sábado, 8 de fevereiro de 2014

A histriônica enrustida II



            Na fenomenal capacidade de dramatizar, dona Brunilda mostra-se muito além e acima do que acontece com as outras pessoas. Sob a aparente e introvertida moderação, as descrição das façanhas, levam-na, contudo a se assemelhar a um controle remoto de duas teclas: acionar uma delas, desperta sua falácia sobre doenças, bem como as correspondentes curas milagrosas; e, se for acionada a outra tecla, só fala de grandezas e megalomanias do que fez. Nelas, todavia, deixa transluzir o que se torna muito escancarado e evidente: sua histeria histriônica de dramatizar tudo além das medidas.
            Sob a eventual alusão de fato que venha a acionar a tecla da doença, dona Brunilda manifesta uma peculiaridade precípua: diante de qualquer informação ou comentário de alguém, relativo à doença ou enfermidade de outra pessoa, - seja internada no Hospital, envolvida num acidente, ou acamada em casa, - encampa imediatamente o assunto e envereda para a narrativa, com todas as minudências e intermináveis floreios, como lidou com esta inusitada enfermidade, de sintomas similares, mas, de efeitos ainda mais graves e de riscos muito mais amplos do que aquela informação mencionada.
Dona Brunilda entra rápida no auge da exuberância patética e desanda a descrever enfaticamente como seu caso foi do limiar entre vida e morte, e, o que é mais bombástico, como sobreviveu, graças a um pequeno detalhe, aparentemente secundário, e que até o presumido médico, o melhor que se conhece na área, interpretou como o mais lídimo e espetacular milagre do qual tem conhecimento.
            A voz de dona Brunilda chega a ficar embargada quando passa a narrar cenas e ocorrências fantasiosas, abundantes lágrimas vertem dos olhos e seu semblante vai se ruborizando gradualmente até acabar em momentos de choro, porém, misturados com a efusiva conversa, solta, fluente e impregnada daquele ar de comoção de quem, na verdade, está apenas querendo embasbacar através da mendicância de afeto e atenção.
            O desencadeamento das descrições mirabolantes em torno dos imprevistos, dos detalhes e dos contratempos ocorridos na tragédia de dona Brunilda, costuma não apresentar espaços para uma eventual interlocução. O assunto somente pode vir a ser interrompido com o a introdução supina de outra conversa: como a de perguntar algo de outro tema, ou para desculpar-se com a menção de outro assunto antes de esquecê-lo, ou ainda, para alegar a necessidade de ir rapidamente embora a fim de atender outro compromisso urgente. Enquanto isso, a histriônica prossegue a narrativa de pelo menos mais um detalhe dramático do extraordinário episódio ocorrido com ela.
            O impressionante das ladainhas descritivas dos casos de enfermidade, é que as poças de sangue são sempre maiores do que a quantia total que poderia circular pelas veias da pessoa envolvida. Assim, dona Brunilda mente de forma altamente escancarada e realmente consegue confundir e persuadir as pessoas a ponto de levá-las a acreditar que suas descrições sejam pelo menos parcialmente verídicas. Nestas enrustidas manobras chama atenção de qualquer forma: ou pela compaixão e complacência que procura atrair sobre si com a dramaticidade dos sofrimentos, ou ainda pela forma como foi prestimosa e humanitária na prestação de serviço que salvou e que curou as pessoas das quais fala. É o chá que ela fez; é o comprimido extraviado que achou por um acaso, ou a técnica que utilizou no procedimento.
            Certo dia, acometida por um panarício no dedo indicador, fez este dedo tornar-se ao longo de muitas semanas o único e central assunto de suas conversas e gerar certa consternação e empatia coletiva da comunidade. Com o dedo envolto em fartas ataduras, sabia dona Brunilda, como somente ela, explorar o universo escondido e misterioso sob aquele curativo e recontar os incontáveis imprevistos decorrentes desta pequena faceta do dedo: desmaios decorrentes das dores insuportáveis, entradas em coma; inúmeras cirurgias, remoções a Unidades de Tratamento Intensivo e a transferência para, finalmente, com os melhores médicos da capital, ser milagrosamente desviada da morte iminente.

            

Sabor



A ação poderosa das substâncias sápidas,
Ao atingir a língua, o paladar ou o talante,
Recebe em velocidades muito mais rápidas,
Respostas diligentes do satisfeito alarmante.

