quinta-feira, 15 de outubro de 2026

EPISÓDIOS ESTRAMBÓLICOS

 


            Episódios Estrambólicos constitui mais uma coletânea de causos divertidos, narrados por João Inácio Kolling. São histórias curtas, repletas de surpresas e situações inusitadas no desenrolar dos fatos, que propiciam entretenimento agradável, com interpelações para o bom humor.

 

Índice

Apresentação...

1 – Na tia Catarina...

2 – Canhoto azarado...

3 – Cheirador de rolha...

4 – Saco de requeijão...

5 – Calção litúrgico...

6 – Hans do desbrochamento...

7 – O vovô dorminhoco...

8 – Festa de índio...

9 – O poder da mandioca cozida...

10 – Um teste de paternidade...

11 – O alemão moribundo...

12 – O sumiço da vassoura...

13 – Picada de cobra...

14 – O touro Amâncio...

 

Palavras finais...

APRESENTAÇÃO

 

Seguem narrativas de fatos que envolveram detalhes hilários. Rir dos próprios fiascos e gozar das gafes alheias, envolve uma realidade, que nem todos apreciam, porque pode estar próxima do sadismo, mas, também enseja interações mais gratificantes do que as de agregar pessoas e observar um círculo de criaturas humanas, cada uma isolada das demais, e meramente focada na telinha do seu celular. Se é para ficar assim, na casa dos outros, então melhor teria sido ficar em casa.

Pelo menos para quem já é dono de uma data de nascimento mais antiga (DNA), sem desprezar a grandeza tecnológica do celular, o hábito de contar histórias, anedotas e causos, ainda enseja momentos agradáveis na convivência e produz uma reminiscência agradável de um “Ethos” humano, que, na oralidade, propiciava interações de pessoas, que acrescentavam gosto à vida.

Na seletividade feita pelo psiquismo, umas coisas chamam mais atenção do que outras. Assim, também, umas situações podem ser hilárias para algumas pessoas e para certos ambientes, e, não serrem hilárias para outras pessoas e para outros ambientes. No desejo de ensejar um curto entretenimento, seguem neste texto, episódios inusitados que podem, eventualmente, ativar algumas recordações marcantes que ainda dormem na memória.

 

 

1

NA TIA CATARINA

 

            O terreno da sua residência, equivalente a uns quatro terrenos urbanos, no povoado de São João, interior de São Carlos - SC, era mais que um jardim botânico. Pessoa gorda nem conseguiria chegar à casa de Catarina, naqueles estreitos trilhos de acesso. Todo o entorno da casa, constituía um ambiente encantador de variedades de flores, frutíferas e árvores de sombra. Ainda hoje, os jardins daquela comunidade encantam pela beleza e encantamento da múltipla coloração de flores.

Catarina, em sua família, foi uma menina normal, a mais velha de treze filhos e ajudou sua mãe a criar uma porção deles. Seus pais moravam ao lado do lote da sua residência. Seu pai faleceu cedo, de tétano, decorrente de um estrepe no pé. Pouco tempo depois, queimou a casa onde moravam, e Catarina teve que lutar muito, com sua mãe, para que seus doze irmãos pudessem crescer com comida e saúde.

Catarina namorou, noivou e estava se encaminhando para o casamento. Um fato secundário e imprevisto, mudou o rumo, e desviou o casamento.

            Naqueles tempos, todo morador tinha uma espingarda e, esta, geralmente, ficava pendurada num prego na parede da sala de estar, a fim de facilitar o acesso, em caso de necessidade de matar algum bicho. Diversos irmãos de Catarina, num dia de chuva, estavam se atropelando na sala de estar, e já não sabiam mais o que inventar naquele espaço, pois, não podiam ir para fora devido à chuva intensa.

A certa altura da manhã, resolveram fazer uma luta, simulando uma guerra e as armas eram constituídas por calças que um batia contra outros. De repente, um irmão de Catarina, ao querer bater em outro irmão, esticou a calça pelo ar e a enroscou na espingarda, e, ela, na queda, detonou um tiro que atingiu em cheio a perna direita da Catarina, do joelho para baixo. Catarina estava na pia preparando almoço. A tragicidade do fato, acabou sumindo com a parte inferior da perna, do joelho par baixo, destroçada pelo chumbo. Sobraria, assim, a partir da amputação dos fiapos sobrantes, tão somente a possibilidade de andar de muletas. O noivo, não assumiu seu pacto, e deixou Catarina de lado, ignorando todo seu sofrimento.

A dupla perda, da perna e do noivo, não tirou o rumo da vida de Catarina, mas, ela não quis mais saber da possibilidade de se casar, e, ser, eventualmente, mais uma vez, deixada de lado, em algum momento da vida. Como era muito estimada na comunidade, um marceneiro foi solidário com Catarina, e fez uma perna mecânica de madeira, mesmo um tanto rústica, mas, que permitiu substituir a parte que o tiro de espingarda fez sumir.

Não era ainda uma perna mecânica como essas modernas da atualidade, mas, ajudava Catarina a locomover-se. A casa de Catarina, que seria para a vida partilhada, virou casa de costura. Todo dia, ia e vinha alguém, ou para trazer roupa, ou para experimentá-la, ou para leva-la. Catarina também era muita agraciada com frutas, linguiças e outros alimentos, embora, produzisse fartura e, também a partilhava. Assim, a casa de Catarina virou símbolo de cordialidade.

            A casa pequena da tia Catarina, de madeira, escondia até a cor da pintura, de tanta lata de tinta, transformada em vaso, que ficava pendurada na parede, com flores. Também tinha muita flor pendurada nos galhos das árvores. Com isso, a casa sequer era visualizada, a partir da estrada, pois, ficava no meio deste jardim maravilhoso. A sala de estar virou sala de costura e de tão abarrotada que ficava com tecido para todo lado, só dava espaço, para no máximo três pessoas ficarem sentadas naquele espaço estrito. Catarina ficava sempre sentada atrás da sua máquina. A porta da sala, sempre aberta, ajudava a reduzir andanças para lá e para cá a fim de abri-la e fechá-la.

Tia Catarina tinha peculiaridades fantásticas. Costureira, durante uns sessenta anos, costurava praticamente toda a roupa da comunidade: calças, camisas, casacos, vestidos, saias e roupas íntimas. Além de ser costureira, constituía a central de informações e sabia de qualquer fato e de toda fofoca da comunidade. No entanto, não era daquelas fofoqueiras vulgares e chatas. Serena, calma, sempre sorridente, sabia falar sobre o mundo das conversas daquele povoado: envolvia doenças, nascimentos, fiascos e casos hilários, colheitas, frustrações de safra e todo aquele mundo romântico dos jovens iniciando namoros.

Apesar da sua limitação física, Catarina cultivava flores, muita verdura na horta, tinha vaca de leite e criava, normalmente, dois porcos. Assim que engordava um porco, vendia-o e recebia um leitão pequeno, doado por alguém. Criava, também, galinhas e, como o arvoredo, com imensa quantidade de flores, abrigava pássaros de todo tipo, assim, também o sótão da casa, abrigava muitos gambás e ratos. A horta produzia, além de verduras e legumes, até pinhão, pois, no meio da horta, subia aos elevados ares, um altaneiro e imponente pinheiro.

O mundo das flores era peculiar: não existia comércio de flores em São João, mas, estas eram entregues, gratuitamente, e, com senso cordial, pois, assim como alguém recebia mudas de flores e de arbustos, também sentia satisfação em poder dar mudas a outras pessoas. Desta forma, as plantas ativavam um vasto mundo simbólico, porquanto cada planta ou flor, lembrava a pessoa que a havia doado. Nisto, as mentes se povoavam com a alegria do jardim devido às boas memórias das pessoas generosas.

O pequeno espaço de capim, para alimentação da vaca, era complementado com as sobras da horta, mas, Catarina também arrendou um outro pedaço de chão, ao lado do seu lote, onde plantava milho, arroz, mandioca e feijão. Não era muito, mas, o suficiente para o consumo doméstico. Meio de arrasto, com aquela pesada perna de pau, descansava das costuras e ia mexer, durante uma hora, na terra.

Chegar à casa da tia Catarina, era o símbolo da entrada no paraíso terrestre. Além da beleza extraordinária das flores, Catarina era muito acolhedora, simpática e fazia os agrados que a mãe não podia fazer. Dava umas balas. De repente ia cortar um pedaço de salame. Sem demora, se inventava a fazer um mate-doce, daqueles muito especiais.

Ajeitava a cuia, ia na janela, recolhia a erva seca do chimarrão anterior, ajeitava na cuia e, então, ia ao pote de erva e colocava um pouco de erva nova em cima daquela erva secada e lavada pelo uso. Arrumava o pote de açúcar, metia uma boa colherada de açúcar na cuia e depois a água quente.

Depois de tomados uns três goles, já começava uma movimentação peristáltica, e se tinha que correr, atropelando flores, para chegar, em tempo, na “capunga” (casinha feita para fazer as necessidades fisiológicas), a fim de proceder uma ruidosa evacuação. O pior, era a posterior sequela da desconfortável cólica intestinal.

No retorno, disfarçava-se a dor de barriga e se agradecia pelo mate. Sem demora, a tia Catarina se metia a fazer bolinhos de batatinha, especiaria da culinária de São João. Ralava batatinhas grossas, misturava com sal, ovos, leite e mais alguns temperos.

 A banha da frigideira, normalmente rançosa, usada para muitas frituras, deixava um cheiro meio estranho, mas, aqueles bolinhos, angelicais e bons de serem deglutidos, agregavam, impreterivelmente, outra bagunça no estômago e, dentro de alguns minutos, tornava-se inevitável mais uma corrida frenética e disparada, até a dita “capunga”, para efetuar a limpeza do pouco que ainda permanecia nas entranhas.

Tia Catarina insistia para comer mais bolinhos, e, mesmo com a boca salivando, dizia-se que a barriga já estava estufada de cheia. Nem se passava muito tempo, e a tia já oferecia bolachas, de repente um pequeno chocolate e assim ia aquela bajulação com muitos agrados.

