terça-feira, 29 de setembro de 2026

O PROFETA DANIEL

 


Apresentação

            Neste mês da Bíblia, somos convidados a tirar ânimo irradiante especial para o discernimento dos rumos da fé, em nossos dias, a partir do livro de Daniel. Envolve histórias, fatos antigos, profetismo e, linguagem apocalíptica, para apontar um peculiar incentivo ao povo sofrido sob o imperador Antíoco IV, em torno dos anos 200 a 142 antes de Cristo (cf. 1 Mc 13,41) na Judéia. Enfatiza a luz fulgurante da fé brilhando na escuridão da maldade humana.

            Avivar tais situações, ajuda a não negociar a fé diante dos mandonismos injustos, interesseiros e manipuladores da fé, sob regras e leis contra as aspirações básicas do povo. O livro ajuda a olhar para as tramas de morte que ocorrem, nos dias atuais, e, clareia o discernimento para atitudes sensatas e responsáveis diante da insensatez humana, perpetrada por ambições imperialistas.

1 – Quem era Daniel?

            Uma lenda da antiga cidade cananéia, chamada Ugarite, de cerca de 1.360 anos antes de Cristo, mencionava Daniel como uma pessoa inteligente, reta, justa e seguidora de Deus. Parece que Ezequiel (14,14; 14,20 e 28,3), quando se refere a Daniel, não tinha noção deste personagem, mas, a de outro DANIEL, um jovem judeu de família nobre de Jerusalém, lá pelo ano 587 a.C., e que foi deportado com seus três amigos, além de governantes e nobres da cidade de Jerusalém, ao exílio babilônico.

2 – O surgimento do livro de Daniel

            O livro surgiu em torno do ano 167 a.C., no tempo dos Macabeus, período extremamente difícil para judeus fiéis, diante da violenta dominação selêucida. Mostra, no meio da monstruosidade praticada pelo Rei Antíoco IV, na Judéia, (que era a parte norte de Israel), fatos simbólicos do imperialismo babilônico, ocorrido há alguns séculos antes, quando Nabucodonosor cercou a Judéia e a invadiu em 597 a.C. O livro elogia personagens fiéis a Deus, e, estimula para testemunhar a fé, com coragem profética.

3 – Daniel na Corte da Babilônia

            O livro apresenta algumas imprecisões quanto a nomes, datas e fatos ocorridos na Babilônia. Isso permite entender que, que não se trata de livro histórico, mas, de avivamento de fatos de muitos séculos anteriores. Despertava, no meio do sofrimento, da arrogância e da tortura, um ânimo para resistir à prepotência do império selêucida, e, a permanecer firme na fé em Deus.

          Jovem de extraordinária inteligência e de bela aparência, Daniel já teria se mostrado excepcional em capacidades, na cidade de Jerusalém. Na Babilônia, o rei Nabucodonosor ficou encantado com sua inteligência e sabedoria, similar à de deuses, e lhe auferiu o cargo de ser chefe, dos magos, adivinhos e astrólogos (Dn 5, 11-12). Deu-lhe o nome de Baltasar e reconheceu seu conhecimento profundo, espírito aguçado e a capacidade de interpretar sonhos, bem como resolver enigmas. Foi promovido para ocupar o terceiro lugar no governo da Babilônia.

Os capítulos 1 a 6 do livro, narram episódios de Daniel e seus companheiros na Babilônia, símbolo da usurpação do lugar de Deus com a invasão de Antíoco IV; já os capítulos 7 a 12, abordam visões em torno do conflito da invasão selêucida, porque forçava o povo a romper suas tradições religiosas de fidelidade a Deus e ao judaísmo, para aderir à helenização, sob outra religião. Destacam-se os papéis de dois anjos que instruíram Daniel na inteligência: Gabriel (Deus é forte – Dn 8,16; 9,21); e Miguel (Quem é como Deus? – Dn 10, 13-21; 12). Ambos escoraram Daniel na defesa da verdade. Os capítulos 13 e 14 constituem acréscimos posteriores, que debocham sobre cultos idolátricos e destacam a salvação de inocentes, como Daniel e Susana.

O livro de Daniel é um belo convite para olhar além dos sofrimentos: os sábios na obediência fiel a Deus, vão ressuscitar e brilhar como estrelas no meio da escuridão! (Dn 12,6-8).

5 – Armadilhas e queda de Daniel

            Depois de nomeado como um dos três ministros responsáveis pelos sátrapas, sob o reino do medo Dario, Daniel foi colocado à frente de todo reino, (Dn 6,4) fato que despertou ciúmes e a armadilha dos invejosos que tramaram contra Daniel. Acusado de não adorar o rei, mas, de rezar ao Deus de Israel, acabou sendo jogado na cova de leões e não foi devorado, devido à intervenção de um anjo. Com isso, o rei teria obrigado a todos a respeitar o Deus de Daniel e mandou matar todos os que o tinham caluniado.

            Ao abordar este assunto do exílio babilônico, sob a simbologia da linguagem apocalíptica, o autor do livro estava se referindo, especialmente, ao momento presente da perseguição selêucida. O fato de reportar-se ao tempo anterior, servia para iluminar a fidelidade dos judeus, quando Antíoco IV pretendia eliminar o judaísmo pela negação da sua religião, obrigando-o a outra crença. Neste encorajamento à perseverança, o autor indicava o fim próximo da perseguição, porque Deus ajudaria o povo a livrar-se das garras da destruição (Dn 3, 24-25; 6,20-21; 14,40-41), e poderia aguardar a intervenção de Deus.

            Sob a linguagem apocalíptica, quem escreveu o livro, também estimulava o engajamento popular na luta e na resistência, para lhe apontar a vitória. Deus estaria do lado do povo, na luta contra a potência invasora.