Acostumado a desapontar-se com o insosso,
Quer empanturrar-se do gosto saboroso;
E no desprezo do insípido de mau endosso,
Reflete no olhar o semblante desgostoso.

Como aurora que irrompe na escuridão,
Deseja encher-se da sensação gostosa,
Para, enfim, saturar-se à exaustão,
Desta excelsa dádiva, tão meiga generosa.

Presente em tantos e tão variados produtos,
Está o sabor, além das almejadas degustações,
A apresentar, nos mais estranhos redutos,
O sinal inconfundível das boas reputações.

Se tantos sabores saciam carentes e sedentos pendores,
Por que não ser tempero para tantos olhares nada sápidos,
Que já perderam da vida a degustação dos melhores penhores,
E carecem de socorros humanos imediatos e muito rápidos?

Se milhões de viventes anelam pelos bons sabores,
Que permitam suplantar as insossas convivências,
Por que não pensar mais em propiciar-lhes alvores,
E deslocar a cega preocupação pelas próprias carências?

Como o sal constituía para povos ancestrais,
Conceituado e excelso produto para conservar;
Possa, nossa vida, sem honrarias magistrais,
Prestar-se para boas relações preservar.





quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A histriônica enrustida



            Há quase quatro décadas atrás o saudoso sociólogo Dr. Pe. Ernesto Goeth, admirado professor da PUC de Porto Alegre, costumava alertar aos que viessem atuar em ambientes sociais para que tivessem muitas e especiais precauções na lida com mulheres histéricas, muito mais comuns do que se imaginava. Seriam pessoas altamente tinhosas para infernizar a vida.
            Na época, dona Fidência, vivendo a crise psico-social da proximidade dos cinqüenta anos, mesmo com marido e filhos adultos e casados, constituía um exemplo de quem sabia tumultuar exaustivamente a vida do então pároco no bairro Passo das Pedras, padre Roberto. Mesmo que todos a definissem como histérica, não deixava de provocar verdadeiros sururus por todo lado.
            Por mais que padre Roberto a mandasse seguidamente para o quinto dos infernos, voltava todo dia e, diversas vezes ao dia, para falar com ele. O pouco que se podia saber destes encontros eram os gritos do padre ameaçando chamar a polícia ou de mandá-la a coices para fora da sala. Nada dava efeitos eficazes, e, toda vez que a campainha tocava a imaginação já indicava quem era.
 Dona Fidência não dava sossego de forma alguma ao corpulento careca padre Roberto. Como católica praticante, dona Fidência foi paulatinamente descobrindo táticas mais sutis para provocar o padre e deixar sua careca ruborizada de incontida raiva.
Certo dia, em plena celebração, dona Fidência foi sentar-se na parte central do primeiro banco, e ali ria e se mexia para todo lado a fim de chamar a atenção do olhar do padre sobre si. Ao perceber que ele a olhava com mil censuras, puxava a saia para cima das pernas e as abria escancaradamente para os lados e, com um detalhe, sem roupa íntima.
            Com a testa ainda mais ruborizada, padre Roberto, depois dos repetidos procedimentos similares de dona Fidência, pediu para que alguns homens a retirassem daquele ambiente. Chegando à porta, desvencilhou-se dos acompanhantes e saiu correndo rua afora e gritando por socorro, com toda a potência dos seus gritos, sob a alegação de que o padre quis estuprá-la... Na celebração seguinte, voltou ao mesmo lugar e, depois de iniciada a celebração, puxou da bolsa uma lâmina de barbear e se cortou os pulsos para chamar atenção tanto do padre quanto dos outros e merecer o necessário aporte para ser levada rapidamente a um pronto-socorro. Repetiu a cena muitas outras vezes, mas sempre quando estava segura do atendimento imediato. Assim, a toda hora, ocorria alguma novidade envolvendo a dona Fidência.
            O andar da vida levou à efetiva constatação de que pessoas com dissociações mentais de fato conseguem tirar o sono, tanto pela astúcia de suas artimanhas, quanto pela maldade do que inventam. Esta labilidade emocional já recebeu diversas explicações desde as que partem do termo grego histeria, que significa útero.            
