na verdade, propiciam vazio, decepção,
desesperança e tédio.
O estabelecimento de um patamar muito elevado
e fictício para o lazer, como viagens, programas e encontros, leva a não dar
valor a importantes fontes e fatores de prazer, geradores de momentos de
felicidade cotidiana, mas, que não advêm daquelas tão destacadas do campo do
lazer.
Tais
fontes, decorrentes de um modo de conduzir-se na vida, poderiam preencher muito
mais o tempo cronológico e a concepção do lazer, não como o de algumas
práticas, mas como o rumo ou sentido, em função do qual se conduz a vida.
O mito da existência interminável de produtos
e o da infinita continuidade de uma sociedade consumista, mais impede do que é
capaz de propiciar fatores de realização pessoal: a simples submissão ao que é
distinto e inédito no momento, com vistas a encontrar maior gozo e maior número
de fatores de excitação da adrenalina no sangue, revela indivíduos à busca de
si mesmos, todavia manipulados pelos excitantes que a própria sociedade
condena, mas, lhe apresenta com persuasão todos os dias.
Tal
insinuação contínua de experimentação de tudo quanto provoca sensações
consumistas desvia a chance de haurir fonte de prazer em incontáveis outras
formas que estão além do ato de “curtir”.
Nesta busca, gera-se uma crise de identidade
porque a auto-imagem e a auto-estima dependem precisamente da percepção de que
outros manifestem sinais de estima e valorização.
A
clareza em torno do que cada pessoa sintetiza sobre si mesma depende da
relacionalidade, ou seja, do modo como a hetero-imagem afeta a interação.
Portanto, o presumido mundo de indivíduos fechados sobre si mesmos na busca de
felicidade, não pode efetivar-se por uma razão muito simples: o fator que
desencadeia sensações de felicidade está truncado porque depende do bom
relacionamento com outros.
Se mulheres agricultoras uma vez conseguiam
organizar-se na vida com 13 ou 15 filhos, uma mulher, na cidade, tendo um ou
dois, já não suporta o cansaço por estar levando seu pimpolho de um lugar para
outro, para preencher-lhe o dia e até os sonhos da noite: aulas, cursinho de
dança, de música, de natação, de ginástica, de inglês e de informática...
As
crianças já revelam, pela sua forma de olhar, a saturação de tudo isso. Neste
processo de saturação, está, igualmente, em jogo uma rivalidade fora do comum e
uma verdadeira obsessão de corrida à precocidade.
Parece
que o único assunto interessante para as conversas é o de poder contar
vantagens relativas ao que o “filhinho” e a “filhinha” já conseguem fazer com
menos idade do que outras crianças.[3]
Mais
do que educação para uma normal e sadia relacionalidade, está em jogo uma
acirrada rivalidade da ótica iluminista de superação e que pressupõe o
rebaixamento dos outros para a auto-ascensão.
VI
SINGULAR E
PLURAL
Esta cobiçada
região do contro-oeste do imenso Brasil vive um impacto ambiental e humano que
remete para uma tensão humana, tão antiga quanto à da existência dos
hominídeos, mas, também indica o confronto do cotidiano com o pensamento.
A tensão
envolve o conflito entre o novo e o velho, entre a superação e a estagnação,
entre a certeza da experiência e o risco da novidade, entre o conformismo e a
busca de novidades, entre a resignação e a não aceitação da forma como as
coisas acontecem, enfim, entre o cotidiano e o pensamento...
O limiar desta
tensão impõe duas situações que se estabelecem como contrárias. De um lado,
vive-se a saudade, a própria defesa e a busca da hegemonia do cotidiano sobre
tudo quanto se articulou no passado remoto desta terra; do outro lado, entra
massivamente o avanço da vida racional, a busca da eficiência, a inovação
tecnológica e o lucro calculado pelas últimas fronteiras do sistema
capitalista.
Enquanto que,
para os autóctones, os hábitos, os costumes e as praxes do passado desta região
constituem as razões mais fortes da vida, para muitos outros migrantes que
chegam a esta terra, a predominância se estabelece sobre o pensamento racional
e sobre o desejo de haurir das condições desta região o necessário êxito acalantado
por sonhos, cálculos e propagandas.
Para os
nativos, a entrada das estratégias da racionalidade, da sistemática e da
rigidez no trabalho, significa uma terrível ameaça aos costumes ancestrais, ao
trânsito sem regras, ao pequi com arroz, ao frango caipira, à gueiroba e às
muitas outras expressões culturais que lhes deram sentido e sentimento de
amparo.
Para os que vêm movidos por pretensões de
superação, inquieta a falta de ritmo, de rigor, de persistência, a falta de
compromisso pela palavra dada, enfim, a sutil contestação de sua presença e,
seu silencioso protesto contra o espalhafatoso progresso, porque lhes tira o
espaço vital, ou seja, toma o lugar do mundo no qual cresceram e viveram.
Quem estaria
no direito de atirar a primeira pedra para espantar o adversário?
Os
representantes da postura que privilegia o cotidiano têm motivos de sobra para
uma justificação do seu modo de vida, mas, também os movidos pela racionalidade
dos que aqui aportaram e dos que aqui cresceram movidos pelo campo do
pensamento, animados pela busca dos ideais despertados pela mídia, querem a
realização das aludidas ofertas.
Fica, assim,
estabelecido, na arena cultural, um duelo em que o cotidiano e o pensamento se defrontam
e cada um presume contar com as forças suficientes para nocautear o adversário,
a fim de que a grande platéia possa condecorá-lo com aplausos e o merecido
reconhecimento.
Se os mais
afoitos na atividade intelectual se acham na condição de interpretar a alma
coletiva que aqui foi engendrada, os defensores desta expressão de cultura
local, também se consideram no justo direito de salvaguardar seu patrimônio e
interpretar a invasão cultural dos chamados forasteiros vindos de outras
terras, que, pelo menos, pretende conquistar uma superação do que considera um
particularismo local.
Neste jogo, da
cultura como experiência e da cultura como projeto de superação, está a crise
da “minha cultura” com a “nossa cultura”.
A evidência,
no entanto, mostra que não é possível viver apenas com os valores locais, mas,
a vida tampouco se torna razoável quando apenas é movida por ideais e
referências que estão acima e aquém dos valores locais.
Quando é
afirmada, demasiadamente, a dimensão local, perde-se a referência com o
universal; e, caso se afirme excessivamente o universal, torna as pessoas
inadequadas ante a vida local e cotidiana, que, na verdade, é imprescindível
para a normalidade da existência.
Basta
verificar pessoas que presumem viver um ar universalista e se movem por
etiquetas e modas de grandes centros internacionais, para reparar como são altamente
impróprias e inadequadas nos ambientes de cultura local e regional.
Corre-se,
deste modo, o perigo de combater o imperialismo para salvar a identidade local
e a de perder essa identidade ao subsumir nas fauces do imperialismo.
A maior parte
da história humana tem a marca e o predomínio dos valores que se impõem como
universais e mais convincentes do âmbito racional.
As incontáveis
tentativas de romper esta ingerência, sobretudo, para salvaguardar os traços
locais ou regionais, normalmente, não conseguem quebrar uma forçada resignação
e uma humilhante impotência ante a totalidade. Mesmo quando ocorre uma vitória
parcial, aparecem outras insinuações estrangeiras que acabam se impondo à
força.
Como, então,
salvar valores autóctones e integrar outros da dimensão mais ampla da cultura
que nos envolve?
A evidência é
a de que não se consegue pautar a vida apenas pelos valores locais, ainda que a
reação espontânea indique mecanismos de defesa ante a entrada massiva de outros
valores.
Parece que a
reação espontânea é parecida com a de andar num ônibus. Enquanto meia dúzia de
pessoas ocupa os assentos, a conversa tem um fluxo e um nível bem natural.
