quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

CLIMA NATALINO

 



Feito todo asséptico e divino,

Não remete a pobre menino,

Sob o império cruel e hostil,

Em noite escura, sem brasil.

 

Nascer numa terra ocupada,

Na eira vulnerável e forçada,

Longe da casa e da assepsia,

Não combina com a fantasia.

 

Idealizou-se, evento sem dor,

Da Maria divinizada, superior,

Que pariu a criança angelical,

Sem sangue e o risco fulcral.

 

Imagética de muita serenidade,

Fantasiosa daquela natividade,

Escondeu suor, medo e pavor,

Para agraciar o divino salvador.

 

O idealizado sonho do império,

Da mulher quieta sem vitupério,

Teve seu parto distante da dor,

Na leveza alegre do pundonor.

  

Assim a imagética do presépio,

Aponta parto indolor sem sépio,

Da mulher que ejetou seu filho,

E, já ajoelhada, fitou seu brilho.

 

Na imagem irreal de santidade,

Maria, negada sua humanidade,

Esconde o ambiente e a história,

Do parto de uma triste memória.

 

Tão romântico, angelical e divino,

Sem aflição de sofrido peregrino,

O parto enseja festa triunfalista,

Da divina mulher que conquista.

 

Humilde, se submete a poderoso,

Em nada subverte ato orgulhoso,

Sem o Magnificat da pedagogia,

Do Deus a agir contra hipocrisia.

 

Longe de constituir boa notícia,

Diante daquela reinante malícia,

O nascimento do Cristo ocorreu,

Na dor ansiosa do espaço judeu:

 

Sob intenso anelo de libertação,

Da incerteza com muita tensão,

Ninguém ousaria sob esperança,

Admitir Deus na pobre bonança.

 

A luz que brilhou naquela Belém,

Revolucionária para todo refém,

Indicava esperança para periferia,

Pois, Deus do lado do peregrino,

Não era um hegemônico sovino.

 

Hoje, o alardeado clima natalino,

Esquece o humano parto e o tino,

Da dor que se move na esperança,

Para mundo sem tanta desavença.

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