sábado, 2 de junho de 2018

PROCEDÊNCIA DOS ANTIGOS MORADORES DA AMÉRICA




Introdução
            No campo da Antropologia, como nas outras ciências, o conhecimento não é neutro. Quando um antropólogo pesquisa e apresenta informações, ele as organiza de tal forma que possam ser aceitas como científicas.
            Aquele que forneceu as informações – o pesquisado – entra muitas vezes como mero informante. Em tal caso, certamente, não revelará jamais seu mundo simbólico porque não sabe para que fins suas informações venham a ser usadas.
            Há na veiculação do que é tido como antropológico, um desejo de consumo, ou seja, quer-se reproduzir um conjunto de informações, tidas como científicas, para que um programa acadêmico de Antropologia conduza a certo resultado de contenções e repressões.
Permitem-se apenas determinados comportamentos, sejam físicos ou meramente intelectuais, dentro de um quadro de conhecimentos já estabelecido. Deste modo, o que se afirma sobre um conteúdo acaba sendo mais importante do que o próprio conteúdo.
            Bem sabemos que sobre a origem do homem circulam muitas explicações místicas, religiosas, filosóficas e científicas. Atualmente o prisma científico é veiculado como o mais seguro. Entretanto, não possui garantia absoluta para as suas afirmações.
            A afirmação de que o homem procede da matéria inorgânica ou de algum filo animal, ainda não nos deixa tranquilos quanto às questões da origem da vida e os nexos que ela mantém com a não vida.
            Mesmo que se defenda que a matéria equivale à energia, que esta é eterna, porque sempre se potencializa e se atualiza em novas formas de matéria, isto ainda não nos fornece seguras deduções a respeito do aparecimento do gênero humano.
            As muitas analogias que se fazem entre hominídeos e outros primatas acabam não nos dizendo coisas mais seguras do que as afirmações místicas, religiosas e filosóficas. Isto acaba se revelando muito evidente quando se quer saber algo sobre a origem do homem americano, tema que abordaremos em rápidos traços.

1 – O HOMEM AMERICANO
            Não há clara concordância quanto à definição dos que residiram no continente americano antigo. Basta ver que sob o prisma indígena, não cabe a expressão íbero-americano; mas, esta expressão também não é adequada para a nossa identificação atual, porque na maior parte não somos de procedência indígena.
            Até mesmo a palavra “indígena” é expressão criada pelos europeus ao entrarem nas terras americanas, ocupadas por muitos povos. Por isso será oportuno observar algumas configurações peculiares dos que constituem os povos do continente americano.
            Segundo Darcy Ribeiro, há pelo menos quatro configurações no processo civilizatório da América:
a)      Os povos testemunho – são os que aqui residiam antes da entrada dos conquistadores europeus. Resquícios destas manifestações culturais ainda se encontram na Guatemala, no México e no altiplano andino;
b)      Povos novos – são os que resultaram da mestiçagem de etnias e culturas formadas por europeus, indígenas e africanos. Estes surgiram especialmente no Brasil, Venezuela, Colômbia, Paraguai, Chile, Antilhas e parte da América Central.
c)      Povos transplantados – São os que ali se estabeleceram através do processo de migração massiva de europeus. A ilustração mais expressiva desta entrada foi a que se efetuou na Argentina e no Uruguai;
d)      Povos emergentes – são os que resultaram e que ainda resultam da miscigenação das configurações anteriores, sendo que as etnias africanas estão num destacado processo de ascensão.

A respeito do homem americano, temos pelas três últimas configurações, a explicação da maior parte do povo latino-americano. Resta, porém, saber algo a respeito dos que viviam na América em tempos anteriores à entrada invasiva da civilização europeia.

1.1  – A pergunta pela origem

A pergunta pela origem desperta, imediatamente, diversas outras perguntas: o homem americano antigo surgiu aqui no continente americano? Se porventura veio de algum outro lugar, de onde veio, quando veio e como veio para cá?
Ainda outras inquirições se tornam pertinentes: estes antigos ameríndios são de uma única raça, ou provém de muitas raças? Caso tenham sido oriundas de muitas raças, quais são?
Caso nos reportemos à América do Sul – normalmente identificada como América Latina - tal concepção já parte dos que aqui entraram a partir da invasão europeia, pois exclui o mundo anterior à sua entrada e tampouco filiada à raça humana.
Há, contudo, o reconhecimento de que existiram culturas autóctones desde mais de quarenta mil anos atrás e que toda esta variação étnica comportou pelo menos mais de duas mil línguas faladas. Trata-se de uma grande diferença em relação às poucas línguas faladas no continente europeu.
Sob a expressão conceitual de “América Latina” entendemos apenas o que se fez em pouco mais de quinhentos anos sob a hegemonia de europeus.
Já salientamos que o prisma europeu contém somente parte parcial da resposta as respeito da origem do homem americano. Se a pergunta é direcionada a nós mesmos, que em grande parte somos descendentes de europeus sabemos que a origem da maior parte dos atuais cidadãos americanos tem sua ancestralidade na Espanha, na Inglaterra, Portugal, Alemanha, Itália e outros países europeus. Todavia, se perguntamos pela origem dos ameríndios, então a resposta requer tateios mais complexos e que podem ser interpretados de formas distintas.

