terça-feira, 14 de junho de 2016

Justa conta



A árvore chamada de “justa conta”,
Impõe-se vigorosa no pouco cerrado,
Que ainda resta e vai tomando conta,
Para alargar um processo inveterado.

A fama pejorativa de ser imprestável,
Que sequer serve para fazer fogueira,
Confere-lhe ainda imagem detestável,
De atrapalhar das estradas toda eira.

Se o nome indica que não vale nada,
Lembra nosso quadro social político,
Virado numa roubalheira desandada,
Que deixa tudo aleijado e paralítico.

Já não encantam pela multiplicidade,
Mas despontam no perverso avanço,
Da apropriação cheia de animosidade,
Que visa alargar seu próprio remanso.

Não merecem sequer minguado salário,
Pela ignóbil ação em favor do coletivo,
Pois sua justa conta de atos salafrários,
Não confere ao povo qualquer lenitivo.






sábado, 11 de junho de 2016

Contrição e perdão



            As duas palavras tendem a desaparecer da conversa e da experiência pessoal de nossos dias, porque somos induzidos ao contrário de seus significados: focar sempre novos produtos de consumo e não pensar sobre fatos passados. Assim, nem desenvolvemos consciência de atos e condutas inadequadas; e, tampouco sentimos necessidade de perdoar ou de pedir perdão por algo.
            Da mesma forma como tanta gente contrai dívidas e em nada as assume, parece aumentar o número de devedores de grandes dívidas, mas, que se revela meticuloso na cobrança detalhada das pequenas quantias que outras pessoas estão devendo. É parecida com aquela regra de muitas crianças pequenas: “tudo quero e nada dou”.
            No entanto, quando uma dívida grande é perdoada, a tal ato geralmente corresponde um sentimento de alívio. Na orientação que Jesus dava aos discípulos (cf. Lc 7,36-50), ele os ajudava a entender que alguém perdoado em grande dívida, deveria produzir muito mais amor do que alguém perdoado em dívida de pequenas proporções. 
            Na parábola contada por Jesus, alguém perdoado por uma grande dívida, mostrou-se pouco acolhedor à chegada de quem merecia muita consideração. Mas, também salientou que outra pessoa, publicamente condenada e discriminada por atos de prostituição, ao se sentir perdoada por Jesus, demonstrou extraordinário amor e, de tão contrita que se sentia diante do que fizera na vida, lavava os pés de Jesus com suas lágrimas e os enxugava com os cabelos.
            Os que observavam a cena logo se meteram a julgar e a incriminar Jesus porque ele não poderia perdoar uma situação como a daquela mulher. Na verdade, Jesus certamente quis destacar que, qualquer um daqueles discípulos, já tinha aprontado muitas coisas merecedoras de grande perdão por parte de Deus e que, apesar disso, eles não produziam sinais de amor e de bem-querer. Diante do imensurável perdão de Deus, os discípulos, ao invés de produzirem sinais de compaixão e crescente capacidade de amar, somente focavam a cobrança dos mínimos detalhes dos erros alheios.
            Quando alguém não tem consciência de contrição diante de algo que praticou ou deixou de fazer, provavelmente não mudará em nada a sua vida para ser melhor, porque irá conformar-se com os hábitos e praxes do que vem fazendo. Tampouco sentirá necessidade de ser mais respeitoso e humanitário porque esta perspectiva sequer aparece no horizonte dos projetos.

            O amor de uma pessoa pecadora carece da experiência de que outro amor maior a perdoa. Por isso, mais do que observar regras, importa transcender-se!

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Lamento



No trôpego avanço social hodierno,
Sobressai o ardente fogo de inferno,
Da ambiciosa globalização mundial,
A produzir descartabilidade bestial.

A acumulação de poucos viventes,
Escancara  processos indecentes,
Que obrigam ao ignóbil ostracismo,
Os negados do cruel hegemonismo.

Longe da viva e anelada ecologia,
Palpita vasta ambição de apologia,
Para exaurir o que se possa lucrar,
Mesmo se a vida venha a execrar.

A crise social, vítima da ambiental,
No ecoar de um grito monumental,
Protela o respeito à natureza dada,
E a afronta como matéria desolada.

Com a generalizada superficialidade,
Alarga-se solapante provisoriedade,
Que ignora honra, pactos e projetos,
E relega vidas a níveis bem abjetos.







  







terça-feira, 7 de junho de 2016

Sonhos no relento



Se a fé remove montanhas,
E revigora até as entranhas,
Como situá-la numa difusão,
Que foca o ego em profusão?

Muita mensagem encenada,
De moralismos, impregnada,
Alia-se à falácia autoritária,
Para a submissão perdulária.

Importa mais o ego do falante,
E a artimanha impressionante,
Do que a partilha do caminho,
A quem não se ajeita sozinho.

Assim, os sonhos de edificação,
Da vida em dinamizadora ação,
Mofam nas facilidades adiadas,
Sem elã para serem praticadas.

Adora-se o imagético do guru,
Que bate asas mais que urubu,
Para submeter fãs dependentes,
A seus domínios improcedentes.

Apelam a autoritários discursos,
Para obrigar rigor de percursos,
Que apenas submetem os fiéis,
Para seus interesseiros vergéis.

Os deslizes e erros cometidos,
Mais os ocultados e preteridos,
Minam os sonhos acalantados,
E freiam encontros recatados.



sexta-feira, 3 de junho de 2016

Vozes do silêncio



Diante da anestesia dos sons,
Ampliados em repetidos tons,
O silêncio aponta nos desejos,
Linguagem de outros ensejos.

