quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

PRESÉPIO DO RÓSEO MENINO

 


Cantava-se que, feito de luz,

Nascimento do menino Jesus,

O lírio, precipuamente divino,

Na noite escura estalou supino.

 

O presépio da arte medieval,

Produziu um imaginário legal,

De um parto divino e indolor,

Sem a angústia, sangue ou dor.

 

O cenário ascéptico de pureza,

Mesmo sem banho de limpeza,

Naquele estábulo todo divino,

Gerou o angélico Jesus menino.

 

Sem angústia ou insegurança,

Maria e José na sua andança,

Distantes do seu pobre lugar,

Viram o estábulo para pousar.

 

Sem o banho de fino chuveiro,

Cordialidade de ar hospitaleiro,

Nem alvos panos esterilizados,

Ali estavam para ser utilizados.

 

A feição sorridente do menino,

Oculta dor do inseguro destino,

E sangue de um parto humano,

Na dor da mãe num rol tirano.

 

Sob trágico exercício do poder,

Suposto parto divino sem doer,

Romantizado numa estrebaria,

Eximia traço humano de Maria.

 

Após concepção, logo ajoelhada,

Estava ela em atitude aquilatada,

Adorando faceira o seu menino,

Pleno para o inusitado destino.

 

Um parto de fantasia masculina,

Tirou de Maria marca feminina,

E lhe auferiu a outra natureza,

Da plena virgindade de pureza.

 

Nas mães impuras e pecadoras,

Grávidas de esperas promissoras,

Sobrou somente frieza machista,

De relativizar aquela dor idealista.

 

Pastores relegados da sociedade,

Reconhecerem naquela realidade,

Lugar predileto da ação bondosa,

Que Deus indicava como vigorosa:

 

Não a dos palácios e dos poderes,

Nem o das honras e seus afazeres,

Porém, o da pequenez humana,

Da qual a bondade se promana.

 

Agir de Deus de baixo para cima,

Inverte o poder a reger por cima,

Que domina e subjuga os fracos,

Com a sua triste sina de velhacos.

 

 

 

 

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