terça-feira, 13 de outubro de 2015

Trabalho lúdico



Do antigo anseio paradisíaco,
Sobrou só efeito afrodisíaco,
De laboração humanizadora,
Com a fascinação alentadora.

No afã da fome tecnológica,
Que suga a força psicológica,
Exaure-se o tônus muscular,
E o sonho da vida espetacular.

Na nova sedução da serpente,
De que o trabalho consistente,
Gera mais felicidade no jardim,
Acaba em sonho vago sem fim.

A vigilância direta sobre a ação,
Consegue revelar a esganação,
Tanto dos patrões e dos chefes,
Que intimidam com seus blefes.

Eliminada a força da liberdade,
Já não sobra nem solidariedade,
Mas, pessoas sobre si fechadas,
A evitar que sejam despachadas.

Oprimidas em seu duro trabalho,
E reduzidas a um mero frangalho,
Tornam-se vil e desumano objeto,
De ambiente brutal e bem abjeto.

Muito pouco se pensa em amizade,
E, menos ainda, em digna lealdade,
Pois o tempo lúdico dos bons ideais,
Esvai-se sem parâmetros angelicais.


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Uma sabedoria de interesses



O extraordinário incremento para produzir um saber de controle e de dominação, quer de objetos, de pessoas ou de situações desconhecidas, é uma das marcas mais peculiares e expressivas da cultura do nosso tempo. O domínio dos objetos, sejam eles humanos ou materiais, constitui, aos ambiciosos em acirrada disputa, um meio dos mais exitosos para acumular riquezas e barganhar poderes.
Da Bíblia herdamos outra síntese: o que mais se procurava, sobretudo na fase final do primeiro testamento, era a sabedoria. Esta era vista como a mãe dos bens e o melhor de todos os tesouros.
Para os judeus exilados e residentes no Egito, ao verem a dominação e a forma ímpia como seus patrões e mandatários os humilhavam, lembravam as diferenças: enquanto os egípcios se mostravam prepotentes, aqueles judeus procuravam reafirmar sua confiança em Deus, diante de uma lida materialista e desprovida de qualquer crença para além da morte.
 A sabedoria, uma síntese de bom-senso e de perspicácia para captar o que se considerava importante na vida, era considerada um dom de Deus. Para haurir e aumentar a graça deste dom, considerado como fonte que aumentava capacidade de justiça, de retidão e solidariedade, bem como de boa ponderação sobre as melhores coisas da vida, os judeus pediam insistentemente a Deus que esta capacidade de discernimento lhes fosse concedida. Havia entre eles o pressuposto de que a sabedoria constituía um dom de Deus, que era auferido a quem humildemente o suplicava.
 A riqueza, por outro lado, era vista pelos judeus asilados no Egito, poucos anos antes de Cristo, como fator contrário e obstrutor do alcance da sabedoria, pois, aqueles mandatários, ricos e despóticos, gozavam de uma aparente plenitude de felicidade enganosa e imanentista, sem Deus e sem nenhuma crença a respeito do que poderia acontecer depois da morte.
Alguns anos mais tarde, um episódio envolvendo esta questão se estabelece no agir pedagógico de Jesus com um rico, acostumado a comprar o que desejava. Procurou a Jesus Cristo com o intuito de colher informações a respeito do que fazer para garantir o direito de vida eterna. Tratava-se de alguém que seguia, como bom judeu, o rigor das leis estabelecidas e que, por isso mesmo, se considerava muito justo, razão pela qual certamente esperava rasgados elogios decorrentes de bajulação feita a Cristo, uma vez que se considerava pessoa íntegra e impecável diante da Lei. Assim como conquistou muitas coisas, desejava conquistar a vida eterna.
No procedimento educador de Jesus Cristo centralizava-se a sabedoria e não a riqueza, vista como bênção. A sabedoria permitiria auscultar as interpelações de Deus, enquanto que a Lei antiga justificava exterioridades legalistas.
O gesto bom e amoroso de Cristo foi o de apontar ao bajulador que, para ser justo e garantir a vida eterna, poderia vender seus bens e socializar um caminho de salvação, uma vez que pensava em consegui-lo por si mesmo e apenas para si mesmo.
Faltava a prática do amor, que é mais do que a lei e mais do que pensar-se agraciado por muitos bens materiais.





quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O mito do superior



As múltiplas culpas insinuadas,
Às imensidões não graduadas,
Incutem no seu status inferior,
Dependência ao que é superior.

Em nome do título acadêmico,
Esconde-se um agir endêmico,
De quem muito pode explorar,
E com argumentação desaforar.

A barganha de agir com direito,
Ignora todo e qualquer respeito,
Ao que é explorado à exaustão,
Sem dó e sem sinal de gratidão.

A maioria vive da miséria alheia,
E escorropicha até sangue da veia,
Para locupletar-se em mais poder,
Que deixa os outros a se escafeder.

Quando o exemplo régio da nação,
Revela uma aguda procrastinação,
Da safadeza de quem foi educado,
Ensina-se que o mentir é o legado.

Ao se gerar um acadêmico saber,
Deixa-se de haurir e de perceber,
Que as virtualidades tão humanas,
Podem tornar santas as profanas.











terça-feira, 6 de outubro de 2015

Imperativos categóricos



Dos apelos fantasmagóricos,
Aos tantos anelos eufóricos,
Duma economia globalizada,
Resta a referência deslizada.

Discurso religioso categórico,
Ao lado do político folclórico,
Universaliza a ambição voraz,
Que engole todo rumo da paz.

