Introdução
O assunto aqui abordado, se refere a
situações vividas por uma pessoa humana comum, mas que, num itinerário um tanto
distinto daquele que seu habitat lhe apresentou, quis ser padre da Igreja
Católica. Na lógica da comunidade, poderia ser mais um futuro agricultor de
minifúndio, como seu pai e os demais membros da comunidade.
Por uma razão pouco comum, e
merecedora de escárnio implacável dos colegas de escola, ele persistiu na busca
das mediações para ser padre. Tal desejo moveu-o a sair da comunidade, com 13
anos de idade, a fim de prosseguir nos estudos que eram requeridos para o
ministério de padre. A escolha implicou em deixar os pais, os oito irmãos e
avançar nos estudos com vistas ao ideal almejado.
Como padre, encontrou outros
percalços, mas, também outras mediações para se sentir muito realizado naquilo
que quis ser, desde menino pequeno.
1
IRRUPÇÃO DA SUA VIDA
Corria o ano
de 1951. No pequeno povoado de Cunhataí, parte do então primeiro distrito de
Chapecó, São Carlos, no Estado de Santa Catarina, moradores advindos de
diversos lugares de descendência alemã, começavam a desbravar a mata intensa
para transformar suas áreas em condições de produzir alimentos de subsistência
daquelas famílias pobres. Na casa de Lúcia Sulzbacher e Teobaldo Kolling,
pequeno espaço do galpão servia de moradia. O resto era ocupado para estábulo,
chiqueiro de porcos e lugar para os objetos de trabalho, como carroça de bois e
arado. Mesmo na pobreza extrema, viviam da intuição de trabalhar muito,
produzir, melhorar e, com uma grande família, realizar-se na vida.
O ano
anterior, 1950, foi de grande estiagem e praticamente nada pode ser colhido na
lavoura. Alargou-se, todavia, a esperança de ampliar a família, em vista de um
futuro de melhores condições de vida. Salete, a primogênita do casal, contava
com um ano de vida e levou muito tempo para fruir sabores de árvores frutíferas
com seus fartos nutrientes. Neste contexto, foi concebido e gestado mais uma
criatura humana, que viria a ser chamado de João Inácio. O período de gestação
correu no clima da mata envolvente e vizinhos distantes.
O mês de
outubro, aumentou as expectativas em torno do nascimento do esperado menino.
Surgimento das dores de parto fizeram o Teobaldo ir até a parteira para que
viesse acompanhar o serviço de parto. Passou-se o tempo previsto e as
contrações de parto sossegaram. Lúcia desconfiou que algo errado acontecera e
que o menino poderia ter morrido no útero. Uma semana depois, voltaram as dores
de parto, e a cantilena repetitiva da parteira consolava Lúcia: “cada criancinha tem a sua horinha”. Três
senhoras vizinhas acompanhavam o serviço de parto. Longas horas de desespero
não evidenciavam a dita horinha do menino. Quando, enfim, foi puxado para fora,
à força, - na noite escura do dia 19 de outubro de 1951, - sob a impressão de
que já estava morto, as mulheres se empenharam para salvar a vida de Lúcia e
deixaram o menino, já considerado morto, de lado. Depois de algumas horas, uma
das senhoras foi colocar a mão sobre o peito do menino, todo machucado, e
percebeu que o coração ainda batia. Falou às demais, e resolveram dar-lhe os
devidos cuidados.
Lúcia ao ser
informada de que o menino respirava e estava vivo, lembrou-se da última missa
em que esteve presente, e ouviu o padre jesuíta falar do padre João Batista
Reus de São Leopoldo, RS, venerado como santo; e de Santo Inácio de Loyola, e,
naquela inusitada hora, decidiu que o nome do menino, em memória aos dois
santos que invocara para serem intercessores de bom parto, seria João Inácio.