O que nunca se conseguiu ver, era como a tia afirmava aquela perna mecânica na sua perna para poder caminhar. Dizia-se que era um ritual demorado de amarrar muitos panos, para evitar fricção do couro da perna com a madeira. Entretanto, a perna funcionava, ao lado da outra, por longas horas diárias, para movimentar a máquina de costura.

Pernoitar na casa da tia Catarina, oferecia um cenário para muitas alucinações. Era corrida de rato sobre o forro e, também, o caminhar pesado e lento de enormes gambás. Para a tia, eram bichinhos queridos que não faziam mal algum. Ela nem percebia que, de vez em quando, na abertura do forro pelo qual o cano da chaminé do fogão a lenha subia, uma meia dúzia de gambás ficava espreitando sobre o que acontecia na cozinha, mas, também, alguns gambás, mais espertos, desciam um pouco, até o varal das linguiças e charques, pendurados acima do fogão, e recolhiam algumas pernas de salame.

A tia Catarina nem se importava e dizia que eles também precisam alimentar-se e olhavam com tanta simpatia, que bem mereciam alguma comida saborosa.

 

 

2

 CANHOTO AZARADO

 

Ao nascer, escapou-se por um triz, pois, estava atravessado no útero da mãe, na hora do parto e, como foi tirado pela força braçal, ao, finalmente, desvencilhar-se da prisão do sufoco, foi considerado morto, por algumas horas, porquanto a parteira e as vizinhas quiseram salvar sua mãe.

Mesmo sem aparentes sinais vitais, uma tia, ao colocar sua mão sobre o seu peito, constatou que seu coração ainda batia. Foi, então, que começaram a lhe dar atenção. Cresceu sem maiores sequelas e, aos poucos, perceberam que ele era canhoto. Normal como tantos outros canhotos, passou a primeira infância como canhoto, sem maiores dificuldades.

Quando, aos sete anos começou a ir na escola, teve uma surpresa: o professor, ao constatar que ele escrevia com a mão esquerda, auferiu-lhe séria e severa admoestação. Naquele tempo, os pais tinham que ensinar os filhos a escrever, antes de irem à escola. Como aquele menino não se ajeitava para escrever com a mão direita, começou a levar varadas de marmelo nas costas. Junto com a surra, tinha que ouvir, que, tudo o que é esquerdo, é do diabo.

Talvez por inconsciente resistência, um dia, ao cortar uma batata doce para fazer lavagem de porco, descuidou-se na direção do facão, e cortou, junto com uma lasca de batata, a primeira vértebra do dedo polegar direito. Levado ao médico, este estava turbinado por cachaça, na hora de tirar a atadura, arrancou de vez a parte cortada. Longo e demorado processo, fez crescer parte desta vértebra, mas, torta e sem osso. Foi, assim, tolerado, por um ano, para escrever com a mão esquerda. Quando o polegar direito, ficou revestido de pele e com duas unhas tortas, foi obrigado a escrever com a mão direita.

Ao participar das celebrações religiosas, enfrentou outro conflito em relação ao sinal da cruz: para ele, o certo era faze-lo com a mão esquerda. Um velho carrancudo que o observava, ia até ele, e o erguia no puxão de orelha a fim de aprender, para sempre, que sinal da cruz de faz somente com a mão direita.

 Afinal, mudaria alguma coisa neste mundo, se fosse feita com a mão esquerda? Era a ditadura dos estereótipos. O mesmo ocorria em relação à genuflexão: ele dobrava a perna esquerda. Não podia ser assim, pois, tinha que dobrar a direita.

Parece que tal rigidez, afetou até o seu olhar: de tanta censura, para ser tudo da direita, criou mais simpatia pelo que provinha da esquerda física. Afinal, só sabia chutar bola com a perna esquerda, - e chutava forte - porque, com a direita, seu chute era considerado chute de menina. Hoje, não seria mais possível fazer esta comparação, mas, naqueles tempos, meninas não jogavam bola, e dizer que um chute era de menina, equivalia a dizer, zero pela direita.

Para bater prego, para erguer peso, segurar bezerros no laço, atirar pedra, enfim, tudo tinha que ser com a mão esquerda, menos o escrever.

Passada a ofensiva mais truculenta para deixar de escrever com a mão esquerda, e já conformado em escrever com a mão direita, emergiu mais um dilema: começou a querer ser padre. A contrariedade veio do catequista que dizia: para alguém ser padre, não podia ter nenhum defeito nos dedos polegares e indicativos. Mais um peso de consciência, pois, o seu dedo polegar direito, fornecia os argumentos suficientes para que fosse dispensado da chance de ser padre. É que, naqueles tempos, o padre rezava a missa inteira com estes dedos unidos, o que, atualmente, seria um gesto obsceno.

Abriu-se, então, um segundo dilema: queria ser padre, com o dedo polegar defeituoso, e, para não ser dispensado do sonho, ficava sempre com a mão direita no bolso. Também ali, tudo era complicado, pois, era proibido andar de mão no bolso. Dizia-se que a mão poderia gostar de ficar muito perto de uma área altamente perigosa. Ele achou uma saída: por onde andasse, tinha o terço no bolso direito da calça.

 Quando era interpelado por andar com a mão no bolso, puxava o terço e dizia que estava rezando, mas, não estava rezando coisa nenhuma. Escapou-se de ser dispensado da condição de ser padre, foi ordenado, e, dias depois, ocorreu o que não podia imaginar: correndo atrás da bola, girou o corpo sobre o joelho direito e rompeu os ligamentos, a tal ponto, que o joelho era dobrável para qualquer lado.

 Como não firmava a perna, caía a toda hora, e teve que submeter-se a seis intervenções cirúrgicas, para conseguir caminhar para o estrito necessário. As múltiplas cirurgias desalinharam seu pé, e, no simples ato de caminhar na sala de estar, quebrou o osso que leva ao segundo dedo do pé. Precisou submeter-se a mais uma cirurgia, a sétima, para implantes de platina. Assim, limitado, ainda mais, pelo lado direito, acabou enfunado como professor de Filosofia.

Surgiu, numa certa altura da vida limitada para muita andança, o encantamento por tocar violão. Havia, porém, um problema complicado: o dedo polegar direito não se prestava para bater nas cordas, nem com dedal e nem de outra forma. Restou ainda uma alternativa: inverter as cordas, só que isso implicava em ter um violão exclusivo para si. Foi poupando pequenas quantias na poupança, até que conseguiu comprar um violão para si, e que por sinal, imprestável aos outros, que não eram canhotos como ele. Não virou um renomado violonista, mas, conseguia acompanhar as cantarias de Igreja e de festinhas, nas quais se costumava cantar durante horas a fio. Quando tudo ia tranquilo, ladrões entraram na residência e roubaram seu violão: mais uma sina contra o canhoto. Presumidamente, foi ladrão de direita e ele desistiu de ser violeiro.

Mesmo sem ser esquerdista e nem marxista, pelo simples fato de lecionar Filosofia, viveu sendo acusado como sujeito comunista. Era aquele ódio por tudo quando vinha sendo identificado como sendo de esquerda. Seu velho padrinho, educado como tanta outra gente, dava-lhe insistentes conselhos para evitar esta diabólica atração pela esquerda e falava dos horrores hediondos dos comunistas.

Dizia aquelas abobrinhas, muito veiculadas, de que comunistas tiravam a terra, os animais, comiam criancinhas, estupravam, e, somente faziam coisas do diabo. Até colegas davam a entender que ele era um canhoto comunista. Mesmo que tenha lido e estudado todos os autores como Engel, Hegel, Marx, Feuerbach, Gramschi, Althusser, Nietsche e tantos outros, sempre os leu numa perspectiva crítica. O razoável conhecimento relativo a tais pensadores, constituía razão suficiente para ser rotulado de esquerdista.

Embora ser canhoto, não representasse necessário sintoma e evidência de ser comunista, a pecha o fez sofrer acusações de ser esquerdista, seja como defensor da Filosofia da Libertação, ou, por não enfatizar e ratificar a visão clericalista, ultraconservadora, e fanática por posturas políticas de extrema direita.

Afinal, se o nariz estabelecido entre os dois olhos, já delineia que o olhar de bom foco, precisa do olho direito, tanto quanto o do esquerdo, todo este fanatismo por apenas um olho, além de um olhar caolho e vesgo, fazia enxergar, apenas, uma parte da dialética da complementariedade: um olhar bom e perspicaz, precisa ser simultaneamente esquerdo e direito. Talvez indique até algo precioso para o campo da política e concepção religiosa.

 

3

CHEIRADOR DE ROLHA

 

O professor universitário, doutor em Educação, chamado José Bingolim, apresentava-se no perfil nobre da erudição francesa. Andava, um dia como outro, de terno e gravata e se destacava, mais pela pose, do que pela sabedoria. Como tanta outra gente, que mistura seu ego com o status, ele era perito em falar, não dos temas candentes e inquietantes da educação, mas, precipuamente, dos vinhos franceses.

Descendente de italianos que migraram ao sul do Brasil, cresceu naquele clima de famílias numerosas, com muita polenta, queijo, vinho e salame. De estatura média, mas, robusta e bem alargada, fazia da sua fala uma tergiversação degringolada. Como esteve algumas vezes na França, e fez cursinho, por correspondência, sobre como tomar vinhos nobres, conseguia falar, horas a fio, sobre os modos de se tomar vinho, sobre os tipos de taças, sobre as condições de manutenção das garrafas nos altarezinhos da adoração do deus Priapo, sobre o como fazer este vinho circular por todo o ambiente da boca, para, enfim, deixa-lo deslizar, suavemente, no penhasco da garganta, e pousar, com elegância, no meio daquele brejo pantanoso do estômago.

Chatíssimo na sua enlevação para ensinar como tomar vinho, constituía-se, realmente, em professor catedrático de afirmações eruditas, com descrições minuciosas, e, com largas minudências e brogúncias, a respeito de vinhos, sobretudo, os franceses.

