Feito todo asséptico e divino,
Não remete a pobre menino,
Sob o império cruel e hostil,
Em noite escura, sem brasil.
Nascer numa terra ocupada,
Na eira vulnerável e forçada,
Longe da casa e da assepsia,
Não combina com a fantasia.
Idealizou-se, evento sem dor,
Da Maria divinizada, superior,
Que pariu a criança angelical,
Sem sangue e o risco fulcral.
Imagética de muita serenidade,
Fantasiosa daquela natividade,
Escondeu suor, medo e pavor,
Para agraciar o divino salvador.
O idealizado sonho do império,
Da mulher quieta sem vitupério,
Teve seu parto distante da dor,
Na leveza alegre do pundonor.
Assim a imagética do presépio,
Aponta parto indolor sem sépio,
Da mulher que ejetou seu filho,
E, já ajoelhada, fitou seu brilho.
Na imagem irreal de santidade,
Maria, negada sua humanidade,
Esconde o ambiente e a história,
Do parto de uma triste memória.
Tão romântico, angelical e divino,
Sem aflição de sofrido peregrino,
O parto enseja festa triunfalista,
Da divina mulher que conquista.
Humilde, se submete a poderoso,
Em nada subverte ato orgulhoso,
Sem o Magnificat da pedagogia,
Do Deus a agir contra hipocrisia.
Longe de constituir boa notícia,
Diante daquela reinante malícia,
O nascimento do Cristo ocorreu,
Na dor ansiosa do espaço judeu:
Sob intenso anelo de libertação,
Da incerteza com muita tensão,
Ninguém ousaria sob esperança,
Admitir Deus na pobre bonança.
A luz que brilhou naquela Belém,
Revolucionária para todo refém,
Indicava esperança para periferia,
Pois, Deus do lado do peregrino,
Não era um hegemônico sovino.
Hoje, o alardeado clima natalino,
Esquece o humano parto e o tino,
Da dor que se move na esperança,
Para mundo sem tanta desavença.
Nenhum comentário:
Postar um comentário