Poucos dias
depois, o menino começou a apresentar febre alta e a passar muito mal. Não
tinha como pensar em ir até um médico, pois, o mais próximo levaria meio dia de
andança de cavalo, e implicaria, em mais meio dia, para o médico vir montado em
outro cavalo até a casa. Provavelmente a oração de Lúcia e seu desejo em favor
da vida de João Inácio prevaleceram sobre as ameaças de óbito.
As horas
inconscientes na longa noite escura do dia 19 de outubro, deixaram a marca
indelével na vida do menino: provável trombose no lado direito do corpo e uma
lesão pulmonar de asma, de formas que, somente a parte superior do pulmão
absorve ar. Por graça ou muita sorte, o sangue se recanalizou por veias
periféricas do corpo. Já a questão pulmonar, dificultou corridas em prática de
esportes, permanência em ambientes mofados, úmidos e de poeiras.
O menino,
mesmo assim, agraciado com o elã vital dos pais, foi crescendo na aparente
normalidade. Passou a ser identificado como Joãozinho. Tornou-se esperto, ágil
e de fácil aprendizagem. Muito cedo estava familiarizado com as lidas de tratar
porcos, bezerros, cavalos e galinhas. Com cinco a seis anos, era capaz de ir
montado sobre um saco de milho no lombo de um burro até o moinho, para retornar
com farinha. Criou gosto e curiosidade por tudo. Debulhava meio saco de milho
com as mãos e garantia que não faltasse a farinha do pão de cada dia em casa. O
pai o erguia sobre o burro e ele ia ao moinho. Depois do milho transformado em
farinha, o “moinheiro” e erguia novamente sobre o burro, e ele voltava feliz
para casa.
Aos sete anos começou a frequentar a
escola, pois antes de sete anos não era permitido ir à escola. Como todos os
moradores da comunidade, nem o professor sabia falar na língua portuguesa. As
aulas eram dadas na fala do dialeto alemão “Hunsrick”. Até a quarta-série, do
então curso primário, João sabia algumas palavras isoladas em português, como
faca, garfo, mas, não sabia utilizar verbos para eventual fala na língua
vernácula. Como desejava ser padre, teria que ir para um seminário, uma vez que
a escolaridade em Cunhataí e, demais comunidades, ia até a quarta série do
curso primário.
O pai de João Inácio negociou com
outro morador, que possuía um jipe, para levar o menino até Maravilha, SC,
viagem longa e difícil de cerca de sessenta quilômetros que durou mais de
meio-dia, através de estrada precária, no meio de muito mato (hoje, 25 km de
rodovia asfáltica). Maravilha, naquele ano de 1964, era uma pequena vila,
escondida por imensos pinheirais a se perderem de vista. Não existia luz
elétrica e, no alto do morro, ficava o seminário, um prédio de três pisos,
feito de madeira, que emitia muitos estalos e rangidos diante dos ventos e
tempestades.
Se o desejo de ser padre era forte e
alentador, a dificuldade incrível foi a de não saber falar em português e
sofrer intenso “bulling” por parte de outros 23 meninos. Para João Inácio, “p”
e “b” eram iguais; o “s”, “c”, “ç” e “z”, também se configuravam como totalmente
similares na pronúncia e na escrita. Como a maioria dos meninos seminaristas
era de procedência italiana, o pobre João Inácio virou o “bode expiatório” da
descarga coletiva. Embora fosse muito bem na aprendizagem e nas provas, não se
escapou da condição de vítima de expiação do grupo de meninos, entre onze e
treze anos de idade.
No ano seguinte, viria a entrada para
o curso ginasial. Foi para Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, onde a crueldade
do “bulling” se potencializou ainda mais, pois, ali ficava entre 230 outros
meninos a cursar o curso ginasial. Embora não se conhecesse o termo, o processo
de descarga coletiva contra alguns meninos, era extremamente perverso e
implacável. Grande parte dos meninos desistia do seminário diante da pressão
grupal que escolhia vítimas aleatórias e descarregava suas maldades,
agressividades, projeções e sadismos sobre estas vítimas.
