Episódios Estrambólicos constitui mais uma coletânea de causos divertidos,
narrados por João Inácio Kolling. São histórias curtas, repletas de surpresas e
situações inusitadas no desenrolar dos fatos, que propiciam entretenimento
agradável, com interpelações para o bom humor.
Índice
Apresentação...
1 – Na tia
Catarina...
2 – Canhoto azarado...
3 – Cheirador de rolha...
4 – Saco de requeijão...
5 – Calção litúrgico...
6 – Hans do desbrochamento...
7 – O vovô dorminhoco...
8 – Festa de índio...
9 – O poder da mandioca cozida...
10 – Um teste de paternidade...
11 – O alemão moribundo...
12 – O sumiço da vassoura...
13 – Picada de cobra...
14 – O touro Amâncio...
Palavras finais...
APRESENTAÇÃO
Seguem narrativas de fatos que
envolveram detalhes hilários. Rir dos próprios fiascos e gozar das gafes
alheias, envolve uma realidade, que nem todos apreciam, porque pode estar
próxima do sadismo, mas, também enseja interações mais gratificantes do que as
de agregar pessoas e observar um círculo de criaturas humanas, cada uma isolada
das demais, e meramente focada na telinha do seu celular. Se é para ficar
assim, na casa dos outros, então melhor teria sido ficar em casa.
Pelo menos para quem já é dono de uma
data de nascimento mais antiga (DNA), sem desprezar a grandeza tecnológica do
celular, o hábito de contar histórias, anedotas e causos, ainda enseja momentos
agradáveis na convivência e produz uma reminiscência agradável de um “Ethos”
humano, que, na oralidade, propiciava interações de pessoas, que acrescentavam
gosto à vida.
Na seletividade feita pelo psiquismo,
umas coisas chamam mais atenção do que outras. Assim, também, umas situações
podem ser hilárias para algumas pessoas e para certos ambientes, e, não serrem
hilárias para outras pessoas e para outros ambientes. No desejo de ensejar um
curto entretenimento, seguem neste texto, episódios inusitados que podem,
eventualmente, ativar algumas recordações marcantes que ainda dormem na
memória.
1
NA TIA CATARINA
O terreno da
sua residência, equivalente a uns quatro terrenos urbanos, no povoado de São
João, interior de São Carlos - SC, era mais que um jardim botânico. Pessoa
gorda nem conseguiria chegar à casa de Catarina, naqueles estreitos trilhos de
acesso. Todo o entorno da casa, constituía um ambiente encantador de variedades
de flores, frutíferas e árvores de sombra. Ainda hoje, os jardins daquela
comunidade encantam pela beleza e encantamento da múltipla coloração de flores.
Catarina, em sua família, foi uma
menina normal, a mais velha de treze filhos e ajudou sua mãe a criar uma porção
deles. Seus pais moravam ao lado do lote da sua residência. Seu pai faleceu
cedo, de tétano, decorrente de um estrepe no pé. Pouco tempo depois, queimou a
casa onde moravam, e Catarina teve que lutar muito, com sua mãe, para que seus
doze irmãos pudessem crescer com comida e saúde.
Catarina namorou, noivou e estava se
encaminhando para o casamento. Um fato secundário e imprevisto, mudou o rumo, e
desviou o casamento.
Naqueles
tempos, todo morador tinha uma espingarda e, esta, geralmente, ficava pendurada
num prego na parede da sala de estar, a fim de facilitar o acesso, em caso de
necessidade de matar algum bicho. Diversos irmãos de Catarina, num dia de
chuva, estavam se atropelando na sala de estar, e já não sabiam mais o que
inventar naquele espaço, pois, não podiam ir para fora devido à chuva intensa.
A certa altura da manhã, resolveram
fazer uma luta, simulando uma guerra e as armas eram constituídas por calças
que um batia contra outros. De repente, um irmão de Catarina, ao querer bater
em outro irmão, esticou a calça pelo ar e a enroscou na espingarda, e, ela, na
queda, detonou um tiro que atingiu em cheio a perna direita da Catarina, do
joelho para baixo. Catarina estava na pia preparando almoço. A tragicidade do
fato, acabou sumindo com a parte inferior da perna, do joelho par baixo,
destroçada pelo chumbo. Sobraria, assim, a partir da amputação dos fiapos
sobrantes, tão somente a possibilidade de andar de muletas. O noivo, não
assumiu seu pacto, e deixou Catarina de lado, ignorando todo seu sofrimento.
A dupla perda, da perna e do noivo,
não tirou o rumo da vida de Catarina, mas, ela não quis mais saber da
possibilidade de se casar, e, ser, eventualmente, mais uma vez, deixada de
lado, em algum momento da vida. Como era muito estimada na comunidade, um
marceneiro foi solidário com Catarina, e fez uma perna mecânica de madeira,
mesmo um tanto rústica, mas, que permitiu substituir a parte que o tiro de espingarda
fez sumir.
Não era ainda uma perna mecânica como
essas modernas da atualidade, mas, ajudava Catarina a locomover-se. A casa de
Catarina, que seria para a vida partilhada, virou casa de costura. Todo dia, ia
e vinha alguém, ou para trazer roupa, ou para experimentá-la, ou para leva-la.
Catarina também era muita agraciada com frutas, linguiças e outros alimentos,
embora, produzisse fartura e, também a partilhava. Assim, a casa de Catarina
virou símbolo de cordialidade.
A casa
pequena da tia Catarina, de madeira, escondia até a cor da pintura, de tanta
lata de tinta, transformada em vaso, que ficava pendurada na parede, com flores.
Também tinha muita flor pendurada nos galhos das árvores. Com isso, a casa sequer
era visualizada, a partir da estrada, pois, ficava no meio deste jardim
maravilhoso. A sala de estar virou sala de costura e de tão abarrotada que
ficava com tecido para todo lado, só dava espaço, para no máximo três pessoas
ficarem sentadas naquele espaço estrito. Catarina ficava sempre sentada atrás
da sua máquina. A porta da sala, sempre aberta, ajudava a reduzir andanças para
lá e para cá a fim de abri-la e fechá-la.
Tia Catarina tinha peculiaridades
fantásticas. Costureira, durante uns sessenta anos, costurava praticamente toda
a roupa da comunidade: calças, camisas, casacos, vestidos, saias e roupas
íntimas. Além de ser costureira, constituía a central de informações e sabia de
qualquer fato e de toda fofoca da comunidade. No entanto, não era daquelas
fofoqueiras vulgares e chatas. Serena, calma, sempre sorridente, sabia falar
sobre o mundo das conversas daquele povoado: envolvia doenças, nascimentos,
fiascos e casos hilários, colheitas, frustrações de safra e todo aquele mundo
romântico dos jovens iniciando namoros.
Apesar da sua limitação física,
Catarina cultivava flores, muita verdura na horta, tinha vaca de leite e criava,
normalmente, dois porcos. Assim que engordava um porco, vendia-o e recebia um
leitão pequeno, doado por alguém. Criava, também, galinhas e, como o arvoredo,
com imensa quantidade de flores, abrigava pássaros de todo tipo, assim, também
o sótão da casa, abrigava muitos gambás e ratos. A horta produzia, além de
verduras e legumes, até pinhão, pois, no meio da horta, subia aos elevados ares,
um altaneiro e imponente pinheiro.
O mundo das flores era peculiar: não
existia comércio de flores em São João, mas, estas eram entregues,
gratuitamente, e, com senso cordial, pois, assim como alguém recebia mudas de flores
e de arbustos, também sentia satisfação em poder dar mudas a outras pessoas. Desta
forma, as plantas ativavam um vasto mundo simbólico, porquanto cada planta ou
flor, lembrava a pessoa que a havia doado. Nisto, as mentes se povoavam com a
alegria do jardim devido às boas memórias das pessoas generosas.
O pequeno espaço de capim, para alimentação
da vaca, era complementado com as sobras da horta, mas, Catarina também
arrendou um outro pedaço de chão, ao lado do seu lote, onde plantava milho,
arroz, mandioca e feijão. Não era muito, mas, o suficiente para o consumo
doméstico. Meio de arrasto, com aquela pesada perna de pau, descansava das
costuras e ia mexer, durante uma hora, na terra.
Chegar à casa da tia Catarina, era o
símbolo da entrada no paraíso terrestre. Além da beleza extraordinária das
flores, Catarina era muito acolhedora, simpática e fazia os agrados que a mãe
não podia fazer. Dava umas balas. De repente ia cortar um pedaço de salame. Sem
demora, se inventava a fazer um mate-doce, daqueles muito especiais.
Ajeitava a cuia, ia na janela,
recolhia a erva seca do chimarrão anterior, ajeitava na cuia e, então, ia ao
pote de erva e colocava um pouco de erva nova em cima daquela erva secada e
lavada pelo uso. Arrumava o pote de açúcar, metia uma boa colherada de açúcar
na cuia e depois a água quente.
Depois de tomados uns três goles, já
começava uma movimentação peristáltica, e se tinha que correr, atropelando flores,
para chegar, em tempo, na “capunga” (casinha feita para fazer as necessidades
fisiológicas), a fim de proceder uma ruidosa evacuação. O pior, era a posterior
sequela da desconfortável cólica intestinal.
No retorno, disfarçava-se a dor de
barriga e se agradecia pelo mate. Sem demora, a tia Catarina se metia a fazer
bolinhos de batatinha, especiaria da culinária de São João. Ralava batatinhas
grossas, misturava com sal, ovos, leite e mais alguns temperos.
A banha da frigideira, normalmente rançosa,
usada para muitas frituras, deixava um cheiro meio estranho, mas, aqueles
bolinhos, angelicais e bons de serem deglutidos, agregavam, impreterivelmente,
outra bagunça no estômago e, dentro de alguns minutos, tornava-se inevitável mais
uma corrida frenética e disparada, até a dita “capunga”, para efetuar a limpeza
do pouco que ainda permanecia nas entranhas.
Tia Catarina insistia para comer mais
bolinhos, e, mesmo com a boca salivando, dizia-se que a barriga já estava
estufada de cheia. Nem se passava muito tempo, e a tia já oferecia bolachas, de
repente um pequeno chocolate e assim ia aquela bajulação com muitos agrados.
O que nunca se conseguiu ver, era
como a tia afirmava aquela perna mecânica na sua perna para poder caminhar.
