quarta-feira, 4 de novembro de 2026

PECULIARIEDADES DE UM VIVENTE

 

Introdução

O assunto aqui abordado, se refere a situações vividas por uma pessoa humana comum, mas que, num itinerário um tanto distinto daquele que seu habitat lhe apresentou, quis ser padre da Igreja Católica. Na lógica da comunidade, poderia ser mais um futuro agricultor de minifúndio, como seu pai e os demais membros da comunidade.

Por uma razão pouco comum, e merecedora de escárnio implacável dos colegas de escola, ele persistiu na busca das mediações para ser padre. Tal desejo moveu-o a sair da comunidade, com 13 anos de idade, a fim de prosseguir nos estudos que eram requeridos para o ministério de padre. A escolha implicou em deixar os pais, os oito irmãos e avançar nos estudos com vistas ao ideal almejado.

Como padre, encontrou outros percalços, mas, também outras mediações para se sentir muito realizado naquilo que quis ser, desde menino pequeno.

1

IRRUPÇÃO DA SUA VIDA

 

            Corria o ano de 1951. No pequeno povoado de Cunhataí, parte do então primeiro distrito de Chapecó, São Carlos, no Estado de Santa Catarina, moradores advindos de diversos lugares de descendência alemã, começavam a desbravar a mata intensa para transformar suas áreas em condições de produzir alimentos de subsistência daquelas famílias pobres. Na casa de Lúcia Sulzbacher e Teobaldo Kolling, pequeno espaço do galpão servia de moradia. O resto era ocupado para estábulo, chiqueiro de porcos e lugar para os objetos de trabalho, como carroça de bois e arado. Mesmo na pobreza extrema, viviam da intuição de trabalhar muito, produzir, melhorar e, com uma grande família, realizar-se na vida.

            O ano anterior, 1950, foi de grande estiagem e praticamente nada pode ser colhido na lavoura. Alargou-se, todavia, a esperança de ampliar a família, em vista de um futuro de melhores condições de vida. Salete, a primogênita do casal, contava com um ano de vida e levou muito tempo para fruir sabores de árvores frutíferas com seus fartos nutrientes. Neste contexto, foi concebido e gestado mais uma criatura humana, que viria a ser chamado de João Inácio. O período de gestação correu no clima da mata envolvente e vizinhos distantes.

            O mês de outubro, aumentou as expectativas em torno do nascimento do esperado menino. Surgimento das dores de parto fizeram o Teobaldo ir até a parteira para que viesse acompanhar o serviço de parto. Passou-se o tempo previsto e as contrações de parto sossegaram. Lúcia desconfiou que algo errado acontecera e que o menino poderia ter morrido no útero. Uma semana depois, voltaram as dores de parto, e a cantilena repetitiva da parteira consolava Lúcia: “cada criancinha tem a sua horinha”. Três senhoras vizinhas acompanhavam o serviço de parto. Longas horas de desespero não evidenciavam a dita horinha do menino. Quando, enfim, foi puxado para fora, à força, - na noite escura do dia 19 de outubro de 1951, - sob a impressão de que já estava morto, as mulheres se empenharam para salvar a vida de Lúcia e deixaram o menino, já considerado morto, de lado. Depois de algumas horas, uma das senhoras foi colocar a mão sobre o peito do menino, todo machucado, e percebeu que o coração ainda batia. Falou às demais, e resolveram dar-lhe os devidos cuidados.

            Lúcia ao ser informada de que o menino respirava e estava vivo, lembrou-se da última missa em que esteve presente, e ouviu o padre jesuíta falar do padre João Batista Reus de São Leopoldo, RS, venerado como santo; e de Santo Inácio de Loyola, e, naquela inusitada hora, decidiu que o nome do menino, em memória aos dois santos que invocara para serem intercessores de bom parto, seria João Inácio.

            Poucos dias depois, o menino começou a apresentar febre alta e a passar muito mal. Não tinha como pensar em ir até um médico, pois, o mais próximo levaria meio dia de andança de cavalo, e implicaria, em mais meio dia, para o médico vir montado em outro cavalo até a casa. Provavelmente a oração de Lúcia e seu desejo em favor da vida de João Inácio prevaleceram sobre as ameaças de óbito.

            As horas inconscientes na longa noite escura do dia 19 de outubro, deixaram a marca indelével na vida do menino: provável trombose no lado direito do corpo e uma lesão pulmonar de asma, de formas que, somente a parte superior do pulmão absorve ar. Por graça ou muita sorte, o sangue se recanalizou por veias periféricas do corpo. Já a questão pulmonar, dificultou corridas em prática de esportes, permanência em ambientes mofados, úmidos e de poeiras.

            O menino, mesmo assim, agraciado com o elã vital dos pais, foi crescendo na aparente normalidade. Passou a ser identificado como Joãozinho. Tornou-se esperto, ágil e de fácil aprendizagem. Muito cedo estava familiarizado com as lidas de tratar porcos, bezerros, cavalos e galinhas. Com cinco a seis anos, era capaz de ir montado sobre um saco de milho no lombo de um burro até o moinho, para retornar com farinha. Criou gosto e curiosidade por tudo. Debulhava meio saco de milho com as mãos e garantia que não faltasse a farinha do pão de cada dia em casa. O pai o erguia sobre o burro e ele ia ao moinho. Depois do milho transformado em farinha, o “moinheiro” e erguia novamente sobre o burro, e ele voltava feliz para casa. 

Aos sete anos começou a frequentar a escola, pois antes de sete anos não era permitido ir à escola. Como todos os moradores da comunidade, nem o professor sabia falar na língua portuguesa. As aulas eram dadas na fala do dialeto alemão “Hunsrick”. Até a quarta-série, do então curso primário, João sabia algumas palavras isoladas em português, como faca, garfo, mas, não sabia utilizar verbos para eventual fala na língua vernácula. Como desejava ser padre, teria que ir para um seminário, uma vez que a escolaridade em Cunhataí e, demais comunidades, ia até a quarta série do curso primário.

O pai de João Inácio negociou com outro morador, que possuía um jipe, para levar o menino até Maravilha, SC, viagem longa e difícil de cerca de sessenta quilômetros que durou mais de meio-dia, através de estrada precária, no meio de muito mato (hoje, 25 km de rodovia asfáltica). Maravilha, naquele ano de 1964, era uma pequena vila, escondida por imensos pinheirais a se perderem de vista. Não existia luz elétrica e, no alto do morro, ficava o seminário, um prédio de três pisos, feito de madeira, que emitia muitos estalos e rangidos diante dos ventos e tempestades.

 Se o desejo de ser padre era forte e alentador, a dificuldade incrível foi a de não saber falar em português e sofrer intenso “bulling” por parte de outros 23 meninos. Para João Inácio, “p” e “b” eram iguais; o “s”, “c”, “ç” e “z”, também se configuravam como totalmente similares na pronúncia e na escrita. Como a maioria dos meninos seminaristas era de procedência italiana, o pobre João Inácio virou o “bode expiatório” da descarga coletiva. Embora fosse muito bem na aprendizagem e nas provas, não se escapou da condição de vítima de expiação do grupo de meninos, entre onze e treze anos de idade.

No ano seguinte, viria a entrada para o curso ginasial. Foi para Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, onde a crueldade do “bulling” se potencializou ainda mais, pois, ali ficava entre 230 outros meninos a cursar o curso ginasial. Embora não se conhecesse o termo, o processo de descarga coletiva contra alguns meninos, era extremamente perverso e implacável. Grande parte dos meninos desistia do seminário diante da pressão grupal que escolhia vítimas aleatórias e descarregava suas maldades, agressividades, projeções e sadismos sobre estas vítimas.

O período ginasial, entretanto, transformou o Joãozinho em “João Grandão”, pois, sua altura chegou a um metro e noventa e um centímetros. Isso facilitou algumas auto-defesas diante de provocações, porquanto aprendeu a resolver algumas questões na força do braço e reduzir ações de “bulling”.

 

2

LONGO TEMPO BOROCOXÔ

 

Sem jamais ter conseguido entender como permaneceu em ambiente tão hostil e adverso, como aquele dos seminários, o fato de desejar a vida de padre sempre falou mais alto do que as limitações do ambiente nada cordial. Percebeu que ninguém dos que mais o humilhavam, seguiu por longo tempo no rumo da vida presbiteral. Tristonho, isolado, melancólico e pouco amado, cruzou pelos anos de teimosa e dura resistência, e tornou-se determinado na sua capacidade de resiliência, vendo os agressores seguindo outros rumos de vida pessoal.

