terça-feira, 29 de setembro de 2026

O PROFETA DANIEL

 


Apresentação

            Neste mês da Bíblia, somos convidados a tirar ânimo irradiante especial para o discernimento dos rumos da fé, em nossos dias, a partir do livro de Daniel. Envolve histórias, fatos antigos, profetismo e, linguagem apocalíptica, para apontar um peculiar incentivo ao povo sofrido sob o imperador Antíoco IV, em torno dos anos 200 a 142 antes de Cristo (cf. 1 Mc 13,41) na Judéia. Enfatiza a luz fulgurante da fé brilhando na escuridão da maldade humana.

            Avivar tais situações, ajuda a não negociar a fé diante dos mandonismos injustos, interesseiros e manipuladores da fé, sob regras e leis contra as aspirações básicas do povo. O livro ajuda a olhar para as tramas de morte que ocorrem, nos dias atuais, e, clareia o discernimento para atitudes sensatas e responsáveis diante da insensatez humana, perpetrada por ambições imperialistas.

1 – Quem era Daniel?

            Uma lenda da antiga cidade cananéia, chamada Ugarite, de cerca de 1.360 anos antes de Cristo, mencionava Daniel como uma pessoa inteligente, reta, justa e seguidora de Deus. Parece que Ezequiel (14,14; 14,20 e 28,3), quando se refere a Daniel, não tinha noção deste personagem, mas, a de outro DANIEL, um jovem judeu de família nobre de Jerusalém, lá pelo ano 587 a.C., e que foi deportado com seus três amigos, além de governantes e nobres da cidade de Jerusalém, ao exílio babilônico.

2 – O surgimento do livro de Daniel

            O livro surgiu em torno do ano 167 a.C., no tempo dos Macabeus, período extremamente difícil para judeus fiéis, diante da violenta dominação selêucida. Mostra, no meio da monstruosidade praticada pelo Rei Antíoco IV, na Judéia, (que era a parte norte de Israel), fatos simbólicos do imperialismo babilônico, ocorrido há alguns séculos antes, quando Nabucodonosor cercou a Judéia e a invadiu em 597 a.C. O livro elogia personagens fiéis a Deus, e, estimula para testemunhar a fé, com coragem profética.

3 – Daniel na Corte da Babilônia

            O livro apresenta algumas imprecisões quanto a nomes, datas e fatos ocorridos na Babilônia. Isso permite entender que, que não se trata de livro histórico, mas, de avivamento de fatos de muitos séculos anteriores. Despertava, no meio do sofrimento, da arrogância e da tortura, um ânimo para resistir à prepotência do império selêucida, e, a permanecer firme na fé em Deus.

          Jovem de extraordinária inteligência e de bela aparência, Daniel já teria se mostrado excepcional em capacidades, na cidade de Jerusalém. Na Babilônia, o rei Nabucodonosor ficou encantado com sua inteligência e sabedoria, similar à de deuses, e lhe auferiu o cargo de ser chefe, dos magos, adivinhos e astrólogos (Dn 5, 11-12). Deu-lhe o nome de Baltasar e reconheceu seu conhecimento profundo, espírito aguçado e a capacidade de interpretar sonhos, bem como resolver enigmas. Foi promovido para ocupar o terceiro lugar no governo da Babilônia.

Os capítulos 1 a 6 do livro, narram episódios de Daniel e seus companheiros na Babilônia, símbolo da usurpação do lugar de Deus com a invasão de Antíoco IV; já os capítulos 7 a 12, abordam visões em torno do conflito da invasão selêucida, porque forçava o povo a romper suas tradições religiosas de fidelidade a Deus e ao judaísmo, para aderir à helenização, sob outra religião. Destacam-se os papéis de dois anjos que instruíram Daniel na inteligência: Gabriel (Deus é forte – Dn 8,16; 9,21); e Miguel (Quem é como Deus? – Dn 10, 13-21; 12). Ambos escoraram Daniel na defesa da verdade. Os capítulos 13 e 14 constituem acréscimos posteriores, que debocham sobre cultos idolátricos e destacam a salvação de inocentes, como Daniel e Susana.

O livro de Daniel é um belo convite para olhar além dos sofrimentos: os sábios na obediência fiel a Deus, vão ressuscitar e brilhar como estrelas no meio da escuridão! (Dn 12,6-8).

