quarta-feira, 22 de maio de 2024

MOVIMENTO DAS ÁGUAS

 

 

Ao revelarem suas forças inéditas,

Silenciam falsas vozes intrépidas,

E escancaram as portas do futuro,

Com um recado severo e obscuro:

 

Fecha-se o futuro do planeta Terra,

Na ambição humana que emperra,

A sabedoria da natureza adoentada,

Por humanos na ação desorientada.

 

Falsa promessa de ampla felicidade,

Da agressão à Terra na cumplicidade,

Sustentou atos político-econômicos,

Para formas de vida bem anômicos.

 

A teimosia ante processos naturais,

Agora vítima de águas torrenciais,

Sequer pensa mudar sua obsessão,

Para continuar em doentia tradição.

 

Pensada além da força da natureza,

A condição humana com esperteza,

Sucumbe na catástrofe reveladora,

Da sua ação nefasta e exploradora.

 

Apesar de dores e da solidariedade,

O estalo de alertas à humanidade,

Aponta-a culpada pela catástrofe

E impõe lei com ordem limítrofe.

 

Nosso capitalismo cego e obstinado,

De desenvolvimentismo fanatizado,

Apontou para a exploração infinita,

E desequilibrou a natureza bendita.

 

Sob os eventos climáticos extremos,

Em quaisquer lugares que estaremos,

Vamos, impreterivelmente inseguros,

Viver os constantes e inéditos apuros.

 

As grandes cidades e suas emissões,

Produzem gases e naturais agressões,

E se configuram nas primeiras vítimas,

Diante da justiça ecológica de lástimas.

 

 

 

 

sábado, 18 de maio de 2024

SOB O ESPÍRITO DE DEUS

 

 

Uma milenar intuição bíblica,

Tornou-se referência pública,

Para acolher a ação bondosa,

Da nossa natureza amistosa.

 

Suposição do Espírito pairar,

Sobre água e vida a irradiar,

Lembrava interdependência,

Na Terra, sem a displicência.

 

Impregnados pela interação,

Humanos em procrastinação,

Romperam o vínculo sagrado,

Com mãe Terra e seu legado.

 

Ao invés do Espírito acolher,

Desejo doentio fez escafeder,

O equilíbrio da vida na Terra,

E biodiversidade que encerra.

 

Assimilou-se Espírito de Deus,

Com o poder divino de Zeus,

Para interferir e desequilibrar,

O que o Éden pudesse arridar.

 

Desfeita a interação simbiótica,

Afirmou-se a ambição psicótica,

Que devora pertença egolátrica,

E desajusta de forma despótica.

 

Sem capacidade contemplativa,

Endeusou-se a produção ativa,

De economia e largo consumo,

Que denegriu o humano rumo.

 

Culpamos a agressiva natureza,

Escondendo humana safadeza,

Para nos desincumbir da culpa,

E nos isentar na pífia desculpa.

 

Sem o espírito dos ecossistemas,

Endeusamos atos e estratagemas,

Da monocultura farta e rendosa,

Para saciar uma egolatria vaidosa.

 

Um Espírito que paira sobra águas,

Aponta tarefas inadiáveis e árduas,

Para equilibrar ação de água e terra,

Que hominídea ação tanto desterra.

 

 

 

 

sexta-feira, 17 de maio de 2024

O TOURO AMÂNCIO

 

 

            De enorme envergadura, o touro Amâncio, da raça holandesa, apresentava uma peculiaridade especial: mal-humorado e bravo como só ele! As dezoito vacas sob seu império, numa pequena chácara, não acalmavam seu ar de carrancudo.

Pedro e Felipe, jovens estudantes de segundo grau, tinham, ao lado das tarefas escolares, a missão de cuidar da leitaria e todos os dias tinham que lidar com o touro Amâncio. Não bastaram as muitas reclamações com o patrão a respeito dos riscos de vida que Amâncio lhes apresentava.

A resposta do patrão era sempre a mesma: vocês são muito medrosos! Mesmo sempre armados com um pedaço de cano galvanizado para lhe bater na cabeça, o touro não se intimidava.