Ao frequentar o curso científico, nível de segundo grau, descobriu alternativas para contornar o “bulling”. Trabalhava numa leitaria, para custear parte dos seus estudos e com isso, morando à parte dos demais, aprumou-se numa vida mais autônoma. Como as aulas eram frequentadas em colégio público estadual, sentiu que não precisava humilhar-se diante de ninguém e, por ironia, foi quem obteve as melhores notas em Português, a ponto de causar inveja nos demais.

Vencida a etapa do curso de Segundo Grau, já na Universidade, foi deixando seus colegas para trás, tanto no português, quanto no destaque em outras disciplinas, sobretudo, na Psicologia e Filosofia. Dali em diante, já sem a adversidade dos tempos passados, passou a acreditar ainda mais em si e nos seus variados dotes de estudo e de versatilidade em diferentes serviços. Se o tirocínio do seminário o moldou para a rigidez da lida cotidiana, também o sensibilizou para apostar em outro jeito de convivência do que aquele da lei bruta que segregava e eliminava pelo extravasamento do caciquismo sobre vítimas expiatórias no meio do grupo.

Com ele, sobrou um pequeno e insignificante resto a apostar na vida presbiteral. Este grupo de sete membros, seguiu estudos de Teologia na PUC de Porto Alegre. João Inácio foi ordenado presbítero no dia 09 de dezembro de 1979. Iniciou sua lida de padre em Rio Pardo, RS, como formador de 80 seminaristas de Segundo Grau e auxiliar em trabalho pastoral. Depois de apenas dois meses, jogando futebol, torceu o joelho direito e rompeu os ligamentos, de formas que o joelho se dobrava para qualquer lado.

Depois de meses de andanças com massagistas, foi a um ortopedista e constatada a ruptura, este, procedeu uma intervenção cirúrgica, que acabou infeccionando, devido a contaminação de Stafilococo da sala cirúrgica. Meio ano de curativos e nova cirurgia, nada resolveram para estabilizar o joelho. Seguiram-se mais duas outras cirurgias, que também infeccionaram e nada resolveram. João Inácio foi, então, parar com os médicos do Grêmio, em Porto Alegre. Uma quinta cirurgia, para reparar estragos de outros médicos foi feita, na perspectiva de uma sexta cirurgia de enxerto de fibra importada dos Estados Unidos. Como a cirurgia causou trombose na perna direita, a prevista sexta cirurgia, foi com um angiologista para extrair a veia safena, e a do enxerto, até hoje não saiu. Em compensação, a sétima cirurgia foi efetuada no joelho esquerdo devido à compensação em razão da instabilidade do joelho direito. Viria ainda uma oitava cirurgia no pé direito, pois, a sequela das muitas cirurgias desalinhou o pé e acabou em fratura de um osso que exigiu colocação de pinos e novo alinhamento do pé.

A limitação, que implicou em anos de andança com ajuda de muletas, forçou uma reorientação nos rumos da vida e direcionou para uma atividade de poucos deslocamentos físicos. Especialização em Psicopedagogia, facilitou as Entrevistas de Ajuda e orientação pessoal, com alguns milhares de atendimentos. Mestrado em Antropologia Filosófica na PUC de Porto Alegre e Doutorado em Filosofia na cidade de Santiago de Compostela, na Espanha, deram suporte para lecionar em diferentes cursos superiores.

Finais de semana variavam as rotinas com celebrações religiosas em vilas pobres.

           

3

ESCREVEDOR DE TEXTOS

 

A alta instabilidade do joelho levou João Inácio a achar novo meio de interação com pessoas. Escrever textos se afigurava como um modo discreto e viável de chegar a outras pessoas. Assim, escreveu ao longo dos três primeiros anos de padre, 150 textos publicados no jornal “A Folha” de Rio Pardo. Depois, na cidade de Passo Fundo, RS, como professor e diretor de uma Faculdade de Filosofia, passou a lecionar grande quantidade de disciplinas acadêmicas.

Além dos limites de locomoção, enfrentava constantes crises de asma e de rinite alérgica. Tratamentos e remédios caseiros, apenas contornavam parcialmente os problemas respiratórios. Sob orientação médica, migrou para o centro-oeste, mais precisamente para Rio Verde, em Goiás. Ali se viu livre dos Aerofagóides e Fagocitóides, micro-organismos típicos da região do planalto rio-grandense, mas, nos períodos de seca, o centro-oeste também o causticava com a fumaça das queimadas de cerrado e do ar seco.

A região do sudoeste goiano, em compensação, ofereceu a João Inácio uma surpresa para caminhar, sem cair a toda hora, devido à instabilidade do joelho. Uma freira norte-americana, chamada Dolores, retornou de suas férias, nos Estados Unidos, e, como se tratava contra um câncer no seio, trouxe junto um frasco de 500 comprimidos de Glicosamina (de 1500 mlg). Ao suspeitar que poderiam interagir negativamente no combate ao câncer, doou esta medicação ao padre João Inácio. Ele, ao se inteirar das indicações, resolveu tomar estes comprimidos, pensando que, caso não ajudassem, mal também não fariam; e, constatou que os comprimidos aumentaram paulatinamente a cartilagem do joelho e estagnaram a artrose e o aumento de folga entre as juntas, a tal ponto que, em meses posteriores podia caminhar normalmente sem falsear neste joelho. Mediação inesperada, permitiu progressiva evolução de caminhadas que chegaram a dez quilômetros sem efeitos colaterais.

Muita mistura sincrética da religiosidade nesta região de Goiás, moveu João Inácio a criar uma Faculdade de Teologia, com perspectiva de agregar outros cursos como Antropologia, Filosofia e Sociologia.

Os encaminhamentos do projeto tramitaram no MEC e, quando já se esperava a aprovação final, apareceu um obstáculo: a área das Faculdades, adquirida por comodato da Diocese de Jataí, não tinha escritura registrada em Cartório, pois, fora anexada à Diocese, por intervenção da Nunciatura da Igreja Católica, mas, sua validade não fora reconhecida pelo MEC. Fez-se, então, uma parceria com a Faculdade de Teologia de Boa Vista para convalidar o curso de Teologia. Tudo ia muito bem, e os professores, praticamente todos vindos dos cursos de Doutorado da Universidade Católica de Goiás e, - como alguns deles eram visitadores do MEC, - alertaram sobre a iminência do MEC suspender convalidações de cursos superiores. Depois de dez anos de atividades, para não correr o risco de ser surpreendido repentinamente e ter que indenizar os alunos, deixou-se de abrir vagas para novas turmas e, depois de três anos, encerrou-se a Faculdade de Teologia.

Os frutos da Faculdade foram enormes e ainda repercutem beneficamente na região através de lideranças católicas competentes e de bom nível de conhecimentos teológicos.

Padre João Inácio migrou, então, para Lucas do Rio Verde a fim de lecionar em curso de Mestrado a ser oferecido para professores do “Nortão” do Mato Grosso. A liberação do curso dependia apenas da rubrica do Ministro da Educação, mas, até hoje, ainda não foi liberado por questões políticas. João Inácio lecionou em outros cursos, por um ano e meio, e ao completar o tempo necessário para aposentadoria, deixou o magistério e se ofereceu ao bispo de Diamantino, MT para atuar, por algum tempo, em alguma paróquia. Foi destinado a ser o primeiro pároco do Município de Santa Rita do Trivelato, localizado a 560 km acima de Cuiabá. Quando a paróquia já estava em bom andamento, depois de dois anos, o bispo pediu para que João Inácio iniciasse outra paróquia nova na cidade de Tangará da Serra, MT, a quinhentos quilômetros de Santa Rita do Trivelato. Tudo ia a mil maravilhas nesta nova paróquia, imensa, com comunidades a mais de 150 km de distância por difíceis estradas rurais, e, antes mesmo de completar um ano, João Inácio foi convocado pelos bispos do Mato Grosso para assumir a direção das Faculdades Católicas do Mato Grosso, em Cuiabá. Após muita resistência, aceitou o encargo, mas, ao chegar lá, foi boicotado por um grupo de professores e alunos de perspectiva muito distinta. Ao lecionar no curso de pós-graduação em Catequese naquele ambiente, e proferir algumas palestras para os padres do Regional do Mato Grosso, a avaliação de seu perfil e de sua visão de Igreja, devem ter sido pouco agradáveis aos ouvidos mais conservadores.