O período ginasial, entretanto,
transformou o Joãozinho em “João Grandão”, pois, sua altura chegou a um metro e
noventa e um centímetros. Isso facilitou algumas auto-defesas diante de
provocações, porquanto aprendeu a resolver algumas questões na força do braço e
reduzir ações de “bulling”.
2
LONGO TEMPO BOROCOXÔ
Sem jamais ter conseguido entender
como permaneceu em ambiente tão hostil e adverso, como aquele dos seminários, o
fato de desejar a vida de padre sempre falou mais alto do que as limitações do
ambiente nada cordial. Percebeu que ninguém dos que mais o humilhavam, seguiu por
longo tempo no rumo da vida presbiteral. Tristonho, isolado, melancólico e
pouco amado, cruzou pelos anos de teimosa e dura resistência, e tornou-se
determinado na sua capacidade de resiliência, vendo os agressores seguindo
outros rumos de vida pessoal.
Ao frequentar o curso científico,
nível de segundo grau, descobriu alternativas para contornar o “bulling”.
Trabalhava numa leitaria, para custear parte dos seus estudos e com isso,
morando à parte dos demais, aprumou-se numa vida mais autônoma. Como as aulas
eram frequentadas em colégio público estadual, sentiu que não precisava
humilhar-se diante de ninguém e, por ironia, foi quem obteve as melhores notas
em Português, a ponto de causar inveja nos demais.
Vencida a etapa do curso de Segundo
Grau, já na Universidade, foi deixando seus colegas para trás, tanto no
português, quanto no destaque em outras disciplinas, sobretudo, na Psicologia e
Filosofia. Dali em diante, já sem a adversidade dos tempos passados, passou a
acreditar ainda mais em si e nos seus variados dotes de estudo e de
versatilidade em diferentes serviços. Se o tirocínio do seminário o moldou para
a rigidez da lida cotidiana, também o sensibilizou para apostar em outro jeito
de convivência do que aquele da lei bruta que segregava e eliminava pelo
extravasamento do caciquismo sobre vítimas expiatórias no meio do grupo.
Com ele, sobrou um pequeno e
insignificante resto a apostar na vida presbiteral. Este grupo de sete membros,
seguiu estudos de Teologia na PUC de Porto Alegre. João Inácio foi ordenado
presbítero no dia 09 de dezembro de 1979. Iniciou sua lida de padre em Rio
Pardo, RS, como formador de 80 seminaristas de Segundo Grau e auxiliar em
trabalho pastoral. Depois de apenas dois meses, jogando futebol, torceu o
joelho direito e rompeu os ligamentos, de formas que o joelho se dobrava para
qualquer lado.
Depois de meses de andanças com
massagistas, foi a um ortopedista e constatada a ruptura, este, procedeu uma
intervenção cirúrgica, que acabou infeccionando, devido a contaminação de
Stafilococo da sala cirúrgica. Meio ano de curativos e nova cirurgia, nada
resolveram para estabilizar o joelho. Seguiram-se mais duas outras cirurgias,
que também infeccionaram e nada resolveram. João Inácio foi, então, parar com
os médicos do Grêmio, em Porto Alegre. Uma quinta cirurgia, para reparar
estragos de outros médicos foi feita, na perspectiva de uma sexta cirurgia de
enxerto de fibra importada dos Estados Unidos. Como a cirurgia causou trombose
na perna direita, a prevista sexta cirurgia, foi com um angiologista para
extrair a veia safena, e a do enxerto, até hoje não saiu. Em compensação, a
sétima cirurgia foi efetuada no joelho esquerdo devido à compensação em razão
da instabilidade do joelho direito. Viria ainda uma oitava cirurgia no pé
direito, pois, a sequela das muitas cirurgias desalinhou o pé e acabou em
fratura de um osso que exigiu colocação de pinos e novo alinhamento do pé.