Entretanto, na medida em que entram outros passageiros estranhos, tende-se a
diminuir a naturalidade da conversa e começa a ocorrer uma reserva territorial,
isto é, se alguém ocupa um assento, coloca a sacola no assento do lado para
dizer, numa linguagem não-verbal, que não deseja que outra pessoa queira
sentar-se ao seu lado.
No entanto,
como os outros passageiros pagaram seu bilhete de passagem e tem os mesmos
direitos de assento, acaba aceitando que alguém se assente ao lado, mas, não se
sente à vontade para conversar com esta pessoa. Disfarça um sono ou um olhar
distraído para o outro lado.
Algo similar
ocorre em nossos espaços urbanos. Para os que nasceram e se criaram na cidade,
a vinda de eventuais imigrantes representa desconforto e ameaça.
Se aparece um
imigrante como novo vizinho, funciona também o mecanismo de proteção do espaço
vital, mediante o qual se faz uma avaliação rigorosa dos gestos e atitudes do
novo morador.
Certamente
ninguém irá visitá-lo para contar anedotas e falar descontraidamente da vida.
No entanto, quando se encontra com outros vizinhos já mais antigos da
redondeza, contará piadas sobre o jeito e a origem da procedência do novo
vizinho e gozará até mesmo do seu sotaque de fala.
Andando por
diferentes lugares do País, foi possível perceber que as mesmas piadas,
contadas, por exemplo, de um gaúcho em relação a um paulista, um goiano as
narra em relação ao gaúcho, e um matuto em relação ao goiano.
Na piada, ou
na anedota, que se conta em relação ao novo morador, transparece, numa forma
sutil de exteriorização, o sentimento de que o outro é invasor de um espaço
reservado e que ele representa uma ameaça aos valores locais. Entretanto, a
razão da mobilidade social e que motiva a intensa onda migratória, acaba não
sendo discutida e tampouco enfrentada para soluções reais.
A resistência
a novos moradores certamente não ameniza a sofrida adaptação, tanto para quem
chega quanto para aquele que se sente invadido. No entanto, não se pode
desconsiderar que, os que buscam amparo, afinal movidos por propagandas
sedutoras, também sofrem porque deixaram para trás outro mundo referencial de
amigos, costumes, praxes e modos de ser.
Como, então,
salvar valores autóctones, integrar valores mais amplos da cultura e respeitar
as diferenças culturais? Tamanha tarefa, com certeza, é bem mais exigente do
que se possa imaginar à primeira vista. No entanto, terá que acontecer, até
mesmo para viabilizar a vida doméstica dos lares.
VII
INTIMIDADE E PROMISCUIDADE
Antigamente ocorriam muitas
discussões em torno de gênero para estabelecer o que era peculiar e específico
da condição masculina e feminina.
Na vasta literatura sobre o que é
direito de cada gênero, vigorou predominantemente a valorização de costumes da
hegemonia de direitos e poderes, culturalmente sustentados a unhas e dentes,
porque representaram avanços sobre momentos anteriores.
Atualmente parece prevalecer, cada
vez mais, a tendência de buscar os direitos que uma pessoa pode desfrutar a fim
de exercer controle sobre outras pessoas, sobretudo, no âmbito doméstico.
Com
esta atenção primordial para a proteção, descarta-se a possibilidade de
entendimento da diferença e do mistério da vida das outras pessoas, mesmo da
parceria de namoro ou da pessoa que complementa o casamento.
A defesa ou a condenação de costumes e praxes
culturais, nem sempre considera o sentido da complementariedade e a
possibilidade da função laboratorial que esta característica pode exercer na
vida humana.
Enquanto se fica no nível de discussão do que
é de direito a partir de costumes e tradições, pode-se estar perdendo a
capacidade de considerar a noção mais importante do ponto de vista
antropológico: o processamento do público e do privado.
A ausência de condições do ambiente familiar,
ou por falta de diálogo, ou ajuntada por interesses pragmáticos de outros
casamentos fracassados, o casal constituído, muitas vezes, sem consentimento
dos filhos, deixa de viver o mundo privado. Sem este, não se ativam os jogos
afetivos que determinam o estado de humor de todos os membros constituintes
daquele bloco ou aglomeração tida como familiar.
Certamente um olhar atencioso de um pai, que
revela sua autoridade, leva seu filho a fazer com mais satisfação alguma
tarefa. Assim também, um procedimento movido por poder, acompanhado de um ar
superior, arrogante de quem manda e dá ordens, levará o filho a devolver, em
outro nível de agressão ou de deslocamento desta raiva, normalmente de forma
não-verbal, a mesma atitude básica, a ponto de lhe causar desgosto profundo
pela vida e desconcertá-lo nos seus grandes sonhos para o futuro.
Assim,
ocorrem incontáveis projeções, fixações, submissões e deslocamentos de sintomas
que, diuturnamente, afetam o espaço familiar, ao lado do proeminente
desencontro entre o cotidiano e o pensamento.
Tanto
os desequilíbrios quanto as capacidades cultivadas no processo de ajustamento, sejam
do casal ou, deste com os filhos, apresenta a cada dia coisas novas que
impressionam.
Entretanto, nenhuma família é uma ilha
isolada, porque todas são diariamente afetadas por situações públicas ou
sociais. O que ocorre neste nível de incidência? Em primeiro lugar, uma intensa
ativação dos desejos, o que abafa totalmente a memória, precisamente esta que é
capaz de apontar horizontes reais para a vida.
Se a família leva demasiadamente em conta a
invasão de informações a que está submetida, ela perde, gradualmente, o que é
original em suas relações afetivas e passa a absorver etiquetas como formas de
expressão de vida.
Esta
imitação de outras pessoas transformadas em mito, idealizadas ou de imagens
criadas por propagandas, propicia status, títulos, honras e cargos, mas leva à
perda da capacidade de equilibrar este mundo criado para o consumo com o que
emerge da vida privada.
Equivale
a pretender caminhar equilibradamente com uma perna de um metro (dimensão
pública) e com outra de apenas meio metro (dimensão privada). Se tal ato de caminhar
só pode ser capenga, tenderá a desanimar o caminheiro do processo de recriar
motivações para a vida.
Há mais de cinco décadas o pensador Francês
Emmanuel Mounier já alertava, em sua obra O
Personalismo, sobre o risco da confusão entre intimidade e promiscuidade.
Muitas
bandeiras, tidas como de emancipação e libertação de tabus e costumes podem ser
ostensivamente hasteadas para favorecer uma socialização imperialista, que tira
do espaço familiar a mais profunda dimensão da intimidade.
A
intimidade vem sendo profanada pela invasão agressiva de novidades e pelo
estímulo ao desfrute.
A multiplicidade de fantasias criadas a partir
de fatos reais e de outros meramente fictícios, passam a inspirar perfis de vida
familiar que eqüivalem a contratar o gambá para cuidar do aviário.
A procura do avesso desta condição, atrelada à
onda consumista, não elimina, contudo, uma complexa trama de desequilíbrios
afetivos e emocionais, envolvendo projeções, possessividades, submissões e
outras formas de atrelamento desequilibrado. Mesmo sem este mundo da mídia
eletrônica, ocorrem tensões, conflitos, angústias e estados, muitas vezes
doentios, que afetam não somente a vida privada do ambiente doméstico, mas até
mesmo a vida social.
Com esta fragilidade, a relação de homem e
mulher facilmente cai da intimidade para a promiscuidade. Em vez de ser fonte
de comunhão, de alegria e de gosto pela vida, a relação conjugal e familiar pode
despertar sentimentos de culpa, de isolamento e de mal-estar, porque a
profanação da intimidade leva ao desrespeito, ao desfrute, à agressão e à
descartabilidade da outra pessoa.
