sábado, 15 de outubro de 2016

Encantamento por substituições



Nada mais avassalador nos dias atuais,
Que a persuasão dos efeitos especiais,
Provindos da substituição de objetos,
Assimilados como obsoletos e abjetos.

Na mobilização pela melhor novidade,
Desencadeia-se produção à saciedade,
Para a ansiosa demanda consumidora,
Que espera uma felicidade renovadora.

Felicidade atrelada ao máximo consumo,
Constitui num desejo artificial um sumo,
Capaz de impregnar ótimo sabor e gosto,
À nova interação com o objeto proposto.

O imaginário delega poder à substituição,
Para despertar anseios da nova sensação,
Como fonte de extraordinária felicidade,
Capaz de conferir voz e vez na sociedade.

O jogo da protelação exaure os estoques,
E adia a fruição dos inovadores retoques,
Porque a felicidade é sempre deslocada,
Para adquirir a outra novidade indicada.

Até pactos de sólidas e eternas alianças,
Perdem no mesmo jogo as boas fianças,
E uma vez que podem ser substituídas,
Terminam sorrateiramente preteridas.



Oração



            Em progressiva decrepitude, a capacidade de rezar está, cada dia, menos prestigiada, porque muitos desejos são satisfeitos com dinheiro e muitas alterações orgânicas e psíquicas são saradas através de componentes químicos e de terapias.
            O povo do primeiro testamento da Bíblia costumava repetir certos fatos marcantes para despertar nas gerações novas a capacidade de perseverar na oração. Um destes fatos salientava um momento do Moisés, pobre e humilde, mas crente de que Deus o ajudaria a vencer os amalecitas, a fim de conseguir terra para o seu povo. O aspecto mais relevante era o de que Moisés rezava insistentemente a Deus para que amparasse Josué, seu general em aguerrida luta (Ex. 17,8-13).
            A narrativa salienta que Moisés rezava de mãos erguidas ao céu para implorar a ajuda de Deus. Como os músculos não suportavam longo tempo os braços erguidos, e diante da natural propensão de relaxamento, ele os baixava, e, então, os amalecitas pareciam adquirir mais força na batalha.
            Conta-se que ficou um dia todo de braços erguidos clamando ajuda de Deus. Até colocaram pedras para escorar os braços e, pessoas ao seu lado, ajudavam a escorar os braços erguidos.
            A conclusão foi a de que a guerra foi vencida pela insistente e continuada oração de Moisés. Tratava-se de uma maneira que visava despertar nas pessoas o cultivo permanente e regular de oração.
            Bem sabemos que a oração pode apresentar-se de formas muito variadas: pode ser de petição humilde diante de erros e fracassos, de louvor por conquistas pessoais ou coletivas, de gratuidade por experiências satisfatórias, de silêncio para acolher o que Deus mais possa esperar da nossa parte, ou também a apresentação a Deus do estado de alma: dor, indignação, gratuidade, revolta, compaixão, leveza e tantas outras situações impactantes.
            Jesus Cristo também deixou evidente a importância do perseverar na oração. Lucas retransmitiu do ensinamento de Jesus, que Ele um dia contou a história de uma viúva insistente que não parava de insistir diante de juiz a fim de que fosse justo com ela, até que este a atendeu. Só este aspecto de justiça, em nossos dias, carece não só de oração, mas, também, de alguma ação que possa fazer algo a favor de uma organização humana menos injusta.

            Que quadro de fé a historinha de Jesus tinha pela frente nas primeiras comunidades cristãs? Certamente o vacilo na regularidade da oração, porque já pensavam no fim do mundo e esperavam passivamente que Deus viesse implantar a almejada justiça. Hoje, tanta gente se indigna contra a corrupção e a injustiça; no entanto, vemos pouca gente fazer algo efetivo e insistente pelo crescimento real de mais justiça, tal como procedeu a pobre viúva injustiçada, da narrativa de Lucas (18, 1-8).

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Aparecida



Festejo de vasto imaginário,
Misturado a um rico ideário,
Eis uma elevação da piedade,
De boa parcela da sociedade.

Dos muitos intuitos a escalar,
Aos pios prestígios a alcançar,
Vagueia solto o fino simulacro,
Para ampliar um quadro sacro.

A piedade animada e crescente,
Propicia um clima efervescente,
Para vasta exalação emocional,
De cunho e  perfil sensacional.

O encantamento exuberante,
Do vasto imagético brilhante,
Oferece a sensação agradável,
Isento dum itinerário palpável.

Já não importa a boa notícia,
Nem a conscienciosa perícia,
De um reino a ser construído,
Mas somente o ato do fruído.

Assusta uma religião de piedade,
Com tantos milagres à saciedade,
Mas que não progride no projeto,
De um caminho mais justo e reto.







O gozo de alegrias




Tantos atos estão impregnados,
E pelo melhor gozo permeados,
Que o eterno anseio da alegria,
Sempre morre, nasce e se recria.

Nas afecções vitais do bom afeto,
Espera-se que venha a ser dileto,
Para quebrar o provisório finito,
E implantar um bem-estar infinito.

Se a constatação da alegria coibida,
Sempre evoca a tristeza desmedida,
Como eivar-se do causticante desejo,
De encontrar a alegria num lampejo?

Quando o gozo da alegria de cada dia,
É tão fugaz e some como pessoa vadia,
Resta apelar a fim de que o bom desejo,
Dela não se solte em nenhum remelejo.