6 – As narrativas sobre as visões

            Mais que linguagem sobre fim do mundo, as narrativas das visões, constituem interpretação das crueldades de ações imperialistas do passado, tais, como as dos quatro animais: Carneiro (império persa); Bode (império helenista); Grande chifre (Alexandre Magno); e Chifre pequeno (os Selêucidas).

            Afinal, o que faltaria, hoje, diante dos medos e pavores que levam a desistir da memória de fé, do senso de pertença, de colaboração e de aposta na construção do Reino de Deus, ante forças imperialistas?

Para quem aplicamos nossa inteligência?

Nabucodonosor recolhia as melhores inteligências, para ampliar seus poderes de domínio. Mais tarde, sob a dominação Síria, o rei Antíoco IV tentava dominar, através da imposição da religião imperialista, e para tanto, entronizou a imagem do deus Moloch (da antiga cultura fenícia) no centro do templo, e diante da estátua, sacrificavam-se a ele, as crianças e jovens aprisionados, porque se acreditava que Moloch somente ficava de bom humor e favorável ao povo, mediante muito sangue de pessoas humanas, sacrificadas na fogueira, em cultos.

Nesta adversidade inevitável, as comunidades da Judéia descobriram uma tática preciosa: atualizar a memória do sofrimento, - enfrentado pelos antepassados, - e tal procedimento as enchia de uma certeza: o mesmo Deus que as ajudou, certamente ajudará no tempo presente. Com este elã, as comunidades se animavam na resistência, e se moviam na certeza de que a vitória contra Antíoco IV aconteceria sem demora.

Este contexto antigo é altamente interpelador aos dias difíceis de nossas comunidades. Não ocorre, porventura, uma sistemática entrada de formas religiosas mais espiritualistas, alienadas e de submissão ao poder hegemônico, que age como na velha tática imperialista? Também o sistema vigente absorve as melhores inteligências, não para agir em favor do povo, mas, para espolia-lo da melhor forma possível a fim de produzir as mais inovadoras formas de matar seres humanos, com armas, cada dia mais letais.

É preciso perceber que muita insinuação, aparentemente simpática, atrela tanto a religião, como as condições de vida, a um interesse econômico dominador. Neste quadro, quem aproveita sua inteligência para que as boas memórias das comunidades não sejam anuladas por uma dominação bárbara, através de formas religiosas fáceis, suaves, muito festivas e meramente emotivas? Daniel e seus companheiros valeram-se da sua inteligência para serem retos, bons e fiéis à essência da religião de ricas memórias.

O que fazemos diante da invasão sutil da mídia e da informação que atrela grandes populações ao perverso jogo colonizador, e que se aufere a condição de ser o redentor, o salvador e o protetor, como se fosse divindade?

                                                                                            Padre João Inácio Kolling     

BLOG: http://padrejoaoinacio.blogspot.com.br

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

FORMAÇÃO DE FUTUROS PRESBÍTEROS

 

Pe. Dr. João Inácio Kolling

 

                                                                                                     

                                                       “NIHIL SINE CONSENSU PLEBIS”

                                                        (Nada sem o consenso do povo)

 

Questão preambular

            Com este texto deseja-se despertar para uma sensibilização com vistas à imprescindível mudança na “Weltanschauung” (modo de ver Deus, o mundo, e as coisas) da formação de futuros padres, ou seja, espera-se deles um itinerário que os leve da identidade tridentina, para identidade mais vinculada a Jesus Cristo, e ao que decorre do Concílio Vaticano II. Significa necessária passagem da noção de sacerdotalização de uma corporação autorreferencial e administradora do sagrado, para uma noção sinodal, que aponta serviço de comunhão, longe do mero culto e da piedade.

            O assunto formação de futuros presbíteros é, na verdade, um tanto aporético, pois, envolve grandes anseios e expectativas, mas, também indica evidências de que sua identidade arraigada ao longo de muitos séculos, já não corresponde adequadamente aos anseios das comunidades católicas, mas, renitente a uma possível mudança.

 Pode-se, por conseguinte, discutir e ponderar abundantemente sobre o tema, e ele, todavia, seguir como um “nó cego” para o alcance do que o Concílio Vaticano II indica para identidade presbiteral, e que, atualmente, já requer outra e inusitada característica, a sinodal, do presbítero, decorrente do Vaticano II. Já não convém que um seminário forme presbíteros para uma casta sacerdotal corporativa, de poder superior sobre uma comunidade, mas, terá que apontar para vida simples, humilde, serviçal, que assimila o Espírito de Deus na interação com a comunidade.

 Nesta vasta amplitude de possíveis itinerários, entram as máscaras de papéis sociais, configuradas a certos momentos históricos e identificadas com a função clara e, distintamente, delineada de um presbítero. Tudo indica que a clássica imagem de autoridade moral e social do presbítero tende a fragmentar-se perante sensibilidade comunitária que anela por presbíteros, menos sacerdotais e executivos, e, mais agentes animadores da fé.

            A Exortação Apostólica Pastore Dabo Vobis, com grande acuidade, destacou há trinta anos atrás, que a formação ao presbiterado e à vida religiosa é uma das tarefas das mais delicadas e importantes para o futuro do Evangelização da humanidade: “Certamente há uma fisionomia essencial do sacerdote que não muda: o padre de amanhã, não menos do que o de hoje, deverá assemelhar-se a Cristo” (PDV, 5), mas, no âmbito da sociedade, revelam-se contradições e simultânea sede por justiça, por mais paz e por um sentido mais situado na criação e no respeito pela natureza. Por outro lado, a sociedade revela notáveis elementos problemáticos, pois, nela se manifesta “um racionalismo, que em nome de uma concepção redutora da ‘ciência’ torna insensível a razão humana ao encontro com a Revelação e com a transcendência divina” (PDV,7). Além desta característica,

            “Registra-se uma defesa exasperada da subjetividade da pessoa, que tende a fechá-la no subjetivismo, incapaz de relações humanas. Assim muitos, sobretudo entre os adolescentes e os jovens, procuram compensar esta solidão com substitutos de vária natureza, através das formas mais ou menos agudas de hedonismo e de fuga às responsabilidades; prisioneiros do instante fugaz, procuram ‘consumir’ experiências individuais, as mais fortes e gratificantes possíveis no plano das emoções e sensações imediatas” (Idem, ibidem).