Bingolim ostentava uma colorida variedade de garrafas na parede da sala de estar da sua casa. No destaque daquela prateleira, ficava um pote de vidro, enorme, de cerca de cinquenta centímetros de altura, praticamente cheio de rolhas cheiradas e guardadas para ativar a memória dos tipos de excelsos e nobres vinhos já ingeridos depois dos ditos “buquês” e desassidificação naqueles giros do vinho dentro da taça, antes de aproximá-lo da boca, suspirante e sedenta por aquele líquido precioso.

De vez em quando, em seus arroubos, nada deletérios, para coçar seu próprio ego, convidava um e outro colega para um jantar. Um destes colegas foi o professor Pedro Kretz. O sobrenome já indicava um pouco do seu perfil, pois, Kretz, em alemão, significa sarna, -  para os pobres; - e, para os ricos, aquela bonita doença chamada de escabiose.

Com características de irritação cutânea por ter que suportar algumas horas de jactância sobre vinhos e como tomá-los, Pedro tinha uma desculpa de que não tomava vinho, nem francês, nem grego ou chinês e, nem mesmo, o falado vinho alemão “Jungfraumilch” (traduzido, leite de jovem senhora), e, menos ainda, estes vinhos de garrafão, vendidos nos armazéns e supermercados como “Sangue de Boi”, “Chapinha”, “Campo Largo” e outros similares. Argumentava que bebia apenas alguma latinha de cerveja Heineken, no bico, sem sequer usar copo. Era, evidentemente, uma ironia contra o nobre professor e degustador de vinhos.

Jantar ao lado do professor José Bingolim (“Bingolim” também significa a bochinha fina, ou balim, usada nos jogos de bocha, esporte preferido dos descendentes italianos), proporcionava impreterível movimentação peristáltica.

Um dia, o professor formulou mais um convite para que José Kretz fosse jantar em sua casa. A esposa do Bingolim, gentil e discreta, tinha que ser assim mesmo, pois, ante as falas ininterruptas do marido, deve ter aprendido a ficar calada. Desta vez, porém, veio o que faltava para a conversa ser exclusivamente sobre vinhos franceses.

 Tratou-se da presença da doutora Margarete, filha de gente modesta, que lutou muito para custear sua Faculdade de Medicina, mas, ela, como médica, e auto-proclamada doutora, já não se ocupava mais com as conversas do senso comum e dos ambientes da vila de onde saiu. Era destas mulheres falantes e faladeiras, tanto quanto o professor Bingolim, para abordar o tema preferido e imprescindível da conversa: vinhos.

Enquanto a esposa do professor Bingolim arrumava a mesa com aquelas pilhas de pratos, e enchendo o espaço disponível com taças, guardanapos, talheres e outros apetrechos, o professor mostrava seus equipamentos para servir vinho, a fim de não permitir que alguma gota de vinho deslizasse pelo bico da garrafa e fosse parar na toalha branca da mesa e, sobre o como colocar o dedo fura-bolo, naquele buraco arredondado no fundo da garrafa, na hora de servir o vinho. Até para isso, precisava ser seguido um ritual de etiqueta sofisticada.

No meio da conversa fechada com a médica Margarete, Bingolim foi pegar uma garrafa de vinho, colocou-a sobre a mesinha especial, entre os sofás, foi buscar a caixa dos apetrechos para abrir a garrafa, e, - o que mais incomodou José Kretz, - foi que Bingolim, assim que extraiu a rolha do bico da garrafa, cheirou-a demoradamente e fez os visitantes também cheirá-la. Foi, então, que iniciou a palestra magna sobre o cheirar a rolha. Aquela ritualização solene, de cheirar, ficar com o nariz no rumo da lua, inebriar-se com os eflúvios daquele néctar dos deuses, tornava-se, entretanto, altamente animalesco para o José Kretz.

Afinal, ele, quando era menino, observava um ritual tão parecido com os touros e carneiros, que, cheirando a saída urinária das fêmeas, ficavam com o nariz erguido na direção da lua. O ato consistia, certamente, no tempo necessário para que aquelas inalações chegassem, através de seletos neurônios, até o cérebro para lhe dizer que deliberasse uma ordem ao corpo: pode inebriar-se à exaustão com tais hormônios de pura felicidade.

A médica conseguiu furar o monólogo da conversa do professor Bingolim, e enveredou sua grandiloquência sobre vinhos franceses, que ela apreciava muito. Era “Chateaux” disso e “Chateaux” daquilo, como “Chateaux de la Cave”, “Chandon”, que o silenciado José Kretz desejava, também, entrar na conversa, para dizer que já tinha tomado “Vino de Riocha”, da Espanha e, Casilla del Diablo, do Chile. Como não conseguiu furar a esotérica e mística enlevação dos dois, depois de cheirar a rolha, ele não aguentou mais aquela conversa interminável sobre vinho francês e rolha, levantou-se e falou para os dois: eu apenas aprecio um único vinho francês. É o vinho “Chatô de Shaco Cheio”. Levantou-se e foi embora, antes do jantar. Para seu alívio, nunca mais foi convidado.

 

4

 SACO DO REQUEIJÃO

 

O saco do requeijão requer uma hermenêutica complicada para que se possa entender o seu significado. A dificuldade envolve as duas palavras, devido à polissemia dos seus significados. Além das conotações, envolvem metalinguagens, e ainda, alguns sentidos de entrelinhas não escritas, ou seja, não é sempre bem aquilo que se diz com a palavra.

Começando pela palavra “saco”, o seu significado requer uma enciclopédia mental para constatar o que a utilização da palavra realmente quis expressar e, ainda mais: as palavras acrescidas, complicam com, elevados graus, a clareza do significado, como “saco cheio” ou “saco vazio”; saco, em sentido figurado ou conotativo; saco, como estado afetivo-emocional; saco, limpo ou sujo; saco plástico ou de couro; saco de pano ou de lona; saco “beg” ou saquinho de sal; saco, furado ou bem costurado; e assim vai...

Na fala com entrelinhas, fala-se em cair o saco, em saco da mulher, em puxa-saco, em dizer que algo é um saco; em saco cheio e, em muito outro enleio. Assim, ao se dizer que Fulano está coçando o saco, pode a expressão significar que está ansioso, numa expectativa, que está com tédio, sem saber o que fazer, ou até por fatores de hábito cultural, para dar a entender que quer ser visto como sujeito muito macho, barbaridade tchê!

A toda hora, nem apelação ao VAR consegue clarear o significado de “cair o saco”: em primeiro lugar, qual; depois, porquê?; e, ainda, de onde que caiu. Afinal, era um saco de garupa, como dizem os gaúchos? E se foi saco de garupa, era de lona, de pano, ou de couro? Ademais, estava sobre o cavalo encilhado, ou nos ombros do vivente, carregando algum produto para casa? Ou seria, enfim, algum processo fisiológico do peso dos fragmentos seminais de homem chato e impertinente?

Entretanto, o que mais requer hermenêuticas, é a expressão “saco cheio”, que pode ser referência de metáfora para expressar saturação e sobrecarga de atividades desgastantes, ou, apenas referir-se a saco de milho, de café, de soja, ou de feijão, ou de açúcar, embora, também possa estar no foco, algum outro sentido figurado ou simbólico.

Para que este assunto também não vire um saco, convém enveredar-se para a palavra “requeijão”. Basicamente resulta do leite coagulado naturalmente, ou por coagulação ácida ou enzimática. Desta massa, chamada de coalhada, processa-se o queijo fundido, - cozido ou não, - mas, acrescido de grande variedade de aditivos, como gorduras saturadas, óleo de manteiga, sódio, e, mais alguns produtos que, finalmente, o deixam irresistível: a condição de ser cremoso.

Se é cremoso, produz na fantasia, aquela magia de algo suave e pastoso, e, com isso, remete a outro significado: ser carinhoso, fofo, meloso e muito gostoso. Em sua essência, a palavra “cremoso”, remete a significados polissêmicos do campo da paixão humana: a propriedade de ser viscoso, pastoso, liso, fácil e substancioso.

Feito este preâmbulo, pode-se, então, chegar a mais um significado de “saco de requeijão”. Enquanto que na cultura de influência italiana, era normal o consumo de muito queijo, com polenta, salame, “radiche” (Almeirão) e tantas outras iguarias apreciáveis, entre os descendentes alemães, demorou a se assimilar o consumo de queijo, mas, era cotidiano o consumo de requeijão. Com técnica menos refinada do que o requeijão das atuais indústrias de laticínios, deixava-se o leite numa vasilha aberta e exposta, em algum lugar, a fim de que virasse coalhada. Entrava, então, o outro elemento: o saco.

Na verdade, era habitual a utilização dos sacos de sal, que continham cerca de vinte quilos deste produto. Ao serem esvaziados, estes sacos eram lavados e alvejados, e, então, passavam a ter a função de separar o soro do leite coalhado. Geralmente pendurados no lado de fora, da janela da cozinha, e para fácil acesso, quando o soro havia se sumido do saco, a massa era recolhida, amassada com garfo, acrescida de nata e sal, e constituía, assim, o famoso requeijão. Este, era passado no pão de milho: primeiro vinha uma camada de “Schmier” (doce de frutas com melado de cana ou açúcar), depois, a camada de requeijão e, por cima desta camada, mais um pouco de nata para que esta cobertura, como o merengue das tortas, deixasse a fatia de pão bonita e atraente.

Atualmente as indústrias de laticínios fabricam algo similar ao requeijão, como o Quaker ou queijo frescal e nata, mas, nenhum destes produtos, isolados ou misturados, chega ao sabor do requeijão caseiro, junto com pão de milho. No lugar da cremosidade, pastosidade, suavidade, lisura, e frescura do requeijão atual, o requeijão caseiro ainda não tinha absorvido a dimensão carinhosa, melosa e com jeito dengoso.

Segundo a hermenêutica de um amigo, a cremosidade estaria sendo a grande causa dos desvios de conduta e da perda da identidade de masculino e feminino. Talvez não seja, mas, a palavra cremosa é altamente hipnótica para induzir ao consumo. Afirmar que um sorvete é cremoso, que um picolé é super-cremoso, que o requeijão e tanto outro produto, como o café, é macio e cremoso, constitui a mais efetiva e sedutora publicidade para seu consumo.

