sábado, 22 de agosto de 2026

CASCALHO E ROCHA

 


O discípulo Pedro no seguimento de Jesus,

Foi interpelado pela pergunta que conduz,

A declaração duma fé sem palavra pronta,

Que nada, a tempos anteriores remonta.

 

Associava-se Deus à firmeza das rochas,

Inabalável bem mais que luz das tochas,

E Pedro, interpelado por Jesus, declarou,

Algo novo, que no senso comum ecoou:

 

Não fez a repetição dos velhos ditos,

Das explicações dos sábios e eruditos,

Mas, des-velou a própria identidade,

Expressou quem era Jesus de verdade.

 

Ao dizer que era o Cristo do Deus vivo,

No reconhecimento do seu agir altivo,

Não falou do pré-dito, mas do sentido,

Que lhe dava razão de um jeito vivido.

 

Não falou a Jesus o escutado de outros,

Mas da sua experiência, não desdoutros,

Pois sentiu Jesus bem acima dos sábios,

E do que proveio de tantos outros lábios.

 

A resposta de Jesus foi muito intrigante:

Tu és Pedro e sobre esta pedra rolante,

Edificarei a Igreja: sobre cascalho frágil,

Vulnerável, roliço, mas, de efeito ágil.

 

Apesar das fragilidades e incoerências,

Pedro viu para além de interferências,

Que o seu valor e a inspiração criativa,

Lhe ofereciam suporte para ação ativa.

 

Pedra como instrumento na edificação,

Vinculado à rocha da nova construção,

Receberia o poder das chaves variadas,

Não para velhas corrupções execradas.

 

Seriam chaves para ser petra de petros,

Mero cascalho de não elitizados cetros,

Para poder de desligar injustiças viciadas,

Abrir portas para perdoar ações erradas.

 

Longe de chaves fechadas para dominar,

E de portas abertas só para procrastinar,

Velho e sedutor uso de poder mandonista,

Não se afigurou naquela petrina resposta.

 

Foi ato de fé de Pedro a pedra fundamental,

Ou deferência a poder de controle ditatorial,

No molde central imperialista de delegação,

Para elevar-se à mais alta e regente função?

 

Se a fé é sinônimo de pedra fundamental,

Não cabe enaltecer poder petrino triunfal,

Divino, de força superior, real e invencível,

Para animar uma convivência tão sofrível?

 

Chaves de ligar e desligar cabem a todos,

Comunidades e indivíduos, com denodos,

Para a construção firme e sólida de vida,

Que acolhe, perdoa para lida enternecida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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