domingo, 13 de outubro de 2013

O papagaio do padre

Na cidade de Patos, na Paraíba, o padre de algumas décadas atrás, além de muito afetuoso e afeiçoado às pessoas, gostava muito de animais e, aos poucos, acabou transformou sua residência num mini-zoológico. Criava patos, perus, galinhas de diversas raças, galinhas de angola, gatos, cachorros, canários belgas, coelhos, porquinhos da Índia, e, o que não podia faltar, no meio desta diversidade, uma dupla de papagaios matreiros. Todos estes animais viviam soltos e todos tinham acesso livre ao interior da residência paroquial. Evidentemente não poderia a casa estar limpa e asseada, mas padre Nicolau se ajeitava nesta parafernália de gritos, brigas, chilreados, latidos, miados e sabe Deus quanta outra combinação ruidosa. Nem sempre a conversa com visitantes era audível devido aos constantes desencontros no meio da bicharada. Embora algumas pessoas já tivessem sugerido ao padre para que procurasse outro ambiente mais adequado para esta multiplicidade animalesca, o padre achava bom permanecer ali mesmo com sua variegada companhia. Um dia padre Nicolau foi surpreendido por uma admoestação muito séria advinda de seu superior, o Bispo. Ao fazer uma visita de rotina ao padre Nicolau, o bispo, vestido de modo impecável e com procedimentos aparentemente muito pios e escrupulosos, viu com muita simpatia os dois papagaios, sentados num varal próximo ao fogão da cozinha. Aproximou-se dos papagaios, e, como muita gente faz, tentou entabular uma pequena conversa com os papagaios: Oh! Loro, lorinho, verdinho e bonitinho, dá o pezinho Loro! A resposta de um dos papagaios foi imediata: - Só se me dá o ... (aquele palavrão chulo, que não deve ser usado na conversa e na escrita, mas que é muito usado a toda hora, cuja denominação implica na junção da consoante “c” com a vogal “u”, ou seja, o espaço do corpo humano onde o reto estabelece contato com o mundo exterior). O bispo não falou uma palavra sequer, mas, ficou vermelho como a cabeça de um dos perus que se encontravam ao lado, e se retirou imediatamente da cozinha para ir à procura do padre Nicolau a fim de censurá-lo pela forma inadequada de amestrar os papagaios, pois jamais um padre poderia ensinar algo tão vil e tão deplorável a inocentes papagaios. Se fosse algum outro cidadão a proceder de forma tão devassa, ainda se poderia tolerar o disparate, mas, um padre ensinar coisa feia desta natureza a um papagaio, significava um procedimento altamente reprovável para a sua função. Embora de tez morena, o padre Nicolau também ficou mais ruborizado do que de costume, pois, apesar da satisfação e da estupefação sentida na bela resposta do papagaio a um homem excessivamente escrupuloso, precisava, contudo, fazer sua defesa e justificar-se que não tinha sequer pensado em nada próximo de tal perversidade para os momentos de docência junto aos verdes tagarelas. Jurou diante do bispo que jamais ensinou os papagaios a emitirem tal resposta. Nas ponderações, ficou mais ou menos evidente que a empregada do padre deveria ter sido a fautora da escabrosa ação pedagógica junto aos papagaios. Padre Nicolau, apesar do desconforto, vibrou por dentro, pois, achava que o bispo realmente precisaria ouvir algo um pouco mais xistoso a fim de se tornar um pouco mais tolerante nos seus parâmetros de beatitude e alargar o limiar excessivamente estreito de tudo quanto enquadra no campo do chifrudo. Dali para frente, o padre, descobriu que o xingamento do bispo, na verdade, o despertou para a originalidade da resposta do papagaio e transformou esta brincadeira em agradável forma de recepção das pessoas. Assim que alguma pessoa visitante viesse a dar-se conta da existência dos papagaios dentro de casa, padre Nicolau lhe sugeria ir ao encontro dos papagaios e pedir o pezinho. A resposta vinha de imediato e continuava infalivelmente sempre a mesma. Assim, os papagaios podiam ofender a inadvertidos, mas não brigavam com ninguém.