1.1.1        – Concepções antigas

A síntese filosófica Aristotélico-Tomista alargou a interpretação de monogenismo criacionista a partir de Adão e Eva, sobretudo, levando em conta uma concepção religiosa. Sob este prisma, Arias Montano (em 1571) intuiu uma explicação fácil para justificar a existência de povos na América. Seriam descendentes de SEM, filho de Noé, dos quais nos fala o antigo testamento da Bíblia. Outros ousaram ainda mais  nas deduções, e concluíram que os autóctones deste continente seriam descendentes de judeus.
Gregório Garcia (1607) sustentador desta mesma opinião observava muitas semelhanças relativas à mortal e aos costumes entre judeus e ameríndios. Não faltaram, tampouco, conclusões ainda mais fantasiosas vinculadas ao judaísmo: os ameríndios seriam descendentes das dez tribos de Israel e que se espalharam devido à dispersão que aconteceu no ano de 721 antes de Cristo, pela perseguição dos Assírios.
Da concepção antiga ainda resultou a interpretação de que a origem dos povos americanos estava vinculada ao “Mito de Atlântida”, de Platão, segundo o qual, Atlântida é um continente que desapareceu e, poderiam muito bem os nativos desta terra corresponder aos do continente americano.

1.1.2        – Autoctonismo
A conclusão de que os povos antigos da América tenham nascida aqui mesmo, começou a ser defendida por um importante paleontólogo, F. Ameghino, a partir de 1880. A partir de pesquisas geológicas, paleontológicas e pela arqueologia de ossos encontrados na Argentina, Ameghino formulou a hipótese de que a origem dos povos americanos teria de desencadeada no pampa da Argentina, há cerca de sessenta milhões de anos.
Embora interessante este pressuposto, os estudos das camadas geológicas do pampa argentino, não permitiram ratificar tais deduções. Os poucos ossos encontrados naquela região, sequer permitiram associá-los aos HOMO SAPIENS e menos ainda para afirmar que eram anteriores a este estágio humano das evoluções paleontológicas.
Assim não foi possível aceitar do Homoíndio e do Homo Pampeus, de Ameghino. E como não apareceram outros indícios mais evidentes nos achados arqueológicos para sustentar as hipóteses de que o homem americano tenha surgido aqui no continente americano, ficou descartada a suposição autoctonista e monogenista defendida por Ameghino. A questão permanece aberta para novos dados que comprovem a possível emergência local do homem americano.
Quanto à hipótese de eventual origem de uma única raça, Ales Hrdlica (1917) defendeu que os povos da América teriam surgido da raça asiática dos mongóis. Estes teriam entrado na América através do estreito de Bering, em torno de vinte a vinte e cinco mil anos atrás.
A favor desta suspeita está a efetiva possibilidade de que os mongóis poderiam ter cruzado o espaço do Alaska, separado por apenas 56 milhas (em torno de cem quilômetros) e ainda intermeado por diversas ilhas. A hipótese, no entanto, não se mostra muito plausível de aceitação porque há uma pluralidade de traços étnicos muito distintos nos povos americanos antigos.
Torna-se, por conseguinte, difícil sustentar que todos os povos ameríndios tenham uma única homogeneidade somática. Eventual hipótese de aceitação deste monotipismo dos povos americanos esbarra na constatação de uma grande variedade biológica dos habitantes desta terra.

2         – PROCEDÊNCIA DAS MUITAS RAÇAS AMERÍNDIAS

            Existem diversas teses, não necessariamente excludentes, que deduzem a existência de possíveis correntes migratórias para o povoamento da América antiga. Estas migrações teriam sido efetuadas a partir de diferentes lugares do planeta.
2.1  – Tese de Paul Rivet
             Paul Rivet defendeu que pelo menos quatro raças estão na raiz da formação do homem americano. Supôs que da Ásia poderiam ter chegado mongóis e esquimais, através do Estreito de Behring; ou, através do Oceano Pacífico, também poderiam ter chegado australóides e malaio-polinésios. Esta suposição apresenta plausíveis evidências de aceitação, dado que muitos povos americanos têm características fisionômicas de mongóis.
            Quanto à outra conclusão de Rivet relativa à entrada de australóides, sobretudo na América do Sul estão presentes os traços fisionômicos destas raças. Há, porém, maiores dificuldades para pressupor a vinda de australianos, apesar de terem sido exímios navegadores, pois, é pouco provável que tenham conseguido atravessar o Oceano Pacífico.
            Segundo as conclusões de Rivet, a probabilidade maior é a de que os malaio-polinésios tenham sido os ancestrais mais influentes e expressivos para o surgimento do homem americano. Em todo o continente americano há sinais de similitude entre os que ali residiram com os das raças malaio-polinésias, sobretudo pela estruturação óssea.
            Diversos povos das ilhas do Pacífico – como Fiji, Lealdade, Nova Caledônia, etc. – revelam semelhanças com os povos americanos antigos. Estes povos do Pacífico eram também exímios navegadores e certamente encontraram condições para virem até a América. A distância entre a costa americana e a Polinésia, além de contar com muitas ilhas, apresenta condições favoráveis à navegação devido ao vento e às correntes marítimas.
2.2  – Tese de Mendes Corrêa
            Mendes Corrêa, um antropólogo português levantou a suspeita de que os povos áustralo-tasmanóides tenham se deslocado para o continente americano através do polo sul da Antártica. Imaginou Mendes Correa, em torno de 1925, que, em alguma época teriam existido condições ideais e favoráveis para atravessar o polo sul, com suas muitas ilhas adjacentes. Desta forma, em torno de seis mil anos atrás, poderiam áustralo- tasmanóides ter migrado para a América.
            Quanto às temperaturas do polo norte e sul, há razoáveis suspeitas de que estes lugares tenham passado por grandes alterações climáticas devido às glaciações e seus descongelamentos, como nos dois polos se encontram carvão, fauna e flora, é muito provável que aquele espaço físico tenha sido soterrado pelo gelo, mas, que antes disso, permitiu passagem humana para a América.
Acredita-se, que segundo as pesquisas de J. Haugh. C. S. Pigott e W. Urry, que os polos norte e sul, entre seis e quinze mil anos não tenham tido gelos como hoje. Também foi comprovado que entre oito e nove mil anos antes de Cristo existiam tipos humanos mongóis na Patagônia e na Terra do Fogo.
            Esta tese de Mendes Corrêa é muito interessante e até lógica como hipótese, todavia, carece de dados arqueológicos mais concretos. Como ainda não foram localizados vestígios áustralo-tasmanóides na Antártica, a validação da tese depende do que ainda vai demorar mais um bom tempo, pois, enquanto as altas camadas de gelo não se decompõem, será pouco provável encontrar vestígios confirmadores da possibilidade deste eventual deslocamento da Austrália para a América, para, enfim, confirmar ou descartar a tese de Mendes Corrêa.

