sábado, 7 de março de 2026

CONFISSÃO SEM PENITÊNCIA

 


Apesar do descrédito sacramental,

Ocorre a busca toda monumental,

Do curandeirismo feito hiper-real,

Fácil, mágico, barato, sensacional.

 

Diluição da consciência de pecado,

Mera questão subjetiva sem legado,

Aponta as mil terapias bem eficazes,

Com catarses sugestivas e loquazes.

 

Dentre os de consciência de pecado,

Ocorre um inusitado jeito estilizado,

Confessam lista de pecado possível,

Para comprar afeto de modo visível.

 

Celular é o instrumento necessário,

Para um rito penitencial ordinário,

E o confessor dos pecados graves,

Se aciona com eletronizadas claves.

 

Demora para achar lista exaustiva,

De possíveis pecados em descritiva,

E lê a ladainha de diversas páginas,

Supondo perdão de divinas dádivas.

 

Assim como acessa lista do celular,

Supõe o imediato perdão singular,

Que zera toda transgressão a Deus,

E o tranquiliza sob bênção-de-Deus.

 

Na semana depois, volta à confissão,

E clica a lista de pecado em profusão,

Para pedir absolvição de todo pecado,

Sem nada mudar o hábito desafinado.

 

Seguem dúzias de outras confissões,

Todas idênticas e de similares razões,

E despertam a paradoxal inquietação:

Inteligência artificial ou guru doidão?

 

Parece que escrupuloso guia espiritual,

Sob um suposto informe sobrenatural,

Domina e controla mentes à servidão,

A fim de alargar poder da dominação.

 

 

 

MURMÚRIO POR ÁGUA VITAL

 

 

Como o povo hebreu no deserto,

Achou que Deus não estava perto,

Traiu-o na esperança propugnada,

Murmurou pela ação insustentada.

 

Na pedra removida, água cristalina,

Mudou proceder ante ação divina,

Mas, não sua volátil perseverança,

Para o pleno alcance da esperança.

 

Nas terras ilhadas por tanta água,

Beber da água vital que deságua,

É o privilégio de tão pouca gente,

Já insensível à água de nascente.

 

Com tanto solo virando deserto,

Por um regime de lei do esperto,

A pouca água não contaminada,

É para parcela humana limitada.

 

A aridez dos desertos subjetivos,

Com ermos de areiais negativos,

Revela pedras a obstruir acesso,

Ante inquieta sede em excesso.

 

Aguda falta de desvelo com água,

Reflete descaso e ação mortágua,

Por uma ambição descontrolada,

Que só quer comida acumulada.

 

Tanta água imprópria a consumo,

Mostra pérfido e doentio aprumo,

Do sistema altamente espoliador,

Desrespeitoso, em nada cuidador.

 

Enquanto uns murmuram de sede,

Outros bebem em ostensiva rede,

E se apropriam do que é de todos,

Para enriquecer de muitos modos.

 

Se a água escassa gera murmúrio,

A ausência de respeito, tão espúrio,

Amplia os desertos de sentimentos,

Dos humanizados relacionamentos.

 

Quando a água do batismo enseja,

Solidariedade, que respeito viceja,

Cristãos murmuram, contra Deus,

Sem foco voltado a similares seus.

 

Desejam muitas provas para crer,

Insensíveis ao humano proceder,

Que não remove grandes pedras,

Das interações de quebra-pedras.

 

Garganta seca de espalhar ódios,

Resseca nascente de bons pódios,

Elimina a vida mais que desertos,

Porque secou todo o sentido vital,

Para conviver sem a arma mortal.

 

 

terça-feira, 3 de março de 2026

RETORNO AO SONHO INTEGRALISTA

 


Das reminiscências medievais,

Recriam-se em nos dias atuais,

A venerada sociedade perfeita,

Com a cristandade sob espreita.

 

A religião bem acima do Estado,

Com direito a dirigir seu legado,

Forneceu o ar de superioridade,

Para ditar o rumo da sociedade.