Padre João Inácio informou o bispo e resolveu não se desgastar naquele ambiente. O bispo ofereceu-lhe uma permuta para que Padre João Inácio fosse a Guarapuava, no Paraná onde o bispo era seu colega desde a infância e outro padre dali retornaria à sua diocese.

Em ambientes de pouquíssima leitura, tanto no Mato Grosso quanto no Paraná, João Inácio, voltou a escrever artigos acadêmicos e textos variados, publicados num BLOG. Os poucos acessos, levaram-no a mudar o modo de apresentação dos textos, e passou a escrever pequenos poemas. Estes alcançaram um alcance um pouco maior. O tempo foi passando, e ele já escreveu e postou mais de mil e quinhentos textos no seu BLOG e escreveu mais de cinquenta livros. Atualmente seu BLOG chega a uma média em torno de mil acessos diários. O curioso é que apenas alguns poucos acessos ocorrem no Brasil e os demais, vem ocorrendo a partir de todos os lugares do planeta. Em Guarapuava, depois de atuar, por diversos anos, numa paróquia urbana, apresentou-se para iniciar mais uma paróquia nova: seria uma paróquia rural, compreendida pelo distrito do Guará, vinte quilômetros adiante de Guarapuava no rumo de Curitiba. Foi uma experiência muito gratificante, iniciar uma paróquia com dez comunidades rurais, todas elas compreendidas por assentamentos de Sem-Terra. Povo pobre, humilde, mas, de coração extraordinário e generoso. Seria o lugar para ficar velho até uma ditosa velhice. Entretanto, fez emergir dois problemas: asma e rinite constante devido à altitude de 1250 metros e agravamento de hérnia cervical devido à andança em estradas de péssimo estado de conservação. Como os moradores não tinham suas terras legalizadas e não pagavam impostos, a prefeitura também não arrumava as estradas.

A criação da paróquia São José foi uma experiência maravilhosa e gratificante, mas, os limites da saúde falaram mais alto: pediu ao bispo para entrar como “velhinho aposentado” e ficar na reserva. Voltou a residir em sua terra natal de Cunhataí, SC. Ali, depois de dois anos, foi convidado pelo arcebispo de Chapecó para ser vigário paroquial na Catedral. Com apenas meio ano de atuação, foi convocado para substituir o pároco da Paróquia São Cristóvão de Chapecó, acometido por câncer e que precisaria submeter-se à extração do estômago e tratamentos de quimioterapia e imunoterapia.

 

4

PENSAMENTOS E CONTROVÉRSIAS

 

Quando o “bulling” ficou para trás, veio a contrariedade, acompanhada de muitos ataques por causa de pensamentos filosóficos. Como professor de Filosofia, João Inácio se viu obrigado a ler muitos livros como os de Marx, Feuerbach, Hegel, Engels, Altusser, Gramsci e tantos outros pensadores modernos a fim de poder discutir com os alunos, muitas questões que eles levantavam nas aulas. Mesmo sem nunca ter se pensado marxista, teve que ouvir muita afronta de padres, precipuamente formados no pensamento tomista medieval.

Quando algum seminarista desistia no meio do curso de Filosofia, o comentário calunioso se tornava imediato: “Também! Só se estuda marxismo na Faculdade”. Os opositores, que se formaram com um único manual tomista, nem se davam conta de que o currículo de uma Faculdade de Filosofia implicava em carga horária de mais de 3.600 horas e, com muitas disciplinas diferentes.

O pior era suportar, - destas mentes rígidas que nunca sequer leram um livro de pensadores modernos, - a justificativa de que existia um único pensamento perene – o Tomista – e que o resto, era coisa sem relevância alguma. Tal apelo, impreterivelmente voltava a se insinuado. Poderia um pensador chegar perto da altitude do Tomás de Aquino, que viveu no ano de 1200, mas, igual a ele, ou acima dele, jamais. E aferravam-se na ideologia da defesa do “doutor angelical”.

Muito pensamento estreito, em torno da posição religiosa que já não se sustentava, voltava com insistência sobre concepções inadequadas a respeito do que consideravam Filosofia. Queriam que o curso de Filosofia fosse, eminentemente, um curso de Bíblia e Teologia.

Outra guerra simbólica se estabeleceu em torno da Filosofia e Teologia da Libertação. Além de estudos feitos nesta área, tanto na Teologia quanto na Filosofia, padre João Inácio participou de muitos seminários em Buenos Aires, Argentina, em torno destes assuntos. Ali, um grupo, liderado por Juan Luiz Scanonne e Lúcio Gera, que foram professores do Papa Francisco, pesquisavam em torno de uma variante da Filosofia e Teologia da Libertação, sem utilização de referencial de análise social marxista, mas, partindo dos Evangelhos. Nada de luta de classes e nem revolução do operariado. Algo teria que acontecer a nível de cultura. A religião teria que mediar mudanças de conversão profunda, porém, num processo lento e cultural. Tal postura implicaria em iniciar um movimento para mais justiça e igualdade; e, o processo seria longo, de formas que alguém, durante sua vida, não veria o resultado final.

Defesa de ideias com tal perspectiva, entrava no rol condenatório de que era puro marxismo comunista. Se alguma cabeça dura destes colegas tivesse lido os Grundrisse de Marx (os últimos escritos da sua vida, em que revisou conceitos anteriores), certamente o chamariam de santo, mas, a obsessão contra comunismo não admitia que se falasse ou se mencionasse Filosofia ou Teologia da Libertação. Eram vistas como lídima manifestação do demônio. E não foi por nada que a visão ultraconservadora e clericalista fez de tudo para difamar a Filosofia e Teologia da Libertação. Até bispos proibiram severamente mencionar as duas expressões, a não ser para condená-las e faze-las desaparecer.

Uma vez rotulado como seguidor da Filosofia da Libertação, padre João Inácio não se livrou mais da pecha de ser muito mais comunista de que cristão. Para não mais ouvir constantes apreciações condenatórios, programou-se para avançar na ancianidade e cultivar flores num belo jardim, em Cunhataí, SC, e ali conciliar limites de saúde, sem perder qualidade de vida.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

ENTRE NOSTALGIA E ESPERANÇA

 

Nostalgias e esperanças,

Desejam reais bonanças,

Desencadeiam violências,

Sob opostas referências.

 

Uns querem seu passado,

E outros, um novo legado,

Sob o meio revolucionário,

Para interpelar o ordinário.

 

Ambos produzem violência,

Com regras de intolerância,

Que esvaziam esperanças,

E tolhem cordiais andanças.

 

Apresentação...

1 – Enfim, alguma esperança? ...

2 – Mimetismo da inocência...

3 – Adoração do prazer...

4 – Lolamania em alta...

5 – Bombardeio religioso-emocional...

6 – Do trono à sepultura...

7 – Estratégia para a superioridade...

8 – Fascínio por caudilhismo...

9 – Guerra por poder...

10 – Hostilidades gratuitas...

11 – Justiça condescendente...

12 – Legalismo vazio...

13 – Luz nas trevas sombrias...

14 – Na tática conspiradora...

15 – Nas garras do insaciável...

16 – No fulgor da esperança...

17 – Nova lei da selva...

18 – Ódio – a doença contagiosa mais letal...

19 – Retorno ao sonho integralista...

20 – Simpatias e preferências...

21 – Sopro de bom espírito...

22 – Tempo dos déspotas...

23 – Entre Eva e Pandora...

24 – Entre nostálgico passado e futuro esperançoso...

Palavras finais...

Apresentação

 

Entre nostalgia e esperança,

Vive-se a aguda insegurança,

E procura-se refúgio seguro,

No individualismo inseguro.

 

Seguros lugares de proteção,

Revelam os medos em ação,

De horrores já coletivizados,

Por descrença em redenção.

 

Na lógica de ter lugar seguro,

Atrai-se um inimigo obscuro:

Este perverso individualismo,

A roer esperança no cinismo.

 

Sumido neste mundo fechado,

Eclode o ambiente conectado,

E esperança não age num ego,

Isolado dum social super-ego.

 

1

ENFIM, ALGUMA ESPERANÇA?

 

Velho dualismo nostálgico,

 Do bem contra todo álgido,

Das oposições adversárias,

Induz a violências primárias.

 

A nostalgia dilui a esperança,

E adora a passada lembrança,

Que paralisa as novas buscas,

Movidas por diárias matuscas.

 

Presa ao que foi bom e certo,

Cria couraça diante do incerto,

Prisioneira do que aconteceu,

Idealiza o seu mundo de museu.