2.3     – Tese de Montandon
A tese de Montandon tem alguns pressupostos das teses anteriores, sobretudo no que diz respeito à origem das raças. No entanto, salienta outro caminho pelo qual os polinésios poderiam ter chegado à América.
O caminho teria sido o do Oceano Atlântico, através da ilha de Páscoa. Esta ilha encontra-se praticamente no meio do caminho entre a costa chilena e a Polinésia. A suspeita desta tese é reforçada pelos monumentos encontrados na ilha de Páscoa, e, ao que tudo indica, foram feitos por polinésios.
Na verdade, a suspeita de Montandon é a de que os polinésios teriam escravizado outros povos, entre os quais, os australianos, que teriam sido levados para aquela ilha e de lá estes escravos teriam chegado à América, depois de terem fugido dos polinésios e feito um percurso de três mil e duzentos quilômetros pelo mar, através de diversas ilhas e aportado nas costas do Chile.
Tal como a tese de Mendes Corrêa, esta de Montandon (1933) também carece de recursos comprobatórios.

2.4     – Tese de Imbeloni
            Embora ainda menos provável que as teses anteriores, a tese de Imbeloni defende que a entrada de áustralo-tasmanóides, teria acontecido por via terrestre. Estes povos teriam se deslocado da Ásia e chegado à América através do estreito de Behring.
            Imbeloni supôs a entrada de sete grupos distintos: Tasmanóides, Australóides,  Melanesóides, Protoindonésios, Indonésios, Mongolóides e Esquimais. Depois de terem entrado na América do Norte, teriam se espalhado até a América do Sul. Pode ter acontecido assim, mas a suposição não é muito evidente porque não há quaisquer indícios de provas para confirmá-la.

2.5     – Tese de Heyerdahl
            O norueguês Thor Heyerdahl fez uma viagem de travessia do Pacífico em 1947 com alguns companheiros e, em 111 dias de navegação, - numa jangada – chegou à Polinésia (Ilha de Thuamotu). Com os estudos comparativos que fez nesta viagem, concluiu exatamente o inverso das teses anteriores: não teriam sido os polinésios que teriam chegado à América, mas que os povos da América teriam se deslocado para a Polinésia, Ásia e Oceania. Por conseguinte, os polinésios seriam provenientes da América e da raça caucasóide.
            Como esta tese também não desfruta de elementos científicos fica difícil justifica-la. Entretanto, a travessia do Oceano Pacífico, numa jangada, reforça a possibilidade de aceitação de que povos asiáticos possam ter chegado ao continente americano ou, então, que os americanos tenham aportado na Ásia.

2.6     – Tese de Cotteville-Giraudet
            Entre 1928 e 1933 estes autores veicularam a tese de que a base da formação dos povos indígenas da América antiga, sobretudo os de pele roxa, teriam seus ancestrais na Europa. Seriam da procedência de homens tipo CROMAGNON. Esta tese não vai contra as anteriores, mas lhes acrescenta outra procedência. Segundo este pressuposto, especialmente na América do Norte, os nativos mostram muitas semelhanças com as da mencionada raça europeia. Estes CROMAGNON teriam chegado à América por via marítima, através da Escócia, Islândia, Groenlândia e outras partes.
2.7     – Tese da entrada de Africanos

            Entre as inúmeras possibilidades aventadas a respeito da possível origem do homem americano antigo, foi veiculada também a da procedência africana. Africanos teriam vindo à América, há muitos milhares de anos através da via marítima do Oceano Atlântico, cruzando pelas Ilhas Canárias para chegar à América. Como naquelas Ilhas não foi achado nenhum vestígio que pudesse atestar em favor do cruzamento de africanos para a América em períodos anteriores aos da escravização, esta tese também apresenta pouca possibilidade de sustentação.

CONCLUSÃO
            O que se pode deduzir de todas estas distintas teses? Em primeiro lugar carecem de argumentos científicos comprobatórios. Tampouco parece provável que toda esta variedade étnica espalhada pela América antiga anterior à invasão europeia, seja procedente de uma única origem racial.
            Por outro lado, há fortes indícios de que os mongóis tenham tido condições favoráveis para entrar na América através do Estreito de Behring. Quanto às outras procedências, embora possíveis, estão limitadas pela falta de dados confirmatórios.
Resulta, por fim, muito evidente que a curiosidade em torno da origem do homem americano ainda requer muita novidade para ser delineada devido à quase total carência de recursos arqueológicos. Mesmo assim, tudo leva a crer que tenha acontecido uma migração de diversas procedências.
(Texto publicado na REVISTA FILOSOFAZER, Ano II, n° 2, 1993, pp. 44 – 49)