            A inquietação salientada nesta Exortação despertou muito empenho para formar presbíteros e religiosos de boa qualidade. No entanto, o atual horizonte sinodal já aponta para outra necessária e precípua característica na identidade do presbítero e do religioso. Em março de 2024, o Papa Francisco indicou temas para estudos preparatórios para a Segunda Assembleia Sinodal de outubro de 2024. O grupo incumbido de revisar a Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, sob orientação do Cardeal Cobo, destacou dois aportes importantes:

a)     Um marco eclesiológico pastoral a exigir conversões necessárias dos formandos para ampliar sua capacidade relacional, de amor recíproco e corresponsabilidade na tarefa missionária, junto com os fiéis no anúncio do Evangelho. Formação e serviço teriam que andar em estreita sintonia com a comunidade, num estilo sinodal, para inserir-se no Sensus Fidei do Povo de Deus. O documento sugere que a formação ocorra em pequenos grupos de seminaristas, a fim de facilitar a orientação com a dimensão comunitária. Mulheres competentes e corresponsáveis seriam fundamentais neste processo;

b)     Para o processo de conversão se tornar operativo, precisam os formandos estar ligados à vida cotidiana do Povo de Deus, e, particularmente, movidos pela Eclesiologia do Povo de Deus, sinodal, em vista de um relacionamento de comunhão. Em outras palavras: viver em fraternidade e trabalhar de forma sinodal.

A indicação deste grupo de estudo é certamente mais do que oportuna para evitar o aburguesamento fácil e elitizado de jovens aspirantes ao presbiterado.

            Ao lado deste desafio, ocorre também um intrincado jogo das contingências, porque a religião está atrelada a heranças culturais e se mescla com seus elementos, de tal forma, que corre o risco de perder suas primigênias razões de ser, porquanto a fé carece necessariamente da mediação cultural, e, para ser assimilável, depende da força motriz da cultura, que, - por sua vez, - é dinâmica, seletiva, inovadora e auto-transcendente. Como o processo cultural é seletivo - e segura alguns elementos, enquanto relega outros, - a costumeira identidade presbiteral, tende a perder seu lugar e sua relevância. Portanto, mais do que confiar na tradição dos últimos séculos de formação presbiteral, convém voltar às raízes do cristianismo, para dali haurir a identidade genuína na configuração do convite feito por Jesus Cristo a homens e mulheres.

A reatância do vínculo com a fonte, evita que se adotem hábitos do período mais medieval, já estranho ao momento histórico contemporâneo. O que uma vez foi considerado fixo, rígido, estável, perene e, excelente na visão estática de mundo, já não se ajusta ao mundo cultural de transformações rápidas e profundas, que insinuam a olhar mais para o futuro do que para o passado.

            O momento histórico atual permite considerar que a solução encontrada pelo Concílio de Trento, para formar bons e santos padres, há mais de mil e quinhentos anos atrás, parece não produzir a eficácia esperada nos dias hodiernos, basicamente de vida urbana. Um seminário foi resposta adequada para um mundo agrário do tempo medieval, e sua ótica formativa, na atualidade, produz uma demanda que já não corresponde às urgências da evangelização hodierna.

            Afinal, que rosto de Jesus deve ser anunciado e testemunhado em nosso tempo?

 

1 – A Vocação presbiteral e religiosa

 

            Firmou-se um conceito clássico de que a vocação é um chamado direto de Deus, feito na consciência de alguns indivíduos. Este privilégio, que inicia com um pressuposto de deferência toda especial e seletiva um tanto estranha da parte de Deus, eleva um menino a uma mágica ascensão para elevada condição social. Estaria Deus mesmo fazendo tal seletividade? E, por que não chama mais gente? Se a vocação depende de um chamado especial e exclusivo de Deus, estaria Nele a indisposição de despertar mais obreiros para a messe? Tudo indica, que o problema se situa, aqui entre nós, na instância vivida no interior das comunidades católicas.

            O discurso do privilégio da vocação sacerdotal apresenta algumas incongruências para o discipulado cristão. Como se manifesta este convite de Deus? Uma honrosa promoção direta, ou uma interpelação de um ambiente social e religioso, que requer ação colaborativa, compassiva e animadora? Então, para que tanta solenidade ufanista numa ordenação sacerdotal a fim de dar a entender a elevada superioridade do sacramento da Ordem, sobre os demais sacramentos? Mesmo a explícita adoração da personalidade, que faz um menino pobre ascender a um alto status simbólico na Igreja, não desperta, todavia, interesses de muitos jovens para a vida presbiteral.

            É provável que uma vocação cristã para o ministério presbiteral decorra mais precipuamente da sensibilidade para colaborar, ante apelos de comunidades e do bom exemplo de padres, e de outras lideranças dinâmicas, do que de uma interferência direta de Deus. Jesus Cristo convidou, a todos e a todas, para o seguimento.

            Permanece a impressão de que ainda vigora a velha estratificação platônica, sugerida no livro A República, quando Platão se valeu do mito da composição das almas, para justificar a desigualdade social do seu tempo: Deus teria formado algumas almas com ouro, outras com prata e, as demais, com ferro, bronze ou latão. Nesta perspectiva, o padre, privilegiado com alma de ouro, ´´e incumbido da função de governar, reger, pois, sua virtude de sabedoria enxerga o bem, a verdade e a justiça. Cabe-lhe o dever de administrar as almas de prata (soldados e defensores) e de latão (movidos pelos apetites do baixo ventre). Neste caso, mais do que ser discípulo seguidor de Jesus Cristo e anunciar, com testemunho, o Reino por Ele anunciado, importa o lugar social e o status de quem é auferido pela graça especial de Deus e ainda conta com privilegado acesso a todas as verdades divinas a serem repassadas à vida dos demais cristãos comuns.

