segunda-feira, 31 de março de 2014

Profetas e profetas



Na vastidão das formas,
Difícil se torna delinear,
Se eles defendem normas,
Ou se as querem eliminar.

Há os que defendem grupos,
E declaram ferrenha oposição;
Já, outros, bajulam aos apupos,
A coorte que sustenta sua posição.

Tampouco faltam os sábios literatos,
Defensores dos ordinários chamegos,
Bem como intrépidos e nada pacatos,
Na defesa dos seus próprios apegos.

Vasta também é a linhagem,
Dos que interpretam os astros,
Vôos de aves e, sem plumagem,
Na adivinhação, forjam seus lastros.

Outros, nas vagas interpretações,
Captam mundos e fundos dos sonhos,
Mas, suas propaladas interlocuções,
Refletem deslizes sorrateiros e medonhos.

Bom seria encontrar profetas visionários,
Capazes de interpretar raízes da humana lida,
E antever caminhos que não sejam reacionários,
Diante da sociedade de estrutura combalida.



sábado, 29 de março de 2014

Escarafunchada nas escaramuças



Quando tantos problemas levam a escaramuçar,
E sempre, de novo, voltar ao mesmo lugar,
Por que não meter-se a escarafunchar,
A possibilidade de aventar outro ar?

Muitos sentimentos feridos e mal integrados,
Requerem nada mais do que um pequeno mimo,
Mas não muito e o tanto para deixá-los reavivados,
Nem o pouco para se perpetuarem no mesmo arrimo.

Convém, pois, o jeitinho peculiar e esportivo,
Da discreta gozação do fiasco ocorrido,
E a brincadeira, o melhor lenitivo,
Saberá como integrar o fato aborrido.

Quando de mazelas a vida enche as trelas,
Nada mais singelo em torno de tanto anelo,
Do que rir das próprias querelas,
E escolher temário mais engraçado e belo!



sexta-feira, 28 de março de 2014

Entre as candongas e as milongas



Oh, arte difícil de conquistar:
Andar sobre os muros,
Das sociais convenções,
Sem despistar,
Os reais apuros,
E os senões.

Débil e frágil é a firmeza,
Diante das candongas,
Que seduzem sem delongas,
E removem a inteireza,
Da postura serena.

Sensível também é a alma,
Diante das milongas,
Quer dos ritmos ou dos bruxedos,
A ameaçar o que acalma,
Sem maiores delongas.

Mesmo ciente da volatilidade,
Das conversas lisonjeiras,
Bajuladoras e interesseiras,
Eclodem à saciedade,
Os ledos enganos.

O medo do sortilégio da milonga,
Afeta o cotidiano agir,
Assim, como o mimo da candonga,
Impede a segura virtualidade,

No seu espontâneo espargir.