O padre que detestava água

Filho de empresários bem sucedidos, padre Serafim era um grandalhão enorme e, com uma barriga de extraordinária envergadura. Seu peso girava em torno dos 120 quilos. Era inteligente, comunicativo e de boa oratória. Seus familiares eram pessoas muito aprazíveis e não se chegou à sapiência de que alguém deles fosse avesso a banhos. Mas o que é isso, um padre ser avesso a tomar banho? Muitos tentaram em vão explicações para o estranho hábito do padre Serafim. Conversador e falastrão, esperto e ágil no raciocínio, ninguém conseguia persuadi-lo de que, pelo menos um banho por semana, não faria nenhum mal à sua saúde. Mesmo que alguns hermeneutas tentassem explicação para entender a aversão do padre Serafim aos banhos, uns até chegaram a pensar que seria herança de um arquétipo francês, pois se dizia que estes, por não gostarem de banhos, inventaram uma compensação e passaram a utilizar perfumes para dissuadir o mau cheiro decorrente transpiração do corpo e da falta de banhos. Mesmo que padre Serafim estivesse abarrotado de roupas, perfumes e quinquilharias de toda natureza, não usava perfume, não usava roupa nova, mesmo com dúzias de cuecas, calças e camisas, diversos ternos e bons agasalhos de inverno. Alguns até suspeitaram que, de acordo com a teoria freudiana, padre Serafim tivesse tido algum trauma na fase anal e que por isso se mostrava tão esmerado a ajuntar enormes estoques de roupas, trecos e cacarecos, mas sem usá-los de forma alguma. Mas ele também não era exibicionista e somente por acaso algumas pessoas conseguiram ver o quanto de material tinha enfurnado em armários e baús. Ele mesmo nunca fez referência a esta aparente segurança que eventualmente poderia manifestar seqüela da retenção de fezes. Quanto mais intensas e sarcásticas fossem as afirmações indiretas, ou até mesmo explícitas para que padre Serafim tomasse pelo menos um banho por semana, não conseguiram surtir os menores efeitos. O que ao lado do desleixo com banhos implicava os avaliadores da conduta do padre Serafim é que ele não tinha a menor preocupação com troca de roupas. Sem constrangimento vestia a mesma roupa bem mais do que um mês, ainda que fosse pleno verão. Suava mais do que cavalo e fedia mais do que bode. Alguns colegas mais próximos convenceram padre Serafim a fazer uma terapia para ver se conseguia mudar o estranho e bizarro hábito de não tomar banho e não se lavar. Fez diversas formas de terapia, mas sem afetar seu traço peculiar. Era comum que, de quando em vez trocava a roupa antes de alguma celebração. Nestes raros casos, alguém da casa entrava no quarto e com uma vara de mais de metro de comprimento fisgava as roupas sujas e as levava direto ao latão de lixo na rua. Nem mesmo tal procedimento levava padre Serafim a explicitar eventual desconfiança em torno do misterioso sumiço das roupas sujas. Se toda esta renitência diante do banho era estranha, padre Serafim, contudo, levava uma grande vantagem sobre os demais quando se tratava de viajar. Não levava nem mala, nem sacola, nem pasta e nem mesmo material de higiene pessoal. Ia para qualquer lugar, apenas com a roupa do corpo e com um detalhe: bastava aparecer uma chance de algum caminhoneiro ir ao mais distante lugar ou cidade do Brasil e aceitar levá-lo junto, que lá se ia padre Serafim sem a menor provisão e sem um patacão no bolso. A saliva sempre lhe assegurava a capacidade de convencer o caminhoneiro a lhe pagar refeições e pousos. Padre Serafim, mesmo com uma conta de considerável valor no banco, decorrente de partilhas da empresa da família da qual era sócio, passava sede se tivesse que pagar uma bebida, mesmo que fosse uma garrafinha de água. Se os outros pagavam a conta, então, ia fundo em tudo quanto estivesse acessível, desde cerveja até comida. Numa viagem com colegas, estes se combinaram que iriam chegar a um restaurante afamado e que os que estivessem sentados no banco de trás pagariam a conta. Não adiantou nada, pois, assim que chegaram próximo do referido restaurante, onde sequer iriam chegar para refeição, padre Serafim já começou a alegar enjôo e mal-estar e que por isso não iria comer nada. Improvisaram, então, um argumento para chegar num outro restaurante mais modesto e que ficaria a alguns quilômetros mais adiante. Aí o enjôo passou e padre Serafim imediatamente voltou a ser falacioso. Ao se aproximarem do outro ponto indicado, padre Serafim pediu supinamente para parar o carro, abriu a porta e disse que seguiria com o caminhoneiro que vira na ultrapassagem e queria muito falar com ele. Desceu e ficou à espera do velho caminhão FNM, com certeza, para eivar-se do possível compromisso de ajudar a pagar uma refeição. Dúzias de outras tentativas não surtiram o menos efeito para fazer padre Serafim soltar um único centavo da sua carteira em viagens. Era passageiro gentil, cortês e conversador, mas, ninguém conseguiu fazê-lo contribuir com um vintém para custear combustível ou refeições. A aversão à água era de tal proporção na vida do padre Serafim que até mesmo para a celebração de um batismo arrumou a maior encrenca e teve que sair fugido da paróquia. Ao celebrar o batismo de uma criança, em vez de utilizar uma jarra de água para efetuar a unção sobre a cabeça da criança, apenas passou o dedo indicador na boca para molhá-lo com um pouco de saliva e fez um sinal da cruz sobre a testa da criança para dizer que estava batizada em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo. Aí fechou um inusitado fuzuê e padre Serafim só não apanhou em plena celebração porque foi extraordinariamente rápido para fugir pela porta lateral da sacristia. O episódio do batismo com saliva tornou-se meio para que os superiores do padre Serafim lhe colocassem uma condição sem a qual lhe seria negada a permanência na instituição religiosa. Ele nem se abalou. Em tom cordial, prometeu seguir à risca tudo quanto lhe pediam, mas, naquela mesma noite, desapareceu misteriosamente. Padre Serafim somente chegou a ser localizado muitos anos mais tarde. Estava internado num asilo, numa cidade no interior de São Paulo. Ali, morreu, mas, sem se dar por vencido pelos ditames da água. Foi perseverante na inalação do perfume natural e dos eflúvios advindos das entranhas do seu próprio corpo até o derradeiro afastamento da sua passagem entre os apreciadores dos efeitos da água e dos perfumes mais sutis produzidos em perfumarias.