Dizia-se que era um ritual demorado de amarrar muitos panos, para evitar
fricção do couro da perna com a madeira. Entretanto, a perna funcionava, ao
lado da outra, por longas horas diárias, para movimentar a máquina de costura.
Pernoitar na casa da tia Catarina,
oferecia um cenário para muitas alucinações. Era corrida de rato sobre o forro
e, também, o caminhar pesado e lento de enormes gambás. Para a tia, eram
bichinhos queridos que não faziam mal algum. Ela nem percebia que, de vez em
quando, na abertura do forro pelo qual o cano da chaminé do fogão a lenha subia,
uma meia dúzia de gambás ficava espreitando sobre o que acontecia na cozinha,
mas, também, alguns gambás, mais espertos, desciam um pouco, até o varal das
linguiças e charques, pendurados acima do fogão, e recolhiam algumas pernas de
salame.
A tia Catarina nem se importava e
dizia que eles também precisam alimentar-se e olhavam com tanta simpatia, que
bem mereciam alguma comida saborosa.
2
CANHOTO AZARADO
Ao nascer, escapou-se por um triz,
pois, estava atravessado no útero da mãe, na hora do parto e, como foi tirado
pela força braçal, ao, finalmente, desvencilhar-se da prisão do sufoco, foi
considerado morto, por algumas horas, porquanto a parteira e as vizinhas
quiseram salvar sua mãe.
Mesmo sem aparentes sinais vitais,
uma tia, ao colocar sua mão sobre o seu peito, constatou que seu coração ainda
batia. Foi, então, que começaram a lhe dar atenção. Cresceu sem maiores
sequelas e, aos poucos, perceberam que ele era canhoto. Normal como tantos
outros canhotos, passou a primeira infância como canhoto, sem maiores
dificuldades.
Quando, aos sete anos começou a ir na
escola, teve uma surpresa: o professor, ao constatar que ele escrevia com a mão
esquerda, auferiu-lhe séria e severa admoestação. Naquele tempo, os pais tinham
que ensinar os filhos a escrever, antes de irem à escola. Como aquele menino não
se ajeitava para escrever com a mão direita, começou a levar varadas de marmelo
nas costas. Junto com a surra, tinha que ouvir, que, tudo o que é esquerdo, é do
diabo.
Talvez por inconsciente resistência,
um dia, ao cortar uma batata doce para fazer lavagem de porco, descuidou-se na
direção do facão, e cortou, junto com uma lasca de batata, a primeira vértebra
do dedo polegar direito. Levado ao médico, este estava turbinado por cachaça,
na hora de tirar a atadura, arrancou de vez a parte cortada. Longo e demorado
processo, fez crescer parte desta vértebra, mas, torta e sem osso. Foi, assim,
tolerado, por um ano, para escrever com a mão esquerda. Quando o polegar
direito, ficou revestido de pele e com duas unhas tortas, foi obrigado a
escrever com a mão direita.
Ao participar das celebrações
religiosas, enfrentou outro conflito em relação ao sinal da cruz: para ele, o
certo era faze-lo com a mão esquerda. Um velho carrancudo que o observava, ia
até ele, e o erguia no puxão de orelha a fim de aprender, para sempre, que
sinal da cruz de faz somente com a mão direita.
Afinal, mudaria alguma coisa neste mundo, se
fosse feita com a mão esquerda? Era a ditadura dos estereótipos. O mesmo
ocorria em relação à genuflexão: ele dobrava a perna esquerda. Não podia ser
assim, pois, tinha que dobrar a direita.
Parece que tal rigidez, afetou até o seu
olhar: de tanta censura, para ser tudo da direita, criou mais simpatia pelo que
provinha da esquerda física. Afinal, só sabia chutar bola com a perna esquerda,
- e chutava forte - porque, com a direita, seu chute era considerado chute de menina.
Hoje, não seria mais possível fazer esta comparação, mas, naqueles tempos,
meninas não jogavam bola, e dizer que um chute era de menina, equivalia a
dizer, zero pela direita.
Para bater prego, para erguer peso,
segurar bezerros no laço, atirar pedra, enfim, tudo tinha que ser com a mão
esquerda, menos o escrever.
Passada a ofensiva mais truculenta
para deixar de escrever com a mão esquerda, e já conformado em escrever com a
mão direita, emergiu mais um dilema: começou a querer ser padre. A
contrariedade veio do catequista que dizia: para alguém ser padre, não podia
ter nenhum defeito nos dedos polegares e indicativos. Mais um peso de
consciência, pois, o seu dedo polegar direito, fornecia os argumentos
suficientes para que fosse dispensado da chance de ser padre. É que, naqueles
tempos, o padre rezava a missa inteira com estes dedos unidos, o que,
atualmente, seria um gesto obsceno.
Abriu-se, então, um segundo dilema:
queria ser padre, com o dedo polegar defeituoso, e, para não ser dispensado do
sonho, ficava sempre com a mão direita no bolso. Também ali, tudo era complicado,
pois, era proibido andar de mão no bolso. Dizia-se que a mão poderia gostar de
ficar muito perto de uma área altamente perigosa. Ele achou uma saída: por onde
andasse, tinha o terço no bolso direito da calça.
Quando era interpelado por andar com a mão no
bolso, puxava o terço e dizia que estava rezando, mas, não estava rezando coisa
nenhuma. Escapou-se de ser dispensado da condição de ser padre, foi ordenado, e,
dias depois, ocorreu o que não podia imaginar: correndo atrás da bola, girou o
corpo sobre o joelho direito e rompeu os ligamentos, a tal ponto, que o joelho
era dobrável para qualquer lado.
Como não firmava a perna, caía a toda hora, e
teve que submeter-se a seis intervenções cirúrgicas, para conseguir caminhar
para o estrito necessário. As múltiplas cirurgias desalinharam seu pé, e, no
simples ato de caminhar na sala de estar, quebrou o osso que leva ao segundo
dedo do pé. Precisou submeter-se a mais uma cirurgia, a sétima, para implantes
de platina. Assim, limitado, ainda mais, pelo lado direito, acabou enfunado
como professor de Filosofia.
Surgiu, numa certa altura da vida limitada
para muita andança, o encantamento por tocar violão. Havia, porém, um problema
complicado: o dedo polegar direito não se prestava para bater nas cordas, nem
com dedal e nem de outra forma. Restou ainda uma alternativa: inverter as
cordas, só que isso implicava em ter um violão exclusivo para si. Foi poupando
pequenas quantias na poupança, até que conseguiu comprar um violão para si, e
que por sinal, imprestável aos outros, que não eram canhotos como ele. Não
virou um renomado violonista, mas, conseguia acompanhar as cantarias de Igreja
e de festinhas, nas quais se costumava cantar durante horas a fio. Quando tudo
ia tranquilo, ladrões entraram na residência e roubaram seu violão: mais uma
sina contra o canhoto. Presumidamente, foi ladrão de direita e ele desistiu de
ser violeiro.
Mesmo sem ser esquerdista e nem marxista,
pelo simples fato de lecionar Filosofia, viveu sendo acusado como sujeito
comunista. Era aquele ódio por tudo quando vinha sendo identificado como sendo de
esquerda. Seu velho padrinho, educado como tanta outra gente, dava-lhe
insistentes conselhos para evitar esta diabólica atração pela esquerda e falava
dos horrores hediondos dos comunistas.
Dizia aquelas abobrinhas, muito
veiculadas, de que comunistas tiravam a terra, os animais, comiam criancinhas, estupravam,
e, somente faziam coisas do diabo. Até colegas davam a entender que ele era um canhoto
comunista. Mesmo que tenha lido e estudado todos os autores como Engel, Hegel,
Marx, Feuerbach, Gramschi, Althusser, Nietsche e tantos outros, sempre os leu
numa perspectiva crítica. O razoável conhecimento relativo a tais pensadores,
constituía razão suficiente para ser rotulado de esquerdista.
Embora ser canhoto, não representasse
necessário sintoma e evidência de ser comunista, a pecha o fez sofrer acusações
de ser esquerdista, seja como defensor da Filosofia da Libertação, ou, por não
enfatizar e ratificar a visão clericalista, ultraconservadora, e fanática por
posturas políticas de extrema direita.
Afinal, se o nariz estabelecido entre
os dois olhos, já delineia que o olhar de bom foco, precisa do olho direito,
tanto quanto o do esquerdo, todo este fanatismo por apenas um olho, além de um
olhar caolho e vesgo, fazia enxergar, apenas, uma parte da dialética da
complementariedade: um olhar bom e perspicaz, precisa ser simultaneamente
esquerdo e direito. Talvez indique até algo precioso para o campo da política e
concepção religiosa.
3
CHEIRADOR DE ROLHA
O professor universitário, doutor em
Educação, chamado José Bingolim, apresentava-se no perfil nobre da erudição
francesa. Andava, um dia como outro, de terno e gravata e se destacava, mais
pela pose, do que pela sabedoria. Como tanta outra gente, que mistura seu ego
com o status, ele era perito em falar, não dos temas candentes e inquietantes
da educação, mas, precipuamente, dos vinhos franceses.
Descendente de italianos que migraram
ao sul do Brasil, cresceu naquele clima de famílias numerosas, com muita
polenta, queijo, vinho e salame. De estatura média, mas, robusta e bem alargada,
fazia da sua fala uma tergiversação degringolada. Como esteve algumas vezes na
França, e fez cursinho, por correspondência, sobre como tomar vinhos nobres,
conseguia falar, horas a fio, sobre os modos de se tomar vinho, sobre os tipos
de taças, sobre as condições de manutenção das garrafas nos altarezinhos da
adoração do deus Priapo, sobre o como fazer este vinho circular por todo o
ambiente da boca, para, enfim, deixa-lo deslizar, suavemente, no penhasco da
garganta, e pousar, com elegância, no meio daquele brejo pantanoso do estômago.
Chatíssimo na sua enlevação para
ensinar como tomar vinho, constituía-se, realmente, em professor catedrático de
afirmações eruditas, com descrições minuciosas, e, com largas minudências e
brogúncias, a respeito de vinhos, sobretudo, os franceses.