Num momento se pensava que disfunções no estágio uterino seriam as causas desencadeadoras dos sintomas clássicos de mudanças rápidas, afetando principalmente mulheres e envolvendo-as em posturas variadas como sonambulismo, paralisia, cegueira, dores intensas e excessiva sensibilidade às dores.
 Em outro momento observou-se que os fatores de predisposição à histeria teriam causas muito mais psíquicas do que físicas. Dependeria essencialmente de um tipo de ambiente de convivência de intensa repressão sexual. Sob este aspecto, estados emocionais conseguiriam levar o sistema nervoso a alterar suas costumeiras enervações neurotransmissoras e gerar sinapses com alterações de informação ao cérebro. Seria como pessoa alcoolizada ou drogada, que visualiza imagens não existentes, mas as visualiza como reais e objetivas.
            Outra peculiaridade da histeria, no entanto, é a manifestação histriônica, que foge dos tradicionais sintomas e leva pessoas a viver como se estivessem num palco, diante de uma grande platéia, e ali tivessem que vivenciar intensamente o papel encenado a ponto de exagerar exaustivamente, e, ao máximo, tanto na argumentação quanto na dramatização do que encenam.
            Na vida real a convivência com a proximidade de pessoas desta natureza dramatúrgica leva ao limiar da paciência: parece que todos os neurônios das histriônicas trabalham em sentido contrário ao das outras pessoas e levam estas pessoas a falar o oposto do que ouvem, a dizer o contrário do que pensam e a justificar essencialmente o inverso do que manifestam. Chamá-las de mentirosas, fofoqueiras, linguarudas, queixosas, falsas, traiçoeiras, lamuriosas e outra dúzia de termos qualificativos não abarca suficientemente os poderes perversos que exercem nos ambientes de convívio.
            Na cidade de Morocó, uma afamada histriônica, chamada Brunilda, vive intensamente os traços da dramatização e sabe como ninguém, colocar-se de vítima e, ao mesmo tempo, de atacante voraz e sorrateira para condenar tudo quanto não concorre à sua presumida megalomania, ou seja, como só pensa grandeza, nada é pequeno, nada é simples, nada é fácil e nem discreto. Em tudo há dramatização sangrenta; em todos os gestos há ameaças ao seu status, à sua função e ao seu bom nome.
Brunilda não é nenhuma artista de palco, mas, domina melhor do que todos eles o malabarismo encenador dos mínimos detalhes para transformá-los em fatos altamente trágicos e comoventes. Qualquer espinho tirado do dedo vira cirurgia de alto risco e de incontáveis imprevistos para além dos choques anafiláticos e das paradas cardíacas. As dores que alega suportar são de causar comoção efusiva e consternação contagiante. Ela, no entanto, não deixa de ser a heroína dos êxitos e da salvação do que estava na iminência de perder-se para sempre. Sabe elogiar seus atos e suas idéias, bem como seus atos heróicos, com incontáveis detalhes. Já que os outros não destacam seus méritos e suas conquistas, ela mesma os enaltece aos píncaros das mais altas benemerências e honras.
            Uma eventual remessa de dona Brunilda ao “quinto dos infernos”, com certeza, reverteria em procedimento decepcionante, pois, ao retornar, voltaria exaltando ainda mais seus megalomaníacos pendores e suas incontidas grandezas, e, o que seria pior, numa dramática encenação mostraria em detalhes como derrotou o capeta, e conquistou um lugar um pouco acima de Deus. Como não condoer-se com as dramaticidades megalomaníacas da dona Brunilda? Ai, que dó!

Nem a terapia do analista de Bagé, a de aplicar alguns “joelhaços”, daria resultado relaxante, porque, também neste caso, encontraria um novo enredo magistral para mais uma encenação de superação e de vitória brilhante.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A fé poderosa de dona Benta