O motorista cortês

Padre Constante empreendeu durante longos anos seus trabalhos pastorais deslocando-se de uma comunidade para outra, montado no lombo de um burro. Dedicado e serviçal, mereceu a complacência da comunidade, que resolveu comprar-lhe um carro. Tratou-se de um carro e tanto, uma Rural Willis, considerado o carro mais sofisticado para estradas difíceis de serem percorridas. Tarefa ingente, demorada e muito desafiadora, foi padre Constante aprender a dirigir. De tanto firmar-se no estribo dos arreios sobre o burro, perdeu a sensibilidade para acelerar e diminuir a aceleração. Outra dificuldade inerente a quem aprende a dirigir, com idade na beira dos cinqüenta anos, foi a de não dar-se conta de que era possível fazer mudanças. Foi este o motivo de padre Constante fundir o motor depois de três meses de uso da Rural Willis. Na verdade, ocorreu só um pequeno detalhe, saiu de uma comunidade rural distante a cerca de 50 quilômetros e andou na primeira marcha até chegar à casa. Assim que chegou à garagem, começou a volatilizar-se uma nuvem de fumaça e vapor emergindo das frestas do capô. Depois de desligada a chave de partida, o carro não deu mais o menor sinal de nova partida. Estava fundido o motor. Não restou alternativa melhor do que retificar o motor. Dias depois, outro detalhe da falta de reflexo causou efeitos colaterais. A sensibilidade não estava suficientemente apurada para perceber as sutis e estreitas faixas de deslizamento da alavanca para o engate das marchas. Já traumatizado com a fundição do motor, o empenho pelas constantes mudanças fez com que padre Constante se esmerasse ainda mais nesta ingente tarefa de efetuar muitas mudanças de marcha, já que a rural apresentava três marchas: conseguiu quebrar a alavanca de mudanças da preciosa Rural Willis. Alguns mais debochados até tentaram calcular a força muscular do padre para conseguir, no empenho de engatar esmeradamente mais marchas, quebrar aquela reforçada alavanca de aço. Parecia que o cérebro do padre ao volante funcionava por acionamento de gavetas, cujo acionamento costumava provocar rangidos. Toda vez que saía de algum lugar, o carro parecia empacar como o burro: os pneus lavravam o chão, a aceleração do motor chegava à rotação máxima e levantava uma nuvem de poeira; e o ruído do motor se tornava ensurdecedor, pois acelerava ao máximo e demorava a soltar a embreagem. Quando, finalmente a soltava, soltava-a supinamente e o carro chegava a dar uns pinotes como se quisesse imitar o burro, toda vez que saía de algum lugar. Padre Constante ainda contava com outra dificuldade nesta passagem de adequação da tecnologia do muar para o automotor. Como se manter esse carrão devidamente alinhado na estrada? A opção dele implicava no azar dos que tinham que cruzar por ele, pois ele tomava e meio da estrada e não olhava para os lados em hipótese alguma. Os outros que se danassem ao ter que adentrar-se nas valetas laterais e ficar atolados ou se enveredar para o meio do mato ou de alguma lavoura. Mesmo que qualquer cruzamento com padre Constante nas estradas implicasse em elevados risco para outros transeuntes nas estradas, ele era, contudo, generoso para oferecer carona a pessoas. Costumava sair lotado das comunidades onde celebrava. Os agraciados com a carona sempre conseguiam avivar fartos assuntos para comentar os riscos e os perigos de morte que correram. Aos poucos, o reflexo se tornou um pouco mais acurado e padre Constante, de vez em quando olhava para os lados, e saudava quem estivesse perto da estrada. Esta forma mais cortês levou-o a perceber, certo dia, que uma moça estava na beira da estrada, possivelmente esperando ônibus ou alguma carona. Padre Constante freou bruscamente sua Rural e pediu à moça se queria carona. Toda pintada e cheirosa, a moçoila fugia um pouco dos padrões das moças que ele encontrava nas comunidades. Andou um trecho, e como ela não iniciasse qualquer assunto de conversa, padre Constante tomou a iniciativa e perguntou: - Onde é que você quer ir? A moça, com um olhar sorrateiro, redargüiu: - Ah! Isso depende do hotel que você quiser escolher! Padre Constante demorou um pouco até que a informação fosse processada em seu cérebro, e, quando veio o retorno, perguntou secamente: - Você é puta? E num sotaque de alemão puxado, falou imediatamente: “Téce chá!”. Enquanto isso, já outro comando do cérebro o fez frear o carro, de modos que a moça só não voou para fora porque a porta estava fechada, mas foi parar contra o pára-brisa. Enquanto o carro ia balançando de um lado a outro devido à frenagem brusca, pediu que abrisse o trinco da porta e saltasse rapidamente do carro. A moça só deu um sorriso, e desceu sem falar mais nada. Ao chegar à residência, padre Constante, possivelmente com o psiquismo ainda voltado para o episódio que o envolveu com a moçoila, não encontrou o necessário reflexo psicomotor para frear no momento de entrar na garagem e, em decorrência, o pára-choque da frente acabou indo mais longe do que deveria ir, e arrancou algumas tábuas da parede dos fundos da garagem sem, contudo, causar maiores danos ao carro.