A limitação, que implicou em anos de
andança com ajuda de muletas, forçou uma reorientação nos rumos da vida e direcionou
para uma atividade de poucos deslocamentos físicos. Especialização em Psicopedagogia,
facilitou as Entrevistas de Ajuda e orientação pessoal, com alguns milhares de
atendimentos. Mestrado em Antropologia Filosófica na PUC de Porto Alegre e
Doutorado em Filosofia na cidade de Santiago de Compostela, na Espanha, deram
suporte para lecionar em diferentes cursos superiores.
Finais de semana variavam as rotinas
com celebrações religiosas em vilas pobres.
3
ESCREVEDOR DE TEXTOS
A alta instabilidade do joelho levou
João Inácio a achar novo meio de interação com pessoas. Escrever textos se
afigurava como um modo discreto e viável de chegar a outras pessoas. Assim,
escreveu ao longo dos três primeiros anos de padre, 150 textos publicados no
jornal “A Folha” de Rio Pardo. Depois, na cidade de Passo Fundo, RS, como
professor e diretor de uma Faculdade de Filosofia, passou a lecionar grande
quantidade de disciplinas acadêmicas.
Além dos limites de locomoção,
enfrentava constantes crises de asma e de rinite alérgica. Tratamentos e
remédios caseiros, apenas contornavam parcialmente os problemas respiratórios.
Sob orientação médica, migrou para o centro-oeste, mais precisamente para Rio
Verde, em Goiás. Ali se viu livre dos Aerofagóides e Fagocitóides, micro-organismos
típicos da região do planalto rio-grandense, mas, nos períodos de seca, o
centro-oeste também o causticava com a fumaça das queimadas de cerrado e do ar
seco.
A região do sudoeste goiano, em
compensação, ofereceu a João Inácio uma surpresa para caminhar, sem cair a toda
hora, devido à instabilidade do joelho. Uma freira norte-americana, chamada
Dolores, retornou de suas férias, nos Estados Unidos, e, como se tratava contra
um câncer no seio, trouxe junto um frasco de 500 comprimidos de Glicosamina (de
1500 mlg). Ao suspeitar que poderiam interagir negativamente no combate ao
câncer, doou esta medicação ao padre João Inácio. Ele, ao se inteirar das
indicações, resolveu tomar estes comprimidos, pensando que, caso não ajudassem,
mal também não fariam; e, constatou que os comprimidos aumentaram
paulatinamente a cartilagem do joelho e estagnaram a artrose e o aumento de
folga entre as juntas, a tal ponto que, em meses posteriores podia caminhar
normalmente sem falsear neste joelho. Mediação inesperada, permitiu progressiva
evolução de caminhadas que chegaram a dez quilômetros sem efeitos colaterais.
Muita mistura sincrética da
religiosidade nesta região de Goiás, moveu João Inácio a criar uma Faculdade de
Teologia, com perspectiva de agregar outros cursos como Antropologia, Filosofia
e Sociologia.
Os encaminhamentos do projeto
tramitaram no MEC e, quando já se esperava a aprovação final, apareceu um
obstáculo: a área das Faculdades, adquirida por comodato da Diocese de Jataí,
não tinha escritura registrada em Cartório, pois, fora anexada à Diocese, por
intervenção da Nunciatura da Igreja Católica, mas, sua validade não fora
reconhecida pelo MEC. Fez-se, então, uma parceria com a Faculdade de Teologia
de Boa Vista para convalidar o curso de Teologia. Tudo ia muito bem, e os
professores, praticamente todos vindos dos cursos de Doutorado da Universidade
Católica de Goiás e, - como alguns deles eram visitadores do MEC, - alertaram
sobre a iminência do MEC suspender convalidações de cursos superiores. Depois
de dez anos de atividades, para não correr o risco de ser surpreendido
repentinamente e ter que indenizar os alunos, deixou-se de abrir vagas para
novas turmas e, depois de três anos, encerrou-se a Faculdade de Teologia.
Os frutos da Faculdade foram enormes
e ainda repercutem beneficamente na região através de lideranças católicas
competentes e de bom nível de conhecimentos teológicos.
