quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O macaquinho Fifo


(Para crianças)



I
UMA VISITA INESPERADA

O estado do Mato Grosso, apesar de todos os avanços de lavouras e criações de bois, de vacas, de frangos, ainda apresenta grandes quantidades de áreas com matas nativas e muitos rios bonitos e com grande quantidade de peixes.
Lucas do Rio Verde é um município muito privilegiado, onde, ao lado das indústrias e da grande produção nas lavouras, ainda se podem ver lindas matas e ali sobrevivem muitos animais selvagens. No centro da cidade existe uma área de 70 hectares de mata nativa, onde vivem macacos prego e muitos outros bichos.
Um bairro novo da cidade recebeu o nome de Parque das Emas. Mesmo que este bairro seja belamente urbanizado, perambulam, de vez em quando, bandos de Emas que caminham calmamente pelas ruas, como se fossem pessoas a olhar para as casas e as flores dos jardins.
 Também é muito agradável observar-se o vôo de bandos de araras, de papagaios, de garças, de tesourinhas e de outras espécies de pássaros. Podem ouvir-se, também todos os dias, os cantos dos perdigões que se escondem sob o capim dos terrenos baldios. Eles despertam a agradável sensação da vida dos sítios rurais.
Pedro Júnior, quando foi morar no Parque das Emas, teve logo a preocupação de encher seu terreno com o máximo de variedades de plantas ornamentais e frutíferas, a fim de atrair muitos passarinhos. O que não esperava foi constatar, no amanhecer de um belo dia, que dois macaquinhos sagüis estavam saltitando na varanda da sua casa. Mesmo que os bichinhos não entendessem sua conversa, Pedro falou imediatamente:
- Podem ficar morando aqui que vou ajudar a protegê-los do melhor modo possível! Olhou-os com atenção e Pedro pensou que eles deviam ter entendido sua mensagem de boas vindas.
Mesmo desconfiando que os belos animaizinhos fossem permanecer ali, apenas por algumas horas, Pedro foi se surpreendendo com a constatação de que eles demonstravam gostar do lugar e começaram a familiarizar-se cada dia mais com o ambiente. Saltitavam de um galho de arbusto para outro, o dia todo.

II

UMA INQUIETAÇÃO

 Restava uma inquietação em Pedro: teriam estes sagüis alimento suficiente para sobreviver neste pequeno espaço, que, apesar de conter mais de cento e vinte variedades de plantas, ficava muito mais pobre em alimentos do que uma floresta com sua grande capacidade de fornecer alimentação saudável para estes minúsculos macaquinhos?
Pedro pensou em colaborar um pouco e ajudar a completar sua alimentação. Ao mesmo tempo ficou preocupado, porque não queria que eles perdessem seus bons costumes de vida do mato. Seria triste fazê-los dependentes como gatos e cachorros. Pedro não queria de maneira alguma domesticá-los. Pensou logo que banana costuma ser o alimento predileto de macacos, mas, para não viciá-los, pensou começar deixando uma maçã sobre a haste de um arbusto.
Rapidamente os macaquinhos se aproximaram da bela maçã, mas, não fizeram como Adão e Eva. Eles simplesmente não se arriscaram a dar uma mordida nesta fruta avermelhada e bonita. Pedro, então, desconfiou que a fruta fosse muito grande e difícil de ser mordida por bocas tão pequenas. Resolveu fatiá-la, mas, a maçã foi comida por passarinhos e outros minúsculos seres que também habitavam o jardim.
Pedro tentou oferecer aos belos macaquinhos algumas outras frutas como manga, melão, laranja, mas observou que os animaizinhos não lhe deram o gosto de provar qualquer uma destas variedades de alimento.




III

CURIOSIDADE SOBRE A ALIMENTAÇÃO DOS SAGÜIS

Pedro Júnior foi, então, ler o que estava escrito no site do Google sobre a vida dos macaquinhos sagüis. Lá aparecia que os sagüis se alimentam somente de pequenos insetos e da seiva de plantas, sem, contudo, estragar as plantas e tirar delas toda a seiva.
 Eles não sugam muita seiva de um arbusto. Roem um pequeno furo na casca para que ali se deposite a resina. Esta resina vai servir-lhes de alimento. Assim, eles fazem pequenos furos em muitas árvores e arbustos para não prejudicar a vida destas plantas com a seiva que tiram delas, isto é, só comem um pouquinho de seiva por vez e depois vão para outras plantas e fazem o mesmo.
O interessante é que a natureza da árvore rapidamente fecha a pequena cavidade roída, e faz crescer um preenchimento de casca, assim como em nosso corpo quando nos cortamos um pouco na pele: esta machucadura sara rapidamente e muitas vezes sem nenhum remédio.
Um alívio! Os sagüis poderiam perfeitamente sobreviver naquele espaço. Os dias foram passando e a dupla de sagüis ficava mais à vontade no ambiente. Parecia que os dois apreciavam a proximidade de Pedro, porque, quando ele se sentava na sombra para tomar um tererê, gostavam de aproximar-se dele.
 Pedro, mesmo assim, não lhes deu grande confiança porque não queria que os macaquinhos perdessem seus hábitos de vida, isto é, não queria que ficassem mansos como os gatos, mas, que os bichinhos continuassem a viver do jeito como seus antepassados sobreviveram nos matos, sem serem atrapalhados pelas pessoas humanas.