Quero os silêncios eloquentes,
Sem os ruídos inconsequentes,
Que atrapalham toda audição,
Pela estrepitosa comunicação.

Já saturado com tantos sons,
De estridulantes contrassons,
Almejo um silêncio benfazejo,
Que aponte um inusitado ejo:

Não o silêncio mortal da vida,
Ou o da resistência aguerrida,
A paralisar as boas atividades,
Mas do aporte para novidades.

Sonho com o silêncio solidário,
Tão versátil e pouco ordinário,
E nada afoito na demonização,
E sem as ordens da moralização.

Não espero o silêncio acusador,
Mas o que aponta para o ardor,
Que ultrapassa toda indolência,
E se transforma em condolência.

No desejo anseia silêncio virtual,
Sem lamento ou lamúria pactual,
Do insidioso hábito de condenar,
Alheio de compaixão para sanar.








quinta-feira, 2 de junho de 2016

Razões de admiração e reconhecimento




            Muitas pessoas tornam-se encantadoras pelo seu modo de ser. Algumas alcançam notabilidade por dotes artísticos e profissionais ou por apresentarem raras virtudes humanas; mas, algumas também se tornam altamente notáveis e admiradas pelo modo como vivem a sua fé.
            A Bíblia descreveu um de seus profetas, Elias, que viveu cerca de 800 anos antes de Cristo, como um notável homem de Deus. Em suas distintas fases evolutivas este profeta mostrou transformação profunda para melhor. Em idade já mais avançada, parecia agregar Deus em suas andanças e explicitá-lo de forma original e encantadora.
            Narra-se que um dia o referido profeta chegou à casa de uma viúva, em Sarepta, desesperada pela morte de seu filho. Num gesto de atenção, Elias foi ao quarto do menino e fez uma oração fervorosa para pedir a Deus que intercedesse em favor da vida do menino. Mais do que os detalhes dos fatos, constatou-se naquele ato uma experiência religiosa profunda: Deus interveio através do homem de Deus (Elias), e devolveu a vida do menino à viúva desesperada.
            De tanto que o agir de Elias era comentado como homem de Deus, ao morrer, despertou a consciência de que, - homem bom daquele jeito, - não poderia morrer; e, certamente Deus o teria levado de carruagem ao céu a fim de retornar, num momento oportuno, e continuar a agir beneficamente no meio do povo.
            De Jesus Cristo, o evangelista Lucas explicitou um fato similar em torno de uma morte, envolvendo o filho da viúva de Naim. No entanto, as proporções são maiores: o tempo da morte do menino e distinto foi o modo de proceder com ele. Enquanto Elias gritou desesperadamente para pedir intervenção de Deus, Jesus teria simplesmente ordenado, serenamente, para que o menino voltasse a viver.
            Lucas provavelmente quis salientar que Jesus, mais do que o profeta Elias, tão estimado pelo povo, era mais do que um profeta, pois, constituía a manifestação do amor de Deus. Em Jesus Cristo estava acontecendo um momento de plenitude deste amor, pois, era o próprio Deus que agia em favor da vida.
            Nesta rica motivação em torno de uma experiência religiosa, tanto com Elias quanto com Jesus Cristo, destaca-se a implicação da sintonia com Deus e a perspectiva de corresponder a este amor de Deus: não para pseudo-milagres, e banalizadas curas e manifestações divinas, exaustivamente exploradas como expressão do poder de pregadores e, possivelmente menos religiosos do que interesseiros, mas, para recriar motivações e forças capazes de contribuir na construção do Reino de Deus, a fim de que ninguém seja fadado a morrer antes de seu ciclo vital se completar.

            Como experiência religiosa, devolver vida, ou fazê-la reviver quando está à beira do definhamento, é algo acessível a cada pessoa que se aproxima dos traços de Jesus Cristo. Há incontáveis modos de se devolver vida, sobretudo, quando ela vai se subsumindo na progressiva perda de sentido e na incapacidade de achar razões e projetos para continuar vivo. Estados depressivos, perdas, mágoas profundas, agressões físicas e simbólicas, além de doenças e enfermidades, podem deixar-nos mais mortos do que vivos.  No entanto, o dom profético, torna-se gesto humanitário que restaura a razão de viver.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Obsessão pelo domínio



Da antiga conquista indo-européia,
Desencadeou-se a trágica epopéia,
Da autoridade para tudo desbravar,
E eliminar todo aquele que a negar.

Sublevou-se o pendor do preservar,
Tudo o que era valioso de conservar,
E nem mesmo se cultivou a riqueza,
Da mãe-terra, ornada de rara beleza.

A criação não cuidada e mal amada,
Atordoada pela agressão desandada,
Geme nas dores da invasão violenta,
Sem encontrar respeito que a alenta.

As ricas diferenças étnicas e culturais,
São combatidas como doenças virais,
E fadadas ao desaparecimento banal,
Sob a voracidade da ambição infernal.

Ao silêncio forçado das terras e matas,
Agrega-se o mutismo de vidas pacatas,
Condenadas à antecipada decrepitude,
Longe da ínfima e respeitosa solicitude.

 O domínio nega o necessário respeito,
Do quanto a vida teria o justo direito,
De ser fruída e ricamente auscultada,
Ao invés de ser friamente maltratada.




<center>FLIBUSTEIRO ALTRUISTA</center>

  Metido a herói humanitário, Está aí um sujeito salafrário, Desonesto por sua natureza, Aparentando lídima inteireza.   Acusa p...