quinta-feira, 27 de março de 2014

A complicada cegueira de fé



            O desejo do alcance de níveis mais elevados e mais profundos de fé não está livre e nem isento de fáceis auto-enganos. Ao mesmo tempo, constitui tentação a busca de maior solidez de fé, sem os necessários percursos e os importantes processos de auto-análise e reinterpretação do passado para real crescimento na fé.
            No campo da fé, com certeza, número muito elevado de cristãos vive uma cegueira congênita, isto é, foi feito cego na fé pelo seu ambiente de criação e de convivência. A forma de socialização faz com que muitas pessoas não passem de cegos de nascença.
 Estas pessoas foram educadas para a submissão, para a dependência e o entorno do meio-ambiente as acostumou a se pensarem como seres fadados a pedir esmola, não de comida, mas, especialmente, de atenção, de afeto e de complacência por parte das outras pessoas.
É uma sutil disfunção que torna estas pessoas dependentes e incapazes de sair da situação existencial, porque o próprio ambiente se acostumou a aplicar-lhes este rótulo de que são assim mesmo e elas fizeram introjeção desta imagem. Sob um olhar fixo, o ambiente leva-as ao conformismo.
            A questão que se coloca é como tais pessoas dependentes possam vir a dar-se conta de que são dependentes? A consciência do limite pressupõe um importante meio para se chegar ao alcance de mais fé. Entretanto, como é grande a busca de caminhos rápidos e fáceis para o alcance de muita fé! Muitas pessoas ainda se movem pela dedução de que, com o aumento de fé, alcançam espaço social de superioridade para interferir sobre outras pessoas.
            Nas primeiras comunidades cristãs muitas pessoas encontraram reais e efetivas dificuldades para crescer no seguimento de Jesus Cristo. Até mesmo a pressão social do grupo de envolvimento dos que queriam enxergar mais e melhor, abafava iniciativas pessoais e forçava pessoas dependentes a ficarem mais ou menos no mesmo patamar.
            O evangelista João ao refletir teologicamente sobre este duplo significado do “ser cego” e da possibilidade “de ver”, relatou um episódio muito interessante em torno de um cego de nascença. O cego quis enxergar e Jesus também quis ajudá-lo, mas, as pessoas ao seu redor tiveram mil resistências para admitir que esta pessoa, sem fé, tivesse trabalhado sua cegueira e enxergasse, ou seja, que passou a ver o seguimento de Cristo sob outros olhares: não mais da mendicância, mas do anúncio da boa novidade que salva.
            O ato humanitário de Jesus Cristo não foi de magia fácil e sensacionalista. Valeu-se da terapêutica vigente na época, passou barro com saliva nos olhos, e, o que é mais importante, mandou o cego procurar o enviado. Neste processo, o cego passou a “enxergar”. Não se tratava, por conseguinte, de uma cegueira de olhos, mas, com certeza, de uma cegueira de fé.
            A mudança do modo de ser do cego gerou uma porção de contendas. Cada um queria saber melhor do que o outro porque ele era cego, e, por quais mediações estava enxergando. Como ele passou a “enxergar”, os presumidos clarividentes da fé é que se viram situados como os verdadeiros cegos. Estavam extremamente preocupados em torno do saber por que o antigo e conhecido cego, deixou de ser cego, mas, se mostraram pouco afoitos para adotar a mediação e o seu itinerário de fé.
 Numa das respostas de Cristo aos invocados com a mudança do cego, estava uma afirmação bem contundente: que os verdadeiros cegos eram precisamente aqueles que presumiam enxergar tudo.
            Uma das penosas dificuldades em nossas comunidades cristãs circula em torno desta mesma questão: pessoas verdadeiramente cegas de fé querem com alguns ritos, rezas, novenas e salamaleques, ocupar a onipotência de Deus e forçar outras pessoas à submissão.
Há muitos verdadeiros cegos ocupando espaços importantes de paróquias, de pastorais e de movimentos que se revelam bem mais cegos do que aquelas pessoas do tempo de Cristo. Estão mais inquietas com o deslocamento que foca somente possíveis causas secundárias de um cego de fé que, em Cristo, encontrou a luz que precisava para “enxergar”. Também resistem a admitir que outros cegos deixem de ocupar a função de mendicância diante de pessoas controladoras que se acham insubstituíveis e inalcançáveis nos seus patamares de fé. Trata-se, muitas vezes,  de uma fé de meros costumes medíocres.


Humor



Entre os fulgurantes desejos,
Mesclam-se os taciturnos,
Não propensos aos ensejos,
Mas reféns dos medos soturnos.

Nem sempre o raiar da aurora,
Aparece em clima refulgente,
E vem atrasado pela demora,
De alguma mágoa renitente.

Necessita, então, a consciência,
De ação máxima na madrugada,
Para livrar-se da reminiscência,
Da dor escondida e protelada.

Pode então a luz solar acordar a aurora,
E com suave lupa as pálpebras massagear,
Para chegar ao cérebro, sem muita demora,
E ajudá-lo a mensagens novas delinear.

Emerge, então, o fenômeno sutil,
Apontando a pré-cognição de belo dia,
Capaz de irradiar o semblante e o perfil,

Com a exuberante sensação de vida sadia.

quarta-feira, 26 de março de 2014

No sarandeio da anta

No sarandeio da Anta

Dizem que tem inteligência de rinoceronte,
E psiquismo genial como grandes elefantes,
Mas, ao atravessar-se na estrada, é um monte,
De rumos, de danças e decisões inconstantes.

Quando envereda a tomar uma direção,
Nem sempre a de evadir-se da estrada,
Pouco liga para respeitar a sinalização,
Ou, no impacto da colisão, ficar lesada.

Apesar dos sarandeios atrapalhados,
Que inquietam os afoitos motoristas,
Representa riscos menos propalados,
Do que humanos montes nas pistas.