            Parece que a “bolha” e o “céu de papel” das narrativas sobre vocação e vida presbiteral, não se coadunam com a vida real, vivida pelos possíveis candidatos ao presbiterado. Reproduz-se o imaginário da harmonia das rezas do padre, com seus sorrisos, amizades, altruísmos e ascética, sob a veste litúrgica colorida e principesca, como a mais elevada sintonia com Deus. Existe muita teatralidade e, nesta tarefa, tantos seminaristas e padres andam tão frágeis vícios, induzidos a levar uma vida dupla, que, sob boas aparências não escondem sinais de irrupção do vulcão interior. Basta ouvir a quantia de queixas relativas a fadiga e a esgotamento psíquico-afetivo (Burn Out) com sobrecarga de atividades e fatores depressivos.

            O seminarista, neste quadro tradicional de seminário, começa muito cedo, a sobrepôr uma máscara à sua personalidade: tipo de vestimenta, gosto pelo vestuário litúrgico e papéis ou representações, tais como as peculiares da teatralidade, para ser visto e promovido. Uma ordenação sacerdotal vira, então, o clímax para o seminarista aparecer como um ser totalmente acima da condição do comum dos pobres mortais e ele acaba escondendo, com variados mecanismos, suas patologias mal orientadas sob o papel de aparência.

            As narrativas das máscaras ou dos arquétipos estratificados há muitos séculos, apresentam o padre como sujeito puro, piedoso, meticuloso, nos mínimos detalhes do ritual, e, acima de tudo, um reverendo santo. Não pode revelar seus desejos, nem falhas ou limitações. Precisa mostrar que é irrepreensível, mais do que as beguinas da Idade média.

            A narrativa tão dilatada para despertar vocacionados, não combina com a escassez de presbíteros. Os apelos aos supostos privilégios, não encobrem suficientemente os desconfortos e os desencantos, pois, um padre está sujeito à cobrança contínua: é criticado por parcelas ou grandes porções da comunidade, tanto pelo que faz, quanto por aquilo que deixa de fazer. Esta crítica, normalmente, não é direta e chega ao padre por vias indiretas de pessoas fofoqueiras, e do “não dito” que se expressa nos olhares que censuram e distanciam. Ademais, como ocupar função tão enaltecida, e ter que observar que, cada vez mais, amigos e membros da comunidade se afastam e até rompem a amizade com o padre?

            Uma simples afirmação sobre certas posturas políticas e religiosas, é o suficiente para que o padre seja descartado, e visto como lixo que não interessa. Nesta condição, ligada pela tênue corda da simpatia, qualquer pequeno descuido implica em ser negligenciado. Tal risco força uma lisura e uma necessidade de polidez nas interações, que fazem o padre ser vago e obrigado a falar “abobrinhas” genéricas.

            Assim, o “céu de papel” já não sustenta nuvens animadoras para uma identidade profética e entusiasmada, em vista do um reino novo. Revela-se que o imagético produzido em torno do padre em tempos idos, o leva a vivenciar um dilema crucial: viver o ideal absorvido como nobre e superior, ou descer ao “eu real” da miséria, que o obriga a uma mendicância, até de afeto, para não sucumbir no isolamento solitário.

            Um dos meios mais evidentes da compra de afeto, está no esperar elogios e apreciações elogiosas, por atividade intensa, organizadora e de administração eficiente.

            Parece também ser sintomático que tantos padres escolham carreira na área jurídica e do direito canônico para levar uma vida menos exposta do que a de ser pároco. Formados na estrutura tridentina, ser exímio canonista, parece que oferece um pouco mais de status do que o ser pároco e se torna um dos pré-requisitos para carreira, com elevadas chances de ser nomeado bispo.

            Deste modo, as narrativas metafísicas e fantasiosas do imagético sacerdotal, já requerem e clamam por outras, - novas, - e inovadoras formas de vender “o peixe” da vocação sacerdotal.

 

2 - A Referencialidade do quadro Presbiteral

 

            Que perfil de presbítero, se encontra em nosso país, como desencadeador do primeiro despertar para a vocação ao presbitério?

            Constatam-se, na verdade, muitos perfis e muitos modelos nitidamente distintos, desde tradicionais “ultra-conservadores” até os “hiper-imagéticos”, que aparecem nas mídias. Ao lado deste pluralismo de multiplicidade referencial, certamente se impõe o visual do que é veiculado na mídia, mais do que no “corpo-a-corpo” dos testemunhos e da animação vocacional. Assim, grupos minoritários despertam mais vocações do que outros, através de suas interações midiáticas, sugestivas e de maior influência persuasiva. A visualização de celebrações solenes e imponentes, sejam as de Roma, ou a das grandes catedrais e santuários, fornece um imagético presbiteral muito distinto daquele que decorre dos presbíteros, simples, aprendizes, discretos, dedicados e humildes em milhares de comunidades paroquiais.

            Segundo José Carlos Pereira, uma pesquisa com 1858 entrevistas, apresentou uma amostragem de perfil, certamente interpelador para a formação de futuros presbíteros: evidenciou-se a imagem do presbítero “gerenciador do sagrado”, que atua em pastoral de manutenção, sem destacadas ousadias pastorais, sem muita gestão participativa, já que conselhos são meramente consultivos; predominam, por outro lado, as características das paróquias rurais de longa ancestralidade. Quanto à suposta fraternidade presbiteral, a interação real dos presbíteros com colegas e bispos, revela-se meramente convencional. Surpreende, também, que ocorre pouca oração pessoal e pouca leitura. Muitos presbíteros manifestam certa inquietação com depressão e suicídio e, muitos outros, também revelam forte inclinação à identidade homo-afetiva.