Com o código genético recheado de primariedade espanhola, dona Benta, volumosa e ciosa do seu patamar espiritual, é, no entanto, bem mais ágil do que a cobra “Bico de Jaca” para erguer a cabeça e, do alto dos seus exotéricos poderes espirituais, saltar para desferir um bote certeiro de condenação de tudo quanto considera inferior às divinas leis espirituais.
A língua da dona Benta, muito mais versátil que a da perigosa peçonhenta, consegue prender, na rapidez dos movimentos, o olhar das vítimas e hipnotizá-las para uma imobilidade de apenas acatar as ditas “verdades verdadeiras”.
Distante da memória do homônimo São Bento, que ficara conhecido e muito lembrado pela expressão “Ora et Labora” (Reza e trabalha), dona Benta preenche seus dias com devoções. O nome que lhe fora auferido no batismo, certamente representou a melhor adequação do que seus pais desejaram a seu respeito. Na vida real e efetiva, entretanto, dona Benta pendeu para outro caminho de piedade diverso da tradição. Trata-se de uma piedade sem espiritualidade, e, ineficaz para movê-la na vida como discípula de Jesus Cristo, porque enveredou para uma espiritualidade balofa, exterior, mágica e arrogante, donde dispensa as mediações apontadas por Cristo.
O nome da dona, por outro lado, combina perfeitamente com seus rituais cotidianos de muitos gestos, de genuflexões, de inclinações, benzeduras e de outros múltiplos malabarismos rituais diante do televisor, a fim de captar toda a riqueza da bênção que o padre Robson emite em suas verborragias televisivas e, com aquele ar de resignado e parcimonioso servidor, humildemente solícito e pronto para fazer o que o divino pai eterno lhe pede: abençoar a água que os devotos colocaram sobre os televisores, a fim de que eles possam sorver aos ínfimos e pausados goles aquele precioso néctar divino, e assim, captar toda a plenitude das forças dos mais escondidos segredos dos altos céus, contidos nesta generosa dádiva da oferenda divina.
 Junto com os rituais de ambíguas apelações religiosas, sempre vêm discretamente explicitado o que o divino pai eterno espera em troca do seu gratuito e espontâneo procedimento milagroso: que os fiéis agraciados com a água abençoada façam generosas doações, tanto quanto lhes é possível, em favor da construção da sua nova e futura residência, logo ali, no santuário de Trindade. Porventura, não estaria ele, o divino pai eterno, sendo merecedor da melhor residência deste paradisíaco “berço esplêndido” que é o Brasil?
Em troca da benfazeja oferta em favor da merecida e suntuosa residência, ele, o divino, já adianta algum sinal de cortesia, - o que já deve ter aprendido com políticos brasileiros – e deixa escorrer meloso como o mel sobre as barbas do novo profeta, a prateada água que faz borbulhar milagres de dar inveja aos outros que não sorvem estes preciosos goles impregnados de virtualidades espirituais, mas, fortes como torrentes de águas caudalosas. Tudo isto, contido num copo de água, deixado sobre o televisor.
Afinal, não mereceria tal benemerência divina também uma proporcional fartura de rituais, de piedosas inclinações, de genuflexões e malabarismos de gestos, a fim de solenizar a degustação prazerosa desta essência exotérica de milagres e graças?
A torrente de irradiação dos estupendos poderes divinos e milagrosos, que atalham os outros penosos caminhos da fé daqueles que, no discipulado de Jesus Cristo desejam encontrar alento, motivações e as mínimas forças para ainda apostar num mundo melhor, promove dona Benta a tão fácil e fictício poder superior.
Por presumir-se privilegiada neste caminho emotivo, fácil e intimista, dona Benta se constituiu a si mesma no patamar hegemônico da espiritualidade da comunidade católica. É, no entanto, uma espiritualidade que a torna vaidosa, cheia de si mesma e gulosa, a ponto de propiciar um estranho visual, uma vez que seus óculos se parecem a uma pequenina fresta na parede e salientam sobre os avermelhados pômulos faciais, a aparente fissura, por onde dona Benta visualiza tudo o que se passa no derredor. Este olhar escondido indica, todavia, uma analogia dos antolhos que limitam sua visão, porquanto enxerga tudo pela frincha fixa que propicia, apenas e inevitavelmente, a mesma visão parcial: tudo o que é novo e diferente do que pensa, está errado!

Sob a aparente, santa e piedosa enlevação divina, dona Benta desperta nas pessoas mais sentimentos de consternação do que de encantamento pela leveza do seu coração. Afinal, poderia viver mais feliz, dar-se bem com os filhos e com a vizinhança. Nas suspeitas sobre dona Benta persiste uma dúvida: será que ainda chegará um dia a persuadir-se de que pode trilhar um modo de vida bem mais simples e bem mais humana, capaz de transluzir a premonição de “um novo céu e de uma nova terra” e não apenas o cego obstinado poder?