IV
UMA NOVA SURPRESA

Os dias foram se passando e num belo dia, uma surpresa: um minúsculo macaquinho de apenas alguns centímetros, agarrado no pescoço da sua mãe sagüi, com um olhar arregalado e fixo. Alguns dias depois, estava aquela criaturinha de nada agarrada nas costas do seu pai.
Pedro foi então mais uma vez consultar no site do Google a respeito de como os sagüis alimentavam seus filhotes. Encontrou a bela informação de que os machos ajudam as fêmeas a cuidar do filhote para permitir que a mãe dele se alimente melhor e possa amamentar adequadamente seu filhote.
 Mais uma novidade: este minúsculo animal poderia também sobreviver neste espaço do Parque das Emas.
Passadas algumas semanas de muitos e atenciosos olhares para ver o que se passava na vida dos três sagüis, Pedro pensou em dar um nome ao filhote de sagüi. Seus pais sagüis não tinham nome, mas, esta pequena criatura, poderia receber um nome simpático.


V
O BATISMO DO PEQUENO SAGÜI

 Sem cerimônias batismais e sem unções de óleo e água, Pedro começou a repetir, seguidamente, a palavra Fifo, toda vez que os sagüis andassem próximos dele.
 Aos poucos, o danadinho parecia reagir com atenção cada vez que se falasse Fifo. O procedimento foi aumentando e quando Fifo começou a saltitar de um galho para outro a simples fala do seu nome o despertava para chegar mais perto e fazer mil gracinhas e meneios com a cabeçinha parecida com um grão de feijão de tão pequena que era.
 Sem a natural distância mantida pelos seus pais, Fifo poderia ter sido desviado dos costumes e dos hábitos básicos dos macaquinhos sagüis, mas, Pedro sempre se preocupou para nunca pegá-lo nas mãos, apesar de que o pequeno brincalhão gostasse de mexer nos seus chinelos e aproximar-se do lugar onde ficava sentado para tomar o tererê.
 Sem demora, toda vez que Pedro ia sentar-se para seu costumeiro momento de tererê, rapidamente estava lá, ao seu lado, o Fifo, fazendo gracinhas como uma criança pequena e parecendo ter necessidade de chamar atenção sobre si. Era impressionante como pulava, se escondia, subia e descia numa velocidade supersônica nos arbustos e saltava longe de um galho para outro. Parecia uma criança hiperativa que desejava de todo jeito ser observada.




VI
UMA SURPRESA DESAGRADÁVEL

Tudo parecia desenrolar-se maravilhosamente bem na vida dos sagüis. Um dia, porém, Pedro teve uma surpresa muito desagradável. De manhã cedo, ao abrir a porta da casa, constatou que a mãe de Fifo estava morta, estirada no chão da varanda.
Um sentimento de tristeza foi entrando em sua vida e Pedro logo pensou no pior. Só pode que a mãe de Fifo morreu por efeito de febre amarela. Ela deve ter sido picada por algum mosquito infestado, e isto, certamente, significaria também a morte do Fifo e de seu pai. Como Fifo ainda era tão pequeninho, iria morrer com certeza.
Ao mesmo tempo em que o triste fato estava levando Pedro a pensar no pior, um pouco de esperança voltou a aumentar a respeito de Fifo. Pedro levou o corpo da mãe de Fifo ao centro de vigilância sanitária para que ali fizessem uma análise sobre possíveis causas da morte. Foi constatado que a mãe de Fifo não morreu de febre amarela. Bem, um perigo a menos. Mesmo assim veio outra desconfiança na cabeça de Pedro: e se o pai não fosse cuidar do Fifo?
A desconfiança de Pedro era a de que o pai de Fifo fosse embora à procura de outra parceira. No entanto, não foi isso que aconteceu. Por muitas semanas o pai de Fifo mostrava-se afetuoso com Fifo, mas, ao mesmo tempo, despertava verdadeira tristeza, porque subia no galho mais alto do pé de Tamarindo que se destacava sobre os demais arbustos, e emitia, durante horas, um triste assobio. Fifo ficava do lado e não brincava mais como antes.
Pedro, sentindo o desconforto daqueles tristes sons soltados aos altos céus, imaginava que a qualquer belo dia os sagüis não estariam mais ali, ou porque teriam sumido à procura de outros sagüis, ou porque teriam morrido de desgosto.