Bingolim ostentava uma colorida
variedade de garrafas na parede da sala de estar da sua casa. No destaque
daquela prateleira, ficava um pote de vidro, enorme, de cerca de cinquenta
centímetros de altura, praticamente cheio de rolhas cheiradas e guardadas para
ativar a memória dos tipos de excelsos e nobres vinhos já ingeridos depois dos
ditos “buquês” e desassidificação naqueles giros do vinho dentro da taça, antes
de aproximá-lo da boca, suspirante e sedenta por aquele líquido precioso.
De vez em quando, em seus arroubos, nada
deletérios, para coçar seu próprio ego, convidava um e outro colega para um
jantar. Um destes colegas foi o professor Pedro Kretz. O sobrenome já indicava
um pouco do seu perfil, pois, Kretz, em alemão, significa sarna, - para os pobres; - e, para os ricos, aquela
bonita doença chamada de escabiose.
Com características de irritação
cutânea por ter que suportar algumas horas de jactância sobre vinhos e como
tomá-los, Pedro tinha uma desculpa de que não tomava vinho, nem francês, nem
grego ou chinês e, nem mesmo, o falado vinho alemão “Jungfraumilch” (traduzido,
leite de jovem senhora), e, menos ainda, estes vinhos de garrafão, vendidos nos
armazéns e supermercados como “Sangue de Boi”, “Chapinha”, “Campo Largo” e
outros similares. Argumentava que bebia apenas alguma latinha de cerveja
Heineken, no bico, sem sequer usar copo. Era, evidentemente, uma ironia contra
o nobre professor e degustador de vinhos.
Jantar ao lado do professor José
Bingolim (“Bingolim” também significa a bochinha fina, ou balim, usada nos
jogos de bocha, esporte preferido dos descendentes italianos), proporcionava
impreterível movimentação peristáltica.
Um dia, o professor formulou mais um
convite para que José Kretz fosse jantar em sua casa. A esposa do Bingolim,
gentil e discreta, tinha que ser assim mesmo, pois, ante as falas ininterruptas
do marido, deve ter aprendido a ficar calada. Desta vez, porém, veio o que
faltava para a conversa ser exclusivamente sobre vinhos franceses.
Tratou-se da presença da doutora Margarete,
filha de gente modesta, que lutou muito para custear sua Faculdade de Medicina,
mas, ela, como médica, e auto-proclamada doutora, já não se ocupava mais com as
conversas do senso comum e dos ambientes da vila de onde saiu. Era destas
mulheres falantes e faladeiras, tanto quanto o professor Bingolim, para abordar
o tema preferido e imprescindível da conversa: vinhos.
Enquanto a esposa do professor
Bingolim arrumava a mesa com aquelas pilhas de pratos, e enchendo o espaço
disponível com taças, guardanapos, talheres e outros apetrechos, o professor
mostrava seus equipamentos para servir vinho, a fim de não permitir que alguma
gota de vinho deslizasse pelo bico da garrafa e fosse parar na toalha branca da
mesa e, sobre o como colocar o dedo fura-bolo, naquele buraco arredondado no
fundo da garrafa, na hora de servir o vinho. Até para isso, precisava ser
seguido um ritual de etiqueta sofisticada.
No meio da conversa fechada com a
médica Margarete, Bingolim foi pegar uma garrafa de vinho, colocou-a sobre a
mesinha especial, entre os sofás, foi buscar a caixa dos apetrechos para abrir
a garrafa, e, - o que mais incomodou José Kretz, - foi que Bingolim, assim que extraiu
a rolha do bico da garrafa, cheirou-a demoradamente e fez os visitantes também
cheirá-la. Foi, então, que iniciou a palestra magna sobre o cheirar a rolha.
Aquela ritualização solene, de cheirar, ficar com o nariz no rumo da lua,
inebriar-se com os eflúvios daquele néctar dos deuses, tornava-se, entretanto,
altamente animalesco para o José Kretz.
Afinal, ele, quando era menino,
observava um ritual tão parecido com os touros e carneiros, que, cheirando a
saída urinária das fêmeas, ficavam com o nariz erguido na direção da lua. O ato
consistia, certamente, no tempo necessário para que aquelas inalações chegassem,
através de seletos neurônios, até o cérebro para lhe dizer que deliberasse uma
ordem ao corpo: pode inebriar-se à exaustão com tais hormônios de pura
felicidade.
A médica conseguiu furar o monólogo
da conversa do professor Bingolim, e enveredou sua grandiloquência sobre vinhos
franceses, que ela apreciava muito. Era “Chateaux” disso e “Chateaux” daquilo,
como “Chateaux de la Cave”, “Chandon”, que o silenciado José Kretz desejava,
também, entrar na conversa, para dizer que já tinha tomado “Vino de Riocha”, da
Espanha e, Casilla del Diablo, do Chile. Como não conseguiu furar a esotérica e
mística enlevação dos dois, depois de cheirar a rolha, ele não aguentou mais
aquela conversa interminável sobre vinho francês e rolha, levantou-se e falou
para os dois: eu apenas aprecio um único vinho francês. É o vinho “Chatô de
Shaco Cheio”. Levantou-se e foi embora, antes do jantar. Para seu alívio, nunca
mais foi convidado.
4
SACO DO REQUEIJÃO
O saco do requeijão requer uma
hermenêutica complicada para que se possa entender o seu significado. A
dificuldade envolve as duas palavras, devido à polissemia dos seus significados.
Além das conotações, envolvem metalinguagens, e ainda, alguns sentidos de
entrelinhas não escritas, ou seja, não é sempre bem aquilo que se diz com a
palavra.
Começando pela palavra “saco”, o seu
significado requer uma enciclopédia mental para constatar o que a utilização da
palavra realmente quis expressar e, ainda mais: as palavras acrescidas,
complicam com, elevados graus, a clareza do significado, como “saco cheio” ou
“saco vazio”; saco, em sentido figurado ou conotativo; saco, como estado
afetivo-emocional; saco, limpo ou sujo; saco plástico ou de couro; saco de pano
ou de lona; saco “beg” ou saquinho de sal; saco, furado ou bem costurado; e
assim vai...
Na fala com entrelinhas, fala-se em
cair o saco, em saco da mulher, em puxa-saco, em dizer que algo é um saco; em
saco cheio e, em muito outro enleio. Assim, ao se dizer que Fulano está coçando
o saco, pode a expressão significar que está ansioso, numa expectativa, que
está com tédio, sem saber o que fazer, ou até por fatores de hábito cultural,
para dar a entender que quer ser visto como sujeito muito macho, barbaridade
tchê!
A toda hora, nem apelação ao VAR
consegue clarear o significado de “cair o saco”: em primeiro lugar, qual;
depois, porquê?; e, ainda, de onde que caiu. Afinal, era um saco de garupa,
como dizem os gaúchos? E se foi saco de garupa, era de lona, de pano, ou de
couro? Ademais, estava sobre o cavalo encilhado, ou nos ombros do vivente,
carregando algum produto para casa? Ou seria, enfim, algum processo fisiológico
do peso dos fragmentos seminais de homem chato e impertinente?
Entretanto, o que mais requer
hermenêuticas, é a expressão “saco cheio”, que pode ser referência de metáfora
para expressar saturação e sobrecarga de atividades desgastantes, ou, apenas
referir-se a saco de milho, de café, de soja, ou de feijão, ou de açúcar,
embora, também possa estar no foco, algum outro sentido figurado ou simbólico.
Para que este assunto também não vire
um saco, convém enveredar-se para a palavra “requeijão”. Basicamente resulta do
leite coagulado naturalmente, ou por coagulação ácida ou enzimática. Desta
massa, chamada de coalhada, processa-se o queijo fundido, - cozido ou não, -
mas, acrescido de grande variedade de aditivos, como gorduras saturadas, óleo
de manteiga, sódio, e, mais alguns produtos que, finalmente, o deixam
irresistível: a condição de ser cremoso.
Se é cremoso, produz na fantasia, aquela
magia de algo suave e pastoso, e, com isso, remete a outro significado: ser
carinhoso, fofo, meloso e muito gostoso. Em sua essência, a palavra “cremoso”,
remete a significados polissêmicos do campo da paixão humana: a propriedade de
ser viscoso, pastoso, liso, fácil e substancioso.
Feito este preâmbulo, pode-se, então,
chegar a mais um significado de “saco de requeijão”. Enquanto que na cultura de
influência italiana, era normal o consumo de muito queijo, com polenta, salame,
“radiche” (Almeirão) e tantas outras iguarias apreciáveis, entre os
descendentes alemães, demorou a se assimilar o consumo de queijo, mas, era
cotidiano o consumo de requeijão. Com técnica menos refinada do que o requeijão
das atuais indústrias de laticínios, deixava-se o leite numa vasilha aberta e
exposta, em algum lugar, a fim de que virasse coalhada. Entrava, então, o outro
elemento: o saco.
Na verdade, era habitual a utilização
dos sacos de sal, que continham cerca de vinte quilos deste produto. Ao serem
esvaziados, estes sacos eram lavados e alvejados, e, então, passavam a ter a
função de separar o soro do leite coalhado. Geralmente pendurados no lado de
fora, da janela da cozinha, e para fácil acesso, quando o soro havia se sumido
do saco, a massa era recolhida, amassada com garfo, acrescida de nata e sal, e
constituía, assim, o famoso requeijão. Este, era passado no pão de milho:
primeiro vinha uma camada de “Schmier” (doce de frutas com melado de cana ou
açúcar), depois, a camada de requeijão e, por cima desta camada, mais um pouco
de nata para que esta cobertura, como o merengue das tortas, deixasse a fatia
de pão bonita e atraente.
Atualmente as indústrias de
laticínios fabricam algo similar ao requeijão, como o Quaker ou queijo frescal
e nata, mas, nenhum destes produtos, isolados ou misturados, chega ao sabor do
requeijão caseiro, junto com pão de milho. No lugar da cremosidade,
pastosidade, suavidade, lisura, e frescura do requeijão atual, o requeijão
caseiro ainda não tinha absorvido a dimensão carinhosa, melosa e com jeito dengoso.
Segundo a hermenêutica de um amigo, a
cremosidade estaria sendo a grande causa dos desvios de conduta e da perda da
identidade de masculino e feminino. Talvez não seja, mas, a palavra cremosa é
altamente hipnótica para induzir ao consumo. Afirmar que um sorvete é cremoso,
que um picolé é super-cremoso, que o requeijão e tanto outro produto, como o
café, é macio e cremoso, constitui a mais efetiva e sedutora publicidade para
seu consumo.