Pior do que as antas desengonçadas,
São as ditas governantas do sagrado,
Que, além de não serem engraçadas,
Causam tremendo e cotidiano enfado.




domingo, 23 de março de 2014

Contenda entre Deus e o Divino Pai Eterno



            Em meio aos devaneios próximos da morbidez de uma madrugada escura, vi-me envolvido por um ato alucinatório em que apareceu uma anjinha, muito mais linda do que as das imagens, irradiante e formosa, e que veio cochichar no ouvido esquerdo, de modos que o ar da sua fala sibilava suavemente nas reentrâncias da orelha:
- Sabes de uma coisa, - falou ela, com aquele jeitinho um tanto fofoqueiro, mas sedutor e atraente! - Eu acabo de presenciar uma discussão ferrenha entre Deus e o “Divino Pai Eterno”. O assunto era sério, e, até desconfiei que chegassem a medir forças no braço!
- Uai! Qual poderia ter sido motivo tão grave para eles revelarem traços precípuos, peculiares e cotidianos dos seres daqui da Terra? Não parece tal procedimento ser pouco lisonjeiro para a circularidade do amor trinitário?
- Pelo que eu pude constatar – disse a anjinha - Deus não está nada satisfeito com os procedimentos do “Divino Pai Eterno”. Acontece que o “Divino Pai Eterno” se envolveu na tentação da alma humana de colocar-se acima de Deus! Anda pretensioso e ambicioso demais. Já está muito pior do que Baal que minou, com quatrocentos sacerdotes, a religião do judaísmo num momento da sua história. Aquele santuário “Divino Pai Eterno” lá no sertão de Goiás, que um pretenso séquito de sacerdotes redentores está levando à frente, parece que não combina nada com tudo quanto fora proposto e testemunhado por Jesus Cristo. Deus disse que o pior é que exploram a piedade popular e nas suas melífluas conversas, mescladas de alguns ritos mágicos, submetem ricos e pobres de todo o Brasil. Através de apelação insistente à dadivosa contribuição mensal para a residência oficial do “Divino Pai Eterno” no Brasil, praticam algo parecido com extorsão, e, desviam a pertença das pessoas da sua comunidade concreta e real, para fazê-las vincular-se, apenas virtualmente, àquela suntuosa residência. Num escândalo aparentemente tão ignóbil quanto o do santuário da antiga Betel, só se fala em grandes ações divinas; mas, sorrateiramente, transforma-se a religião em comércio banal e lucrativo, e, que aliena as pessoas de fé dos seus elementos básicos da articulação solidária em comunidade.
- Jesus amado, até isso?
- Sim, disse a anjinha: ouvi Deus falar que lá na Terra estão soltando conversa de que o “Divino Pai Eterno” já se encontra bem acima Dele e que os agraciados do “Divino Pai Eterno” exploram através de aviltantes pedágios os poucos acessos de impregnação do divino que ainda não foram amealhados pela esperteza de alguns pastores, bem conhecidos lá no Brasil.
- Mas, linda anjinha de Deus! Quer dizer que Ele deu uma esfriada nos ânimos do “Divino Pai Eterno”?
- Pelo que observei, sim!
- Ainda bem, porque eu ando meio desconfiado de que certo jeitinho bem brasileiro detém a virtualidade de incorporar o céu e a terra sob a égide do “Divino Pai Eterno”. Oh, maravilha, pois, fico um tanto mais sossegado. Sobra, então, pelo menos uma tênue esperança de que um dia ainda se adorará Deus em “espírito e verdade” e não na subserviência das disputas dos que querem, sob o suposto poder hegemônico do “Divino Pai Eterno” ou de outras fontes de milagre apossar-se das almas para salvar seus parcos soldos, a fim de completar a residência oficial do presumido todo-poderoso, bem no coração de Goiás.
- Quando fui abrir a boca para pedir se a anjinha tinha mais alguma novidade interessante lá das egrégias beatitudes dos céus, acordei supinamente, e perdi de vista aquela criatura fulgurante. Oh dó!


<center>FENÔMENOS CLIMÁTICOS</center>

  Cada vez mais seguidos e intensos, Causam mortes e pavores imensos, E tudo leva a crer que os culpados, São os humanos com atos er...