 

Leva a memória ao ornamento,

De um passado de bom alento,

E o enfeita com suas narrativas,

Para as ferramentas defensivas.

 

Desejo da fidelidade ao legado,

De um passado bem fantasiado,

Bloqueia qualquer intuição nova,

E a falsa segurança, nada inova.

 

Na política humana este inibidor,

Cerceia qualquer desejo inovador,

E priva ação de toda discordância,

Para o consolo da sua abundância.

 

Herdeiros da concepção nostálgica,

Produzem ampla tensão nevrálgica,

Que afeta essencialmente a religião,

Que deseja outra humana condição.

 

Ao antever mundo melhor por vir,

A religião joga para o outro porvir,

O que impulsiona a conduta reta,

E aponta para a utopia como seta.

 

Religião quer evadir-se do terror,

Produzido pelo nostálgico fervor,

De salvar o suposto mundo feliz,

Que o passado tão bem contradiz.

 

Esperança ante um risco iminente,

De salvação por conduta decente,

Cai no perigo da visão proselitista,

Ao gerar a violência salvacionista.

 

O mandonismo de ordens e regras,

De muitas rezas e discursos bregas,

Cria os abundantes guetos sectários,

Com agressivos ditames arbitrários.

 

Sem abertura para mundo vindouro,

Estagnam esperança pelo duradouro,

E fitam seu mundo estreito e fechado,

Ignorando o seu entorno desprezado.

 

Esperança de mundo melhor implica,

Em revolução que na história implica,

Em nova violência contra nostálgicos,

Que produzem tantos tratos álgidos.

 

Frear desejos e ambição de poderes,

Da tecnologia para dominar os seres,

Talvez permita alargar a inteligência,

Para mais cordial e boa convivência.

 

Quando a cultura induz a desespero,

E religião pouco alcança no esmero,

Ainda sobra tênue fio de esperança:

Mais amizade, e, menos segurança.

 

2

MIMETISMO DA INOCÊNCIA

 

Na facilidade da justificação,

Encobre-se uma malversação,

E no disfarce do agir correto,

Alega-se procedimento reto.

 

Na hiper-realidade mentirosa,

Oculta-se efetiva ação danosa,

E sob uma alegada inocência,

Afirma-se a reta procedência.

 

O vasto mimetismo dissuadido,

Revela quadro ético denegrido,

De sumiço de balizas decentes,

No rol de vítimas descontentes.

 

No livre avanço da impunidade,

Infesta-se em toda a sociedade,

Uma falsa noção da reta virtude,

De enganar com boa similitude.

 

Na evasiva da responsabilidade,

Uma disfarçada boa idoneidade,

Encobre toda patranha indevida,

E nega toda incoerência atrevida.

 

A negação dos fatos consumados,

Insinua e educa por todos os lados,

Que um procedimento desonesto,

Pode ser adaptado como honesto.

 

3

ADORAÇÃO DO PRAZER

 

Da incomum estimulação do prazer

Associada ao máximo de bom lazer,

Engendram-se inumeráveis normas,

Para o desempenho de boas formas.

 

Como vilão do máximo desempenho,

O prazer requer provas de empenho,

E causa estresse e larga degradação,

Sem chegar à mais gostosa sensação.

 

O auge do prazer cantado aos ventos,

Embala desejos de amplos portentos,

Sem reduzir a ansiedade e depressão,

Ampliados em cumulativa progressão.

 

A mobilização pelo prazer já perdido,

Na ânsia, rouba até o último gemido,

E deixa a conta do mal-estar interno,

Na dívida desconfortável de inferno.

 

Tanto hedonismo de máximo prazer,

Dissemina nos deprimidos do lazer,

A baixa auto-estima e a impotência,

Sem corresponder à dura exigência.

 

Enquanto objetos, menos pesados,

Reduzem muito os físicos enfados,

A leveza do prazer invade a mente,

E a povoa com fardo contundente:

 

O desempenho não pode diminuir,

Mas, deve constantemente evoluir,

E fomentar os melhores prazeres,

Tarefa dos mais perversos deveres.

 

 

4

LOLAMANIA EM ALTA

 

Na exaustiva loquacidade mórbida,

Prenhe de muita apelação sórdida,

Alarga-se uma oratória do possível,

Para ocultar o evidente impossível.

 

Mais do que o desejo de persuasão,

Importa a bem obliterada obsessão,

De que o novo engendra felicidade,

Bem-estar com larga prosperidade.

 

Sem a memória dos ódios ativados,

Emergem e agem por todos os lados,

Desalentos com os anelos preteridos,

E inoperância de discursos proferidos.

 

Da loquacidade indutora de euforia,

Não advém nenhuma efetiva alegria,

Pois, volátil como nuvem passageira,

Deixa a maior massa popular na eira.

 

Fluem então mobilizações primárias,

Insensíveis às prescrições ordinárias,

A reproduzir velhas táticas de antanho,

E, agridem todo conhecido e estranho.

 

Na patologia das manhas de muita fala,

Insensatez que sem medida se propala,

Propugna um alto e requerido respeito,

E dispara tiro certeiro e mortal no peito.

 

A dignidade humana desejada a poucos,

Alimenta multidões de muitos amoucos,

Que ofendem, brigam, muito humilham,

Apenas por ideário alheio que partilham.

 

Na falada evolução do gênero humano,

Fica complicado aglutinar o agir insano,

Que semeia tanto ódio por mera paixão,

E, é inócuo para disseminar compaixão.

 

 

5

BOMBARDEIO

RELIGIOSO-EMOCIONAL

 

Facilidade dos recursos midiáticos,

Oportuniza irradiar dados enfáticos,

Para veicular doses divinas de Deus,

Com elã de vida aos pobres corifeus.

 

A primeira tática persuasiva é sigilo,

Com o rigoroso suspense de estilo,

Para despertar enorme curiosidade,

E desejo de adesão à bela novidade.

 

Norma do sigilo sobre a experiência,

Para despertar a vasta aquiescência,

Sobre impacto de eventos efetuados,

Deve despertar muitos interessados.

 

Retiros a impactar sobre a emoção,

E narrativa estupenda de conversão,

Despertam complexos messiânicos,

Para agir contra poderes satânicos.

 

Surgem abundantes vocacionados,

Para novos salvadores iluminados,

De mente cheia de emocionalismo,

Mas sem referência do cristianismo.

 

Emocionalismo ativado ao extremo,

Como presumido condutor supremo,

Não dá suporte a um itinerário de fé,

Duma cabeça oca só para usar boné.

 

Centralismo da afetividade explorada,

Sob a larga irracionalidade fanatizada,

Não vai além do emotivismo religioso,

Que submete ao fanatismo prodigioso.

 

Conduzem seguidores sob muito medo,

Na balofa tática de perpetuar segredo,

Mas, apenas conseguem pífia lealdade,

De precípua cegueira ante a realidade.

 

Intenso bombardeamento emocional,

Ultrapassa limiar do abuso espiritual,

E explora as pessoas com escrúpulos,

Para atrelá-las como falsos petúsculos.

 

Abalados diante dos infindos pecados,

Energúmenos ficam muito atrofiados,

Sem capacidade de integrar os limites,

Da pecaminosidade de meros palpites.

 

Acreditam mais na dominação do guru,

Que os encanta com imagem de jaburu,

Do que em Deus a libertar a dominação,

Da ideológica e manipulada alienação.

 

 

6

DO TRONO À SEPULTURA

 

Exercício do poder de domínio,

Junto com o ambicioso fascínio,

Faz passar pelos altares a oferta,

A implicar em muita morte certa.

 

Inúmeras notícias de feminicídio,

Ao lado das rotinas do fratricídio,

Parecem constituir um rito diário,

Dum cultural e humano itinerário.

 

Quando altares da justa oferenda,

Afirmam e ratificam a reprimenda,

De que elementar anseio humano,

É da primazia de macho soberano.

 

O reforço da hierarquia masculina,

Escolha precípua da justiça divina,

Não admite ascensão de mulheres,

Destituídas de divinos esplendores.

 

Tidas como submissas e atreladas,

Criam-se narrativas esfarrapadas,

De obscurecidas praxes religiosas,

Que as veem frágeis, e, perigosas.

 

Se os documentos eclesiásticos,

Citam com termos entusiásticos,

Igualdade de mulheres e homens,

Sucumbem ante os super-homens.

 

Velha e caduca estrutura patriarcal,

Presa a fundamentalismo ancestral,

Segue negando igualdade de direito,

Ao gênero feminino de inato defeito.