sexta-feira, 1 de junho de 2018

AS MÚLTIPLAS FACETAS DA AGRESSIVIDADE HUMANA




SINOPSE
            Uma maneira usual de justificar a agressividade humana consiste em alegar que ela ainda está presente na contingência humana devido a um genótipo de etiologia ancestral antiga, sobretudo, biológica, ainda não erradicada na evolução. Sabemos, por outro lado, da vasta influência do ambiente social e cultural para a consecução de atos agressivos e violentos. No entanto, o fator de maior influência certamente está no futuro, ainda não existente, mas, que é antecipado e está muito vivo e atuante através dos desejos que movem os seres humanos. É no campo dos desejos que os rivais se potencializam e praticam atos violentos, porque quando dois indivíduos querem o mesmo objeto, colocam-se em postura frontal, na qual um tenta eliminar o outro do acesso ao bem almejado, seja ele material ou simbólico.
Palavras-chave: Agressividade – violência – origens – contenção – desejos - alvos da agressividade.

INTRODUÇÃO

            A abordagem da agressividade geralmente é vista pela sua consequência, que é a da prática de atos violentos. Todos os seres humanos são agressivos por natureza. É uma característica inata, mas, pode ser estimulada e insinuada por múltiplos meios e formas, especialmente, por influências culturais.
            As regras de limites para convivência – até para evitar que os seres humanos se destruam a si mesmos, - geralmente intimidam, ou com outras agressividades, como as do campo jurídico, ou com apelações a castigos que Deus poderá imputar.
            A aceitação mais ou menos resignada, tanto das sanções judiciárias como as exigências presumidamente atribuídas a Deus, para que faça justiça no lugar da vítima, e, em defesa da vítima, pode produzir certa estabilidade para que os seres humanos se suportem pelo menos razoavelmente entre si, sem se eliminarem de formas primárias e estúpidas.
            Mesmo assim, há um patamar de agressividade que é considerado normal. Existe, todavia, uma agressividade que é considerada patológica ou doentia.
             A agressividade do patamar normal engloba as maneiras e táticas agressivas, não apenas físicas, mas também as de persuasão e de constrangimento para o alcance de objetivos, pessoais ou grupais, e que tem em vista firmar o nome e a identidade para distinguir uma pessoa ou um grupo no meio coletivo, ou, então, para insinuar mudanças pretendidas.
             Desta forma, é considerado normal que alguém explicite raiva, ódio, ou tratamento sádico ou invejoso e irônico, enquanto este tratamento se desencadeia dentro de limites suportáveis e por períodos não muito prolongados.
            A agressividade patológica, por sua vez, leva a pessoa à própria destruição, ou, a atentar contra outros indivíduos, numa intensidade inadequada diante dos motivos da circunstância. Também pode manifestar-se em sintomas não meramente físicos, como frieza, insensibilidade e inexistência de sentimentos de culpabilidade diante de atos agressivos ou violentos.
            Por conseguinte, manifestam-se muitos níveis de agressividade, que geralmente decorrem de experiências agressivas sofridas anteriormente; de frustrações diante da busca de alcance de desejos; da impunidade reinante em certos ambientes; da desconsideração da identidade e dos valores simbólicos de uma pessoa ou de grupos humanos, bem como a promoção de emulações competitivas em jogos e passatempos. Outro fator é o da prepotência autoritária exercida por alguém.
            Nem sempre é fácil conter as impulsividades agressivas e explicitá-las de forma moderada e dosada para não culminar em violências maiores. Mas, a vida certamente indica que é fundamentalmente necessário aprender a perder, sem cultivar motivações agressivas de revide e que possam desencadear em atos violentos. Para uma razoável convivência certamente não é eficiente o jargão de largo uso: “Falo o que penso e sou assim mesmo. Caso alguém não goste, o problema é seu!”.


1 – AGRESSIVIDADE PELO LADO POSITIVO

         A agressividade se mescla em grande quantidade de comportamentos humanos. Nem tudo é interpretado como nocivo e prejudicial no campo da agressividade, porque muitos impulsos agressivos levam a lidar com riscos e adversidades naturais e a trabalhar com vistas a adequar ambientes e a qualidade de vida. Sob este aspecto, a agressividade produz uma energia dinâmica e útil ao ser humano.
            Um olhar retrospectivo sobre o passado humano leva a deduzir que a agressividade humana foi fator de sobrevivência entre outros animais e diante das ameaças de grupos rivais. Assim, a chamada “garra” humana permitiu a hegemonia dos seres humanos sobre os outros animais do planeta.
            Do ponto de vista filogenético, pairam muitas dúvidas relativas ao entendimento da evolução humana e da permanência de traços agressivos que, supostamente, já deveriam ter desaparecido em passado distante. Ocorre até uma indignação com a eclosão de atos violentos em nossos dias, a revelar manifestações agressivas descabidas de seres humanos contra outros humanos.
            São muito variados os tipos de agressividade. Entre os animais, por exemplo, destaca-se mais a agressividade predatória que os leva a matar para comer. Mesmo em disputas por fêmeas e controle de grupos, o normal é que o vencedor não mate o derrotado, mas, força-o à submissão.
            Mesmo animais de vivência grupal, como elefantes, macacos e ratos, tendem a produzir brigas feias e acirradas, geralmente motivadas por disputas de fêmeas por machos ou de machos por fêmeas. Existe nos animais outro tipo de agressividade em torno da possibilidade de exercer a dominação do grupo, tal como acontece com ratos.
            Nos seres humanos, a capacidade agressiva não só leva a matar por motivo fútil, mas, é tão cruel que ignora qualquer apelo ou súplica em favor da sobrevivência. Tal característica leva a supor que se trate de uma característica mais cultural do que meramente biológica.
             Enquanto que nos animais a evidência de agressividade se relaciona mais com o aparecimento de rivais e desencadeia reações de raiva, nos humanos, caberia esperar maior capacidade de controle das emoções que possam induzir a atos que prejudiquem a vida alheia, mas, precisamente entre humanos a violência se aguça por fatores muito variados.
            Isto leva a crer que existe uma predisposição genética que leva os humanos a atos agressivos. O que se sabe e facilmente se observa é que tais reações dependem essencialmente dos ambientes culturais.
            Margateth Mead chegou a estudar três sociedades africanas com a intenção de verificar se homens eram mais agressivos do que mulheres: numa, constatou que tanto homens quanto mulheres eram agressivos; em outra, constatou extrema docilidade dos dois lados, e, já numa terceira, as mulheres eram mais agressivas do que os homens. Isto reforça a suposição de que os padrões da agressividade são ditados por ambientes culturais.
            A observação dos entornos vivenciais permite verificar o quanto as pessoas se zangam por picuinhas, por pequenos insultos e agressões motivadas por razões banais e muito pequenas, sobretudo as procedentes da linguagem não verbal.