Aquele saquinho, que uma vez era para conter o sal, na qualidade de filtro separador do soro do leite da coalhada, não ficava muito ausente das conversas cotidianas, mais antigas, em ambientes de descendência alemã: muito complicado para ser lavado, devido à absorção da gordura do leite, constituía o símbolo do cheiro azedo do soro, e do mau-humor. Nada ficava mais hilário quando alguém contava a história de mulher que tinha batido este saco de requeijão na cabeça do marido. Era sua arma e o símbolo máximo do empoderamento de mulher, diante do marido machão ou bêbado.

Alguém vir a ser gozado de que levou o saco de requeijão na orelha, constituía a mesma coisa do que lhe dizer: enfim, caiu o saco! Você, agora, está com a natureza máscula escafedida.

 

5

CALÇÃO LITÚRGICO

 

Nos idos tempos do início da década de 1960, vivia-se na Igreja Católica a influência marcante e determinista do Concílio de Trento para seminaristas que quisessem ser padres. Os neurônios cerebrais, naqueles tempos, nem tinham sido ativados e informados a respeito do que poderia ser o uso de calção, menos ainda, de sunga. Eles, certamente, nem sabiam identificar estas normativas da moda.

No seminário de Maravilha, SC, situado no topo mais elevado da cidade – que na verdade, era mais uma vila perdida no meio do mar ondulado de Araucárias, - se a moda da época já apresentava algumas diretrizes a respeito do como se vestir, neste seminário, não se admitia nem mesmo o uso de calça curta. Calça comprida, era a regra oficial, quer para estar na sala de aula, quer para os momentos de lazer ou de jogar futebol.

Havia uma exceção, muito especial, para o banho coletivo, num açude localizado dentro do mato. Atravessava-se a pequena cidade, e lá, no outro lado, bem isolado por mato, - a cerca de três quilômetros de distância do seminário, - tomava-se o banho com uso de calção que tinha que encobrir os joelhos. E, com um detalhe: não se podia ir até o açude de calção. Ia-se de calça comprida, atravessando o centro da cidade, e, lá no mato, um se escondendo do outro, atrás de alguma árvore, trocava a calça pelo calção de banho. Nem se admitia pensar na hipótese de sair do açude e voltar para casa com calção molhado no corpo. O simples fato de trocar a roupa no mato, acabava deixando tanto o calção quanto a calça embarrada e suja. Mas era a condição.

Passado um tempo, em outro seminário, em Santo Ângelo, RS, já se podia vestir o calção de banho e correr até um enorme açude a uns quinhentos metros de distância, e, guarnecido por mata fechada. Com frio ou calor, neve, geada ou chuva, todos tinham que tomar banho diário naquele açude. Nem se sonhava com chuveiro, e ainda mais, chuveiro aquecido. Voltava-se do açude em corrida, ainda mais, no frio do inverno gelado, e corria-se até o dormitório, com o calção, já sem escorrer água pelas pernas, e se vestia outro calção e calça comprida. Nem era imaginável o uso de cueca de microfibra, elastina e desta microscópica pequenez de tamanho, como a das cuecas dos dias atuais. Tudo era feito à base de tecido de algodão.

De tanto pressionar o diretor do seminário para jogar futebol, do jeito da seleção brasileira e do grenal (Grêmio X Internacional), com um calção, como eles os vestiam, seria um status fora do comum. Depois de anos de insistência, eis, que o diretor liberou o uso de calção para os jogos de futebol, mas, estritamente, para o tempo do jogo em campo. No entanto, ainda não havia chegado o tempo evolutivo do uso de calção curto e apertado como os daqueles jogadores afamados, quase perceptíveis naqueles incipientes televisores que transmitiam jogos em preto e branco. Isto, quando não chovia, pois, se chovesse, sumia a imagem. Os calções, obrigatoriamente, tinham que cobrir as pernas, até os joelhos.

Se a liberação foi uma grande conquista, havia, no entanto, um resquício de insatisfação e de incompletude nos anseios de poder usar calção que não fosse tão comprido. Imediatamente, este calção comprido, foi batizado de “calção litúrgico”, e muito se falava de que este tipo de calção era radicalmente distinto dos calções vestidos pelos demais meninos, quer nas ruas, nos jogos e até para ir à escola. Eles praticavam economia muito maior em relação à roupa desnecessária do que a dos seminaristas, e, só se via menino com calção curto e apertado.

Sob o conceito de calção litúrgico, passaram-se mais uns anos e os seminaristas, já maiores, ao jogarem contra outros times de futebol, enfrentavam uma gozação fora do comum, com aqueles calções litúrgicos. As meninas e moças, então, tiravam o maior sarro. Razão para mais uma campanha em favor de calção normal, até comprável em lojas de tecidos, para serem mais parecidos com o comum dos mortais na veste, eis que o esmerado empenho levou a bom resultado: os seminaristas foram liberados para usarem calções curtos como os de outros jogadores, mas, com uma condição, não daqueles apertados de mostrar o volume dos documentos.

Por ironia das contrariedades, quando os seminaristas, finalmente, puderam vestir calção não litúrgico, entrou a moda do bermudão. Foi, então, que começaram a aparecer jogadores com calções até os joelhos, folgados como bombachas de gaúchos, e os seminaristas, outra vez, se viram deslocados diante dos ditames da moda.

 

6

HANS DO DESBROCHAMENTO

 

Hans von Kleiderschrank, já vovô, com setenta e quatro anos de idade, desfrutando da convivência da esposa, e, com muitos netos, que, todo dia chegam à sua casa, é um velho trabalhador de mecânica pesada, em sua própria oficina, e permanece muito tempo ereto para os seus serviços. Com isso, a circulação já perdendo a capacidade de fluir intensa e rapidamente nas veias, causou varizes nas partes baixas das pernas, ou seja, dos calcanhares para cima.

Seu Hans foi ao consultório médico para ver o que o médico angiologista poderia ajudar, a fim de diminuir as dores nas pernas, depois de longas horas de lida diária na oficina. O médico olhou bem as varizes e falou que eram periféricas e que poderia resolver a dificuldade, sem maiores problemas. Com uma simples cirurgia ambulatorial iria extrair as varizes e seu Hans teria que ficar alguns dias de pernas para o ar.

Na extração das varizes, tudo correu sem maiores imprevistos. Hans seguiu as recomendações, mas, depois de alguns dias, percebeu que tinha desaparecido sua virilidade máscula. A conclusão foi imediata: só pode ter sido um erro do médico angiologista! Afinal, antes da cirurgia, tudo estava em pleno e bom funcionamento.

Como seu Hans era um gênio prático, sem maiores estudos acadêmicos, matutou a respeito deste imprevisto, - decorrente da cirurgia, - e deduziu que o médico deve ter cortado alguma outra veia, ao lado das varizes, que, ainda saudável, abastecia o membro viril.

 Começou a queixar-se com seus amigos de que o médico tinha lhe cortado a veia responsável pela sua virilidade. Falava em processar o médico, pois, sem funcionamento, para que ter aquele treco pendurado entre as pernas. Foi falando, ouvindo conselhos, e acabou se definindo por não fazer nada de vingança contra o médico, mas, foi-lhe apresentado outro caminho de solução. A pessoa mais sugerida e indicada, foi a dona “Nêli”, conhecida como vidente, benzedeira e curandeira, residente no balneário de Pratas, pertinho da cidade de São Carlos, entre a rodovia que vai a Palmitos e o Rio Uruguai.

Dona “Nêli” era conhecida como aquela que recuperava o que os médicos e remédios de farmácias não conseguiam recuperar, porque ela, misturando as três tecnologias favoráveis à saúde, era insuperável.

Seu Hans foi lá na casa da “Nêli” e lhe narrou o acontecido a partir da cirurgia das varizes. Ela, muita esperta, reforçou a suspeita do Hans, para reafirmar que realmente, sua potencialidade viril estava escafedida, porque o médico teria cortado precisamente a veia que levava sangue para o membro viril poder ficar ereto. Ela assegurou que tinha um tipo de xarope específico, para religar o sangue, a partir de outra veia, e que alimentaria novamente o dito brochado.

Hans foi para casa, animado, tomou, suspirante, aqueles goles de xarope, pontualmente, como dona “Nêli” tinha lhe prescrito, mas, o efeito deve ter se deslocado para algum outro desvio. Surgiu, então, o dilema: se a “Nêli não conseguiu resolver o problema, o campo terapêutico, estava descartado; sobraria apenas a Hans conformar-se com o “brochamento”?

Determinado e teimoso como era, não aceitou a limitação física, e como se achava entendido em chás e ervas medicinais, mais do que os outros, resolveu partir para os testes de ensaio e erro de um viagra caseiro: começou a misturar, gengibre, canela, noz moscada, cravo, e mais alguns outros ingredientes, e sentiu, rapidamente, o efeito reparador. Seu viagra caseiro, altamente superior ao viagra vendido nas farmácias, estava produzindo um efeito animador e gratificante. Fez seu processo brochante, determinista para a fatalidade, dar uma guinada de 360 graus, e ele passou a sentir-se viril como em décadas anteriores.

A única situação inusitada, - que Hans não esperava, - foi a constatação de que sua esposa estava fraca demais para suportar seu ativo desempenho sexual.

Estava ali uma prova contundente contra todas as prospecções brochantes, pois, Hans conseguiu formular, para si mesmo, um “desbrochante”.

 

7

O VOVÔ DORMINHOCO

 

            Ainda não muito avançado na idade, vovô Artur, resolveu parar com trabalho ao se aposentar. Era um daqueles que projetou a aposentadoria como tempo para não fazer mais nada. Levantava tarde, e quando não ocorria insistência explicita para trocar o pijama por outra roupa, passava o dia inteiro de pijama e achava bom.

Virou homem do sofá e da cadeira de balanço. Como era diabético e, como funcionário aposentado do Banco do Brasil, sempre teve vida estressante, resolveu virar um caseiro mórbido. Além de assistir TV, gostava de ler jornal, sentado comodamente na cadeira de balanço. Volta e meia pegava no sono, mas quando acordava, tinha um entretenimento especial: passar horas com o netinho Pedro.