 

O discurso religioso molda opiniões,

E as narrativas esbarram em jargões,

Da sua inépcia para tarefa específica,

E de sua presença apenas honorífica.

 

A quebra de instituições masculinas,

Significa romper as suas disciplinas,

Para que o senso feminino se eleve,

E engendre vida coletiva mais leve.

 

Intuição feminina e a cordialidade,

A riqueza reprimida na sociedade,

Poderia ensejar menos homicídio,

De trono e altar para o feminicídio.

 

 

7

ESTRATÉGIA PARA SUPERIORIDADE

 

Sonho de integrar a elite superior,

Ajuda esquecer a pobreza inferior,

E a fome de acumulação fantástica,

Alarga força de atuação na política.

 

Tentação de intervir na lida política,

Faz bancar o político na geopolítica,

Para sempre beneficiar o interesse,

Do sujeito rico no status de finesse.

 

Do efeito da comunicação midiática,

Mentaliza a aceitação de sua tática,

E amplia seu poder sobre as mídias,

Para a defesa e elogio das perfídias.

 

Nada importa o disparo do abismo,

Das multidões pobres, no cinismo,

Mas, riqueza ascendente e vistosa,

Assegura a força política poderosa.

 

Desconsidera ordem internacional,

E sobre ela faz cocô do seu tribunal,

Porque a sua ação intervencionista,

Não permite uma reação pessimista.

 

Seu poder delimitado à moralidade,

Fornece-lhe a subjetiva autoridade,

Para ser, a cada dia, mais coercitivo,

Sob a diplomacia mafiosa de lenitivo.

 

A prática de extorsões e chantagens,

E de acordos pessoais para miragens,

Faz dele genocida perverso e abusivo,

O neofascista estratégico e corrosivo.

 

Nada lhe importa desastre econômico,

Mas pega no intervencionismo cômico,

Tudo o que representa ouro e petróleo,

Para seu processo acumulador miróleo.

 

Consegue o efeito de transnacionalizar,

A rede criminosa de tudo comercializar,

Na inusitada megacorrupção do Estado,

Para sentir-se onipotente por todo lado.

 

Distorce fatos, e, manipula seus dados,

Facilita a ampliação dos vastos legados,

Na força bruta e destruidora do exército,

Com ações ilícitas de julgamento tácito.

 

Impede a rebeldia contra sua corrupção,

E tal recurso legitima e garante a gestão,

Para ser, todo dia, apreciado e lembrado,

Como o magnata do globalizado reinado.

 

 

 

8

 

FASCÍNIO POR CAUDILHISMO

 

Longa história latino-americana,

Marcada pela caudilhista gana,

Perpetuou mando de militares,

Com o apoio de parlamentares.

 

Grupos oligárquicos no entorno,

Produziam o séquito de adorno,

Para ostentar a alta hegemonia,

Da ordeira e política autonomia.

 

No fascínio caudilhista hodierno,

Reina um outro ideal de governo,

Sem o itinerário político definido,

Mas, carismático e bem-sucedido.

 

Ele desperta no discurso atrevido,

E com dinheiro na mídia investido,

Compra empatia e voto denodado,

Que assegura seu precioso reinado.

 

No caudilhismo novo, sem Estado,

E sem Nação e soberano agregado,

Importa ouro do capital financeiro,

Que tudo compra com o dinheiro.

 

Política é somente a hiper-imagem,

Para aparecer bem na reportagem,

Com informações hilárias ou pífias,

Misturadas com suaves blandícias.

 

Não se requer a vocação política,

Nem capacidade de visão pública,

Ou apelo de demandas nacionais,

Pois, só importam fitos pessoais.

 

Qualquer desvirtuado espalhafato,

Mais importante que o político ato,

Ajuda a granjear apoio oligárquico,

Para o mandonismo vil e anárquico.

 

A mentira bem burilada e repetida,

Delibera para militarizada investida,

E auto-elogio do sucesso fantástico,

Alarga rapinagem no ar bombástico.

 

Nem os limites de leis internacionais,

Estão acima dos interesses pessoais,

Pois protestos, mortes e insatisfeito,

Nada afetam o Ego de amor-perfeito.

 

Se os atos não confirmam mentiras,

Inventam-se quaisquer macambiras,

E muda-se o pressuposto do motivo,

Com nova mentira para um lenitivo.

 

Dissolvência de limites estabelecidos,

Não leva a assumir crimes cometidos,

E se não surge alguma contraposição,

Autorizada fica qualquer intromissão.

 

 

9

GUERRA POR PODER

 

Desejo de exercer influência,

Sobre uma vasta congruência,

Transforma relações afetivas,

Em odiosa luta de invectivas.

 

Não existe leal companheiro,

Mas, só um jogo interesseiro,

Em que alguém vale pelo útil,

E depois passa a ser lixo fútil.

 

Aliança e pacto de fidelidade,

Vive da frágil provisoriedade,

Enquanto favorece ascensão,

Para assegurar nobre posição.

 

O aparente amor das alianças,

Revela logo, as desconfianças,

Em que prevalece a acusação,

Contra quem mudou a posição.

 

Na guerra contra o adversário,

A mentira rege todo itinerário,

Para denegrir imagem do rival,

E obter um largo êxito triunfal.

 

A tentação de manter o cargo,

E adequar regras de embargo,

Ajudam a prosperar no poder,

E impedir outros de ascender.

 

Na guerra, além da ideologia,

Vale todo tipo de demagogia,

Para produzir o perfil heroico,

Malabarista versátil e egoico.

 

Velha história bíblica de Israel,

Revela preço de teimosia cruel,

Do seu primeiro rei constituído,

Jovem guerrilheiro destemido.

 

Davi, um rei absolutista do povo,

Mesmo velho e sem espírito novo,

Enfrentou guerrilha de seus filhos,

Que lhe apresentavam empecilhos.

 

Em guerra do seu exército armado,

Contra Absalão, o seu filho amado,

Venceu batalha mas, matou o filho,

Efeito e preço pelo reinado caudilho.

 

Depressão e dor pela morte do filho,

Não o moveram no jeito afogadilho,

De se sentir o rei absoluto no cargo,

Supondo que fosse o divino encargo.

 

Humano, no lugar de Deus colocado,

Produz demônio solto por todo lado,

Mesmo na máscara de líder religioso,

Causa espoliação e o conflito danoso.

 

Poder desatrelado de humilde serviço,

Arruma diuturnamente novo enguiço,

E guerras, mesmo aquelas de palavras,

Matam vida com crueldades macabras.

 

 

10

HOSTILIDADES GRATUITAS

 

Ofensas divulgadas em noticiários,

Oferecem os estimulantes ideários,

Para reagir de forma bem ofensiva,

Ante qualquer suspeita de invectiva.

 

Mesmo pessoas que dizem piedosas,

Emitem repentinas ofensas raivosas,

E nos seus desproporcionais revides,

Caluniam pelos mais ínfimos envides.

 

Hostilizam com a facilidade inaudita,

E até por alguma razão bem gratuita,

Acusam e interpretam erroneamente,

Sob o tribunal supremo da sua mente.

 

Se a hostilidade envolve pouca pedra,

Em contrapartida, até ânsias de medra,

Ensejam esbravejantes falas agressivas,

E reação de agressivas formas vingativas.

 

Como abrandar as palavras de aspereza,

De quem só pensa em muita malvadeza,

Cuja mente apenas produz mau espírito,

Sem os básicos gestos para ser solícito?

 

O crescente número de seres alienados,

Aumenta cada dia mais os tratos irados,

E faz leva humana sentir-se orgulhosa,

Com a exteriorização de ofensa raivosa.

 

A reação primária diante do diferente,

Sem nenhuma reação compadecente,

Reflete socialização bem atormentada,

Do ambiente de reciprocidade esvaída.

 

Reagir a tais bandos de espíritos maus,

Requer boa ação sem queimar as naus,

Para que brabeza nefasta e explosiva,

Não se imponha na educação diretiva.

 

 

11

JUSTIÇA CONDESCENDENTE

 

Imensa tolerância para justificar atos,

Na moralidade religiosa ante os fatos,

Produz uma justiça sempre tolerante,

Para alguém justificar seu ato errante.

 

Apelos como “o pecado é inevitável”,

“A carne é fraca” diante do inegável,

E que Deus não liga para tais coisas,

Veneram uma lei apagável de loisas.

 

Assim, o preceito religioso vira falaz,

Sem abrir caminho ante o que apraz,

E a lei serve apenas para a barganha,

Para justificar a sua própria façanha.