2 – A AGRESSIVIDADE PELO LADO NEGATIVO


            Um ato agressivo se torna prejudicial à boa convivência humana quando prejudica e lesa alguém de forma intencional. Pode uma agressão ser de sutil a camuflada e de enganosa a aberta e declarada.
            Bem sabemos que há formas agressivas sob as mentiras que violentam outras pessoas por falsear algo, tanto para evitar o enfrentamento de uma situação real quanto de clara motivação para prejudicar outra pessoa.
            Ocorrem também níveis de agressão no cultivo de sentimentos punitivos de pessoas contra si mesmas, porque levam certas pessoas a se colocarem de vítimas , prejudicadas ou injustiçadas como mera fuga da responsabilidade. Trata-se na verdade, de uma busca de ser forte por meio da apelação à fraqueza, mas, que agride de maneira encoberta.
            Outra forma de agressividade prejudicial é a da prepotência que induz outras pessoas à vergonha e à minimização da sua identidade. É uma indireta afirmação sobre estas pessoas. Por isso, o “passar por cima” delas constitui também um ato de intensa agressividade.
            Uma maneira mais sutil e irônica de agredir é a da gozação, que leva a bajular com clara intenção de denegrir a imagem alheia a fim de afirmar numa condição superior. Pode também o superdimensionamento da qualidade alheia constituir manipulação para interesses de controle.
            Mais uma forma que agride é a de simplesmente desligar-se e não importar-se com uma pessoa ou com um ambiente social do entorno. É o que tanto se observa quando alguém simplesmente vira a cabeça para outro rumo e se “desliga” do assunto em pauta.

2.1 - Componentes que mais predispõem para a agressividade

            Tanto quanto as sutilezas das formas de agredir, os atos agressivos podem depender igualmente de fatores topográficos, tais como cuspir, morder, chutar o ar ou estapear, ou uso de gestos obscenos e provocativos.
            Entram no contexto da agressividade fatores antecedentes e remotos, tais como frustrações, raivas e cóleras.
            Não resta dúvida de que o ambiente social constitui outro grande fator de estímulo para causar dano ou prejuízo a outras pessoas.
            O cultivo da intencionalidade de causar dano a alguém também desencadeia razões múltiplas para atos agressivos, através de gestos, zombarias, fofocas, produção de clima de aversão, até atos de agressão física ou psíquica.
            Certamente não causa surpresa a afirmação de que os seres humanos são agressivos mais do que as outras espécies animais, mas, o que varia muito são as formas de exteriorização da agressividade, que podem ser de verbais a veladas, de provocações para confronto, de ordens para matar ou de criação de episódios que induzam a comportamentos agressivos.
            A estimulação aversiva constitui outro componente disseminador de atos agressivos. Também o ensinamento de modelos agressivos (como brigar, como intimidar, como matar, como torturar psiquicamente e como a forçar mudanças abruptas de emoção) constituem fatores que aumentam a agressividade.
            Muitos atos agressivos constituem resposta a tratamentos agressivos, tais como os do pai que bate no filho, porque este foi agressivo. Assim, um procedimento leva facilmente algozes a se tornarem vítimas das vítimas de suas agressões.
            Em nossos dias o empreendedorismo constitui-se em outra grande fonte de agressividade. Visto como arma de sucesso, o empreendedorismo leva a múltiplas formas de agressão, pois, alguém, para obter alcance do sucesso, precisa superar outros e facilmente apela a formas desleais e contrárias às regras éticas.

