terça-feira, 5 de novembro de 2013

Oblação e crueldade



         Nas lidas com instâncias hierárquicas, também nas eclesiásticas, o lado messiânico facilmente se destaca. Sob suas sombras, porém, podem sobrepor-se com facilidade e freqüência, procedimentos não só distantes do bom-senso, mas constituir processos de ruptura e distanciamento bem mais destacados do que os de efetiva salvação.
Alguns mandantes são longamente formados para as instâncias administrativas através das vias da honra familiar. Outros se proclamam agraciados e ungidos pelos dotes divinos para o exercício gratuito da boa condução das mansas e dóceis ovelhas da sua grei. Estes “homens de Deus” podem, todavia, mostrar-se, tanto quanto os perversos, mais propensos para atos de violência do que de bondade e, seus discursos enfáticos e incisivos sobre amor, ternura, afabilidade, nem sempre conseguem desvincular-se do prepotente autoritarismo no trato efetivo com pessoas vinculadas a eles no serviço evangelizador.
Fala-se muito da crueldade dos policiais, dose ladrões e dos assaltantes, mas pouco se fala da crueldade e da violência de todas as estruturas internalizadas, sejam políticas, econômicas ou religiosas. Bem sabemos o quanto todas as estruturas se mostram cruéis. Também as estruturas interiores de cada pessoa, podem constituir uma borbulhenta fonte de violência, capaz de levar a mobilizações bem mais agressivas do que se poderia esperar.
 Inquietam-nos principalmente as formas disfarçadas de violência que se manifestam através da religião. Na aparente oblatividade dos mais puros e lídimos sentimentos elevados a Deus, tende-se a disfarçar a dimensão perversa que perpassa a subjetividade humana, pois, impregna-se de múltiplas formas de capazes de incrementar atos perversos.
 Segundo Luís Maldonado, o sagrado tem sido uma das formas de avivar os instintos cruéis da humanidade.[1] Ele mesmo chegou a indagar se o sagrado não constituía a maior fonte de violência no mundo.
Basta observar como nas invocações da divindade, geralmente extravasam exacerbações de violência, pois, invoca-se a ação divina para suprir e complementar o que não se consegue vingar e alcançar com a força das próprias mãos.  Convém, portanto, que se perceba nos presumidos mediadores de Deus, a coexistência de formas bem sutis e sorrateiras de sacrificar e imolar, em nome das instâncias divinas, todos quantos que não se alinham com seu pensamento único, monista e presumidamente especial, porque diretamente delegado por Deus.
Algumas estruturas de regimes sociais são certamente mais fáceis de serem mudadas do que as estruturas interiores. Por isso, as aparentes fachadas do poder de certos cargos, sobretudo quando implicam em vestes muito especiais e pomposas, não conseguem esconder e dissuadir que também os presumidos homens de Deus podem constituir-se em importante fonte de procedimentos marcados por perversos níveis de crueldade.



[1] MALDONADO, Luis. La Violencia de lo Sagrado – crueldad versus oblatividad o El ritual Del sacrifício. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1974, p. 08.