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Uma Constituição intrigante



            Da antiga herança bíblica, lembra-se, ainda hoje, uma grande Constituição, a promulgada por Moisés no alto da Montanha (10 Mandamentos), que desejava unir distintas tribos em torno de uma mesma meta: que elas se respeitassem e que fossem cordiais entre si, na difícil possibilidade de conquistar um chão para viver. O apresentador da Constituição desejava ardentemente o amparo de Deus para o êxito do grande sonho despertado naquelas tribos envolvidas.
            Junto com o acréscimo posterior de muitas outras leis, visando ratificar e alargar ainda mais e melhor aquela Constituição, vieram também deduções teológicas. Uma delas, e que ainda continua a impor-se diante das incontáveis outras Constituições promulgadas em nossos tempos, é a de que Deus abençoa pessoas com prosperidade material e com riquezas. Sem demora, evidenciou-se que pessoas pobres e estéreis constituíam um grupo de pessoas “malditas” por Deus e, por isso, elas ficavam relegadas à própria sorte, porque também a sociedade que se auto-interpretava abençoada, as excluía de sua convivência.
            Profetas, como Joel, tentaram despertar alguma pequena esperança naqueles considerados “malditos de Deus”. Apontavam que esta frágil esperança de amparo por parte de Deus, ainda poderia fomentar e fazer evoluir uma condição humana, na qual, eles também poderiam ser abençoados. Os profetas procuravam, igualmente, mostrar que até mesmo de pequenos e insignificantes grupos poderia gestar-se uma opinião capaz de subverter a teologia oficial da retribuição e da prosperidade material, como os mais evidentes sinais da bênção de Deus.
            Muitos séculos se passaram até que, novamente no alto de um monte, alguém apresentasse outra Constituição, não mais para os já presumidos abençoados, mas para as multidões dos “malditos” que não tinham voz e vez com ninguém. Tratava-se da promulgação da conhecida Constituição de Jesus Cristo (Bem-Aventuranças), altamente subversiva para os abençoados. Surpreendentemente, o promulgador desta Constituição inverteu o referencial dos abençoados, e chamou de felizes os grandes grupos humanos, classificados como “malditos”, porque neles constatou algo inusitado. Mesmo na exclusão social e, na pior pobreza, ainda manifestavam algo muito valioso em seu interior: contra tudo e contra todos, admitiam a esperança de que Deus, na verdade, poderia fazer algo para ajudá-los a terem vida mais digna.
            Como poderiam reagir os abençoados? Sabemos muitas coisas a respeito de como procederam diante daquela Constituição. O mais impactante foi que Jesus Cristo convidava estes “malditos” a serem protagonistas da implantação de uma mudança teológica e efetiva na organização da vida social. Poucos séculos de acirrada perseguição e difamação dos defensores da nova Constituição ficaram para trás e veio, gradualmente, a ratificação desta Constituição, porém, adaptada aos conceitos imperialistas indo-europeus e romanos de bênção. Dali para frente, a história registrada em livros, deixou fartos elementos de como este processo se desencadeou.
            Hoje, passados mais de dois mil anos da promulgação das regras subversivas de Jesus Cristo, não somente os principais artigos componentes da sua Constituição, mas, também a pessoa Dele prossegue sendo adaptada ao velho discurso teológico-religioso: mera fonte intimista de bênção e de acessos exotéricos para curas, milagres e muita conversa enganosa de prosperidade material! Tudo no mais lídimo processo de separação e de culpabilidade de quem não se submete aos ditames da bênção.
 Afinal, até mesmo as disputas acirradas e fanáticas em torno do aumento do rebanho – e como as “ovelhas” são disputadas! – revelam que na motivação do aumento das ovelhas salvas e abençoadas, subjazem interesses ambíguos de prosperidade material. Por outro lado, persiste e se alarga a antiga e crassa teologia que arrebanha mais para a prosperidade dos interesseiros do que por alguma motivação de discipulado segundo a constituição de Jesus Cristo a fim de envolvê-los na lida com a escancarada condição humana, tão injustamente contraditória sob a égide da bênção.
Sobra, pois, a esperança de que a milenar constatação de um “pequeno resto” com virtualidades de ainda demonstrar abertura de motivações para algo novo e diferente: lidar com um cotidiano extremamente difícil e se mover por sinceros desejos de ajudar na edificação de uma sociedade não mais dividida entre “abençoados” e “malditos”. A sensação, no entanto, é a de que os muitos “abençoados de Deus”, na verdade, - como pensam precipuamente e muito em si mesmos, - já não indicam esperanças, por tênues que possam evidenciar-se, para os malditos de nossos dias!
           



