Tudo pode ser feito na humana grei,
Quando se ampara numa sagrada lei,
Mesmo caduca e obsoleta, vira arma,
Que tudo racionaliza e nada desarma.
Lei promulgada diante dum problema,
Não é categórica solução para dilema,
Em distinto contexto e circunstância,
No qual se gesta humana dissonância.
Se a lei só é aplicável contra o
inimigo,
Protetora de vantagem total ao amigo,
Está mais que na hora, de outra
regra,
Constituir um parâmetro que integra.
Se num tribunal a voz de cada membro,
Entende que o grupo todo é manembro,
Já perde o bom-senso da
colegialidade,
E julgará sem a necessária
legitimidade.
Quando instância superior da lei
prioriza,
E boa abundância para os amigos, agiliza,
Não está numa função de ética
coletiva,
Mas, em tendenciosa manipulação
ativa.
Tanta violência cruel com
linchamento,
De fala ofensiva, no áspero
confronto,
Desferido como prática da boa virtude,
É tida por excelsa e admirável atitude:
Interpreta-se toda a combatividade,
Num virtuosismo fiel de legalidade,
Porque é ação e combate a inimigo,
E assegura a auto-defesa do amigo.
Já sem o parâmetro moral definido,
Vale tudo na luta contra o agredido,
Até uma invocação de força divina,
Para o amparo e ajuda na fé sovina.
Resultado de ninguém se entender,
Desloca toda culpa, sem se condoer,
Para justificar o agressivo enfoque,
Pois sempre outro quer o destaque.
As leis podem facilitar a vida
social,
Mas, caducas, viram a arma mortal,
Na apelação de qualquer casuísmo,
Tirado das entrelinhas do eufuísmo.
Assim a atual sofística reina impune,
E faz um jogo de palavra que reúne,
O óbvio e impossível para inocentar,
Ou a razão absoluta para condenar.
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