            Por outro lado, ao contrário dos presbíteros de algumas décadas passadas, os presbíteros do momento atual deixam transparecer reduzida atuação em políticas públicas e pastorais sociais. Com modelos destas características, pode-se pressupor que atraiam precipuamente vocações mais propensas para o imagético da autorreferencialidade e do poder simbólico que subjaz nas vestes ostensivas e solenes, mas, de uma referência superada pelo tempo. Neste aspecto, é oportuno lembrar o filósofo e sociólogo francês, Pierre Bourdieu, por salientar que a cultura tende a se reproduzir pela educação.

            Quando Bourdieu criticou a sociedade, salientou que nela se procede a dominação e a desigualdade, através de uma forma simbólica sutil no processo formativo, com vistas à manutenção da situação vigente, ou seja, reproduz-se um quadro social estabelecido e, muito rigidamente hierarquizado.

A partir da concepção de sociedade perfeita e de cristandade, criou-se um arcabouço da identidade do presbítero, estratificado no “poder superior” e na autoridade sobre o âmbito paroquial. Este “habitus” do mundo simbólico do presbítero, decorrente de longa identidade, assimilada e visualizada, reforça a predisposição para reproduzir exatamente a mesma identidade. Significa, por conseguinte, que o atual quadro de presbíteros tenderá a reproduzir seu próprio perfil na educação de futuros presbíteros. É muito difícil esperar que um pé de laranja venha a produzir uma melancia.

O ceticismo perante possível identidade presbiteral distinta daquela que se estratificou, corresponde de certa forma, a esperar melancias de laranjeiras. No entanto, espera-se, que a formação de futuros padres, mais do que preparar padres no horizonte de séculos passados, prepare pessoas especialistas em diálogo com o mundo cultural contemporâneo, como discípulos que se configuram progressivamente à personalidade de Jesus Cristo, em razão da construção do seu reino anunciado. Assim, mais do que príncipes ornamentais de autoridade moral e social, requerem-se discípulos para lidas sinodais, longe dos fundamentalismos que tendem a isolar e situar presbíteros numa realidade paralela.

Diante deste horizonte, uma pergunta se evidencia: o atual quadro presbiteral é satisfatório aos grandes anelos e anseios de animação da vida das comunidades católicas? Parece que o modelo vigente vem se revelando cada dia mais ineficiente e ineficaz, além de insuficiente diante das reais necessidades. Ainda mais, quando boa parte do clero tende ao ultra-conservadorismo e ao refúgio num mundo simbólico de ascensão social e de uma elevação do grau de exercício do poder. Poderiam, porventura, tais concepções de presbíteros, preparar futuros padres para outro inusitado contexto? Mesmo escondidos sob batinas e vestes suntuosas de um outro momento histórico, encontram-se, sob estas vestes pomposas, muitos seres altamente frágeis.

Notícias quase diárias destacam situações preocupantes de abuso de poder e desvios no campo afetivo-sexual, imagens de muito rubricismo e pouca mensagem cristã; muita imagética e pouca transparência e testemunho do jeito de Jesus Cristo; muita estética e pouquíssima ética; muita moral normativa, com mínima sensibilidade de coração; muita afirmação categórica e pouca iluminação nova; muito sermão inflamado e pouco testemunho; muita fala para agradar e pouco profetismo evangélico. Este contexto produz uma identidade de padre realmente pouco simpática a jovens adolescentes dos dias atuais. O já reduzido quadro de presbíteros, mais os escândalos de problemas afetivos não reconhecidos, além de muitos casos concretos de prepotência clerical, já não estimulam número considerável de jovens para alargar o atual quadro presbiteral.

Seria a centralidade do presbítero a do mero exercício de poder sobre uma área territorial da paróquia, ou teria outra ação decorrente dos evangelhos? Volta a questão chave: por que presbíteros novos, e para que?

A cultura humana se revela altamente seletiva: relega traços e conserva outros. Quando ela se transforma e adquire novos traços, pode a imagética de muitos séculos anteriores mostrar-se literalmente inócua frente a outro contexto cultural.

 

3 – Por nova identidade de futuros presbíteros

O filósofo Immanuel Kant salientou, na introdução do seu livro A Pedagogia, que o humano é aquilo que a educação faz dele. Tal importância remete ao empenho para que a formação se constitua num processo de especial e profunda capacidade relacional.

Reportar-se ao mundo cultural e religioso do tempo de Jesus Cristo, permite, observar, por outro lado, que Ele não convidou membros da elite pensante, nem mentes brilhantes de inteligência para dar início e andamento na construção do Reino (outro modo de se de viver). Dirigiu-se a pessoas frágeis, limitadas, que mesclavam dons e qualidades, com muitas limitações e incoerências. Ao levar em conta tal anterioridade, apostou em processo de formação para um perfil de personalidade servidora e missionária.

 Ainda que alguns sonhassem com a estratificada categoria de honras e poderes, Ele os despertou para um modus vivendi: simples, serviçal, distante da acomodação, com o mínimo, e, sem o comodismo do status de honra e de poderosa ascendência. A identidade peculiar que lhes apontou, foi a de serviço a Deus e às pessoas, que, no dizer do Papa Francisco, teria que absorver o cheiro das ovelhas. A Exortação Apostólica Pastore Dabo Vobis já salientava que:

“O presbítero, de fato, em virtude da consagração que recebe pelo sacramento da Ordem, é enviado pelo Pai, através de Jesus Cristo, ao qual como Cabeça e Pastor do seu povo é configurado de modo especial para viver e atuar, na força do Espírito Santo, a serviço da Igreja para a salvação do mundo” (PDV, 12).

Trata-se de perspectiva relacional, como marco da identidade do presbítero, pois, sacramentalmente inserido ao bispo e aos demais presbíteros, serve o Povo de Deus e a Igreja, para atraí-la a Cristo.