A perda da intimidade provoca um efeito
indireto que é o da perda da capacidade de “filtrar” ou “processar” tudo o que
advém da vida social.
Sem
esta filtragem, ocorre a absorção da fantasia e da idealização que ignora o que
é peculiar e próprio do espaço familiar.
Ao espaço familiar não compete apenas
absorver, porque ele tem em si a riquíssima função de socializar seus membros e
a de enriquecer a sociedade com estes valores.
Não
estaria ocorrendo, em nossos dias, uma demasiada ausência de socialização dos
filhos no espaço doméstico? Se eles absorvem o mundo consumista e apenas se
norteiam por etiquetas, como esperar deles valores de socialização que
respeitem os outros?
Bloco familiar sem
socialização eqüivale a pretender instalar uma hidráulica para fornecer água
filtrada e tratada para o consumo humano, mas que apresenta, na torneira dos
consumidores, água suja e com coliformes fecais em excesso...
Afinal, o que estaria sujando a água da
intimidade? Tanto os hábitos, quanto paixões e desequilíbrios afetivos levam à
invasão da intimidade e cortam a fronteira ou a divisa do necessário
distanciamento que o respeito à outra pessoa, seja marido, mulher, filho ou
qualquer outra pessoa requer.
No desrespeito da intimidade explodem mil
formas diferentes de desequilíbrio emocional e esta condição passa a ser levada
diretamente para o ambiente social.
Assim como a mulher pode invadir a intimidade
do marido e vice-versa, o mesmo se repete no relacionamento entre pais e filhos
e dali passa para o âmbito social.
Uma pequena transgressão da
intimidade na família pode induzir para um caminho de grandes apropriações de
bens públicos.
VIII
DESCANSO E
LAZER
A crise
econômica dos últimos tempos afeta particularmente a serenidade da vida do
ambiente doméstico. Muitíssimas pessoas precisam trabalhar mais do que o normal
e, mesmo assim, não conseguem suprir a demanda das necessidades.
O trabalho excessivo, além de gerar enormes
desgastes físicos, leva a preocupações, doenças, depressões e à perda de
motivações para a vida.
A
vida neste verdadeiro turbilhão de hiper-ativismo no mundo do trabalho, não é
apenas uma questão de necessidade ou de desejo. É uma forte influência
cultural, especialmente, a que recebemos do ambiente europeu. Trata-se de
centralizar o trabalho como o valor máximo da existência. Nesta exaltação da
operosidade, passa a ser elogiado somente o aumento da capacidade de trabalho.
Tudo quanto representa diminuição de trabalho, ócio ou lazer, seja por fatores
de doença, de idade ou ritmo de vida, passa a ser desprestigiado.
A
perda da capacidade de trabalho intenso equivale praticamente a desprezo e
esquecimento...
O
trabalho, centralizado como o que de mais importante existe na existência
humana, na verdade, cansa muito e obriga as pessoas a procurar formas de
recuperar as energias.
Tal
situação gera uma necessidade de férias, de descansos nos fins-de-semana e de
momentos de repouso. Mesmo assim, permanece um sentimento de dívida porque a
recuperação das energias nem sempre oportuniza reservas energéticas e
motivacionais para aumentar a capacidade de produção.
Ao
centralismo do trabalho corresponde um problema ainda maior do que o do
desgaste físico pessoal, pois, da primazia do trabalho resulta a diferenciação
de classes, tanto na família quanto na sociedade, porque leva a um mundo de
aparências.
De
acordo com o que se acumula através do trabalho, obtêm-se status, posições
sociais, condecorações, elogios, enfim, castas e classes especiais que se
tornam cada vez mais seletivas, separadas e protegidas da convivência social. O
trabalho, como facilmente pode ser reparado, gera separação e, esta, produz
mediocridades: ar de superioridade, melindres por pequenos detalhes e o desejo
de sempre justificar os desejos e as ambições.
Até
uma análise sem maiores alcances, permite reparar que o trabalho, quando é
excessivamente endeusado na vida, desequilibra de forma profunda e anula a rica
capacidade do lazer.
Uma
vida sem lazer é uma vida que perde a graça. Entretanto, lazer não é a mesma
coisa do que fazer trinta dias de férias no fim de um ano, descansar num
fim-de-semana e dormir certo número de horas no correr de uma noite.
Tanto
o trabalho quanto os momentos de descanso ajudam a esconder outra dimensão
fundamental da nossa vida, que é a dimensão da festa. Evidentemente, não a
festa do desfile de modas ou a do esnobe que visa comprar a admiração dos
outros.
A festa e o
lazer envolvem a dimensão não produtiva, isto é, levam a dar importância para
as coisas cotidianas, para a memória do passado, para a linguagem não verbal,
para o mundo simbólico e para o que envolve o mistério da vida.
Enquanto
que o trabalho tende a gerar acúmulo de bens, status, fama e reconhecimento,
ele não ajuda a produzir o que é essencial para a vida e, precisamente o que
mais gratifica e realiza, não é o que se produz, mas o que se recebe, isto é, o
que advém do amor, da amizade, da estima...
Como
o trabalho leva a cultivar sentimentos que, normalmente, visam legitimar os
desejos e as ambições, os sentimentos recebidos, bem ao contrário, provocam o
gosto, a auto-estima e o sentimento de estar de bem com a vida.
Os
sentimentos recebidos ou encontrados, ainda que no sutil relance de uma olhada,
sempre alteram nosso humor e nosso modo de ser. Eles podem até trazer
desconforto, tensão, surpresa, crises, mas, sempre nos remetem para a qualidade
de vida.
Se
o trabalho produzido tende a levar para a busca de algo que favoreça o conforto,
o lazer está estreitamente ligado à dimensão da festa: leva a encarar a vida no
seu conjunto global, que salienta a gratuidade.
A festa situa-se, pois, no campo da atividade
não produtiva.
Na
atividade não produtiva, tende-se a valorizar mais a capacidade festiva, o
transbordamento, a vitalidade, a exuberância e a dignidade.
Estas
forças humanas ajudam a vencer o moralismo, o calculismo e o poder como tirania
sobre a vida alheia. O moralismo consiste em estabelecer incontáveis regras e
prescrições para os outros.
O
calculismo leva à busca de fórmulas que visam estabelecer controle sobre os
outros e sobre as coisas; e o poder tirânico, mesmo rodeado por uma aura de
mistério e encantamento, normalmente leva a justificar mecanismos de defesa com
a gradual perda da capacidade de sentir o que as outras pessoas realmente
necessitam.
A
capacidade festiva afirma a pessoalidade, que é algo bem distinto da
domesticação, das aparências, dos cargos, das posses e da tirania do ter.
A
festa integra a rica capacidade de levar à gratuidade, esta que tem o
fantástico potencial de vencer todo o campo das aparências, que, normalmente,
levam à divisão de classes, a injustiças e à exploração da venda do trabalho.
A
gratuidade equilibra nas pessoas a obsessão pelo trabalho, seja ele intelectual
ou de outra natureza. Portanto, se a realização emerge de um âmbito distinto
daquele que conduz à obsessão, convêm descobrir razões mais plausíveis do que
as da idolatria do trabalho, a fim de que a vida possa propiciar mais gosto e
evitar o trágico avanço dos graves desequilíbrios que o trabalho desencadeou no
planeta nestes últimos séculos.
IX
UMA CONSTÂNCIA NO PENSAMENTO
Destacamos no capítulo anterior que o trabalho, ainda que importante,
não é fator primordial e exclusivo para levar ao que realmente apraz na vida.
O trabalho, sobretudo o urbano, tende a
remeter-nos mais para o campo do pensamento do que o do cotidiano.