Aquele saquinho, que uma vez era para
conter o sal, na qualidade de filtro separador do soro do leite da coalhada,
não ficava muito ausente das conversas cotidianas, mais antigas, em ambientes
de descendência alemã: muito complicado para ser lavado, devido à absorção da
gordura do leite, constituía o símbolo do cheiro azedo do soro, e do mau-humor.
Nada ficava mais hilário quando alguém contava a história de mulher que tinha batido
este saco de requeijão na cabeça do marido. Era sua arma e o símbolo máximo do
empoderamento de mulher, diante do marido machão ou bêbado.
Alguém vir a ser gozado de que levou
o saco de requeijão na orelha, constituía a mesma coisa do que lhe dizer:
enfim, caiu o saco! Você, agora, está com a natureza máscula escafedida.
5
CALÇÃO LITÚRGICO
Nos idos tempos do início da década
de 1960, vivia-se na Igreja Católica a influência marcante e determinista do
Concílio de Trento para seminaristas que quisessem ser padres. Os neurônios
cerebrais, naqueles tempos, nem tinham sido ativados e informados a respeito do
que poderia ser o uso de calção, menos ainda, de sunga. Eles, certamente, nem
sabiam identificar estas normativas da moda.
No seminário de Maravilha, SC,
situado no topo mais elevado da cidade – que na verdade, era mais uma vila
perdida no meio do mar ondulado de Araucárias, - se a moda da época já
apresentava algumas diretrizes a respeito do como se vestir, neste seminário,
não se admitia nem mesmo o uso de calça curta. Calça comprida, era a regra
oficial, quer para estar na sala de aula, quer para os momentos de lazer ou de
jogar futebol.
Havia uma exceção, muito especial,
para o banho coletivo, num açude localizado dentro do mato. Atravessava-se a
pequena cidade, e lá, no outro lado, bem isolado por mato, - a cerca de três
quilômetros de distância do seminário, - tomava-se o banho com uso de calção
que tinha que encobrir os joelhos. E, com um detalhe: não se podia ir até o
açude de calção. Ia-se de calça comprida, atravessando o centro da cidade, e,
lá no mato, um se escondendo do outro, atrás de alguma árvore, trocava a calça
pelo calção de banho. Nem se admitia pensar na hipótese de sair do açude e
voltar para casa com calção molhado no corpo. O simples fato de trocar a roupa
no mato, acabava deixando tanto o calção quanto a calça embarrada e suja. Mas
era a condição.
Passado um tempo, em outro seminário,
em Santo Ângelo, RS, já se podia vestir o calção de banho e correr até um
enorme açude a uns quinhentos metros de distância, e, guarnecido por mata
fechada. Com frio ou calor, neve, geada ou chuva, todos tinham que tomar banho
diário naquele açude. Nem se sonhava com chuveiro, e ainda mais, chuveiro
aquecido. Voltava-se do açude em corrida, ainda mais, no frio do inverno
gelado, e corria-se até o dormitório, com o calção, já sem escorrer água pelas
pernas, e se vestia outro calção e calça comprida. Nem era imaginável o uso de
cueca de microfibra, elastina e desta microscópica pequenez de tamanho, como a
das cuecas dos dias atuais. Tudo era feito à base de tecido de algodão.
De tanto pressionar o diretor do
seminário para jogar futebol, do jeito da seleção brasileira e do grenal
(Grêmio X Internacional), com um calção, como eles os vestiam, seria um status
fora do comum. Depois de anos de insistência, eis, que o diretor liberou o uso
de calção para os jogos de futebol, mas, estritamente, para o tempo do jogo em
campo. No entanto, ainda não havia chegado o tempo evolutivo do uso de calção
curto e apertado como os daqueles jogadores afamados, quase perceptíveis naqueles
incipientes televisores que transmitiam jogos em preto e branco. Isto, quando
não chovia, pois, se chovesse, sumia a imagem. Os calções, obrigatoriamente,
tinham que cobrir as pernas, até os joelhos.
Se a liberação foi uma grande
conquista, havia, no entanto, um resquício de insatisfação e de incompletude
nos anseios de poder usar calção que não fosse tão comprido. Imediatamente,
este calção comprido, foi batizado de “calção litúrgico”, e muito se falava de
que este tipo de calção era radicalmente distinto dos calções vestidos pelos
demais meninos, quer nas ruas, nos jogos e até para ir à escola. Eles
praticavam economia muito maior em relação à roupa desnecessária do que a dos
seminaristas, e, só se via menino com calção curto e apertado.
Sob o conceito de calção litúrgico,
passaram-se mais uns anos e os seminaristas, já maiores, ao jogarem contra
outros times de futebol, enfrentavam uma gozação fora do comum, com aqueles
calções litúrgicos. As meninas e moças, então, tiravam o maior sarro. Razão
para mais uma campanha em favor de calção normal, até comprável em lojas de
tecidos, para serem mais parecidos com o comum dos mortais na veste, eis que o
esmerado empenho levou a bom resultado: os seminaristas foram liberados para usarem
calções curtos como os de outros jogadores, mas, com uma condição, não daqueles
apertados de mostrar o volume dos documentos.
Por ironia das contrariedades, quando
os seminaristas, finalmente, puderam vestir calção não litúrgico, entrou a moda
do bermudão. Foi, então, que começaram a aparecer jogadores com calções até os
joelhos, folgados como bombachas de gaúchos, e os seminaristas, outra vez, se
viram deslocados diante dos ditames da moda.
6
HANS DO DESBROCHAMENTO
Hans von Kleiderschrank, já vovô, com
setenta e quatro anos de idade, desfrutando da convivência da esposa, e, com
muitos netos, que, todo dia chegam à sua casa, é um velho trabalhador de
mecânica pesada, em sua própria oficina, e permanece muito tempo ereto para os
seus serviços. Com isso, a circulação já perdendo a capacidade de fluir intensa
e rapidamente nas veias, causou varizes nas partes baixas das pernas, ou seja,
dos calcanhares para cima.
Seu Hans foi ao consultório médico
para ver o que o médico angiologista poderia ajudar, a fim de diminuir as dores
nas pernas, depois de longas horas de lida diária na oficina. O médico olhou
bem as varizes e falou que eram periféricas e que poderia resolver a
dificuldade, sem maiores problemas. Com uma simples cirurgia ambulatorial iria
extrair as varizes e seu Hans teria que ficar alguns dias de pernas para o ar.
Na extração das varizes, tudo correu
sem maiores imprevistos. Hans seguiu as recomendações, mas, depois de alguns
dias, percebeu que tinha desaparecido sua virilidade máscula. A conclusão foi
imediata: só pode ter sido um erro do médico angiologista! Afinal, antes da
cirurgia, tudo estava em pleno e bom funcionamento.
Como seu Hans era um gênio prático,
sem maiores estudos acadêmicos, matutou a respeito deste imprevisto, - decorrente
da cirurgia, - e deduziu que o médico deve ter cortado alguma outra veia, ao
lado das varizes, que, ainda saudável, abastecia o membro viril.
Começou a queixar-se com seus amigos de que o
médico tinha lhe cortado a veia responsável pela sua virilidade. Falava em
processar o médico, pois, sem funcionamento, para que ter aquele treco
pendurado entre as pernas. Foi falando, ouvindo conselhos, e acabou se
definindo por não fazer nada de vingança contra o médico, mas, foi-lhe
apresentado outro caminho de solução. A pessoa mais sugerida e indicada, foi a
dona “Nêli”, conhecida como vidente, benzedeira e curandeira, residente no
balneário de Pratas, pertinho da cidade de São Carlos, entre a rodovia que vai
a Palmitos e o Rio Uruguai.
Dona “Nêli” era conhecida como aquela
que recuperava o que os médicos e remédios de farmácias não conseguiam
recuperar, porque ela, misturando as três tecnologias favoráveis à saúde, era
insuperável.
Seu Hans foi lá na casa da “Nêli” e
lhe narrou o acontecido a partir da cirurgia das varizes. Ela, muita esperta,
reforçou a suspeita do Hans, para reafirmar que realmente, sua potencialidade
viril estava escafedida, porque o médico teria cortado precisamente a veia que
levava sangue para o membro viril poder ficar ereto. Ela assegurou que tinha um
tipo de xarope específico, para religar o sangue, a partir de outra veia, e que
alimentaria novamente o dito brochado.
Hans foi para casa, animado, tomou,
suspirante, aqueles goles de xarope, pontualmente, como dona “Nêli” tinha lhe
prescrito, mas, o efeito deve ter se deslocado para algum outro desvio. Surgiu,
então, o dilema: se a “Nêli não conseguiu resolver o problema, o campo
terapêutico, estava descartado; sobraria apenas a Hans conformar-se com o
“brochamento”?
Determinado e teimoso como era, não
aceitou a limitação física, e como se achava entendido em chás e ervas
medicinais, mais do que os outros, resolveu partir para os testes de ensaio e
erro de um viagra caseiro: começou a misturar, gengibre, canela, noz moscada,
cravo, e mais alguns outros ingredientes, e sentiu, rapidamente, o efeito
reparador. Seu viagra caseiro, altamente superior ao viagra vendido nas
farmácias, estava produzindo um efeito animador e gratificante. Fez seu
processo brochante, determinista para a fatalidade, dar uma guinada de 360
graus, e ele passou a sentir-se viril como em décadas anteriores.
A única situação inusitada, - que
Hans não esperava, - foi a constatação de que sua esposa estava fraca demais para
suportar seu ativo desempenho sexual.
Estava ali uma prova contundente
contra todas as prospecções brochantes, pois, Hans conseguiu formular, para si
mesmo, um “desbrochante”.
7
O VOVÔ DORMINHOCO
Ainda não
muito avançado na idade, vovô Artur, resolveu parar com trabalho ao se
aposentar. Era um daqueles que projetou a aposentadoria como tempo para não
fazer mais nada. Levantava tarde, e quando não ocorria insistência explicita
para trocar o pijama por outra roupa, passava o dia inteiro de pijama e achava
bom.
Virou homem do sofá e da cadeira de
balanço. Como era diabético e, como funcionário aposentado do Banco do Brasil,
sempre teve vida estressante, resolveu virar um caseiro mórbido. Além de
assistir TV, gostava de ler jornal, sentado comodamente na cadeira de balanço.
