segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O esmaecido



Esmaecido está o pobre salário,
Sem nada de esnobe perdulário,
A conformar os pobres viventes,
E a refrear os anseios prementes.

Os argumentos de impossibilidade,
Falam mais alto que toda vontade,
E enquanto são alegados os riscos,
Já se apontam desvios dos apriscos.

A falácia que produz o conformismo,
Escancara, com vilipêndio e cinismo,
Vil e falso processo de manipulação,
A cooptar grande parte da população.

Múltiplos desvios e os super-salários,
Do engodo de mandantes salafrários,
Ferem muito mais que o fulcro social,
Os básicos direitos da interação racial.

Quando apenas os espertos malandros,
São notáveis pelo afã de seus meandros,
Nem educação e nem manifesto do povo,
Conseguirá promulgar efetivo rumo novo.




quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Quando as talhas estão vazias



A palavra “talha” apresenta mais que uma dúzia de significados diferentes. Um deles, talvez o que mais lembramos, é o do pote de barro com grande bojo para conter água, azeite ou outro ingrediente. Imaginar o tempo de mais de dois mil anos atrás, uma talha vazia certamente constituía sinônimo de alguma inquietação. Não ter água, azeite ou outro produto de alimentação básica na talha, requeria, evidentemente, algum ato de providência.
Na expressão religiosa, talha também possuía mais um significado importante para os judeus. Constituía um pequeno cubículo, parecido com nossos chuveiros – pelo menos os das pessoas mais pobres – e consistia numa escavação de aproximadamente um palmo de profundidade e que era preenchido de água para os rituais de purificação. Diante das pequenas faltas, desencontros ou desentendimentos a pessoa ficava parada neste cubículo, de modos que os pés ficassem na água, a fim de fazer o ritual de purificação daqueles deslizes, ou, como nós diríamos um momento de integração das faltas cometidas, para sentir-se purificado e perdoado diante de Deus.
O início do Evangelho de São João (2,1-11) destaca o primeiro grande sinal da parte de Deus, efetuado por Jesus Cristo, que foi o de pedir para encher novamente as talhas vazias! A religião havia se tornado tão formalista, exterior e sem força dinâmica para a vida, que já não salvava nada! Sob este aspecto, talha vazia, além de não purificar e nem redimir, significava religião inoperante.
A intervenção da mãe de Jesus Cristo reflete preocupação com esta falta de qualidade da expressão religiosa. Ela, no entanto, em vez de se prender ao ritualismo vazio, se antecipou com uma intuição profunda de que se fazia necessário uma nova aliança: não a do legalismo inoperante simbolizado na água, mas, a do novo do projeto de seu filho, identificado com o vinho. Como mãe, e, também como discípula, exerceu certa pressão pela nova aliança, capaz de encher as talhas de sentido! Longe da magia, desejou que o rito religioso não se constituísse de mera purificação, mas que expressasse a alegria da festa: afinal, o noivo – lembrando os antigos enlaces de Deus com o povo – estava ali e dava razão para alegrias messiânicas.
Se a água das talhas constituíra mediação redentora, porque substituí-la por vinho? Porque lembra a nova aliança de Jesus Cristo, capaz de propiciar plenitude à vida. Na imagem do vinho bom, que alegra a festa, encontra-se um significado simbólico muito rico: nas bodas do estabelecimento de um novo pacto, a presença do noivo torna-se motivo de alegre festa! Ele, com seu jeito e sua lida, surpreende para além do esperado. Sua presença equivale à surpresa do vinho bom, porquanto aponta caminho que não apenas redime de pequenas faltas cotidianas, mas preenche e substitui a longa tradição que havia se esvaziado e desandado em casuísmos.
Nossos dias parecem repetir algo parecido com o progressivo esvaziamento dos rituais religiosos. No entanto, o que se vê pouco, são intuições para algo novo e para além das muitas piedades marianas que sequer aproximam as pessoas ao projeto de Jesus Cristo, nem tampouco das alegrias da sua presença no meio de nós. Por outro lado, o que se vê em tantos veículos de comunicação são emocionalismos explorados nos mínimos detalhes de uma presumida deusa poderosa, vaidosa, transformada em rainha, e que, ornamentada de jóias e bricolagens, sempre requer as mesmas coisas alienantes. Esta talha também está dando sinais de decrepitude e de inoperância para os problemas reais da vida!


terça-feira, 7 de outubro de 2014

Certezas dogmáticas



A antiga crença da superioridade da razão,
E da sua alta supremacia sobre a biologia,
Engendraram crença de propalada vazão,
De que a fé requeria somente a teologia.

Surgiram deduções das mais categóricas,
A explicar de maneiras inquestionáveis,
Tudo quanto Deus queria com retóricas,
Para enquadramentos pouco abonáveis.

Como a mente humana produz cultura,
E é fruto de meio-ambientes culturais,
Não se pode superar a humana agrura,
Com elucidações teológicas ancestrais.

Certezas dogmáticas bem enrustidas,
Sobre uma procedência não biológica,
Mesmo as culturalmente consentidas,
Vieram dum certo momento de lógica.

Quando certezas dogmáticas emperram,
A animação da vida no seu modo de ser,
Necessita acolher limites que encerram,
Para o humilde diálogo poder arremeter.

Nada precisa ser temido neste processo,
Porque o trajeto do caos para a ascensão,
Não indica nenhum caminho de recesso,
Por que o percurso religioso é redenção.

Se ordem e a desordem estão mescladas,
Não cabe à religião formalismo asséptico,
Mas a efetiva lida com forças desandadas,

Para despertar na vida seu fluxo ascético. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Justiça



De idade milenar,
Sempre aquém,
Da vítima refém,
Vive a hibernar.

Favorece a sorte,
Do falso aporte,
Deixa malgrado,
O anseio anelado.