2.2 - Tipos de agressividade

            Bem sabemos que atos agressivos verbais – que são as mais comuns – nem sempre são os que mais induzem a atos de violência. A violência indireta, chamada de estrutural, tende a agredir, mas simultaneamente, tende a esconder o responsável por desencadear os atos agressivos. É o que ocorre com sistemas sociais e econômicos que podem efetuar má e injusta distribuição dos recursos além de tratamentos desiguais entre os agregados ao grupo social.
            Ao lado desta agressividade sutil, encontra-se também a agressividade cultural, ainda mais sutil e sofisticada, porque provém da esfera simbólica e das praxes de grupos humanos que se elitizam e se asseguram no direito avantajado sobre os demais. A maneira de exteriorizar esta agressividade geralmente ocorre por meio da arte, da religião, da linguagem, das ideologias e até por presumidas sustentações científicas (afirmações não comprováveis).
            Outra fonte estável e duradoura de sentimentos agressivos decorre do nível simbólico, especialmente quando fere a identidade, a ancestralidade e a etnia racial, bem como direcionados ao grupo de pertença e à procedência cultural.
            Se heranças passadas, ou a persistência de traços muito antigos, sejam biológicos ou de influências culturais, deixam certa predisposição para o exercício da agressividade, o componente mais determinante é o dos desejos.
            Os desejos humanos, talvez mais do que a ancestralidade antiga e remota, tornam-se a maior fonte da agressividade. O simples fato de duas pessoas almejarem um mesmo objeto os situa como rivais, porque um vai querer eliminar o outro do acesso ao objeto.
            Este campo torna-se especialmente minado porque a moderna publicidade estimula os desejos ao infinito e faz imensidões humanas sonharem com o que não é acessível a todos, o que, evidentemente, acarreta disputa.
            Além desta indução há também uma produção de extratos para o alcance dos bens simbólicos, de modos que alguns são elevados a patamares muito distintos sobre outros. Basta lembrar o quanto alguns cursos universitários desfrutam de reputação, enquanto outros são considerados inferiores.
            O simples fato de sermos seres profundamente movidos por desejos, - e este é um traço estruturante básico do ser humano, porque não conseguimos não desejar, - a maior parte destes desejos gira em torno da imitação. Uma criança oferece rica ilustração do intenso desejo de imitar. Ela quer ter o que a outra possui. Mais do que aquilo que tem para brincar, ela deseja o que visualiza com as outras crianças. Bem sabemos o que então se desenrola.
            Quando, aos desejos ainda se agrega estratificação de status simbólico, desencadeia-se verdadeira guerra de estimulação para a aquisição dos bens mais elevados. Basta pensar no valor simbólico atribuído ao ouro em relação ao ferro. Na busca do mais significativo briga-se, eliminam-se concorrentes, criam-se seletividades de categorias sociais e, por isso, uma contínua alimentação de atos agressivos capazes de produzir violência.


3 – MANIFESTAÇÕES DE VIOLÊNCIA

            Já salientamos que a conduta humana está impregnada de características agressivas e que grande parte depende do entorno, ou, dos ambientes humanos agressivos.
            Quanto à violência, que decorre da agressividade, ela pode ser cultivada e ampliada no psiquismo humano, mas também, de acordo com orientações educacionais e religiosas. Assim, alguém vítima de violências cruéis não se torna necessariamente pessoa violenta. Pode, pelo contrário, tornar-se eficaz para que se evitem quaisquer práticas violentas.
            Na dimensão cultural, ocorre uma tentação contínua e constante na história humana de efetuar separação de bons e maus; quando, na verdade, a pessoa boa também pratica atos violentos, assim como pessoa má pode efetuar procedimentos genuinamente bons. O bem e o mal se misturam no mesmo núcleo das relações humanas. Todavia, ocorre um deslocamento que facilmente leva a projetar sobre alguém, - estabelecido como causa dos males e da violência, - a fim de que seja eliminado ou excluído, e, permita que se estabeleça um tempo novo de ordem e de paz. É o conhecido fenômeno do “Bode Expiatório”.
            Como existe o mecanismo da defesa e o procedimento de se considerar parte da manifestação boa e segregada com os melhores traços humanos, a violência que ali se desenvolve, tende a ser atribuída a alguém – membro ou alheio ao grupo, que acaba transformado em “Bode Expiatório” - e que é sacrificado em nome do bem estar geral.
            Culpa-se alguém e elimina-se este alguém com a pressuposição de que todo mal que esta pessoa teria causado, será, finalmente, extirpado do ambiente social, para que se possa recomeçar um tempo novo. O curioso é que o ato que visa uma eliminação da maldade reproduz o ciclo dos atos de violência e é efetuado com outra violência similar e, muitas vezes, mais cruel.
            O que os fatos evidenciam de forma incontestável, é que a eliminação dos “bodes expiatórios” nunca eliminou a violência, mas, continuou a despertá-la através das reações às violências praticadas. Certamente, tal mecanismo é mais profundo do que a herança da concepção maniqueísta, - que tende a separar bem e mal, - como se fossem polos distintos e antagônicos.
             Um indivíduo ruim tende a ser fruto de um ambiente ruim, apesar da tentação de interpretá-lo como não sendo membro de um ambiente, considerado bom. A propensão humana para a consecução de atos violentos, certamente é inata, mas, sujeita e suscetível de ser controlada e conduzida no parâmetro das formas toleráveis para uma convivência.
            A violência em torno dos “bodes expiatórios”, infelizmente, é muito explicitada pela religião. Segundo René Girard, mesmo que Deus seja uma evidência clara por si mesma, há uma tendência de personaliza-lo dentro de concepções do sagrado e, sob o sagrado, pode manifestar-se violência mimetizada, mas, constrangedora, repentina, e terrível contra outras pessoas membros de uma comunidade religiosa ou, de outra entidade religiosa.
            A motivação do mimetismo, que leva à imitação dos outros, faz com que pessoas que escolheram um mesmo objeto, a entrar disputa competitiva entre si pela posse daquele objeto, ou, então, pelo alcance de um bem simbólico almejado como superior.
            Se a imitação, por natureza, tenderia a unir, ela, no entanto, e paradoxalmente, acaba levando à desunião e a rupturas. Para o acima referido autor, é o desejo mimético a primeira forma humana institucionalizada de vingança e de descarga da vingança, mesmo em nome de Deus, pois, a agressividade é descarregada contra uma vítima para produzir um efeito catártico.
            Assim, também na religião, há presença de manifestações violentas, mas, geralmente ritualizadas diante da morte produzida (na vítima visada) e com o desejo de que a eficácia da morte renove os mesmos efeitos de paz e serenidade.
            Enquanto os outros animais tendem a valer-se de uma violência mais predatória de matar para comer, os seres humanos tendem a praticar violência sem dó e sem piedade e insensíveis a quaisquer apelos em favor da conservação da vida. Matam para eliminar até por razões literalmente desnecessárias.
             Se entre animais o risco de violência mortal é efetuada pela presença de rivais; os humanos podem acumular raiva e desencadear atos violentos por razões muito mais culturais do que biológicas.

