Andança histórica do cristianismo,
Produziu um imaginário idealismo,
Que arraigou um serviço ambíguo,
E que produz um resultado exíguo.
Na lógica do desempenho eficaz,
Todo padre precisa ser perspicaz,
Estável para elevados resultados,
A deixar marcas de bons legados.
Formado na lógica moralizadora,
Sua função altamente redentora,
Requer papéis sociais e máscaras,
Para uma idoneidade sem máculas.
Tirocínio de discursos normativos,
Enrijeceram os religiosos motivos,
Para nobres sobrecargas pastorais,
Com incontáveis atividades gerais.
Deve dominar funções litúrgicas,
E rezar de formas dramatúrgicas,
E ainda ser exímio administrador,
E um extraordinário organizador.
Precisa suportar rotina sem folga,
Com bom argumento na rasmolga,
Com estoque de fala encantadora,
Para eficiente ação conquistadora.
Necessita ser fascinante e solícito,
E exemplar contra todo ato ilícito,
Pressionado pela competitividade,
De efeito empolgante à saciedade.
Precisa ser hiperativo e onisciente,
Mostrar-se sempre muito contente,
Sem jamais contrariar ou discordar,
Nem, tampouco, mostrar-se vulgar.
Necessita sorrir e ser
irrepreensível,
Ficar vinte e quatro horas
disponível,
Para tudo o que a demanda requerer,
Em favor dum benfazejo bem-querer.
Lógica consumista cobra eficiência,
Para que revele plena competência,
De resolver incontáveis problemas,
Sem revelar seus pessoais dilemas.
Jamais pode mostrar a sua afeição,
Mas sempre revelar o bom coração,
De quem cumpre a sagrada ordem,
De avivar fé no meio da desordem.
Ao ser simpático com as crianças,
É visualizado sob as desconfianças,
De ser sujeito pederasta disfarçado,
Caçando vítimas para o seu agrado.
Se anda com os jovens adolescentes,
Representa, pelos perigos crescentes,
A potencialidade de atos indecorosos,
Sob os mórbidos interesses maldosos.
Caso se aproxime mais das mulheres,
Já se suspeita de obsessivos afazeres,
Com vistas a atrair alguém para cama,
Para confirmar a sua libidinosa fama.
Ao estar muito no meio de homens,
Olhares veem seus traços lobisomens,
E o rotulam de homo-afetivo doente,
A viver em procedimento indecente.
Longe de receber o solidário cuidado,
É dissecado por todo e qualquer lado,
E adoece na fragilidade
internalizada,
Sob uma cobrança rígida e ilimitada.
Isolado e sobrecarregado de tarefas,
Vê-se obrigado a fazer mil sinalefas,
Para ligar cobranças da comunidade,
E corresponder com boa afabilidade.
Sua solidão clerical de vínculo
frágil,
Carcome todo seu dedicado elã ágil,
E vulnerável na sua rígida
resiliência,
Entra na doída crise de inconstância.
Sem o “tu” para partilhar mundo real,
Dilui-se vínculo e convívio
presbiteral,
E sucumbe numa fragilidade subjetiva,
De um modelo que o deixa na deriva.
O que experimenta ante o idealizado,
Não o sustenta no imaginário legado,
E vê na sua interioridade anacrônica,
Estranha e enrustida dor histriônica.
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