Padre João Inácio migrou, então, para
Lucas do Rio Verde a fim de lecionar em curso de Mestrado a ser oferecido para
professores do “Nortão” do Mato Grosso. A liberação do curso dependia apenas da
rubrica do Ministro da Educação, mas, até hoje, ainda não foi liberado por
questões políticas. João Inácio lecionou em outros cursos, por um ano e meio, e
ao completar o tempo necessário para aposentadoria, deixou o magistério e se
ofereceu ao bispo de Diamantino, MT para atuar, por algum tempo, em alguma
paróquia. Foi destinado a ser o primeiro pároco do Município de Santa Rita do
Trivelato, localizado a 560 km acima de Cuiabá. Quando a paróquia já estava em
bom andamento, depois de dois anos, o bispo pediu para que João Inácio
iniciasse outra paróquia nova na cidade de Tangará da Serra, MT, a quinhentos
quilômetros de Santa Rita do Trivelato. Tudo ia a mil maravilhas nesta nova
paróquia, imensa, com comunidades a mais de 150 km de distância por difíceis
estradas rurais, e, antes mesmo de completar um ano, João Inácio foi convocado
pelos bispos do Mato Grosso para assumir a direção das Faculdades Católicas do
Mato Grosso, em Cuiabá. Após muita resistência, aceitou o encargo, mas, ao
chegar lá, foi boicotado por um grupo de professores e alunos de perspectiva
muito distinta. Ao lecionar no curso de pós-graduação em Catequese naquele
ambiente, e proferir algumas palestras para os padres do Regional do Mato
Grosso, a avaliação de seu perfil e de sua visão de Igreja, devem ter sido
pouco agradáveis aos ouvidos mais conservadores.
Padre João Inácio informou o bispo e
resolveu não se desgastar naquele ambiente. O bispo ofereceu-lhe uma permuta
para que Padre João Inácio fosse a Guarapuava, no Paraná onde o bispo era seu
colega desde a infância e outro padre dali retornaria à sua diocese.
Em ambientes de pouquíssima leitura,
tanto no Mato Grosso quanto no Paraná, João Inácio, voltou a escrever artigos
acadêmicos e textos variados, publicados num BLOG. Os poucos acessos,
levaram-no a mudar o modo de apresentação dos textos, e passou a escrever
pequenos poemas. Estes alcançaram um alcance um pouco maior. O tempo foi
passando, e ele já escreveu e postou mais de mil e quinhentos textos no seu
BLOG e escreveu mais de cinquenta livros. Atualmente seu BLOG chega a uma média
em torno de mil acessos diários. O curioso é que apenas alguns poucos acessos
ocorrem no Brasil e os demais, vem ocorrendo a partir de todos os lugares do
planeta. Em Guarapuava, depois de atuar, por diversos anos, numa paróquia
urbana, apresentou-se para iniciar mais uma paróquia nova: seria uma paróquia
rural, compreendida pelo distrito do Guará, vinte quilômetros adiante de
Guarapuava no rumo de Curitiba. Foi uma experiência muito gratificante, iniciar
uma paróquia com dez comunidades rurais, todas elas compreendidas por
assentamentos de Sem-Terra. Povo pobre, humilde, mas, de coração extraordinário
e generoso. Seria o lugar para ficar velho até uma ditosa velhice. Entretanto,
fez emergir dois problemas: asma e rinite constante devido à altitude de 1250
metros e agravamento de hérnia cervical devido à andança em estradas de péssimo
estado de conservação. Como os moradores não tinham suas terras legalizadas e
não pagavam impostos, a prefeitura também não arrumava as estradas.
A criação da paróquia São José foi
uma experiência maravilhosa e gratificante, mas, os limites da saúde falaram
mais alto: pediu ao bispo para entrar como “velhinho aposentado” e ficar na
reserva. Voltou a residir em sua terra natal de Cunhataí, SC. Ali, depois de
dois anos, foi convidado pelo arcebispo de Chapecó para ser vigário paroquial
na Catedral. Com apenas meio ano de atuação, foi convocado para substituir o
pároco da Paróquia São Cristóvão de Chapecó, acometido por câncer e que
precisaria submeter-se à extração do estômago e tratamentos de quimioterapia e
imunoterapia.