Uma disputa chinfrim



            - Você já viu alguma coisa mais sem graça do que discurso de político, falou dona Coralina ao seu marido Bonifácio.
            - Já, respondeu ele! É briga de bode. Os dois tomam distância, se olham e um corre ao encontro do outro para um simples repto dos chifres contra os do outro.
            - Não assim, eu penso coisas mais ligadas às pessoas! Refiro-me ao campo das muitas propagandas e mentiras que se aplicam com a maior desfaçatez. Como existe médico e médico, alguns são muito afamados e bons, mas também não faltam aqueles que acham que um simples bater de vistas no rosto do cliente já lhe faculta a segurança para prescrever receitas de remédios a serem adquiridas nas farmácias. No entanto, na relação dos curandeiros, de todos quantos já cheguei a conhecer, não encontrei nenhuma outra coisa que se manifestasse acima de procedimentos chinfrins.
            - Chinfrim? Mas o que você está querendo dizer mesmo com o termo?
            - Ah Bonifácio! Sei desde muitos anos, que não deveria sequer ir atrás de curandeirismo, mas, acabo, volta e meia, indo atrás desta coisa sem graça, apresentada como milagrosa, simplesmente, por pressão de pessoas amigas. Como que a gente vai medir a reta intenção das pessoas amigas, ao insistir demasiadamente na ênfase de fazer a gente ir de encontro a alguma pessoa charlatã?
            Poderia mencionar pelo menos mais de uma dúzia de consultas feitas, não porque eu as desejei, mas porque fui persuadida e convencida à força para que fosse até lá. Ultimamente já evito falar de qualquer sintoma de doença com as amigas, simplesmente para evitar que me insinuem a ir num curandeiro, num espírita, que, geralmente, é charlatão. Para começar, sempre afirmam coisas genéricas que, com certeza, acontecem com quaisquer pessoas. Um pouco de problema renal, de fígado, um pouco de problema de estômago.
            Veja só Bonifácio, vou falar-te apenas do último caso de consulta. De tanto elogio da medicina popular alternativa da Nicarágua que se vale de pessoas sensitivas, até o padre me convenceu de que deveria ir fazer uma consulta. Explicou que a mulher Guilhermina, uma sensitiva que se formou em Nicarágua, é fenomenal para detectar qualquer doença. Ela manda você prender a mão num arame, e ela encosta este arame nas partes do corpo humano de um mapa da anatomia humana e, com isso, ela sente o que está mal no cliente. Depois ela faz um teste para ver o remédio que se precisa tomar. Encosta o arame em diferentes plantas desidratadas espalhadas sobre a mesa e então sente qual é o indicado para ser ingerido e curar a enfermidade.
            De tanto que minhas colegas me recomendaram uma consulta com a Guilhermina, acabei entrando na conversa e a amiga Maria me levou lá. Por outro lado, de tanto levar fora pelo que eu mesmo acabava revelando aos ditos terapeutas, desta vez, fui prevenida a não mencionar o que realmente estava sentindo. Só falei que não estava me sentindo muito bem.
            A mulher explicou o procedimento e disse que o método era rigoroso e que ela estava trazendo esta novidade da Nicarágua. Alcançou-me um arame todo retorcido e enferrujado e pediu que eu o apertasse firme entre os dedos. Segurando o arame com as duas mãos, ela o encostava sobre os desenhos do mapa. Deve ter arrumado este mapa em alguma escola que já o dispensou, dada à sua velhice. Começou pelos pés e foi subindo. Por sorte até o umbigo, não detectou nenhuma anomalia. De repente falou:
- Olhe, estou sentindo que você está com um pouco de dificuldade de fazer digestão! Mexeu o arame para o lado dos rins e emendou:
- Olhe! Um dos dois rins também não está tão ativo quanto deveria estar, e sinto ainda que, o fígado também não produz bílis suficiente para a adequada função da sua tarefa.
 Eu, no entanto, procurei manter-me absolutamente quieta a fim de não revelar sintomas de nada. Subiu o arame no mapa e chegou à cabeça sem maiores anomalias a declarar. Pediu-me, então para soltar o arame e ela o jogou sobre uma velha e bagunçada mesa. Depois falou:
            - Senhora, vamos agora verificar o chá que melhor vai sarar estes três problemas de saúde. Em poucos dias você estará saudável. Pegou novamente o arame e fez-me segurá-lo, enquanto passava a outra ponta sobre o boldo, sobre o capim cidreira, e sobre a quebra-pedra. Constatou que as três variedades de ervas eram as indicadas para a minha cura. Tudo devidamente pago, desde a consulta, dona Guilhermina mostrou-se gentil e perguntou se acaso sentia alguma outra coisa. Respondi na hora:
- Olhe, eu ando com câncer! Na verdade, pura apelação da minha maldade.
            A presumida médica se atrapalhou um pouco, pois, seu rosto começou a evidenciar maior ruborização do que antes, mas logo falou:
- Eu senti que você está com câncer. Como esta informação geralmente assusta as pessoas, eu não costumo informá-las desta doença para evitar este desconforto, mas, sempre consulto o chá adequado para curá-la. No seu caso, eu, sem falar isso a você, anexei, junto com as três ervas, casca do pau vermelho do Paraguai, o mais afamado e poderoso remédio para curar câncer. Você pode reparar em casa que o chá vai ficar bem avermelhado e isso é para curar o câncer.

            Voltei chinfrim e chateada por mais uma vez ter sido fraca diante de uma propaganda enganosa. Acho que esta lida é ainda mais sem graça do que as evidentes mentiras que os políticos procuram nos apregoar.