Um dia Felipe errou a batida com o ferro e Amâncio lhe deu uma chifrada perigosíssima. A sorte foi a de que a camisa e a blusa que usava eram desgastadas pelo uso e se romperam. Um chifre pegou no lado da cintura e lhe tirou uma tira de couro no lado das costas, junto com a ruptura da roupa. Voltaram os dois a reclamar com o patrão, que era um padre.

Repetiu a conhecida cantilena irônica e debochada: vocês são muito medrosos!

De tardezinha, na hora da ordenha, o touro estava deitado na frente do estábulo e apareceu o padre. Chegou de mansinho, vestido com batina cinza, e foi passando a mão do dorso do touro. Quando menos esperou, o touro deu uma soprada forte, e, numa virada repentina, se ergueu e lhe desferiu uma chifrada que o jogou a pelo menos um metro e meio de altura, com um detalhe cinematográfico. Como o padre vestia batina, ela lhe caiu sobre o corpo e apareceram as pernas brancas no ar. Caiu como um saco de estopa cheia de farelo.

Pedro e Felipe tiveram que conter-se para não exultar e gozar aos gritos com o visual daquela cena. O padre, assim como conseguiu alinhar-se com a batina, saiu em disparada e veio até o estábulo.

Os dois ordenhadores, para não rir diante do padre, esconderam o rosto atrás das vacas, como se não tivessem percebido cenário tão pitoresco. O padre se aproximou deles e com sua típica voz mansa e dengosa falou: Acho que vamos mandar beneficiar o Amâncio!

No dia seguinte, às cinco horas da manhã, estava ali o padre e o castrador de touro. Feito o procedimento de extração da fonte das potências seminais do touro Amâncio, veio a recomendação de um trato abundante de ração e mandioca a fim de que o “ex-touro” viesse a reder muita carne.

Longos meses de fartura de comida não apontavam para qualquer sinal de aumento de peso. Com um razoável prejuízo consumado, pelo que Amâncio devorava todos os dias sem engordar, o padre resolveu finalmente, abatê-lo.

Ao se abrir a buchada do dito animal, constatou-se a possível fonte da brabeza de Amâncio: estavam ali, cinco cuecas de elastina que ele havia alcançado no varal de secar roupa. A suspeita de Pedro e André, estava sendo a de que algum vivente humano, movido por fetiche por cuecas, havia surrupiado aquelas peças. Constatado que o touro Amâncio as deglutiu, e que elas estavam retidas ali no seu bucho, chegaram a um diagnóstico de senso comum: esta extraordinária brabeza de Amâncio deve ter sido, na verdade, sua diária e contínua dor de barriga.

 

quinta-feira, 9 de maio de 2024

NO REINO DO PENSAMENTO ÚNICO


 

Velho mito indo-europeu,

Tantos mundos escafedeu,

Para dominar e submeter,

E em tudo se intrometer.

 

A acepção do insubmisso,

Já criava o compromisso,

De declará-lo um inimigo,

E persegui-lo pelo perigo.

 

O desejo do que ele tinha,

Virava direito a briguinha,

Para a posse do seu bem,

E deixa-lo indefeso refém.

 

A doentia crença na razão,

O paraíso de feliz profusão,

Saciaria de bens os viventes,

E os deixaria bem contentes.

 

No rumo único da felicidade,

Indicou consumo à saciedade,

Mas, dito paraíso virou fugaz,

E surrupiou toda humana paz.

 

A busca de poder e consumo,

Gerou lixo no humano prumo,

E tudo quanto é descartável,

Afetou o humano vulnerável.

 

Sobra o rol do lixo relegado,

Porque o paraíso propalado,

Frustra em larga abundância,

E gera frustrada convivência.

 

Este modo que emburreceu,

Criou paranoicos no himeneu,

Pretensos heróis mandantes,

A cada dia mais intolerantes.

 

Criam as polarizações cruciais,

Veem adversários como rivais,

E vociferam contra os inimigos,

Que não são submissos amigos.

 

A sua patologia é a da lamúria,

E vociferam o ódio com injúria,

Criado, ampliado e difundido,

Para justificar foco denegrido.

 

Pensam o Eu no lugar do “nós”,

Insensíveis ante a coletiva voz,

Mas, atrelados às hierarquias,

Do poder de pífias oligarquias.

 

segunda-feira, 22 de abril de 2024

ERA DIGITAL E DESCARTABILIDADE

 

 

Criativa e super-rápida na inovação,

A era digital facilita a vida e a ação,

Mas enfraquece relacionamentos,

E produz humanos embotamentos.