5 – Armadilhas e queda de Daniel

            Depois de nomeado como um dos três ministros responsáveis pelos sátrapas, sob o reino do medo Dario, Daniel foi colocado à frente de todo reino, (Dn 6,4) fato que despertou ciúmes e a armadilha dos invejosos que tramaram contra Daniel. Acusado de não adorar o rei, mas, de rezar ao Deus de Israel, acabou sendo jogado na cova de leões e não foi devorado, devido à intervenção de um anjo. Com isso, o rei teria obrigado a todos a respeitar o Deus de Daniel e mandou matar todos os que o tinham caluniado.

            Ao abordar este assunto do exílio babilônico, sob a simbologia da linguagem apocalíptica, o autor do livro estava se referindo, especialmente, ao momento presente da perseguição selêucida. O fato de reportar-se ao tempo anterior, servia para iluminar a fidelidade dos judeus, quando Antíoco IV pretendia eliminar o judaísmo pela negação da sua religião, obrigando-o a outra crença. Neste encorajamento à perseverança, o autor indicava o fim próximo da perseguição, porque Deus ajudaria o povo a livrar-se das garras da destruição (Dn 3, 24-25; 6,20-21; 14,40-41), e poderia aguardar a intervenção de Deus.

            Sob a linguagem apocalíptica, quem escreveu o livro, também estimulava o engajamento popular na luta e na resistência, para lhe apontar a vitória. Deus estaria do lado do povo, na luta contra a potência invasora.

6 – As narrativas sobre as visões

            Mais que linguagem sobre fim do mundo, as narrativas das visões, constituem interpretação das crueldades de ações imperialistas do passado, tais, como as dos quatro animais: Carneiro (império persa); Bode (império helenista); Grande chifre (Alexandre Magno); e Chifre pequeno (os Selêucidas).

            Afinal, o que faltaria, hoje, diante dos medos e pavores que levam a desistir da memória de fé, do senso de pertença, de colaboração e de aposta na construção do Reino de Deus, ante forças imperialistas?

Para quem aplicamos nossa inteligência?

Nabucodonosor recolhia as melhores inteligências, para ampliar seus poderes de domínio. Mais tarde, sob a dominação Síria, o rei Antíoco IV tentava dominar, através da imposição da religião imperialista, e para tanto, entronizou a imagem do deus Moloch (da antiga cultura fenícia) no centro do templo, e diante da estátua, sacrificavam-se a ele, as crianças e jovens aprisionados, porque se acreditava que Moloch somente ficava de bom humor e favorável ao povo, mediante muito sangue de pessoas humanas, sacrificadas na fogueira, em cultos.

Nesta adversidade inevitável, as comunidades da Judéia descobriram uma tática preciosa: atualizar a memória do sofrimento, - enfrentado pelos antepassados, - e tal procedimento as enchia de uma certeza: o mesmo Deus que as ajudou, certamente ajudará no tempo presente. Com este elã, as comunidades se animavam na resistência, e se moviam na certeza de que a vitória contra Antíoco IV aconteceria sem demora.

Este contexto antigo é altamente interpelador aos dias difíceis de nossas comunidades. Não ocorre, porventura, uma sistemática entrada de formas religiosas mais espiritualistas, alienadas e de submissão ao poder hegemônico, que age como na velha tática imperialista? Também o sistema vigente absorve as melhores inteligências, não para agir em favor do povo, mas, para espolia-lo da melhor forma possível a fim de produzir as mais inovadoras formas de matar seres humanos, com armas, cada dia mais letais.

É preciso perceber que muita insinuação, aparentemente simpática, atrela tanto a religião, como as condições de vida, a um interesse econômico dominador. Neste quadro, quem aproveita sua inteligência para que as boas memórias das comunidades não sejam anuladas por uma dominação bárbara, através de formas religiosas fáceis, suaves, muito festivas e meramente emotivas? Daniel e seus companheiros valeram-se da sua inteligência para serem retos, bons e fiéis à essência da religião de ricas memórias.

O que fazemos diante da invasão sutil da mídia e da informação que atrela grandes populações ao perverso jogo colonizador, e que se aufere a condição de ser o redentor, o salvador e o protetor, como se fosse divindade?

                                                                                            Padre João Inácio Kolling     

BLOG: http://padrejoaoinacio.blogspot.com.br

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