O menino galante

Gilberto era um menino normal como tantos outros. Gracioso, polido e elegante, ao entrar na adolescência, e, quando já começaram a aparecer, entre o penhasco do nariz e a cavidade vulcânica da boca os efeitos das lavas advindas das profundezas do sangue, os primeiros sintomas de virilidade masculinidade, estes também deixaram na sua passagem incipientes fiozinhos de bigode para tornar Gilberto mais patusco do que já era e acabaram afetando igualmente seus olhos para torná-los mais acurados e mais propensos a auscultar as rutilantes incandescências femininas. Como era costume da vida rural, os meninos tinham a tarefa de caminhar alguns quilômetros até uma casa comercial para fazer as compras. As casas comerciais vendiam um pouco de tudo: tecidos, sementes, alimentos, remédios, materiais de serviço, roupas feitas e até balas e bebidas. Como os meninos geralmente eram muito distraídos e sem memória, os pais costumavam escrever num bilhete todos os itens que eles deveriam comprar. Gilberto foi até a casa comercial da dona Candinha, mulher faladeira que sabia todas as informações da redondeza e sabia muito bem fazer as informações fluírem para todos os lados porque constituía a agência central dos fluxos de informação da comunidade. As lidas de venda tornaram-na ágil e esperta para agradar os clientes e lhes passar alguma informação de forma gentil e significativa. Enquanto Gilberto ia lendo um item, dona Candinha rapidamente ia preparar o material solicitado e o deixava sobre o balcão. Assim, ajuntados diversos pacotes de alimentos e de outras bugigangas, dona Candinha começou a elencar os produtos com os devidos preços para que os pais de Gilberto pudessem averiguar os preços de cada item comprado e conferir o saldo final dos custos. Enquanto dona Candinha anotava, inclinada sobre o balcão e, no exercício redacional e contábil dos produtos, como usava uma blusa leve e solta, sem se dar conta, acabou deixando seus enormes seios bem visíveis ao olhar do menino Gilberto, postado à sua frente. Encerrados os cálculos, dona Candinha pediu a Gilberto como que se encontravam seus pais, mas ele, de tão atento que estava na observação dos seios, acabou falando da sua impressão: “Iche”, eles são bonitos e bem grandões! Dona Candinha olhou para o menino e viu que ele estava com o olhar obcecado e fixo em seus seios e, ao baixar os olhos em sua direção viu que estavam amplamente expostos, num supino instante, passou sua mão no então chamado “pau de metro”, um bastonete de madeira para medir tecidos, e desferiu-lhe um violento golpe sobre o dorso de Gilberto. Ele só emitiu gemido meio aturdido e caiu, imediatamente, no chão onde ficou desmaiado. Dona Candinha assustada com sua reação tão repentina e compulsiva, somente conseguiu balbuciar antes de embalar um choro: logo este piá virado em tiquinho! Com muita ajuda de outras pessoas que ali se encontravam, além de água e abanação de toalha para ventilar e ajudar o menino voltar a respirar, o ambiente virou num bulício e num rumor inquietante. O pior é que nos ombros do menino ficou um vergalhão, pois as quinas do bastonete abriram-lhe o couro, donde escorriam gotas de sangue. Dona Candinha, apavorada, desapareceu do mapa, mas seu marido e outro homem pegaram o menino e rapidamente o levaram ao hospital a fim de que lhe fosse feito um curativo. O problema viria agora: como não perder um cliente e como levar a encomenda e o menino na casa dos pais e explicar o episódio, sem causar outra reação violenta? A volta do Hospital demorou cerca de duas horas. Carregaram, então, as encomendas e o menino na caminhonete Bandeirante da Toyota e os conduziram até a casa de seus pais. Ao chegarem lá, Pedro, marido de Candinha, começou logo a explicar o episódio ocorrido e foi se justificando e pedindo mil perdões pelo ato descontrolado de sua esposa que teria se excedido na reação à simples curiosidade do menino que, atônito diante dos seios de Candinha, levou uma bordoada, com força desproporcional, o que fez demorar o regresso do menino. Pedro também se ofereceu para custear quaisquer outras despesas que pudessem advir dos efeitos da “paulada” de Candinha sobre o dorso do menino Gilberto, e, mesmo num certo desconforto, o assunto ficou amenizado. Só não amenizou para o menino esperto que era Gilberto, pois a partir do episódio, ele se tornou, pelo novo batismo de sangue, alvo da substituição do nome, pois, dali para frente, passou a ser conhecido na redondeza pelo nome de Tiquinho.