VII
UM ACONTECIMENTO INESPERADO

A história, porém, apresentou um final inesperado, parecido com alguns casos de pais quando um deles morre e a mãe ou o pai encontram um pai ou uma mãe adotiva para suas crianças pequenas: provavelmente os estridentes assobios foram um jeito do pai de Fifo se comunicar com outros sagüis que, por acaso, poderiam passar ali por perto.
Um dia, uma misteriosa surpresa: ao chegar à varanda da casa, depois de levantar de um bom sono, Pedro viu algo que o deixou pulando de alegria, porque estava vendo três sagüis. Deu-se conta de que não estava sonhando, e, então, foi fazer seu costumeiro tererê com especial motivação de alegria.
Sem saber sobre como e de que formas as coisas aconteceram no mundo dos sagüis, estava ali outra fêmea, grande, linda e robusta. Mesmo um pouco mais distante e desconfiada do que Fifo e seu pai, acostumados a ficar próximos de Pedro, ela, entretanto, se mostrava bem mais forte que Fifo e seu pai, porque estes, devido às longas horas que passavam no topo do pé de Tamarindo, acabaram ficando bem magros.

VIII
A RECUPERAÇÃO DA ALEGRIA

 Mais do que a alegria de ver uma parceira para o pai sagüi, foi constatar que Fifo recuperou de novo toda a alegre e encantadora energia que possuía antes. A madrasta sagüi assumiu Fifo com um jeito muito bonito, igual ao de muitas mães: foi passando suas finas e alongadas mãos carinhosamente por todo o corpo e puxando os pelos de Fifo de um lado para outro para catar algum piolho ou outro bichinho ali escondido.
 Com o passar de mais alguns dias, Fifo começou a crescer e assim foi se tornando mais forte e brincalhão. Fifo também voltou a ser mais esperto com suas traquinagens para ocupar cem por cento da atenção de Pedro nas horas do tererê.
Passados mais alguns meses, nova surpresa na varanda da casa. Pedro pode constatar que a bela madrasta de Fifo, teve a sorte de poder mostrar uma dupla de pequenos macaquinhos agarrados no pescoço.  Eram tão pequeninhos que quase não podiam ser vistos e se confundiam com a pele da mãe sagüi. Dali para frentes assobios destes minúsculos seres tornaram-se mais uma nova atração no meio dos arbustos da casa de Pedro. Como nas novelas, tudo acabou num final feliz. Até o Fifo ficou ainda mais brincalhão.




