segunda-feira, 15 de maio de 2017

Paradoxos


Incrível a insensatez humana,
Que deseja a paz e a profana,
Que quer unidade aprazível,
E a torna possessão horrível.

Anela por bom entendimento,
E vive no descontentamento,
Mesmo nos constantes pactos,
Rompe-os apesar de impactos.

Vive falando da paz desejada,
Mas mobiliza arma desaforada,
E move-se na constante guerra,
Com todo o pérfido que encerra.

Investe para formalizar acertos,
E aprofunda os frágeis consertos,
Que despertam outros embates,
E gestam os violentos combates.

Anuncia um espírito superior,
Mas faz um cotidiano inferior,
Que não renova as obsessões,
E nem modifica as possessões.

Enaltece sua sabedoria ilimitada,
E se ufana da obra conquistada,
Mas definha no próprio enleio,
Do orgulho em contínuo rodeio.




sexta-feira, 12 de maio de 2017

MÃE


Mais do que sentimento de pertença,
Encanta-me a memória da sua crença,
Que ensejou a minha chance de viver,
E diante das mil peripécias sobreviver.

O dom da sua existência alargou a vida,
Ao mundo aberto da visão enternecida,
De participar de uma ditosa convivência,
E de apostar em próspera sobrevivência.

A sua vida, graça de dádiva ressuscitada,
Eleva a recordação de uma lida recatada,
Mas, firme e aguerrida nas dificuldades,
E tão radiante nas diuturnas atividades.

Do profundo amor à sua prole gestada,
Emanou um senso de pertença sagrada,
Ao bloco familiar como núcleo precioso,
Do seu traço genuíno, alegre e dadivoso.

O cultivo da sua vida fecunda e alargada,
Estendeu-se na generativa família amada,
E enleva no mistério da existência humana,
Algo focado para além da razão doidivana.

Da perfectibilidade da sua rica existência,
Abre-se a firme baliza da transcendência,
Para os novos mundos eivados de sentido,
Que eclodem do seu coração enternecido.

Mais do que saudade da sua maternidade,
Evidencia-se esta graça da sua natividade,
Fruída e engrandecida até a condição senil,
Sob a crença do amor como causa varonil.








Nos caminhos de acesso a Deus



            Sabemos da multiplicidade de itinerários para o acesso a Deus. Muitos também já experimentaram a desilusão com alguns destes caminhos. Mesmo assim, os que acreditam ser fiéis a Deus, nem sempre constatam a garantida segurança de que seu caminho é o mais adequado.
            Como certamente ocorreu com os apóstolos, ocorrem em nossas experiências de fé muitas dúvidas e incertezas. Apesar da garantia dada por Jesus Cristo de que Ele é o “caminho, a verdade e a vida”, titubeamos em torno destas palavras de segurança.
            Tal como Tomé, que representa a segunda geração de cristãos – os que não tiveram encontro pessoal com Jesus de Nazaré, - a motivação em torno do caminho que mais possa aproximar-se de Jesus Cristo, não costuma ser um caminho totalmente claro e evidente. Requer um processo dinâmico de fé no que Jesus falou para acalmar a ansiedade dos discípulos, mediante sua informação de ficar pouco tempo com eles, mas também a sua auto-revelação de ser o caminho, a verdade e a vida. Por isso, ao lado das nossas dúvidas, alargam-se muitas incertezas a respeito das práticas religiosas que de fato ampliam a confiança e a esperança para amenizar a ansiedade em torno do que buscamos em Deus.
            Quanto ao desejo desta segurança capaz de nos mover em torno do que Jesus Cristo assegurou não nos evadimos de outra dúvida básica: se é através de Jesus que conhecemos a Deus como um apelo à busca da verdade, porque tantas doutrinas e tantas regras que submetem as pessoas e alargam os sentimentos de culpa? Se o absoluto de Deus passa pela mediação de Jesus Cristo, porque tanto apelo a doutrinas categóricas e a tão variados devocionalismos que deixam Jesus Cristo em posição literalmente secundária? 
            A palavra “verdade” não constitui expressão de uma realidade estática e imutável. Um conceito antigo identificava a verdade como a confirmação de um fato com a imagem processada no intelecto. Hoje sabemos que esta adequação pode ser altamente enganosa, porque a intelecção de algo está atrelada ao humor, aos medos e aos desejos. Por exemplo, um mau humor pode levar a interpretar um acontecimento bonito e bom como ruim e inadequado. Verdade, em nossos dias, pode significar um gradual desvelamento, o que é um processo para a vida inteira. Não se capta toda a verdade de Deus em intuição instantânea e completa. O risco desta concepção leva a rigores doutrinários que, em vez de assegurar um caminho de busca, nos atrela a afirmações estáticas que controlam pessoas, mas, que ficam distantes de levar ao jeito de Jesus Cristo.
            Diante do absoluto de Deus, manifestado em Jesus, - que foi vida para os outros, - porque submeter outros ao nosso pensamento categórico, que, evidentemente, não leva ao absoluto?
            Por isso, continuamos a ser interpelados pela palavra de Jesus, que seu caminho, muito mais do que teorização, envolve uma vivência que nos leva a experimentar, paulatinamente, na busca de Deus, a razão última da vida. Mais que afirmação doutrinária, implica num modo de vida!


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Rebotalhos



Tantas coisas insignificantes,
E posturas nada edificantes,
Roubam valiosos momentos,
E deixam a vida sem alentos.