O Irdologista afamado

Pedro Souza nasceu e viveu por longos anos na região fria do sul do país e lidava com dificuldades para contornar uma alergia crônica. Quanto mais estudasse para entender as eventuais causas psíquicas e emocionais que poderiam constituir causa desencadeadora de tais alterações orgânicas, e quanto mais procurava consultas com especialistas que lhe eram indicados, e ainda, quanto mais ingeria medicamentos e chás, ao lado das dietas que adotava para solucionar o desconfortável transtorno alérgico, tanto mais seu organismo parecia tornar-se progressivamente mais frágil e suscetível ao agravamento da alergia. Um médico, especialista em alergia, suspeitou que a razão da patologia alérgica estivesse relacionada à inalação de fungos aéreos, especialmente aerofagóides e fagocitóides, e por isso sugeriu, numa das consultas, que Pedro fosse tentar viver em outro clima, onde não existem tais micro-organismos em abundância tão intensa como no ar daquela região do planalto médio gaúcho. Recomendou-lhe fazer uma tentativa de morar no Centro Oeste ou no Nordeste, pois um clima mais seco poderia eventualmente propiciar-lhe condições mais adequadas para restabelecer a saúde normal, e, o que é mais importante, sem alergia. Sob esta orientação, Pedro resolveu ir a Rondonópolis, no Mato Grosso, com a feliz expectativa de que ali passaria a imunizar-se contra os fatores alergênicos. A saída do planalto médio do Rio Grande do Sul sob uma temperatura abaixo de zero grau e no tempo de aproximadamente trinta horas respirar numa temperatura em torno de 40 graus positivos, ofereceu a Pedro a sensação inicial de algo próximo de um choque anafilático que deveria estar se manifestando em seu corpo, pois sentia moleza e cansaço físico tão grande que lhe parecia ser impossível pensar em trabalho. Apesar da estranheza do calor, constatou que pelo menos conseguia respirar sem congestionamento nasal, o que já significava um grande avanço no caminho da saúde. Animado pelo bom indício, foi, depois de alguns dias, fazer uma rápida visita ao pároco de uma das Igrejas da cidade, que era seu conhecido. O pároco, o acolheu calorosamente e ao inteirar-se das razões da sua vinda, procurou logo mostrar-se prestativo para auxiliá-lo numa terapêutica eficaz. Falou imediatamente a Pedro sobre os extraordinários poderes de um irdologista que atuava na cidade, e que, mesmo sendo pastor evangélico exercia com extraordinária competência o ofício de diagnosticar, pela análise da íris dos olhos, as doenças do corpo, e, o que era mais importante, sabia indicar os remédios eficientes para a cura. O pároco se ofereceu para levá-lo naquele mesmo instante ao consultório. Chegando lá, Pedro viu que ali tudo era igual a um consultório médico. Num lado da sala de recepção estava bem destacado o nome do referido irdologista e no outro lado estava uma grande entrada para a Farmácia que ostentava enorme quantidade de remédios homeopáticos. Ao se apresentar à recepcionista, Pedro teve que fornecer alguns dados pessoais que foram anotados na ficha e, na mesma ocasião, a senhorita lhe solicitou que lhe falasse dos sintomas de doenças que estava sentindo. Pedro explicou rapidamente o porquê da sua vinda a Rondonópolis e disse que vinha de longa batalha com problemas de alergia. Em função deste desequilíbrio orgânico, já havia tentado de tudo quando lhe fora sugerido por médicos e amigos lá no sul, mas que nada diminuiu a excessiva sensibilidade dos anticorpos de defesa. Contou também que, em função de sentir o corpo inchado, sentia forte taquicardia e que os rins certamente não estariam funcionando bem para eliminar o líquido que o deixava neste desconforto. Concluídos os detalhes narrativos do que doía, Pedro foi convidado a pagar a taxa de consulta e ficou na espera. Sem demora o dito “Pastor Doutor Irdologista”, vestido de jaleco como os médicos, veio saudar Pedro e convidou-o a entrar na sala de consulta e convidou-o a sentar-se diante da mesa. Pedro achou estranho não perceber nenhum aparelho mais sofisticado: apenas um monitor de computador fazendo um movimento com umas figurinhas do protetor de tela e uma pequena lupa com cabo de PVC bem comum e a ficha com seus dados. O dito doutor veio logo para o lado da mesinha onde Pedro estava sentado e passou a dar uma rápida olhada nos olhos de Pedro, utilizando-se daquela lupa que parecia ser uma lupa para brinquedo de crianças. Pedro, no entanto olhava mais para os apetrechos da consulta. O homem voltou ao seu assento e apertou uma tecla que mexeu o movimento da proteção de tela do monitor. Como Pedro era especialista em computação, percebeu logo que o dito doutor irdologista não sabia fazer nada mais do que apertar uma única tecla que alterava o movimento do protetor de tela. O doutor que entendia tudo a partir da íris, voltou a olhar os olhos, foi ao computador e apertou a tecla para alterar a imagem do protetor de tela e voltou mais uma vez para uma presumida última verificação dos segredos da íris e aí, num tom de quem sabe das coisas, declarou: a íris dos seus olhos revela que você está com três problemas de saúde. Está com alergia, com problemas cardíacos e com problemas renais. Mas, senhor, pode ficar tranqüilo, pois, tenho uma receita garantida com remédios específicos para curar as três doenças. Passe na Farmácia, aqui do lado, e peça estes três remédios que eu lhe anoto aqui na receita. Lá se foi Pedro para a compra do milagre. Levou um susto ao pagar os pequenos frascos contendo remédio homeopático, mas, pensou: sé é para a saúde, vamos lá que de repente pode dar certo. Bom, certo só mesmo deu para o pastor irdologista que amealhou uma grana a mais, mas, a causticante alergia não se intimidou com os poderosos remédios do doutor irdologista. Como a reação dos aludidos remédios não causou nenhuma reação perceptível na saúde de Pedro, este resolveu voltar ao consultório e recebeu a receita para repetir o tratamento com acréscimo de mais dois outros vidrinhos a serem adquiridos. A conta a ser paga disparou substancialmente em relação à primeira consulta. Chateado com os trocados a menos no bolso, Pedro teve que amargar mais uma tentativa frustrada e teve que engolir mais um calote diante dos muitos que já levou ao ir a médicos e doutores de medicina alternativa. Ficou ainda mais chateado ao constatar que a entusiástica e exagerada propaganda do amigo padre católico o levou a um pastor que provavelmente se proclamou de doutor sem as mediações do curso de medicina ou de doutoramento, e que, na verdade, parecia não saber fazer absolutamente nada mais do que devolver aos clientes uma confirmação das doenças que eles mesmos informavam à sua secretária. A fama do médico irdologisata, que segundo o pároco atrapalhava a vida dos demais médicos, pois estaria deixando-os com muito pouco serviço nos consultórios, foi para Pedro, mais um caso de queda diante da charlatanice, e, no pensar de Pedro, o afamado especialista em irdologia possivelmente não deve ter lido mais do que um livrinho popular a respeito do que a íris do olho humano poderia deixar transluzir a respeito das patologias manifestas nas diferentes partes do corpo. Pedro, depois de alguns dias, decidiu tomar o “buzão” e foi a Belo Horizonte, onde o clima se encarregou de amenizar os sintomas da alergia e ele pode, finalmente, recuperar a satisfação de se sentir sem as manifestações alérgicas que tanto tinham afetado seu humor e sua auto-estima.