Quanto ao entendimento do pensamento, podemos
demarcá-lo sob distintas leituras: a do mundo antigo, a do medieval, do
moderno, do pós-moderno, pós-industrial, pós-estrutural ou, de eventual outro “pós”
de algo, e, ainda, pelas diferenças e rupturas, mas, também, pelas constantes
que se perpetuam em todos estes paradigmas.
Uma
destas constâncias, certamente, é a do monismo que leva a estabelecer
finalidades ou teleologias (finalismos) que mapeiam o espaço e o tempo da vida
das outras pessoas.
Em
razão dos finalismos facilmente se acham argumentos para colonizar as
diferentes formas de organização sócio-cultural, o que também permite
privilegiar uma elite que se assegura em vantagens conquistadas.
Se
no mundo grego esta incumbência ficou para os filósofos, no mundo cristão
medieval, esta condição passou a ser hegemônica no campo teológico, uma vez que
os teólogos passaram a mapear o cotidiano das pessoas.
A
modernidade foi uma apropriação deste finalismo da teologia medieval, porém, com
a imanentização, através do progresso e da superação das ciências.
Já
a pós-modernidade e os outros pós, constituem uma forma negativa de reação a
estas teleologias ou meta-narrativas, sobretudo as modernas, que, não só
mapeiam o cotidiano das pessoas, mas, que também impõem a todos o consumismo da
globalização, de modos que os produtores da matéria de consumo são os novos e
privilegiados “teólogos” que ditam as regras que todos os seres do planeta
precisam seguir.
Trata-se de uma nova forma do velho
monismo, mesmo que se arrogue a superioridade de poder condenar os monismos
anteriores.
Basta reparar a praxe desta região para ver
como o poder econômico se impõe sobre as outras formas de poder e estabelece um
monismo muito expressivo e determinante na organização e entendimento deste
pedaço do “berço esplêndido”. Convém delinear um pouco mais esta questão do
monismo.
a) O Monismo
O termo “monismo” é de uso relativamente
recente, pois foi Wolf quem o empregou pela primeira vez, em 1734. O fenômeno
monista, no entanto, é muito antigo e está muito evidente no pensamento
clássico grego, porque ali já se moveu por concepções e doutrinas em torno da
unidade.
O Dicionário de Filosofia de Brugger salienta
que o monismo universal afirma a existência de uma unidade essencial entre Deus
e o mundo.[4]
Tal concepção leva a suprimir as diferenças
entre matéria e espírito, indivíduo e sociedade, etc.
A referida concepção permite, como aparece
evidente na história, tanto concepções materialistas quanto espiritualistas.
Ambas tendem a valer-se de uma mesma mediação para contornar as contradições
que decorrem da pluralidade dos seres e das manifestações culturais, isto é,
tentam reduzir ou enquadrar as diferenças na unidade presumidamente superior.
O filósofo Ferrater
Mora destaca que, em geral, se entende por monismo a sustentação de um só tipo
de substância ou realidade.[5]
Trata-se, por conseguinte, de uma forma
reducionista que afirma a existência de uma única substância ou realidade
cultural. O referido autor também salienta que o monismo atual pode vir
disfarçado como espiritualismo que sustenta a natureza e o mecanismo a que está
sujeito e os engloba numa teleologia.[6]
Tal espiritualismo parece não ficar
necessariamente restrito ao campo religioso e teológico, mas abrange até mesmo
formas materialistas e imanentistas, dada a sua dimensão finalista que justifica
a necessidade de mudanças a fim de que todos quantos vierem a ser assimilados
como diferentes, venham a absorver a concepção que se lhes impõe.
Sem entrar na questão religiosa ou filosófica
da relação de um Absoluto com a contingência humana, convém, contudo,
considerar o que Cirne Lima afirma a este respeito. Diz ele que a questão não é
a de discutir a existência ou a não existência de um Deus ou um Absoluto,
porque a própria contingência e a relatividade da nossa vida e da cultura já
constituem a prova evidente de um Absoluto, seja ele real ou estabelecido por
suposição.
Deste modo, mais interessante do que perguntar
sobre a existência ou não existência de um Absoluto, convém que se formulem
perguntas sobre a identidade que lhe é atribuída ou a identidade que este
Absoluto revela.[7]
O destaque das observações não quer
envolver-se em torno da transcendência que o Absoluto revela, mas, ponderar
sobre os atributos que as mentes humanas estabelecem como sendo a identidade
deste Absoluto.
O campo religioso dos diferentes credos
oferece uma bela ilustração de afirmações muito contrárias, mas, absolutamente
categóricas, que aparecem nos discursos do que Deus quer que se faça. Será que
é realmente Deus que quer isso, ou é a mente do pregador que pretende enquadrar
e mapear a vida das pessoas para que se submetam aos seus desejos ou ambições?
De uma forma muito similar, há os pregadores
no campo da economia, da política, do comércio e da agricultura. Basta lembrar
com que fervor eles reagem frente a alguns temas como reforma agrária e melhor
redistribuição dos bens simbólicos da cultura brasileira, melhores salários,
condições mais dignas para todos, etc., e como saltam ruborizados para
apologias de suas convicções e como se tornam afrontosos nos ataques, quando se
fala em direito dos índios, dos sem-terra, ou ainda, de outras categorias
sociais discriminadas.
Em
função destes atributos de instâncias superiores é que, costumeiramente, se
estabelecem teleologias, isto é, o grupo de acesso a estas instâncias, mapeia o
espaço e o tempo da vida das pessoas a fim de controlá-las e enquadrá-las para
o alcance desta finalidade.
Neste procedimento, porém, costuma-se usar uma
concepção Aristotélica que projeta Deus para fora do âmbito da organização da
vida humana e para fora do espaço e do tempo concreto, ao qual só o seleto
grupo de iniciados ou privilegiados pode ter acesso.
Pode ser um discurso que fala em nome deste
Deus e também uma afirmação imanentista ou secularizada que estabelece algo
absoluto e o impõe aos demais com vistas a uma teleologia para enquadrar a tudo
quanto é distinto do mapeamento que estabeleceu para os outros.
Parece, no
entanto, que o Absoluto, seja o da concepção religiosa de Deus ou o de um “Outro
Absoluto” imanente, inclui a imanência e vice-versa. Lima insiste na afirmação
de que: “Deus não está fora, ele está dentro. Ele não empurra de fora os
planetas e os átomos em suas órbitas. (...) Deus, o Absoluto, está no âmago”.[8]
Entretanto,
a colocação de um transcendente para além dos quadros da imanência, sempre
permite estabelecer uma teleologia.
Esta
situação prospectiva permite a supostos iniciados ou privilegiados, impor, em
nome desta teleologia, um mapeamento do espaço e do tempo que os demais devem
seguir, tanto para salvar-se, quanto para serem felizes.
Atualmente, ante as muitas e variadas
polêmicas discursivas em torno de modernidade, pós-modernidade,
pós-estruturalismo e pós-industrialismo, pode passar despercebido que, ao longo
dos distintos paradigmas culturais, permaneceu estável uma mesma concepção
monista.
É uma constante que apenas desloca o grupo dos
privilegiados que se auto-arrogam o direito e a condição de determinar, em nome
da transcendência absoluta ou imanentizada, o que convêm aos demais para se
sentirem integrados no seu mundo privilegiado.
Esta “cronotopologia”[9], presente
no mundo clássico grego, no mundo semita e em tantos outros do mundo antigo,
também se manifestou no pensamento cristão, na medida que este efetivou uma
síntese do pensamento grego com o semita.
O mesmo fenômeno seguiu inalterado na
modernidade e atualmente, de forma negativa, se apresenta na pós-modernidade.