Pedro era apaixonado pelo vô Artur. Na sintonia e simbiose de comunhão, o pequeno menino fazia acrobacias das mais estranhas no colo do vô. Tirava seus óculos, bagunçava seus cabelos e fazia de tudo para receber muita apreciação elogiosa. Certo dia, o velho adormeceu enquanto lia jornal, e o menino, curioso, mexerico, bagunçava a sala inteira. Sua mãe estava em outras lidas, pois, sabia que o vô cuidava muito bem do netinho.

No entanto, enquanto Artur cochilava, o nenê encheu a fralda e foi andando de um lada para outro. Talvez devido ao desconforto meteu a mão para dentro da fralda e a deixou suja de cocô. Queria ajuda do velho, mas o velho estava dormindo. Subiu no colo dele, mexeu e futricou para todo lado, e acabou passando a mão suja de cocô no bigode do velho.

Artur, quando se acordou, já não viu o nenê, - pois a mãe o levara para a devida limpeza, - sentiu um estranho cheiro de cocô. Desconfiou que deveria ter acontecido alguma incontinência e foi rápido para o banheiro. Baixou as calças e fez uma criteriosa observação, mas, constatou que estava tudo na melhor assepsia, uma vez que tinha tomado banho caprichado ao levantar. Voltou para a sala, e continuou a sentir o mesmo cheiro. Foi, então para a janela, abriu-a, e, de fora, vinha o mesmíssimo cheiro desagradável. Inquieto, foi para o outro lado da sala e abriu a porta. Saiu, e nada havia esvanecido aquele estranho odor de cocô. Foi mais uma vez numa segunda janela, e, o ar que ali inalava, era ar todo fedido de cocô humano. Foi então para a cozinha e falou enfaticamente para sua esposa: mulher, deixa dizer-lhe uma coisa muito grave: Andaram fazendo cocô no mundo!

Um bigode de velho pode enganar as certeiras interpretações do olfato e desviar a hermenêutica interpretativa dos acontecimentos.

 

 

8

FESTA DE ÍNDIO

 

            Os índios Bakairi, com cerca de mil e poucos membros estabelecidos nos municípios de Paranatinga, Planalto da Serra e Nobres, no Mato Grosso, são muito cordiais e festivos. São muito elogiados pelos fazendeiros e agricultores da região, devido ao desvelo na lida de máquinas agrícolas. Cuidadosos no plantio e na colheita, dizia-se também, que eram muito mais zelosos do que outros peões nas lidas com as máquinas.

            Os Bakairi da Aldeia de Nobres, quando anunciavam uma festa e matavam um ou dois bois para serem assados, convidavam todos quantos quisessem chegar para a festa.

Não tinha ingresso antecipado, nem taxa de refeição ou ficha para ser comprada e, menos ainda, hora marcada para o fim da festa. Tudo dependia de quantos viessem para a festa. Esta iniciava com os primeiros espetos assados e encerrava quando alguém pegava o último pedaço de carne para comer.

Esta gratuidade parecia algo muito estranho para festas das raças brancas, descendentes de europeus, pois, eram movidas para fazer festa com o fim de obter bons e polpudos lucros. Mesmo que muitos mantimentos fossem doados, cobravam acima do custo normal nas vendas, a fim de que sobrasse mais dinheiro no saldo final da festa. Para eles, uma festa era apreciada pelo lucro obtido, e que, geralmente, era investido em reformas e melhorias no salão das festas. E, sempre faltava algo para ser modificado ou melhorado para permitir que o local fosse atraente e facilitasse a chegada de levas cada vez maiores de pessoas para participar das festas.

Assim, festas, mesmo em homenagem a santos e santas padroeiras, perderam a dimensão antropológica da festa, da gratuidade e, praticamente, se esvaziaram da grandeza da exuberância e do transbordamento, componentes não compráveis e que são decorrência natural da festa. A festa gratuita, como a de surpresa para um aniversariante, requer pouca coisa para produzir exuberância e transbordamento e que, de graça, faz um bem enorme para a vida de quem participa da festa. Infelizmente, um processo histórico levou as festas à imitação dos negócios capitalistas: precisam proporcionar bons e polpudos lucros.

Não importa a embriaguez que causam, os vícios alimentados, nem prejuízo à saúde, nem, tampouco, brigas decorrentes do excesso de bebida com comilança. Festa virou sinônimo de consumo e de excesso. É o momento para empanturrar-se em troca do que se pagou. Como a lei implícita é a de levar vantagem, o retorno da festa é caracterizado pelo mau humor. Em vez do esquecimento das dificuldades e contratempos para intuir que a vida, apesar disso, pode ser melhor do que foi antes, leva a remoer o evento pelo tédio e pela ruminação das mágoas.

A aldeia dos Bakairi, do município de Nobres, faz divisa com a comunidade católica do Pacoval, da paróquia Santa Rita, de Santa Rita do Trivelato, no Mato Grosso.

 Toda vez que esta comunidade do Pacoval organizava uma festa, surgia um desconforto para os organizadores. Apareciam uma ou duas caminhonetes Hilux, empinadas com quinze a vinte índios em cima, para participar da festa. Chegavam alegres e animados, informando que queriam dar um apoio para a festa. Surgia, então, um dilema cruel para os festeiros, pois, para os índios Bakairi, participar da festa com um apoio, significava comer e beber sem pagar um centavo. Para eles, festa sempre é gratuita e, na sua concepção de festa, seria impensável pagar pelo consumo de churrasco e cerveja. Isto já nem seria festa!

Ao especificarem quanto queriam de carne e de cerveja para colaborar na festa, recebiam uma certa quantidade de espetos de churrasco e umas caixas de latinhas de cerveja. Como eram bons de garfo, ao terminarem a ingestão do que haviam recebido, voltavam, numa comitiva, para dizer que queriam dar ainda mais apoio para a festa e pediam repetição da quantia recebida.

O desconforto da proposta de mais apoio, levava os organizadores da festa a informar que não tinham mais nada. A mentira, mal dissuadida, visava não baixar o lucro da festa. Os índios, então, - como a festa tinha terminado, - empinavam ainda mais as caminhonetes com peso ampliado, e voltavam contentes para casa.

 

9

O PODER DA MANDIOCA COZIDA

 

            Certamente nenhum outro tubérculo de uso cotidiano da culinária brasileira se presta para tão variados cardápios alimentares e para tão costumeiros comentários quanto o da mandioca.

Quer seja chamada de aipim, macacheira ou maniveira, a mandioca, da família das euforbiáceas, fornece riqueza de amidos e, seus tubérculos radiculares, geralmente, protuberantes e alongados, prestam-se, mais do que quaisquer outros alimentos, para assunto constante e rotineiro das conversas dos jantares e dos almoços festivos.

Teriam estes tubérculos cozidos, de acordo com os distintos hábitos culturais, ao serem servidos em estado mais amolecido ou duro, algum poder mágico, afrodisíaco e exotérico, capaz de despertar uma linguagem tão ampla de sentido duplo?

Sabe-se que dentre as inúmeras variedades destes tubérculos, algumas são venenosas, umas apresentam coloração esbranquiçada, outras se revestem da cor amarelada e, dependendo das características do solo, umas são mais fibrosas e outras mais polpudas.

Há regiões em que a mandioca fornece variados sub-produtos da alimentação cotidiana e básica. Pode ser da mandioca brava ou da mandioca doce; da mandioca mansa ou da mandioquinha; do quintal ou do mandiocal; da farinha, ou da farofa; da fécula, ou do polvilho; do polvilho doce, ou do polvilho azedo; do amido ou da tapioca; da goma ou da farinha amilácea; da farinha d’água ou do beiju; de beiju moqueca ou membeca;  beijucuruba ou beijuguaçu; ou ainda do líquido fermentado e azedo que  indígenas preparam para inebriar-se e, muitas vezes, embriagar-se nos momentos festivos, ou até mesmo da folha tostada para as misturas polivitamínicas que salvam a vida de crianças e pessoas subnutridas; da mandioca simplesmente cozida na água ou cozida e fritada; da mandioca com sal ou sem sal; e, do bolo de mandioca ou da sua massa como ingrediente básico para maionese na ausência de batatinha inglesa...

Como tantas outras palavras portadoras de sentidos ambíguos, ambivalentes e de significados que somente aparecem nas tênues modalidades de expressão, o uso da palavra mandioca apresenta um status que certamente lhe dá supremacia sobre quaisquer outros tubérculos nos ambientes festivos. Se uns a apreciam ao lado das carnes gordurosas, picantes e bem temperadas, com sal ou sem sal, até não se torna assunto relevante; mas, o que certamente não foge da costumeira conversa é a apreciação do estado físico dos pedaços de tubérculos de mandioca ao serem servidos.

Aí, sim, o assunto é sempre o mesmo: ou porque esta mandioca está dura ou porque está mole. E a digressão da conversa sempre envereda para o dono da mandioca ou para quem a deixou mais sólida, rígida ou amolecida. Curiosamente, não é conversa exclusiva de homens, ou só de mulheres, aliás, será que em algum ambiente festivo este assunto não envolve comentários e muitos olhares que se cruzam e se entrecruzam com certa malícia?

Poder-se-ia, então, concluir que a mandioca, de fato, tem um poder afrodizíaco superior ao do amendoim ou de qualquer outra iguaria das refeições festivas. Este poder, todavia, não resulta tanto da composição química destes multi-utilizáveis tubérculos, mas, da força da persuasão, porque a mandioca é capaz de remeter sempre ao assunto de um outro contexto.

O que estaria a revelar a forte incidência dos significados da mandioca? Seria tal meta-linguagem um sintoma dos desejos eróticos, que se ativam, mais do que em outras circunstâncias, quando misturadas às múltiplas fantasias que se geram nos momentos festivos?  Ou seria uma expressão quase compulsiva das dificuldades que são amargadas no âmago da interioridade e sobre as quais, nem na cama e nem em outros momentos, os casais encontram coragem para explicitá-las?