domingo, 17 de novembro de 2013

O galo valente e os franguinhos do terreiro



Num longo processo de superação, de lutas emancipacionistas e de ambições alargadas ao infinito, o galo valente conseguiu, finalmente, reinar no terreiro. Passou a criar ordens e a mobilizar esquemas com galinhas e outros frangos submetidos ao seu poder, regado por sonhos imensuráveis. Seu propósito central visava que todos aceitassem as instâncias superiores do poder público do reino dos frangos, especialmente, a partir do que fora estabelecido por ele, para rapidamente chegarem à plenitude da felicidade.
 Um séquito de súditos servis passava a maior parte do tempo a bajular o galo valente, tanto pela versatilidade do seu cantar, quanto pela sua imponência e pelos seus amplos poderes no terreiro. Ele, airoso de si mesmo, tinha um vasto sistema de publicidade, pois, uma quantia razoável de galináceos ocupava-se exclusivamente da produção de galanteios, cacarejos e de apaixonadas defesas de tudo quanto presumia do valente e destemido salvador da pátria. Ele, por sua vez, arrastava asa para todo lado e andava de cabeça vermelha de tanto cantar seus presumidos poderes, transformados em ações a favor do bem-estar de todos os galináceos.
Longo tempo se passou, e, muitíssimos cantos floreados e vigorosamente bem orquestrados moldaram um imaginário coletivo que levou todas as aves a pensar, sentir e defender com veemência, que não poderiam viver felizes sem os indiscutíveis préstimos do poder estatal e da sabedoria racional do galo valente.
O galo valente, como um polvo de muitos tentáculos, criou serviços, ministérios, planos de saúde, aparato bélico e legislações à exaustão para persuadir que seu papel e correspondente serviço constituíam as únicas mediações viáveis para o amparo, a proteção e o desvelo em favor de todas as galinhas.
O galo valente ficava todos os dias, horas e horas a cantar, nos mesmos tons, que a democracia por ele instaurada era insuperável e profundamente necessária ao bem-estar de todas as galinhas.   Seus séquitos ampliavam diuturnamente este coro do que deveria ser pensado e admirado para o conforto e a segurança de todos. Tampouco faltavam galinhas ao seu redor para aumentar a bajulação e o clima de profunda comoção em torno do aparato de seus deslocamentos.
Lenta e sorrateiramente os galináceos do terreiro passaram a explicitar que o ambiente não estava satisfatório, apesar das incontáveis instâncias burocráticas e dos discursos cada dia mais grandiloqüentes em torno do bom reinado. Aos poucos, foi crescendo o encanto por outras coisas que não adviessem da instituição pública e nem da organização social instaurada pelo galo valente.
 Os pintinhos e os franguinhos novos passaram a não demonstrar o menor interesse pelo mundo tão estruturado, organizado, rigoroso, militarizado e racional. Eles demonstravam mais interesse por coisas muito mais fugazes, momentâneas, dispersivas, fluídas, e nada de muitas raízes históricas e nem mesmo de projetos futuristas. Na verdade, apreciavam mais as cores das penas, o volume das coxas, as “sambicas” em seus contornos, a abrangência das asas, os ornamentos do pescoço e os aparatos da crista e das pequenas esporas emergentes nas pernas dos franguinhos.
O desinteresse foi se tornando paulatinamente maior com as diárias informações relativas à corrupção dos súditos parasitas do galo valente. Eles falavam uma coisa e faziam outra. Constatada esta contradição, foi aumentando, a largos passos, a busca de agregação por interesses somente estéticos, provisórios e emocionais.
 Sem demora, as rígidas regras éticas, religiosas e públicas a serviço dos interesses do galo valente passaram a ser assimiladas como conversas típicas e balofas, que visavam somente assegurar vantagens pessoais dos galos mandantes e de seus súditos igualmente interesseiros: mera fachada para poucos privilegiados.
O anonimato decorrente desta desatenção do ostentado e exaustivamente propalado poder messiânico e público, despertou progressivo alargamento dos desejos de evadir-se da impessoalidade, da tutoria e do monitoramento exercido pelo mega-poder do galo valente.
Começaram, então, a surgir grupos provisórios, nem para tramar algo contra o valente galo, nem para ajudá-lo em eventual proposta renovadora para a vida, mas, simplesmente para valorizar novos códigos de valor, como a beleza, o bem-estar, as formas espontâneas, soltas e a fruição do estarem juntos.
Por mais que o galo valente se empenhasse em alargar seus poderes e seus cantares a fim de persuadir que todos deveriam atrelar-se a ele para estarem bem, cada dia maior número de frangos e galinhas passou a valorizar a sensação gostosa do agrado em torno das coisas estéticas.
 Nada de interesse em torno da lógica, de grandes discursos, e, nem de explicações universalistas do “por que” e do “para que” as coisas galináceas do terreiro deveriam ser feitas desta ou daquela maneira.
Para o espanto no terreiro, os franguinhos novos não estavam desprovidos de senso crítico, mas, seu modo de protestar contra o imperialismo cultural do galo valente, não usava os mesmos recursos a serviço daquele mandante: protestavam pelo próprio corpo, mostrando partes íntimas e, pelo modo de cantar diferente, bem como pela forma de se aprumarem com a roupagem das penas.
 Como não se guiavam pelos estatutos oficiais, nem pelos regimentos e, menos ainda, por leis categóricas, a organização do galo valente, mesmo com todo aparato cerceador, começou a perder o controle dos frangos espalhados no terreiro. Um e outro franguinho se mostrava um pouco mais violento e desprezava certas raças de galinhas presentes no seu ambiente, mas, de uma forma geral, todos eles demonstravam insatisfação uniforme diante do aparato afrontoso, controlador e dispendioso do galo valente, que os induzia a sonhar, mas que, na protelação do que prometia, os forçava impreterivelmente ao anonimato e à impessoalidade e à desesperança.
A novidade maior dos franguinhos foi a de se socializarem de formas novas e distintas das tradicionais maneiras de educação galinácea no terreiro. Eles ignoravam o mundo das regras, das normas, das sanções que os envolveram no período da incubação e nos primeiros passos em torno das chocas super protetoras. O que mais os aproximou foi mera afinidade em torno de gostos, de passatempos e do desfrute de sentimentos frugais.
Os franguinhos insubordinados, por outro lado, não revelaram nenhuma propensão fundamentalista, no sentido de pretenderem condições de vida anteriores ao magistral sistema organizativo do galo valente, mas, tampouco apontavam para novos projetos futurísticos.
 Para eles, empolgantes se tornavam apenas as atrações em torno de mediações geradoras de prazer, e de desfrute de situações as menos racionais e lógicas possíveis. Com isso, apontavam para o fracasso de todo o aparato oficial do galo valente. E, sem maiores comentários, evidenciaram despreocupação com o espaço do terreiro, com as legislações vigentes e estabeleceram como referência de valor apenas o pequeno e micro-território dos encontros espontâneos e meramente fortuitos: bastava o estarem juntos, enquanto esta proximidade lhes propiciasse sensação de bem-estar.
Toda esta inovação, no início, apenas vagamente explicitada, repercutiu como uma comunicação importante ao império cultural do galo valente: as estruturas racionais da democracia do galo valente prometeram muito, mas, provaram à exaustão que foram de ineficácia extraordinária para a vida real e efetiva dos frangos do terreiro. Assim, o endeusado e enaltecido patamar do poder do galo valente, sumiu pelos ares, mais veloz do que as ondas dos seus cantos e a descoloração dos pômulos faciais avermelhados pelo esforço de cantar com floreios para mostrar-se convincente.