A atenção nas quinquilharias,
Povoa a mente com ninharias,
E nos leva a mágoas cotidianas,
Por coisas tão banais e insanas.

No falso amparo que oferecem,
Os rebotalhos iludem e fenecem,
Mesmo empilhados por todo lado,
Não levam ao encanto propalado.

Tantas insignificâncias irrelevantes,
Levam a brigas e ódios atordoantes,
Sem acrescentar méritos ao nome,
E nem qualificar nada no renome.

No largo tempo da vida deslindada,
Muito pouca coisa ficou constatada,
Da real edificação do humano frágil,
Porque o enleio da miçanga foi ágil.

Enquanto a ninharia ocupa o cotidiano,
O torpor não afugenta o nível mediano,
Das relações de fachadas e aparências,
Sem, entretanto, alargar benevolências.


segunda-feira, 8 de maio de 2017

Etiquetas e mutretas



As etiquetas e formalidades,
Quando eivadas de vaidades,
Ferem o âmago da decência,
Mas bajulam a precedência.

Na proeminência de rituais,
Os aparatos e ritos formais,
Abafam o transbordamento,
E inibem todo o bom alento.

Tudo é ensaiado e repetido,
Como a nota e seu sustenido,
Mas, os efeitos dissonantes,
Não gestam ares extasiantes.

Desde as olheiras disfarçadas,
E com variadas cores pintadas,
A artificialidade das cortesias,
Não oculta visíveis hipocrisias.

O ar da emulação pelo brilho,
Desalinha mais que caudilho,
Perdido de seus referenciais,
E sem saber quem são rivais.

As coisas que vão ao coração,
Muito mais que a decoração,
Criam uma rara exuberância,
Que exala como a fragrância.




sexta-feira, 5 de maio de 2017

No fastio das más notícias



No fastuoso perfil mandante,
Um aparatoso clima reinante,
Apresenta as vagas novidades,
Cheias de vulgares obviedades.

A pompa do ambiente faustoso,
Subleva num quadro aparatoso,
O tédio de anúncios impactantes,
Sem elã para os atos edificantes.

A aborrecida inépcia de soluções,
Enche o imaginário de desilusões,
E na febril disfunção de propostas,
Some o alento em viáveis apostas.

Na desmotivação da repugnância,
Surge a decepção com a ganância,
Que aumenta tanta insana disputa,
Sem auferir resultado bom da luta.

No tédio que antecipa o evidente,
A memória do ilusório precedente,
Fala mais alto do que tanta falácia,
Que invade a mente sem a eficácia.

Que o fastio ceda lugar ao bom-senso,
E que esta crise indique um consenso,
Capaz de engendrar regras mais justas,
Para tirar os pobres do ônus das custas.









Saída do redil opressor



            Da alegoria bíblica do bom pastor, atributo dos reis e mandatários de muitos séculos anteriores a Jesus Cristo, nasceu também uma comparação figurada dos pastores que espoliaram as ovelhas, que, mesmo sob um discurso religioso da salvá-las, não as ajudaram em nada.
            O evangelista São João (10, 1-10) fez uma comparação da vida de Jesus Cristo em relação aos que, no passado, se proclamaram a si mesmos como bons pastores, e salientou diferenças notáveis, a começar pela identificação da voz do pastor. Os que identificaram a voz de Jesus Cristo perceberam que não se tratava de conversa enganosa de alguém que apenas visava explorar as pessoas. Ele mesmo foi na frente dos seus discípulos.
            Na imagem do curral seguro para as ovelhas, muitos reis demonstraram fazer exatamente o contrário. Davi, Salomão, Jeroboão e tantos outros, juraram fazer tudo para cuidar bem de todo o povo e se colocaram como os melhores secretários de Deus para bem servir o povo. Sua prática, no entanto, deixou conotação literalmente contrária, pois, valeram-se do povo para seus interesses pessoais.
            No que Jesus fez, ele se mostrou um curral seguro para as ovelhas. E não foi apenas um teórico visionário. Ele seguia na frente dos seus discípulos, amparava-os e os educava num itinerário de salvação. Por isso a comparação figurada de São João, viu em Jesus aquele que se constituiu no portal de saída do curral, constituído em redil de exploração das ovelhas. No agir de Jesus estava um apelo para sair daquele curral de leis e formalismos religiosos que escravizava o povo. Na imagem de levar para pastagens férteis e abundantes, estava a constatação do sentido da vida e das razões que indicavam outro modo de organização humana.
            Enquanto autoproclamados pastores não eram pastores, Jesus Cristo preenchia as razões de vida e indicava um caminho para uma vida solidária de frutos abundantes.
            Hoje quando nos vemos assaltados por espertalhões que dizem fazer o bom e o melhor para as comunidades, ficamos em dúvida a respeito das promessas que fazem.

            Possa a nossa conduta estribar-se pelo modo de ser de Jesus Cristo a fim de acompanhar uma Igreja “em saída”, que realmente caminha para a simbólica imagem de “bom pasto” para todas as ovelhas, e, para os que, em nome de Deus, querem conduzi-las. Também é importante assimilar os traços do bom pastor e não ficar apenas alimentando simpatia a admiração por ele, sem, contudo, produzir algo dos seus sinais.

<center>SOB PENSAMENTO ACELERADO</center>

  Na lógica da elevada conectividade, Sem lugar na agenda para atividade, E sem o horário para conversa à toa, Tudo come tempo e tud...