Que ela fique para acompanhar os atos,
E povoe todos os sentimentos cordatos,
A fim de fruir na angélica e doce leveza,
O que entusiasma no meio da incerteza.



sábado, 8 de outubro de 2016

A capacidade de agradecer



            Como não é um dom inato e como depende de cultivo, a capacidade de agradecer tornou-se rara no convívio das pessoas e pouco prestigiada diante das ajudas solidárias. Perante as imensuráveis condições do que se espera, parece não restar tempo para reconsiderar algo que já passou. Com isso, os sentimentos de gratuidade também tendem a desaparecer nos serviços humanitários e de entre-ajuda.
            A Bíblia registra de tempos muito antigos um episódio em que o profeta Eliseu aponta para um reconhecimento que vai além de dar algo para agradecer. Havia sido procurado por um general estrangeiro muito doente. Eliseu não se aproveitou do momento para auto-engrandecimento e nem tampouco para se passar como um milagreiro de renome. Indicou ao estrangeiro uma atividade que lhe apontasse que Deus é capaz de ajuda-lo a equilibrar a saúde.
            Eliseu também recusou ser presenteado como sinal de recompensa pela cura. Deixou claro ao estrangeiro que não fora ele quem havia curado o general, mas teria sido ação de Deus. O general, então, ao entender o significado da recusa de presentes, pediu para levar um pouco de areia do chão daquele lugar, a fim de poder lembrar a ação eficaz da parte de Deus.
            Para quem se vê muitas vezes contemplado com graças diante de dificuldades, doenças e outras situações de grande desconforto, geralmente, a tendência é a de esquecer com facilidade os prodígios, porque já pensa em outras aspirações e desejos.
            Do Evangelho das boas notícias de Jesus Cristo também lembramos um episódio muito interessante a respeito de dez leprosos que clamaram a Jesus Cristo, a fim de que os ajudasse a livrar-se da doença. E lepra, mais do que doença contagiosa, implicava em total exclusão social. Até as leis proibiam aproximação de leprosos com outras pessoas. Pode-se imaginar o quanto se sentiam constrangidos ao terem que romper laços familiares e sociais e se agregar a outras pessoas leprosas para tentar sobreviver.

            Jesus certamente ajudou os dez leprosos numa dupla dimensão: primeiro, a perspectiva de ressocialização e, num segundo aspecto, a capacidade de curar a doença num processo terapêutico. Conta-se que dos dez leprosos curados, apenas um voltou para agradecer. O que se pode deduzir é que diante da gratuidade do amor de Deus, nós nem sempre cultivamos a merecida e justificada ação de agradecer. Por outro lado, eventual mediação de cura e de sentido para a vida não deve constituir meio para auto-afirmação de superioridade pelos poderes de cura e, menos ainda, de valer-se desta imagem para fazer publicidade. Afinal, até a capacidade de louvar e agradecer é dádiva que não depende apenas do desejo, mas de praxes e de um itinerário de cultivo.

Mente poluída



Fanatizada por concepções pseudo-religiosas,
E motivada por noções essencialistas piedosas,
Ela se move no torpor da ausência do oxigênio,
E arrosta ser instrumento de um grande gênio.

Na segurança da posse de certezas absolutas,
Veicula o discurso de verdades nada argutas,
E se estabelece como mediação da verdade,
Para controlar os subservientes à saciedade.

Apela para a objetividade que não domina,
E sua grandiloquência somente dissemina,
Um proselitismo dos melhores e especiais,
Para atacar tudo quanto é feito pelos rivais.

Coloca sua ambição como medida de sucesso,
E se torna fervorosa mediação de um regresso,
A um presumido tempo de felicidades plenas,
Fantasiadas para controle das mentes serenas.

No arroubo de ser superdotada e milagreira,
Acha-se no direito de uma bênção altaneira,
Para uma vida econômica invejável e segura,
Como documento contra qualquer diabrura.

Resta saber até onde vai a ingênua maldade,
Que desperta séquitos de submissa lealdade,
Mas que não gesta a transformação religiosa,
Para uma vida ordeira de eficácia prodigiosa.


















Sedução que aliena



O diabólico certamente não está no feio,
Nem na traição da astuta forma de enleio,
Mas, no belo que encanta, seduz e fascina,
E que aponta alvissareira e promissora sina.

Velha herança cultural insinua a felicidade,
Como o fruto de expansiva possessividade,
Mas não alerta para o secreto magnetismo,
Que solapa toda amizade com pedantismo.

A insensibilidade para os sentimentos alheios,
Sejam de dores, limitações ou nobres anseios,
Apresenta muito mais chifre e rabo de capeta,
Do que as alucinações exploradas pela silhueta.

O tempo do zelo em torno do conquistado,
Desvia o foco da lealdade como rico legado,
E estabelece o status para haurir grandeza,
Sem os parâmetros da bondade e inteireza.

Além de não propiciar a almejada felicidade,
A possessividade alarga conflitos à saciedade,
E inferniza a vida dos que anseiam por gestos,
Não eivados de ambição ou de duros doestos.




<center>FENÔMENOS CLIMÁTICOS</center>

  Cada vez mais seguidos e intensos, Causam mortes e pavores imensos, E tudo leva a crer que os culpados, São os humanos com atos er...