 

Sua alta velocidade de insinuação,

Exaspera o consumo com vibração,

Para centralizar status de aparecer,

Mas deixa o mundo físico padecer.

 

Nos desejos criados e estimulados,

Disparam consumismos obcecados,

Com etiquetas vistosas e hiper-reais,

Para suprir necessidades essenciais.

 

Mais atraente do que a vida social,

É o consumo diário e sensacional,

Para afirmação da existência nobre,

Como meio de ocultar o jeito pobre.

 

Indivíduos moldados para o consumo,

Apontam êxitos e gratificante rumo,

Para quem procura ser feliz sozinho,

Como única sina do humano caminho.

 

Uma intuição horrenda e assustadora,

Aponta forçada sequela avassaladora,

Que transforma consumidores em lixo,

Descartável como tanta sobra de xixo.

 

Sem as perspectivas futuras e duráveis,

Desaparecem consistências idealizáveis,

E a felicidade do consumo some fluída,

Sem apresentar digna razão para a vida.

MITO DA EFICIÊNCIA

 

 

Elaborado pela humana inteligência,

Feito poderoso deus sem clemência,

Cobra lealdade e alto desempenho,

E voracidade com avanço ferrenho.

 

Não importa ser leal, bom e honesto,

Nem justo e compassivo ante doesto,

Mas, o desempenho máximo e focado,

Para poder esnobar um imenso legado.

 

Aparência como virtude excelsa e boa,

Estimula rivalidade e anda sem balroa,

Para não desacelerar a larga produção,

E fruir a bênção da vistosa acumulação.

 

Este deus com profetas insinuadores,

Canaliza genuínos e belos pendores,

Para a entrega abnegada à eficiência,

Que desperte a invejável abundância.

 

Lentidão e desaceleração são pecados,

Graves e imperdoáveis para aplicados,

Na fidelidade a desejos mirabolantes,

E que requerem rivalidades brilhantes.

 

Ansiedade negativa vinda da obsessão,

Vê nos outros uma perigosa obstrução,

A ser perseguida e derrotada com vigor,

A fim de expandir o consumista pudor.

 

No consumo, o glamour sensacionalista,

Da aparência e imagem perfeccionista,

Oferece ao deus da honraria expandida,

Um preito pela acumulação conseguida.

 

Sumida toda capacidade contemplativa,

Some o encantamento pela beleza ativa,

Advinda de pessoas e da biodiversidade,

Em coisas pequenas e gratas à saciedade.

 

Tempo de amizades e afetos ainda reluz,

Para apontar o rumo que não só produz,

Mas aponta para o Deus de bem-querer,

E da grandeza dos gestos de enternecer.

 

 

 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

INDIFERENÇA SISUDA

 

 

O entorno da vida cotidiana,

Virou o veneno que dimana,

A endurecer os sentimentos,

Perante humanos proventos.

 

Cumplicidade na exploração,

E deslealdade na ostentação,

Alimentam no mal hodierno,

Uma apatia sisuda de inferno.

 

Viés ideológico na informação,

Justifica qualquer crime e ação,

Para insensibilização a vítimas,

Como frutos de ações legítimas.

 

Mortos e perseguidos de guerra,

Quais folhas de árvores na terra,

Engolidos pelo silêncio fúnebre,

Somem perante ataque célebre.

 

Vítimas rapidamente ignoradas,

Ilustram as relações esvaziadas,

Pois antropologia individualista,

Apenas preza exploração egoísta.

 

Na busca de vantagem em tudo,

Importa um êxito bem topetudo,

Sobre os indivíduos e os grupos,

E elevar egolátricos arquétipos.

 

Some todo cuidado com o outro,

E a indiferença ignora testoutro,

Pois, pouco ou nada representa,

Para quem do humano se isenta.

 

Sem compaixão, a reação ao mal,

Dispensa qualquer diálogo formal,

A privilegiar todo valioso diálogo,

E só dilui interesseiro monólogo.

 

 

 

<center>FENÔMENOS CLIMÁTICOS</center>

  Cada vez mais seguidos e intensos, Causam mortes e pavores imensos, E tudo leva a crer que os culpados, São os humanos com atos er...