terça-feira, 23 de junho de 2026

REFÉM DFO IDEALISMO

 


Andança histórica do cristianismo,

Produziu um imaginário idealismo,

Que arraigou um serviço ambíguo,

E que produz um resultado exíguo.

 

Na lógica do desempenho eficaz,

Todo padre precisa ser perspicaz,

Estável para elevados resultados,

A deixar marcas de bons legados.

 

Formado na lógica moralizadora,

Sua função altamente redentora,

Requer papéis sociais e máscaras,

Para uma idoneidade sem máculas.

 

Tirocínio de discursos normativos,

Enrijeceram os religiosos motivos,

Para nobres sobrecargas pastorais,

Com incontáveis atividades gerais.

 

Deve dominar funções litúrgicas,

E rezar de formas dramatúrgicas,

E ainda ser exímio administrador,

E um extraordinário organizador.

 

Precisa suportar rotina sem folga,

Com bom argumento na rasmolga,

Com estoque de fala encantadora,

Para eficiente ação conquistadora.

 

Necessita ser fascinante e solícito,

E exemplar contra todo ato ilícito,

Pressionado pela competitividade,

De efeito empolgante à saciedade.

 

Precisa ser hiperativo e onisciente,

Mostrar-se sempre muito contente,

Sem jamais contrariar ou discordar,

Nem, tampouco, mostrar-se vulgar.

 

Necessita sorrir e ser irrepreensível,

Ficar vinte e quatro horas disponível,

Para tudo o que a demanda requerer,

Em favor dum benfazejo bem-querer.

 

Lógica consumista cobra eficiência,

Para que revele plena competência,

De resolver incontáveis problemas,

Sem revelar seus pessoais dilemas.

 

Jamais pode mostrar a sua afeição,

Mas sempre revelar o bom coração,

De quem cumpre a sagrada ordem,

De avivar fé no meio da desordem.

 

 

Ao ser simpático com as crianças,

É visualizado sob as desconfianças,

De ser sujeito pederasta disfarçado,

Caçando vítimas para o seu agrado.

 

Se anda com os jovens adolescentes,

Representa, pelos perigos crescentes,

A potencialidade de atos indecorosos,

Sob os mórbidos interesses maldosos.

 

Caso se aproxime mais das mulheres,

 Já se suspeita de obsessivos afazeres,

Com vistas a atrair alguém para cama,

Para confirmar a sua libidinosa fama.

 

Ao estar muito no meio de homens,

Olhares veem seus traços lobisomens,

E o rotulam de homo-afetivo doente,

A viver em procedimento indecente.

 

Longe de receber o solidário cuidado,

É dissecado por todo e qualquer lado,

E adoece na fragilidade internalizada,

Sob uma cobrança rígida e ilimitada.

 

Isolado e sobrecarregado de tarefas,

Vê-se obrigado a fazer mil sinalefas,

Para ligar cobranças da comunidade,

E corresponder com boa afabilidade.

 

Sua solidão clerical de vínculo frágil,

Carcome todo seu dedicado elã ágil,

E vulnerável na sua rígida resiliência,

Entra na doída crise de inconstância.

 

Sem o “tu” para partilhar mundo real,

Dilui-se vínculo e convívio presbiteral,

E sucumbe numa fragilidade subjetiva,

De um modelo que o deixa na deriva.

 

O que experimenta ante o idealizado,

Não o sustenta no imaginário legado,

E vê na sua interioridade anacrônica,

Estranha e enrustida dor histriônica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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