A mulher com a doença do sexo



            Numa visita à casa de Pedro Nantes, o assunto da conversa, desde a acolhida, estava estranho ao modo convencional.
            Na chegada, depois da calorosa recepção, parecia que algo de inquietante estava no ar. Pedro e sua esposa Maria se cruzavam os olhares a todo instante, enquanto se desenvolveram os prelúdios da conversa mais informal. Ela parecia apresentar maior volume de líquido lacrimejante nos olhos do que de costume. De repente falou: Paulo, nós apenas estávamos falando de um problema que aconteceu com nosso filho Marcos.
- Aé! Com o Marcos? – indagou Paulo. Sim, disse ela, ele está nos causando um duplo constrangimento e nos deixa muito aborrecidos: um, porque largou a esposa e os filhos, quando achávamos que eles viviam muito bem e muito felizes; outro, porque foi se juntar com a mulher chamada Marciana. Você conhece a Belarmina, lá da Fazenda! Pois é, a Marciana é irmã dela. O pior mesmo é saber que Marcos se juntou com a Marciana, logo esta mulher doida da vida e, - o que todo mundo sabe, - ela está com a doença do sexo.
- Uai! Ela é aidética, perguntou Paulo.
- Não, ela tem a doença do sexo!
- Ah, respondeu Paulo, ao perceber que tinha errado o alvo interpretativo, está com alguma doença venérea?!
 - Não Paulo! Respondeu Maria, com o rosto ruborizado. É que ela não se sacia sexualmente! Mata qualquer homem no cansaço.
- Iche! Exclamou ele, já entendi!
            Maria prosseguiu no assunto. A Belarmina é uma mulher muito direita, e nunca se ouviu falar nada dela. É muito querida e agradável nas conversas, mas esta Marciana, para você ter uma idéia, já teve mais de dez maridos. E ela termina com eles, em muito pouco tempo. Ela não dá sossego para homem e quer fazer sexo vinte e quatro horas por dia. Como pode que o nosso filho tenha entrado numa fria dessas! Não dá para entender. Nós mesmos nos perguntamos, onde que erramos na educação?
            Pedro, que se manteve calado, mas, tenso e mais nervoso que de costume, entrou na conversa de Maria. A gente se pergunta como um homem, com filhos já adultos, abandona a família e cai nas garras de uma onça dessas. Maria logo interceptou a conversa de Pedro e prosseguiu:
            - Se ela já fez sair mais de dez homens como cachorrinhos magros, o que dá para esperar do Marcos? Além de terminar com sua natureza de homem, ela ainda vai passar mão no dinheiro dele. Ah! Isto é muito cruel.
            O que poderia Paulo responder ou explicar? Debandou para o desvio do assunto através de algumas possíveis conseqüências do estranho sinistro. De forma um pouco xistosa, passou a ironizar a desgraça alheia. Falou, então: Já pensaram se esta doença é contagiosa? Até que descobrem uma vacina, estas “mulheres do sexo” poderão acabar com todo este mundo de machões, de puladores de cerca e dos traidores de suas esposas.
 O pior mesmo vai ser cruzar com eles na rua e, vendo-os caminhar como cachorros vira-latas, de rabo encolhido, o que a gente vai perguntar? Oh! Marcão: a dona Marciana te exauriu mesmo a virilidade? Ela escafedeu tua natureza de homem?
 Não, se falar assim, vai bater na hora! Por outro lado, e se esta doença acalmar mesmo os homens metidos a valentes, já pensaram o que estas mulheres com a doença do sexo não vão aprontar?
 Pelas barbas de Morfeu, que potencial de uma guerra de gênero!