O homem que expulsava demônios

A Rua Sarmento de Oliveira era a única para o percurso de Carlos Borba da Vila Ramiro Galvão até a Escola Ernesto Alves, onde ele cursava a terceira série do Segundo Grau. Era uma ruazinha estreita e comprida como sermão de padre. Carlos Borba percorria redondos três quilômetros para chegar de casa até a referida escola. No meio do caminho, havia um campinho do milagre. Tratava-se de um terreno baldio, murado, onde uma antiga moradia de madeira fora demolida, e onde somente sobravam algumas poucas e velhas laranjeiras. O portão de acesso era de precários fios de arame farpado, amarrados apenas para impedir eventual entrada de cavalos ou vacas que, geralmente, andavam soltos pela rua e pelos demais terrenos baldios. Numa altura do ano, este local passou a ostentar uma placa de que ali funcionava um lugar de bênção e de curas divinas. Carlos passava todas as noites por ali, no seu itinerário de ir e de voltar da escola. Depois de alguns dias, Carlos começou a observar que, ali, um pastor pregava para três a quatro pessoas, através de uma potente caixa de som. Parecia tratar-se de entusiástica pregação para imensa multidão, mas Carlos estranhava os gritos vociferantes do pastor, insistindo sobre o poder de Deus e a cavilosa ação do demônio para tão pouca gente a escutá-lo. Gradualmente o grupo tornou-se maior e já agregava cerca de 10 a 15 pessoas. Carlos se impressionava com algumas jovens bem trajadas que rodeavam o pastor e lhe alcançavam apetrechos, toalha para enxugar o suor e, a cada pouco, com a Bíblia aberta sobre as mãos, passavam no meio da dúzia de pessoas, que ali escutavam o pastor, para arrecadar a coleta. Quando falava do valor do dízimo e dos benefícios que uma grande oferta para Deus poderia trazer como retorno de graças aos fiéis, o pastor não deixava de mencionar a possibilidade de sorte para ganhar um carro importado, um apartamento de luxo na avenida principal da cidade e casa na praia. As moças iam passando a Bíblia para que os pobres viventes colocassem o dinheiro sobre a Bíblia. Ao perceber que poucos colocavam dinheiro, o pastor apresentava apelos mais incisivos e convincentes, a fim de que todos depositassem o máximo possível sobre as bíblias. Carlos percebeu que muitos tiravam as únicas notas de trocados que possuíam na carteira e as depositavam sobre a Bíblia. Outros, ou mais espertos ou, talvez, sem dinheiro, baixavam a cabeça e faziam de conta que não se sensibilizavam com os apelos do pastor. Passado o ritual de três a quatro voltas com as Bíblias para a coleta, o assunto virava mais sério. O pastor gritava enfaticamente que no meio dos fiéis havia pessoas possessas pelo demônio. Os argumentos e gritos patéticos se tornavam cada vez mais fortes até que alguém entrava em estado de transe. Nesta hora o teatro se tornava empolgante, ainda mais quando o dito diabo baixava e derrubava adolescentes sensíveis e perturbadas. Costumavam jogar-se no chão, se reviravam, se retorciam sobre as raízes de uma velha laranjeira, e, o que mais despertava a voluptuosidade visual de Carlos, era espreitar as pernas e as calçinhas destas jovens que se retorciam e espumavam e gritavam palavras sem nexo. O pastor tinha prática para explorar o fato e fazê-las ficar bom tempo, certamente para gerar comoção nos demais, e de repente soltava os gritos muito fortes de que, pelo seu poder, o demônio saísse da jovem e o nome de Deus voltasse a reinar em sua vida. Ele fazia suas secretárias levantar a jovem, e ele, colocando as mãos sobre a cabeça jogava-a de volta sobre o chão, enquanto brandia que o demônio a deixasse. Todos pareciam atônitos diante dos presumidos poderes perversos do diabo. Carlos, no entanto, prendia-se mais aos contorcionismos das jovens hipnotizadas porque não seria em qualquer lugar que poderia ver cenas de meninas neste tipo de movimentos. As secretárias do pastor, fazendo os “Raps” ao longo de todo o corpo das induzidas ao estado de transe, davam a impressão de que com tais ritos ajudavam o pastor a soltar as unhas do capeta encravadas no corpo das jovens e facilitar ao missionário de Deus o golpe derradeiro da expulsão daquele presumido e atrevido invasor, que, inadvertidamente, resolveu entrar em corpos já contabilizados para o rebanho das ovelhas de Deus. Carlos Borba era um moço muito inteligente, esperto e, também, malandro. Era um músico nato que tocava diversos instrumentos. Em