quarta-feira, 5 de novembro de 2014

As zurzidelas políticas



De nada valem as cobranças de bom-senso,
Nem as múltiplas insinuações por consenso,
Quando para conquistar votantes indecisos,
Difamam-se adversários com motes precisos.

A difamação chegou aos limites da tolerância,
E consagrou uma pérfida e sórdida ignorância,
Na justificação do intento da almejada vitória,
Para projetar-se ao altaneiro grau da vanglória.

Quando um fim justifica todos os possíveis meios,
Para além dos falsos argumentos e dos galanteios,
Acabam se rompendo as básicas regras de respeito,
E se amplia a demonização do outro com despeito.

Dos ódios divulgados a partir de falsos legados,
Pouco prováveis por argumentos comprovados,
Produzem-se monstros para além das medidas,
Na rudeza de palavras sem nuances comedidas.

Com o desejo de sublevar regras estabelecidas,
Porque outros venceram rotulagens denegridas,
Prolifera-se um perverso mecanismo dominador,
Que tudo faz para sentar-se no escopo do andor.






terça-feira, 4 de novembro de 2014

Vender e comprar



Distante ficou o tempo da troca e da doação,
Sucedido pelo ditame da compra e da venda,
Sobretudo, de signos, imagens e visualização,
Para fazer do consumo uma fonte que renda.

Na ânsia do prestígio, hábitos ditam o pensar,
Mas, reféns dos moldes que mudam todo dia,
E feitos escravos das demandas para agradar,
Subvertem-se mais na teia que prende e judia.

Na aparência, livres e sem quaisquer limites,
Não enxergam o ditame do poder anônimo,
Que torna insaciáveis os múltiplos apetites,
E os induz a um simulacro bem anacrônico.

Os desejos foram amplamente pervertidos,
Por isso, ânsias infinitas de muito consumo,
Não conseguem ser razoavelmente supridos,
E nem deixar o excesso dentro dum aprumo.

Falta, no entanto, corresponsabilidade social,
Para engendrar novos modos de subjetivação,
Que deem ao fazer-se um toque todo especial,
E apontem ao trabalho uma inusitada alteração.






sábado, 1 de novembro de 2014

Santidade




De conceituação vaga, imprecisa e sem referência,
Pouco ligada à qualidade profunda da existência,
Parece tratar-se de caminho exotérico de poucos,
Desambientados, relegados e metidos a amoucos.

Poucos lembram que é um processo de construção,
Que implica em diálogo e em cotidiana produção,
E que ultrapassa o nível lógico e biológico da lida,
Para alargar a capacidade psíquica tão combalida.

Se intensas buscas para além da cultura moderna,
E, frágeis na satisfação com a autonomia hodierna,
Já não captam na tecnociência a felicidade buscada,
Tateiam por outras intuições da sabedoria sagrada.

Mais do que captar segredos divinos e espirituais,
Anseiam pelo todo que subjaz nas coisas materiais,
E no amparo holístico, para além do fragmentado,
Encontrar entendimento de um cosmos integrado.

O anseio que mais lateja é o de encontrar a fonte,
Que impulsiona as motivações e que ainda aponte,
Rumos de comunhão com outros e com o mundo,
Para a harmonia do sentir afetivo básico profundo.

Peregrinos na busca híbrida de leveza e de alegria,
Não desejam a austeridade e nem mesmo correria,
Mas, também não apraz a forma solipsista de crer,
Que presume tudo alcançar no cultivo do querer.




sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Ideologias nada xenofóficas



Entre os tantos países da bela mãe Terra,
Com tudo quanto que a vida ali encerra,
Desde os grandes, pequenos e anônimos,
Porventura visam ser meros homônimos?

No desejo de salvar as peculiaridades locais,
Enfrentam e superam dificuldades radicais,
Para assegurar seus ricos valores da cultura,
E propiciar condições estáveis e de ventura.

Escondem sigilosamente segredos genuínos,
Para evitar que outros viajantes peregrinos,
Boicotem ou se apropriem dos seus sonhos,
E os reduzam a serviçais vulgares e bisonhos.

Como, então, submeter-se a anônimo poder,
Que explora e deixa todo mundo se escafeder,
Com as ideologias interesseiras e prepotentes,
A invadir sorrateiramente outros continentes?

Se o “não-dito” das entrelinhas do discurso,
Revela os intentos do interesseiro percurso,
Por que levar fama de rico no entreguismo,
Se o caminho será o de um abissal abismo?

Não seria melhor construir um país expoente,
Sem ser refém do olho grande, nada contente,
De quem aqui investe, só para acumular mais,
E interfere negativamente nos anseios vitais?