São distintas formas colonizadoras decorrentes
de um mesmo finalismo que leva a estabelecer regras de vida e de ocupação de
espaço para tudo quanto se revela diferente, seja no modo de vida pessoal ou
cultural. Especialmente, quando representam ameaças aos privilegiados dos que
se denominam superiores na estratificação social.
Estas teleologias ocidentais tiveram sua
primeira expressão de alcance para além do âmbito europeu com o pensamento
cristão.
b) No encontro Jerusalém-Atenas
Do encontro da metafísica grega e
da espiritualidade semítica, que foi o de conceber a história como teleológica
e providencial do Deus Javé, nasceu a síntese da concepção do crisitianismo.
Não se deseja, aqui, ponderar sobre a questão
cristológica, mas, sobre o pensamento que a partir dos primeiros séculos da
Igreja Católica foi empreendido pelos pensadores do chamado período patrístico.
Tal como os gregos do período clássico, que se
auto-atribuíram uma superioridade em relação aos outros povos, os “santos
padres” passaram a interpretar o cosmos e o lugar do homem neste universo e se
sentiram na condição messiânica de marcar fronteiras para dizer quem se enquadrava
neste horizonte e, nisto, se sentiram imbuídos do direito de classificar os
demais como pagãos, que deveriam ou ser mortos ou integrados ao mundo
religioso.
Pensadores cristãos,
sobretudo nos primeiros 400 anos da Igreja, começaram a circunscrever novas
fronteiras com vistas a integrar a todos no seu universo ecumênico a fim de que
viessem a desfrutar dos privilégios da ação histórica de Deus.
Enquanto que na cultura grega alguém era
classificado de bárbaro, porque não pertencia à “pólis” (cidade) e aos seus
costumes, na concepção cristã, especialmente na do Santo Império e da
Cristandade, o critério de inclusão passou a ser o da aceitação no projeto de
Deus, realizado através da Igreja.
O novo “bárbaro” passou a ser identificado
como aquele que era interpretado pagão, herege e infiel.
A redefinição das condições de pertença
implicou numa nova tarefa para a história, porque Deus teria um plano que
poderíamos aceitar, mas, que implicaria em nova razão para a historicidade: a
de que cristãos precisavam fazer uma experiência subjetiva desta história de
Deus, o que levou à redefinição e à determinação de outros moldes de ocupação
do espaço e do tempo.
Assim, ser cristão implicava em nova forma de
encarar o temporal (não no sentido de tempestade, mas entendido como o processo
da vida). Deste modo: “o mundo histórico
e a historicidade da subjetividade e da sociedade gravitou em torno da história
divina de Deus”.[10]
A conclusão de que Deus estabeleceu um
referencial entre o Alfa e o Ômega, delimitou um quadro de ações humanas que
poderiam ser desenvolvidas para que esta história atingisse a finalidade
atribuída a Deus. Neste meio se estabeleceu uma condição de salvação: ou se
optaria por seguir uma história decadente que levaria à perda e à degradação,
ou se optaria pela proposta que auto-realizaria em Deus.
O peso da ameaça condicionou para que se
optasse por Deus, uma vez que a queda passou a ser interpretada como culpável e
não inocente. Todavia, o meio entre o Alfa e o Ômega poderia redimir, na medida
em que conferisse humanidade e ação à história de Deus.
Fez-se, para este fim, uma cronotopologia ou
um mapeamento do espaço e do tempo da vida para as distintas culturas e, todas,
precisariam adequar-se às exigências.
Assim,
o programa de evangelização passou a diminuir e a relativizar os outros
mapeamentos culturais e a impor o seu como superior, dada a sua estreita
vinculação com a transcendência.
A não
aceitação desta proposta redentora passou, então, a ser condenada como heresia
e como opção pelo caminho da queda, caminho irreversível para a condenação
eterna.
c) Modernidade: reapropriação
secular do mapeamento cristão
A
modernidade pode ser lida pelo prisma de uma auto-interpretação da sociedade
através da secularização da história divina proposta pelo cristianismo.
Nesta re-leitura, passou a ser estabelecida a
noção de progresso e a sustentação da diferenciação social das esferas de
valores dos sistemas e subsistemas sociais.
Tal como no cristianismo, onde se estabeleceu
uma diferenciação de cargos e mediações de santificação, a modernidade aplicou
um procedimento similar. Assim, como missionários cristãos que se proclamavam
no direito de evangelizar todos os povos no plano de salvação para Deus, surgiu
um grupo missionário secularizado que se estabeleceu na missão superior de
convencer a todos quantos estavam fora do progresso técnico-científico para que
se submetessem às suas sábias orientações salvacionistas, porque os levariam à
prosperidade, superação, progresso e felicidade.
Como os missionários cristãos passaram a
exportar uma transcendência divina e em seu nome se acharam no direito de
colonizar e mapear a vida das pessoas, estabelecendo-lhes os critérios do que
podiam e não podiam fazer, os “missionários” da modernidade, também se
apresentaram como humanitários que colocavam sua própria vida como sacrifício
expiatório a fim de que todos movidos por valores culturais distintos pudessem
redimir-se pela submissão aos planos do progresso, e, em razão disso, mapearam
tanto o espaço e o tempo quanto as condições geo-políticas, econômicas e
sociais.
Desta forma, a modernidade fez uma exportação
ou uma invasão de todos os âmbitos culturais para forçá-los a se submeter ao
progresso das inovações tecnológicas, pois foi movida por um conceito de
transcendência que, necessariamente, deveria ser assumido pelas nacionalidades
e culturas.
Na raiz da propalada revolução do progresso,
da liberdade, da democracia e da subjetividade, está um mapeamento
espacio-temporal cristão, porém, secularizado.
Se a
modernidade a partir de um centro referencial conseguiu afirmar-se e
proclamar-se como instância superior em relação às demais formas culturais,
estabeleceu uma programação de história e de historicidade para redimir a todos
na mediação estabelecida entre o Alfa e o Ômega.
A apropriação feita do mapeamento cristão
permitiu à modernidade estabelecer-se como mediadora da conversão-salvação.
Nesta atribuição religiosa secular, como na cristandade que circunscreveu um
campo salvífico e delimitou fronteiras para traçar o que era moderno e
obsoleto, primitivo e atrasado...
Se os atuais fundamentalismos religiosos nos
assustam com o radicalismo de suas mensagens de tele-evangelismo e em outras
mobilizações proselitistas para salvar primitivos, infiéis e perdidos do nosso
tempo, a modernidade faz o mesmo de outro jeito e que, aliás, aceitamos
facilmente sem nos assustar e sem maiores críticas.
d) Pós-Modernidade como mapeamento
negativo da Modernidade
Na decrepitude
e enfraquecimento das meta-narrativas ocidentais, sobretudo, as do cristianismo
e as da modernidade, criou-se sólida teleologia favorável às condições
salvacionistas.
Entretanto, se lembramos que, sob estes
signos, ocorreram indescritíveis genocídios de indígenas americanos,
escravização de africanos, “guerras santas” e as duas recentes e hediondas
guerras mundiais, estes meta-relatos simplesmente não puderam mais sustentar a credibilidade
porque ficaram muitíssimo aquém do que propuseram e não levaram nem para perto
do patamar de vida que prometeram.
Assim, de algumas décadas para cá, caíram em
descrédito estas teleologias, tanto religiosas quanto seculares, porque se impuseram
muito mais como terror do que como salvação. Afinal, em que acabaram as grandes
teleologias da modernidade?
Auschwitz,
Hiroschima, presença divina de um Deus salvador, progresso, superação,
declararam a morte de uma metafísica, mas, revelaram outras tão ou mais
funestas porque, sob o discurso da emancipação, efetivou-se uma espoliação da
maioria das pessoas humanas para o conforto e bem-estar de algumas poucas.