Entre o trono e o altar



            Alguns momentos históricos da cultura ocidental dos últimos séculos registraram estreita relação entre religião e política. Esta relação, como a da conquista ibérica na América Latina, mostrou acentuada afinidade entre espada e cruz, ou explicitado de outra forma, a conquista foi efetuada sob o signo da cruz católica. Embora a maioria dos atuais países latino-americanos ainda tenha presente em suas constituições alguma referência explícita ao catolicismo, a relação tende a tornar-se mais heterogênea e, pelo menos oficialmente, vem se estabelecendo uma relação de separação entre Estado e Religião.
            Apesar da grande divergência de opiniões sobre esta relação entre Estado e Igreja, e mesmo que no caso brasileiro tenha-se estabelecido uma definida separação, permanecem um tanto duvidosas as formas desta autonomia. Seriam meras forças paralelas e rivais? Caberia à religião indicar rumos à política do Estado, ou, competiria ao Estado o direito de  ingerências sobre o âmbito religioso?
            Deixando de lado as muitas polêmicas mais antigas, parece que a proximidade entre as duas forças sociais se cruza e se inverte, de vez em quando, nas competências. É sobre este pequeno aspecto que tencionamos ponderar brevemente. O paradoxo se estabelece da seguinte forma: se a religião pode interferir nos procedimentos do Estado e se, de outro lado, o Estado pode expressar suas políticas através de formas religiosas.
            Na prática, observamos que, em muitas situações, grupos religiosos de diversas denominações apelam a todos os recursos possíveis para atuar sobre o Estado, a fim de favorecer seus interesses religiosos. Observamos, igualmente, que muitos políticos lidam de formas similares às dos religiosos para agir sobre grupos humanos, e, com muitos discursos religiosos. Em alguns casos, as mesmas pessoas agregam tanto funções religiosas quanto políticas.
            Temos a impressão de que, tanto a rivalidade das competências quanto o exercício das distintas funções, pode mover-se por um mesmo foco: o de dirigir e controlar o comportamento dos outros. Certamente os dois campos de atuação se arvoram o direito e a necessária missão desta atividade, mas, ambos correm os mesmos riscos de agir sob bases fundamentalistas e, desta forma, produzem múltiplos tipos de medo a fim de poder controlar as pessoas.
A produção de medos leva políticos a muitas apelações religiosas e leva crentes de entidades religiosas a explícitas interferências nas atividades políticas. Neste aparente avanço de um campo sobre o que, em tese, pertence ao outro, revela-se, na verdade, que os dois campos perdem a relevância do que pretendem constituir para o bem dos seres humanos. Quando a política pressupõe a religião como serviço auxiliar para melhor organizar a vida coletiva, incorre na mesma situação da religião que interfere nos rumos políticos com a justificação de que tal atividade constitua a essência da sua missão. Assim, os dois movimentos procuram criar e apontar medos, a fim de poderem agir sobre os amedrontados e levá-los à resignação dos seus propósitos.

Será que alguém ainda daria peso ao Estado, se este não cultivasse bem orquestrada e harmônica forma de produzir medos? Sem os medos, simplesmente se daria conta de que o Estado pode ser perfeitamente dispensável. O mesmo se poderia aplicar à Religião. Portanto, mais do proclamar o fim destas forças sociais e socializantes, convêm que ambas se movam por outros parâmetros do que os do cultivo de medos.