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Rapsodos de uma patuléia de sonhadores



         Brasília não é apenas a capital do Brasil.
 Por ser capital, atrai muitos olhares atentos em torno das grandes decisões político-administrativas e das inovações esperadas em favor de legislação válida para todos os cidadãos.
Por outro lado, não deixa de atrair interesses mais aristocráticos de quem quer estar mais próximo do poder, para dele haurir muitas vantagens.
Como poderia funcionar esquema tão sutil e perverso para os sonhos da maior parte dos membros do país, que se encontra muito aquém do mínimo necessário?
 Certamente nada disto seria possível sem o embalo de bem orquestrada rapsódia que faz uma imensidão de pobres sonhar com a ostentação dos aristocratas. Diariamente versos e informações, por meio de muitos signos e exploração de imagens, enaltecem o lucro invejável, rápido, fácil, e, vida regalada por iguarias pouco comuns nas mesas dos brasileiros.
            Os anunciadores das maravilhas da capital repetem a milenar tática dos “rapsodos” do tempo trágico da Grécia antiga. Ocupavam-se aqueles poetas cantadores, a serviço da aristocracia oficial, para cantar versos de enaltecimento desta elite, como os dos banhos das donzelas no leite de cabra a fim de se tornarem mais cheirosas, pernósticas, insinuantes, e, não se cansavam de cantar a exaltação de festanças das noites regadas com vinhos finos, orgias e comilanças à exaustão.
Os pobres escravos, ao ouvirem as cantilenas, continuavam sonhando com as possibilidades paradizíacas de Atenas, e assim iam anestesiando o corpo na dura lida do trabalho camponês. Pobres, explorados, mas, com sonhos dos mais elevados em torno da perversidade dos ricos, transformada em fantasia para ser consumida em pílulas, um lenitivo de poderosa capacidade espoliadora.
 Tudo ia muito bem até que Hesíodo se proclamou rapsodo (poeta cantador) com a justificativa de que havia sido inspirado por algumas musas e, com tal elevação, passou a percorrer o itinerário dos demais cantadores ambulantes.
 Hesíodo, entretanto, não cantava o enaltecimento da elite para fazer os pobres sonhar e cantarolar - enquanto sofriam e suavam nas duras lidas, - mas, passou a cantar os valores dos homens da terra e a grandeza que significava o ganhar pão de cada dia, com o suor do próprio rosto. Sem muita demora, esta rapsódia passou a ser mais sugestiva e insinuante do que aquela proveniente de Atenas. Assim o povão passou a não se conformar com a continuação da vida escrava e explorada através do fantasioso apelo às excentricidades de poucas famílias ricas, como algo possível para ser desejado e vivenciado em suas vidas.
As diuturnas notícias em torno da forma como a elite da nossa capital “deita e rola” com o dinheiro dos impostos, com os superfaturamentos, com os salários invejáveis, com a beleza das mansões, interpelam irresistivelmente qualquer imaginário de sujeito pobre, pois afinal, quem não gostaria de ver-se agraciado por tanta ventura?
A afluência de muitíssimos milhares de brasileiros ao entorno da capital representa, certamente, o desejo profundo dos seduzidos pela moderna rapsódia da mídia eletrônica, movidos por um desejo intenso de conseguir, - senão o nível máximo da fantasia, - pelo menos, desfrutar das migalhas desta elite. Se ela foi capaz de agir com extraordinária e esperta desenvoltura para empanturrar-se em torno do público e do alheio, porque precisariam estas multidões ficar resignadas nas longínquas possibilidades de serem felizes?
A rapsódia que cotidianamente enaltece a vida fácil e burguesa da capital, também está em crise, pois, já não consegue manter a imensidão dos modernos escravos na subserviência de trabalhos explorados. Eis, pois, na cabeça dos pobres, a pretensão, a tática e o intento dos ricos! Querem valer-se da mesma impunidade e, por isso, a desfaçatez com que se rouba na capital e nas cidades do seu entorno, não comporta espaço suficiente para todos os interessados em grandes roubos. A evidência está clara na gritante insuficiência de cadeias para todos quantos deveriam ser presos.

Como a impunidade anda solta, uma antiga tática de guerra praticada pelos babilônicos contra a elite do povo de Israel, poderia eventualmente oferecer uma pista para um razoável procedimento: fazer esta elite caminhar enfileirada para uma área distante do Amazonas, desde que não seja próxima de área navegável, - a fim de não seqüestrarem os barcos, - e fornecer-lhe cesta básica por três meses, mais algumas ferramentas e um saco com algumas sementes e, com uma ordem: que vivam do que produzem com o trabalho das próprias mãos, assim como a maioria deste país se vê obrigado a fazer!