Mais do que minudências rituais e rubricismos ornamentais em celebrações, Jesus convocou seus seguidores ao despojamento para agir numa vinculação sinodal. Mandou-os para todos os lados, não para ensinar doutrinas e normas, mas, convocou homens e mulheres para o entendimento no encontro com diversas culturas: acolher e deixar-se acolher; aprender e partilhar; aculturar-se e inculturar-se.

Para tal interação, tornava-se importante a empatia, o equilíbrio emocional, a capacidade de boa relação interpessoal, o diálogo com o mundo diferente, e, para tal tarefa missionária de grandeza humanitária, fazia-se necessária uma espiritualidade profunda e autêntica, cultivo da oração e capacidade de discernir a presença de Deus naqueles mundos sofridos e espoliados. Dir-se-ia, hoje, como o Papa Francisco: uma Igreja em saída, convocada a sair do conforto para dialogar com as periferias existenciais.

Florescia assim, no meio de grandes limitações humanas e pessoais, uma crescente capacidade de compaixão e de sincera preocupação com as carências e necessidades alheias. Tal generosidade despertava ambientes de cordialidade e de ação solidária em favor dos mais frágeis e desprotegidos.

O Papa Leão XIV, na Carta Encíclica Magnífica Humanitas, destaca que existe igual dignidade de todos os seres humanos e que “o mais do que humano do cristianismo cristão” deve agir beneficamente na atual era digital, porque a Igreja deve caminhar na história da humanidade e é convocada a escutar, a dialogar, e deixar-se interpelar por tudo quanto diz respeito à existência de homens e mulheres do nosso tempo (Nº 19).

Tal desafio requer responsabilidade frente ao modo como se tecem as relações humanas nos dias atuais. Este chamamento para caminhar com a humanidade na concretude da sua história, deve levar à participação dos percursos, nos quais a sociedade se organiza (Nº 19).

3.1 – O que se espera de candidatos ao presbitério e vida religiosa

O sonho de pairar acima dos demais batizados é desejo real de boa parcela dos candidatos ao presbiterado. Para muitos deles, afinal, poder sair de uma situação modesta, sem grandes alternativas no status simbólico da cultura de conquistas e posses, a vida presbiteral emerge como meio de fácil ascensão social, e, como caminho ainda mais fácil do que o enfrentado pela maioria dos jovens.

A Exortação Apostólica Pastore Dabo Vobis, já delineava, na década de 1990 a espécie de ateísmo prático e existencial de uma visão secularista da vida e do destino humano, onde cada pessoa tende a se considerar o centro de todo interesse, “e ousa dizer-se o princípio e a razão de toda a realidade” (PDV, 7). Disso, “decorre desagregação da realidade familiar e o obscurecimento, ou a falsificação do verdadeiro sentido da sexualidade humana” fenômenos que incidem negativamente sobre os jovens e sua disponibilidade para a vocação religiosa e presbiteral (Idem, ibidem).

O imagético da indumentária litúrgica e a exibição (ou a “pavonice”) das vestes suntuosas, apresentam-se como sedutoras para meninos sonhadores. Aponta para a bolha, muito acima das contingências e fragilidades humanas e se vislumbra como itinerário para seguranças seguras e confortáveis, apesar da indiferença e da irrelevância que tal condição representa na sociedade secularizada.

3.2 – O risco de sacralização para o clericalismo

A facilidade característica do devocionalismo autorreferencial, própria do clericalismo, apresenta-se como persuasão sugestiva para um perfil de presbítero que exerce um poder categórico, absoluto e hegemônico na comunidade paroquial. Não cabe, neste horizonte a perspectiva profética, sinodal e colaborativa. É mais fácil saber e ditar o que se pode e não se pode fazer, e que, numa perspectiva carreirista, leva a ascender na graduação hierárquica e rígida.

Immanuel Kant, há muitos anos, levantou uma pergunta indiscreta atinente a este traço autoritário: Quando um padre, pastor ou alguém em função religiosa fala muito do que Deus quer e manda fazer, é mesmo Deus que quer isso, ou é vontade do reverendo mandante, querendo ampliar e elevar seu poder pessoal?

Será fundamental que candidatos ao presbitério, aprendam, desde muito cedo, a trabalhar com outros, sem assumir a última palavra e a direção das decisões. Terão que aprender, igualmente, a conviver no pluralismo religioso e, caminhar, como os jovens de Emaús, ao lado de quem pensa diferente, para lhes ajudar a clarear as razões da sua fé. O rosto de padre, a ser progressivamente delineado, deve ser o de pessoa frágil como as demais, mas que, simultaneamente, se torna fermento não oriundo da máscara assumida de outro tempo histórico.

O ser humano depende de ritos e precisa de simbologias para expressar os valores cristãos. No entanto, não são eficazes os rubricismos, - detalhistas e autorreferenciais, - que levam ao exercício de ritos executados com extrema frieza mecânica, mas, sob meticulosa execução. Este é traço típico da teatralidade, onde o simulacro do ator principal imita perfeitamente o imitado. É também uma ação típica do exercício da magia: a perfeição da minudência do ato, produz o efeito mágico.

Como Ernst Kassirer salientava no seu livro Antropologia Filosófica, se algo caracteriza os humanos como distintos dos demais seres vivos no planeta, é o da capacidade de expressar outras realidades através de símbolos. O ser humano é um animal simbólico. Por isso, a queda ao rubricismo, é tendência que mata a dimensão simbólica e se delimita ao campo da teatralidade e da magia. Pode ser comovente, mas, não passa de ritualismo vazio, que não atrai gerações emergentes. Provavelmente, tal teatralidade se lhes afigura como algo interessante e valioso. Perde-se, assim, a dimensão simbólica da liturgia poder remeter ao evento salvador de Jesus Cristo. Quando a liturgia, estreitamente atrelada a rubricas, se delimita ao perfeccionismo dos modos de atuar, de portar-se, de pregar e de se vestir, sobra somente bela teatralidade.