 

A nova forma fascista-integrista,

Reconfigura velho foco idealista,

Para moldar estado pela religião,

Com governo forte sobre povão.

 

Bem longe da doutrina católica,

Defende totalitarização bucólica,

Sem alinhada unidade espiritual,

Nem projeto de futuro nacional.

 

Quer o estado forte e autoritário,

Obediente a um mito identitário,

Para a suposta democracia cristã,

Com militarismo para ação cidadã.

 

Devoção à figura mítico-salvadora,

Sem a efetiva proposta redentora,

Sob pauta “Deus, pátria e família”,

Quer articular socializante mobília.

 

Aparelhamento de forças militares,

Ecoa como a bela mudança de ares,

A silenciar os pobres descontentes,

E contar com servos subservientes.

 

Em torno dos adornos cromáticos,

Das cores de efeitos emblemáticos,

Associa-se à nação amada, já vazia,

O nacionalismo de preclara apatia.

 

Importa o reverenciado mito-chefe,

Seu privilegiado séquito mequetrefe,

E que seus adversários insatisfeitos,

Paguem caro por seus contrafeitos.

segunda-feira, 2 de março de 2026

ÓDIO, A DOENÇA CONTAGIOSA MAIS LETAL

 


 

Mais do que as inúmeras pestes,

Atribuídas às vinganças celestes,

Existe a da procedência humana,

Que supera todas na ação insana.

 

Empenhos e combates às viroses,

Não atuam sobre metamorfoses,

Da doença altamente contagiosa:

O ódio da mente humana raivosa.

 

Espalha-se mais do que pelos ares,

Em redes sociais a entrar nos lares,

E ocupa o cérebro, por excelência,

Para dali irradiar sua maleficência.

 

Ódio gestado pela mente humana,

Produz a morte horrenda e insana,

Nos seres desprezados e negados,

Pelos psicopatas paranoicos irados.

 

O eco letal do ódio, alia-se à peste,

Da mentira, para conluio cafajeste,

E convence a larga opinião pública,

Para tolerar a maldosa ação bélica.

 

Grandes e monstruosos genocídios,

Procedimentos oriundos dos ódios,

E incubados nas mentes mórbidas,

Sugestionam para guerras sórdidas.

 

Nesta virose da degradação cerebral,

Autocratas cegos pelo poder bestial,

Perdem básica capacidade de audição,

Carcomem o bom-senso e boa emoção.

 

A virose do ódio gosta de instalar-se,

Em mísseis e foguetes a propalar-se,

Para explodir os humanos pelos ares,

E espalhar mentiras dentro dos lares.

 

Faz-se urgente descobrir o antídoto,

Para reabsorção dum senso remoto,

Que desvie obsessão sádica de morte,

A desgraça triste para humana sorte.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

NO ALTO DA MONTANHA

 


 

Linguagem impregnada de símbolos,

Para abordar a fé com os seus apelos,

Remete às figuras para interpelações,

Que vão além do nível de informações.

 

O evangelista Mateus no seu contexto,

Aborda imagem da montanha no texto,

Para contrapor à caduca lei de Moisés,

O que Jesus apresentou como novo viés.

 

Montanhas e a nuvens das hierofanias,

De experiências de Deus com epifanias,

Expressavam o diálogo humano-divino,

Que repercutia para o rumo cristalino.

 

Mateus viu que todas as coisas valiosas,

Emitidas por Jesus às pessoas sequiosas,

Ocorriam no simbólico alto da montanha,

Para envolve-las em inusitada campanha:

 

Jesus, a nova imagem do Moisés antigo,

Revelava, mais do que uma lei e o perigo,

Amor de Deus em revelação a discípulos,

Acima de Moisés, profetas e condiscípulos.

 

Voz do céu, muito digna de ser escutada,

Em Jesus, distinta da tradição aquilatada,

Adquire pleno sentido redentor de Cristo,

Pois, mais que o legislador, era benquisto.