Pode-se facilmente imaginar que a capacidade de partilhar sentimentos de fracasso diante da mitologização do orgasmo, da potência viril e juvenil, seja masculina ou feminina, é assunto delicado, porque tal partilha pode favorecer que o companheiro ou a companheira usem tal declaração como arma de controle, de cobrança e até mesmo para mapeamento preconceituoso da sua conduta. Facilita a cobrança: “por que você não corresponde”? Desloca-se, assim, o problema pessoal para o suposto problema da outra pessoa.

Neste caso, a partilha poderia inibir cada vez mais o efeito esperado, porque o ato relacional já não estaria se movendo por amor ou paixão, mas, por uma rigorosa cobrança de compromisso de êxito: precisa propiciar muito prazer! O medo de não corresponder à expectativa alheia, leva ao silêncio sobre o assunto. Afinal, poderia alguém falar à vontade à sua “cara-metade” que não consegue orgasmo ou que o obtém precocemente, sem pressupor que, com isso, seja colonizado, espoliado e, até sujeito a ficar relegado, para dar à outra o direito de procurar uma terceira pessoa que a faça plenamente feliz na cama?

O imperativo de ter que satisfazer a outra pessoa, leva a uma verdadeira neurose inibidora, seja ela masculina ou feminina, mas, também, a um deslocamento de sintoma: ele, ou ela, não me satisfaz!

É possível que a polarização das conversas em torno da mandioca, nas horas festivas, esteja funcionando como processo catártico, porque o assunto envolve dois aspectos: de um lado, os cheiros, os perfumes, os trajes e a descontração, certamente oferecem um elevado potencial estimulador da energia sexual ou da libido, para fantasias mais íntimas e complementares, pois esta grandeza humana, nos momentos festivos, permite às pessoas reportar-se para outros mundos possíveis.

Por outro lado, pode-se também imaginar que o clima de descontração da festa permita extravasar o que normalmente não se conversa, pois, com caipirinha e os aperitivos mais picantes, sobretudo, quando acompanhados por alguma outra bebida alcoólica, formam um potente inibidor ou diluente das censuras do sub-consciente sobre o insconsciente e, deste modo, autorizam o insconsciente a soltar o que realmente está em jogo: o grande mito de nossos tempos, vendido e divulgado por todos os meios de comunicação, continua a insinuar que a felicidade equivale a relações exitosas e de desfrute no relacionamento sexual, a conhecida lei do Gerson, pois, deve-se levar vantagem em tudo!

Tal atribuição de causa não permite reconhecer que o instrumento viril masculino está mais ou menos capaz de manter-se erétil e satisfazer anseios femininos mais profundos, pois a falta de diálogo e a capacidade de criar um clima de bem-querer levam ao embotamento dos dois lados.

 Explicitar este desconforto tão íntimo, tão subjetivo e tão arriscado, cria medos, e, por isto mesmo, a mandioca, mais do que por suas riquezas nutricionais e suas variáveis na adaptação de iguarias alimentares, - quando é servida na mesa - impregna-se de um poder fantástico, que desperta dos baús do inconsciente, que, por trás do “duro” e do “mole”, há incontáveis seres humanos precisando exteriorizar, de maneira sutil e irônica, uma desconfortável decepção com o que cotidianamente acontece no ambiente da cama.

Por este benéfico serviço, a mandioca cozida já está merecendo reconhecimento de utilidade pública, - O dia da Mandioca - com direito a assegurar desconto nas horas psicoterapêuticas.

 

 

10

UM TESTE DE PATERNIDADE

 

            Dona Benta, uma senhora magra, torta e fumante, morava no Morocó, lá no fim de mundo, perto de Santa Rita do Trivelato, no Mato Grosso. Faladeira especializada, sabia apreciar os mínimos detalhes de qualquer pessoa que visse. Costumava emitir comentários dos mais aturdidos a respeito de todos os moradores da vizinhança. Parecia captar as coisas até pelo cheiro.

Dona Benta tinha um vozeirão rouco decorrente dos palheiros que fumava, raro de se ouvir, e, como era pessoa altamente emotiva, conseguia folgadamente chorar, sorrir, debochar e revelar extravagâncias, tudo ao mesmo tempo.

            Do muito que dona Benta sabia falar da vida alheia, nasceram também muitos episódios que a deixaram seguidamente acabrunhada. Parte da sua capacidade apreciativa das condutas alheias era estimulada por seu marido, Nando, homem irônico, pachola, e, por isso mesmo, muito debochador da vida alheia.

            O casal teve, depois de três meninas, razão especial para sonhar com um menino, mas, veio outra menina. Era festa, choro, emoção e muito frenesi em torno do que viria a ser esta última fornada generativa de mais uma menina. O pai dela, que já gostava dos tragos do bar, começou a beber mais ainda e, sequer encontrava tempo para acalantá-la. Ademais, um câncer fulminante no fígado, levou-o à morte em poucos meses depois do nascimento da menina Marlene.

            Dona Benta, ainda mais choramingona do que antes, oscilava entre responsabilidade na condução do andamento da família e lamúrias diante das dificuldades que enfrentava. Era grito e choro da manhã até noite adentro. As meninas, embora arteiras, foram crescendo e, aos poucos, criando juízo para ajudar a mãe e colaborar nas lidas de ordenha e trato de aves e porcos.

            Esta menina mais nova, sabe-se lá se foi por falta de afeto, ou alguma sequela genética, ou adaptação à expectativa dos pais, gostava de fazer artes com os meninos da vizinhança. Quando se tornou adolescente, começou a mostrar que não tinha nenhuma queda para os estudos, mas, demonstrava um extraordinário pendor para entreter a rapaziada. Sempre trajada da calça jeans, botina e chapéu, começou a despertar suspeitas de apresentar alguma anomalia hormonal, ou genética ou psíquica.

Dona Benta, a instância suprema da moral e dos bons costumes do povoado, teve que amargar alguma fofoca indireta e algum motejo a respeito da conduta de sua pupila dos olhos.

            Sem demora, o assunto se inverteu e começou a correr conversa de que Marlene, a excelsa realização de dona Benta, dava sinais de ser “Maria Sapatão”. Aí sim, saía troça de todo jeito em torno dos hábitos da menina adolescente. A fama foi se alargando e todos conheciam Marlene como namoradeira de outras meninas.

Por onde Marlene andasse, estava sempre rodeada por um séquito de diversas colegas, e gostava de frequentar os bares para beber cerveja e falar de formas extravagantes, a fim de chamar atenção de todo mundo. Sobretudo em festas, ficava bêbada e, então, as lágrimas do choro da dona Benta pareciam nascente a formar um córrego escorregadiço para arrastar a menina até a casa onde morava.

            Quando toda a comunidade já parecia estar acostumada com a sapiência de que Marlene era “Maria Sapatão”, eis que ela começou a evidenciar que estava grávida. O fato, além de propiciar os mais fartos comentários, impreterivelmente enveredava sobre a possível paternidade.

            Por mais que todo mundo comentasse o inusitado assunto e se metesse a bisbilhotar a vida de Marlene, com o intuito de descobrir o esplendoroso e possível pai da criança em gestação, ninguém conseguia encontrar pistas concretas. Alguns gozavam que dentre as meninas do seu grupo poderia alguma estar enganando a torcida. Outros suspeitavam de alguns jovens um tanto malandros e as investigações direcionavam-se para um e outro destes rapazes. Feitas todas as sondagens possíveis e imagináveis, evidenciou-se algo concreto: se o pai da criança é um rapaz, não foi nenhum da redondeza.

            Restava, então, mais uma alternativa: uma devassa geral entre os presumíveis homens casados, que costumavam dar suas voltinhas. Dias, semanas e meses não chegaram a evidências plausíveis a respeito do misterioso homem de família que poderia ter engravidado Marlene. Ela, por seu turno, aproveitou o ensejo para avivar ainda mais o assunto oficial em voga, fez suspense em torno do pai secreto e oculto, sem fornecer a mais ínfima pista do possível nome desta façanha.

            Enquanto o suspense rondava os ares e ocupava as conversas, o velho senhor Marciano chegou a uma ponderação que pareceu ser de bom-senso no meio da agitação de conversa em Morocó. Como as suspeitas recaíam sobre dois homens casados, pais de família, o velho Marciano sugeriu que todos esperassem mais alguns meses até conseguirem ouvir a forma da criança falar. Caso ela utilizasse a palavra “Ansim” - em vez de “assim”, - então, o pai seria o velho matreiro, o alemão Fritz, homem falso até por cima da cabeça, conhecido no povoado pela sua atrevida astúcia. Dizia-se que sua esposa tremia as duas mãos por efeito da doença de Parkinson, de tanto bater nele por sempre estar metido a garanhão caçador de mulheres. Sua aparência, todavia, era a de um santo extraordinariamente devoto e piedoso, especialmente na regência do coral e na forma como rezava alto, postado no primeiro banco da Igreja para cair na vista dos demais que vinham àquele local. Por outro lado, se a menina utilizasse a repetição do cacoete “né”, neste caso, o pai seria o Pedro Borba, homem casado há poucos anos e pai de um casal de lindas crianças pequenas.

            Passado mais de um ano sem informações concretas e definitivas sobre a paternidade, e como em Morocó ninguém se preocupava com possível exame de DNA e, nem tampouco, a Marlene reclamava explicitamente alguma ajuda do pai para cobrar-lhe pensão a fim de auxiliar a criação da filha, o melhor exame seria o indicado pelo velho ancião Marciano.

            Num belo dia, alguém soltou a conversa de que ouviu a menina dizer “né”. Aí, sim! O assunto percorreu rapidamente o povoado, e, finalmente, o misterioso caso chegava a um desfecho: o pai seria mesmo o senhor Pedro Borba, o já pai de duas outras crianças. Com mais uns dias de fofoca generalizada, delineou-se, finalmente, o grande mistério: o pai biológico da menina de Marlene era, de fato, Pedro Borba.