Volta e meia pegava no sono, mas quando acordava, tinha um entretenimento
especial: passar horas com o netinho Pedro.
Pedro era apaixonado pelo vô Artur.
Na sintonia e simbiose de comunhão, o pequeno menino fazia acrobacias das mais
estranhas no colo do vô. Tirava seus óculos, bagunçava seus cabelos e fazia de
tudo para receber muita apreciação elogiosa. Certo dia, o velho adormeceu
enquanto lia jornal, e o menino, curioso, mexerico, bagunçava a sala inteira.
Sua mãe estava em outras lidas, pois, sabia que o vô cuidava muito bem do
netinho.
No entanto, enquanto Artur cochilava,
o nenê encheu a fralda e foi andando de um lada para outro. Talvez devido ao
desconforto meteu a mão para dentro da fralda e a deixou suja de cocô. Queria ajuda
do velho, mas o velho estava dormindo. Subiu no colo dele, mexeu e futricou
para todo lado, e acabou passando a mão suja de cocô no bigode do velho.
Artur, quando se acordou, já não viu
o nenê, - pois a mãe o levara para a devida limpeza, - sentiu um estranho
cheiro de cocô. Desconfiou que deveria ter acontecido alguma incontinência e
foi rápido para o banheiro. Baixou as calças e fez uma criteriosa observação,
mas, constatou que estava tudo na melhor assepsia, uma vez que tinha tomado
banho caprichado ao levantar. Voltou para a sala, e continuou a sentir o mesmo
cheiro. Foi, então para a janela, abriu-a, e, de fora, vinha o mesmíssimo
cheiro desagradável. Inquieto, foi para o outro lado da sala e abriu a porta.
Saiu, e nada havia esvanecido aquele estranho odor de cocô. Foi mais uma vez
numa segunda janela, e, o ar que ali inalava, era ar todo fedido de cocô
humano. Foi então para a cozinha e falou enfaticamente para sua esposa: mulher,
deixa dizer-lhe uma coisa muito grave: Andaram fazendo cocô no mundo!
Um bigode de velho pode enganar as
certeiras interpretações do olfato e desviar a hermenêutica interpretativa dos
acontecimentos.
8
FESTA DE ÍNDIO
Os índios
Bakairi, com cerca de mil e poucos membros estabelecidos nos municípios de
Paranatinga, Planalto da Serra e Nobres, no Mato Grosso, são muito cordiais e
festivos. São muito elogiados pelos fazendeiros e agricultores da região,
devido ao desvelo na lida de máquinas agrícolas. Cuidadosos no plantio e na
colheita, dizia-se também, que eram muito mais zelosos do que outros peões nas
lidas com as máquinas.
Os Bakairi da Aldeia de Nobres,
quando anunciavam uma festa e matavam um ou dois bois para serem assados,
convidavam todos quantos quisessem chegar para a festa.
Não tinha ingresso antecipado, nem
taxa de refeição ou ficha para ser comprada e, menos ainda, hora marcada para o
fim da festa. Tudo dependia de quantos viessem para a festa. Esta iniciava com
os primeiros espetos assados e encerrava quando alguém pegava o último pedaço
de carne para comer.
Esta gratuidade parecia algo muito
estranho para festas das raças brancas, descendentes de europeus, pois, eram
movidas para fazer festa com o fim de obter bons e polpudos lucros. Mesmo que
muitos mantimentos fossem doados, cobravam acima do custo normal nas vendas, a
fim de que sobrasse mais dinheiro no saldo final da festa. Para eles, uma festa
era apreciada pelo lucro obtido, e que, geralmente, era investido em reformas e
melhorias no salão das festas. E, sempre faltava algo para ser modificado ou
melhorado para permitir que o local fosse atraente e facilitasse a chegada de
levas cada vez maiores de pessoas para participar das festas.
Assim, festas, mesmo em homenagem a
santos e santas padroeiras, perderam a dimensão antropológica da festa, da gratuidade
e, praticamente, se esvaziaram da grandeza da exuberância e do transbordamento,
componentes não compráveis e que são decorrência natural da festa. A festa
gratuita, como a de surpresa para um aniversariante, requer pouca coisa para
produzir exuberância e transbordamento e que, de graça, faz um bem enorme para
a vida de quem participa da festa. Infelizmente, um processo histórico levou as
festas à imitação dos negócios capitalistas: precisam proporcionar bons e
polpudos lucros.
Não importa a embriaguez que causam,
os vícios alimentados, nem prejuízo à saúde, nem, tampouco, brigas decorrentes
do excesso de bebida com comilança. Festa virou sinônimo de consumo e de
excesso. É o momento para empanturrar-se em troca do que se pagou. Como a lei
implícita é a de levar vantagem, o retorno da festa é caracterizado pelo mau
humor. Em vez do esquecimento das dificuldades e contratempos para intuir que a
vida, apesar disso, pode ser melhor do que foi antes, leva a remoer o evento
pelo tédio e pela ruminação das mágoas.
A aldeia dos Bakairi, do município de
Nobres, faz divisa com a comunidade católica do Pacoval, da paróquia Santa
Rita, de Santa Rita do Trivelato, no Mato Grosso.
Toda vez que esta comunidade do Pacoval
organizava uma festa, surgia um desconforto para os organizadores. Apareciam
uma ou duas caminhonetes Hilux, empinadas com quinze a vinte índios em cima,
para participar da festa. Chegavam alegres e animados, informando que queriam
dar um apoio para a festa. Surgia, então, um dilema cruel para os festeiros,
pois, para os índios Bakairi, participar da festa com um apoio, significava
comer e beber sem pagar um centavo. Para eles, festa sempre é gratuita e, na
sua concepção de festa, seria impensável pagar pelo consumo de churrasco e
cerveja. Isto já nem seria festa!
Ao especificarem quanto queriam de
carne e de cerveja para colaborar na festa, recebiam uma certa quantidade de
espetos de churrasco e umas caixas de latinhas de cerveja. Como eram bons de
garfo, ao terminarem a ingestão do que haviam recebido, voltavam, numa
comitiva, para dizer que queriam dar ainda mais apoio para a festa e pediam
repetição da quantia recebida.
O desconforto da proposta de mais
apoio, levava os organizadores da festa a informar que não tinham mais nada. A
mentira, mal dissuadida, visava não baixar o lucro da festa. Os índios, então,
- como a festa tinha terminado, - empinavam ainda mais as caminhonetes com peso
ampliado, e voltavam contentes para casa.
9
O PODER DA MANDIOCA COZIDA
Certamente nenhum outro tubérculo de uso cotidiano da culinária
brasileira se presta para tão variados cardápios alimentares e para tão
costumeiros comentários quanto o da mandioca.
Quer seja chamada de aipim,
macacheira ou maniveira, a mandioca, da família das euforbiáceas, fornece
riqueza de amidos e, seus tubérculos radiculares, geralmente, protuberantes e
alongados, prestam-se, mais do que quaisquer outros alimentos, para assunto
constante e rotineiro das conversas dos jantares e dos almoços festivos.
Teriam estes tubérculos cozidos, de
acordo com os distintos hábitos culturais, ao serem servidos em estado mais
amolecido ou duro, algum poder mágico, afrodisíaco e exotérico, capaz de
despertar uma linguagem tão ampla de sentido duplo?
Sabe-se que dentre as inúmeras
variedades destes tubérculos, algumas são venenosas, umas apresentam coloração
esbranquiçada, outras se revestem da cor amarelada e, dependendo das
características do solo, umas são mais fibrosas e outras mais polpudas.
Há regiões em que a mandioca fornece
variados sub-produtos da alimentação cotidiana e básica. Pode ser da mandioca
brava ou da mandioca doce; da mandioca mansa ou da mandioquinha; do quintal ou
do mandiocal; da farinha, ou da farofa; da fécula, ou do polvilho; do polvilho
doce, ou do polvilho azedo; do amido ou da tapioca; da goma ou da farinha
amilácea; da farinha d’água ou do beiju; de beiju moqueca ou membeca; beijucuruba ou beijuguaçu; ou ainda do
líquido fermentado e azedo que indígenas
preparam para inebriar-se e, muitas vezes, embriagar-se nos momentos festivos,
ou até mesmo da folha tostada para as misturas polivitamínicas que salvam a
vida de crianças e pessoas subnutridas; da mandioca simplesmente cozida na água
ou cozida e fritada; da mandioca com sal ou sem sal; e, do bolo de mandioca ou
da sua massa como ingrediente básico para maionese na ausência de batatinha
inglesa...
Como tantas outras palavras
portadoras de sentidos ambíguos, ambivalentes e de significados que somente
aparecem nas tênues modalidades de expressão, o uso da palavra mandioca
apresenta um status que certamente lhe dá supremacia sobre quaisquer outros
tubérculos nos ambientes festivos. Se uns a apreciam ao lado das carnes
gordurosas, picantes e bem temperadas, com sal ou sem sal, até não se torna
assunto relevante; mas, o que certamente não foge da costumeira conversa é a
apreciação do estado físico dos pedaços de tubérculos de mandioca ao serem
servidos.
Aí, sim, o assunto é sempre o mesmo:
ou porque esta mandioca está dura ou porque está mole. E a digressão da
conversa sempre envereda para o dono da mandioca ou para quem a deixou mais
sólida, rígida ou amolecida. Curiosamente, não é conversa exclusiva de homens,
ou só de mulheres, aliás, será que em algum ambiente festivo este assunto não
envolve comentários e muitos olhares que se cruzam e se entrecruzam com certa
malícia?
Poder-se-ia, então, concluir que a
mandioca, de fato, tem um poder afrodizíaco superior ao do amendoim ou de
qualquer outra iguaria das refeições festivas. Este poder, todavia, não resulta
tanto da composição química destes multi-utilizáveis tubérculos, mas, da força
da persuasão, porque a mandioca é capaz de remeter sempre ao assunto de um
outro contexto.
O que estaria a revelar a forte
incidência dos significados da mandioca? Seria tal meta-linguagem um sintoma
dos desejos eróticos, que se ativam, mais do que em outras circunstâncias,
quando misturadas às múltiplas fantasias que se geram nos momentos
festivos? Ou seria uma expressão quase
compulsiva das dificuldades que são amargadas no âmago da interioridade e sobre
as quais, nem na cama e nem em outros momentos, os casais encontram coragem
para explicitá-las?