 

Corrige noção de Pedro para novo foco,

Pois, só ele aufere o interagir recíproco,

Mais do que a antiga lei e o profetismo,

 Já que ilumina a vida, sem o fanatismo.

 

O alto da tenda da própria interioridade,

Revela como em Pedro sedutora piedade,

Feita de regra ritualística rígida e estéril,

De tendas a Moisés e a profetas antigos,

Sem gestar o jeito de Cristo em postigos.

 

Nada então transfigura rotineiro cotidiano,

E nada amplia rol do crescimento humano,

Do que representa o bom agir na planície,

Como irradiação luminosa contra sordície.

 

Perspectiva amorosa de Deus na lei arcaica,

 Tão visualizada na transfiguração mosaica,

Não contempla um prolongamento cristão,

Para oportunizar a benéfica transfiguração.

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

DO TRONO À SEPULTURA

 


Exercício do poder de domínio,

Junto com o ambicioso fascínio,

Faz passar pelos altares a oferta,

A implicar em muita morte certa.

 

Inúmeras notícias de feminicídio,

Ao lado das rotinas do fratricídio,

Parecem constituir um rito diário,

Dum cultural e humano itinerário.

 

Quando altares da justa oferenda,

Afirmam e ratificam a reprimenda,

De que elementar anseio humano,

É da primazia de macho soberano.

 

O reforço da hierarquia masculina,

Escolha precípua da justiça divina,

Não admite ascensão de mulheres,

Destituídas de divinos esplendores.

 

Tidas como submissas e atreladas,

Criam-se narrativas esfarrapadas,

De obscurecidas praxes religiosas,

Que as rotulam frágeis e perigosas.

 

 

Se os documentos eclesiásticos,

Citam com termos entusiásticos,

Igualdade de mulheres e homens,

Sucumbem ante os super-homens.

 

Velha e caduca estrutura patriarcal,

Presa a fundamentalismo ancestral,

Segue negando igualdade de direito,

Ao gênero feminino de inato defeito.

 

O discurso religioso molda opiniões,

E as narrativas esbarram em jargões,

Da sua inépcia para tarefa específica,

E de sua presença apenas honorífica.

 

A quebra de instituições masculinas,

Significa romper as suas disciplinas,

Para que o senso feminino se eleve,

E engendre vida coletiva mais leve.

 

Intuição feminina e a cordialidade,

A riqueza reprimida na sociedade,

Poderia ensejar menos homicídio,

De trono e altar para o feminicídio.

 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

JEJUM POR JEJUM

 


Israel antigo seguiu praxe social,

E propugnava a lei obrigacional,

Perante catástrofes e fatalidades,

Para mortificação com piedades.

 

Tragédia, vista como ira de Deus,

Movia os jejuns de ricos a plebeus,

Para aplacar o vistoso furor divino,

Sem sumir sob um trágico destino.

 

A aparente negociação insinuava,

Que sofrimento coletivo atenuava,

A ira de Deus perante o seu povo,

E reatava seu bom auxílio de novo.

 

Persistência nos pecados coletivos,

Nada modificava hábitos injustos;

Apesar das amplas mortificações,

Tudo continuava nas velhas ações.

 

Teria Deus prazer em ver humanos,

Na penúria de sofrimentos insanos,

Para mover seu sentimento sádico,

A humilhar um povo todo errático?

 

Deus, bem longe desta mesquinhez,

Deve alegrar-se, não com a altivez,

Mas, com a mudança do jejuador,

Benéfico para processo libertador.

 

Um jejum eficaz como conversão,

Não atrelado à mera mortificação,

Fita para algo a ser transformado,

Num interagir tão desencontrado.

 

Mais que luto por perda e ausência,

Jejum deverá ajuizar com decência,

O procedimento desonesto e injusto,

Para revelar um coração reto e justo.

 

 

 

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