 O documento confirmatório foi uma briga fenomenal com a esposa, que tomou suas duas crianças, e foi morar no sul do Brasil para nunca mais ver esposo traidor. Terminado o suspense, confirmou-se o exame de paternidade e tudo voltou aos outros assuntos rotineiros de conversa, como falar de chuva e de calor. Dona Benta, certamente, não esperava tanta demora na sequiosa espera dos resultados de paternidade.

 

11

O ALEMÃO MORIBUNDO

 

            No agito da movimentação de centenas de funcionários indo apressadamente para as fábricas de tecidos e de calçados, na rua central de Saudades, SC, o alemão Hans Müller, parecia debochar da andança tão acelerada dos demais, e fazia exatamente o contrário. Estava ele, andando a passos extremamente lentos, curtos, que não passavam de meio palmo, e ainda, arrastando os chinelos, num aparente deboche à pressa dos demais transeuntes da rua.

Do outro lado da rua, vinha o velho conhecido do Hans, o senhor Wilibaldo Schnorresmann e, ao ver seu amigo naquele caminhar de lesma, cruzou a rua e foi até o Hans. Perguntou:

- Como está?

Hans falou: mas, você não sabia que eu quase morri? Estive internado duas semanas, ali no hospital de Saudades.

- Wilibaldo, todo curioso, perguntou:

- O que aconteceu?

“Ach!” Respondeu o Hans, eu estava numa fraqueza de morrer.

Hans era viúvo, de 63 anos de idade e morava sozinho. Os filhos moravam em outras cidades e, o Hans, provavelmente, de tanto ouvir outros idosos se lamuriarem das fraquezas musculares, sobretudo, quando os encontrava no centro de idosos, e como ele tinha uma boa propensão para a hipocondria, deve ter absorvido as queixas e passado a sentir-se ainda mais cansado do que os demais idosos juntos. Com isso, deve ter conseguido mendigar alguma manifestação de afeto ao explicar como estava fraco e cansado.

Prevendo que já estava na iminência de morrer mediante exaustão da fraqueza, Hans, não queria, contudo, deixar dívidas pendentes. Foi na Cooperativa Ceraçá, a poucos metros do lugar onde se encontrava, e lá tinha solicitado corte dos cabos de entrada de energia na sua casa, sob a reta motivação de que não aparecesse boleto de cobrança depois da sua morte. E para não ter problemas e riscos com gás, vendeu o botijão e começou a esperar a hora da morte.

Na visita costumeira da agente de saúde à casa do Hans, ela constatou seu estado de desnutrição e providenciou sua ida ao médico no Hospital, a uma quadra de distância. Após a consulta, Hans foi internado. Ali no hospital ele só se lamuriava de uma fraqueza de morrer, mas, não morria e não tinha jeito de apresentar sintomas de morte.

Passadas duas semanas de internação, sem nenhuma alteração para pior no quadro clínico, o médico ao fazer a visita de rotina ao quarto de Hans, e certamente, percebendo que sua hipocondria o levava a imaginar toda a fraqueza acumulada dos demais velhos de Saudades, - com os quais seguidamente conversava, - o médico falou enfaticamente:

- Entenda, seu Hans! Você está numa fraqueza, tão grande, mas tão grande e tão intensa e profunda, que falta até a necessária força para você poder morrer. Eu vou lhe dar alta hospitalar e você terá que fazer, em casa, um tratamento demorado e bem rigoroso para poder recuperar pelo menos as necessárias forças, com vistas a poder morrer.

Foi este o motivo que fez Hans andar daquele jeito na calçada. Estava indo à Cooperativa Ceraçá, para que viessem religar a entrada de energia na sua casa e desejava, também, passar no posto de revenda de botijões de gás, a fim de comprar um botijão novo com gás e voltar a cozinhar. A entrada da aposentadoria, ocorrida nos dias de internação, iria permitir comprar o rancho necessário para cruzar o mês com provimento energético recomendado.

 

 

 

 

12

 O SUMISSO DA VASSOURA

 

            Lá no sertão do Rio Grande do Norte, na cidade de Patú, o padre alemão Franz Spitz, zeloso e dedicado, construiu um santuário enorme no alto da montanha e este vistoso lugar, declarado santo, trouxe grande afluência de fiéis na busca de curas e milagres.

            O nome do santuário, Nossa Senhora dos Impossíveis, apresentava uma conotação simpática ante as agruras, doenças e dificuldades na vida. Padre Spitz também sabia, como poucos, enfatizar a grandeza deste santuário. Costumava repetir, com vibração e entusiasmo, nas suas homilias, que tudo quanto as outras Nossas Senhoras não resolviam, ali, no Patú, a Nossa Senhora dos Impossíveis dava jeito.

            Quando o padre Spitz já estava velho e impossibilitado de atender a imensidão de gente que, todos os dias afluía ao santuário, foi substituído, por um padrezinho bem novo. Esperto, inteligente, simpático e de boa pinta, padre Onófre logo despertou as atenções devido à sua fala eloquente e pela forma cortês como tratava e acolhia os romeiros.

Depois de algumas semanas, o povo já percebeu duas outras peculiaridades do padrezinho: soube selecionar as duas jovens mais bonitas da cidade para serem respectivamente cozinheira e secretária e, deixou evidente uma queda precípua para o lado feminino.

            Como dizia um ditado popular, a voz do povo é a voz de Deus, não demorou muito para que as más línguas desconfiassem da moradia das duas jovens com o padre, naquela imensa casa paroquial, isolada no alto da montanha do Patú. No entanto, como o Santuário ficava uns quilômetros fora da cidade, alguns não viam maior dificuldade nesta convivência.

            A nível interno da casa paroquial, emergiu logo um sintoma da doença social de esquizofrenia acirrada, própria do sistema capitalista de um puxar o tapete do outro, a fim de ascender no agrado, no salário e na precedência. Ali não foi diferente.

            As duas belas jovens começaram a disputar a primazia da maior proximidade com o padre Onófre. A disputa virou rivalidade, e uma delas, a secretária, ao sentir que estava ficando preterida, ficou mais atenta à movimentação da cozinheira.

            A casa paroquial, embora espaçosa, ainda não contava com as modernidades de banheiro em cada quarto, e a secretária, percebeu que a colega tinha saído do quarto, que ficava ao lado, e, presumidamente, teria ido ao banheiro. Como não percebeu nenhum rangido de porta do retorno da colega ao quarto, já aguçou mais sua capacidade de observação, com o fito de puxar o tapete da colega.

            Ao constatar que o mesmo ritual se repetiu nas noites seguintes, resolveu averiguar melhor este estranho comportamento e foi até a despensa, pegou a vassoura e a colocou sob o cobertor na cama da cozinheira.

            No outro dia, antes do café, a cozinheira já estava resmungando que alguém extraviou a vassoura. Passou-se uma semana inteira e ninguém soube informar o paradeiro da vassoura. O padre declarou que, possivelmente, alguém a pegou para limpar o salão e que certamente a deixou esquecida por lá.

            A secretária, no entanto, sabia que o sumiço da vassoura, ao não ter sido percebida onde se encontrava, era prova contundente de que a cozinheira ia dormir com o padre.

            Soltou a manchete para algumas fofoqueiras da cidade, e, dentro de poucas horas, todo mundo sabia que o padrezinho galã, não dormia sozinho na cama. Ao se comentar a prova irrefutável da sua vida ambígua, não demorou para que o bispo viesse a saber do ocorrido.

            Três dias depois da notícia do padre se tornar pública, o bipo foi visto chegar no santuário e, já no dia seguinte, nem o padre, nem a cozinheira e nem a secretária continuaram morando na casa paroquial.

            Tudo indicou que ocorrera proibição de belas jovens coabitarem na casa paroquial. O reverendo foi afastado do seu ministério e, sem muita demora, soube-se que estava convivendo com a sua bela cozinheira na cidade do Mossoró.

 

13

PICADA DE COBRA

 

            No assentamento de sem-terra “Boa Esperança”, a oitenta e cinco quilômetros de Santa Rita do Trivelato, no Mato Grosso, a única coisa boa, era a esperança. O acesso era complicado, porque aquela região arenosa atolava os carros tanto nos dias secos, como nos dias chuvosos. As terras pobres, com vegetação de cerrado, davam a impressão de fim de mundo.

            Cada morador recebeu de trinta a quarenta hectares de terra. Não tinha como sobreviver naquela distância com serviço de lavoura meramente manual. O assentamento já tinha agregado famílias sem nada, que, para suas moradias usavam varas mais ou menos retas daquele cerrado, cavadas em fileira no chão e com a ajuda de uma lona plástica fechavam as paredes para não chover dentro e não serem surpreendidos por cobras e outros animais peçonhentos.

            O piso era o do chão natural de areia e o telhado era feito com um pouco de Eternit de quatro milímetros e por cima, com uma camada de ramos de coqueiro para não esquentar excessivamente.

            O impressionante do assentamento Boa Esperança era o número de carros velhos sem condições de funcionamento. Como em tantos outros assentamentos, devido às distâncias, precisavam de carro para, de vez em quando, ir até a cidade comprar os produtos necessários, e, como o dinheiro não passava de esperança, só conseguiam comprar carros sem documentação, ou falsificados, ou ainda roubados.

            Era normal ver de dois a três carros em cada moradia, mas, com nenhum em condições para uma viagem até a cidade.

            Sem perspectivas de obter da terra o necessário para sobreviver e expandir-se, a maioria dos moradores foi vendendo suas áreas para voltarem a ser diaristas em cidades maiores da redondeza.

            Dentre as poucas famílias resilientes naquele aparado de Serra, estava o casal Serafim Matos e sua esposa Filomena, com meia dúzia de filhos. Eles até, mais do que outros, conseguiam colher um pouco de tudo e, se não tivessem dinheiro para reformar algum dos carros, pelo menos tinham comida farta.

            Naquela lida simples de roça, sem geladeira, sem internet e nem televisão, costumavam ficar bom tempo sentados na frente das casas no anoitecer; e era comum que se contassem muitos causos de tempos mais antigos e dos antepassados.