poucas palavras, era um moço gozador e muito divertido. Numa sexta-feira de noite, Carlos programou gazear as duas últimas aulas e convidou alguns colegas de classe para irem com ele até o dito campinho do milagre. Assim que lá chegaram, estava no auge mais uma cena do dito diabo encarnado em duas jovens. A cena era de arrepiar. Elas gritavam, pareciam espumar pela boca, se jogavam de um lado para outro e num estranho entrecruzamento de pernas e braços, tudo levava a crer que o chifrudo realmente andava solto naquele terreiro. Assim que o pastor terminou a suposta expulsão, fez um meneio de olhos para as secretárias passarem a Bíblia, a fim de recolher as pródigas coletas. Retornaram com poucas notas sobre as Bíblias. Foi então que o pastor falou categoricamente: mais gente da platéia está possessa pelo demônio. A grande surpresa dos acompanhantes de Carlos Borba foi a de constatar que o colega foi caminhando no rumo do pastor até chegar a um metro de distância. O pastor o interpelou: o que você está sentindo? - Respondeu Carlos: Pastor, eu sinto uma vontade de matar, de fazer coisa ruim, de judiar das pessoas, de roubar e de fazer coisa feia! - Isto é o demônio! Gritou o pastor. Em nome de Deus, que este demônio te jogue sobre o chão! Carlos, no entanto, permaneceu ali, estático como um poste, girava o olho para os lados, olhava na direção dos colegas, e o pastor não conseguia fazê-lo cair no chão! O pastor explicou que se tratava de um demônio muito resistente e esperto. Chamou as secretárias e nem seus “Raps” amoleciam as juntas para fazê-lo cair. A cena foi se alongando e a força milagrosa do pastor simplesmente não derrubava a Carlos Borba. Todo mundo olhava atônito, especialmente seus colegas. Tudo indicava que a força do diabo, pelo menos desta vez, não estava a fim de submeter-se aos gritos do pastor e, por sua parte, conseguia sustentar Carlos Borba de pé, imperturbável, diante dos poderes de Deus. Quando após longos minutos de nervosismo e de aparente incapacidade do pastor submeter o capeta ao seu comando hipnotizador, Carlos deu a impressão de que seu corpo ia amolecendo e ele, lentamente, parecia uma águia baixando vôo de cócoras sobre o chão. O silêncio invadiu o ambiente e até o pastor ficou parado e estático por instantes. Quando já se esperava que, como aquelas jovens adolescentes, Carlos iria, enfim, bater pernas pelo ar, espumar pela boca e a soltar gritos estranhos e ininteligíveis, ele, na verdade, estava fazendo uma esperta encenação. Começou a bombear com a mão esquerda como se estivesse acionando uma bomba manual, daquelas antigas de encher pneu de caminhão, e, assim que ia bombeando, foi se firmando e subindo até ficar novamente ereto e ainda, com um olhar todo debochado, começou a olhar em redor com um escancarado e sarcástico sorriso. Aí, apareceu outro tipo de capeta: começou um murmúrio e uma agitação tão repentina de pessoas querendo saltar por cima do Carlos Borba que ele se viu pequeno para derrubar as secretárias do pastor a fim de abrir uma rota que lhe permitisse saltar o muro lateral, e como um capeta, rapidamente desapareceu de vista na escuridão da noite. Enquanto isso, o pastor, já armado de um revólver 38, abriu alas no meio da rota que dava ao portão de entrada e saiu rua afora atrás do dito sujeito endemoninhado. Os colegas de Carlos aproveitaram o tumulto para também sumir rapidamente do espaço e rumar para suas casas. Carlos encontraria um problema pela frente: como passar por ali na segunda-feira de noite na hora de ir até a Escola. Como era esperto, mandou um colega ir um pouco à sua frente e verificar como o ambiente se encontrava. De fato, estava ali o pastor esperando a passagem do seu Carlos Borba, com seu revolver 38 na mão. O colega deu sinal ao Carlos e este fez um desvio de mais de três quilômetros, mas, como ao lado da Escola existia uma Delegacia de Polícia, registrou queixa contra o pastor, afirmando que este o esperava com um revólver 38. Os policiais se deslocaram até o local e prenderam o pastor. A única coisa que se conseguiu saber sobre o desfecho do episódio foi uma notícia do jornal local que destacou como manchete de primeira página: “Preso pastor por porte ilegal de arma e por charlatanice”. Assim, terminou o campinho do milagre e as laranjeiras puderam ver-se novamente livres dos efeitos colaterais que as diatribes do chifrudo causavam às suas raízes expostas.