A oração da "Ave Maria"



            Seguem alguns dados curiosos extraídos de um estudo feito por Clodovis Boff[1].
·        A oração da “Ave Maria” apresenta três partes:
a) Lc 1,28: “Ave Cheia de graça, o senhor é contigo”;
b) Lc 1,42: “bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre”;
c) Acréscimo posterior da Igreja: “Santa Maria”.

·        A fórmula atual foi articulada entre o século VI e XVI (tempo de mil anos);
·        É semelhante a uma nascente que se transformou em pequeno córrego, depois em rio, e, depois em grande e caudaloso manancial;
·        A partir do ano de 750, surgiram comentários homiléticos nas liturgias e destacavam efeitos da grande repetição do número de “Ave Marias”. Entrou, então, na piedade popular, e, a expressão passou a aparecer em sinos, vasos, móveis e candelabros.
·        Em torno do ano 1000: Na Alemanha havia o costume de repetir 60 vezes a primeira parte da Ave Maria; em 1140: 150 vezes, equivalendo aos 150 salmos.
·        Aos poucos surgiram também formas penitenciais da devoção mariana; em 1310, Ida de Lovaina fez 1100 genuflexões... Em 1800 recitava-se 100 vezes por dia a “Ave Maria” e com 100 genuflexões.
·        A partir de 1200 encontros de bispos passaram a prescrever a reza da Ave Maria ao lado do Pai Nosso e do Credo.
·        Em 1261 o papa Urbano IV acrescentou a palavra “Jesus” ao “bendito fruto”...
·        A segunda parte da Ave Maria teve muitas fórmulas:
- Século XIII: “Santa Maria, rogai por nós”.
- Século XIV: “Rogai por nós os pecadores”
- Em 1350: Acrescentou-se “agora e na hora de nossa morte”.
- Em 1568: Foi prescrita a oração silenciosa do Pai Nosso e da Ave Maria antes das horas canônicas.
- A Ave Maria também foi associada ao Ângelus, três vezes ao dia, três “Ave Marias”.
- Com o tempo introduziu-se o rosário: cento e cinqüenta “Ave Marias”, a cada 10, intercalada por um Pai Nosso e um Glória ao Pai. Havia antes o costume de rosário de “Pai Nossos”. São Bento sugeriu aos monges não letrados o rosário de “Ave Marias” em substituição aos cento e cinqüenta “Pai Nossos”.
- Criaram-se, com o tempo, as confrarias do rosário, tarefa que Nossa Senhora teria solicitado a São Domingos. Em 1571 o Papa Pio V declarou a vitória dos cristãos sobre os Otomanos (islâmicos) à recitação do rosário. Os Papas Pios estimularam o uso do terço pendente no braço.
- Mesmo mariana, a Ave Maria remete a Deus, autor das maravilhas realizadas em Maria. A segunda parte ajuda a nos dar conta da trágica situação humana de pecado e morte e, à luz da esperança espera-se a ação de Deus em misericórdia, tal como agiu através de Maria.
HERANÇAS BÍBLICAS:
·         Mulher é menos que homem;
·        Até Esdras: participação da mulher no culto; depois, impedidas;
·        Judeu casado com mulher estrangeira deveria mandá-la embora com os filhos;
·        Enjeitava-se menina;
·        Mulher era sinônimo de castigo; nos espólios de guerra a mulher vinha depois dos burros.
·        Casamento: ritual conforme Ez 16: rapaz joga o manto sobre o ombro... Negociação entre pais a respeito dos dotes...
·        Maria e José: baixo conceito: Nazaré.
·        Descendiam da família real: péssimo conceito; eram vistos como bastardos; esperava-se a vinda de Elias para purificar o povo.
“Os estudos mariológicos no Brasil estão muito atrás das exigências da pastoral mariana e esta se encontra, por sua vez, bem atrás da piedade do povo para com a mãe de Jesus”. (Clodovis Boff):
Uma relação difícil na Mariologia: Minimalismo (ceticismo racional) e Maximalismo (Sentimento exaltado e apaixonado, pois, Nela tudo é bom: vida, doçura...).
MARIA NOS EVANGELHOS:
MT: valoriza mais José que Maria; Maria, virgindade conforme os profetas: genealogia, gravidez do Espírito Santo...
MC: destaca o aspecto biológico. “Quem é minha mãe?”, “É este o filho de Maria?”.
LC: Apresenta Maria como núcleo da Bíblia. Mediação do amor de Deus. Maria: pessoa livre, determinada, acolhedora e aberta ao “outro”. Paralelos: Sf e 2Sm.
JO: Maria presente no início da vida pública de Jesus Cristo em Caná... Mulher forte: de pé junto à cruz; É modelo de comunidade que se redime e se salva. Significa o horizonte da esperança cristã.
MARIA no cristianismo é como uma jóia: coisa para gente fina! Como depende de uma relação de amor, faz com que a paixão leve a ultrapassar os limites.
A TEOLOGIA DOGMÁTICA revela e coloca limites, sem, contudo, deixar de salientar que Maria foi agraciada por um extraordinário amor de Deus.



