Apresentação
Neste mês da
Bíblia, somos convidados a tirar ânimo irradiante especial para o discernimento
dos rumos da fé, em nossos dias, a partir do livro de Daniel. Envolve
histórias, fatos antigos, profetismo e, linguagem apocalíptica, para apontar um
peculiar incentivo ao povo sofrido sob o imperador Antíoco IV, em torno dos anos
200 a 142 antes de Cristo (cf. 1 Mc 13,41) na Judéia. Enfatiza a luz fulgurante
da fé brilhando na escuridão da maldade humana.
Avivar tais
situações, ajuda a não negociar a fé diante dos mandonismos injustos,
interesseiros e manipuladores da fé, sob regras e leis contra as aspirações
básicas do povo. O livro ajuda a olhar para as tramas de morte que ocorrem, nos
dias atuais, e, clareia o discernimento para atitudes sensatas e responsáveis
diante da insensatez humana, perpetrada por ambições imperialistas.
1 – Quem era Daniel?
Uma lenda da
antiga cidade cananéia, chamada Ugarite, de cerca de 1.360 anos antes de
Cristo, mencionava Daniel como uma pessoa inteligente, reta, justa e seguidora
de Deus. Parece que Ezequiel (14,14; 14,20 e 28,3), quando se refere a Daniel,
não tinha noção deste personagem, mas, a de outro DANIEL, um jovem judeu de
família nobre de Jerusalém, lá pelo ano 587 a.C., e que foi deportado com seus
três amigos, além de governantes e nobres da cidade de Jerusalém, ao exílio
babilônico.
2 – O surgimento do
livro de Daniel
O livro
surgiu em torno do ano 167 a.C., no tempo dos Macabeus, período extremamente
difícil para judeus fiéis, diante da violenta dominação selêucida. Mostra, no
meio da monstruosidade praticada pelo Rei Antíoco IV, na Judéia, (que era a parte
norte de Israel), fatos simbólicos do imperialismo babilônico, ocorrido há
alguns séculos antes, quando Nabucodonosor cercou a Judéia e a invadiu em 597
a.C. O livro elogia personagens fiéis a Deus, e, estimula para testemunhar a fé,
com coragem profética.
3 – Daniel na Corte da Babilônia
O livro apresenta algumas imprecisões quanto a nomes, datas e fatos
ocorridos na Babilônia. Isso permite entender que, que não se trata de livro
histórico, mas, de avivamento de fatos de muitos séculos anteriores. Despertava,
no meio do sofrimento, da arrogância e da tortura, um ânimo para resistir à
prepotência do império selêucida, e, a permanecer firme na fé em Deus.
Jovem
de extraordinária inteligência e de bela aparência, Daniel já teria se mostrado
excepcional em capacidades, na cidade de Jerusalém. Na Babilônia, o rei
Nabucodonosor ficou encantado com sua inteligência e sabedoria, similar à de
deuses, e lhe auferiu o cargo de ser chefe, dos magos, adivinhos e astrólogos
(Dn 5, 11-12). Deu-lhe o nome de Baltasar e reconheceu seu conhecimento
profundo, espírito aguçado e a capacidade de interpretar sonhos, bem como
resolver enigmas. Foi promovido para ocupar o terceiro lugar no governo da
Babilônia.
Os capítulos 1 a 6 do livro, narram
episódios de Daniel e seus companheiros na Babilônia, símbolo da usurpação do
lugar de Deus com a invasão de Antíoco IV; já os capítulos 7 a 12, abordam
visões em torno do conflito da invasão selêucida, porque forçava o povo a
romper suas tradições religiosas de fidelidade a Deus e ao judaísmo, para aderir
à helenização, sob outra religião. Destacam-se os papéis de dois anjos que
instruíram Daniel na inteligência: Gabriel
(Deus é forte – Dn 8,16; 9,21); e Miguel
(Quem é como Deus? – Dn 10, 13-21; 12). Ambos escoraram Daniel na defesa da
verdade. Os capítulos 13 e 14 constituem acréscimos posteriores, que debocham sobre
cultos idolátricos e destacam a salvação de inocentes, como Daniel e Susana.
O livro de Daniel é um belo convite
para olhar além dos sofrimentos: os sábios na obediência fiel a Deus, vão
ressuscitar e brilhar como estrelas no meio da escuridão! (Dn 12,6-8).