            Num dia desses, depois de muita trela, e sentados no escuro e tendo por lampião a iluminação dos raios solares refletidos pela Lua, dona Filomena sentiu necessidade de fazer xixi. Teria que ir adiante do outro lado da casa onde estavam sentados, e percorrer uns vinte metros até a casinha para as necessidades fisiológicas.

Filomena resolveu encurtar a estrada, e foi um pouco para o lado e se acocorou na macega para fazer seu necessário xixi. No meio da tarefa, soltou gritos desesperados de que uma cobra tinha lhe desferido uma picada ao lado da cavidade rugosa sublombar, e, que doía muito.

            Joaquim correu para socorrê-la e, com seus gritos de dor a dona Filomena parecia estar na iminência de morrer. Joaquim mandou um dos meninos chamar o vizinho que, por sorte, tinha um carro velho que ainda dava contas de ir até a cidade e já saíram rapidamente para o pronto socorro.

 Chegando lá, o médico de plantão procurou atender imediatamente dona Filomena, pálida e escorada no marido, parecia realçar ainda mais sua magreza cadavérica.

            Informado sobre o diagnóstico preliminar, o médico procurou verificar, in loco, o eventual sinal da picada, mas, por surpresa, não encontrou o mínimo indício de possível picada de cobra. Pediu para que Filomena ficasse duas horas em observação. O Joaquim, ao seu lado, enquanto Filomena ainda estava sobre a maca e de pum-pum para a Lua, já não sabendo como dissuadir seu desconforto com o ocorrido, falou olhando para Filomena:

- Que talho esta picada de cobra abriu bem ali, neste vale do Josafá do seu pum-pum!

            Voltaram para casa, sem assunto para conversar, mas, no dia seguinte, foram logo ver o lugar do ataque da suposta cobra cascavel. Ao chegarem ali, encontraram um ninho de galinha e a choca achatada sobre os ovos, forneceu o exame laboratorial mais apurado para a diagnose: a choca, desconfortável com a urina a chover sobre seu dorso, picou no rumo da fonte de sua queda... A suposição de que era de cobra, produziu desespero em Filomena, uma vez que, se fosse de cascavel, poderia causar sua morte dentro de poucas horas. Certamente por isso, a dor se tornou potencializada e aguda.

            A notícia da picada de cobra em lugar tão pouco habitual, vasou do âmbito familiar e, na vizinhança, já produziu um novo batismo: ao invés de falarem de dona Filomena, aplicaram-lhe o nome de “Fi-talho”.

            Algumas semanas depois, a “Fi-talho” foi na casa paroquial para pedir uma ajuda do padre e que ele anunciasse nas missas a venda de uma propriedade de quarenta hectares de terra por apenas trinta mil reais. Caso o padre arrumasse um comprador, receberia cinco mil pelo encaminhamento.

            O padre só falou que não podia fazer isso em celebrações, mas que, caso encontrasse comprador interessado, iria indicar-lhe o endereço. Ainda na mesma semana, o senhor Felipe Fonseca foi ver a área, a partir de outra informação, e, como aquela propriedade era rica em água, adquiriu-a pela bagatela de trinta mil reais, com a perspectiva de transformá-la num belo sítio e num primoroso lugar de lazer.

A família do Joaquim, atravessou o Rio Teles Pires, e foi morar adiante de Paranatinga, onde a “Fi-talho” voltou ao primeiro nome de batismo: de ser, simplesmente Filomena.

 

14

O TOURO AMÂNCIO

 

            No bairro Boa Vista, na cidade de Rio Pardo, RS, existia, ao lado da Igreja, um prédio vistoso de três andares, constituído em asilo de menores. Ali abrigavam-se mais de trinta crianças, algumas já adolescentes, geradas, mas, não assumidas pelos pais biológicos, e que desejavam intensamente a possibilidade de serem adotadas por alguma família.

            Algumas bocas maldosas comentavam que o elevado número de crianças no asilo decorria da peculiaridade da descendência açoriana, muito propensa para namoros fora do casamento.

            O administrador do asilo era o padre Ramon, homem de estatura alta, magro, em torno de cinquenta anos de idade, de fala mansa e esticada, conhecido como “papai bondoso”. Era muito simpático e sabia como ninguém, arrecadar alimentos e donativos dos fazendeiros para o asilo. Sua caminhonete F75, sempre que retornava do interior, vinha abarrotada com um pouco de tudo: carneiro, porco, galinha, arroz, feijão, algum saco de milho e, quando sobrava espaço, pessoas na carona em cima da carroceria.

             Neste asilo, os adolescentes eram iniciados nas lidas de trato de galinhas, de porcos, carneiros e na ordenha de belas vacas holandesas de raça pura.

O padre tinha dois funcionários, o Álvaro Borges e o Danilo Fonseca para administração do espaço dos animais. O que mais os absorvia, era a lida com as vacas.

 Bem organizados piquetes de pastagem abrigavam um lote de dezoito vacas, sob o reinado másculo do touro Amâncio.

            De enorme envergadura, o touro Amâncio, - da raça holandesa, - puro por origem, estava registrado e a pasta do seu controle continha mais documentos e papéis do que os de uma pessoa comum, registrada em cartório, batizada, vacinada e casada.

Este touro apresentava uma peculiaridade especial: mal-humorado e bravo como só ele! As dezoito vacas sob seu império, mesmo com farta pastagem, não acalmavam seu ar de carrancudo e ameaçador.

Álvaro e Danilo, eram jovens estudantes de segundo grau e tinham, ao lado das tarefas escolares, a missão de cuidar bem da leitaria, fonte de boa renda através da venda do leite.

Todos os dias, os dois tinham que lidar com aquele animal raivoso que era o touro Amâncio. Não bastaram as muitas reclamações com o padre a respeito dos riscos de vida que Amâncio lhes apresentava.

A resposta do padre Ramon era impreterivelmente a mesma: vocês são muito medrosos! Mesmo que sempre estivessem armados com um pedaço de cano galvanizado para lhe bater na cabeça, o touro não se intimidava diante deles.

Um dia, Álvaro errou o alvo da batida com o ferro na cabeça do Amâncio e este lhe deu o troco com uma chifrada perigosíssima. A sorte foi a de que a camisa e a blusa que usava, eram desgastadas pelo tempo de uso e se romperam. Mesmo assim, um chifre pegou na altura da cintura e lhe arrancou uma tira de couro no lado das costas, junto com a ruptura da roupa.

Os dois moços foram novamente ao padre Ramon, para mostrar o efeito da chifrada e pedir-lhe alguma providência. Nada se alterou nas convicções do reverendo e ele voltou à mesma cantilena irônica e debochada da sua fala mansa de que eles eram muito medrosos.

De tardezinha, na hora da ordenha, o touro estava amarrado num canteiro de pasto, deitado na frente do estábulo e o padre Ramon veio ao seu encontro. Chegou de mansinho, vestido com batina cinza, e foi passando a mão do dorso do touro. Quando menos esperou, o touro deu uma soprada forte, e, numa virada repentina, meio de lado, atropelou-o com uma chifrada, que o jogou para o ar a pelo menos um metro e meio de altura, e, com um detalhe cinematográfico. Como o padre Ramon vestia batina, a vestimenta lhe desceu sobre a cabeça e apareceram as pernas brancas no ar. Caiu como um saco de estopa cheia de farelo.

Álvaro e Danilo visualizaram o espetáculo e tiveram que empenhar-se ao máximo para não exultar no gozo, e, aos gritos, festejar o cineminha gratuito. O padre, assim que conseguiu ajeitar-se com a batina, mesmo entortado por dores lombares, fugiu do alcance do touro Amâncio e veio na direção do estábulo.

Os dois rapazes, para não rir diante do padre, esconderam o rosto atrás das vacas que ordenhavam, para dar a impressão de que não tinham percebido cenário tão pitoresco. Padre Ramon se aproximou deles e, com sua típica voz mansa e dengosa, falou: Acho que está na hora de mandarmos beneficiar este Amâncio!

No dia seguinte, às cinco horas da manhã, estava ali o padre e o senhor Pedro Klafke, castrador de touro. Feito o procedimento de extração da fonte das potências seminais do touro Amâncio, veio a recomendação de trato abundante de ração, mandioca e pasto, a fim de que o “ex-touro” viesse a propiciar muita carne.

Longos meses de fartura de comida não apontavam para qualquer sinal de aumento de peso. Com um razoável prejuízo consumado, pelo que Amâncio devorava todos os dias, sem engordar, o padre resolveu finalmente, abatê-lo.

Ao se abrir a buchada do dito animal, constatou-se a possível fonte da brabeza de Amâncio: estavam ali, cinco cuecas de elastina que ele havia alcançado no varal de secar roupa e engolido.

 A suspeita de Álvaro e Danilo, ao perceberem o sumiço de suas cuecas era a de que algum fetichista de cuecas as teria levado para alguma lida da sua obsessão. Constatado que o touro Amâncio as deglutiu, e, como prova irrefutável, estavam retidas ali no seu bucho há muito tempo, chegaram a um diagnóstico de evidência lógica: esta extraordinária brabeza de Amâncio deve ter sido, na verdade, o resultado da diária e contínua dor de barriga, por não conseguir digerir e evacuar as cuecas durante tanto tempo.

 

 

 

PALAVRAS FINAIS

 

            Na contramão do regime oficial, que impõe o pensamento único, com vistas a ampliar larga submissão à moderna escravidão do trabalho exaustivo, com vistas a enriquecer, ampliar poder, e, consumir com obsessão compulsiva, consideramos importante realçar a dimensão do ócio que ainda permite ativar a memória antiga de causos e contos. Esperamos que os causos, aqui narrados, despertem um pouco de hilaridade e motivações para ficar de bem com a vida.

Nada melhor do que contar e ouvir fatos marcantes que envolveram razões chistosas. Velhas recordações, podem ativar a fantasia e ajudá-la a sonhar com um mundo mais humano e, com satisfatória interatividade.

            Afinal, porque tanto consumo sob o ditame universal, que degrada a vida e a natureza?

            E porque tanto fanatismo extremista para submeter e espoliar?

Uma fantasia, realimentada com narrativas de episódios, certamente, poderá apontar para possibilidades plausíveis de um mundo melhor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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