 

A Lei, bom instrumento para dominar,

Mesmo religiosa, e longe de orientar,

Vira legalismo farisaico de aparência,

Como simulacro de íntegra decência.

 

Assim tem gente que não é assassina,

Mas mata de forma perversa e sovina,

Com sufocamento psíquico e agressivo,

E boicota, aos outros, qualquer lenitivo.

 

Outros caçam novos amantes afetivos,

E justificam repúdios a amores antigos,

Para denegrir a sua objetiva identidade,

E fazem juramentos falsos à saciedade.

 

Na casuística de leis, cria-se a couraça,

De uma auto-defesa que tudo rechaça,

E afirmar que nada acusa a consciência,

Autoriza todo desfrute sem decência.

 

Bifurcação abre dois caminhos na vida:

O do legalismo, sem ação compadecida,

E o de apontar escolhas para novo agir,

A fim de reconciliar-se para se redimir.

 

Ante as muitas leis, é tão fácil mentir,

E julgar outros, para se auto-imiscuir,

Sob juramentos duma idônea retidão,

Enquanto a maldade age no coração.

 

 

12

LEGALISMO VAZIO

 

Dez regras do judaísmo primitivo,

Como o código ético-moral ativo,

Fixavam parâmetro na vida social,

Para respeito profundo e crucial:

 

Legisladores ampliaram o leque,

Acrescentaram-lhe salamaleque,

E com 613 regras acrescentadas,

Tornavam as lidas muito pesadas.

 

A falsidade dos inventores de leis,

Aumentava a espoliação das greis,

Caducou essência das dez normas,

E nada melhorou com as reformas.

 

A única utilidade das múltiplas leis,

Foi a de favorecer governos e reis,

Para subjugar povo pobre no rigor,

E dominá-lo com ordem de terror.

 

Nas abluções e ritos estabelecidos,

Os pobres permaneciam esvaídos,

Por não seguir rituais purificadores,

Para as benesses de divinos favores.

 

Quase tudo produziria a impureza,

E uma ausência da exigida limpeza,

Isolava duma participação religiosa,

Quem não praticasse a lei rigorosa.

 

Jesus Cristo alertou seus seguidores,

Contra os contraditórios impostores,

Que em tudo viam capeta e impureza,

Com a vazia e balofa regra de pureza.

 

A impureza estaria no que sai da boca,

Como expressão da interioridade oca,

Mas movida por inveja e maledicência,

Devassidão, insensatez e a arrogância.

 

Os separados da minuciosa purificação,

Só alimentavam a maldade no coração;

Por isso, muito piores do que os sujos,

Colocavam-se como os altivos sabujos.

 

As abluções da milenar regra mosaica,

Só favoreciam a pequena elite arcaica,

Que, sob o zelo pela rigidez rubricista,

Gestava uma fé falsa e sensacionalista.

 

 

13

LUZ NAS TREVAS SOMBRIAS

 

Isaías no ano 732 antes de Cristo,

Sonhava com a luz no imprevisto,

Pois, Galiléia invadida por Assíria,

Vivia sob uma cruel onda martíria.

 

Na ausência de regras do invasor,

Matava-se com a tirania e  terror,

E indicava total ausência de ajuda,

Mesmo se fosse discreta e miúda.

 

Isaías, no entanto, antevia a reação,

De Israel contra a perversa invasão,

E sonhava com a derrota da Assíria,

Para livrar o povo da cruel penúria.

 

Desejava elevar o ânimo em queda,

Com a imagem duma luz na vereda,

A expandir nas trevas da escuridão,

A ação efetiva para uma libertação.

 

Somente três décadas mais tarde,

Rei Sedecias venceu ação covarde,

Para que a sonhada luz nas trevas,

Pudesse brilhar sem atos malevas.

 

No entanto, sob ódio impregnado,

Maldades alastradas por todo lado,

Ampliavam violências e maldades,

E opressões internas, às saciedades.

 

Estas tribos de Neftali e de Zabulão,

Marcadas por intensa miscigenação,

Sofriam irônico desprezo dos judeus,

Por estrago na raça pura dos hebreus.

 

Tidos, pejorativamente como pagãos,

Impuros sob os espíritos dos dragões,

Eram relegados e bem discriminados,

Sem um direito aos espaços sagrados.

 

Jesus, ao iniciar a ação humanitária,

Com discípulos na ação comunitária,

Brilhou naquela histórica escuridão,

Como a luz do caminho de redenção.

 

Iniciou a vida pública nesta Galiléia,

Vivendo a condição humana plebeia,

E lhe anunciou a notícia da boa nova,

Do reino de Deus, que a vida renova.

 

A luz do seu jeito clareou a escuridão,

Velho sonho para pobre aglomeração,

Mediante a conversão para nova vida,

Sem aquela velha maldade enrustida.

 

 

14

NA TÁTICA CONSPIRADORA

 

Acima da arte de negociação política,

Firma-se apreciada ordem impolítica,

Na qual o largo caminho conspirador,

Deixa andar, livre e solto, o impostor.

 

Poder, Estado, nação e bem-comum,

Só para legitimar êxito super-comum,

Da elevação pessoal de conservação,

De um poder livre para a intimidação.

 

O poder carismático acima das leis,

Faz a política do desejo sobre greis,

Na qual a família e suas vantagens,

Fica acima das políticas bandagens.

 

Desejo do mandante todo soberano,

Requer só exército forte e suserano,

Para autoridade da vivência mafiosa,

Que expanda sua pujança ambiciosa.

 

Amparo de autoridade pública eleita,

Aufere-lhe o privilégio para desfeita,

Para desfazer o declarado numa hora,

E mandar o declarado amigo embora.

 

Sabe que o seu vasto rol conspirador,

Para arrecadar lucros ao ego salvador,

Permite pressionar uma aparente paz,

Mas, com submissão do que lhe apraz.

 

Para ratificar os interessados negócios,

Não se satisfaz com minguados rócios,

E requer a vigência da regra particular,

Para seu domínio direto mais alargar.

 

Sob o Estado de exceção no controle,

Subjaz toda a ação da conversa mole,

Pratica airoso caudilhismo excêntrico,

Como Maga do reino antropocêntrico.

 

Com as contumazes praticas extorsivas,

Arbitra e tutela com ameaças explosivas,

Sobre rivais e chantageia os seus aliados,

Para que sempre permaneçam devotados.

 

Deixa o central da sua função à anarquia,

E, como o gangster, decide tudo à revelia,

Para outros, depois, justificarem o feito,

Mesmo que tenha gerido perverso efeito.

 

Com o seu poder, situado acima de tudo,

Reforça com armas seu exército topetudo,

Para espionar e futricar o mundo inteiro,

E conservar-se como um chefe altaneiro.

 

Terrorismo do seu exército sem piedade,

Mata com pérfido requinte de crueldade,

Insensível a todo tipo de vulnerabilidade,

Sabe que nada decorre da arbitrariedade.

 

15

NAS GARRAS DO INSACIÁVEL

 

Impacta pela valentia contumaz,

E envolve tudo o que lhe apraz,

Para enaltecer sua ação tóxica,

E deixa todos em lida hipóxica.

 

Ameaça derrotar todo mundo,

Bater duro em sujeito iracundo,

Resistente à regra do seu jogo,

Insubmisso à sua boca-de-fogo.

 

Engole toda regra democrática,

E submete à autoritária prática,

Do seu extremismo anarquista,

Todo infiel à sua característica.

 

Quer configurar ordem mundial,

Segundo o seu subjetivado ideal,

Do macho de ação dominadora,

E só aceita condição vencedora.

 

Sobra o sofrimento devastador,

Da indignação, com muita dor,

De roubados com ação sórdida,

A sobreviver na ordem mórbida.

 

16

NO FULGOR DA ESPERANÇA

 

Outro rito de passagem celebrado,

Por mais um ano bem vivenciado,

Recria as esperanças e os desejos,

Para muitos encontros benfazejos.

 

Nos fulgores de bons sentimentos,

Impactam clarões de bons alentos,

Para lidar com subjetivas questões,

E que não olvidem retas intenções:

 

Mais harmonia na bagunça afetiva,

Para ali brilhar a sensata luz ativa,

Para que não puxe as recorrências,

Dos antigos atos de maledicências.

 

Que o fulgor faça aceitar na leveza,

Os momentos passados na dureza,

Quando a tolerância à ação alheia,

Deixou emoção amarrada em peia.