Que o básico senso crítico permita interpretar,
O não dito do escrito que está a se locupletar,
No servilismo a interesses apenas financeiros,
E nada encômios e nem mesmo alvissareiros.






quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Memória dos falecidos



            Um dia do ano para lembrar as pessoas queridas, e já falecidas, é pouco. Mesmo assim, é melhor do que não recordar tudo quanto foi registrado na memória a respeito delas, sobretudo, no modo como nos edificaram com suas peculiaridades muito especiais.
            Para os primeiros cristãos, todos quantos se aproximavam dos traços básicos de Jesus Cristo, eram chamados de santos. Assim, também herdamos da linguagem religiosa de tradição antiga, a noção da comunhão dos santos. Mesmo sem títulos beneméritos de santidade, muitas pessoas que conhecemos, podem, com a devida propriedade, serem chamadas de santas. Foram pessoas que se auto-superaram extraordinariamente em relação ao que receberam do ambiente físico e do entorno humano em que viveram. Ocorreu, pois no itinerário da sua vida, um caminho de perfectibilidade que as tornou melhores e, por conseguinte, mais santas.
            Da herança sapiencial do primeiro testamento da Bíblia – já no difícil período posterior ao exílio na Babilônia – ficou evidente uma inquietação em torno do sofrimento a que muitas pessoas boas, retas e justas, eram submetidas.  Predominava, já naquela época, uma predisposição de julgamento negativo e, até mesmo, atribuindo culpa e os merecidos castigos de Deus. Hoje, por efeito de outras influências culturais e religiosas, volta muito forte no sentimento religioso a noção da teologia de retribuição: Deus retribui o bem com coisas boas e com graças, mas, diante da maldade, submete a castigos e sofrimentos os mais cruéis.
            Esta forma de concepção de Deus, com certeza bem inapropriada, trás conseqüências muito ruins para o caminho das pessoas que querem viver bem, ser felizes e estar de bem consigo mesmas. Como pensar um Deus fazendo tais mesquinharias?
           Bem sabemos, que, boas ou nada boas as pessoas passam por doenças, acidentes, dificuldades, infecções, inflamações e muitos distúrbios orgânicos e psíquicos que causam grandes sofrimentos, sem nenhum vínculo com a vingança de um Deus mal humorado.
        Talvez com Jó, - personagem da literatura sapiencial bíblica, - devamos constatar que os sofrimentos podem ser amenizados, interpretados e reintegrados no rumo da existência, e, não constituem necessariamente nenhum castigo. Fazem simplesmente parte da contingência da nossa vida, isto é, por melhores e por mais perfectíveis que sejam nossas aspirações, não nos evadimos de sofrimentos. Eles fazem parte do itinerário da nossa vida.
            O modo de lidar com os sofrimentos e o que nos auto-afirmamos diante das perdas e dores, isso sim, deixa sulcos e rastros profundos em nossa vida. Pode ser de aperfeiçoamento, quanto de conformidade e fatalismo. Muitas pessoas que se dizem ser muito fortes na fé, quando perdem um ente querido, verberam categoricamente que sua vida se arruinou por inteira, que nada mais tem valor e, assim, causam a si mesmas um sofrimento que em nada ajuda a melhorar sua vida.
Oxalá que os sofrimentos integrados possam ajudar mais pessoas a desabrochar num belo e gradual caminho de santidade!



quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Ódio



O olhar dos interesses ambiciosos,
Agrega os sentimentos maldosos,
E os entrincheira na dura labuta,
Para conquistar ferrenha disputa.

Manda recados ao bom coração,
E o subverte na grandiosa ação,
Para que se encha de aleivosias,
E relegue as melhores cortesias.

Ao aliar todos os vis sentimentos,
Procura contagiar sadios intentos,
Para agregá-los na procrastinação,
De eliminar com cruel difamação.

Insaciável na ambição do poder,
E nele muito bem corresponder,
Apela à controversa demonização,
Obcecado pelo cargo da ambição.

Retorce a argumentação discursiva,
E se distorce pela ação persuasiva,
Para apresentar melhor educação,
Mas o intento é pura obliteração.

Nas falsas aparências da bondade,
Mimetizadas à espúria saciedade,
Esconde o interesse vil e caviloso,
Sob a causa do intento majestoso.




terça-feira, 28 de outubro de 2014

Chuva



Tão simples e tão rotineira,
Sabe-se o que dela emana;
Algumas vezes, tão fagueira,
Mas, em outras, ela engana.

Surpreende tantas expectativas,
Por vezes com transbordamento;
Mas enleia a tantos com evasivas,
E deixa-os carentes de um alento.

Na ânsia das suas virtualidades vitais,
Espera a variação imensurável da vida,
Acolhê-la em seus processos seminais,
Para aflorar como beleza enternecida.

No grande milagre da vida que se renova,
E que se engendra de forma sensacional,
Eclode a rica dádiva do quanto se inova,
A complexificar um processo excepcional.

Como a chuva, da Terra, irmã gêmea,
Engendra benéfico processo de ação,
Resulta desta rica relação primigênia,

Belo jardim para a humana condição.

<center>O ANIMAL DO ÓDIO CRUEL</center>

  Altamente racional, ágil, e dominador, Na luta renhida do ativismo usurpador, Está o ser humano como hegemônico, Em seu estranho p...