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

As três corocas do capeta



Um dos conceitos mais ambíguos da nossa língua é o que envolve diabo, capeta, demônio ou chifrudo, e que alguns delineiam como “inimigo” a ser destroçado e vencido.
 Sem as fontes seguras e diretas do maligno, valho-me do conceito de que demônio, (capeta, diabo, chifrudo, e outros sinônimos), é tudo quanto divide, separa e desintegra. Com este significado, olho para três corocas. Uma mais piedosa e puritana do que a outra, mas, as três também disputam entre si a precedência e parecem encontrar-se empatadas na extraordinária capacidade de inventar fofocas, intrigas e futricas. São católicas que presumem ser muito mais santas que o papa ou qualquer dos inúmeros santos e santas proclamados nos altares.
Nas ruas da cidade de Morocó, a disputa pelas eventuais ovelhas a serem protegidas e salvas, leva doze distintas entidades religiosas a machucar o ouvido pela intensidade dos sons acima do tolerável à audição, e com insinuantes promessas de sessões especiais de curas, milagres, libertações e alcance de tudo quanto possa ser desejado para a plenitude da felicidade e do bolso recheado de dinheiro. Insinuam especialmente os poderes contra o maligno, advindos e mediados por pastor afamado de outra cidade do país e chegado para a manifestação dos poderes de Deus, através de poderes secretos que somente ele domina.
 Ao lado desta manifestação diabólica que separa, divide e logra muita gente, um pouco mais contida e acuada, encontra-se uma comunidade católica, que também quer constituir-se instrumento e sacramento de salvação, segundo o projeto de Jesus Cristo.
À parte das disputas de lugares e de mediações por onde a suposta força divina encontra secretos fluídos e poderes exotéricos e hegemônicos sobre satanás, trava-se no interior da comunidade católica uma disputa ferrenha em torno de honra e de precedência das três corocas. Longos anos ofereceram-lhes uma fantástica capacidade de dividir, de separar e de arrumar confusão em torno de minudências.
 Uma, constituiu-se dona dos panos, das toalhas, das flores e dos objetos do altar. E ai se alguém mexer na ordem de algum destes objetos! É assunto para exaltação da voz e muitos resmungos.
 A outra descobriu os poderes secretos de se constituir dona dos comentários e da escolha de quem pode e de quem não pode proclamar uma leitura. Eventual leitor de outro partido político é visto como capeta que jamais pode requerer tal serviço à comunidade. Também é dona dos cantos: podem ser cantados somente os cantos lentos e lamuriosos da renovação carismática que ela entoa. Eventual ousadia de sugestão para outro canto menos intimista, recebe rechaço com imediata censura verbal.
 A terceira coroca descobriu outro patamar de status que faltava para completar a manifestação viva do capeta: é dona do serviço de coroinha e ministra da eucaristia. O enorme terço enrolado nas mãos atrapalha o serviço do altar, mas a dona coroinha, não arreda o pé da sua instância de poder, que, na verdade, não soma e nem acrescenta coisíssima nenhuma à qualidade de fé da referida comunidade.

Possivelmente a única forma de combater a prepotência do poder das três corocas, vai ser a de chamar, um dia, todos os pastores milagreiros e libertadores através de curas divinas, para ver se, juntos, conseguem potencializar a milhares de Megawats de fé, um “Show Satanás” e mandar esta força do capeta para longe das três corocas. Aí sim, poderia o fruto do milagre transluzir algo de agregador nestas beatas das muitas formalidades e aparências exteriores: poderia a humilde consciência fazê-las perceber que funções nos rituais litúrgicos devem ser efetuadas como serviço e não como um poder tirânico e despótico.