Requer-se que a formação presbiteral desvie toda a larga e conhecida rota para ascensão carreirista e de elevação hierárquica na sociedade, que estimula a criação de “funcionários do sagrado” e que resvalam em devocionismo, que, ao invés de se aproximar da configuração do jeito de Jesus Cristo, leva- indivíduos a bolhas idealizadas, artificiais, com muita disciplina, rigidez e piedades, mas, onde a alienação da vida real, inibe a capacidade empática com as pessoas sofridas.

Como a maioria dos candidatos ao presbitério e à vida religiosa procede de ambientes pobres, o seminário tradicional tornou-se um atalho de rápida e fácil ascensão para a classe média, tanto para vida presbiteral quanto para alcançar empregos de renda mais elevada.

Enquanto jovens desejam a vida presbiteral e religiosa, tornam-se, facilmente, piedosos “consumidores do sagrado” que os distancia de suas origens e os leva a relegar os traços marcantes da sua personalidade do ambiente de onde vieram. Ao verem o horizonte “empoderado” do presbitério, tornam-se exigentes: querem paróquia, boa de condições econômicas, com carro do ano, com casa confortável para morar e, com amplitude de espaço para mandar e desmandar, segundo seus critérios pessoais.

Segundo Rafael Luciani,

“A Igreja hoje não precisa de administradores do sagrado, mas, de pastores servos que caminham com os fiéis, escutem o Espírito que fala por meio deles e compreendam seu ministério como um serviço de comunhão no meio do mundo, especialmente em solidariedade com os mais excluídos”

Tampouco podem os seminários prestar-se para uma formação pré-conciliar ao Vaticano II, - sob o modelo tridentino que sacralizou e sacerdotalizou o presbítero, - ignorar que, segundo o documento conciliar Presbyterorum Ordinis, eles são configurados como ministros, pelo sacramento da ordem, com a tarefa precípua de proclamar o Evangelho, celebrar sacramentos e governar pastoralmente. No dizer de Rafael Luciano: “Sacerdócio, mais do que casta sacerdotal autônoma e autorreferencial, não pode ficar à parte da comunidade”, pois, necessita estar em estreita comunhão com os fiéis.

O referido documento conciliar também salienta nº 6, que, “de pouco servirão as cerimônias, embora belas, bem como as associações, embora florescentes, se não se ordenam a educar os homens a conseguir a maturidade cristã”.

Em suma, a formação de padres novos, requer um ambiente comunitário e uma combinação de estudo rigoroso, mas, em vista do enriquecimento da fé, vivenciada numa comunidade: caminho humilde, serviçal, altruísta, como o de Maria, mãe de Jesus.

BIBLIOGRAFIA

BRAND, Fabian. O que diz o novo quadro para a formação sacerdotal. In: ihu-unisinos.br/665434, aces. 17/09/2026.

Papa Leão XIV. Carta Encíclica MAGNÍFICA HUMANITAS. In: vatican.va/contente/leo-xiv/pt/enciclicals/documents/20260515-magnifica-humanitas.html

CASSIRER, Ernst. Antropologia Filosófica. Editora Mestre Jou: RJ, 1977.

COBO, José Cardeal. Grupo de estudo número 4 (sobre a revisão da Ratio Fundmentalis Insstitutionis Sacerdotalis. In: ihu.unisinos.br/categorias/663017-secretria-do-sinodo-publicca-dirtetrizes-para-a-formação-sacerdotal e o papel d ...

Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). São Paulo: Paulus, 1997.

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. (Trad. SANTOS, Manuela Pinto dos. Et alii), Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2001.

______________ . Sobre a Pedagogia. São Paulo: Almedina, 2018.

LUCIANI, Rafael. Nunca haverá uma Igreja sinodal sem seminário sinodal. In: ihu.unisinos.br/671282-nunca-haverá-uma-igreja-sindal-sem-seminarios-sinodais-artigo-de-raael-luciani

KOLLING, João Inácio. Espetacularização Litúrgica. Maringá - PR: Viseu, 2025.

MORAIS, Wagner João Pacheco de. Formação presbiteral à luz do pontificado do Papa Francisco. Paulus: Vida Pastoral, julho-agosto 2025 – ano66 – número 364 – pp.14 – 21

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PLATÃO. A República. São Paulo: MARTINS FONTES, 2009, 464p.

PEREIRA, José Carlos. Formação presbiteral: roteiro para uma formação de sacerdotes diocesanos e religiosos.Paulus,2022,136 p.

ROSSI, Dejair de. A missão do formador de presbíteros hoje. In:pbcm.org.br/artigo/a-missa-o-do-formador-de-presbiteros-hoje-20042021-162040

SANTOS, Manuel Joaquim R. dos. A encruzilhada na formação presbiteral. In: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/658746-a-e...

WISNIEWSKI, Eliseu. Formação presbiteral: roteiro para formação de sacerdotes diocesanos e religiosos. In:ihu-unisinos.br/categorias/627564, aces. 17/10/2026.

_________________. Operários da fé: o padre na sociedade brasileira. In:ihu-unisinos.br/categorias/626731, aces. 17/09/2026.

__________________ . Formação Presbiteral Diocesana: perspectivas e desafios. In: https://www.vidapastoral.com.br/atualidades/formac...

EXPLORADORES DA DISSONÂNCIA

 


Doença social corrosiva do respeito,

Ativada, cada dia mais como defeito,

Revela-se contágio do prazer sádico,

Que divide o relacionamento básico.

 

Quando facilidade de interação social,

Se vê minada por desintegração real,

Destacam-se eminentes exploradores,

Os peritos em atos dessincronizadores.

 

Enxergam e concluem tudo pelo pior,

Sem captar a ação exitosa ao redor,

Que seja boa, positiva, e edificante,

Pois agem para profecia degradante.

 

Visualizam, acima do senso comum,

Que a desunião com a ira incomum,

Lhes faculta ascendência no poder,

A viver e reinar segundo seu querer.