3.1 – A paixão pela violência

           
            Tantas vezes ouve-se a fala, a repetição e a demonstração de indignação profunda diante de atos violentos, e a pergunta que não deixa de aflorar e retornar nas mentes, sempre volta a ser a mesma: quando, afinal, vai cessar a violência entre os seres humanos?
            Um relato muito antigo da mitologia grega indica uma condição fundamental para reproduzir atos de violência: conta a referida narrativa que entre os deuses do Olimpo ocorreu, num certo momento, um sorteio para que cada deus e cada deusa pudessem escolher uma virtude que mais se aproximasse da sua identidade.
             Como a deusa Marte ficou por último, teve que conformar-se com o que sobrou para identificar seu perfil, e já sem a possibilidade de escolher, teve que ajeitar-se com a violência.
            Embora resignada, acabou se acertando tão bem com a violência e foi paulatinamente desenvolvendo uma paixão profunda pela nova e encantadora fonte de sucesso. Sem demora, surgiram chamuscadas intrigas com Marte, e, para evitar uma morte iminente, Zeus teve que intervir energicamente na briga entre Marte – a deusa da violência - e Plutão – o deus da falsidade e dos infernos.
            Plutão, muito enciumado, ao constatar que a simpatia em torno da deusa Marte crescia espantosamente, enquanto ele ia perdendo, na mesma proporção, o costumeiro afluxo de adesão e que o promovia no status que o identificava. Passando das encrencas e cruzando pelas brigas e guerras frias, acabaram nas vias da medição de forças.
            Marte, como já era a deusa da violência, estava com a espada afiada apontada para perfurar a barriga de Plutão e, então, Zeus decretou uma ordem severa e categórica a fim de assegurar convivência tolerável dos deuses no Olimpo: se alguém morresse em briga ou disputa decorrente de ódios, falsidades e de guerras, seria rebaixado aos baixos infernos de Plutão; mas, caso alguém fosse morto sem razão de ódios, ou, em decorrência do empenho de promover justiça e bom entendimento, este ficaria promovido a permanecer no reino da luz.
            Assim, temos, ainda hoje, regras civis e religiosas que tentam coibir a violência e assegurar que a condição humana não seja extinta em decorrência da sua própria agressividade e violência.
            A paixão, cultivada e insinuada por tantos mecanismos, constitui certamente a maior escola de estimulação a comportamentos violentos. Ao lado disso, acrescenta-se o êxito obtido porque se torna fator de confirmação do alcance de metas e objetivos para persistência em atos violentos.

3.2– Violência: herança ou antecipação do futuro?

            Pela ótica psicanalítica a violência poderia ser relacionada ao sentimento de culpa, geralmente interiorizado a partir agressividades e procedimentos violentos anteriores.
            Hoje, tende-se a ver que há uma tendência a atribuir mais peso à cultura, porque é ela quem produz mecanismos tanto para estimular a violência, quanto para contê-la ou coibi-la. Sobretudo na religião, ocorre uma tentação de explorar a culpa, o temor e toda a capacidade de evitar violência mediante a apresentação de uma realidade compensadora: seria agraciado pelo consolo de amparo ou de graças e bênçãos divinas.
             Segundo Freud, o papel da religião seria, neste caso, bem restrito e próximo da ilusão, pois, a oferta de satisfações substitutivas ajudaria a tornar a vida mais suportável diante das cargas impulsivas que induzem a atos violentos ou que produzem sofrimentos humanos. No entanto, sabemos que a religião está impregnada de elementos culturais, mas não está apenas restrita à cultura.
            Como a religião está estreitamente vinculada ao sentido da vida, ela, em princípio, remete a esta objetivação. Dentro deste horizonte do sentido também se pode constatar que a violência humana não é apenas uma carga filogenética e biológica muito antiga, herdada e determinante de muitas violências no presente, sabe-se que o ser humano também depende essencialmente do que antevê para o futuro. Ainda não existente, o futuro, pensado, desejado e anelado, motiva o presente tanto quanto ou muito mais do que as marcas da carga de predisposição agressiva advinda do passado.
            O passado, de fato, está presente de forma complexa no presente, mas, a vida humana depende muito mais do âmbito dos desejos do que das determinações do passado.
            A condição de dar um significado, bom ou ruim ao passado, decorre sempre do olhar do presente, voltado para uma interpretação do que passou, seja para entendê-lo, ou para captar possíveis traços que ajudem a entender o presente. Talvez mais do que o passado é o futuro quem dá sentido ao presente, porque a maior parte do presente está relacionada ao que se espera do horizonte futuro.
            Situados nesta dupla dimensão de memória e desejo, - ou de passado e projetos de futuro, - tende-se a sentir que a propulsão central da vida está mais para o futuro do que para o passado.
            Se uma expectativa de amor ou de algo edificante ocupa os desejos, o efeito prático imediato, com certeza, não será o de antever confronto, guerra e ruptura de pactos, alianças e projetos, pois, a imaginação, mesclada com esperança de níveis mais elevados e satisfatórios de convivência, distante dos atos violentos, constitui, com certeza, fator essencial para educar em vista de convivência ordeira e respeitosa.
            Se para Marx, Freud e Nietzsche a religião foi vista como mero meio de desviar opressão, ódio e desejos inconscientes, ela, no entanto, também pode ser assimilada como manifestação autêntica da expectativa de um Deus que quer algo mais do humano religioso do que despistar ódios e agressividades.