O imperativo racionalizador,
Que endeusa o conquistador,
Mune-o de técnica científica,
Que sorve a vivência pacífica.

No lucrar da ordem categórica,
Esconde-se a lida nada eufórica,
Que devasta a pródiga natureza,
E força imensidões à vil pobreza.

Demais informações relativizam,
Todos os que anelam e precisam,
Da estabilidade e da participação,
E da memória de forte satisfação.

Sob o influxo de ações relativistas,
A voz oculta de vastas conquistas,
Age com categóricos imperativos,
Sob os falsos e atraentes lenitivos.




quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A lei para a vida, ou a vida para a lei?



            Questões bíblicas sobre a relação entre marido e esposa, já se manifestaram há muitos séculos antes de Cristo, e voltam a estabelecer-se com novas problemáticas em nossos dias atuais. Uma delas é a que envolve direitos do marido e da esposa.
 A Bíblia parte do pressuposto de que Deus fez homens e mulheres para uma relação de complementariedade e que, o melhor fator deste processo, é o do amor recíproco.
            Ao aparecerem dificuldades de convivência entre marido e esposa no antigo Israel, depois de ponderações sobre os casos, estabeleceu-se uma regra que permitia anular uma relação estabelecida. Da antiga legislação do tempo de Moisés abria-se um caminho de separação de uma união matrimonial; nesta, o marido levava ampla vantagem sobre a mulher. Os direitos eram desiguais. O homem, por razão qualquer, podia dispensar sua companheira. Eventual interesse por outra mulher mais simpática, ou, suposta como mais capaz de gerar muitos filhos, já se tornava razão suficiente para que a esposa fosse despedida e outra fosse adotada. Bastava que o marido desejasse a separação, que a mulher ficava sem direitos a nada.
            Criava-se, então, um problema novo para as mulheres rejeitadas. Na fase deuteronomista, posterior à mosaica, chegou-se a novo consenso que visava favorecer as mulheres rejeitadas em seu prejuízo. Poderiam, segundo a Lei, receber uma carta de divórcio. Isto, pelo menos, lhes daria uma chance de contrair outro enlace. Como vítimas de uma situação cultural, as mulheres sempre saíam em desvantagem. Mesmo assim, no tempo de Cristo, tal legislação ainda estava em vigor.
            Uma elite legisladora foi interpelar Jesus Cristo, para saber da sua posição em relação à antiga lei estabelecida. Ao mostrar que a lei devia estar a serviço da vida e não o inverso, em que a condição da mulher estava na dependência do homem, Jesus também relativizou o peso desta antiga lei: a dureza do coração masculino é que estabeleceu aquela forma favorável ao homem, altamente prejudicial à mulher.
            Na contrapartida da condição de vida justa, Jesus mostrou aos fariseus que seu fundamentalismo rigorista e injusto estava sendo inadequado. Porque tanta regalia para o homem e nenhum direito para a mulher? Assim, Jesus remeteu os fariseus ao que já fora deduzido no livro do Gênesis: que nem o homem e nem a mulher foram feitos para serem inferiores e coisificados como objetos. Por conseguinte, não caberia ao homem tanta regalia de vantagens sobre a mulher. Constituídos da mesma dignidade e da mesma liberdade, não caberia ao homem o direito de dispensar sua esposa por interesse fútil, sem que ela tivesse o mesmo direito em relação ao seu marido.

            Em nossos dias, as dificuldades para o entendimento entre maridos e suas esposas dependem de uma porção de outros fatores culturais diferentes; mas, tampouco justificam que uma pessoa venha a ser mantida como mero objeto descartável de outra pessoa e, pior ainda, que seja mantida somente enquanto propiciar vantagens de desfrute.

O grande jardim



Hegemônico sobre outros animais,
E com técnica de eliminar os rivais,
O espírito humano beira a demência,
E se consagra na mórbida violência.

Longe de cuidar da mãe terra a vida,
Administra mal e de forma indevida,
Toda a condição do jardim da Terra,
E das ricas virtualidades que encerra.

Pervertido pela ambição de acumular,
Deixa os roubados sem o humano lar,
E não se importa com o vasto efeito,
Do seu voraz e obcecado desrespeito.

Longe de facilitar a humana interação,
Segue pertinaz na sua procrastinação,
Sem avançar na básica transparência,
E nem na bondade e na benevolência.

A sã complementariedade de gênero,
Tornou-se somente meio do efêmero,
Para um desfrute e descarte irrisório,
Como algum objeto vil e provisório.

Mais do que jardins de ostentação,
Cabem os gestos de solidária ação,
Para redenção da planetária agonia,
Os que deseja viver bem todo o dia.  







Dor da injustiça



Tantas humanas dores,
Aquilatam os pendores,
Da tenebrosa injustiça,
Que enaltece a cobiça.

Alguns culpam a Deus,
Que vinga filhos seus,
Com constrangimento,
E amplo padecimento.

Outros veem humanos,
Gestores dos enganos,
A explorar vida alheia,
De forma cruel e feia.


Reduzidos a escravos,
E sem os desagravos,
Tantos entes fenecem,
E submissos padecem.

Esconde-se na proeza,
Mau trato à natureza,
E bajulação do nobre,
Que extorque o pobre.

O grito dos injustiçados,
E de tantos desgraçados,
Clama por solidariedade,
E, por mais fraternidade.












<center>FENÔMENOS CLIMÁTICOS</center>

  Cada vez mais seguidos e intensos, Causam mortes e pavores imensos, E tudo leva a crer que os culpados, São os humanos com atos er...