4
PENSAMENTOS E CONTROVÉRSIAS
Quando o “bulling” ficou para trás,
veio a contrariedade, acompanhada de muitos ataques por causa de pensamentos
filosóficos. Como professor de Filosofia, João Inácio se viu obrigado a ler
muitos livros como os de Marx, Feuerbach, Hegel, Engels, Altusser, Gramsci e
tantos outros pensadores modernos a fim de poder discutir com os alunos, muitas
questões que eles levantavam nas aulas. Mesmo sem nunca ter se pensado
marxista, teve que ouvir muita afronta de padres, precipuamente formados no
pensamento tomista medieval.
Quando algum seminarista desistia no
meio do curso de Filosofia, o comentário calunioso se tornava imediato: “Também! Só se estuda marxismo na Faculdade”.
Os opositores, que se formaram com um único manual tomista, nem se davam conta
de que o currículo de uma Faculdade de Filosofia implicava em carga horária de
mais de 3.600 horas e, com muitas disciplinas diferentes.
O pior era suportar, - destas mentes
rígidas que nunca sequer leram um livro de pensadores modernos, - a
justificativa de que existia um único pensamento perene – o Tomista – e que o
resto, era coisa sem relevância alguma. Tal apelo, impreterivelmente voltava a
se insinuado. Poderia um pensador chegar perto da altitude do Tomás de Aquino,
que viveu no ano de 1200, mas, igual a ele, ou acima dele, jamais. E
aferravam-se na ideologia da defesa do “doutor angelical”.
Muito pensamento estreito, em torno da
posição religiosa que já não se sustentava, voltava com insistência sobre
concepções inadequadas a respeito do que consideravam Filosofia. Queriam que o
curso de Filosofia fosse, eminentemente, um curso de Bíblia e Teologia.
Outra guerra simbólica se estabeleceu
em torno da Filosofia e Teologia da Libertação. Além de estudos feitos nesta
área, tanto na Teologia quanto na Filosofia, padre João Inácio participou de
muitos seminários em Buenos Aires, Argentina, em torno destes assuntos. Ali, um
grupo, liderado por Juan Luiz Scanonne e Lúcio Gera, que foram professores do
Papa Francisco, pesquisavam em torno de uma variante da Filosofia e Teologia da
Libertação, sem utilização de referencial de análise social marxista, mas,
partindo dos Evangelhos. Nada de luta de classes e nem revolução do operariado.
Algo teria que acontecer a nível de cultura. A religião teria que mediar
mudanças de conversão profunda, porém, num processo lento e cultural. Tal
postura implicaria em iniciar um movimento para mais justiça e igualdade; e, o
processo seria longo, de formas que alguém, durante sua vida, não veria o
resultado final.
Defesa de ideias com tal perspectiva,
entrava no rol condenatório de que era puro marxismo comunista. Se alguma
cabeça dura destes colegas tivesse lido os Grundrisse de Marx (os últimos
escritos da sua vida, em que revisou conceitos anteriores), certamente o
chamariam de santo, mas, a obsessão contra comunismo não admitia que se falasse
ou se mencionasse Filosofia ou Teologia da Libertação. Eram vistas como lídima
manifestação do demônio. E não foi por nada que a visão ultraconservadora e
clericalista fez de tudo para difamar a Filosofia e Teologia da Libertação. Até
bispos proibiram severamente mencionar as duas expressões, a não ser para
condená-las e faze-las desaparecer.
Uma vez rotulado como seguidor da
Filosofia da Libertação, padre João Inácio não se livrou mais da pecha de ser
muito mais comunista de que cristão. Para não mais ouvir constantes apreciações
condenatórios, programou-se para avançar na ancianidade e cultivar flores num belo
jardim, em Cunhataí, SC, e ali conciliar limites de saúde, sem perder qualidade
de vida.