3.4 – A violência da sociedade de consumo

            Ao fazer-se a assimilação da felicidade humana com a capacidade de consumir bens, tanto simbólicos ou materiais, a tática sutil para que o consumismo desperta perspectivas ilimitadas de felicidade. E para tanto precisa oferecer constantes novidades de outros novos bens de consumo ainda mais satisfatórios. Todavia a novidade agrega um componente perverso: o do descarte de tudo, de objetos e também de pessoas. Tudo está condenado ao determinismo fatal do lixo.
            No entanto, como a obsessão pela novidade também vira certeza de descarte do ser humano, produz um sinistro ar de provisoriedade. Qualquer pessoa, como os objetos, é fadada a subsumir no caos do lixo.
             Assim, como a memória rapidamente subleva ao esquecimento a emoção prazerosa em torno do objeto adquirido como bem valioso, a pertença a grupos humanos familiares ou à circularidade dos similares, passa a depender de um status que implica em violência extraordinária, contra a saúde, contra a capacidade lúdica e tantas outras dimensões humanas, porque o poder da afirmação humana reside unicamente no poder de adquirir. Por isso, tanta violência e tantos meios ilícitos para o alargamento do poder de aquisição.
            A produção da insatisfação constante e continuada leva a incontáveis exageros agressivos com vistas a encontrar reconhecimento para não acabar no “xeol” do lixo. A cultura, na sua constante produção e inovação de bens simbólicos produz esta verdadeira guerra que faz um ser humano tornar-se rival automático do outro, movido na mesma luta pelo acesso aos bens de consumo, mas, que estão absolutamente muito distantes do alcance de todos. Assim a violência se alarga desde o acesso à comida até os bens simbólicos, disputados a unhas e dentes e as múltiplas armas letais para vencer os outros.

3.5 - Como diminuir as compulsividades agressivas?

            Muitos já aprenderam em seus ambientes familiares o velho ditado de “pensar três vezes antes de agir”, especialmente para retardar as impulsividades de agressão; outro elemento importante, muito vivo no senso comum, é o de cultivar o silêncio e a auto-estima para dominar os mecanismos de reação agressiva primária.
            Além destes aspectos valiosos torna-se também eficaz, contra atos agressivos descontrolados, o aprendizado e cultivo do controle das emoções. Os estímulos à empatia, especialmente quando há educação para colocar-se no lugar da outra pessoa a quem se quer agredir, são extremamente valiosos para evitar atos agressivos. Também a capacidade de evitar muitos atos coercitivos sobre os outros permite evitar ser afrontado por atos que causam ira ou raiva incontida.
            Quando se trata de desavenças que podem levar a atos violentes, sempre é bom evitar a confrontação pública porque o fator estimulante do embate tende a não se comprometer com uma solução.
            Elogios de comportamentos adequados certamente constituem outro bom elemento a ser cultivado para não incidir em ambientes hostis ou de afronta.
            Mesmo que atos agressivos não sejam totalmente evitáveis, convém educação para que tais atos não ultrapassem níveis toleráveis e que não se enquadrem na lei do mais forte sobre o mais fraco.
            Assim, as propensões para agir e responder de forma violenta, mesmo envolvendo cenas de agressões verbais ou físicas de tapas numa clara extrapolação das boas maneiras de convivência, não chegarão à deprimente situação de um ser humano eliminar seu similar, por razões insignificantes, e, numa evidente afronta às mais elementares regras dos direitos básicos e fundamentais dos cidadãos.
           

BIBLIOGRAFIA
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RODRIGUES, Maria Ester. Agressividade: sujeitos agressivos ou circunstâncias que produzem agressão? In: https://www.comportese.com/2012/04/agressividade-sujeitos-agressivos-ou-circunstâncias-que-produzem-agressão - Acessado dia  25/05/2018.
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STORR, Antony.  A agressividade humana. São Paulo: Benvirá, 2012.





quarta-feira, 23 de maio de 2018

ATOS VIOLENTOS




Ao lado da farta amabilidade,
Vicejam em larga saciedade,
Gestos agressivos e ferozes,
A culminar nos atos atrozes.

O prazer sádico da violência,
Veiculado sob a irreverência,
É o atestado bem ilustrativo,
De um potencial destrutivo.

Mais do que feras e panteras,
Os humanos em sutis esferas,
Revelam-se violentos e cruéis,
E ferem em múltiplos vergéis.

Causam danos físicos variados,
E estragam objetos e derivados,
Somente para ferir e prejudicar,
Sem oferecer algo para edificar.

Na estrutura social constituída,
Eclode a violência empedernida,
Que nas regras sócio-econômicas,
Fulmina pelas  ações ideológicas.

Também uma ciência presunçosa,
Ao lado de arte e crença religiosa,
Pode exercer uma tirania violenta,
Que nem o aliado capeta aguenta.

Na arma muito letal da violência,
Mira-se o simbólico da vivência,
Para ferir identidade e pertença,
E denegrir com diabólica ofensa.


































<center>PROCEDÊNCIA DOS ANTIGOS MORADORES DA AMÉRICA</center>

Introdução             No campo da Antropologia, como nas outras ciências, o conhecimento não é neutro. Quando um antropólogo pesqui...