 

Que nobre gesto de muito perdoar,

Se estabeleça na tribuna de julgar,

Solte o coração para falar bem alto,

Sem raiva e sem tanto palpite lauto.

 

 

Que ali não se discuta sobre guerra,

E se ache caminho que não emperra,

No acerto amigável ante dissonância,

Para reativar a respeitosa reatância.

 

Se um resquício de mágoa persistir,

Que não atrapalhe a graça de existir,

E leve a integrar este nódulo invulgar,

Para que nem produza um mal-estar.

 

Que do baú afetivo somente escapem,

As lembranças que em nada magoem,

O apreciado bom-humor de cada dia,

O raro tesouro para viver com alegria.

 

Que olhos captem apelos de vontade,

Que reluzem para boa interatividade,

A fim de alargar sonhada paz humana,

Diante da tão estúpida guerra insana.

 

Que a mente também permita captar,

O que um rosto não consegue dissipar,

Para apontar uma nesga de esperança,

Em quem já perambula sem confiança.

 

Que o dom da fé se torne foco vistoso,

Para indicar rumo de sentido gracioso,

Do bem-conviver em lugar acolhedor,

Para eclodir genuíno e afável pendor.

 

Que diária redução de doutrina e lei,

Permita religião sem controle da grei,

Para se constituir na básica religação,

De tanta ruptura na social vinculação.

 

Enfim, que a tão almejada conversão,

Possa, na similitude de bom coração,

Asseverar no tribunal da consciência,

Que paz interior está em ascendência.

 

 

 

 

17

NOVA LEI DA SELVA

 

Esquecido o orgulho evolucionista,

Rege o vetusto modo de conquista,

No qual, qualquer fantasia justifica,

A ordem radical a partir de rubrica.

 

Nenhuma eventual defesa a acusado,

Mas, todo direito sobre o condenado,

Com o seu referencial de leis e regras,

Até o mundial, como as meras jegras.

 

Os alaridos dos super-heróis canibais,

Veiculados como vozes excepcionais,

Viram vistosas manchetes diuturnas,

Apesar das informações tão soturnas.

 

Embora todo discurso fala em salvar,

Nada importa o quanto devam matar,

Para que os altos sucessos desejados,

Alarguem poder para todos os lados.

 

Qualquer pretexto vira pressuposto,

Para abocanhar o que alarga o gosto,

Do avanço científico das armas letais,

Contra os humanos, em sortes fatais.

 

A conquista visa mais que petróleo,

E do que paira sob belo céu cerúleo,

Mas quer um totalitarismo político,

Cultural, emocional e todo acrítico.

 

Roedores agressivos como castores,

Deglutem como ferozes predadores,

Valores da boa convivência humana,

E fazem da guerra uma deusa insana.

 

Não esperam por eventuais ataques,

Pois, antecipam violentos achaques,

Invadem para esnobar superioridade,

E criam povo submisso na sociedade.

 

Adoram armas com venerado fervor,

E nada lhes importa o efeito sofredor,

Dos que perdem seus entes queridos,

E já escravos, a eles ficam submetidos.

 

No uso indiscriminado da violência,

Avançam sobre países sem decência,

Para espoliar e sugar até a exaustão,

O quanto cai na vista da sua ambição.

 

Já feitos bárbaros frívolos e brutais,

Apenas pensam em inimigos e rivais,

E locupletar com sua rala destruição,

Uma vitória do seu ego em expansão.

 

18

ÓDIO - A DOENÇA

CONTAGIOSA MAIS LETAL

 

Mais do que as inúmeras pestes,

Atribuídas às vinganças celestes,

Existe a da procedência humana,

Que supera todas na ação insana.

 

Empenhos e combates às viroses,

Não atuam sobre metamorfoses,

Da doença altamente contagiosa:

O ódio da mente humana raivosa.

 

Espalha-se mais do que pelos ares,

Em redes sociais a entrar nos lares,

E ocupa o cérebro, por excelência,

Para dali irradiar sua maleficência.

 

Ódio gestado pela mente humana,

Produz a morte horrenda e insana,

Nos seres desprezados e negados,

Pelos psicopatas paranoicos irados.

 

O eco letal do ódio, alia-se à peste,

Da mentira, para conluio cafajeste,

E convence a larga opinião pública,

Para tolerar a maldosa ação bélica.

 

Grandes e monstruosos genocídios,

Procedimentos oriundos dos ódios,

E incubados nas mentes mórbidas,

Sugestionam para guerras sórdidas.

 

Nesta virose da degradação cerebral,

Autocratas cegos pelo poder bestial,

Perdem básica capacidade de audição,

Carcomem bom-senso e boa emoção.

 

A virose do ódio gosta de instalar-se,

Em mísseis e foguetes a propalar-se,

Para explodir os humanos pelos ares,

E espalhar mentiras dentro dos lares.

 

Faz-se urgente descobrir o antídoto,

Para reabsorção dum senso remoto,

Que desvie obsessão sádica de morte,

A desgraça triste para humana sorte.

 

 

19

RETORNO AO SONHO INTEGRALISTA

 

Das reminiscências medievais,

Recriam-se em nos dias atuais,

A venerada sociedade perfeita,

Com a cristandade sob espreita.

 

A religião bem acima do Estado,

Com direito a dirigir seu legado,

Forneceu o ar de superioridade,

Para ditar o rumo da sociedade.

 

A nova forma fascista-integrista,

Reconfigura velho foco idealista,

Para moldar estado pela religião,

Com governo forte sobre povão.

 

Bem longe da doutrina católica,

Defende totalitarização bucólica,

Sem alinhada unidade espiritual,

Nem projeto de futuro nacional.

 

Quer o estado forte e autoritário,

Obediente a um mito identitário,

Para a suposta democracia cristã,

Com militarismo para ação cidadã.

 

Devoção à figura mítico-salvadora,

Sem a efetiva proposta redentora,

Sob pauta “Deus, pátria e família”,

Quer articular socializante mobília.

 

Aparelhamento de forças militares,

Ecoa como a bela mudança de ares,

A silenciar os pobres descontentes,

E contar com servos subservientes.

 

Em torno dos adornos cromáticos,

Das cores de efeitos emblemáticos,

Associa-se à nação amada, já vazia,

O nacionalismo de preclara apatia.

 

Importa o reverenciado mito-chefe,

Seu privilegiado séquito mequetrefe,

E que seus adversários insatisfeitos,

Paguem caro por seus contrafeitos.

 

 

20

SIMPATIAS E PREFERÊNCIAS

 

Fã-clubes em torno de líderes religiosos,

Criam sectarismos dos mais fervorosos,

E brigam como os amoucos fascinados,

Para alargar a fama de seus admirados.

 

Seguem precipuamente seus simpáticos,

E consideram os demais como apáticos,

Sobretudo os que são menos imagéticos,

E já não emitem gritos e gestos patéticos.

 

Paulo apóstolo fundou uma comunidade,

Em Corinto, a multicultural e rica cidade,

E foi residir em Éfeso, outra metrópole,

Da romana Ásia, uma grande acrópole.

 

Ao receber visita de amigos de Corinto,

Quis saber o que por lá estava distinto:

Teve que ouvir com muito desconforto,

Muitas meias palavras no seu absorto.

 

Disseram que a comunidade seguia mal,

Com vasta discórdia e muito grupo rival,

E com partidarismo em torno de nomes,

Que em nada os elevavam nos renomes.

 

Cada grupo defendia o seu simpatizado,

Fechado com o seu líder translumbrado,

Ignorava outros sem acolher sua palavra,

E sob as críticas de repercussão macabra.

 

Reinava a inveja com o farto caciquismo,

De nefasto e imoral jogo de carreirismo,

E Paulo, já estarrecido com a informação,

Solicitou ao secretário imediata redação.

 

Mandou-o escrever carta para informar,

Que apóstolo não era dono para mandar,

Mas, humilde servo para servir e edificar,

E menos ainda salvador para tudo ajeitar.

 

Salvador, somente Cristo Jesus anunciado,

Sem pretendente egoísta a ser venerado,

Com a imposição da sua própria vontade,

Para bagunçar tudo naquela comunidade.

 

Eventual infeliz semelhança na atualidade,

A repetir situação similar na comunidade,

Merece perspicaz foco na causa da divisão,

Para adotar no jeito de Cristo outra noção.

 

A ação efetiva sobre a causa da desunião,

Fez de Paulo exemplo coerente de cristão,

Sem deixar correr o desvio no discipulado,

De quem apontou outro modo de reinado.