Pode-se facilmente imaginar que a
capacidade de partilhar sentimentos de fracasso diante da mitologização do
orgasmo, da potência viril e juvenil, seja masculina ou feminina, é assunto
delicado, porque tal partilha pode favorecer que o companheiro ou a companheira
usem tal declaração como arma de controle, de cobrança e até mesmo para
mapeamento preconceituoso da sua conduta. Facilita a cobrança: “por que você não
corresponde”? Desloca-se, assim, o problema pessoal para o suposto problema da
outra pessoa.
Neste caso, a partilha poderia inibir
cada vez mais o efeito esperado, porque o ato relacional já não estaria se
movendo por amor ou paixão, mas, por uma rigorosa cobrança de compromisso de
êxito: precisa propiciar muito prazer! O medo de não corresponder à expectativa
alheia, leva ao silêncio sobre o assunto. Afinal, poderia alguém falar à
vontade à sua “cara-metade” que não consegue orgasmo ou que o obtém precocemente,
sem pressupor que, com isso, seja colonizado, espoliado e, até sujeito a ficar
relegado, para dar à outra o direito de procurar uma terceira pessoa que a faça
plenamente feliz na cama?
O imperativo de ter que satisfazer a
outra pessoa, leva a uma verdadeira neurose inibidora, seja ela masculina ou
feminina, mas, também, a um deslocamento de sintoma: ele, ou ela, não me
satisfaz!
É possível que a polarização das
conversas em torno da mandioca, nas horas festivas, esteja funcionando como
processo catártico, porque o assunto envolve dois aspectos: de um lado, os
cheiros, os perfumes, os trajes e a descontração, certamente oferecem um
elevado potencial estimulador da energia sexual ou da libido, para fantasias
mais íntimas e complementares, pois esta grandeza humana, nos momentos
festivos, permite às pessoas reportar-se para outros mundos possíveis.
Por outro lado, pode-se também
imaginar que o clima de descontração da festa permita extravasar o que
normalmente não se conversa, pois, com caipirinha e os aperitivos mais
picantes, sobretudo, quando acompanhados por alguma outra bebida alcoólica,
formam um potente inibidor ou diluente das censuras do sub-consciente sobre o
insconsciente e, deste modo, autorizam o insconsciente a soltar o que realmente
está em jogo: o grande mito de nossos tempos, vendido e divulgado por todos os
meios de comunicação, continua a insinuar que a felicidade equivale a relações
exitosas e de desfrute no relacionamento sexual, a conhecida lei do Gerson,
pois, deve-se levar vantagem em tudo!
Tal atribuição de causa não permite
reconhecer que o instrumento viril masculino está mais ou menos capaz de
manter-se erétil e satisfazer anseios femininos mais profundos, pois a falta de
diálogo e a capacidade de criar um clima de bem-querer levam ao embotamento dos
dois lados.
Explicitar este desconforto tão íntimo, tão
subjetivo e tão arriscado, cria medos, e, por isto mesmo, a mandioca, mais do
que por suas riquezas nutricionais e suas variáveis na adaptação de iguarias
alimentares, - quando é servida na mesa - impregna-se de um poder fantástico,
que desperta dos baús do inconsciente, que, por trás do “duro” e do “mole”, há
incontáveis seres humanos precisando exteriorizar, de maneira sutil e irônica,
uma desconfortável decepção com o que cotidianamente acontece no ambiente da
cama.
Por este benéfico serviço, a mandioca
cozida já está merecendo reconhecimento de utilidade pública, - O dia da Mandioca
- com direito a assegurar desconto nas horas psicoterapêuticas.
10
UM TESTE DE PATERNIDADE
Dona Benta,
uma senhora magra, torta e fumante, morava no Morocó, lá no fim de mundo, perto
de Santa Rita do Trivelato, no Mato Grosso. Faladeira especializada, sabia
apreciar os mínimos detalhes de qualquer pessoa que visse. Costumava emitir
comentários dos mais aturdidos a respeito de todos os moradores da vizinhança.
Parecia captar as coisas até pelo cheiro.
Dona Benta tinha um vozeirão rouco
decorrente dos palheiros que fumava, raro de se ouvir, e, como era pessoa
altamente emotiva, conseguia folgadamente chorar, sorrir, debochar e revelar
extravagâncias, tudo ao mesmo tempo.
Do muito que
dona Benta sabia falar da vida alheia, nasceram também muitos episódios que a
deixaram seguidamente acabrunhada. Parte da sua capacidade apreciativa das
condutas alheias era estimulada por seu marido, Nando, homem irônico, pachola,
e, por isso mesmo, muito debochador da vida alheia.
O casal
teve, depois de três meninas, razão especial para sonhar com um menino, mas,
veio outra menina. Era festa, choro, emoção e muito frenesi em torno do que
viria a ser esta última fornada generativa de mais uma menina. O pai dela, que
já gostava dos tragos do bar, começou a beber mais ainda e, sequer encontrava
tempo para acalantá-la. Ademais, um câncer fulminante no fígado, levou-o à
morte em poucos meses depois do nascimento da menina Marlene.
Dona Benta, ainda mais choramingona
do que antes, oscilava entre responsabilidade na condução do andamento da
família e lamúrias diante das dificuldades que enfrentava. Era grito e choro da
manhã até noite adentro. As meninas, embora arteiras, foram crescendo e, aos
poucos, criando juízo para ajudar a mãe e colaborar nas lidas de ordenha e
trato de aves e porcos.
Esta menina
mais nova, sabe-se lá se foi por falta de afeto, ou alguma sequela genética, ou
adaptação à expectativa dos pais, gostava de fazer artes com os meninos da
vizinhança. Quando se tornou adolescente, começou a mostrar que não tinha
nenhuma queda para os estudos, mas, demonstrava um extraordinário pendor para
entreter a rapaziada. Sempre trajada da calça jeans, botina e chapéu, começou a
despertar suspeitas de apresentar alguma anomalia hormonal, ou genética ou
psíquica.
Dona Benta, a instância suprema da
moral e dos bons costumes do povoado, teve que amargar alguma fofoca indireta e
algum motejo a respeito da conduta de sua pupila dos olhos.
Sem demora,
o assunto se inverteu e começou a correr conversa de que Marlene, a excelsa
realização de dona Benta, dava sinais de ser “Maria Sapatão”. Aí sim, saía
troça de todo jeito em torno dos hábitos da menina adolescente. A fama foi se
alargando e todos conheciam Marlene como namoradeira de outras meninas.
Por onde Marlene andasse, estava
sempre rodeada por um séquito de diversas colegas, e gostava de frequentar os
bares para beber cerveja e falar de formas extravagantes, a fim de chamar
atenção de todo mundo. Sobretudo em festas, ficava bêbada e, então, as lágrimas
do choro da dona Benta pareciam nascente a formar um córrego escorregadiço para
arrastar a menina até a casa onde morava.
Quando toda
a comunidade já parecia estar acostumada com a sapiência de que Marlene era
“Maria Sapatão”, eis que ela começou a evidenciar que estava grávida. O fato,
além de propiciar os mais fartos comentários, impreterivelmente enveredava
sobre a possível paternidade.
Por mais que todo mundo comentasse o
inusitado assunto e se metesse a bisbilhotar a vida de Marlene, com o intuito
de descobrir o esplendoroso e possível pai da criança em gestação, ninguém
conseguia encontrar pistas concretas. Alguns gozavam que dentre as meninas do
seu grupo poderia alguma estar enganando a torcida. Outros suspeitavam de
alguns jovens um tanto malandros e as investigações direcionavam-se para um e
outro destes rapazes. Feitas todas as sondagens possíveis e imagináveis,
evidenciou-se algo concreto: se o pai da criança é um rapaz, não foi nenhum da
redondeza.
Restava,
então, mais uma alternativa: uma devassa geral entre os presumíveis homens
casados, que costumavam dar suas voltinhas. Dias, semanas e meses não chegaram
a evidências plausíveis a respeito do misterioso homem de família que poderia
ter engravidado Marlene. Ela, por seu turno, aproveitou o ensejo para avivar
ainda mais o assunto oficial em voga, fez suspense em torno do pai secreto e
oculto, sem fornecer a mais ínfima pista do possível nome desta façanha.
Enquanto o
suspense rondava os ares e ocupava as conversas, o velho senhor Marciano chegou
a uma ponderação que pareceu ser de bom-senso no meio da agitação de conversa
em Morocó. Como as suspeitas recaíam sobre dois homens casados, pais de
família, o velho Marciano sugeriu que todos esperassem mais alguns meses até
conseguirem ouvir a forma da criança falar. Caso ela utilizasse a palavra
“Ansim” - em vez de “assim”, - então, o pai seria o velho matreiro, o alemão
Fritz, homem falso até por cima da cabeça, conhecido no povoado pela sua
atrevida astúcia. Dizia-se que sua esposa tremia as duas mãos por efeito da
doença de Parkinson, de tanto bater nele por sempre estar metido a garanhão
caçador de mulheres. Sua aparência, todavia, era a de um santo
extraordinariamente devoto e piedoso, especialmente na regência do coral e na
forma como rezava alto, postado no primeiro banco da Igreja para cair na vista
dos demais que vinham àquele local. Por outro lado, se a menina utilizasse a
repetição do cacoete “né”, neste caso, o pai seria o Pedro Borba, homem casado
há poucos anos e pai de um casal de lindas crianças pequenas.
Passado mais
de um ano sem informações concretas e definitivas sobre a paternidade, e como
em Morocó ninguém se preocupava com possível exame de DNA e, nem tampouco, a
Marlene reclamava explicitamente alguma ajuda do pai para cobrar-lhe pensão a
fim de auxiliar a criação da filha, o melhor exame seria o indicado pelo velho
ancião Marciano.
Num belo dia, alguém soltou a
conversa de que ouviu a menina dizer “né”. Aí, sim! O assunto percorreu
rapidamente o povoado, e, finalmente, o misterioso caso chegava a um desfecho:
o pai seria mesmo o senhor Pedro Borba, o já pai de duas outras crianças. Com
mais uns dias de fofoca generalizada, delineou-se, finalmente, o grande
mistério: o pai biológico da menina de Marlene era, de fato, Pedro Borba.