Da
constatação destes fatos contraditórios nasceu a ojeriza a tudo quanto é
teleológico.
Nasceu, assim, uma convicção de que a
valorização do momento presente, sem nenhuma meta-explicação para a
universalidade salvacionista das coisas e da vida, seria a melhor saída.
Tal como a cristandade havia delegado a certos
sujeitos o direito de traçar as condições de vida para os outros, os arautos da
modernidade também preencheram o espaço e o tempo com projetos que deveriam ser
assimilados pelos diferentes povos e culturas, porque foram estabelecidos em
supostos avanços tecnológicos e técnico-científicos que um pequeno grupo humano
dominava.
Deste modo, um pequeno grupo humano de
privilegiados que se mostrou pioneiro em avanços tecnológicos, como o da
informática, se viu no direito de apontar caminhos de salvação, mas apenas
colonizou.
A pós-modernidade, aparentemente muito
distinta nas propostas, passou a estabelecer o mesmo patamar, porque, ao negar
a possibilidade dos patamares da história, da metafísica e dos meta-relatos,
estabeleceu um novo mapeamento para a temporalidade: a da ausência de
fronteiras, a da valorização do “ hic et nunc” (do aqui e agora) e da ausência
de sentido para a vida.
Nesta proposta um tanto anárquica, está,
contudo, uma mesma finalidade teleológica, pois proclama que todos se
desvencilhem de seus valores religiosos tradicionais, de seus projetos de
superação, etc., e impõe a todos a regra do consumo globalizado.
Este despertar consumista oculta uma ação de
donos dos meios de produção e de informação, constituído na leva dos que “deitam,
rolam e gozam” diante da miséria alheia e ainda a induzem à dependência do mais
crasso consumismo.
X
A PERSPECTIVA DE UMA HUMANIDADE SIMBIÓTICA
A mistura de
traços étnicos, culturais e até regionais, que aqui são forçadas a se integrar,
aponta para uma realidade nada fácil. Adaptar-se a novas situações, sempre mexe
com as buscas de segurança e estabilidade.
A simbiose,
entretanto, indica algo que pode transcender a polarização entre cotidiano e
pensamento e até mesmo o sistema de vida capitalista hegemônico e que tende a
induzir muito mais para o parasitismo do que para hospedeiros acolhedores e
hóspedes que deixam um belo retorno pela hospedagem. Não poderiam as duas
forças culturais em crise de relações, o cotidiano e o pensamento,
constituir-se em bons hóspedes e cordiais hospedeiros?
A história humana já teve que passar por incontáveis
processos de integração, envolvendo agressões, guerras, deportações e formas
humilhantes de toda a natureza aos vencidos.
No duro embate destas forças humanas, ainda se passa
distante de outra adaptação, certamente, não menos difícil para se chegar a uma
convivência pacífica e de benéfica interatuação, e que, no mínimo, deve ter
levado milhões de anos.
Se hoje há encantamento com a fantástica complementariedade
dos sistemas de vida do organismo humano, a lógica de tal síntese, não poderia
indicar outras extraordinárias adaptações de harmonização de sistemas
diferentes, tanto físicos quanto culturais, para uma vida ainda mais complexa e
perfeita?
O engendramento dos sistemas de vida do corpo humano
certamente envolveu uma simbiose muito complicada e que só aos poucos foi se
ajustando a ponto de hoje se ficar maravilhado pelas formas de relação entre
hóspedes e hospedeiros que se adaptam no organismo.
Este fantástico
relacionamento no interior do corpo, indica que não será pelo caminho do
parasitismo que se vão harmonizar as diferenças culturais. A própria evolução
cultural também deve ter efetivado uma simbiose ao longo do processo evolutivo.
Sustenta-se,
atualmente, que o corpo humano, na verdade, é uma simbiose de distintos
sistemas e subsistemas de vida.
Tal horizonte de
entendimento da condição humana, poderia alentar para a privilegiada condição
de um ajuntamento humano de tantas diferenças. Pode, entretanto, a própria
perspectiva simbiótica, constituir-se num mito para justificar o sofrimento que
esta integração forçada requer.
Entre as muitas mega-teorias ou meta-relatos
universalistas, está uma que diz respeito à origem da vida humana. Ele aponta,
sobretudo pelo prisma da Arqueologia, da Paleontologia e da Antropologia
Cultural, para as explicações de que os seres humanos são frutos de uma
demorada evolução através de muitos milhões de anos.
Se tal dedução questiona diretamente as noções
criacionistas, segundo as quais Deus teria criado diretamente as pessoas
humanas, aparece como ainda mais ousada a sustentação de que a condição humana
é fruto e sobrevivência de uma longa e árdua luta e seleção natural em que
prosperaram os mais espertos e fortes.
Esta
perspectiva desconsidera a dimensão simbólica, artística, cultural e
mítico-religiosa, porque enquadra no mero mundo animal. Ela, no entanto, afeta as
concepções de homem, de vida e de cósmos.
Ainda
que do ponto de vista religioso possa ser admitido que o criacionismo, também
pode estar presente no grande milagre da matéria possuir em si as virtualidades
para gerar a vida, sobra uma contraposição difícil de ser conciliada: como
integrar a noção da luta pela sobrevivência e da seleção natural com a dimensão
solidária e humanista que visa promover pobres e excluídos, limitados e
doentes?
Querendo ou não, as mega-teorias sobre a
origem e a evolução se impõem em diversos campos do conhecimento humano, tais
como Física, Astronomia, Biologia, Bioengenharia, mas também na Filosofia e na
Teologia. Se, por exemplo, os dados da Astronomia de que os fótons (partículas de luz) que atingem
a retina de nossos olhos percorreram antes deste contato e, na velocidade da
luz, uma duração de 15 bilhões de anos, ficamos atônitos ante uma possível
imensidão de distâncias do universo.
Se, por outro lado, a Bioquímica oferece, com
rapidez e precisão, toda uma cadeia de estruturas do código genético (DNA),
então, fica difícil contestar o processo evolutivo que teria se engendrado na
Terra, a partir do caos que ali reinava, há cerca de quatro bilhões de anos
atrás, envolvendo uma mistura desordenada de vapor de água, nitrogênio,
monóxido de carbono, amoníaco, metano, monóxido de carbono e ácido cianídrico.
As buscas de entendimento da origem humana, no
entanto, não param de surpreender com novas deduções a respeito de como o
processo da vida humana pode ter sido engendrado. Joël de Rosnay (em O homem simbiótico - perspectivas para o
terceiro milênio. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997), por exemplo, sustenta que o
corpo humano permanece vivo, graças a um procedimento comensual (de hospedagem), onde um organismo vive de outro que lhe
dá abrigo e lhe devolve enzimas fundamentais para que também possa viver.
É
uma espécie de hospedagem em que ocorre a integração de muitos organismos, de
modos a formar uma associação de complementariedade.
Todos os sistemas de vida na Terra estariam
marcados por este tipo de relações simbióticas.
Tal inter-atuação se manifesta, de forma muito
clara e simples, entre animais e plantas. Os seres humanos, acabam ingerindo
proteínas que foram assimiladas por leguminosas que, por sua vez, vivem em
simbiose com micróbios, que eliminam azoto para nutrir as plantas.
Esta simbiose entre plantas e animais estaria
ocorrendo, de forma extraordinariamente simples, a partir da integração de dois
pigmentos: o verde da clorofila das folhas e o vermelho da hemoglobina que está
no sangue.
As folhas das plantas captam energia solar
através da fotossíntese que transforma água e gás carbônico em nutrientes
essenciais para a vida por meio de oxigênio e açúcares.
Os açúcares procedentes da celulose, amido ou
material básico dos vegetais, acabam, através da digestão, transformado em
glicose, esta que oferece uma reserva energética para a vida.