A cachoeira de jactância



            Nas ponderações deste taciturno ruminante, retornam sorrateiramente algumas indesejáveis, causticantes e desconfortáveis memórias de algumas horas de atividade acadêmica. As motivações foram insuficientes para assegurar uma plausível e aparente serenidade a fim de fazer prevalecer bem-estar diante do impacto indelével e marcante proporcionado pela cansativa necessidade de suportar quatro horas de tagarelice de uma professora exponencialmente exagerada na capacidade de jactar-se a si mesma. Existiria, por ventura, tormento mais inócuo e sem graça do que suportar conversas grandiloquentes de auto-elogios e que, em tudo mesclam explicações relativas aos seus inteligentes procedimentos como referenciais do que existe de mais excelso nas capacidades didático-pedagógicas?
            Ao lado das mil coisas gratificantes que gestos humanos suscitam, ocorrem impreterivelmente momentos em que precisamos suportar e até disfarçar o desconforto para salvar pelo menos algumas boas aparências. Todavia, quando o balde das repressões se enche até as bordas e começa a extravasar para todos os lados do humor, então, resta exteriorizar o desconforto pelo menos num papel a fim de propiciar a volta da harmonia de outros humores mais satisfatórios no meio das emoções e dos pensamentos. Entretanto, quando os guarda-costas das censuras e da crítica subjetiva do Super-Ego alertam sobre os efeitos de tal soltura, salta a premonição para insistir que podem implicar em perdas de espaço e de nome. Então, o pobre taciturno precisa fazer de conta que tudo está normal, bom e gostoso, e, que jogar no papel estes sentimentos remanescentes em nada muda a ordem das precedências. Resta-lhe somente disfarçar discretamente sua intolerância de aguentar pessoa gabola, arrogante e que massageia excessivamente seu próprio Ego.
            Sabe o pobre taciturno que seguidamente pessoas extrapolam um pouco sua discreta modéstia e se referem a fatos nos quais salientam alguns floreios de auto-elogios que fogem um pouco da normalidade. A tendência da reação tende a de ser de disfarce e de tolerância. Afinal, quem é tão perfeitamente humilde para não sacar algum argumento em favor de uma passada de óleo cheiroso no Ego, a fim de deixá-lo mais lustroso e inebriante?
Dentre muitas pessoas chatas, sem graça, grosseiras, estúpidas dos lançamentos da memória, nenhuma se aproxima da professora Margarida. É lisonjeira, bajuladora e altamente exagerada nos procedimentos de elogiar-se em tudo e em qualquer coisa, mas, sempre com a obcecada procrastinação de elevar-se, numa evidente mendicância de prestígio e de status mais elevado de referência.
            Seu traço peculiar é o de só argumentar a partir de escritores que já foram seus ex-professores e colaboradores em estudos de especialização, e somente os cita para explicar sua relação próxima com sua autoridade proeminente diante da vulgaridade do que os outros sabem.  Todo exemplo ilustrativo envolve elogios de alunos para mostrar como ela superou a mediocridade do comum dos professores. As redundâncias impreterivelmente envolvem o reconhecimento pela sua capacidade filosófico-pedagógica e os lugares onde sua produção encontrou eco e publicidade.

Na vontade do taciturno aflorou até mesmo o desejo de provocar uma eructação estomacal através das vias orais sobre a mencionada professora. Mas, como isto é coisa feia, tudo não passou de uma sombra inadequada do processo psíquico a intrometer-se nas regras das conveniências de conduta social.

As relações macambúzias



Quando alguém deixa transparecer que as marcas do seu passado impõem mais tristeza do que alegria e quando sentimentos sorumbáticos e taciturnos se sobrepõem às recordações satisfatórias, e ainda, quando a melancolia move feições mais carrancudas do que cordiais e acolhedoras, tende-se a concluir que se trata de algo mal resolvido na sua individualidade.
As situações macambúzias também são atribuídas aos traços familiares, pois se costuma reforçar a argumentação de que os traços tristes ou anti-sociais indicam ancestralidade de predisposições genéticas e de condições biológicas. Provavelmente, sequer se desconfia que um estado psicológico individual manifeste um inapelável caráter social.
 Para a sociedade torna-se, evidentemente, muito confortável a conclusão de que eventuais perturbações pessoais decorram estritamente da subjetividade destas pessoas e que a causa mais remota está na sua ancestralidade de defeitos genéticos ou de predisposição biológica para tais traços. Nesta condição, as pessoas macambúzias vão encontrar somente nelas mesmas as causas e a evidente tarefa: elas mesmas precisam achar solução para os seus problemas e não devem molestar o ambiente social que, impreterivelmente, continua numa imperturbável passividade ou “atarraxia”.
Se, entretanto, acreditamos que na prática psicológica individual subjaz um caráter social, significa deduzir que para a cura das situações macambúzias, faz-se literalmente necessária uma mudança nas relações sociais. Pensada como algo isolado acima do bem e do mal dos indivíduos, a sociedade se desincumbe da sua impreterível necessidade de conversão e delega toda culpa aos indivíduos. Portanto, se indivíduos dependem do caráter socialmente construído, dependem de alterações sociais para se tornarem diferentes. Este modo de ver perturbações individuais estreitamente conectados ao ambiente social significa que o ambiente social é fundamental para a melhoria dos indivíduos. As implicações são maiores do que de primeira vista se possa pensar. Basta o exemplo das lidas policiais: é muito fácil rotular uma pessoa de elemento delinqüente ou de mau elemento, quando a polícia procede exatamente com estas características. Significa, portanto, que também a polícia precisa mudar seu modo de agir. O exemplo se aplica igualmente ao modo de proceder dos pais, das autoridades locais e das muitas outras instâncias da vida social.
Viktor Frankl destaca, figurativamente, três avenidas importantes para conduzir à realização porque a vida pode ser significativa sob quaisquer condições: a) Trabalho – especialmente aquele que permite criação e não mera reprodução mecânica das mesmas tarefas e funções; b) Amor compartilhado com alguém em sua individualidade, algo muito mais amplo do que mera sexualidade; c) Doenças incuráveis – afetam a dimensão mais profunda do ser e permitem ativar a capacidade de transformar a tragédia de formas a tornar a vida significativa até no último suspiro, isto, quando não existe outro jeito.[1]