 

 

21

SOPRO DE BOM ESPÍRITO

 

Muitas e variadas associações,

Da hermenêutica de boas ações,

Do agir divino do Deus de amor,

Valiam-se de alegorias de primor.

 

Ação, movimento e dinamismo,

Sob imagens do efetivo realismo,

Visavam expressar que Deus agiu,

E na condição humana interagiu.

 

Quando tanto se anela por sopro,

Que produza o benéfico escopro,

Quer-se efeito alegre e generoso,

Sem mediocridade de ambicioso.

 

Pregação fanática sobre Espírito,

Do dedo em riste com forte grito,

Expõe supostos donos de discurso,

A alardear do seu próprio incurso.

 

Apregoam mirabolantes poderes,

Submetem com sádicos prazeres,

À subserviência do que mandam,

E ilusão do poder que dispensam.

 

Repetir trágico exercício do poder,

Com a visão fatalista para se viver,

Fica longe da proposta do Evangelho,

E até de hierofanias de tempo velho.

 

O Espírito de Deus certamente lateja,

No clamor do entorno da bela Igreja,

E nada próximo dos arautos ciosos,

Que se colocam a si como preciosos.

 

Se o coração do tempo está arfante,

Atrelado ao ser humano mandante,

Não carece fé de espírito medíocre,

Que centraliza previsão de massacre.

 

Perscrutar por onde o Espírito desce,

Induz ao agir de Cristo que enaltece,

O modo de agir, com ações inovadas,

Para achar brasa sob cinzas apagadas.

 

Com um revigorado sopro pela vida,

A situação humana já tão combalida,

Não merece Espírito Santo de cerco,

Mas, o modo bom de ser cristicerco.

 

 

 

22

TEMPO DOS DÉSPOTAS

 

Se 70% da humanidade vive sob déspotas,

As falas democráticas passam por idiotas,

Pois, aprovam-se candidatos autoritários,

Das formas arcaicas e modos totalitários.

 

Velha e simbólica imagem de um bom pai,

Que amplia a identidade como nosso-pai,

Já foi substituída pela imagem agressiva,

Do chefão da horda, altamente ofensiva.

 

Impulso integrista dos tempos de antanho,

Encanta como bela novidade de arreganho,

E permite a ascendência do autoritarismo,

Que se efetiva todo absolutista de cinismo.

 

Os antigos anseios de um pai de segurança,

Cederam aos figurões de rara insegurança,

Que aparecem como fantasmas de hordas,

Escorados por fortes e violentas calhordas.

 

Ao invés de indignação e reação popular,

Recebem o simpático apoio espetacular,

E se configuram no parâmetro da ordem,

Para assegurar combate a toda desordem.

 

Não contam denodadas conquistas sociais,

Mas, uma ampliação das milícias radicais,

Que se interpõem sobre lacunas políticas,

E fortalecem as arenas de brigas acríticas.

 

Ao invés dos projetos públicos e sociais,

Cativam bem mais as arenas sensacionais,

De ataques e verberações aos adversários,

Com deliberações destrutivas de corsários.

 

A ainda propalada e simpática democracia,

Exausta e sem avançar para doce melodia,

Vê seus músculos corroídos pelos tiranos,

Com abundantes cristãos feitos suseranos.

 

Conciliam cruz e espada para luta armada,

Para que a ação adversa seja desbaratada,

E autoritários protejam seu farto acúmulo,

E que qualquer discordante, vá ao túmulo.

 

 

 

23

ENTRE EVA E PANDORA

 

Herdou-se da cultura helênica,

A estranha noção patogênica,

De Eva primeira mulher frágil,

A cair na astúcia da cobra ágil.

 

Pandora, primeira mãe grega,

Recebeu uma bela caixa brega,

Como presente de casamento,

Sem poder ver o seu portento.

 

Curiosa abriu a caixa; dela saiu,

A imensa maldade que existiu:

Ganâncias, doenças e discórdias,

A estragar humanas concórdias.

 

Fechou imediatamente a caixa,

Só ficou a esperança cabisbaixa,

Para o consolo frente à maldade,

Que denigre toda a humanidade.

 

Na fragilidade atribuída às mães,

Eva, Pandora e demais mamães,

A noção indo-européia machista,

Espalha elã do ódio monopolista.

 

A pior promiscuidade masculina,

Atenta com perversa ação felina,

Pela destruição da vida na Terra,

Ao centralizar o poder da guerra.

 

Nasce duma promiscuidade suja,

Cresce nas mentiras de garatuja,

Desagrega, destrói, na demência,

Para alargar suposta onipotência.

 

Alimenta esperança de muita paz,

Com a guerra feroz que lhe apraz,

E estabelece a ordem do ódio pífio,

Sem sinal de amor no falso colífio.

 

As maldades evaporadas da mente,

Do lastro hominídeo improcedente,

Que coloca a guerra no auge da fé,

Move âmago de religiões na má-fé.

 

Altamente intolerantes e dementes,

Priorizam ações armadas indecentes,

Na lógica de paz silenciada por medo,

Diante de alguém poderoso e temido.

 

Além da ineficácia como desarmante,

Ante a guerra pelo poder mandante,

Na lida religiosa, desviada a mansidão,

Centraliza-se mais o ódio que correção.

 

Ódio carcome a esperança encaixada,

Na mente guerreira, tão mal ajustada,

Que predomina sobre o amor e a paz,

E permite eclodir maldade que desfaz.

 

Árvore do bem e do mal no paraíso,

Dos atuais dias de tão pouco juízo,

Apelo à não pretensão de ser dono,

Mas fruição do paraíso de bom tono.

 

24

ENTRE NOSTÁLGICO PASSADO

E FUTURO ESPERANÇOSO

 

A guerra instalada ali no meio,

Revela seu deplorável meneio,

Para anular tanto um e outro,

E deixar o planeta com doutro.

 

A grave doença não controlada,

Da rápida ação mercantilizada,

Vende tudo como mercadoria,

Sob uma destrutiva economia.

 

A doentia ambição pela posse,

Espalha uma desordem atroce,

Em todo o sistema do planeta,

E o destrói mamando sua teta.

 

Quando ambição por controle,

No discurso de conversa-mole,

Centraliza poder de arma letal,

Não vive passado e futuro vital.

 

A ação atrópica da doida guerra,

Indica o fim trágico para a Terra,

Pois, mando de chefe paranoico,

Apenas satisfaz interesse egóico.

 

Já um quarto da massa terrestre,

Lesada sem sabedoria de mestre,

Não acorda o largo sono alienado,

Produzido no arsenal militarizado.

 

Enquanto que produzir arma mortal,

Constitui renda e lucro sensacional,

A demência humana fica poderosa,

E anelada segurança menos radiosa.

 

Nostálgico mundo de poder diluído,

Espalha a morte com muito prurido,

Mediado pelas hediondas guerras,

Que desequilibram com as armas.

 

A vastidão da inteligência aplicada,

Poderia produzir bem outra alçada,

Para um convívio humano cordial,

Sem os exércitos e sem arma letal.

 

 

 

PALAVRAS FINAIS

 

Esperanças para religiosas utopias,

Tão animadas pelos videntes guias,

Querem traçar rotas de redenção,

Perante as distopias da destruição.

 

Feitas agressoras por dominação,

Impõem as regras e subordinação,

Com a leitura fantasiosa do legado,

Que somente a elas fora revelado.

 

Causam o sectarismo de divisões,

Que gera guetos de novas visões,

A inviabilizar respeito necessário,

E não suportar ouvir o contrário.

 

Tantas outras pessoas aficionadas,

Para salvar vantagens conquistadas,

Causam o desespero e sofrimento,

A tantos humanos, sem um alento.

 

Olham precipuamente seu passado,

E fechados sobre o bem amealhado,

Sem a perspectiva solidária e cordial,

Impedem bem-estar de modo igual.

 

Causam ódio e o contagiante terror,

Que freia todo sonho real e superior,

De inovação no modo de convivência,

Para reduzir toda agressiva violência.

 

Isolar-se em guetos e bunkers seguros,

Não direciona para os augúrios futuros,

Em que humanos possam conviver bem,

Sem tanto ódio, e guerra a fazer refém.

 

Numa pequenina nesga de esperança,

Sobrevive para uma coletiva andança,

Rol sem arma, conquista e destruição,

Mas da frágil capacidade de interação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

<center>PECULIARIEDADES DE UM VIVENTE</center>

  Introdução O assunto aqui abordado, se refere a situações vividas por uma pessoa humana comum, mas que, num itinerário um tanto distin...