No processo de respiração ocorre uma combustão
que queima o oxigênio que está na hemoglobina e disso resulta a eliminação de
gás carbônico, vapores de água e sais minerais, que novamente voltam a
alimentar as plantas.
Enquanto que as células das plantas verdes,
através dos cloropastos da clorofila
captam a energia solar, as células dos organismos humanos contêm no DNA as centrais chamadas mitocôndrias que fabricam a energia que
alimenta as células.
A
simbiose das mitocôndrias e dos cloropastos revela uma história de amor
muito interessante, pois, as mitocôndrias são antigas bactérias, enquanto que
os cloropastos, são antigas algas.
São, pois, sistemas de vida completamente
distintos que, ao longo do tempo, se associaram e se tornaram tão dependentes
um do outro, a ponto de um fornecer energia e acolhida para o outro.
Algo
similar ocorre com a digestão de todos os seres herbívoros, possuidores de
bactérias no aparelho digestivo e que tem uma enzima capaz de decompor a
celulose para transformá-la em fonte de oxigênio através da fermentação.
Estas
regras de aglomeração existentes nas diferentes condições da natureza, permitem
a formação de sistemas e sub-sistemas que, aos poucos, vão se tornando cada vez
mais complexos e progressivos.
É o caso das redes de partículas, átomos,
moléculas e células do organismo humano. Não seria tal condição um indicativo
de que no organismo humano, um dia possam ser absorvidos os aparelhos mecânicos
e eletrônicos?
Se
a existência humana é uma confirmação das regras de aglomeração ou da simbiose
de distintos sistemas ou sub-sistemas de vida e, se estes aprenderam a conviver
pacificamente ao longo da história em que o planeta Terra se engendrou para
culminar na existência humana, podem tais indícios apontar que há razoáveis
possibilidades de que, num processo, daqui para frente, possam integrar-se
máquinas aos sistemas da vida humana.
Assim
como redes interdependentes dos sistemas de vida acabaram constituindo
organismos humanos a partir de uma estreita faixa de elementos químico-físicos,
como água, luz, atmosfera e temperatura, não seria tal história um indício
evidente de que outras redes, como a de máquinas possam ser assimiladas no
organismo humano?
Seria,
deste modo, possível projetar um cibionte,
síntese de ser humano com máquinas e a macro-vida existente no universo?
XI
AFINAL, NÁUFRAGOS OU ASTRONAUTAS?
No jogo do cotidiano e do pensamento parece encenar-se um
instigante enredo, envolvendo a contraposição do astronauta e do náufrago.
A contraposição, no entanto, está, aparentemente, favorável
para a tese de Jean Jacques Rousseau, sugerindo que cada indivíduo deveria ser
como um leão solto na mata. Só que os leões astronautas avivam a fábula de
Esopo, segundo a qual, um leão, um burro e um lobo se juntaram para fazer uma
caçada. Sem demora conseguiram caçar um veado. O leão logo deu uma ordem ao
burro:
- Você
reparte, agora, a caça!
O burro fez, então,
três partes iguais. O leão, ao ver tal senso de justiça, saltou sobre o burro e
lhe arrancou as orelhas com duas patadas. Foi então, ao encontro do lobo, e lhe
deu uma ordem:
- Reparta
você a nossa caça!
O lobo tomou as partes e as entregou ao leão. Foi, então, que
o leão exclamou:
- Mas como você é justo! Quem é que te ensinou tal senso de
justiça?
- O lobo retrucou: o Doutor de cabeça vermelha, ali do lado
(a cabeça do burro ensangüentada...).
A fábula permite deduzir que o despotismo de alguns
vanguardistas da exclusividade do pensamento representou realmente uma perfídia
ao senso de justiça que as grandes massas humanas precisariam sentir. Ainda que
eventuais sujeitos reprovem a atitude do leão, acabam considerando a lição do
burro apenas pelo medo e se tornam lobos resignados, que nada fazem em função
do que sonham ganhar, atrelados aos leões.
O astronauta, aquele
que tem acesso à ponta da tecnologia, que tem dinheiro e acesso a recursos de
financiamento, olha para frente com um olhar auto-suficiente, esperançoso e
sabe que a argúcia das suas capacidades o levará a descobrir novas fronteiras.
Sabe que o adequado manejo dos instrumentos o conduzirá, impreterivelmente, ao
sucesso. Ele não se pergunta a respeito da forma como conseguiu seus
privilégios e, pouco se importa com tudo quanto envolve ética na política,
valorização das maiorias excluídas e avanços na justiça social. Sua ambição o
torna atento para novas possibilidades e avanços na conquista.
Para o astronauta, o privilegiado por excelência das
profundas transformações tecnológicas dos últimos tempos, o que realmente lhe
dá status, é a cultura norte-americana. Esta lhe oferece uma perspectiva
otimista do futuro. Aconteça o que acontecer, ele somente vê o progresso pela
frente e a possibilidade de abarrotar-se com muitas riquezas, uma vez que
eventualidade de falhas nos instrumentos eletrônicas que utiliza, são muito
reduzidas. Ainda que a grande maioria dos brasileiros, quais náufragos à
deriva, estejam se dando mal, ele move-se pela certeza do triunfo e do êxito.
Já vive a paixão da vitória e vê que nem é conveniente misturar-se muito com os
mortais que pendem para o fracasso.
O astronauta adora a ciência, a tecnologia, a globalização,
porque estes campos lhe asseguram todos os dias, bons augúrios e um sem número
de vozes proféticas dando garantias de êxito. A televisão torna-se um aliado
excelente, porque ela dispensa cultos religiosos, para fazer, todos os dias, um
imenso e intenso culto ao sucesso pessoal das pessoas. Trata-se de um culto
incomparavelmente mais agradável e fácil do que pensar num Deus que espera
solidariedade humana e a ruptura das fronteiras que separam, por valas
intransponíveis, as classes sociais e as castas enclausuradas para melhor
assegurar suas ambições.
A revolução tecnológica é um credo de respostas evidentes,
imediatas e sensacionais que dispensam mecanismos de paz e de qualidade
existencial. Tampouco os conflitos envolvendo as questões centrais do gênero
humano, com pobreza, ignorância e exclusão, conseguem sensibilizar para algo
mais humanitário. O que o move o astronauta é outra humanidade, a que ele vai
conquistar nos rumos da audácia, nos quais o céu equivale a prosperidade.
O lado do americano onipotente do “astronauta” brasileiro,
revela, todavia, uma incontida fragilidade, porque se move por uma cultura
importada, imitada, e este caminho, só pode gerar salvação no campo da
fantasia.
O reverso desta medalha do astronauta conquistador mostra a
realidade de milhões de pessoas que se vêem inseguras, desamparadas, quais
náufragos em alto-mar... Só percebem ondas cada vez mais elevadas de
adversidades, tratamentos ríspidos, falta de atenção, de amparo, de companhia,
de uma mão estendida e, que desejam ver apenas uma coisa: visualizar terra
firme e próxima para evadir-se do turbilhão das águas que ameaçam subsumir suas
últimas forças. Esperam, ardentemente, que alguém os perceba e, que os ampare e
que lhes jogue uma bóia para não sucumbir. Seus eventuais sonhos e clamores por
justiça social, no simbólico e desconcertante contexto do naufrágio, não lhes
propiciam nenhuma segurança, nem por vias políticas, nem éticas e nem mesmo
religiosas. Tampouco seus ideais de solidariedade, envolvendo outros excluídos
ou a recuperação das instituições em crise, sensibilizam os constructos mentais
dos que regem a vida pública em função dos poucos “astronautas”. Sobra-lhes
apenas um estado enfadonho, desesperado e sem horizontes de salvação efetiva.