[1]  Em entrevista sobre o tema: O Homem vive. Tradução de Felipe Cherubin. (Disponível em: http://logotherapy.univie.ac.at/e/indexe.html ) “O que é transitório são apenas as potencialidades; são apenas as oportunidades: para realizar um objetivo na vida, seja por fazer algo, seja por amar alguém, seja por agüentar corajosa e honestamente um sofrimento, que você não tem como evitar e até mesmo enfrentar a sua morte de uma forma dignificada, enfim, com seu próprio estilo.” (Idem, ibidem)

A pergunta inadequada



            Na sala, como de costume, estavam todos os alunos adequados ao código do disfarce a fim de fazer de conta que estavam atentos e meditando profundamente sobre a fala do padre, que impostado sobre o estrado da sala e sob as rigorosas linhas da batina preta, explicava as verdades absolutas e eternas do céu e do inferno.
O contágio coletivo fez toda a classe assumir uma postura habitual de inclinar-se sobre a escrivaninha para demonstrar que todos estavam ávidos para captar a mensagem da monótona tergiversação do padre.
            Um assunto que seguidamente voltava aos argumentos daquele momento de enlevação espiritual, pelo menos aparente, era o da virgindade de Nossa Senhora, tema abordado não pela sua rica dimensão simbólica e mítica da cultura dos povos semitas, mas, através da mera leitura literal e essencialista da redação neotestamentária.
            Como a argumentação não convencia em nada o grupo dos alunos da classe, Francisco, captando a osmose dos demais, levantou o dedo e perguntou ao orientador dos assuntos divinos:
- Padre, eu não entendo este assunto do virgem antes, durante e depois!
- Numa ruborização facial instantânea, o padre retrucou: O que? O que você, pica-pau verde da vida, seu fedelho, andou perguntando? Quem é você para perguntar sobre este assunto? Você não está nem seco debaixo do nariz, e já se mete a perguntar a respeito de uma coisa desta natureza? Isto é um dogma de fé e simplesmente não se pergunta sobre isso!
            Francisco se debruçou ainda mais encolhido sobre a carteira e nem ousou levantar o olhar, ainda mais que na vociferação veio uma ameaça de que o assunto era mais do que suficiente para que ele fosse imediatamente expulso da casa. Ninguém da classe teve coragem de explicitar qualquer defesa em favor do colega.
            Como a dita meditação, que de praxe durava meia hora, acabou, em decorrência da pergunta, se estendendo por mais de uma hora, implicou até em atraso do almoço. Nesta hora e tanto, palavrões e xingamentos foram fartos e abundantes para justificar a indevida ousadia do “pica-pau verde da vida” de perguntar a respeito da virgindade de Nossa Senhora.
            Passada a saraivada de xingamentos não convincentes, muito discretamente, na saída da sala, um ia falando para o outro: afinal, como foi mesmo este negócio de virgindade antes, durante e depois?
            Dias depois, Francisco contou que teve um sonho de que tinha morrido. Ao passar pela vistoria da entrada lá no céu, São Pedro, apontando o dedo no rumo do seu membro viril, perguntou a Francisco:
- O que você fez com esta torneirinha?
            Francisco respondeu imediatamente: urinei! Pedro teria então respondido: bem que você poderia ter desconfiado! Esta torneirinha também foi feita para outra finalidade! Pela burrice, vai para o inferno!

            Ao acordar, pensou sobre o sonho, partilhou-o aos colegas e resolveu desistir da perspectiva sacerdotal e foi embora para ir à procura de uma índia a fim de se casar com ela.

<center>SOB PENSAMENTO ACELERADO</center>

  Na lógica da elevada conectividade, Sem lugar na agenda para atividade, E sem o horário para conversa à toa, Tudo come tempo e tud...