O documento confirmatório foi uma briga
fenomenal com a esposa, que tomou suas duas crianças, e foi morar no sul do
Brasil para nunca mais ver esposo traidor. Terminado o suspense, confirmou-se o
exame de paternidade e tudo voltou aos outros assuntos rotineiros de conversa,
como falar de chuva e de calor. Dona Benta, certamente, não esperava tanta
demora na sequiosa espera dos resultados de paternidade.
11
O ALEMÃO MORIBUNDO
No
agito da movimentação de centenas de funcionários indo apressadamente para as
fábricas de tecidos e de calçados, na rua central de Saudades, SC, o alemão
Hans Müller, parecia debochar da andança tão acelerada dos demais, e fazia
exatamente o contrário. Estava ele, andando a passos extremamente lentos,
curtos, que não passavam de meio palmo, e ainda, arrastando os chinelos, num
aparente deboche à pressa dos demais transeuntes da rua.
Do outro lado da rua, vinha o velho
conhecido do Hans, o senhor Wilibaldo Schnorresmann e, ao ver seu amigo naquele
caminhar de lesma, cruzou a rua e foi até o Hans. Perguntou:
- Como está?
Hans falou: mas, você não sabia que
eu quase morri? Estive internado duas semanas, ali no hospital de Saudades.
- Wilibaldo, todo curioso, perguntou:
- O que aconteceu?
“Ach!” Respondeu o Hans, eu estava
numa fraqueza de morrer.
Hans era viúvo, de 63 anos de idade e
morava sozinho. Os filhos moravam em outras cidades e, o Hans, provavelmente,
de tanto ouvir outros idosos se lamuriarem das fraquezas musculares, sobretudo,
quando os encontrava no centro de idosos, e como ele tinha uma boa propensão
para a hipocondria, deve ter absorvido as queixas e passado a sentir-se ainda
mais cansado do que os demais idosos juntos. Com isso, deve ter conseguido
mendigar alguma manifestação de afeto ao explicar como estava fraco e cansado.
Prevendo que já estava na iminência
de morrer mediante exaustão da fraqueza, Hans, não queria, contudo, deixar
dívidas pendentes. Foi na Cooperativa Ceraçá, a poucos metros do lugar onde se
encontrava, e lá tinha solicitado corte dos cabos de entrada de energia na sua
casa, sob a reta motivação de que não aparecesse boleto de cobrança depois da
sua morte. E para não ter problemas e riscos com gás, vendeu o botijão e
começou a esperar a hora da morte.
Na visita costumeira da agente de
saúde à casa do Hans, ela constatou seu estado de desnutrição e providenciou
sua ida ao médico no Hospital, a uma quadra de distância. Após a consulta, Hans
foi internado. Ali no hospital ele só se lamuriava de uma fraqueza de morrer,
mas, não morria e não tinha jeito de apresentar sintomas de morte.
Passadas duas semanas de internação,
sem nenhuma alteração para pior no quadro clínico, o médico ao fazer a visita
de rotina ao quarto de Hans, e certamente, percebendo que sua hipocondria o
levava a imaginar toda a fraqueza acumulada dos demais velhos de Saudades, -
com os quais seguidamente conversava, - o médico falou enfaticamente:
- Entenda, seu Hans! Você está numa
fraqueza, tão grande, mas tão grande e tão intensa e profunda, que falta até a
necessária força para você poder morrer. Eu vou lhe dar alta hospitalar e você
terá que fazer, em casa, um tratamento demorado e bem rigoroso para poder
recuperar pelo menos as necessárias forças, com vistas a poder morrer.
Foi este o motivo que fez Hans andar
daquele jeito na calçada. Estava indo à Cooperativa Ceraçá, para que viessem
religar a entrada de energia na sua casa e desejava, também, passar no posto de
revenda de botijões de gás, a fim de comprar um botijão novo com gás e voltar a
cozinhar. A entrada da aposentadoria, ocorrida nos dias de internação, iria
permitir comprar o rancho necessário para cruzar o mês com provimento
energético recomendado.
12
O SUMISSO DA VASSOURA
Lá no sertão
do Rio Grande do Norte, na cidade de Patú, o padre alemão Franz Spitz, zeloso e
dedicado, construiu um santuário enorme no alto da montanha e este vistoso
lugar, declarado santo, trouxe grande afluência de fiéis na busca de curas e
milagres.
O nome do
santuário, Nossa Senhora dos Impossíveis, apresentava uma conotação simpática
ante as agruras, doenças e dificuldades na vida. Padre Spitz também sabia, como
poucos, enfatizar a grandeza deste santuário. Costumava repetir, com vibração e
entusiasmo, nas suas homilias, que tudo quanto as outras Nossas Senhoras não
resolviam, ali, no Patú, a Nossa Senhora dos Impossíveis dava jeito.
Quando o
padre Spitz já estava velho e impossibilitado de atender a imensidão de gente
que, todos os dias afluía ao santuário, foi substituído, por um padrezinho bem
novo. Esperto, inteligente, simpático e de boa pinta, padre Onófre logo
despertou as atenções devido à sua fala eloquente e pela forma cortês como
tratava e acolhia os romeiros.
Depois de algumas semanas, o povo já
percebeu duas outras peculiaridades do padrezinho: soube selecionar as duas jovens
mais bonitas da cidade para serem respectivamente cozinheira e secretária e,
deixou evidente uma queda precípua para o lado feminino.
Como dizia
um ditado popular, a voz do povo é a voz
de Deus, não demorou muito para que as más línguas desconfiassem da moradia
das duas jovens com o padre, naquela imensa casa paroquial, isolada no alto da
montanha do Patú. No entanto, como o Santuário ficava uns quilômetros fora da
cidade, alguns não viam maior dificuldade nesta convivência.
A nível
interno da casa paroquial, emergiu logo um sintoma da doença social de
esquizofrenia acirrada, própria do sistema capitalista de um puxar o tapete do
outro, a fim de ascender no agrado, no salário e na precedência. Ali não foi
diferente.
As duas
belas jovens começaram a disputar a primazia da maior proximidade com o padre
Onófre. A disputa virou rivalidade, e uma delas, a secretária, ao sentir que
estava ficando preterida, ficou mais atenta à movimentação da cozinheira.
A casa
paroquial, embora espaçosa, ainda não contava com as modernidades de banheiro
em cada quarto, e a secretária, percebeu que a colega tinha saído do quarto,
que ficava ao lado, e, presumidamente, teria ido ao banheiro. Como não percebeu
nenhum rangido de porta do retorno da colega ao quarto, já aguçou mais sua
capacidade de observação, com o fito de puxar o tapete da colega.
Ao constatar
que o mesmo ritual se repetiu nas noites seguintes, resolveu averiguar melhor
este estranho comportamento e foi até a despensa, pegou a vassoura e a colocou
sob o cobertor na cama da cozinheira.
No outro
dia, antes do café, a cozinheira já estava resmungando que alguém extraviou a
vassoura. Passou-se uma semana inteira e ninguém soube informar o paradeiro da
vassoura. O padre declarou que, possivelmente, alguém a pegou para limpar o
salão e que certamente a deixou esquecida por lá.
A
secretária, no entanto, sabia que o sumiço da vassoura, ao não ter sido
percebida onde se encontrava, era prova contundente de que a cozinheira ia
dormir com o padre.
Soltou a
manchete para algumas fofoqueiras da cidade, e, dentro de poucas horas, todo
mundo sabia que o padrezinho galã, não dormia sozinho na cama. Ao se comentar a
prova irrefutável da sua vida ambígua, não demorou para que o bispo viesse a
saber do ocorrido.
Três dias
depois da notícia do padre se tornar pública, o bipo foi visto chegar no
santuário e, já no dia seguinte, nem o padre, nem a cozinheira e nem a
secretária continuaram morando na casa paroquial.
Tudo indicou
que ocorrera proibição de belas jovens coabitarem na casa paroquial. O
reverendo foi afastado do seu ministério e, sem muita demora, soube-se que
estava convivendo com a sua bela cozinheira na cidade do Mossoró.
13
PICADA DE COBRA
No
assentamento de sem-terra “Boa Esperança”, a oitenta e cinco quilômetros de Santa
Rita do Trivelato, no Mato Grosso, a única coisa boa, era a esperança. O acesso
era complicado, porque aquela região arenosa atolava os carros tanto nos dias
secos, como nos dias chuvosos. As terras pobres, com vegetação de cerrado,
davam a impressão de fim de mundo.
Cada morador
recebeu de trinta a quarenta hectares de terra. Não tinha como sobreviver
naquela distância com serviço de lavoura meramente manual. O assentamento já
tinha agregado famílias sem nada, que, para suas moradias usavam varas mais ou
menos retas daquele cerrado, cavadas em fileira no chão e com a ajuda de uma
lona plástica fechavam as paredes para não chover dentro e não serem
surpreendidos por cobras e outros animais peçonhentos.
O piso era o
do chão natural de areia e o telhado era feito com um pouco de Eternit de
quatro milímetros e por cima, com uma camada de ramos de coqueiro para não
esquentar excessivamente.
O
impressionante do assentamento Boa
Esperança era o número de carros velhos sem condições de funcionamento.
Como em tantos outros assentamentos, devido às distâncias, precisavam de carro
para, de vez em quando, ir até a cidade comprar os produtos necessários, e,
como o dinheiro não passava de esperança, só conseguiam comprar carros sem
documentação, ou falsificados, ou ainda roubados.
Era normal
ver de dois a três carros em cada moradia, mas, com nenhum em condições para
uma viagem até a cidade.
Sem
perspectivas de obter da terra o necessário para sobreviver e expandir-se, a
maioria dos moradores foi vendendo suas áreas para voltarem a ser diaristas em
cidades maiores da redondeza.
Dentre as
poucas famílias resilientes naquele aparado de Serra, estava o casal Serafim
Matos e sua esposa Filomena, com meia dúzia de filhos. Eles até, mais do que
outros, conseguiam colher um pouco de tudo e, se não tivessem dinheiro para
reformar algum dos carros, pelo menos tinham comida farta.
Naquela lida
simples de roça, sem geladeira, sem internet e nem televisão, costumavam ficar
bom tempo sentados na frente das casas no anoitecer; e era comum que se
contassem muitos causos de tempos mais antigos e dos antepassados.