Para os náufragos, sobretudo os desta imensa América Latina,
o êxito dos astronautas consegue exercer um fascínio implacável e uma
verdadeira vertigem. Aparece-lhes como a antecipação do céu, capaz de romper
seu inferno de desemprego, de violências, de protestos, de drogas, mas este
fascínio é cruel, pois não se deixa agarrar. É como o joguinho eletrônico de
clicar sobre um objeto que salta longe quando se pretende clicá-lo. Ainda que
este jogo desperta a teimosia, apenas aviva imagens de outro cenário, mas, que
não consegue esconder o real das frustrações profundas que eclodem nos olhares
e das marcas indeléveis de rostos que já perderam a auto-estima. Ficaram tão
reduzidos na sua condição humana, que somente conseguem ver o imediato. Se
alguns ainda erguem e balançam os braços ao céu, para bendizer a Deus porque
continuam vivos e porque ainda sonham com salvação, precisam mesmo é de mais
espaço na casa, mais comida, mais educação e mais condições para tratar os
limites provocados por doenças.
EPÍLOGO
Se o avanço do
pensamento, tão endeusado pelo setor técnico-agro-industrial da nossa região,
ameaça o cotidiano da maioria dos cidadãos comuns, deixa, contudo, uma
inquietação mais ampla no ar: quem pode pensar e o que pode ser pensado? Em
outras palavras, quem pode inovar e mudar?
Em tempos
antigos, o avanço do pensamento sempre implicou na participação política e na
capacidade de tomar a liderança para serviços e avanços comunitários.
Política consistia em ação para o bem-comum.
Por isto a educação escolar acadêmica sempre tinha a ver com condições de
trabalho e cidadania, ou seja, envolviam uma dimensão política.
No estudo ou na especialização de alguém,
pesava uma hipoteca social, isto é, o avanço do pensamento era revertido para o
crescimento de uma comunidade. Até em tempos não muito distantes, as famosas
professoras normalistas ofereciam ricas ilustrações de um pensamento
aprimorado, mas, que sempre implicava em maior auto-estima da comunidade, não
só pela beleza e modo delicado, simpático e serviçal das jovens professoras,
mas, também, porque elas tomavam a frente em tudo quanto favorecesse os
diferentes âmbitos de uma comunidade, fossem eles recreativos, organizacionais,
celebrativos, religiosos, políticos, etc.
Atualmente
parece que o sistema escolar empobreceu o sentido educacional a tal ponto que
ele apenas é mediação para mão-de-obra de certo sistema de organização social
capitalista e onde certo grupo, fechado em sua concepção bairrista, procura
perpetuar-se no poder, mesmo quando sua função já se encontra completamente
defasada. Há um fechamento radical para o que representa reordenamento do
quadro estabelecido. Daí a peculiar resistência a tudo quanto vêm de outras
regiões e que poderia representar eventual mudança no modo de ser.
A perda da
função política no cultivo do pensamento é certamente uma lacuna grave dos
nossos tempos.
Os espaços
acadêmicos que preparam e reproduzem o pensável, acabam estabelecendo limites e
diretrizes a respeito do que cada campo de ciência pode e não pode dizer e
fazer.
Neste jogo, normalmente não entra a noção da
comunidade real, a que revela desigualdade profunda entre cidadãos
privilegiados e os que não contam na sociedade, entre os que podem gritar e
falar alto aos ouvidos dos demais e os que necessariamente só podem escutar.
Não entra em pauta a sujeira da rua, a imundície jogada nos terrenos baldios, a
conservação de árvores, flores e ornamentos, a conservação dos córregos, enfim,
atenção à flora, fauna e ao ar que se respira, para que tudo isso seja algo a
somar qualidade de vida. Significa que, nem o cotidiano consegue manter vida
autônoma, porque a invasão da racionalidade chega a tal requinte, que não
invade apenas os espaços sociais de comunicabilidade, mas, até mesmo as frestas
mais abscônditas do inconsciente e da subjetividade dos indivíduos.
Se o “trem”
que faz todos sonhar com uma cidade maravilhosa e uma região paradisíaca,
permite que somente alguns poucos cheguem ao paradeiro final, o que, então, vai
acontecer com os outros que são forçados a conformar-se, a desistir do ideal e
a resignar-se numa condição servil de salários sub-humanos?
Enquanto que
as recepções da etiqueta encobrem os desencontros reais do “Eldorado”, muito
caminho de aproximação humana ainda precisa ser percorrido para que a
cordialidade seja expressão de um estado de bem-estar generalizado, e este
certamente nunca vai ocorrer sem maior distribuição dos bens materiais e
simbólicos da nossa cultura.
Na medida em que uns se fecham em condomínios,
em lugares à parte, ainda que melhor assegurados do que outros contra roubos e
invasões, não estarão imunes e ilesos de um cotidiano de violência que já se
instalou devido ao infeliz processo de discriminação racial e cultural.
Se a defesa do
singular deve ser preservada ante a invasão massiva do plural das novidades e
mil excentricidades que a indústria de consumo cultural despeja aos borbulhões
sobre as mentes humanas, não poderá, no entanto, consistir em mera auto-defesa
passiva de condenação do diferente.
O lazer, tão
fundamental para o equilíbrio humano, não pode ficar restrito a seletos grupos
e ambientes, mas deverá ser uma condição para todos os espaços da vida urbana.
Do contrário,
o avanço da racionalidade, mesmo avançando em pontas do insondável mistério da
vida, com a bioengenharia e tantos avanços da simbiose humana, possível com
máquinas e outros mil inventos, ficará devendo uma razão para vencer o tédio, a
nova doença dos espaços urbanos que se afirmam nos ideais da racionalidade.
A questão capaz de integrar o cotidiano e o
pensamento passa imprescindivelmente, pela dimensão ética. O avanço do
pensamento precisa apresentar uma proposta para a formação da subjetividade
humana e para apontar uma identidade, tanto cultural, quanto social e pessoal.
Sem este horizonte, existe algum lugar de onde se possa esperar formação de
trabalhadores críticos, políticos e comprometidos para uma qualidade social e
não apenas para seus interesses pessoais?
Em suma, no
limiar ofuscado do cotidiano e do pensamento, precisa-se redescobrir uma nova
proposta ética e política para a convivência urbana. Em outras palavras: não
está faltando um rosto mais definido e delineado para um corpo tão bonito que é
esta cidade?
[1] CAMARGO, Luis Octávio de Lima. Quando o lazer se transforma
[2] Idem, p. 7-8.
[3] Diante desta rivalidade, torna-se
oportuno o lembrete de um ditado popular: “Deus perdoa sempre; as mulheres e os homens,de vez em quando, mas a
natureza, não perdoa
nunca”. A Biologia também sustenta que toda precocidade
sempre implica em antecipação do fim, até mesmo na questão sexual, da
genialidade ou de habilidades
psico-motoras...
[4] BRUGGER, Walter. Dicionário de Filosofia. Barcelona: Herder,1983, p. 375-376.
[5] FERRATER MORA, José. Dicionario de Filosofía. Madrid: Alianza, p. 2.262-2.264.
[6] Idem, p. 2.263.
[7] LIMA, Carlos Cirne. Dialética para Principiantes. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996, p. 219.
[8] Idem, p. 226.
Dizer que Deus está dentro e no âmago da vida, é algo distinto do que
afirmar que tudo é Deus, uma forma chamada panteísta.
[9] Termo que Eduardo Mendieta usa no texto Modernidad, Posmodernidad y
Transmodernidad: una busca esperanzadora del tiempo. In: UNIVERSITAS
PHILOSOPHICA, 27, (p.63-86), deciembre 1996, Bogotá, Colômbia.
[10] MENDIETTA, Eduardo, op. cit. p. 73.