terça-feira, 1 de novembro de 2016

Deus das prateleiras



Minimizado na sua grandeza criadora,
E refém fornecedor de loja promissora,
Cabe-lhe propiciar produtos eficientes,
Que fiéis pedem como estupefacientes.

Devotos e evangelizados para consumir,
Tudo quanto se possa querer presumir,
Os piedosos esperam o poder agregado,
Dum imagético colorido que é desejado.

Precisa ser lindo, simpático e hiper-real,
Para proporcionar o efeito sensacional,
De sedar causticantes mágoas subjetivas,
A fim de impressionar e agradar convivas.

O Deus balconista nada necessita dizer,
Basta que obedeça, e, rápido no afazer,
Proporcione sem delongas o solicitado,
Para ensejar ao pedinte um rico agrado.

Ele não precisa querer pedir conversão,
Já que o pedinte espera nova concessão:
A de fruir tudo quanto o desejo aponta,
 Sem cobrança de prestar alguma conta.

Na psicopatia coletiva de fitar ambições,
Nada importam as passadas recordações,
Que ativam a consciência da auto-crítica,
E indicam inovações de projeção política.

Tampouco importa reconhecer omissões,
Já que a oferta do sagrado de promissões,
Perdoa, no lenitivo prazeroso de degustar,

Com fino sabor da sensação de bem-estar.

sábado, 29 de outubro de 2016

Fanatismos religiosos



            É próprio da condição humana o desejo de descobrir algo melhor e mais apropriado para as condições de convivência. No desejo de propiciar o melhor, surge, simultaneamente, o fenômeno sectário, isto é, considera-se o novo intuído ou descoberto, como absolutamente melhor quanto o que vem sendo feito sob outras motivações.
            Um dos componentes de persuasão para convencer os outros é o do apelo exagerado para assegurar que a novidade inventada ou assumida é radicalmente superior e muito melhor do que tudo quanto está sendo feito. Neste processo, tende-se a cair com facilidade no campo do fanatismo. Exagera-se na argumentação e se quer apressar a adesão de outras pessoas.
            O campo religioso não está isento do risco de fanatismos. O apóstolo São Paulo constatou este fenômeno de exageros por parte da comunidade de Tessalônica. Duas tendências afastavam a comunidade do que era essencial no seguimento de Cristo. Uma, sustentava que Jesus não retornaria à condição humana; e outra, assegurava que esta volta estaria na iminência de acontecer a qualquer instante e sem demora. Se um fanatismo relativizava qualquer inquietação diante do jeito que vivia, o outro apavorava por medos. Este levava a tal pânico que muitos cristãos já nem se preocupavam nem com os trabalhos cotidianos, nem com a vida a ser alargada e nem mesmo com a construção de um reino segundo Jesus Cristo. Esperavam passivamente que Jesus já viria condecora-los com o melhor prêmio nos céus.
            Os dois fanatismos da comunidade de Tessalônica não estavam vinculados à boa notícia de Jesus Cristo que convocava a agir positivamente no meio das dificuldades de organização da vida.
            A real missão decorrente do anúncio de Jesus Cristo, ao ficar relegada, levava à perda das características peculiares da comunidade de Tessalônica. Este fato, tão antigo, nos mostra a necessidade de amadurecimento da fé em nossos dias, pois, muitos fanatismos em torno de aspectos irrelevantes e muito distantes do reino anunciado por Jesus Cristo, são colocados como essenciais à vivência da fé. E como tem gente sendo conduzido por um cabresto de fanatismos em movimentos e pastorais das comunidades cristãs!
            Por isso, é bom lembrar um texto muito interessante do evangelho de Lucas (19,9-10). Enquanto muitos foram levados por outros a chegar perto de Jesus, Zaqueu, consciente de seus erros, sobretudo, o de cobrar mais do que lhe era permitido, ao encantar-se com o que ouvia falar de Jesus Cristo, e, ao saber que ele passaria numa estrada, quis ser visto por Jesus e, por isso, subiu numa árvore da beira do caminho para lhe partilhar seus limites e o bom desejo de alinhar-se ao trabalho de Jesus Cristo. Deste apelo resultou um jantar muito importante: o do pecador que se sente agraciado e perdoado pelo amor de Deus e se transforma radicalmente para ser melhor do que tinha sido até aquele momento.

            Muito mais valioso do que o atrelamento passivo e dependente de fanáticos, o processo de conversão de Zaqueu abriu-lhe a perspectiva de ser mais reto, mais honesto, e mais humanitário. Este novo modo de ser foi radicalmente diferente do que um atrelamento a fanáticos, mais interessados pelos seus planos do que nos planos do amor de Deus.

Pirilampo



Com as chuvas emerges do fundo da terra,
E tampouco contas o que a vida ali encerra,
Mas pareces afinar tanto com a escuridão,
Que nem te atreves a ficar nesta claridão.

Embora sendo um besouro tão prendado,
De emitir intermitentes luzes no relvado,
Tua luminescência oferece pouco rumo,
E até aparentas estar fora dum aprumo.

Possivelmente teu voo tão desnorteado,
Apesar do luzeiro tão vivo e escancarado,
Não firma uma regularidade no trampo,
E sequer clareia o impropério do lampo.

Como você, vagueiam idiotas insanos,
Que geram sofrimentos e desenganos,
E as luzes parecem dos glúteos eclodir,
Sem jamais clarear momentos a decidir.

Nos voos sem rumos claros e definidos,
Tantos desnorteados ficam preteridos,
Porque a provisoriedade da iluminação,
Deixa horizontes inseguros na direção.



Lembranças



Sinais que expressaram um momento,
Para lembrar edificante procedimento,
Viram ícones sacramentais de um gesto,
De algum ato despretensioso e modesto.