Os rituais cotidianos

Uma grande variedade de rituais cotidianos possui a virtualidade de oferecer sentido à vida e dar gosto à existência. Desde o modo de saudar os que já se levantaram antes de nós, como pedir bênção aos pais, ou dar um abraço nos membros da família, podem, além da formalidade, encher-nos com uma riqueza humana que não se compra em lugar nenhum. 
 Uma longa ancestralidade da vida de aldeias e de pequenas comunidades rurais deixou como herança uma grande riqueza de rituais diários envolvendo a acolhida dos visitantes, o prazer de lhes ajudar em algo, o modo de servir refeições e muitos rituais em torno das refeições e momentos festivos, enfim, alegria da cordialidade, prazer de ver outras pessoas satisfeitas. 
 Desde algumas décadas atrás, diversos rituais cotidianos começaram a ficar de lado ou a desaparecer do ambiente familiar. Muita gente rezava antes e depois das refeições e já não reza mais; em muitas casas somente se iniciava uma refeição quando todos estivessem sentados em torno da mesa; da mesma forma sumiram rituais em torno das rodas de chimarrão, do cafezinho e dos momentos específicos para partilhar impressões relativas a acontecimentos ou emoções importantes. 
 A compactação do tempo e do espaço, sensação experimentada com a aceleração das ofertas de informações e com o aumento de desejos em torno de incontáveis possibilidades, introduziu a noção de que o tempo é muito curto, fugaz, passageiro e que passa como uma miragem que repete sempre o mesmo comando: ser rápido, apressar mais o passo, a refeição e o tempo para chegar ao serviço ou à meta desejada... 
Esta compressão se torna parecida com um turbilhão de altíssima velocidade, acionada pela força nuclear da alta rotatividade das comunicações virtuais. No entanto, quando tudo parece ser instantâneo, e o fluxo das novidades para serem degustadas, provadas e vivenciadas se apresenta como interminável, acaba se impondo a sensação de que tudo quanto é rotineiro, repetitivo ou da simbologia de tempos passados, já constitui assunto superado.
 Provavelmente este tempo acelerado vai implantar rituais próprios que possam vir a preencher muitos aspectos do sentido da vida das pessoas. Por enquanto, porém, parece que se produz um aumento de pessoas aquinhoadas atrás de mil coisas e novidades, mas sem rotinas capazes de preencher a vida, com coisas muito pequenas, mas, muito grandes para propiciar gosto e satisfação ao que se faz.
 Embora a vida nos coloque entre duas polaridades, a da estabilidade e segurança e a da novidade e do risco, precisamos encontrar um equilíbrio razoável para controlar os riscos (como os das aventuras e jogos radicais), as incertezas (falhas humanas e mecânicas) com a liberdade do novo e da aventura. Tal insegurança nos remete para uma arte não muito fácil: como nos socializar com adequado controle dos riscos e avançar na busca de novas emoções mais radicais e para além dos limites estabelecidos? Os rituais certamente constituem o fator capaz de estabelecer um equilíbrio razoável.
 Assim, como o desejo de muita adrenalina, emoção nova e forte, obriga a lidar com medos e com nervosismos, carecemos de fatores de coesão para decolar, voar e aterrissar. Em outras palavras, precisamos de coesão comunitária para não ficar apenas no êxtase, e, para poder partilhar e ponderar sobre os riscos. Aparece então a necessária rotina de contar e recontar os fatos. 
Certamente a fadiga psíquica não se manifestará quando há rituais que permitem a cada indivíduo perceber que ele não é uma ilha isolada e independente, mas, inserido num grupo social, onde ele percebe que o especial e o fora do comum não são mais importantes do que o trivial e o extremamente comum. 
 Para certos conceitos de nossos dias as mínimas coisas de cada dia e os pequenos rituais de cada dia não são importantes. Muitas pessoas foram socializadas para rotinas como lavar louça, limpar o chão, cuidar da limpeza e da higiene de crianças, e estas rotinas podem ser altamente significativas como sinais simbólicos de interesse, consideração e atenção às pessoas envolvidas.
 Há pessoas que até desejam compulsivamente a rotina do amor, no pressuposto de que outras pessoas as façam felizes, mas, nas mínimas alterações destas rotinas já são levadas a se sentir ameaçadas e passam a agredir ou a defender-se.
 Assim como as festas rompem o cotidiano das rotinas, os rituais cotidianos quebram o enfado do dia-a-dia. Portanto, “um viva!” aos rituais cotidianos pelo bem que fazem ao equilíbrio da vida! Ao contrário do que Erik Freire escreveu, de que “Rotinas são para tolos. Cotidianos são para cegos” (fixurmind.wordpress.com/2007/08/24), acredito que os ritos tiram a banalização e o vazio da vida e eles nos fazem perceber que não somos meras máquinas para executar tarefas, ganhar muito e acumular bens. Ao lado dos símbolos, os ritos cotidianos preenchem a vida, apontam o sentido da festividade e indicam perspectivas para além da morte.

<center>FENÔMENOS CLIMÁTICOS</center>

  Cada vez mais seguidos e intensos, Causam mortes e pavores imensos, E tudo leva a crer que os culpados, São os humanos com atos er...