 

Quanto mais desunem meio social,

Tanto mais fácil a submissão radical,

Sob legenda de estabelecer ordem,

Com o autoritarismo da desordem.

 

Fantasiosa sensação de segurança,

E promessa de próspera bonança,

Escondem subjacência entreguista,

E a malvadeza do otimismo idealista.

 

Com a falsa sensação democrática,

Aliena-se com a perniciosa tática,

De manipular projetos e interesses,

Para espertas e elitizadas benesses.

 

A destemporalização dos avanços,

Sob calma de desejados remansos,

Libera e justifica ato de truculência,

Ante todo movimento de reatância.

 

Povo desunido, facilmente vencido,

Precisa estar bem dessincronizado,

Para que mobilizações humanitárias,

Não atrapalhem as ações arbitrárias.

 

Cria-se um mundo fulcral desumano,

Que explora com ousadia o engano,

Ao protelar o bom projeto apontado,

E eximir-se ante ódio desencontrado.

 

Sob boas expectativas democráticas,

Desmontam-se instituições práticas,

Para centralismo de poder mandante,

Que divide com o seu poder alienante.

 

 

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O ANIMAL DO ÓDIO CRUEL

 


Altamente racional, ágil, e dominador,

Na luta renhida do ativismo usurpador,

Está o ser humano como hegemônico,

Em seu estranho processo anacrônico:

 

Sente ira e raiva como os demais seres,

E, mesmo sob éticos e morais deveres,

Amplia o maior processo exterminador,

Ao ampliar seu amplo leque destruidor.

 

Basta que o narcisista psicótico almeje,

Mandar sobre outros seres e os inveje,

Que consegue denegrir imagem alheia,

E envolver outros na sua invejosa peia.

 

Mais que instinto de amparo e defesa,

Consegue ativar o ódio e a malvadeza,

Na amplitude extensiva e contagiante,

A favor dum mórbido desejo delirante.

 

Ao agregar simpatizantes pretensiosos,

Espalha por toda parte ânimos briosos,

A amoucos para sua função acalantada,

E os dinamiza numa crueldade dilatada.

 

Amparado por rede social difamadora,

Sustenta vasta agregação perseguidora,

Contra quem deseja o que ele já deseja,

E envolve multidões lutadoras na peleja.

 

O recurso superior ao dos outros animais,

É que consegue sentir ódios excomunais,

Divulga-los para que os outros os sintam,

E, numa perseguidora empatia consintam.

 

As mentiras com fantasias são suficientes,

Para coletivizar com imagens degradantes,

A figura de quem aspira o mesmo encargo,

E lhe imputar o pior processo de embargo:

 

Ferir seu nome e sua apreciada reputação,

E desumanizá-lo por qualquer pífia razão,

Justificam um ódio coletivo para o execrar,

Como inimigo perigoso, para o massacrar.

 

Modo de ser que se impregna na cultura,

Dilui toda consciência da possível ternura,

E faz assimilar como normal do cotidiano,

Ocultar toda a falcatrua de um doidivano.

 

Assim, o mentir e inventar notícias falsas,

Facilita as fanatizadas e melodiosas valsas,

Capazes de moldar argumentos favoráveis,

 Aos gestores dos ódios cruéis e execráveis.

 

Para uma sensibilidade de discernimento,

É necessário observar com o senso atento,

Quem pensa menos ódio, difuso na mídia,

E quem viabiliza coletivo de menos insídia.

 

Insinuação do ódio sob falsa auto-defesa,

Não eleva um nível de honesta inteireza,

E nunca produzirá oceanos para separar,

Fanáticos aliados ante inimigos a afastar.

 

Tampouco se poderá tolerar e assimilar,

Que o ódio humano cruel deve dominar,

O cotidiano da interação social e do lar,

Como algo congênito para se propalar.

 

 

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

SOB PENSAMENTO ACELERADO

 


Na lógica da elevada conectividade,

Sem lugar na agenda para atividade,

E sem o horário para conversa à toa,

Tudo come tempo e tudo se abalroa.

 

A desculpa ordinária ante cobrança,

É falta de tempo na corrida andança,

De necessárias conexões interativas,

Pedindo atividades mais hiperativas.

 

Tudo precisa ser investido para lucrar,

Render muito para bem se encalacrar,

Em novidades e inovações chamativas,

E acumular para as esnobações altivas.

 

A aceleração vai ditando suas normas,

E aponta cada dia mais as plataformas,

Para serem intensamente assimiladas,

No rol de mais produções sofisticadas.

 

Uma rotação máxima da capacidade,

Dia após dia de muita hiperatividade,

Causa fartas iminências de colapsos,

Com culpas dos constantes relapsos.

 

Aumentar, ampliar, crescer e superar,

Ordens inconscientes de acabrunhar,

Ditam ordem de produzir e consumir,

Na lei dinâmica para evitar subsumir.

 

Tudo requerer uma larga otimização,

Que gera pressa e elevada motivação,

Para evitar alienação temida e frívola,

Da máquina a gerar relação equívoca.

 

Atrofia-se toda comunicação verbal,

Pois tecnologia ocupa lugar central,

Da inteligência sem discernimento,

E fornece o atrelado entretenimento.

 

Poderosos querem mundo sem leis,

E amealham das dependentes greis,

Fortunas que desajustam o planeta,

Mas favorecem sua astuciosa treta.

 

Se normas democráticas caducam,

As tecnologias também abaiucam,

E distantes do bem-estar sonhado,

Sorvem bom tempo, tão disparado.

 

Sobra vida cada dia mais controlada,

Pela burocracia nada prodigalizada,

Que interfere na condição humana,

E a espolia de forma muito sacana.

 

 

 

 

<center>O PROFETA DANIEL</center>

  Apresentação             Neste mês da Bíblia, somos convidados a tirar ânimo irradiante especial para o discernimento dos rumos da fé,...