[1] BOFF, Clodovis. Introdução à Mariologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.
_____________ . Por uma Mariologia social. In: CONCILIUM, 327 – 2008/4, p.    44-57.

Nova ética da estética



Distantes ficaram os fulgores da ética,
Advindos de humanos pendores cultivados;
Foram substituídos pela estética,
Que reina mais forte que os malvados.

Mais fácil do que cultivar humanos valores,
Apraz ao inconsciente coletivo entregar-se,
Ao consumo desenfreado, e, nele inebriar-se,
Distante dos divinos pressupostos superiores.

Mais do que gestos de elevação moral,
Fascina a domesticação de algo tão natural:
O estar juntos, com muitas tatuagens,
Grafites, "piercings" e outras bricolagens.

Longe da histórica idolatria da razão,
E avessa à utopia do ilimitado progresso,
Dança solta e em larga profusão,
A estética do corpo, como sucesso.

Imunes às análises dos centros do poder,
Eclodem da estética os referenciais a serem imitados,
E, distantes da oficialidade do saber,
Geram tribos urbanas, por todos os lados.

 Mais do que as luzes do pensamento,
Imperam, nas tribos, os referenciais da beleza,
Com força de convencer que a humana grandeza,
Sem Razão, gera muito mais contentamento.

Nos inebriados pelo gozo estético,
Já não importa o que vem do cérebro racional,
Mas o que mexe com o estômago nada ético,
E que induz a ser fã de algo sensacional.

Mórbida, ou altamente sadia,
Importa a aparência em dia,
Para despertar, nos outros, o agrado,
De um corpo inteiro e sarado.

Nos provisórios vínculos das relações,
Impera o fruir das diletantes emoções,
E duram enquanto as sensações frugais,

Sustentam motivações meramente tribais.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Ambições



Amplas e fugazes como as estrelas no céu,
As ambições levam a distâncias incontidas,
Mas, sempre acabam deixando ao léu,
Muitos bens, horizontes e pessoas preteridas.

Forças dinâmicas que movem à auto-transcendência,
Constituem também força diabólica na convivência,
Quando desprovidas do fervor de motivações humanitárias,
E degradam, na maldade, mais que as deficiências planetárias.

Quando unidas em torno das causas edificantes,
Agregam forças, desde as escondidas entranhas,
Mas, diante dos insondáveis seres vacilantes,
Submetem-nos ao rigor das formas mais estranhas.

Se forças religiosas e éticas não as contêm,
Diante da perda gradual de solidariedade,
Impulsos muito mais vigorosos lhes advêm,
Das propaladas estimulações à saciedade.

Se as ambições desmedidas fazem mal,
As excessivamente contidas paralisam os sonhos,
E prejudicam de forma também descomunal,
Causando ineficácia e parasitismos medonhos.

Rutilantes como os sutis e intensos raios solares,
Borbulham fagulhas de ambição pelos ares,
Suspirando por anseios de vida em tantos lugares,
Para o alcance dos bens e gestos mais elementares.

Onde achar equilíbrio que leve a desejar,
Ante tudo quanto é apresentado ao imaginário,
Que não implique em humanas pessoas enquadrar,
No rol da negação ou do desfrute solitário?

No efeito gestado pelas ambições desvairadas,
Braceiam incontáveis almas desanimadas,
Esperando minúsculos sinais de fulgor,
Que possam ajudar a integrar sua insana dor.

Movidas pelo coração,
Conseguem as ambições,
Amenizar a humana monção,
De incontáveis destruições.



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Maristela e a descomplicação da vida



