domingo, 22 de março de 2026

O PERDIGÃO SOLITÁRIO

 

 

Seu canto melancólico por encontro,

Coloca-o no alvo para o desencontro,

Pois, no ermo das moitas e macegas,

É alvejado para as violentas refregas.

 

Seu canto lembra sua carne saborosa,

E por isso, cai na vista sem polvorosa,

Para ser espantado pelos cachorros,

E abatido pelos indivíduos mazorros.

 

Discreto, inofensivo e nada predador,

Vive bem escondido e cheio de pavor,

Mas, traído pelo seu canto interativo,

Morre sem socialização dum lenitivo.

 

Viveu solitário e morreu por um gosto,

De fruição vistosa do seu corpo exposto;

Alguém pergunta pela liberdade tolhida,

Que ceifou a sua discreta e ilibada vida?

 

O olho ambicioso do sistema utilitarista,

Cuida gato e cachorro de modo ufanista,

Mas mata com o requinte de crueldade,

O que deseja para sua exótica saciedade.

 

Teria o perdigão anelado por felicidade,

Assim como os humanos por saciedade?

Paradoxais humanos sugam e exaurem,

Insensíveis a que animais se assegurem.

 

Na mesma lida possessiva e espoliadora,

Humanos, cachorros de caça predadora,

Armados até os dentes perseguem pistas,

Para matar similares em suas conquistas.

 

Perversa e anacrônica educação guerreira,

Para muitos e letais cartuchos na algibeira,

Esvazia a mente do jovem de valor da vida,

Para ser herói no altar da pátria denegrida.

 

Recebe honra póstuma de triste memória,

E sua idealizada grandeza de muita glória,

Subsome no humus da terra engolidora,

Sem somar qualidade à vida renovadora.

 

A domesticação entrópica para a morte,

Leva incontáveis seres humanos à sorte,

De vida estúpida com morte sem sentido,

Sem transcendência no humano decaído.

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