Num dia
desses, depois de muita trela, e sentados no escuro e tendo por lampião a
iluminação dos raios solares refletidos pela Lua, dona Filomena sentiu
necessidade de fazer xixi. Teria que ir adiante do outro lado da casa onde
estavam sentados, e percorrer uns vinte metros até a casinha para as
necessidades fisiológicas.
Filomena resolveu encurtar a estrada,
e foi um pouco para o lado e se acocorou na macega para fazer seu necessário
xixi. No meio da tarefa, soltou gritos desesperados de que uma cobra tinha lhe
desferido uma picada ao lado da cavidade rugosa sublombar, e, que doía muito.
Joaquim
correu para socorrê-la e, com seus gritos de dor a dona Filomena parecia estar
na iminência de morrer. Joaquim mandou um dos meninos chamar o vizinho que, por
sorte, tinha um carro velho que ainda dava contas de ir até a cidade e já
saíram rapidamente para o pronto socorro.
Chegando lá, o médico de plantão procurou
atender imediatamente dona Filomena, pálida e escorada no marido, parecia
realçar ainda mais sua magreza cadavérica.
Informado
sobre o diagnóstico preliminar, o médico procurou verificar, in loco, o
eventual sinal da picada, mas, por surpresa, não encontrou o mínimo indício de
possível picada de cobra. Pediu para que Filomena ficasse duas horas em
observação. O Joaquim, ao seu lado, enquanto Filomena ainda estava sobre a maca
e de pum-pum para a Lua, já não sabendo como dissuadir seu desconforto com o
ocorrido, falou olhando para Filomena:
- Que talho esta picada de cobra abriu bem ali, neste vale do
Josafá do seu pum-pum!
Voltaram
para casa, sem assunto para conversar, mas, no dia seguinte, foram logo ver o
lugar do ataque da suposta cobra cascavel. Ao chegarem ali, encontraram um
ninho de galinha e a choca achatada sobre os ovos, forneceu o exame
laboratorial mais apurado para a diagnose: a choca, desconfortável com a urina
a chover sobre seu dorso, picou no rumo da fonte de sua queda... A suposição de
que era de cobra, produziu desespero em Filomena, uma vez que, se fosse de
cascavel, poderia causar sua morte dentro de poucas horas. Certamente por isso,
a dor se tornou potencializada e aguda.
A notícia da
picada de cobra em lugar tão pouco habitual, vasou do âmbito familiar e, na
vizinhança, já produziu um novo batismo: ao invés de falarem de dona Filomena,
aplicaram-lhe o nome de “Fi-talho”.
Algumas
semanas depois, a “Fi-talho” foi na casa paroquial para pedir uma ajuda do
padre e que ele anunciasse nas missas a venda de uma propriedade de quarenta
hectares de terra por apenas trinta mil reais. Caso o padre arrumasse um
comprador, receberia cinco mil pelo encaminhamento.
O padre só
falou que não podia fazer isso em celebrações, mas que, caso encontrasse
comprador interessado, iria indicar-lhe o endereço. Ainda na mesma semana, o
senhor Felipe Fonseca foi ver a área, a partir de outra informação, e, como
aquela propriedade era rica em água, adquiriu-a pela bagatela de trinta mil
reais, com a perspectiva de transformá-la num belo sítio e num primoroso lugar
de lazer.
A família do Joaquim, atravessou o
Rio Teles Pires, e foi morar adiante de Paranatinga, onde a “Fi-talho” voltou
ao primeiro nome de batismo: de ser, simplesmente Filomena.
14
O TOURO AMÂNCIO
No bairro
Boa Vista, na cidade de Rio Pardo, RS, existia, ao lado da Igreja, um prédio
vistoso de três andares, constituído em asilo de menores. Ali abrigavam-se mais
de trinta crianças, algumas já adolescentes, geradas, mas, não assumidas pelos
pais biológicos, e que desejavam intensamente a possibilidade de serem adotadas
por alguma família.
Algumas
bocas maldosas comentavam que o elevado número de crianças no asilo decorria da
peculiaridade da descendência açoriana, muito propensa para namoros fora do
casamento.
O
administrador do asilo era o padre Ramon, homem de estatura alta, magro, em
torno de cinquenta anos de idade, de fala mansa e esticada, conhecido como
“papai bondoso”. Era muito simpático e sabia como ninguém, arrecadar alimentos
e donativos dos fazendeiros para o asilo. Sua caminhonete F75, sempre que
retornava do interior, vinha abarrotada com um pouco de tudo: carneiro, porco,
galinha, arroz, feijão, algum saco de milho e, quando sobrava espaço, pessoas
na carona em cima da carroceria.
Neste asilo, os adolescentes eram iniciados
nas lidas de trato de galinhas, de porcos, carneiros e na ordenha de belas
vacas holandesas de raça pura.
O padre tinha dois funcionários, o
Álvaro Borges e o Danilo Fonseca para administração do espaço dos animais. O
que mais os absorvia, era a lida com as vacas.
Bem organizados piquetes de pastagem abrigavam
um lote de dezoito vacas, sob o reinado másculo do touro Amâncio.
De enorme
envergadura, o touro Amâncio, - da raça holandesa, - puro por origem, estava
registrado e a pasta do seu controle continha mais documentos e papéis do que
os de uma pessoa comum, registrada em cartório, batizada, vacinada e casada.
Este touro apresentava uma
peculiaridade especial: mal-humorado e bravo como só ele! As dezoito vacas sob
seu império, mesmo com farta pastagem, não acalmavam seu ar de carrancudo e
ameaçador.
Álvaro e Danilo, eram jovens
estudantes de segundo grau e tinham, ao lado das tarefas escolares, a missão de
cuidar bem da leitaria, fonte de boa renda através da venda do leite.
Todos os dias, os dois tinham que
lidar com aquele animal raivoso que era o touro Amâncio. Não bastaram as muitas
reclamações com o padre a respeito dos riscos de vida que Amâncio lhes
apresentava.
A resposta do padre Ramon era
impreterivelmente a mesma: vocês são muito medrosos! Mesmo que sempre
estivessem armados com um pedaço de cano galvanizado para lhe bater na cabeça,
o touro não se intimidava diante deles.
Um dia, Álvaro errou o alvo da batida
com o ferro na cabeça do Amâncio e este lhe deu o troco com uma chifrada
perigosíssima. A sorte foi a de que a camisa e a blusa que usava, eram
desgastadas pelo tempo de uso e se romperam. Mesmo assim, um chifre pegou na
altura da cintura e lhe arrancou uma tira de couro no lado das costas, junto
com a ruptura da roupa.
Os dois moços foram novamente ao
padre Ramon, para mostrar o efeito da chifrada e pedir-lhe alguma providência.
Nada se alterou nas convicções do reverendo e ele voltou à mesma cantilena
irônica e debochada da sua fala mansa de que eles eram muito medrosos.
De tardezinha, na hora da ordenha, o
touro estava amarrado num canteiro de pasto, deitado na frente do estábulo e o
padre Ramon veio ao seu encontro. Chegou de mansinho, vestido com batina cinza,
e foi passando a mão do dorso do touro. Quando menos esperou, o touro deu uma
soprada forte, e, numa virada repentina, meio de lado, atropelou-o com uma
chifrada, que o jogou para o ar a pelo menos um metro e meio de altura, e, com
um detalhe cinematográfico. Como o padre Ramon vestia batina, a vestimenta lhe
desceu sobre a cabeça e apareceram as pernas brancas no ar. Caiu como um saco
de estopa cheia de farelo.
Álvaro e Danilo visualizaram o
espetáculo e tiveram que empenhar-se ao máximo para não exultar no gozo, e, aos
gritos, festejar o cineminha gratuito. O padre, assim que conseguiu ajeitar-se
com a batina, mesmo entortado por dores lombares, fugiu do alcance do touro
Amâncio e veio na direção do estábulo.
Os dois rapazes, para não rir diante
do padre, esconderam o rosto atrás das vacas que ordenhavam, para dar a
impressão de que não tinham percebido cenário tão pitoresco. Padre Ramon se
aproximou deles e, com sua típica voz mansa e dengosa, falou: Acho que está na
hora de mandarmos beneficiar este Amâncio!
No dia seguinte, às cinco horas da
manhã, estava ali o padre e o senhor Pedro Klafke, castrador de touro. Feito o
procedimento de extração da fonte das potências seminais do touro Amâncio, veio
a recomendação de trato abundante de ração, mandioca e pasto, a fim de que o
“ex-touro” viesse a propiciar muita carne.
Longos meses de fartura de comida não
apontavam para qualquer sinal de aumento de peso. Com um razoável prejuízo
consumado, pelo que Amâncio devorava todos os dias, sem engordar, o padre
resolveu finalmente, abatê-lo.
Ao se abrir a buchada do dito animal,
constatou-se a possível fonte da brabeza de Amâncio: estavam ali, cinco cuecas
de elastina que ele havia alcançado no varal de secar roupa e engolido.
A suspeita de Álvaro e Danilo, ao perceberem o
sumiço de suas cuecas era a de que algum fetichista de cuecas as teria levado
para alguma lida da sua obsessão. Constatado que o touro Amâncio as deglutiu,
e, como prova irrefutável, estavam retidas ali no seu bucho há muito tempo,
chegaram a um diagnóstico de evidência lógica: esta extraordinária brabeza de
Amâncio deve ter sido, na verdade, o resultado da diária e contínua dor de
barriga, por não conseguir digerir e evacuar as cuecas durante tanto tempo.
PALAVRAS FINAIS
Na contramão
do regime oficial, que impõe o pensamento único, com vistas a ampliar larga
submissão à moderna escravidão do trabalho exaustivo, com vistas a enriquecer,
ampliar poder, e, consumir com obsessão compulsiva, consideramos importante
realçar a dimensão do ócio que ainda permite ativar a memória antiga de causos
e contos. Esperamos que os causos, aqui narrados, despertem um pouco de
hilaridade e motivações para ficar de bem com a vida.
Nada melhor do que contar e ouvir
fatos marcantes que envolveram razões chistosas. Velhas recordações, podem
ativar a fantasia e ajudá-la a sonhar com um mundo mais humano e, com
satisfatória interatividade.
Afinal,
porque tanto consumo sob o ditame universal, que degrada a vida e a natureza?
E porque
tanto fanatismo extremista para submeter e espoliar?
Uma fantasia, realimentada com
narrativas de episódios, certamente, poderá apontar para possibilidades
plausíveis de um mundo melhor.