A ARTIMANHA DE UM CIGANO

Há algumas décadas atrás, quando raramente algum carro automotor rodava por estradas de Cunhataí, a maior parte do deslocamento de pessoas e de produtos era feita sobre o lombo de cavalos ou através de charretes puxadas por muares. O status em torno de cavalos grandes, imponentes e bem apresentáveis, costumava despertar alguns mecanismos exibicionistas, pois, não poucos se esmeravam para além dos limites com o intuito de apresentar seu animal bem encilhado e aprumado, toda vez que chegasse próximo da Igreja ou de algum outro espaço com mais gente. Tal desfile, além de gerar apreciações visuais, despertava comentários a respeito do trato, do valor e das características peculiares do cavalo. Assim como hoje se bate olho em marca de automóvel com atinentes comentários, olhava-se, então, para o esplendor de um cavalo. Como existiam cavalos novos e graciosos, existiam também os velhos, os estropiados e os que apresentavam manhas insanáveis. O pior defeito que um cavalo poderia apresentar era o de manifestar fobias a carros automotores, especialmente quando estes, além de audíveis a longa distância, espantavam com seus intensos barulhos como se fossem extraterrestres a colocar em pânico até os condutores das charretes ou dos montadores. Os cavalos, movidos, sabe-se lá por quais insondáveis resquícios psíquico-afetivos, quando se atravessavam na estrada, empinavam, e ameaçavam fugir, podiam saber que receberiam muitas chicotadas a fim de corrigir a manha. Alguns, no entanto, quanto mais apanhavam, tanto mais atrapalhavam seus condutores e mais os faziam passar por constrangimentos e apuros, toda vez que algum carro roncasse a alguma distância. Alguém sentir-se dono de um cavalo traumatizado significava perda de status nas rodas de apreciação dos animais, por mais vistoso e bonito que se apresentasse. Alguns donos ainda tentavam entregá-los temporariamente aos adestradores de longa prática, mas, geralmente nem estes conseguiam amenizar os distúrbios do psiquismo destes renitentes empacadores. Uma vez que não davam sinais de superação das fobias para cruzar de forma normal e serena por algum auto ou caminhão - que somente de vez em quando vinha atrás ou em sentido contrário, - acabavam, impreterivelmente, discriminados e vendidos a ciganos. Os ciganos que rotineiramente cruzavam pelas estradas, sempre em bandos de montadores e condutores de charretes, costumavam acampar-se à beira de qualquer córrego que atravessasse a estrada e ali ficavam, por algumas semanas, e saíam de casa em casa para diversas finalidades até se exaurirem as possibilidades de negócios. As mulheres iam para dizer a “sorte” e extorquir das donas de casa desde dinheiro a alimentos. Os homens iam para efetuar negócios envolvendo cavalos. Os ciganos sempre eram conhecidos de forma genérica, pois nunca se falava do nome de um cigano ou de uma cigana. Eles simplesmente não se apresentavam pelo nome, talvez por defesa de identidade a fim de que ninguém pudesse identificá-los para um eventual ajuste de negócios mal feitos. Como a vida os profissionalizou para a prática de trambiques, iam direto ao assunto e sabiam muito bem como efetuar uma espécie de hipnose para persuadir os interlocutores e convencê-los a fazer negócios. O conceito destes ciganos negociadores de cavalos era o de que eles jamais perdiam em negócio de cavalo. Eram exímios conversadores e com a maior facilidade enrolavam os vendedores através de proposição de trocas, que, se não envolvessem cavalos envolviam pelo menos alguma ferramenta, panela ou tacho de cobre, sempre de péssima qualidade. O morador Pedro Freitas possuía meia dúzia de cavalos e constatou que o número excedia a capacidade do capim na pastagem. Ademais, no lugar de um cavalo poderiam alimentar-se fartamente duas vacas leiteiras. Resolveu então vender alguns cavalos, especialmente para livrar-se de uma linda égua zaina, boa de marcha, mansa, e extraordinariamente dócil, mas, marcada pela inveterada obsessão de arrumar a maior confusão cada vez que algum automóvel chegasse perto. Por astúcia ou acaso, resolveu colocar à venda todos os cavalos, menos a égua. Alertou os dois meninos que, se um dia viesse algum cigano para comprar cavalos, que eles encenassem muita insistência para não vendê-la. Passados poucos dias, apareceram ciganos e logo mostraram interesse pelos cavalos. Pedro resolveu oferecer os cinco, excluindo apenas a égua doidivanas de eventual negócio. Como se tratava de um animal bonito e vistoso, um dos ciganos logo prendeu seu interesse na égua zaina, mais do que nos outros cavalos. Assim que os meninos viram o pai falar em venda, já começaram a insistir que, por amor de Deus, não a vendesse. Quando o pai, seu Pedro deu a entender que somente em último caso venderia a égua, os meninos começaram a chorar e a azucrinar a vida do pai para que não a vendesse. Isso acabou oferecendo um importante reforço para que o cigano se interessasse precipuamente pela aquisição da égua. Com conversa permeada por muito choro e lamúria por parte dos meninos, o cigano acabou comprando a égua a bom preço e a levou imediatamente embora. Já no dia seguinte Pedro Freitas estava afamado, pois, tinha sido o primeiro homem a lograr um cigano e vender-lhe uma égua altamente defeituosa. Rapidamente alguns amigos de Pedro o alertaram a respeito da possibilidade do cigano retornar para a devolução da linda égua zaina, assim que viesse a constatar sua manha. Dito e feito. Uma semana depois, veio o cigano montado num cavalo e já trazendo a égua encilhada. Pedro, que já se munira de alguma argumentação, foi logo falando meio grosso que não desfazia negócio feito. O cigano logo interpelou dizendo que não tinha vinda para devolver a água, mas que queria fazer outro grande negócio. - Qual é? - perguntou Pedro. - O cigano então falou: Alugue-me os dois meninos por meio dia, para ver se consigo vender essa égua. É a primeira vez que empaquei num negócio e não consigo vender essa égua bonitona de jeito nenhum. Eu preciso do choro destes dois meninos para ver se consigo convencer algum outro bobo, a fim de que me compre essa égua cheia de medos e de pavores diante de automóveis!

<center>FENÔMENOS CLIMÁTICOS</center>

  Cada vez mais seguidos e intensos, Causam mortes e pavores imensos, E tudo leva a crer que os culpados, São os humanos com atos er...