Do baú das boas memórias sempre voltam a reavivar-se sentimentos agradáveis quando as lembranças remetem ao modo de ser de Maristela.
Conheci-a quando era jovem universitário. No começo, não conseguia entender um assunto que ela repetia seguidamente: que se imaginava para a velhice na condição evidente de ter que andar de bengalas. Pretendia, então, fazer três coisas para as quais nunca achava tempo suficiente: pintar telas, ler à vontade e escutar música.
Pensava eu, por outro lado, estar diante de uma mulher doidivanas, pois era absurdo falar assim quando estava aquém dos cinqüenta anos. Se este tema de conversa parecia ser desconfortável e aparentemente pessimista, embora objetivo, o resto da vida de Maristela era puro encantamento. Tratava-se de uma Irmã religiosa, disposta, animada e altamente agradável às pessoas ao seu derredor.
Os rumos da vida e da lida nos distanciaram por alguns anos. Ao voltar para a mesma cidade, estava de volta também aquela conhecida Maristela de anos anteriores. Por surpresa, deslocava-se com o auxílio de muletas. Seria a sina do que esperava? Um acidente automobilístico, em que viajava como acompanhante, deixou-a com sequelas de diversas fraturas, inclusive da bacia. A surpresa maior, no entanto, estava em constatar que continuava na mesma alegria, leveza e disposição. Já aposentada, pintava telas, lia muito e escutava muita música. Tratava-se de uma pessoa sábia capaz falar com autoridade sobre assuntos variados. Não precisava de muitos dias para ler um livro e lia sobre os temas mais diversos como Filosofia, Psicologia, Teologia, Espiritualidade, Romances e livros de Auto-ajuda.
Passados alguns anos, Maristela falou, num dia, que precisava encerrar duas atividades: a leitura e a pintura, porque estava praticamente cega e somente enxergava letras escritas por alguns minutos, antes do meio-dia, diante de sol intenso. Mais uma vez a surpresa continuava: persistiam os mesmos traços da mulher cheia de graça e de encanto, como em algumas décadas anteriores.
Das colegas de convivência de Maristela escutava-se seguidamente a mesma expressão: “A Maristela é cada dia mais descomplicada”! Esta afirmação intrigava, diante de tantas outras pessoas idosas, altamente insatisfeitas, magoadas e pessimistas, das quais não se ouvia coisa melhor do que lamúria. Afinal, o que teria propiciado a Maristela uma orientação de vida para tornar-se diuturnamente mais descomplicada?
Parece que, no geral, a tendência evidente do avanço da idade implica em diminuição de auto-aceitação, de auto-estima, e, em aumento de insatisfação diante das doenças, dos fracassos, das perdas. Por isso, o evidente transluzir de mau-humor, de inconformismo e de rispidez.
Ao inquirir Maristela sobre a antiga previsão feita, veio uma constatação muito simples e descomplicada: Maristela, muito cedo na vida, mais precisamente na crise da bifurcação da vida entre desesperança e integridade, soube escolher o caminho da integridade, que consiste em brincar com o passado, com os erros, fracassos e fiascos; e, mesmo assim, constatar que ainda está por chegar coisa melhor para a vida. Ela projetou o fim da sua vida como referência para iluminar os percalços que iam aparecendo. Mais tarde, apareceria do renomado psiquiatra austríaco Vicktor Frankl, sob outra linguagem, a riqueza desta experiência efetivada por Maristela, como perspectiva e terapia antropológica, chamada de Logoterapia.
 Como o sol brilha e ilumina o caminho, ajuda a perceber se pisamos sobre cobras, resíduos fecais, ou, se nos precipitamos em precipícios. Os projetos do fim da vida propiciam análoga iluminação para ajudar a transcender crises, doenças, e limitações no percurso da vida.
 Nasceu da perspectiva terapêutica Logoterápica, ou seja, a terapia do sentido, um modo muito simples e eficaz para lidar com crises da vida. Geralmente uma crise implica em prender-se demasiadamente a fatos do passado, o que, por sua vez, anula os projetos. E quando uma pessoa deixa de olhar para frente e suspende sua mobilidade em torno de projetos, ela entra num processo depressivo e entrópico de morte. E para clarear o sentido, nada melhor e mais adequado do que a capacidade de brincar com o passado, pois, é dele que decorre a capacidade de recriar desejos capazes de prospectar algo bom para além das perdas e das crises.
Muita gente já ficou curada com a despretensiosa pergunta, quando tende a falar somente de queixas relativas a coisas e fatos do passado: como você quer se sentir entre noventa e noventa e cinco anos? A simples capacidade de pensar algo bom para aquele estágio de vida já constitui um pequeno vislumbre de saída para a fase de impasses e é suficiente para começar a transcender uma perda, ou mágoa, por profunda que seja.
Muita gente se descuida e ao chegar à crise crucial, opta pela desesperança, normalmente induzida pelo meio-ambiente da convivência. Prevalece, então, o mau humor, o desconforto, a insatisfação e a constante lamúria do que se perdeu, ou do que magoou no passado. Nesta opção também não faltam conselhos à exaustão para reforçar que de fato, o que poderia ter sido bom, já se foi, e que não existe mais perspectiva boa diante do porvir. Dali decorre o natural pessimismo que leva tantas pessoas a concluir que entre sofrer como sofrem, e morrer, o melhor mesmo é morrer. E vão se autodestruindo aos poucos.
Na última visita feita a Maristela, quando já estava com 93 anos, ela surpreendeu de forma ainda mais encantadora: cega, andando de muletas, sabia distinguir o trinco da porta do quarto com o cotovelo, tinha o quarto e banheiro tudo bem arrumado, apresentava-se limpa e perfumada e agradabilíssima nas conversas. O que mudou foi sua fonte de informações. Sabia de todos os bons programas de rádio da BBC de Londres, da Guaíba e da Gaúcha de Porto Alegre, da Tupi de São Paulo, da Rádio Globo do Rio de Janeiro, bem como os das emissoras da cidade.

Da memória de Martistela, satisfeita e descomplicada, renasce o sonho de que, como ela, gradualmente muitas pessoas possam fazer percurso similar na vida.

<center>FENÔMENOS CLIMÁTICOS</center>

  Cada vez mais seguidos e intensos, Causam mortes e pavores imensos, E tudo leva a crer que os culpados, São os humanos com atos er...