5 – Armadilhas e queda
de Daniel
Depois de
nomeado como um dos três ministros responsáveis pelos sátrapas, sob o reino do
medo Dario, Daniel foi colocado à frente de todo reino, (Dn 6,4) fato que
despertou ciúmes e a armadilha dos invejosos que tramaram contra Daniel.
Acusado de não adorar o rei, mas, de rezar ao Deus de Israel, acabou sendo
jogado na cova de leões e não foi devorado, devido à intervenção de um anjo. Com
isso, o rei teria obrigado a todos a respeitar o Deus de Daniel e mandou matar
todos os que o tinham caluniado.
Ao abordar
este assunto do exílio babilônico, sob a simbologia da linguagem apocalíptica,
o autor do livro estava se referindo, especialmente, ao momento presente da
perseguição selêucida. O fato de reportar-se ao tempo anterior, servia para
iluminar a fidelidade dos judeus, quando Antíoco IV pretendia eliminar o
judaísmo pela negação da sua religião, obrigando-o a outra crença. Neste
encorajamento à perseverança, o autor indicava o fim próximo da perseguição,
porque Deus ajudaria o povo a livrar-se das garras da destruição (Dn 3, 24-25;
6,20-21; 14,40-41), e poderia aguardar a intervenção de Deus.
Sob a linguagem
apocalíptica, quem escreveu o livro, também estimulava o engajamento popular na
luta e na resistência, para lhe apontar a vitória. Deus estaria do lado do povo,
na luta contra a potência invasora.
6 – As narrativas sobre
as visões
Mais que linguagem sobre fim do mundo, as narrativas das visões,
constituem interpretação das crueldades de ações imperialistas do passado, tais,
como as dos quatro animais: Carneiro (império persa); Bode (império helenista);
Grande chifre (Alexandre Magno); e Chifre pequeno (os Selêucidas).
Afinal, o
que faltaria, hoje, diante dos medos e pavores que levam a desistir da memória
de fé, do senso de pertença, de colaboração e de aposta na construção do Reino
de Deus, ante forças imperialistas?
Para quem aplicamos nossa
inteligência?
Nabucodonosor recolhia as melhores
inteligências, para ampliar seus poderes de domínio. Mais tarde, sob a
dominação Síria, o rei Antíoco IV tentava dominar, através da imposição da
religião imperialista, e para tanto, entronizou a imagem do deus Moloch (da
antiga cultura fenícia) no centro do templo, e diante da estátua, sacrificavam-se
a ele, as crianças e jovens aprisionados, porque se acreditava que Moloch
somente ficava de bom humor e favorável ao povo, mediante muito sangue de
pessoas humanas, sacrificadas na fogueira, em cultos.
Nesta adversidade inevitável, as
comunidades da Judéia descobriram uma tática preciosa: atualizar a memória do sofrimento,
- enfrentado pelos antepassados, - e tal procedimento as enchia de uma certeza:
o mesmo Deus que as ajudou, certamente ajudará no tempo presente. Com este elã,
as comunidades se animavam na resistência, e se moviam na certeza de que a
vitória contra Antíoco IV aconteceria sem demora.
Este contexto antigo é altamente
interpelador aos dias difíceis de nossas comunidades. Não ocorre, porventura,
uma sistemática entrada de formas religiosas mais espiritualistas, alienadas e
de submissão ao poder hegemônico, que age como na velha tática imperialista?
Também o sistema vigente absorve as melhores inteligências, não para agir em
favor do povo, mas, para espolia-lo da melhor forma possível a fim de produzir
as mais inovadoras formas de matar seres humanos, com armas, cada dia mais
letais.
É preciso perceber que muita
insinuação, aparentemente simpática, atrela tanto a religião, como as condições
de vida, a um interesse econômico dominador. Neste quadro, quem aproveita sua
inteligência para que as boas memórias das comunidades não sejam anuladas por
uma dominação bárbara, através de formas religiosas fáceis, suaves, muito
festivas e meramente emotivas? Daniel e seus companheiros valeram-se da sua
inteligência para serem retos, bons e fiéis à essência da religião de ricas
memórias.
O que fazemos diante da invasão sutil
da mídia e da informação que atrela grandes populações ao perverso jogo
colonizador, e que se aufere a condição de ser o redentor, o salvador e o protetor,
como se fosse divindade?
Padre João Inácio Kolling
BLOG: http://padrejoaoinacio.blogspot.com.br
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