Ao remeterem aos bons tempos passados,
Reativam múltiplos e memoráveis legados,
E ensejam não só o desfrute daqueles fatos,
Mas ativam ensejos de mais gestos sensatos.

Difícil é desfazer-se dos sinais milagreiros,
Carregados de gestos e de modos faceiros,
Que lembram o inefável transbordamento,
De satisfação e inebriante contentamento.

A ausência daqueles sinais tão simbólicos,
Causa perda e sentimentos melancólicos,
Porque sem demora se evade a memória,
Das pessoas e tempos de edificante glória.

Nem a memória dos recursos eletrônicos,
Recupera tão bem os significados icônicos,
Dos sinais que falam coisas bem diferentes,
E remetem a novos olhares benemerentes.




sábado, 22 de outubro de 2016

Dor



De sutis a agudas e desesperadoras,
Multiplicam-se dores devastadoras,
Resultantes de orgânicas disfunções,
Ou de incontáveis outras injunções.

Se as físicas são tenebrosas e cruéis,
Ainda mais doem os afetivos vergéis,
Que destroem pelo silêncio cortante,
Sem qualquer lenitivo anestesiante.

A ignorância do nome e da identidade,
Causticam muito mais que a senilidade,
Pois ferem a memória e bons projetos,
E anulam a efetuação de atos concretos.

Muito mais dolorida que a dor sentida,
É a atrelada à superioridade denegrida,
Regida por ambição cega de aparecer,
E desprovida do dote de se enternecer.

A pervertida obsessão pela grandeza,
Engole sorrateira, a humana riqueza,
E transforma tanto serviço religioso,
Em mero meio para seu próprio gozo.

Se as técnicas, remédios e exercícios,
Oferecem tantos e variados benefícios,
Onde encontrar os modos valorizados,

Para priorizar serviços compartilhados?

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Palavras de despedida do apóstolo Paulo


            Em tempos de afrouxamento de muitos valores cristãos da boa convivência, tornam-se muito atuais e interpeladoras as palavras de despedida de São Paulo, na carta que escreveu ao bispo Timóteo.
            Tudo indica que o bispo, como as comunidades que ele animava, começou a perder o elã da sua fé e a acomodar-se aos hábitos predominantes da sociedade, que, por influências romanas, se tornava materialista e consumista. Timóteo provavelmente não constituía bom exemplo de Jesus Cristo para animar as comunidades na fé.
            São Paulo, por sua vez, velho, doente, sofrendo na prisão e cada vez mais impregnado do espírito de Jesus Cristo, em vez de lamúrias desesperadoras, aproveitou a ocasião para alertar Timóteo sobre a importância do que ele prometeu ao ser sagrado bispo e do necessário testemunho que ele deveria ser como sinal edificante para que a boa notícia do Evangelho pudesse expandir-se.
            Nas palavras finais da sua carta, Paulo revelou a grandeza da sua fé, pois, avaliou sua história transformada pela graça de Deus e constatou que o percurso realmente foi de salvação. Comparou sua trajetória a uma corrida, mas, com uma diferença: não foi condecorado somente quem chegou por primeiro, mas, todos os que correram. Em outras palavras, ele se sentiu vitorioso no caminho da fé e todos os que aderiram a Jesus Cristo, participando da corrida, também estavam agraciados pelos bons frutos produzidos na fé.
            Mesmo lamentando o desamparo por parte das comunidades que ele fundou, Paulo expressou uma esperança extraordinária: avaliou que seu bom desempenho no discipulado de Jesus Cristo lhe dá a plena certeza de que, em breve, receberá a recompensa de Jesus Cristo para estar junto de Deus. Não viu a morte como um sacrifício expiatório, que, segundo o judaísmo tradicional fazia uma oferenda a Deus com o sangue alheio de animais. Paulo sentiu que esta passagem envolvia seu próprio sangue, diante da morte violenta que esperava e pelas conclusões do seu julgamento. Tratava-se da oferenda da sua vida, porque esperava do “justo juiz”, que é Deus, um julgamento contrário ao que recebera do julgamento romano.
            Apesar do quadro hostil da espera de sua execução, Paulo manifestou a Timóteo a certeza de que Deus o livraria de toda esta manifestação maligna que o induzia à morte. Por isso, ao louvar a Deus na expectativa de que sua oblação o introduzirá na glória de Deus.
            A carta dirigida a Timóteo certamente pode direcionar-se a cada um de nós para nos ajudar num importante discernimento: em nome de Jesus Cristo, deve-se absorver mais o que vem Dele do que hábitos sociais de um império em decadência.
           


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Um ano a mais



Nas asas do vento eivado de vida,
Voa a memória da história vivida,
Misturando componentes de fatos,
De dores, alegrias e feitos ingratos.

Na dramática passagem do parto,
A vida escancarou horizonte farto,
Para não sucumbir a riscos mortais,
E nem perder de vista sonhos vitais.

Da riqueza da socialização familiar,
Cresceu a capacidade de conciliar,
Vitórias e derrotas, sem desanimar,
E, partilha de dotes sem escoimar.

Das adversidades e duros embates,
Surgiram desnecessários disparates,
Mas também a síntese da prudência,
Para espargir compaixão e clemência.

Da farta bondade e sincera acolhida,
Veio a riqueza da dedicação renhida,
Em favor de mais sentido existencial,
E da solidariedade na dúvida crucial.

Ao lembrar a dádiva de precioso dom,
De poder viver e sonhar com algo bom,
Refaz-se a força que vitaliza o esmero,
Por uma vida que geste bom tempero.




<center>O ANIMAL DO ÓDIO CRUEL</center>

  Altamente racional, ágil, e dominador, Na luta renhida do ativismo usurpador, Está o ser humano como hegemônico, Em seu estranho p...