Justiça de quem,
Que só convém,
Ao fautor da lei,
Para a sua grei?

As pobres vítimas,
De dores legítimas,
E, desconsideradas,
Fenecem relegadas.

Sob ética reinante,
Da razão mandante,
Sobra conformismo,
E avança o cinismo.

A medalha da honra,
Do esperto vencedor,
Esconde na desonra,
A vítima em sua dor.

Quando a lei do forte,
Elevar a pobre sorte,
Poderá compaginar:
 Vida nova a augurar.



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Avaliação de lideranças



            Como nas muitas metáforas bíblicas que relacionam plantas e sua produção de frutos, nós, mesmo não desejando, nos vemos na condição de constatar que os frutos das lidas cotidianas seguidamente se encontram aquém do que gostaríamos de verificar.
Nas muitas causas, pode o ambiente nos facilitar a constatação de que a vida poderia desenrolar-se de formas bem mais satisfatórias. No entanto, torna-se paulatinamente mais evidente e mais comum constatar que, o alcance de bons níveis de satisfação, decorre, em grande parte, do nosso próprio desempenho. O que colhemos das lidas, nem sempre proporciona “frutos tão doces” quanto esperamos.
Na parábola da vinha (Mt 21, 33-43) há uma referência especial aos governantes da sociedade. Nos discursos eles tendem a falar muito dos bons frutos e garantem que vão dar tudo de si para que a coletividade possa desfrutar dos melhores sabores dos frutos de sua governança. A constatação efetiva, porém, leva com evidência quase total a uma conclusão decepcionante: além da clássica protelação do que prometem não se revelam nada afoitos em favor do bem-comum, anunciado com tanta grandiloquência em suas falas discursivas.
Como qualquer cultivo de horta, de jardim ou de lavoura, a lavoura do poder público na sociedade geralmente deixa lacunas extraordinárias na idealização prospectada. Os frutos, desde longo tempo, continuam mais que azedos!
Não cabe anarquia e nem tampouco a mentira para dissuadir em torno de falsas promessas ou do anúncio do que os eleitores gostam de ouvir para serem enganados. Por outro lado, o que os subordinados fazem para não engrossar o aniquilamento, a espoliação e a indevida apropriação dos bens comuns, mesmo os simbólicos?
Tanto os que assumem a incumbência de governar, quanto os que neles depositam sua confiança, tampouco podem apenas pensar em colher para encher tulhas em favor dos próprios interesses. Assim como se usurpa o que é do bem comum, se usurpa o que é do “dono da vinha”, e, procede-se uma apropriação escancarada do que, por direito, pertence a todos.
Pela mesma característica que indevidas apropriações acontecem no poder civil, acontecem também no campo religioso, escancaradas inversões dos papéis de elevado número de lideranças religiosas: no lugar do desvelo em favor do bem comum da comunidade, efetuam apropriação indevida não apenas de bens materiais, mas, o que é pior: usurpam o lugar de Deus, como se ele fosse um pobre subserviente de suas ambições religiosas e de auto-afirmação.

A imagem das uvas boas, esperadas para a colheita, que, vias de regra desencanta, - porque estão azedas - é ainda muito oportuna diante de tanta uva ofertada como o melhor da ação de Deus, mas, que não passa de um azedume de usurpação indevida tanto dos sonhos, quanto dos anseios das pessoas de fé, numa comunidade.

Anjos de Deus



Da imagem dos ícones da infância,
Enlevam-se com rica exuberância,
Os bebezinhos roliços e gordinhos,
Com asinhas e eretos “tiquinhos”.

Das histórias de anjos e arcanjos,
Contadas com inefáveis arranjos,
Nunca apareceram lindas anjas,
Nem mesmo casos de arcanjas.

Hoje bendigo o proclamado céu,
Apesar das vidas jogadas aos léu,
Por anjos e anjas a abrir caminhos,
Soldando velhos e novos cadinhos.

Como o imagético atual cortou as asas,
E sequer deixou a vida sob ondas rasas,
Mensageiras e mensageiros inovadores,
Apontam direções e passos promissores.

Constituem-se em belos sinais de Deus,
Quando esquecem os problemas seus,
 No singelo desvelo de simples atenção,
e apontam inusitados rumos ao coração.

Sem voar, aparecem de outros meios,
E no simples bem querer sem rodeios,
Seus ânimos esborrifam simplicidade,
E clareiam ricos processos de lealdade.

Causam o milagre da transformação,
Tão raro no meio da procrastinação,
E por caminho inverso ao milagreiro,
Apontam sinais do Deus alvissareiro.




quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Um caso de pouco amor



Esta esplêndida natureza,
Recebeu oferta agradável:
Desvelo de sábia inteireza,
Para uma sociedade amável.

Governar, o grande intento,
Que lateja em tantos ideais,
Para deixar cada segmento,
Em virtualidades bem reais.

Ali urgem soluções rápidas,
Para esperanças vacilantes,
Mas as mentiras intrépidas,
Produzem luzes insinuantes.

As falsidades bem repetidas,
Sob os volumes atordoantes,
Ao léu de leis estabelecidas,
Geram quadros dissonantes.

O gasto do dinheiro espúrio,
Por vias as mais indecentes,
Nada ameniza o murmúrio,
De tantos seres padecentes.

Os atos contradizem os ditos,
E revelam quadro insolvente,
De quem vomita veredictos,
Sem deixar o povo contente.

Como fogem do prometido,
Sabem protelar o proposto,
E de coração empedernido,
Relegam o povo ao desgosto.





<center>FENÔMENOS CLIMÁTICOS</center>

  Cada vez mais seguidos e intensos, Causam mortes e pavores imensos, E tudo leva a crer que os culpados, São os humanos com atos er...